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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Exército do Brasil: Diogo Arouche de Moraes Lara


O capitão graduado Diogo Arouche de Moraes Lara nasceu em S. Paulo em 1789, filho do tenente general José Arouche de Toledo Rendon [na foto em baixo] e de D. Maria Thereza Rodrigues de Moraes. Vinha de uma família paulista com grande tradição castrense, sendo o seu avô o mestre de campo (ou coronel) Agostinho Delgado Arouche e seu bisavô o sargento mor Francisco Nabo Freire, nascido em Lagos.

Muito pouco é conhecido acerca da fase inicial da sua carreira militar, mas terá estudado matemáticas e, em 1802, com cerca de 13 anos, é nomeado tenente da companhia de caçadores do 2.º Regimento de Milícias de S. Paulo, pelo capitão general da província, António Manuel de Melo e Castro de Mendonça. O capitão general seguinte (António José Correia da Franca e Horta, 1753-1823) ainda não havia confirmado a promoção por volta de 1803, mas notou que o tenente servia “sem nota”.  Em Maio de 1803, é inclusive indicado numa nota o oficial que Diogo Arouche vai substituir, Joaquim Pedro Salgado que havia sido agregado em capitão para fora da província.

Não é certo quando integra a Legião de Voluntários Reais (também conhecida por Legião de S. Paulo), mas tê-lo-á feito na artilharia, conforme sugere o seu camarada Machado de Oliveira (Oliveira era também capitão graduado na infantaria, mas mais moderno que Diogo Arouche), provavelmente entre 1804 e 1808, tendo-se deslocado para o Rio Grande. Terá passado, previamente a 1809, à infantaria; na Legião, a arma era constituída de 8 companhias em 2 batalhões. 



O que é certo é que, a 27 de Junho de 1809 é promovido a alferes de 4.ª Companhia do 1.º Batalhão de Infantaria da  Legião de Voluntários Reais, de sargento (não indica mais nada, pelo que poderemos aferir que era também de infantaria).

Não é certo de que forma se relaciona o facto de Diogo Arouche Moraes Lara ter sido tenente de milícias e depois, passado a uma unidade de linha, ou como sargento ou até assentado praça. Pode ter sido que a promoção não foi confirmada pelo novo capitão general, ou uma muito incomum despromoção de oficial, ainda que passando da 2.ª à 1.ª linha. A primeira possibilidade é a mais certa, pois não tenho conhecimento de nenhum caso semelhante na segunda senão por punição disciplinar (e ainda assim, a demissão era preferível).

Participa na campanha de 1811-1812. Machado de Oliveira indica que Moraes Lara, então ou alferes ou tenente serviu como parlamentário com grande distinção(não encontrei a promoção de alferes a tenente, que terá ocorrido algures entre 1809 e 1814). 

A 13 de Maio de 1813, na promoção geral após a campanha, é promovido a Ajudante do 1.º Batalhão de Infantaria da sua unidade.

A 25 de Julho de 1814, é graduado em capitão de infantaria na Legião. Terá servido como diretor do Arsenal de Porto Alegre, mas em 1816 retorna à Legião na área do Rio Pardo para servir na campanha iminente. 
Os dois cargos em que serve neste período são indicativos de uma forte competência em termos administrativos, seja como ajudante do major do seu batalhão, seja gerindo o arsenal da capital da província.

Com 27 anos, é capitão graduado de infantaria da Legião e participa da batalha de Catalán [saiba mais], onde segundo Machado de Oliveira, Moraes Lara comanda uma das partes da carga de infantaria na parte final da batalha que ajudou a derrotar o ataque principal oriental: “[...] e posto enfim à frente de uma massa de infantaria penetrou o bosque, em que se entrincheirara uma grande parte da infantaria inimiga, e donde sustentava um fogo mortífero contra a espalda do acampamento, bateu denodamente esta força, e obrigou-a a aceder depois de vigorosa resistência, rendendo-se mais de 200 prisioneiros.”

Diogo Arouche Moraes Lara, já no acampamento do Quaraí, em 1817, escreve uma das mais importantes fontes dessa primeira fase do conflito, especialmente em Entre Rios e Missões. Os mapas que lhe vem anexos são preciosos croquis das batalhas de S. Borja, Arapéi e Catalán. Ainda que escrito em 1817, o manuscrito só em 1844 reemerge pelas mãos de José Joaquim Machado de Oliveira, que o transcreve e faz publicar na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1845, assim como uma biografia de Diogo Arouche, a qual, pela sua proximidade ao oficial, dou mais valor, ainda que a mesma esteja longe de exata ou precisa.

A 22 de Janeiro de 1818, é promovido a Capitão efetivo, no comando da 1.ª Companhia do 1.º Batalhão da sua legião, o lugar de maior prestígio para um oficial da graduação dele. Já agora, o seu camarada e biógrafo Machado de Oliveira era o comandante da 1.ª Companhia do 2.º Batalhão.

É, já próximo do final da guerra, por volta de 1818-1819, é promovido a tenente coronel, no comando do recém-criado Regimento de Milícias Guarani a Cavalo, de Missões, formado a partir das companhias de milícias a cavalo de Missões (8 de guaranis e 3 de brancos), que vinham já de 1811. Até à independência, chegou a haver um 2.º regimento de Milícias a cavalo Guarani, os famosos lanceiros naturais.

Morre em combate, a 9 de Maio de 1819, com cerca de 30 anos. em S. Nicolau, no comando do seu regimento, ao tentar reocupar o aldeamento às forças orientais. Algumas fontes dão-no como não tendo ainda cumprido o seu 30.º aniversário, sendo que assim terá nascido entre Junho e Dezembro de 1789.

