terça-feira, 11 de abril de 2017

Leituras: Modo de combater no país e lições da campanha de 1816-1817 (SargMor Francisco de Paula Leal, 1817)


Francisco de Paula Leal
Divertimentos Militares
Rio de Janeiro, Imprensa Americana, 1837.
Nos annos de 1815 e 1817, Quando era Sargento Mór graduado no Regimento de Dragões da Provincia do Rio-Grande do Sul.

Ficheiro pdf com o livro completo disponível 
na Biblioteca Digital do Senado Federal aqui


O Autor
Francisco de Paula Leal, natural do Rio de Janeiro e bacharel de Matemática, era sargento-mor graduado do Regimento de Dragões do Rio Grande de São Pedro em 1816 e 1817, tendo depois transitado a lente substituto de Matemática na Academia Nacional e Imperial de Guardas Marinhas. A certa altura, até 1837, terá transitado à Imperial Marinha, com a patente de capitão de fragata.

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Vila do Rio Pardo, RS (wikicommons)

A Disciplina Militar prestante, 
Não se ensina, Senhor, na fantasia, 
Sonhando, imaginando ou estudando
Senão vendo, tratando e pelejando. 
(Luís de Camões)


Acerca da obra
Estas observações foram escritas em setembro de 1817, e são publicadas 20 anos depois. Não sendo memórias narrativas no sentido clássico, este texto manifesta-se claramente como uma peça memorialista, legando-nos a perspetiva pessoal de quem testemunhou os eventos.
Este livro permite-nos uma visão aproximada de como era organizado o regimento de Dragões entre 1815 e 1817, assim como eram armados, equipados e treinados os seus efetivos. É uma fonte inescapável, para quem queira saber mais sobre as guerras do sul do Brasil, principalmente as que decorreram há 200 anos.

O livro contém apenas 4 documentos, um escrito em 1815 e os outros dois em 1817. O primeiro (pp. 9-40) é o conjunto de regras da 4.ª companhia, que Leal comandava à altura,, aquartelada então na vila do Rio Pardo. O segundo documento (pp. 41-65)  trata “de hum plano para o estabelecimento da boa harmonia entre todos os indivíduos de hum Regimento qualquer”, em que o autor analisa o papel de cada membro do regimento. Ficamos aqui a saber, por exemplo que o oficial é o ‘arrimo’ do soldado, no sentido em que guia pela exemplo, e o sargento é o ‘verdugo’ do soldado, no sentido em que o conduz à plena disciplina militar. O terceiro (pp. 67-82) é uma proposta de composição do regimento, assim como observações acerca do equipamento e fardamento do regimento. Por último, o quarto documento (pp.83-101, fim), dá “as lições competentes para o ensino do  sobredito Regimento”, incluindo o período de tempo em que as diversas partes da instrução devem ocorrer.

Após listar e descrever um conjunto de instruções para o treino do regimento, no que diz mais diretamente respeito ao que um cavalariano necessita de saber para as operações na América, o autor desculpa-se do que considera a abordagem de poucas competências (ainda que as apropriadas, como refiro antes, às operações militares), fazendo uma breve análise sobre o teatro de operações brasileiro face ao europeu, que considera mais clássico e técnico.

Ao fazer estas observações, Francisco de Paula Leal lega à posteridade uma observação técnico-profissional das táticas utilizadas tanto do lado português, como do oriental. Mantenho a ortografia original de 1837.

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TRANSCRIÇÃO 
(Modo de combater no país e lições da campanha de 1816-1817), escrito em Setembro de 1817, no Passo de S. Maria [pp. 99-100]

187. A Guerra n'este Paiz varía muito, e he por isso que com a experiencia de oito anno propuz sómente as evoluções acima referidas, como as mais utéis e precisas no Paiz para disciplinar o soldado; pois que as grandes manobras devem fazer-se conforme as circunstancias, ainda que com os inimigos actuaes nenhumas são precisas, e basta só ter constancia para lhes resistir ao seu primeiro impulso que he forte  (pois tem algumas vezes chegado a numa bela hora, como succedeo em Catalam, na acção a que assistio o Exm. Marquez de Alegrete; em Carumbé, na acção commandada pelo Brigadeiro Joaquim de Oliveira Alvares; nos Potreiros de Arapehy, acção commandada pelo célebre  Tenente Coronel José de Abreo,  &c.), e resolução para cahir sobre elles, quasi desordenadamente, debandando muitas vezes, porêm sempre com alguma  porção de gente reunida, para não acontecer morrerem tantos soldados, como até aqui tem succedido. 

188. Quasi em toda  a Europa, tenho ouvido dizer e tenho lido que a ponta da baioneta he quem costuma decidir as acções, ou quem faz apparecer a victoria, começando as  cavallarias as suas escaramuças, ganhando posições vantajosas, &c. 

189. N'este Paiz succede ao contrario (conforme tenho observado nas acções da presente campanha, a que tenh0 assistido);  não se trata de ganhar posições, e só sim se trata de decidir a acção, á espada e tiros ele pistola, pelas cavallarias que he a força maior do Paiz;  fazem-se enganos á vista do inimigo (ou como se costuma aqui dizer, negacêa-se o inimigo);  fazem-se-lhe emboscadas  para ou apanhar de surpreza o inimigo, ou para surprender-lhe as cavalhadas e gados de municio, roubando-lhas, afim  de os enfraquecer, deixando-os a pé, se for possivel, para então  cahir sobre elles com áfoiteza, que se entregão logo todos  prisioneiros sem resistencia;  pois que,  se se avistão no campo duas linhas, o que se trata  he chegarem-se huma a outra (ao que os Hespanhoes chamao entreverár), e ou vencerem ou morrerem: a que fôr mais forte vence de certo a outra. Finalmente, na Guerra da Europa mata-se e morre-se com ordem; aqui, ao contrario, quasi que se pode dizer, mata-se e morre-se em desordem.

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