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quinta-feira, 14 de março de 2019

Batalha de S. Borja: A primeira notícia


Junto apresento a transcrição de um excerto de correspondência onde é apresentada a primeiríssima notícia da batalha de S. Borja, dada por Hipólito Francisco de Paula ao tenente general Joaquim Xavier Curado, que a comunica desde logo ao marquês de Alegrete, em Porto Alegre.

Apenas 6 dias após a batalha ela mesma (ocorrida a 3 de Outubro, leia mais), verifica-se pela narração de Hipólito Francisco de Paula que este se terá apartado da coluna de José de Abreu por volta desse mesmo dia ou no dia seguinte, de forma a cumprir os cerca de 175 km de distância entre S. Borja e o acampamento do rio Ibirapuitã, onde o grosso do exército da Capitania do Rio Grande estava. Os eventos descritos referem-se exclusivamente ao dia 3 de Outubro, parecendo claro que este primeiro mensageiro não assistiu aos eventos que ainda decorreram nos dois dias seguintes à batalha.

«Suposto que não tive parte oficioza do Tenente Coronel Jozé de Abreo sobre o rezultado da diligencia de Missoens, com tudo chega agora Hipolito Francisco de Paula, paizano que se offereceu voluntario para o ataque dos Insurgentes no Distrito de Missoens, dizendo me, que o referido Tenente Coronel Abreo o mandava incumbido da obrigação de dar-me parte vocal do rezultado do ataque, prencipiando no dia trez, the o dia cinco do Corrente, por não lhe ser possivel escrever-me no barulho da acção, remetendo-me com antecipação todos os papeis que forão achados a André Artigas, Comandante da acção, que se escapou.
Este homem enviado narra o seguinte:

= Que no dia tres do Corrente chegou a Coluna comandada pelo Tenente Coronel José de Abreo ás dés Óras da manhãa em frente ao Passo de São Borja, que se achava com quatorze dias de Citio apertado: que logo que o Enemigo avistou a nossa coluna, sahio a encontrar-la, e emboscando-se em hum laranjal atacou-a furiozamente; porem sem efeito por que a nossa Tropa depois de huma Óra de fogo atacou com a espada na mão e destrosando inteiramente // os Enemigos, lhes tomou duas Pessas de Artelharia, e grande quantidades de armamentos: que aquelles que escaparão deste primeiro encontro correrão precipitadamente ao Passo do Uruguay, onde forão novamente atacados, e mortos quase todos, e alguns passarão o banhado de Santa Luzia, e ficarão com a retirada cortada; por que o Butuy, e o Uruguay estando muito cheios lhes prohibe a passagem: e que o tenente coronel comandante hia atacalos; para acabar com o resto dos insurgentes: que se avalia o numero dos mortos dos enemigos em mil homens, quaze todos indios, e mestiços, dous negros, e hum branco, e muitos prizioneiros; e entres estes alguns dos nossos indios, que se tinhão revoltado, sendo o chefe destes o indio João da Cruz; e que outro indio Chará se distinguio muito a favor da nossa cauza: que a nossa perda concistio em sete homens mortos, destes cinco milicianos, e dous da Legião de São Paulo, e doze ou quatorze feridos: que os enemigos tinhão já proximo o reforço pelo o Uruguay, distinado pelo o Artigas, e que já se achava no Passo pronto a desembarcar; porem que o destrosso geral dos Citiantes o brigou a // a retirar-se precepitadamente, sendo perseguido pelos nossos, que meterão a pique huma canoa carregada de tropa; e que os outros Barcos se retirarão pelo o Uruguay abaixo.

Logo que receba a partecipação oficioza do Tenente Coronel Jozé d'Abreo, terei a onra de levar á prezença de V. Ex.ª.»


Fonte
Carta do tenente general Joaquim Xavier Curado ao capitão general Marquês de Alegrete, 9 de Outubro de 1816, in: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

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Nota Biográfica
Hipolito Francisco de Paula – Natural do Paraná, e referido em algumas fontes como tenente, terá sido em 1814 o primeiro povoador do Rincão de São Miguel, obtendo a Sesmaria de São Jerônimo, local onde foi criada a fazenda do Pinhal.