Memória(s) da Campanha de 1816
No manuscrito da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro [conheça aqui, abre nova janela], está ao início uma Advertência que, quando da publicação em 1845, foi omitdo ou não existia no manuscrito usado por Machado de Oliveira. Seja como for, aqui a transcrevo, convidando também  ler a versão publicada na RIHGB, em 1845, que pode ser lida aqui:


Advertencia.
O Amor da Patria, e do meu Soberano me faz tomar o maior interesse por tudo quanto he util, e gloriozo para ambos. A Campanha d' 1816 feita pelas Tropas da Capitania do Rio Grande de S. Pedro do Sul, he pelas brilhantes acçoens militares nella havidas hũa das muitas que fundamentam a digna reputação das Armas Portuguesas, a Gloria Nacional, e a de El Rey D. João 6.º. E dezejando conservar a memoria de tão brilhantes acçoens, assim como os respeitaveis nomes de tantos heróes, q nella fizerão-se remarcaveis, me propuz a escrevêla; e puz em pratica o meu dezejo, prevalecendo o Patriotismo às dificuldades, que me apresentavão as faltas de talentos, e dos conhecimentos precizos de todas as particularidades, que as partes officiaes das mesmas acçoens militares não mencionão, e que exigião pennoza investigação para alcansallas, muito principalmente em meio dos tumultos de hũa guerra activa. Escrevi pois como pude, e expuz os factos taes, e quaes conheci, sem me poupar ao trabalho de investigar a verdade; ficando-me sempre o pezar de o não poder fazer com aquela elegancia, que meresse tão grave assumpto: estimarei porem, que hũa pena digna delle, podendo-se aproveitar da noticia que dou daquelles acontecimentos, os descreva de maneira, que se eternizem os nomes dos meos honrados Patriotas, que trabalhárão com distinção naquella memoravel Campanha, e chegue ao conhecimento das geraçoens vindouras a prezente gloria do meu Rey, e da minha Patria.
O Autor

Imagem de topo
- Várzea do Carmo (Arnaud Pallière). fonte: Wikicommons. São Paulo, 1821.

Fontes
- Gazeta do Rio de Janeiro
LARA, Diogo Arouche de Moraes – Memória da Campanha de 1816, in Revista do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Tomo VII, n.º 26 – Julho de 1845, p.: 123 a 170, terceira edição, Rio de Janeiro ; imprensa Nacional, 1931, p.: 123 a 170.
- ------------ - Apêndice à Memória da Campanha de 1816, in: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo VII, n.º 27 – outubro de 1845, p.: 263 a 317, terceira edição, Rio de Janeiro ; imprensa Nacional, 1931, p.: 363 a 317.
- OLIVEIRA, José Joaquim Machado de, Breve Noticia Biographica sobre o Auctor da Memoria da Campanha de Artigas, in: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo VII, n.º 27 – outubro de 1845, terceira edição, Rio de Janeiro ; imprensa Nacional, 1931, pp. 256-262.

- BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento, Dicionario Bibliographico Brazileiro, v. 2,Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1883. pp. 175-176
- BOEIRA, Luciana Fernandes, Como Salvar do Esquecimento os Atos Bravos do Passado Rio-Grandense: A Província de São Pedro Como um Problema Político-Historiográfico no Brasil Imperial (Tese de doutoramento), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2013pp. 162-163
- CEZAR, Adilson, "Elogio de Adilson Cezar a seu patrono Ten Cel Diogo Arouche de Morais Lara". in: O Guararapes, Órgão de Divulgação das Atividades da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, Aditamento ao N.º 42, Julho e Setembro 2004, http://www.ahimtb.org.br/guarara42a.htm. página de internet [31.1.2018]
SILVA, João Manuel Pereira da , Os varões illustres do Brazil durante os tempos coloniaes. 2 tom. [t. 1], (3.ª Edição),  Rio de Janeiro: B. L. Garnier. 1868

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Exército do Brasil: José Joaquim Machado de Oliveira


O capitão José Joaquim Machado de Oliveira nasceu em São Paulo, a 8 de Julho de 1790, filho do  tenente coronel Francisco José Machado de Vasconcelos e de D. Ana Esmerina (Esméria ou Esmênia) da Silva.

Com um ano e meio de idade, o pai assentou-lhe praça mas só em dezembro de 1807, já com 17 anos, foi reconhecido cadete.  É Alferes em 1809, tenente em 1811 e, finalmente, graduado em capitão em 13 de Maio de 1813, pelos seus serviços na Campanha de 1811-12.

Em 1816, com cerca de 26 anos, é capitão de infantaria da Legião de Voluntários Reais, de S. Paulo, e participa com distinção, nos combates do Passo de Yapeyú e na batalha de S. Borja, e, já em Janeiro, na Surpresa de Arapey, sempre sob o comando direto do tenente coronel José de Abreu.

* * *

Fontes
- VV AA, Anno biographico Brazileiro: 2, Volumes 1-3, Rio de Janeiro, Imperial Instituto Artístico, 1876.

Leia também
- Celebração da Paixão de Jesus Christo entre os Guaranys (Março de 1818) (J. J. Machado de Oliveira)
https://dvr18151823.blogspot.pt/2018/03/celebracao-da-paixao-de-jesus-christo.html

domingo, 18 de novembro de 2018

Liga dos Povos Livres: José Fructuoso Rivera


O coronel JOSÉ FRUCTUOSO RIVERA (Y TOSCANA) nasceu a 17 de outubro de 1784 em Durazno, filho do proprietário rural Pablo Hilarión Perafán de la Rivera Bravo e de D. Andrea Toscano. Era também conhecido por D. Frutos.

