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quinta-feira, 14 de março de 2019

Batalha de S. Borja: A primeira notícia


Junto apresento a transcrição de um excerto de correspondência onde é apresentada a primeiríssima notícia da batalha de S. Borja, dada por Hipólito Francisco de Paula ao tenente general Joaquim Xavier Curado, que a comunica desde logo ao marquês de Alegrete, em Porto Alegre.

Apenas 6 dias após a batalha ela mesma (ocorrida a 3 de Outubro, leia mais), verifica-se pela narração de Hipólito Francisco de Paula que este se terá apartado da coluna de José de Abreu por volta desse mesmo dia ou no dia seguinte, de forma a cumprir os cerca de 175 km de distância entre S. Borja e o acampamento do rio Ibirapuitã, onde o grosso do exército da Capitania do Rio Grande estava. Os eventos descritos referem-se exclusivamente ao dia 3 de Outubro, parecendo claro que este primeiro mensageiro não assistiu aos eventos que ainda decorreram nos dois dias seguintes à batalha.

«Suposto que não tive parte oficioza do Tenente Coronel Jozé de Abreo sobre o rezultado da diligencia de Missoens, com tudo chega agora Hipolito Francisco de Paula, paizano que se offereceu voluntario para o ataque dos Insurgentes no Distrito de Missoens, dizendo me, que o referido Tenente Coronel Abreo o mandava incumbido da obrigação de dar-me parte vocal do rezultado do ataque, prencipiando no dia trez, the o dia cinco do Corrente, por não lhe ser possivel escrever-me no barulho da acção, remetendo-me com antecipação todos os papeis que forão achados a André Artigas, Comandante da acção, que se escapou.
Este homem enviado narra o seguinte:

= Que no dia tres do Corrente chegou a Coluna comandada pelo Tenente Coronel José de Abreo ás dés Óras da manhãa em frente ao Passo de São Borja, que se achava com quatorze dias de Citio apertado: que logo que o Enemigo avistou a nossa coluna, sahio a encontrar-la, e emboscando-se em hum laranjal atacou-a furiozamente; porem sem efeito por que a nossa Tropa depois de huma Óra de fogo atacou com a espada na mão e destrosando inteiramente // os Enemigos, lhes tomou duas Pessas de Artelharia, e grande quantidades de armamentos: que aquelles que escaparão deste primeiro encontro correrão precipitadamente ao Passo do Uruguay, onde forão novamente atacados, e mortos quase todos, e alguns passarão o banhado de Santa Luzia, e ficarão com a retirada cortada; por que o Butuy, e o Uruguay estando muito cheios lhes prohibe a passagem: e que o tenente coronel comandante hia atacalos; para acabar com o resto dos insurgentes: que se avalia o numero dos mortos dos enemigos em mil homens, quaze todos indios, e mestiços, dous negros, e hum branco, e muitos prizioneiros; e entres estes alguns dos nossos indios, que se tinhão revoltado, sendo o chefe destes o indio João da Cruz; e que outro indio Chará se distinguio muito a favor da nossa cauza: que a nossa perda concistio em sete homens mortos, destes cinco milicianos, e dous da Legião de São Paulo, e doze ou quatorze feridos: que os enemigos tinhão já proximo o reforço pelo o Uruguay, distinado pelo o Artigas, e que já se achava no Passo pronto a desembarcar; porem que o destrosso geral dos Citiantes o brigou a // a retirar-se precepitadamente, sendo perseguido pelos nossos, que meterão a pique huma canoa carregada de tropa; e que os outros Barcos se retirarão pelo o Uruguay abaixo.

Logo que receba a partecipação oficioza do Tenente Coronel Jozé d'Abreo, terei a onra de levar á prezença de V. Ex.ª.»


Fonte
Carta do tenente general Joaquim Xavier Curado ao capitão general Marquês de Alegrete, 9 de Outubro de 1816, in: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

* * * 

Nota Biográfica
Hipolito Francisco de Paula – Natural do Paraná, e referido em algumas fontes como tenente, terá sido em 1814 o primeiro povoador do Rincão de São Miguel, obtendo a Sesmaria de São Jerônimo, local onde foi criada a fazenda do Pinhal.

* * *

Saiba mais sobre a Batalha de S. Borja e as ações da coluna do tenente coronel José de Abreu em:

Batalha de São Borja (3 de Outubro de 1816)

Ação do Passo de Yapeyú (21 de setembro de 1816)



segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Exército do Brasil: Diogo Arouche de Moraes Lara


O capitão graduado Diogo Arouche de Moraes Lara nasceu em S. Paulo em 1789, filho do tenente general José Arouche de Toledo Rendon [na foto em baixo] e de D. Maria Thereza Rodrigues de Moraes. Vinha de uma família paulista com grande tradição castrense, sendo o seu avô o mestre de campo (ou coronel) Agostinho Delgado Arouche e seu bisavô o sargento mor Francisco Nabo Freire, nascido em Lagos.

Muito pouco é conhecido acerca da fase inicial da sua carreira militar, mas terá estudado matemáticas e, em 1802, com cerca de 13 anos, é nomeado tenente da companhia de caçadores do 2.º Regimento de Milícias de S. Paulo, pelo capitão general da província, António Manuel de Melo e Castro de Mendonça. O capitão general seguinte (António José Correia da Franca e Horta, 1753-1823) ainda não havia confirmado a promoção por volta de 1803, mas notou que o tenente servia “sem nota”.  Em Maio de 1803, é inclusive indicado numa nota o oficial que Diogo Arouche vai substituir, Joaquim Pedro Salgado que havia sido agregado em capitão para fora da província.

Não é certo quando integra a Legião de Voluntários Reais (também conhecida por Legião de S. Paulo), mas tê-lo-á feito na artilharia, conforme sugere o seu camarada Machado de Oliveira (Oliveira era também capitão graduado na infantaria, mas mais moderno que Diogo Arouche), provavelmente entre 1804 e 1808, tendo-se deslocado para o Rio Grande. Terá passado, previamente a 1809, à infantaria; na Legião, a arma era constituída de 8 companhias em 2 batalhões. 



O que é certo é que, a 27 de Junho de 1809 é promovido a alferes de 4.ª Companhia do 1.º Batalhão de Infantaria da  Legião de Voluntários Reais, de sargento (não indica mais nada, pelo que poderemos aferir que era também de infantaria).