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Saiba mais sobre a Batalha de S. Borja e as ações da coluna do tenente coronel José de Abreu em:

Batalha de São Borja (3 de Outubro de 1816)

Ação do Passo de Yapeyú (21 de setembro de 1816)



terça-feira, 8 de maio de 2018

Tomada de Colónia do Sacramento (Maio de 1818)


No início de Maio de 1818, e após quase um ano e meio após a tomada de Montevideu, vários habitantes de origem portuguesa de Colónia, liderados por Salvador Antunes Maciel, levantam-se contra a autoridade oriental e hasteam a bandeira portuguesa, aproveitando o apoio dado pelo chefe de divisão [hoje em dia, comodoro] António Manuel de Noronha (1772-1860) que estava ancorado diante da povoação, com três corvetas e mais alguns barcos armados.

Após os revoltosos aprisionarem o comandante de Colónia e a pequeníssima guarnição, o capitão de fragata Diogo Jorge de Brito desembarcou com artilharia, e montou as suas peças num reduto que foi construído. Hernani Donato, no Dicionário de Batalhas Brasileiras, apresenta o dia 2 de Maio, como o dia da rebelião.

Colónia do Sacramento
No início de 1815, o sargento mor João Vieira de Carvalho, do estado maior da Capitania do Rio Grande, referia que Colónia tinha “as suas fortificações [...] em terra, e apenas existem uns miseráveis restos de povoação que mal podem servir para acantonamento de tropas”. Isso explica o atraso na tomada de Colónia, que se observa assim ter acontecido devido a um conjunto acidental de eventos. 
No entanto, Vieira de Carvalho refere-se também à sua localização, mesmo em frente a Buenos Aires, e após Montevideu e Maldonado, sem dúvida o terceiro porto atlântico da Banda Oriental.

Alívio de Montevideu
Nos primeiros dias de maio, o tenente general Lecor, agora Barão da Laguna, envia uma força portuguesa, comandada pelo nosso conhecido Sebastião Pinto de Araújo Correia, para ocupar definitivamente Colónia, onde fica até à retirada final das tropas, então brasileiras, em finais de 1828.
Esta força, comandada como já vimos pelo general Pinto, era composta de quatro companhias d0 1.º Batalhão de Caçadores e variada cavalaria da capitania do Rio Grande, assim como uma bataria montada que não consigo identificar se é da Divisão, se do Esquadrão de Artilharia Montada, do Rio de Janeiro, que atuou na Coluna Silveira, em finais de 1816, e esteve em Montevideu a 20 de Janeiro de 1817.  

A 5 de Maio, Lecor envia também uma proclamação aos habitantes de Colónia, anunciando o envio do governador intendente Sebastião Pinto de Araújo Correia e prometendo ouvir as suas petições, aliviar as suas necessidades e assegurar os seus direitos.

A expedição portuguesa de alívio à pressão oriental que ainda se fazia sentir, composta de cerca de 600 homens, chega a Colónia a 11 de Maio mas só a 13  desembarca toda a expedição.
De acordo com Hernani Donato, um dia antes, a 12 de Maio, as forças de cavalaria miliciana formadas por Salvador Antunes e as praças de artilharia do capitão de Fragata Diogo José de Brito repelem um ataque de forças orientais sob o comando do comandante oriental Francisco Encarnacion Benítez.


Memorialismo
O nosso conhecido memorialista João da Cunha Lobo Barreto, com 23 anos e integrado nesta força para ocupar Colónia, era ainda em 1818 tenente do 1.º Batalhão de Caçadores, na 1.ª Brigada de Voluntários Reais. O seu testemunho relativamente aos eventos que ocorreram em Colónia do Sacramento é muito relevante pois ele serviu na cidade de 1818 até pelo menos 1821, quando se vê apanhado como representante da sua unidade no Conselho Militar, em oposição a Claudino Pimentel. Assistiu, pois, em primeira mão ao que aqui tentamos relembrar.  Lobo Barreto escreveu estas memórias muito possivelmente na década de 1850, 32 anos após os eventos.

Das memórias de João da Cunha Lobo Barreto (páginas 17-18):

Neste estado se achavão as nossas manobras na campanha de Montevidéo, quando um acontecimento veio dar lugar a novas operações no já proximo inverno.
Emquanto uma Esquadrilha tinha subido pelo Rio da Prata, entrando pelo Uruguay para abrir communicação com a Columna do General Curado, que alcançando repetidas victorias se dirigia ao Rincão das Galinhas.