Alista-se desde logo às forças patriotas em 1811, como Alferes, assistindo à tomada de Colla (hoje Rosário) a 20 de abril, e participando no combate de San José, cinco dias depois, sob o comando de Venancio Benavides. Já como Teniente, incorpora-se no exército de José Artigas no Canelone Chico, cinco dias antes da batalha de Las Piedras, a 15 de Maio de 1811, em que terá participado, sendo graduado em Capitán após a mesma.

Em 1812, combate a primeira invasão portuguesa na zona de Missões, sob o comando de Fernando Otorgués. Participa depois no 2.º sítio a Montevideu, entre 1812 e 1813, em várias ações, ganhando reputação entre os seus pares. Foi ferido numa ação no arroio Seco a 1 de novembro de 1812. A 31 de dezembro, participa na ação do Cerrito, sendo efetivado no posto de capitán por essa altura. 


Em 1813, comanda pela primeira vez colunas independentes das três armas, sendo promovido em seguida a Sargento Mayor, pouco antes da ação de Sótea (esta contra uma força centralista, fiel a Buenos Aires).  Já como Teniente Coronel, comanda as forças federais na batalha de Los Guayabos, onde derrotou um exército de Buenos Aires, a 10 de Janeiro de 1815. É promovido a Coronel da linha do Ejercito Oriental, com o comando do novo Regimiento de Dragones [de la Libertad]. 

Em 1816, com 32 anos, comanda a División de Observacion (ou de La Derecha), na zona de Rocha e Maldonado, destinada a observar e conter a Divisão de Voluntários Reais. Foi anteriormente o governador militar da cidade de Montevidéu por grande parte de 1816, até Setembro, quando sai em campanha.

Comanda as forças federais na batalha de India Muerta, onde é derrotado apesar das suas felizes escolhas táticas, na Ação de Santa Lucia e na observação/sítio a Montevideu, após cair em mãos portuguesas.

Vem a ser, em 1830, o primeiro presidente da República Oriental do Uruguai.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Exército do Brasil: Félix José de Matos Pereira de Castro

O coronel FELIX JOSÉ DE MATOS PEREIRA DE CASTRO nasceu em Monção, em 1772, filho do capitão José de Matos Pereira e de D. Maria Quitéria Pereira de Castro.

Assenta praça na 2.ª companhia do Regimento de Artilharia do Porto a 11 de fevereiro de 1785, sendo promovido a cabo de esquadra, cinco anos depois, em dezembro de 1790. 
A 16 de outubro de 1791, passa ao Regimento de 
Artilharia da Marinha, como sargento, estando embarcado em várias ocasiões na fragata Tétis, entre outras embarcações. 

Sendo 1.º tenente da Brigada Real de Marinha, passa ao Exército do Brasil, a 11 de agosto de 1800, como sargento mor do Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande.

Em 1816, com 44 anos, é coronel do seu batalhão e foi o primeiro comandante da Coluna do Centro, que atuou entre Melo e Santa Lucia, sendo substituído pelo brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto em Outubro.

Foi ele o comandante que iniciou as hostilidades quando entra em território oriental a 9 de Agosto de 1816, forçando a Guarda do Arredondo, e toma a vila de Melo, a 13, arvorando o pavilhão português.

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terça-feira, 18 de setembro de 2018

Exército do Brasil: Bento Manuel Ribeiro



O tenente Bento Manuel Ribeiro nasceu em Sorocaba (SP), no ano de 1783, filho do tropeiro Manuel Ribeiro de Almeida e de D. Ana Maria Bueno. 

Após concluir os primeiros estudos, alistou-se a 1 de Dezembro de 1800 no Regimento de Milícias de Rio Pardo. Fez a campanha de 1801 como soldado, acompanhado de seu irmão capitão Gabriel Ribeiro de Almeida. Comandado pelo coronel Patrício Correia da Câmara, participou da expulsão dos espanhóis de Batovi e da fortaleza de Santa Tecla.

A 1 de Janeiro de 1808 foi promovido a furriel, tendo participado com distinção nas Campanha de 1811-1812. É promovido a tenente a 17 de Dezembro de 1813.

Em 1816, com 33 anos de idade, é tenente do Regimento de Cavalaria de Milícias do Rio Pardo e vem a participar nas batalhas de Ibirocaí, Carumbé e Catalán, e no combate de Santana.

[Durante a campanha vem ser graduado e promovido a capitão, em 1817 e 1818.]


domingo, 16 de setembro de 2018

Exército do Brasil: Gaspar Francisco Mena Barreto


O tenente Gaspar Francisco Mena Barreto nasceu em Rio Pardo a 24 de Outubro de 1790, filho de João de Deus Mena Barreto, futuro visconde de S. Gabriel, e da D. Francisca Veloso. 

Com cerca de 13 anos, assentou praça no Regimento de Dragões do Rio Grande (popularmente conhecidos como do Rio Pardo). Participou na campanha de 1811-1812, tendo tomado parte nos assaltos aos fortes de S. Teresa e S. Miguel

Em 1816, aos 26 anos, era tenente do Regimento de Dragões do Rio Grande e vem a participar em várias ações, nomeadamente o combate de Santana, onde comandou as forças do seu regimento, e as batalhas de Carumbé e Catalán. Por distinção, virá a ser promovido a capitão do seu regimento após a campanha, em 1817.

De acordo com o sítio “Gaúchos Ilustres: M-O” in: Maragato Assessoramento [Visitar Página],  “Gaspar Francisco Mena Barreto era poeta e homem de letras, destacando-se suas “ordens do dia” - que os companheiros achavam fora das normas usuais”.