Não é certo de que forma se relaciona o facto de Diogo Arouche Moraes Lara ter sido tenente de milícias e depois, passado a uma unidade de linha, ou como sargento ou até assentado praça. Pode ter sido que a promoção não foi confirmada pelo novo capitão general, ou uma muito incomum despromoção de oficial, ainda que passando da 2.ª à 1.ª linha. A primeira possibilidade é a mais certa, pois não tenho conhecimento de nenhum caso semelhante na segunda senão por punição disciplinar (e ainda assim, a demissão era preferível).

Participa na campanha de 1811-1812. Machado de Oliveira indica que Moraes Lara, então ou alferes ou tenente serviu como parlamentário com grande distinção(não encontrei a promoção de alferes a tenente, que terá ocorrido algures entre 1809 e 1814). 

A 13 de Maio de 1813, na promoção geral após a campanha, é promovido a Ajudante do 1.º Batalhão de Infantaria da sua unidade.

A 25 de Julho de 1814, é graduado em capitão de infantaria na Legião. Terá servido como diretor do Arsenal de Porto Alegre, mas em 1816 retorna à Legião na área do Rio Pardo para servir na campanha iminente. 
Os dois cargos em que serve neste período são indicativos de uma forte competência em termos administrativos, seja como ajudante do major do seu batalhão, seja gerindo o arsenal da capital da província.

Com 27 anos, é capitão graduado de infantaria da Legião e participa da batalha de Catalán [saiba mais], onde segundo Machado de Oliveira, Moraes Lara comanda uma das partes da carga de infantaria na parte final da batalha que ajudou a derrotar o ataque principal oriental: “[...] e posto enfim à frente de uma massa de infantaria penetrou o bosque, em que se entrincheirara uma grande parte da infantaria inimiga, e donde sustentava um fogo mortífero contra a espalda do acampamento, bateu denodamente esta força, e obrigou-a a aceder depois de vigorosa resistência, rendendo-se mais de 200 prisioneiros.”

Diogo Arouche Moraes Lara, já no acampamento do Quaraí, em 1817, escreve uma das mais importantes fontes dessa primeira fase do conflito, especialmente em Entre Rios e Missões. Os mapas que lhe vem anexos são preciosos croquis das batalhas de S. Borja, Arapéi e Catalán. Ainda que escrito em 1817, o manuscrito só em 1844 reemerge pelas mãos de José Joaquim Machado de Oliveira, que o transcreve e faz publicar na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1845, assim como uma biografia de Diogo Arouche, a qual, pela sua proximidade ao oficial, dou mais valor, ainda que a mesma esteja longe de exata ou precisa.

A 22 de Janeiro de 1818, é promovido a Capitão efetivo, no comando da 1.ª Companhia do 1.º Batalhão da sua legião, o lugar de maior prestígio para um oficial da graduação dele. Já agora, o seu camarada e biógrafo Machado de Oliveira era o comandante da 1.ª Companhia do 2.º Batalhão.

É, já próximo do final da guerra, por volta de 1818-1819, é promovido a tenente coronel, no comando do recém-criado Regimento de Milícias Guarani a Cavalo, de Missões, formado a partir das companhias de milícias a cavalo de Missões (8 de guaranis e 3 de brancos), que vinham já de 1811. Até à independência, chegou a haver um 2.º regimento de Milícias a cavalo Guarani, os famosos lanceiros naturais.

Morre em combate, a 9 de Maio de 1819, com cerca de 30 anos. em S. Nicolau, no comando do seu regimento, ao tentar reocupar o aldeamento às forças orientais. Algumas fontes dão-no como não tendo ainda cumprido o seu 30.º aniversário, sendo que assim terá nascido entre Junho e Dezembro de 1789.

Memória(s) da Campanha de 1816
No manuscrito da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro [conheça aqui, abre nova janela], está ao início uma Advertência que, quando da publicação em 1845, foi omitdo ou não existia no manuscrito usado por Machado de Oliveira. Seja como for, aqui a transcrevo, convidando também  ler a versão publicada na RIHGB, em 1845, que pode ser lida aqui:


Advertencia.
O Amor da Patria, e do meu Soberano me faz tomar o maior interesse por tudo quanto he util, e gloriozo para ambos. A Campanha d' 1816 feita pelas Tropas da Capitania do Rio Grande de S. Pedro do Sul, he pelas brilhantes acçoens militares nella havidas hũa das muitas que fundamentam a digna reputação das Armas Portuguesas, a Gloria Nacional, e a de El Rey D. João 6.º. E dezejando conservar a memoria de tão brilhantes acçoens, assim como os respeitaveis nomes de tantos heróes, q nella fizerão-se remarcaveis, me propuz a escrevêla; e puz em pratica o meu dezejo, prevalecendo o Patriotismo às dificuldades, que me apresentavão as faltas de talentos, e dos conhecimentos precizos de todas as particularidades, que as partes officiaes das mesmas acçoens militares não mencionão, e que exigião pennoza investigação para alcansallas, muito principalmente em meio dos tumultos de hũa guerra activa. Escrevi pois como pude, e expuz os factos taes, e quaes conheci, sem me poupar ao trabalho de investigar a verdade; ficando-me sempre o pezar de o não poder fazer com aquela elegancia, que meresse tão grave assumpto: estimarei porem, que hũa pena digna delle, podendo-se aproveitar da noticia que dou daquelles acontecimentos, os descreva de maneira, que se eternizem os nomes dos meos honrados Patriotas, que trabalhárão com distinção naquella memoravel Campanha, e chegue ao conhecimento das geraçoens vindouras a prezente gloria do meu Rey, e da minha Patria.
O Autor

Imagem de topo
- Várzea do Carmo (Arnaud Pallière). fonte: Wikicommons. São Paulo, 1821.

Fontes
- Gazeta do Rio de Janeiro
LARA, Diogo Arouche de Moraes – Memória da Campanha de 1816, in Revista do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Tomo VII, n.º 26 – Julho de 1845, p.: 123 a 170, terceira edição, Rio de Janeiro ; imprensa Nacional, 1931, p.: 123 a 170.
- ------------ - Apêndice à Memória da Campanha de 1816, in: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo VII, n.º 27 – outubro de 1845, p.: 263 a 317, terceira edição, Rio de Janeiro ; imprensa Nacional, 1931, p.: 363 a 317.
- OLIVEIRA, José Joaquim Machado de, Breve Noticia Biographica sobre o Auctor da Memoria da Campanha de Artigas, in: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo VII, n.º 27 – outubro de 1845, terceira edição, Rio de Janeiro ; imprensa Nacional, 1931, pp. 256-262.

- BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento, Dicionario Bibliographico Brazileiro, v. 2,Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1883. pp. 175-176
- BOEIRA, Luciana Fernandes, Como Salvar do Esquecimento os Atos Bravos do Passado Rio-Grandense: A Província de São Pedro Como um Problema Político-Historiográfico no Brasil Imperial (Tese de doutoramento), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2013pp. 162-163
- CEZAR, Adilson, "Elogio de Adilson Cezar a seu patrono Ten Cel Diogo Arouche de Morais Lara". in: O Guararapes, Órgão de Divulgação das Atividades da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, Aditamento ao N.º 42, Julho e Setembro 2004, http://www.ahimtb.org.br/guarara42a.htm. página de internet [31.1.2018]
SILVA, João Manuel Pereira da , Os varões illustres do Brazil durante os tempos coloniaes. 2 tom. [t. 1], (3.ª Edição),  Rio de Janeiro: B. L. Garnier. 1868

sábado, 27 de outubro de 2018

O vencido de Carumbé (Gustavo Barroso, 1930)


“Artigas há sido completamente derrotado y se há refugiado en los bosques...”
(Carta de Puerreydon a San Martin)

Um turbilhão de cavalos rolava sobre as coxilhas verdes à luz quente do sol de outubro. Os oficiais à frente, as esporas enterradas no vasio dos zainos e dos malacaras. Os lanceiros milicianos, de lanças em riste, quasi de pé, apoiados nos pesados estribos de bronze. Os dragões, com as clavinas curtas a tiracolo e nas mãos, altas no ar, os curvos sabres refulgindo. E a bandeira real agitada ao vento nas palpitações convulsas da carga.
Eram uns quatrocentos homens – dragões de Lunarejo de Sebastião Barreto, lanceiros do Rio Pardo de Francisco Pereira Pinto e legionários paulistas de Silva Brandão. À ordem de carregar, os esquadrões se tinham movido como em uma parada. Depois, a voz dos oficiais ordenara:
- A trote!
Os animais aceleraram a marcha. E, logo, a segunda ordem dominou, forte, o tropear da cavalhada:
- A galope!
Então, mal os baguais espumantes tomavam o impulso da corrida, sobre eles ecoou o mandado terrível:
- Por esquadrões, carregar!
O turbilhão rolou pelas coxilhas verdes, esmagando a macega meio ressequida, e foi bater cegamente a infantaria de Artigas abandonada no meio da planicie. Recebeu-o uma descarga estralejante. Alguns cavalos e alguns cavaleiros caíram. O turbilhão passou por cima deles. Um baque surdo. Uivos de dôr. Barbaros gritos de raiva. Detonações isoladas. E o rumor sinistro dos ferro mordendo as carnes e os ossos: baionetas que entravam no pescoço dos cavalos, lanças que varavam peitos e costas, sabres que fendiam ombros e craneos.
A infantaria artiguista fraquejou. Desfizeram-se os liames da formatura. Os soldados dispersaram-se em grupos, defendendo caramente a vida do ataque dos cavaleiros. A cavalaria brasileira caracolou à direita e à esquerda. Ouviam-se brados roucos. Os dragões abriam caminho pela pampa a talho e ponta de espada. Os lanceiros paravam de combater, cansados de matar. E o vento brincava nas bandeirolas de suas lanças empurpuradas de sangue.
Assim, fôram derrotados os últimos soldados de José Gervazio Artigas, chefe da confederação do uruguai, Corrientes e Entrerrios, nos campos dos serros de Sant'Ana, que os orientais denominam Carumbé, pelo brigadeiro Joaquim de Oliveira Alvares.

* * *

O general Curado, que defendia nossas fronteiras do sul, mandara-o reconhecer as posições de Artigas com menos de oitocentos homens e duas peças ligeiras. EM frente aos serros, a coluna expedicionária viu-se de repente em presença de grande força inimiga. Comandava-a Artigas em pessôa. Eram mil e seiscentos homens, dos quais quinhentos de infantaria mandados por Toríbio Fernandez e mil e cem cavaleiros guiados por André Latorre, Baltazar Ojeda, Inácio Gatelli e Domingos Manduré.
Surpreendido em ordem de marcha, Alvares foi forçado a aceitar combate. Ocupou rapidamente pequenas lombas, colocou bem a artilharia e, quando a numerosa cavalaria adversa o atacou, metralhou-a à vontade. Campo de tiro excelente. Artilheiros habeis. Canhões pequenos com bôas parelhas de machos atrelados aos armões, podendo ter grande mobilidade, fizeram perder muita gente à gauchada entrerriana e corrientina, enquanto parte de sua infantaria de apoio, os legionarios paulistas de Galvão Lacerda, dificultavam aos chefes artiguenhos reconduzir as cavalarias ao combate.
Esgotadas as reservas, brechados os esquadrões pelas granadas de Bento José de Morais, afeito a metralhar corrientinos e que os dizimara havia uma semana no Ibiroacaí, perdido o impulso primitivo pelo cansaço das cargas improfícuas, dispersos e espingardeados pelotões inteiros pelas guerrilhas de João Pais e Alexandre Luiz de Queiroz, Artigas sentiu-se  escarpar-se-lhe das mãos a sorte da peleja e apelou, como derradeiro recurso, para a infantaria.
O regimento de Toribio Fernandez avançou a marche-marche. Foi aí que o brigadeiro Alvares atirou sobre ele o turbilhão de dragões e lanceiros. Os esquadrões descoseram as companhias corrientinas de amplas gandolas escarlates. Os sabres e as lanças embebedaram-se fartamente no sangue dos defensores do caudilho. A derrota desgrenhada assoprou o panico nas filas desorganizadas e nos grupos dispersos, açoitando pelos agrestes caminhos dos serros de Sant'Ana, na mesma confusão, peões e cavaleiros.