O Chefe da Divisão Noronha [António Manuel de Noronha (1772-1860), futuro visconde de Santa Cruz], com tres corvetas e mais alguns barcos de guerra, deitou ancora no porto de Colonia do Sacramento, e buscou abrir communicação com a terra; sua prudencia e affabilidade lhe grangearão a affeição da maior parte dos habitantes deste Povo; o que constando ao sanguinario caudilho Encarnação [Francisco Encarnacion Benítez, comandante oriental], preparou-se este para castigar semelhante rebeldia: então o Brasileiro Vasco Antunes Maciel, (11) um dos mais comprometidos, convocando varios socios prenderão o commandante, e poucos soldados, ali destacados, e arvorando o Estandarte Portuguez, avizou á aquelle desta revolução, que fez, pedindo-lhe soccorro; e o // dito Chefe de Divisão, já antes prevenido, concedeo, mandando-lhe algum armamento, e fazendo desembarcar o Capitão de Fragata Diogo Jorge de Brito com alguns praças de artilharia.

Este fez construir logo um pequeno reducto em que montou alguns canhões; e Vasco Antunes organizou de todos os habitantes de sua confiança uma Companhia de Guerrilhas a cavallo, para guarda da Povoação, e seos suburbios.

Mal que o General em Chefe teve nos 1.ºs dias de Maio aviso desta occurencia, fez immediatamente embarcar para a dita praça ao General pinto com quatro companhias do 1.º Batalhão de Caçadores, commandadas pelo Coronel Manoel Jorge Rodrigues, uma Bateria de artilharia montada; algumas Milicias de São Paulo, um Esquadrão de Voluntarios do Rio Grande, commandando pelo Major Gaspar Pinto Bandeira, e as Guerrilhas do Coronel Alvim: comtudo por mais presteza com que se verificou o mesmo embarque, em razão de ventos contrarios, só começarão a saltar em terra estas tropas á 11 do dito mez, e á 13 é que chegou toda a expedição. 

O General logo organizou um Cabildo, nomeou Administrador da Alfandega, e os Officiaes dentre os mesmo habitantes para um Regimento de Milicias, promoveo Vasco Antunes á Coronel do mesmo: nomeando iguaes officiaes para um Corpo de Civicos a pé; o qual jamais se organisou. O General em Chefe approvou todas estas disposições. 

[...]

(11) A entrega de Colonia foi devida não só a Vasco Antunes como a m.tos filhos do paiz. [nota do Conde do Rio Branco]

Fonte
BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in: Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, 68pp. pp. 17-18.

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Ordem de Batalha Portuguesa

Comandante: Sebastião Pinto de Araújo Correia

- quatro companhias, 1.º Batalhão de Caçadores, coronel Manuel Jorge Rodrigues, c. 450 efetivos
- uma Bateria de artilharia montada; 
- 'algumas' Milícias de São Paulo;
- um Esquadrão de Voluntários do Rio Grande, major Gaspar Pinto Bandeira, 
- Guerrilhas, Coronel Alvim

- uma Companhia de Guerrilhas a Cavalo,  Vasco Antunes Maciel
- Destacamento de artilharia da Marinha, Capitão de Fragata Diogo José de Brito

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Biografias

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Ofensiva Portuguesa do Outono de 1818 nas costas do rio Uruguai


Nos finais de Março de 1818, de forma a capturar Artigas ou a expulsá-lo para o lado ocidental do rio Uruguai, o tenente general Joaquim Xavier Curado fez marchar o seu exército sobre a área de Daimán e Paysandú, no noroeste do atual Uruguai. O tamanho aproximado do exército seria entre os 2,500 e 3,000 homens.

A 3 de Abril, a força portuguesa captura Juan Antonio Lavalleja, um dos mais afamados militares orientais, e, a 9, entra em Paysandu, onde a bandeira portuguesa é arvorada, embora a abandonem depois. A 7, um destacamento de 1,030 efetivos derrota 500 orientais no combate de Guaviyu.

A transcrição que apresento, é uma adaptação mínima do que existe publicado no Archivo Artigas, sem modernização e apenas anotações temporais ou outras.
O documento não tem autor, sendo provável que seja um relatório escrito por alguém do estado maior deste exército, ou alguem que com ele estava.

Só nos leva a 13 de Abril, embora não dure muito até que o exército volte a uma postura mais defensiva, próxima da fronteira a norte.

NOTICIA DA COLUNA DA DIREITA

[23.3.1818] 
Desde 23 do passado temos marchado offensivam.te excepto no dia 31 e 1 ° deste, que falhamos em Ararimgua: depois de Arapei Chico principiamos a avistar os Espias do Inimigo, e algumas Guardas de 20, 30, e 40 Homens, q.e logo se retirarão apenas avistarão a nossa Guarda avançada, em Arapei grande foi perseguida hu~a destas Guardas até Sopas, aonde perderão hum morro, pelas Guerrilhas do Ten.te Cor.l Jeronimo [Gomes] Jardim, os mais fugirão precipitadamente, e assim não podemos ter noticias. 