Legou-nos a sua visão do que aconteceu no Combate de Santana, sendo uma de duas memórias portuguesas desse recontro inicial da campanha. [LER]

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Exército do Brasil: Tomás da Costa Rebelo Correia e Silva


O brigadeiro graduado Tomás da Costa Rebelo Correia e Silva nasceu em Castro Marim, no Algarve, a 6 de Março de 1768, filho do capitão Belchior da Costa Correa Rebelo e de D. Ana Joaquina Correa da Silva. Era de descendência nobre, da família Costa de alcaides mor de Lagos.

Assenta praça de voluntário na 5.ª Companhia de Granadeiros do Regimento de Infantaria de Tavira a 18 de Janeiro de 1788, com quase 20 anos, passando ao Regimento de Artilharia do Algarve a 1 de Julho do ano seguinte. Um mês depois, a 9 de Agosto é declarado cadete de artilharia. Matriculou-se na Universidade de Coimbra em 1788, tendo-se formado em Filosofia em 1791 e em Matemática em 1792. De acordo com os livros mestre regimentais, tinha cabelos castanhos, olhos azuis e media 1,74 m.
A 15 de Setembro de 1791, é promovido a 2.º tenente da 5.ª Companhia de Artilheiros. Quatro anos depois, a 18 de Julho de 1795, é promovido diretamente a capitão Ajudante d'Ordens do novo Capitão General de São Paulo, D. António Manuel de Melo e Castro de Mendonça, passando assim ao Brasil, pelo menos em 1797.
A 19 de Novembro de 1797, é promovido a sargento mor da recém criada Brigada de Artilharia a Cavalo da Corte, sendo confirmado no posto a 10 de Outubro do ano seguinte.

Em 1805, é promovido a tenente coronel do Regimento de Dragões do Rio Grande (conhecidos popularmente como Dragões do Rio Pardo), com o exercício de lente das tropas da capitania do Rio Grande de S. Pedro. Cinco anos depois, a 22 de Setembro de 1810 é promovido a coronel agregado do seu regimento, sendo depois graduado em Brigadeiro a 13 de Maio de 1813, pelos seus serviços na campanha de 1811/1812.

Em 1816, com 48 anos,  é brigadeiro comandante do Regimento de Dragões do Rio Grande. Apesar de estar presente ao início das campanhas no distrito de Entre Rios (Quaraím e Ibicuí), tendo sido ele o comandante que enviou o tenente coronel José de Abreu à vitória na margem ocidental do rio Uruguai em inícios de Outubro, não tem participação visível nas operações posteriores, sendo o regimento comandando interinamente pelo sargento mor Sebastião Barreto Pereira Pinto.

sábado, 5 de maio de 2018

Estado Maior: José Ferreira da Cunha


O sargento mor José Ferreira da Cunha nasceu em Almeida por volta de 1786, filho de José Ferreira da Cunha.

Assentou praça e jurou bandeiras no Regimento de Infantaria de Almeida em 9 de Setembro de 1801, aos 15 anos de idade, tendo por fiador o seu tio, Simão José da Cunha. De acordo com os livros mestre do regimento, tinha olhos e cabelos castanhos e media 58 polegadas, cerca de 1,60 metros. Foi promovido a furriel em 16 de Fevereiro de 1805, na 5.ª companhia.  

Após a restauração, apresentou-se no regimento a 21 de Julho de 1808, e foi promovido a primeiro-sargento dias depois, a 1 de Agosto, passando a servir na 4.ª companhia do regimento. 

A 14 de Janeiro de 1809 é promovido a alferes, passando a servir por essa altura como ajudante de ordens do coronel Carlos Frederico Lecor, quando este assumiu o comando militar da Beira Baixa. 

A 16 de Maio de 1810, é promovido a tenente. Apesar de ser ajudante de ordens de Lecor desde o início de 1809, só a 2 de Maio de 1812 é confirmado no lugar, ficando desligado do Regimento de Infantaria n.º 23. A 3 de Janeiro de 1814, é promovido a Capitão, no mesmo exercício. 

A 22 de Junho de 1815, com 29 anos, é promovido a Sargento Mor Ajudante de Ordens do Comandante em Chefe da Divisão de Voluntários Reais.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Liga dos Povos Livres: Andrés Guaçurari y Artigas


O comandante ANDRES GUAÇURARÍ Y ARTIGAS, Guarani, nasceu em S. Tomé, a 30 de Novembro de 1778, embora alguns historiadores indicam S. Borja, do outro lado do rio. 

Ingressou nas fileiras revolucionárias de Manuel Belgrano que, em 1811, marcharam contra os realistas no Paraguay. Com Belgrano, marchou depois para a Banda Oriental, onde acaba por aderir à causa de José Artigas, sendo inclusive adotado por ele. Era um forte advogado de que todas as Missões eram o mesmo povo e deveriam ser unidas, como antes de 1801.

Em 1812 é já capitão dos Blandengues, encarregado do comando militar de Missiones. Em 1815, é governador da província de Corrientes. 

Em 1816 comanda a invasão inicial das Missões Orientais, montando cerco a S. Borja, de 21 de Setembro até inícios de Outubro. É derrotado na batalha de S. Borja, a 3 de Outubro. Mantém-se ativo em Missiones e Corrientes, defendendo contra uma invasão de Francisco das Chagas dos Santos entre Janeiro e Março de 1817. 