* * *

“Graças á velocidade de seu cavallo” - afirma conciencioso escritor – Artigas pôde escapar. Os cavalarianos vencedores viram-no ao longe, galopando entre um oficial e um frade, - o indio Manduré, comandante de seus lanceiros negros, e frei Monterroro, seu secretario.
Enquanto, entre centenas de mortos e feridos, os guerrilheiros de Jacinto Guedes recolhiam troféus: armas de preço, tambores, estandartes; contavam os prisioneiros, e reconheciam no meio dos cadaveres o do comandante Inacio Gateli, sobrinho do ditador, este fugia, como fugiria no Arapeí, como fugiria no Arroio da China, como fugiria no Taquarembô...
Escurecia quando meteu o fatigado cavalo num vau do Arapei. O oficial indio seguia-o em silencio, o rosto carregado de odio. O frade gemia e se lamentava sacudido pelos passos incertos do animal dentro dagua, o habito arregaçado, as pernas nuas beijadas pela correnteza fria. Fôram ter a uma pequena ilha deserta. O guarani acendeu uma fogueira debaixo das arvores. O frade gemeu e acabou enrodilhando-se no chão e ressonando. O caudilho derrotado, de pé, braços cruzados ao peito, cravava o olhar nas chamas. E as labaredas agitavam sua sombra desmesurada na alta barrança do rio...
Ao longe, os quero-quero gritavam. Nos capões de mato, estridulavam corujas. O vôo rapido dos curiangos cortava a clareira. O indio encostou-se a uma pedra musgosa, cerrou os olhos e adormeceu...
Quando a luz do sol acordou a campanha verde, o rio cinzento e o ceu azul, Artigas ainda estava na mesma posição. A fogueira extinguira-se sob o orvalho da madrugada. Seu olhar fixo mergulhava filosoficamente nas cinzas humedecidas.

Fonte
BARROSO, Gustavo, A Guerra de Artigas, s/l, Ed. Getulio M. Costa, [1930]. pp. 27-34

domingo, 5 de agosto de 2018

India Muerta (Gustavo Barroso, 1930)

 

“... Artigas, na fronteira, de onde dirigia as suas ordens, e onde recebia tais recursos, projetava, além da resistência à divisão do general Lecor, pelas fronteiras de Serro Largo e Santa Teresa, também uma diversão com suas maiores forças ... “(Diogo Arouche – Memoria da campanha de 1816).

NOVEMBRO de 1816. O exercito brasileiro de Lecor invade o Uruguai pelas fronteiras de Santa Teresa e Serro Largo. “Invasão rápida e pujante”. Artigas, ditador da Banda Oriental, pretende tolher-lhe o passo no caminho de Montevidéo.
Vanguardeava o grosso dos invasores o general Sebastião Pinto com pouco mais de mil homens das tres armas e um obús. Eram 722 granadeiros, caçadores e artilheiros da divisão de Voluntários Reais e 106 milicianos gauchos de cavalaria.

* * *

Fructuoso Rivera, à frente de 1700 uruguaios a cavalo e a pé, com uma peça, obedecendo aos designios do ditador, espera a vanguarda brasileira entre o Puerto de la Paloma e o Passo e Coronilla, à margem do arroio India Muerta. 

Ao avista-lo, no dia 14 de pela manhã, Sebastião Pinto desenvolve a sua linha de batalha: granadeiros, caçadores e o obuseiro ao centro; os dois pequenos esquadrões de Manoel Marques de Sousa e João Vieira Tovar nas alas. Os nossos atiradores abrigam-se por trás das touceiras de pita, cujos penachos ondêam ao vento, e começam a hostilizar o inimigo. No alto da coxilha forma a cavalaria de Rivera e carrega como uma tromba. As guerrilhas incorporam-se ao grosso. Os infantes, em quadrado, recebem na ponta das baionetas os orientais. Alvoroço. Gritaria. Tiros. Alguns cavaleiros trazem à garupa voltigeiros armados de pistola e sabre, que pulam dentro do quadrado e logo são esfuracados a arma branca. Rivera em pessoa, agitando o rebenque no ar, comanda seus centauros que revolutêam, coroados de lanças, de laços e boleadeiras ameaçadoras.

A formidavel infantaria resiste ao ariete. Os esquadrões das alas acometem furiosamente os contrarios, para alivia-las.

Recua a cavalaria oriental no preparo de nova carga. Porém abre com esse movimento à frente do quadrado o campo de tiro. Granadeiros e caçadores fuzilam-na. O obús consegue falar e uma granada rebenta no meio dos cavaleiros, desmoralizando-lhes a formatura e causando muitas baixas. Um tiro de mestre! Vagam cavalos à solta pelo pampa, as selas ensanguentadas. De novo as linhas de atiradores se estendeme os homens, emboscados nas piteiras, caçam o inimigo.
A infantaria de Lasalle vem a marche-marche afim de sustentar a cavalaria batida. Jeronimo Pereira de Vasconcelos, irmão do grande Bernardo de Vasconcelos, manda rufar os tambores e leva seus caçadores a baioneta contra ela. Trava-se terrivel corpo a corpo. Os infantes engalfinham-se a arma branca. Distante, o canhão oriental é inutil, porque a confusão dos lutadores não lhe permite atirar. O nosso também está calado.  Os milicianos enovelam-se aos cavalarianos de Rivera. Na luta, Tovar perde um braço, cortado à espada, Marques de Sousa recebe um talho na cabeça. Então, avançam cerrados, solidos, com seus sargentos de chilfarotes e piques em punho, os granadeiros de Moura Lacerda.

- A baioneta! Grita-lhes estentoreamente o comandante. E eles varrem, literalmente os infantes uruguaios. É o tempo que a nossa cavalaria reflúe, deixando livre a frente de batalha, onde se reformam os esquadrões de Rivera.
- Granadeiros, fogo!
- Caçadores, fogo!

As duas descargas ceifam a gauchada oriental. Pronuncia-se a derrota, depois de mais de quatro horas de peleja. Os restos da infantaria inimiga, dispersos, são aprisionados. A única peça de Rivera e todas as suas bagagens caem em nosso poder. O vanguardeiro destroçado de Artigas escapa a casco de cavalo e chega ao acampamento do seu chefe à teste unicamente de cem homens, miseraveis remanescentes de mil e setecentos que levara...

* * *

Sebastião Pinto, vitorioso, à margem da India Muerta. A soldadesca arma tendas e ranchos. Ao cair da noite acendem-se as fogueiras. E, à sua luz e calor, os violeiros descantam as saudades das querencias e dos pagos.

De repente, um deles dedilha o pinho e solta estes primeiros versos duma copia uruguais popular sobre o ditador:

Viva o general Artigas,
Su tropa bien arreglada...

Um silencio. E o soldado brasileiro repete:

Viva o general Artigas,
Su tropa bien arreglada...

Aí sonora gargalhada sacode todo o acampamento.

Fonte
BARROSO, Gustavo, A Guerra de Artigas, s/l, Ed. Getulio M. Costa, [1930]

terça-feira, 29 de maio de 2018

Embarque da Divisão na Praia Grande (29 de Maio de 1816)


Jean Baptiste Debret., "Embarque, na Praia Grande, de tropas destinadas ao bloqueio de Montevidéu.", Óleo sobre papel colado na madeira. Assinado. 1826. 0, 640 x 0, 420 m. (Museu Imperial de Petrópolis).