[31.3.1818]
A 31 Bento Manoel agarrou hum Bombeiro do Inimigo, q.e deo-nos algumas noticias, e informamo-nos q.e Lavalhegas Ten.te Cor.l [Juan Antonio Lavalleja], e substituto de Mondragou [Mondragon], se achava de observação no Arroio Valentim com 200 e tantos Homens; 

[3.4.1818] 
E 3 os nosos Bombeiros agarrarão ao romper do dia no Arroio Valentim dois Chasques com Officios p.a Lavalhegas, Ordenava-lhe Artigas q.e se retirasse, avisando-lhe, q.e ja tinha mandado Ordem a Artiguinhas p.a passar na Barra de Arapey, e incommodar-nos pela retaguarda: O Officio de Artigas era de data do 1 ° deste mez. 
No mesmo dia chegamos ao Arroio Valentim, e sahindo os nossos Bombeiros a explorar a Campanha, encontrarão de repente na quebrada de huma Cuxilha com 6 Ginetes, q.e sendo corridos pelos nossos felizmente agarrarão Lavalhega por ter-lhe rodado Cavallo na carreira, pegarão tambem a Ordenança deste, os outros escaparão, e erão hum Ajudante e tres Bombeiros; Huma Guerrilha do Jardim foi quem fez (esta) boa preza, Lavalhega tinha sahido a bombear-nos p.a ver se conhecia a nossa força e confessou q.e andava nesta diligencia desde q.° chegamos ao Araringua, e nunca pode conseguir até cahir em nosso poder.
Este Prizioneiro deu-nos varias noticias, q.e Artigas estava persuadido, q.° esta Coluna não entrava, e q.e suposto fomos observados desde Arapey-Chico, com todo só quando chegamos a Araringua he q.e puderão descobrir toda a Coluna q.e tinha poca gente en Purificação, e se tivesse tempo de reunir todas as suas Guardas, poderia reunir 1.500 homens, mas q.e já tinha dado as providencias para com marchas forçadas retirarse p.a a Purificação 1.500 Homens do Commando de Ramires, q.e a 25 do passado tinha conseguido huma completa Victoria contra as tropas de Buenos Ayres no Parana: 

[4.4.1818]
No dia 4 em marcha avistou-se a Partida de Lavalhega, sahio Bento Manoel a perseguilo, tiverão tempo de fugirem mas sempre se agarrarão 14, e tomarão-se-lhe oitenta e tantos Cavallos: 

[6.4.1818]
No dia 6 passamos a Daiman, e hum Corpo de 400 homens, e hu~a Peça de 2 do Commando de hum F. Castro [possivelmente Pablo Castro, que vem a ser derrotado em Guaveyu, no dia a seguir] había-se retirado deste lugar no dia 4.
Este Corpo conservou-se em Laurelles d'onde se retirou no dia 3. no dia 6 acampamos era hum galho de Daiman, e sobre a tarde Bento Manoel agarrou 11 Espias do Inimigo, os quaes informarão-nos q.° Artigas tinha deixado a Purificação, deixando do outro lado duas Peças de 18 para hostilizar a Villa, e q.e se achava era Guaveju com 1000 homens, q.e pertendia reunir-se com a Tropa d'outro lado a qual havia passado em Sandu, as Familias tinhão passado p.a o outro lado, e q.e a intenção de Artigas era, depois de reunido tão bem com Fructuozo, atacar-nos na Purificação. 

[6.4.1818, noite] 
O Marechal João de Deos ha dias andava anciado por adiantar-se com 1000 Homens, mas infelizmente não podia conseguir do Ten.te Gen.l, com as ultimas noticias sempre pode vencelo, e pez-se em marcha na noite do dia 6 com 1000 homens de todos os Corpos, incluido 200 de Infantaria de S.Paulo, e todo o seu Regimento de Milicia do Rio Pardo p.a dar hum golpe na Tropa Inimiga, que ja contava estar reunida, 

[7.4.1818] 
E ao romper do dia 7 atacou em Guavejú a 400 e tantos homens pertencentes a Divisão de Lavalhega, o Inimigo ficou completamente derrotado, perto de 300 Prizioneiros cento e tanto mortos, avalia-se terem escapado 30 ou 40, tomou-se huma Peça de 2 unica q.e tinhão, huma Bandeira, muito Armamento, Cavallos &. só perdimos hum Soldado Miliciano de Porto Alegre morto, e tivemos 2 feridos levemente. 