Em 1818, fez operações em Corrientes, não participando nas ações a oriente do Uruguai. Em 1819, retorna a Missiones e confronta-se de novo com Chagas dos Santos, onde após uma sucesso parcial, é capturado a 24 de Junho de 1819, no Paso de San Isidro e enviado para o Rio de Janeiro onde ficou na prisão da Ilha das Cobras.

Leia também

Batalha de São Borja (3 de Outubro de 1816) [LER]

Liga dos Povos Livres: José Antonio Berdún


O coronel JOSE ANTONIO BERDÚN nasceu em 1778, em Montevideu. 
De acordo com testemunhos de camaradas seus, iniciou o seu serviço militar em 1801 como soldado do Regimiento de Milicias Orientales, sob o comando do capitán Manuel Calleros, e participou nas operações contra os portugueses em 1801, na fronteira do Cerro Largo e do Jaguarão, próximo do Atlântico.

Após a revolução de Maio de 1811, Berdún aderiu à causa revolucionária, prestando serviço na 2.ª Divisão Oriental, comandada pelo coronel Manuel Francisco Artigas. Participa na batalha de Las Piedras, a 18 de Maio de 1811.

Desde 1814, comanda um regimento de Cavalaria da Divisão de Blas Basualdo. Em 1815, comanda uma divisão sua na zona de Arroyo de la China. Tinha então 37 anos de idade e 14 de serviço e era então coronel, não se sabendo mais sobre a sua progressão até aí.

No comando de uma força oriental de 800 homens, destinada a pressionar o flanco português assim como apoiar os esforços da divisão de Andresito nas missões, Berdún é derrotado por João de Deus Menna Barreto, na batalha de Ibirocaí, a 19 de Outubro de 1816. 
Reagrupando algum do seu comando, junta-se às força de Andrés Felipe Latorre, que estão na fronteira de Santana. Comanda a infantaria e artilharia de Latorre na batalha de Catalán, onde é ferido.

A 15 de Setembro de 1817, é capturado por Bento Manuel Ribeiro em Belén e remetido a Porto Alegre e depois o Rio de Janeiro.

Fontes
- SALDAÑA, Jose M. Fernandez, Diccionario Uruguayo de Biografias 1810-1940, Ed. Amerindia, Montevideu, 1945.

Leia também
- Batalha de Ibirocaí (19 de Outubro de 1816):

sábado, 17 de fevereiro de 2018

1.º Brigada: João Carlos de Saldanha de Oliveira e Daun


O coronel JOÃO CARLOS DE SALDANHA DA OLIVEIRA E DAUN nasceu no Palácio da Anunciada, em Lisboa, a 17 de novembro de 1790, nono filho do 1.º conde do Rio Maior, João Vicente de Saldanha Oliveira e Sousa Juzarte Figueira, e da D. Maria Amália de Carvalho Daun, filha dos 1.os marqueses de Pombal.

Assentou praça e jurou bandeiras como cadete do Regimento de Infantaria de Lippe, aos 14 anos de idade, em 28 de Setembro de 1805. No ano seguinte, a 24 de Junho de 1806, é promovido a capitão agregado da 10.ª companhia, beneficiando de um decreto desse mesmo ano que permitia a promoção direta a capitão aos filhos de conselheiro de Guerra. Exatamente um ano depois, passa a capitão efetivo no comando da 8.ª companhia, estando a patente assinada de 18 de Agosto. 
Entre 1805 e 1807, frequentou os três anos da Academia Real de Marinha com distinção.

Foi escuso do Real Serviço em 6 de Fevereiro de 1808, por moléstia, em protesto confessado à dominação francesa e para evitar servir na futura Legião Portuguesa, ao serviço de Napoleão. 
Após a restauração, apresentou-se ao serviço em Outubro de 1808, reassumindo o comando da 8.ª companhia e, em 9 de Dezembro de 1809, era promovido a sargento mor (major) do agora Regimento de Infantaria n.º 1. A 5 de Fevereiro de 1811, com 21 anos de idade, é promovido a tenente coronel. Participa com distinção nas batalhas do Buçaco, em 1810, e de Salamanca, ou Arapiles, em 1812. 

A 5 de Fevereiro de 1812 vai para o Regimento de Infantaria n.º 13, onde permanece até ao fim da Guerra Peninsular, tendo participado novamente com distinção nas batalhas de Salamanca, em 1812, e de Vitoria, em 1813, e posteriormente no sítios de San Sabastian e na Batalha de Nive. Em Setembro de 1812, comandou interinamente a 10.ª Brigada Portuguesa, que atuava de forma independente no exército de operações aliado.

Com 25 anos, a 22 de Junho de 1815, passa à Divisão de Voluntários Reais do Príncipe como coronel adido, tornando-se já no Rio de Janeiro comandante do 1.º Regimento de Infantaria da Divisão de Voluntários Reais, após a reorganização da grande unidade.

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Leia também:




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Imagem (ao topo): Retrato de Saldanha, enquanto brigadeiro (década de 1820)

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Armada Real: Rodrigo José Ferreira Lobo



O chefe de divisão RODRIGO JOSÉ FERREIRA LOBO nasce em Lisboa, muito provavelmente em 1768.

Foi para o Brasil, onde assenta praça, em 13 de Maio de 1783, no Regimento de Cavalaria de Minas Gerais. 


Algumas fontes indicam que era um protegido da casa dos Marialvas, nomeadamente de D. Rodrigo José António de Meneses (1750-1807), 1.º conde da Cavaleiros, e filho dos 4.ºs marqueses de Marialva. Além de partilhar os mesmos nomes próprios, o que pode sugerir uma relação de apadrinhamento religioso, a carreira do oficial acompanha proximamente a carreira do conde de Cavaleiros como dirigente colonial no Brasil (capitão general de Minas Gerais, entre 1780 e 1783, e da Bahia, entre 1784 e 1788). Não havendo provas concretas, é de crer que o jovem Rodrigo José tenha ido para o Brasil na companhia do novo governador de Minas Gerais, usufruindo do seu patrocínio na fase inicial da carreira.