Este óleo terá sido feito com base na mais conhecida gravura [em baixo] de Jean Baptiste Debret, publicada em França na década de 1820, em baixo, retratando o dia 29 de Maio de 1816, em que a Divisão de Voluntários Reais embarcou nos transportes que a 12 de Junho partiriam para a ilha de Santa Catarina. O interessante neste óleo relativamente pouco conhecido é que retrata mais do que a gravura, assim como apresenta grandes diferenças no uniforme dos soldados portugueses.


Para lá da gazeta oficial, também Claudino Pimentel nos elucida acerca do que acontecia na Corte nesta altura. Um conselho de guerra naval no Rio decidia aonde desembarcar as tropas, se em S. Catarina, com as tropas a marchar daí em diante por terra (como aconteceu), se dentro do Rio da Prata, em Maldonado, mais próximo de Montevideu. Ferreira Lobo decidiu-se pela primeira opção, contra a opinião de todos os almirante ouvidos. A principal ameaça era os pamperos meridionais, tão devastadores quanto imprevisíveis.

A gravura, domínio pericial de Debret, apresenta uma melhor qualidade e pormenor, mas o óleo, cuja autoria lhe é dada, é bastante diferente.


O óleo que apresento ao topo deste artigo apresenta mais cenas, nomeadamente a particular cena dos soldados já embarcados numa barcaça de transporte e a caminho dos seus navios que das águas da Guanabara saúdam el-Rei. Esta não aparece de todo nas gravura que Debret publicou, senão apenas o mestre da barcaça.



Também o pelotão que avança de costas, o seu tenente usando uma fita negra no braço esquerdo em luto por D. Maria, perfilando-se perante o rei D. João VI, usa vermelho na gola e canhões num, e amarelo no outro. Amarelos seriam o 3.º Batalhão de Caçadores, apenas recentemente passado a ser o 1.º Regimento de Infantaria, com mais duas companhias do 1.º Batalhão. Vermelho não há, porém, indicação de ter sido usado pelas quatro unidades de infantaria.





Note-se as diferenças entre a gravura e o óleo. As figuras por trás da família real são totalmente diferentes em cada uma das peças.

***

Parece-me pertinente comparar com o óleo que retrata a parada e desfile da divisão no campo de D. Helena, 2 semanas antes, a 13 de Maio:


Mais informações acerca deste último óleo, que está na Pinacoteca de S. Paulo, no blogue Em Busca de Lecor AQUI.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Correspondência militar no teatro do Uruguai (13 a 23 Setembro de 1816)


Apresento a transcrição de 5 cartas escritas no período entre 13 e 23 de Setembro de 1816, ao início da hostilidades no distrito de Entre Rios, fronteira de Santana, Quaraí e em Missões. Não as conheço transcritas na variada literatura que já consultei, pelo que pensei ser interessante aqui as divulgar.

As cartas, escritas por vários comandantes na área, o principal, o tenente general Joaquim Xavier Curado, comunicando com o marquês de Alegrete (que só assume o comando no terreno no dia de Natal, daí por 2 meses), José de Abreu, destacado com cerca de 700 homens para o rio Uruguai em apoio, ou o brigadeiro Francisco das Chagas Santos, comandante militar das Missões, em S. Borja.

É de destacar, para contexto, que Andrés Guaçurari y Artigas (Andresito) começa a invasão da província de Missões a 12 de Setembro, quando força a guarda portuguesa de S. João Velho, no rio Uruguai, com a sua divisão, dirigindo-se depois ao Povo de S. Borja que sitia a partir do dia 21.

As transcrições foram feitas a partir de registros fotográficos que me foram disponibilizados, e infelizmente com alguns corte que não permitem um trabalho melhor.

Esta correspondência tem no entanto um grande valor pois nos dá a perspetiva daqueles primeiros momentos da guerra que se desenrolará por mais 3 anos, e a incógnita que representava ao comando português do Rio Grande as primeiras movimentações das forças de José Artigas não só nesta fronteira, mas a Leste, na costa atlântica.
Têm ainda valor estas transcrições por revelar os pensamentos do general Xavier Curado em termos táticos, com uma especial atenção aos vitais elementos logísticos, sem os quais como ele próprio refere n~ºao há possibilidade de bom sucesso. Apesar dos reforços estarem, por esta altura, já na estrada para o passo do Rosário, as tropas da capitania do Rio Grande são ainda diminutas para fazer face aos orientais, principalmente pela dispersão por uma enorme fronteira, extremamente falha de população ou aldeias.

Nota-se, em pormenor, que na perspetiva do oficialato português uma forte distinção entre os indios e os 'insurgentes' federais, quando na verdade o exército de Artigas era bem mais coeso em termos revolucionários, com um grande apoio de todas as classes sociais. No entanto, a questão federal era, em bastantes aspetos, algo diferente da questão missionária, o que o percurso histórico desde 1680 pode ajudar a perceber melhor, nomeadamente as tonalidades raciais que são norma nesta altura.

Para concluir o que já vai longo, indico que no final deste artigo poderá encontrar a ligação para as biografias dos mencionados nas cartas, assim como outras que sejam relevantes a uma melhor compreensão do momento histórico desta segunda quinzena de Setembro em que tudo aquece.



I.
[464 A] [TenCor. José de Abreu a Brig. Tomás da Costa Rebelo e Silva, Passo do Baptista (hoje, cidade de Quaraí), 13 de Setembro de 1816 ]

Ilustrissimo Senhor Brigadeiro Commandante

Neste mesmo instante ao amanhecer recebo as Partes de que seguem copias e estando com tudo pronto para passar o Quarahim me resolvi a chamar todos os Officiaes que me acompanhão para que à vista das ditas partes desse cada hum seu parecer se devemos passar para os Dominios Espanhoes, ou acudir aos terrenos de Sua Majestade invadidos pelos insurgentes que entrão pelo Rincão da Cruz na Provincias de Missoens, a qual se acha com muito pouca guarnição; e sitiados no Capão de Atanazio como consta das mesmas partes; asentamos unanimemente em indireitar pelo Jaráo dereito a Coxilha grande mandando bombeiros por toda a parte para no cazo deque os ditos Insurgentes se retirem logo que nos precintão endireitarmos a passar no Paço da Barra do Quarahim, e seguir as mesmas Ordens que V. S.ª me deu, e quando não acudir aquella Provincia que não pode ter brevemente soccorro de parte alguma, antes pelo contrario temo que os Indios fação algum desatino.
Como os inimigos carregão para esta parte com mais força, parecia-me muito acertado que V. S.ª sendo do seu agrado se encaminhase direito a Jaráo, ou mandasse algum corpo a este mesmo ponto por lhes não mdê na cabeça entrarem por aqui, porque já se conhece que elles não querem alargarse muito das costas, e dali está V. S.ª abel [ábil?] a sahir por donde lhe parecer, ou dar as providencias com mais brevidade as que se precizão na estação prezente.
Julgo V. S.ª não me levará a mal esta deliberação de não passar para os terrenos do inimigo, deixando os nossos occupado por elles; espero que V. S.ª delibere com brevidade; entretanto Deus Nosso Senhor Guarde a V. S.ª por muitos annos.