Em 1784, passa ao Regimento de Artilharia da Bahia, como soldado, galgando os postos até 2.º tenente. A 30 de Janeiro de 1786, é já 1.º tenente da companhia de Galeão (ou Burlote) do regimento e comanda o bergantim Nossa Senhora da Conceição, em ação contra contrabandistas no litoral. A 6 de Janeiro de 1787, recebe carta patente de capitão de artilharia. 

Passa à Armada real como voluntário em Agosto de 1790, na fragata Minerva. Entre 1790 e 1798, Rodrigo José esteve embarcado nas fragatas S. João Príncipe, Carlota, S. Rafael e Tritão, tendo sido promovido a segundo tenente a 1 de Fevereiro de 1791, a primeiro tenente, a 16 de Novembro de 1793, e finalmente a capitão tenente, 3 anos depois. 

Comandou depois, entre 1798 e 1808, os bergantins Lebre e Voador, as fragatas Andorinha, Princesa do Brasil, S. João Príncipe e Minerva e a Nau Medusa, de 64 peças. Durante este período foi promovido a capitão de fragata no primeiro dia de 1800 e a capitão de mar e guerra a 17 de Dezembro de 1806. Em 1807, responde a um conselho de Guerra pela perda da fragata S. João Príncipe, de que era comandante, tendo sido absolvido.

Comanda a fragata Minerva, na esquadra que leva a Família Real ao Brasil em 1808. A 8 de Março desse mesmo ano, é promovido a chefe de divisão (posto equivalente ao atual comodoro). 

Em 1810, é nomeado comandante da Esquadra do Estreito, na nau Vasco da Gama. É sujeito posteriormente a conselho de guerra, com base nos eventos num encontro com argelinos no dia 4 de Maio de 1810, próximo de Gibraltar, tendo sido declarado culpado num primeiro conselho, com o mesmo resultado num segundo, num processo que durou 4 anos, e que só termina quando a 26 de Janeiro de 1815, o Príncipe Regente D. João o absolve, devido a irregularidades processuais. Em 1815, é o comandante do Arsenal Real de Marinha, não sendo certa a data da sua nomeação.

Em 1815, com cerca de 47 anos, é nomeado o comandante da esquadra que transporta a Divisão de Voluntários Reais do Príncipe ao Rio de Janeiro e a Santa Catarina. A par de Carlos Frederico Lecor e Sebastião Pinto de Araújo Correia, estes na componente terrestre, é um dos oficiais nomeados desde o início nas primeiras ordens do governo do Rio de Janeiro ainda em Dezembro de 1814.  

Comandou, a partir na nau Vasco da Gama, a tomada de Maldonado, a 22 de Novembro de 1816. 


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Leia também:

Bibliografia
- Innocencio Francisco da Silva et al., Diccionario Bibliographico Portuguez, Volumes 7-8, Lisboa: Imprensa Nacional, 1862;
- Joaquim Pedro Celestino Soares, Quadros Navaes: ou, Colleccão dos Folhetins Maritimos do Patriota. Tomo I. Lisboa: Imprensa Nacional, 1861;
- Eduardo de Castro e Almeida (Org.), Inventários dos Documentos Relativos ao Brasil existentes no Arquivo de Marinha e Ultramar de Lisboa, volume 3 (Bahia, 1786-1793), Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1913 - disponível na internet aqui
- Comissão Brasileira dos Centenários de Portugal, Os Portugueses na Marinha de Guerra do Brasil: contribuição comemorativa dos centenários de Portugal (1139-1640), Rio de Janeiro: Estados Unidos do Brasil, 1940 - disponível na internet aqui.


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- Memoria dos acontecimentos mais notaveis, pertencentes aos dois concelhos de guerra feitos ao chefe de divisão, Rodrigo Jozé Ferreira Lobo, pelo encontro dos argelinos no dia 4 de maio de 1810: defeza do chefe e decisão da cauza, Londres: T. C. Hansard, 1815 - ler online.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Exército do Brasil: Luís Teles da Silva Caminha e Meneses, Marquês de Alegrete


capitão general, marechal de campo, LUÍS TELES DA SILVA CAMINHA E MENESES, 5.º e último marquês do Alegrete e 8.º conde de Tarouca, nasceu em Lisboa,  a 27 de abril de 1775, filho de Fernando Teles da Silva Caminha e Meneses, 3.º marquês da Penalva, e de D. Maria Rosa de Almeida, filha dos 2º marqueses do Lavradio.

Em 23 de Abril de 1789, com 14 anos, assenta praça e jura bandeiras no Regimento de Infantaria do Marquês das Minas (um dos três regimentos de infantaria em Lisboa na altura, que vem a ser conhecido logo de seguida como o de Freire e que, em 1806, se torna o n.º 4). A 18 de Junho de 1790, é dispensado do exercício do seu posto para frequentar a Academia Real de Fortificação, Artilharia e Desenho, criada nesse mesmo ano. É promovido a tenente a 14 de Agosto de 1792. Um ano depois, a 1 de Setembro de 1793, é graduado em capitão, mantendo o exercício de tenente. A 25 de Abril de 1794, torna-se capitão efetivo.

Mantendo o ritmo de ascensão, é graduado em sargento mor (ou major), a 1 de Março de 1795, e no final desse mesmo ano, a 17 de Dezembro, torna-se sargento mor efetivo com graduação em tenente coronel. É nesta situação que passa ao Regimento de Infantaria de Peniche, a 30 de Março de 1796.

Em Junho de 1804, é graduado em coronel do Regimento de Infantaria de Lippe (n.º 1, como fica numerado daí a dois anos), tornando-se o seu coronel efetivo a 18 de Agosto de 1805.

Acompanha a Corte na transferência para o Brasil, em Outubro de 1807. A 13 de Maio de 1808, é promovido a brigadeiro, ficando agregado ao 3.º Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro.

A 1 de Novembro de 1811, torna-se capitão general da província de São Paulo. Em 13 de novembro de 1814, toma posse como capitão general de São Pedro do Rio Grande do Sul. 

Com 41 anos, comanda todas as forças da Capitania do Rio Grande, comandando-as no terreno na batalha de Catalán.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Exército do Brasil: José de Abreu

O tenente coronel JOSÉ DE ABREU nasceu em 1770 em Maldonado (Banda Oriental), filho de João de Abreu e de Ana Maria de Souza, colonos riograndenses deslocados para lá em razão da invasão espanhola do Rio Grande.

A 28 de Dezembro de 1784, retornando à província dos seus pais, assenta praça como soldado no Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande, sendo promovido a cabo de esquadra em 1794. 

Quatro anos depois, em 1798, é cadete porta estandarte no Regimento de Dragões do Rio Grande. A 25 de julho de 1808 é promovido a tenente. Até 1810, era tenente da 7.ª companhia do seu regimento.

Em agosto de 1810, é graduado em capitão [dados adicionado a 30.12.2018].

Após o fim da campanha de 1811/1812, foi promovido a capitão, com antiguidade de 11 de junho de 1811. É promovido a tenente coronel a 20 de janeiro de 1813 e nomeado comandante dos Esquadrões de Cavalaria Miliciana de Entre Rios (distrito entre os rios Quaraí e Ibicuí).

Em 1816, com 45 anos, comanda, com grande distinção, as forças portuguesas nas batalhas de São Borja e Arapey, repelindo na primeira uma invasão oriental por Andrès Guaçurary y Artigas e derrotando na segunda o próprio José Artigas no seu quartel general de campanha. Teve ainda um papel importante nos instantes finais da batalha de Catalán, um dia depois de Arapey.



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João Simões Lopes Neto (1865-1916), escritor brasileiro, dá-lhe o epíteto de 'Anjo da Vitória', nos seus Contos Gauchescos, de 1912.

Saiba mais sobre José de Abreu no excelente blogue "Eu, tu, eles: passado, presente, futuro":
- José de Abreu (i) : Repositório [aqui]

domingo, 17 de setembro de 2017

Tenente Luiz Faiada, um oficial de Lanceiros Guaranis


Remexendo vasta documentação, é rara a vez em que um militar guarani  é indicado por nome nos relatórios oficiais por mérito e feitos em campanha. 
Ao esquadrão de Lanceiros Guaranis destacados no comando de José de Abreu, por exemplo, nunca é atribuído um comando a um guarani ou este não é mencionado nunca.

O Sentinela, por Breresa
Alguns oficiais das Milícias das Missões são mencionados porém por terem desertado à causa federal e republicana, comandada ali por Andrés Artigas, "Andresito" ou "Artiguinhas", mas apenas encontrei uma menção por mérito e ainda assim numa fase já recrudescente da campanha, com Artigas fraco e na defensiva. 



Tenente Luís Faiada
Felizmente, o tenente Domingos legou uma relação dos eventos da Campanha Além do Uruguai, realizada entre Janeiro e Março de 1817, em que os portugueses invadem a província de Corrientes. A relação nomeia este oficial, tenente Luís Faiada, guarani, numa nota final da sua relação, relativamente a um combate decorrido no início da campanha, a 19 de janeiro de 1817, no passo da Cruz, próximo a Yapeyú:
N. B. No encontro da passagem de Luís Carvalho com o Capitão Vicente [Tiraparé] de Naturais este saiu baleado escapando de morrer por negar fogo a pistola do Tenente Luís Faiada dos nossos Guaranis que este o seguiu pelo meio da rusma dos garruchos a fim só de matar o dito Vicente, porém tendo a infelicidade da pistola lhe negar fogo por causa de um papel que tinha no fogão, dando volta ao seu cavalo meio rodou em um cupí e como estava muito longe da nossa gente e muito no centro da garruchada gritou logo o Vicente que o matassem com as lanças o que puseram em obra, porém o dito Faiada se pôs logo imediatamente a pé com a sua espada na mão e se defendeu das lanças até que chegou socorro da nossa gente, não deixando de ficar ferido de uma lançada na coxa a qual chegou a criar bicho(s) sem este dito tenente Faiada nunca querer dar-se por doente, e foi continuando sempre em todas as diligências que fez o tenente Luís Carvalho; nesta ação tomou-se um morteiro o qual traziam montado em um armão fincado em um cepo, o qual no primeiro tiro que fizeram saltou do dito armão pela boa segurança em que vinha pois era um armão feito por eles.
Andres Artigas.
O tenente Domingos (tudo leva a crer ser Domingos José das Neves dos esquadrões de Voluntarios Reaes de Entre Rios, comandados pelo tenente coronel José de Abreu), fala não só dos feitos de coragem e heroísmo pessoal de Luís Faiada, mas que estes são motivados pessoalmente pela vingança sobre um capitão Vicente, desertor. 
Este Vicente é Vicente Tiraparé, conforme é nomeado nas listas de oficiais dos esquadrões guaranis organizados em 1811, como comandante da 1.ª companhia. Tiraparé e toda a sua companhia vêm a desertar e aderem à causa republicana de Artigas.