Passo do Baptista, treze de Setembro de mil oitocentos e dezeseis
Illustrissimo Senhor Brigadeiro Thomaz da Costa Correia Rebelo e Silva = Jose de Abreu

Fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

* * *

II.
[464] [TenGen Joaquim Xavier Curado a CapGen Marquês de Alegrete, em Marcha (a caminho do rio Ibirapuitã), 14 de Setembro de 1816]

Illmo. E Exmo. Sor.

As noticias adquiridas pelos bombeiros de que se acha […] nos serros brancos hua Partida de trezentos Insurgentes comandados pelo Ramires; e junto ao Serro de Cunhapirú outras mais pequenas, guardando uma porção de cavalos; e finalmente que em Lunaresco avião Tropas, que fazião a vanguarda do corpo principal comandado por Artigas, tomei o expediente mandar o Sargento Mór Sebastião Barreto [Pereira Pinto, Dragões do Rio Grande] atacar com quatrocentos ómens o Corpo que se dizia existir em serros brancos: este Major inda não voltou, nem a Tropa do seu Comando, e nada sei do rezultado da sua diligência. 
O Capitão de Dragoens Jozé de Paula Prestes foi mandado tirar a Cavalhada, e bater a Tropa que aguardava em Cunhapirú. Estes oficial voltou logo dando parte de não encontrar couza algua, e de ter observado vestigios da retirada de muita Tropa para a parte do Uruguay.
O Tenente Coronel Jozé d'Abreu com quinhentos ómens, e duas Peças de Artilheria foi mandado atacar as Tropas do Lunaresco; e o Brigadeiro Tomaz da Costa foi encarregado da deligencia de marchar com mais de trezentos homens, e duas Peças de Artilharia a ocupar um lugar destinado nas pontas de Arapey, com o projecto de se corresponder com o Tenente Coronel José de Abreu, e prestarem entre si mutuo soccorro.
Já tinhão estes dous Comandantes dado principio á sua marcha quando recebi esta manhã as incluzas participaçoens, de que um numerozo Corpo de Indios, e e Espanhoes tinhão atacado a quem, e alem do Ibicuy, e desolado alguas Estancias nas margens do Uruguay: na mesma occaszião recebi juntamente o Oficio do Brigadeiro Francisco das Chagas, que sobem igualmente à Prezença de V. Ex.ª.
Em consequencia pois destas novidades mandei sustar a marcha do Brigadeiro Tomaz da Costa, incumbindo ao Tenente Coronel Jozé de Abreu a obrigação de marchar prontamente com a Tropa confiada ao seu Comando, e se apreçasse a chegar a tempo de atacar o Corpo, que se achava deste lado do Ibicuy, e prezumo que amanhãa ao manhecer se encontrará com ele: e que depois conforme as notícias que adquirisse, pasasse o Rio e fose socorrer Missoens.
He de prezumir que esta deliberação dos Insurgentes he dirigida a divertir as forças desta Fronteira para facilitar os seus projectos. A tropa existente é muito pouca para defender perto de cem léguas de Fronteira. A cessão Comandada pelo Tenente Coronel Ignacio Jozé Vicente, que conduz a Artilheria de seis ainda não chegou ao Rozario: o mesmo sucede a Tropa de Santa Catarina, que partio de Bagé no dia 19 do mez passado, apezar das deligencias, e auxilios de Boyada que tenho mandado a ambos os Comandantes: talvez a cauza da demora seja o mau estado da Cavalhada e Boiyada, que suposto não falte em numero, tem com tudo falta de forças, e vão ficando cançadas ainda em hua marcha ordinaria: da Legião de S. Paulo nada sei nem ainda por noticia: e só conto com as Praças deste Corpo que precederam a minha marcha de Rio Pardo.
O Regimento de Milicias tem falta de muitas praças para o seu estado efectivo.
O Brigadeiro Tomaz da Costa com mais de trezentos ómens, e duas peças dÁrtilheria vai a ocupar o Paço do Lageado em Quaraim com o destino de auxiliar o Tenente Coronel José de Abreu, ou obstar qualquer tentativa dos Insurgentes de Artigas: eu marcho para as imediaçoens de Ibarapuitam com cem omens de Infanteria da Legião, e secenta Milicianos do Rio Pardo, e sem a Artilheria por não terem ainda chegado, com o projecto de embaraçar qualquer pretenção do Artigas, que tendo a sua Cavalhada em descanço pode projectar com vantagem algua surpreza contra a nossa, que se acha efectivamente em movimento ou girando pela Fronteira, ou conduzindo Tropas do Rio Pardo na distancia de mais de oitenta leguas, até á Linha divizoria, e na estação mais critica para estes animaes, que alem de magros estão fracos com os novos pastos.
Agora depois de ter concluido este Oficio recebo a Carta do Brigadeiro Chagas com data de doze, que sobe à Presença de V. Ex.ª.

A Excellentissima Pessoas de Vossa excellência guarde Deus muitos annos.
Em marcha 14 de Setembro de 1816

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Alegrete = Joaquim Xavier Curado

Fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

* * *

III.
[…]5A] [Brig. Francisco das Chagas Santos a TenGen. Joaquim Xavier Curado, São Borja, 15 de Setembro de 1816]

Illustrissimo e Excelentissimo Senhor

A 10, e 12 do corrente mez dei parte a V. Ex.ª da cituação critica em que me acho neste Povo onde espero de V. Ex.ª o mais vigorozo soccorro de gente; acabo de receber noticia que são 900, ou 1000 Indios Hespanhóes que se achão no Campo de São João de Atanazio e que se estão intrincheirando junto a Caza da estancia do mesmo Atanazio emquanto lhe chegão 1000 homens de Artigas: os quaes dizem que vem por este lado do Uruguay a passarem no Passo de São Felipe afim de me atacarem neste Povo aonde pertendo defenderme: com a pouca gente que tenho serão 300 homens, e alguma Artilharia por tanto rogo a V. Ex.ª a brevidade do dito soccorro. O inimigo tem aparecido em São Nicoláo dando alguns tiros aos nossos Milicianos que tambem lhe tem correspondido: finalmente as minhas esperanças se fundão na conhecida actividade de Vossa Excellencia que Deus guarde muitos annos.

São Borja, quinze de Setembro de mil oito centos e dezesseis. 

Illustrissimo e Excelentissimo Senhor Joaquim Xavier Curado
P.D. = Não me tem chegado ainda a gente que tenho mandado avizar = Francisco das Chagas Santos

Fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825

* * *


IV.
[465]  [TenGen Joaquim Xavier Curado a CapGen Marquês de Alegrete, em Marcha (a caminho do rio Ibirapuitã), 20 de Setembro de 1816]



Illmo. e Exmo. Sr.


Tenho a honra de levar à prezença de V. Ex.ª o oficio que dirigio o Brigadeiro Francisco das Chagas Santos na data de 15 acompanhado da primeira resposta, e do oficio que dirigio ao Tenente Coronel Jozé de Abreu, oficial encarregado de atacar aos Indios, que unidos aos Insurgentes procurarão invadir a Provincia de Missoens, como fiz a V. Ex.ª participante no meu oficio na data de 14.
Este Tenente Coronel Abreu tem cometido u~a grande falta em demorar o auxilio destinado para Missoens: por cujo motivo já lhe foi extranhada a sua conduta, e segunda vez referindo o seu comportamento, como V. Ex.ª se dignará ver na Copia incluza. Espero da ónra daquele oficial, cujo merecimento o fazia recomendavel, que desempenhará a comissaõ de que se acha encarregado.

[LEIA TAMBÉM: Um mau início: Xavier Curado a José de Abreu, Setembro de 1816]

O sargento mór Sebastiaõ Barreto [Pereira Pinto, Dragões do Rio Grande] de quem fiz mençaõ no meu citado Oficio de 15 ontem se recolheu, dando parte de não ter encontrado inimigos té as imediaçoens de Santa Anna. Era muito natural que assim sucedesse por que o Chefe dos Rebeldes tem congregado todas as suas forças em Quaraim, e vezinhanças de Arapey aproximando-se ao uruguay, não só para favorecer a pertendida invazão de Missoens, como para ficar ambidestro para os roubos, e destruiçoens das Cazas, das familias, dos gados, e das cavalgaduras. Para este fim destaca partidas de duzentos trezentos e mais ómens que unidos aos Indios Charruas tem aparecido em diversas partes do interior da Linha desde Santa Anna the as vizinhanças do Uruguay; adoptando o metodo da Guerra que costumaõ fazer os mencionados Indios, que atacão com vigor aos poucos que se lhes (…), e dispersaõ-se em debandada quando reconhecem forças superiores […] logo depois reunidos na distancia d'oito ou dêz leguas continuaõ os insultos, e repetem as ostilidades. Na noite do dia 14 tive parte de […] os Indios Charruas, e alguns Insurgentes tinhaõ queimado trêz Cazas […] matado alguas pessoas, e roubado tudo quanto lhes foi possivel.
No […] momento mandei marchar u~a partida para os atacar: forão encontrados, porem longe de querer experar pelo Combate, dispersaraõ-se e procuráraõ reunir-se em outro lugar onde tem dado exercicio […] vil pervercidade. Oje mandei marchar trez Partidas para o […] rem sobre si, ou unidas, conforme as circunstancias, fazendo o total de quatro centas Praças de Cavalaria, com o projecto de os obrigar a combate, ou seguilos por diversas partes como parecer conveniente. Espero o rezultado deste deligencia.

As actuais despoziçoens do Chefe dos Rebeldes dao idéa de que o seu intento hé a conquista de Missoens, ónde protegido dos Indios do outro lado dos quaes a maior parte já se acha difundida pelos Terrenos pertencentes à Provincia de Missoens possa impunemente invadir, a solar e roubar, naõ só os Destrictos de Sima da Serra pertencentes a Saõ Paulo, como às imediaçoens pertencentes a esta Capitania descendo pela Serra de São Martinho, e Boca do Monte dilatar as suas ostilidades até ao Rio Pardo. Pode bem sêr que seja quimerico este modo de pençar: porem é certissimo que estes piratas não querem combater, mas sim subsistir por meio de roubo cuja ambiçaõ lizongea o interesse de seus sequazes. 
Seja qual fôr o seu intento o certo é que este metodo de fazer a Guerra é o mais ruinozo, e destruidôr porque não se pode guardar nem defender a vasta extençaõ de terreno compreendido entre Santa Anna, e Uruguay onde existem as forças que da Fronteira do Rio Grande se retiraraõ. As tropas que existiaõ nesta Fronteira sempre foraõ muito deminutas relativamente à dilatada extençaõ do terreno que devem proteger.
Actualmente que se achaõ desmembrados sete centos ómens para a defeza de Missoens resta muito pouca Tropa: a Cavalaria é muito diminuta, e sem esta qualidade de arma nada se pode empreender com probabilidade de bom sucesso.

Agora que os Rebeldes aparecem em diversos pontos vejo-me obrigado a reunir a um só ponto toda a Cavalhada, e Boyada, e estabelecer u~a guarda numeroza para defender estes animaes, que fazem o primeiro objecto, e de maior interesse para felicitar as operaçoens militares nestas Campanhas. Isto feito apenas restará Cavalaria para agenciar o municio da Tropas.
O Regimento de Dragoens alem das praças legitimamente empregadas fora do Exercito faltaõ-lhe vinte sete para o seu estado completo: actualmente existem duzentas Praças: o Regimento de Milicias de Rio Pardo alem das duas Companhias ocupadas em Missoens, e outra do Camaquam que inda se não apresentou, acha se muito diminuto; apenas duzentos e setenta e cinco omens se podem conciderar neste Campamento. A Partida dos Guerrilhas d'Queirós que foi do falecido Manoel dos Santos consta por ora de quarente praças. A Cavalaria de S. Paulo aprezenta cincoenta praças. Destes corpos extraidos trezentos ómens para guardar e defender efectivamente a Cavalhada, e Boyada e cuidar na subsistencia da Tropa, pouco ou nada restará. Amanhãa pretendo marchar para a vezinhanças de Ibirapuitam. Afim de procurar um ponto mais proximo ao foco principal das Forças dos Rebeldes, para objetar as suas tentativas, e de onde nos seja mais facil auxiliar Missoens, porque concidero importantissima a sua conservaçaõ; e ao mesmo tempo proteger parte da Fronteira mais vezinha, que por sêr muito extença tarde poderaõ chegar os auxilios nos pontos mais distantes, que me forem possiveis mandar.
A falta de proporçoens na marcha me impossibilita de levar à Prezença de V. Ex.ª o Mapa da Tropa existente.