Oficial Guarani Recomendado
O brigadeiro Francisco Chagas dos Santos, no final da sua vigorosa campanha em Corrientes, saqueando e destruíndo, de forma a completar os sucessos na área de Santana do Livramento e Catalán [leia mais aqui], refere-se a Luís Faiada, não pelo nome, mas pela notícia de um miliciano guarani com um ferimento em todo semelhante. Parece-me claro que é Luís Faiada, a quem Chagas do Santos se refere, mas tendo em vista o que ele fez, possivelmente uma menção ao nome pudesse ser o mínimo...

Chagas do Santos, numa carta muito extensa ao comandante de Fronteira marechal de campo (hoje major general ou general de divisão) Joaquim Xavier Curado, refere-se muito brevemente a Faiada:

[...] do tenente Carvalho cuja retirada não deixou de ser assaz demorada, em razão de conduzir 3 carretas com alguma herva mate, 740 cavallos, 130 mulas, e 308 rezes de gado vacuum, havendo deixado recommendado em uma casa conhecida um miliciano guarani, que quebrou uma coxa.
O nome não é referido, mas a 'recomendação' em que foi deixado a recuperar numa casa 'conhecida', possivelmente impossibilitado de viajar, e a natureza do ferimento, que coincide em Domingos e em Chagas Santos, indica-nos que se trata do corajoso tenente de milícias.

Luís Faiada não aparece como oficial na organização inicial das oito companhias de milícias guaranis, seis anos antes em 1811, pelo que é de supor que tenha sido feito oficial posteriormente, mesmo até sabendo que toda uma companhia (pelo menos) desertou para a causa de Artigas, abrindo decerto vagas para promoção.

Guaranis anónimos
É bem vincada e visível a descriminação (como se diz hoje) pela qual um oficial português, guarani puro, não chega a ser nomeado pelo nome, ainda que seja nomeada a particularidade de o deixar a recuperar de ferimentos, recomendado, em Corrientes. Isto em carta ao comandante das Tropas do Rio Grande em operações.

As milícias guaranis não eram vistas à mesma luz que as restantes milícias brancas e caboclas da zona de Missões e Entre Rios, apesar de de estarem tão comprometidas militar e politicamente com a autoridade real portuguesa e com a segurança da sua terra.
Em 1811, havia em Missões oito companhias de milícias guaranis, 'naturaes', e três companhias de 'brasileiros' residentes em Missões (a primeira delas comandada por um dos heróis de 1801, que conquistaram Missões, Gabriel Ribeiro de Almeida [memórias]).


Lanceiros Originais
As milícias no Exército do Brasil eram divididas por 'raça', desde o século XVII, e a sua posição na hierarquia militar era exatamente a mesma que a que detinham socialmente no mundo civil, mas exclusivamente o meio de promoção social mais eficaz para quem combatesse bem.

Ainda que socialmente na base do Exército do Brasil, os guaranis eram presença assídua na vanguarda das tropas do Rio Grande em 1816 e 1817, pelo seu conhecimento do terreno e adaptação às condições locais. José de Abreu usa-os sempre na sua vanguarda, assumindo funções que modernamente diríamos de reconhecimento. 
São eles o primeiro verdadeiro uso moderno de Lanceiros tanto em Portugal como no Brasil. Oficialmente, apenas em 1832, é que é levantado um regimento de Lanceiros, ainda hoje ativo (Lanceiros 2); quanto no Brasil, são então primeiros inovadores, os guaranis da províncias das Missões orientais, oficialmente em 1811.

A forma tradicional guarani de fazer a guerra mantinha-se, mas no serviço do rei português. Não por acaso, o teatro de operações de Missões foi o mais sanguinolento e feroz, tanto a nível militar como civil, devido à enorme politização das sete Missões Orientais, portuguesas apenas desde 1801.
Quando Andres Artigas monta cerco a S. Borja, a sua primeira proposta de rendição da vila pelo portugueses, a 21 de setembro de 1816, é clara em que todas as Missões, orientais e ocidentais devem ser únicas sob a égide da Liga de Povos Livres, de Artigas.

Reivindicação
Fica então contada, no que se pôde, a história do tenente Luís Faiada, em dois breve traços do tempo. Não descobri mais nada sobre ele, nomeadamente se retornou a Missões orientais e o que fez na vida, inclusive se pereceu eventualmente devido aos seus ferimentos. 

Se o espírito da época diminuía os guaranis, nós agora não podemos senão evidenciar feitos militares, sejam eles de quem for. Hoje em dia, este tenente receberia uma condecoração de coragem, por arrojo face ao inimigo com desprezo da sua própria vida; é justo então que o mérito seja pois honrado.

Imagens
- Ruínas da igreja de S. Miguel, nas Missões orientais.
- "O Sentinela", de Beresa, 1991.

Fontes
- ARQUIVO HISTÓRICO DE ITAMARATY, Ministério das Relações Exteriores: AHI-REE-00944: “Rio da Prata: Documentos sem importância – 16 folhas, 1811-1818”.
- LARA, Diogo Arouche de Moraes, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista Trimensal de História e Geografia, n.º 26, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Julho de 1845, pp. 125-328.
- PORTO, Aurélio, História das Missões Orientais do Uruguai - Segunda Parte (2.º Edição), Porto Alegre, Livraria Selbach, 1954. [Ler]

Biografia: brigadeiro Francisco de Chagas Santos
Biografia: marechal de campo Joaquim Xavier Curado