Em poucos dias pertendo campar no ponto que julgar mais conveniente, para as minhas futuras operaçoens: atentas as circunstancias já referidas: então cumprirei com este dever.

Agora acabo de receber a parte que me dirigio o Brigadeiro Tomaz da Costa, que levo à Prezença de V. Ex.ª na qual se faz patente o motivo da demora que tem tido o Tenente Coronel Jozé de Abreu em atacar os rebeldes que pertendem invadir Missoens certificando-me que no dia 19 seriaõ atacados.
Espero que o dito Tenente Coronel Abreu dezempenhe com muita onra os deveres da sua comissão, como tem feito por muitas vezes.

A Exma. Pessoa de V. Ex.ª Guarde Deus muitos annos.

Em marcha[,] 20 de Setembro de 1816
Illmo. e Exmo. Sr. Marquêz d'Alegrete = Joaquim Xavier Curado

Fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

* * *

V.
[466] [TenGen Joaquim Xavier Curado a CapGen Marquês de Alegrete, Campamento junto ao rio Ibirapuitã), 23 de Setembro de 1816] (Combate de Santana, 22/9)



Illustrissimo e Excellentissimo Senhor


No meu ultimo Officio de 20 do corrente tive a honra participar a V. Ex.ª que tinha mandado marchar trez Partidas para operarem sobre si, ou unidas, conforme as circunstancias; com o projecto de obrigar aos Insurgentes a entrar em Combate, ou a seguilos por diversas partes, como parecesse conveniente.

No dia 22 forão encontrados os Inimigos que retirandose procurarão o apóio d'hum Corpo numerozo, que augmentado depois com mais Cavalaria, e Infantaria travarão hum combate de quatro óras, no qual forão mortos doze, e feridos trinta e hum, cujos nomes constão da relação incluza: e suposto que fosse muito maior o numero dos mortos entre os Enemigos, com tudo a nossa perda foi muito sencivel, não tanto pela quantidade, como pela qualidade de valentes que perecerão no Combate.
Consta-me que a tropa combateu com muito valor, e que muito particularmente se distinguirão o tenente Joze Rodrigues Barbosa, o tenente Gaspar Francisco Menna Barreto, o alferes Joze Luiz Menna Barreto, o porta estandarte Patricio Joze Correia da Camara, o cadete Belxior da Roza e Brito, o cadete Joze Maria Correa Marques; todos do Regimento de Dragoens: e do Regimento de Melicias o tenente Anacleto Francisco Gulart, o tenente Joze Cardoso de Souza, o tenente Antonio de Medeiros da Costa, o tenente Bento Manuel Ribeiro, o Alferes Antonio Gracez de Moraes, o alferes Antonio Pinto de Azambuja, o Alferes Francisco das Chagas, o Capitão Alexandre Luiz; e da Legião de São Paulo o sargento Antonio Luiz de Moraes Pissarro.
Sobre as particularidades do Combate eu me refiro as participações que me forão dirigidas pelos Commandantes, que tenho a honra de levar à Prezença de V. Ex.ª:

Pelo Mappa incluzo se dignará V. Ex.ª ver o Estado actual da tropa existente neste Campamento, desmembrada aquella que marchou a soccorrer Missoens: com ellas nada se pode empreender, nem deliberar: a Cavallaria é muito pouca; os Insurgentes tem reunido as suas forças nas vizinhanças de Santa Anna, em frente a este Campamento.

No combate do dia 22 forão vistos e reconhecidos todos os Comandantes de Corpos, e ainda o mesmo Otorguez: a sua Infantaria he boa bem armada, e opera em boa ordem: a sua Cavallaria não paresse digna de attenção.

Estes revolucionarios não poderão ser destruidos sem forças combinadas, que atacando ao mesmo tempo por duas ou trez partes os obriguem a perder a vantagem do lugar escolhido com antecipação.

A Partida de Queirós [Alexandre Luís de Queiroz, Guerrilhas do Rio Grande] que foi […] do falecido Tenente Coronel Manoel dos Santos [Manoel dos Santos Pedroso, ou Maneco, falecido no início do ano], alem de muito pouco numeroza dá poucas esperanças: os mais Partidarios que se offerecerão, quando cheguei a Rio Pardo, não tem realizado as suas promessas, nem deles tenho noticia.
Da Provincias de Missoens não tenho tido participação alguma.

Continuo a esperar pelo Regimento de Santa Catharina, e pela Tropa que acompanha o Tenente Coronel Ignacio Joze Vicente [Inácio José Vicente da Fonseca, Artilharia da Legião de Voluntários Reais de S. Paulo].

No instante em que estive a fexar este Officio recebo a parte do Tenente Coronel Joze de Abreu que sóbe a Prezença de V. Ex.ª e julgo poder afirmar a V. Ex.ª que está livre a Provincia de Missoens; e que o Tenente Coronel Abreu continua a fazer valer o seu merecimento. [Refere-se aqui ao combate de Yapeyú, onde Abreu frustrou a passagem do Uruguai a Pantaleon Sotelo, que queria unir-se a Andresito]

A Excellentissima Pessoas de Vossa Excellência guarde Deus muitos annos.
Campamento em Ibirapuitan vinte trez de Setembro de mil oitocentos e dezesseis

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Alegrete = Joaquim Xavier Curado

Fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

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José de Abreu

Biografias
- CapGen Luís Teles da Silva Caminha e Meneses, Marquês de Alegrete (capitão general do Rio Grande) [LER]
- Ten Gen Joaquim Xavier Curado (comandante da Fronteira do Quaraí) [LER]
Brig Grad Francisco das Chagas Santos, governo militar das missões orientais, em São Borja [LER]
- Brig Grad Tomás da Costa Rebelo Correia e Silva (comandante do Regimento de Dragões do Rio Grande) [LER]
- TenCor José de Abreu (Esquadrões de Cavalaria de Milícias de Entre Rios) [LER]
Sarg Mor Sebastião Barreto Pereira Pinto ("Regimento de Dragões do Rio Pardo") [LER]

Comandante Andrés Guaçurari y Artigas  (Blandengues da Fronteira de Montevidéu) [LER]

Batalhas