Artigas esteve distante Legoa a meia com a mais força commandada por Latorre, o Marechal João de Deos não sabendo a gente (que) encontraria, e occupado com os Prizioneiros, deixou de avançar para bater Artigas: eu estou persuadido que conseguiria seguramente outra Victoria: e q.e entramos na Purificação, q.e achamos dezerta;  Arvorou-se a Bandeira Portugueza; salvou-se com 21 Tiros, e derão-se os competentes Vivas; do outro lado conserva-se alguma gente Inimiga, e tem huma Canhoneira. 
O Ten.te Gen.l não quiz occupar a Villa, e acampamos hua legoa era frente no Arroio Japegui. 

[11.4.1818] 
Na noite do dia onze avançou o Oliveira com 1000 Homens e 2 Peças de 3 p.a bater Artigas, q.e se acha 16 legoas distante em Japuramopi, mas ja officiou hontem [12.4.1818], q.e seguia p.a Sandu, rumo q.e se (afasta) do Inimigo, elle saberá a razão porque assim obrou. A intenção de Artigas, he reunir todas as suas forças, q.e podem chegar a 4000 homens, o ponto de reunião he no Rincão das Galinhas, e depois fazer-nos a Guerra, e embaraçar a nossa subsistencia. 

Não ha Gado senão na distancia de 16 a 18 legoas, veremos como hade ser a nossa conservação sendo só esta Coluna a que se hade opor a todas as forças do Inimigo.

Em Araringua [31.3-1.4] receberão-se Officios de Lecor, no qual partecipa q.e a Coluna de Pinto estava a pé, e reunida com a de Vellez em Minas, q.° fazia retirar-se p.a Monte Video, e q.e achava impossivel marcharem a pé as Tropas tão grande distancia de cento e tanto leguas, e que mandaria Canhoneiras com Tropas, e aqui tem a maneira porque rezolve o General Lecor.

Campo do Arroio Itapegui, 13 de Abril de 1818.

Fontes
- Archivo Artigas
- Imagem da Wikicommons: interior da Catedral de PAysandú, no Uruguai.

Combate de Guaviyu (ou Guabiju), 7 de Abril de 1818



O Combate de Guaviyu teve lugar a 7 de Abril de 1818, junto ao arroio de Guavyiu, a cerca de 50 quilómetros a norte de Paysandú. 
Teve lugar no âmbito de uma ofensiva levada a cabo pelo tenente general Joaquim Xavier Curado e as suas forças da capitania do Rio Grande, desde finais de Março, sobre a costa oriental do Uruguai, que penetrou até Paysandú, onde entrou e arvorou a bandeira portuguesa no dia 9.

A 6 de Abril, o marechal de campo João de Deus Mena Barreto, coronel do Regimento de Milícias do Rio Pardo, é destacado do exército com 1,030 homens, quase exclusivamente de cavalaria, e 180 infantes da Legião de S. Paulo, correspondendo a um quinto da força (e sem artilharia, uma situação pouco comum), com ordens de atacar uma força que se presumia fosse comandada em pessoa por José Artigas. Artigas esteve de facto em Guaviyu, a 4 de Abril, pelo menos, mas já não estava lá a 7.

A divisão portuguesa perde-se durante a noite tempestuosa de 6 para 7, mas ao recuperar a orientação depara-se com a proximidade da força oriental. Na verdade era uma vanguarda de Artigas, comandada pelo capitán Pablo Castro, constituída por entre 400 e 500 homens, incluindo uma peça de calibre 2.
Não há uma informação clara de quanto tempo demorou a ação, mas o comandante português informa que terá sido rápido, o que não é difícil de aceitar tendo em vista a desproporção de forças a favor dos lusitanos.

Nesta fase do conflito, as forças orientais de José Artigas já não tinham a mesma facilidade em recrutar, até porque estavam em guerra também com os centralistas de Buenos Aires. A Banda Oriental continuava a ser pacificada durante o ano, com as forças portuguesas a assumir uma postura de contra-insurgência, com a captura de muitos líderes militares orientais. Juan Antonio Lavalleja, por exemplo, é capturado a 3 de Abril, na área.

ORDEM DE BATALHA

~ Forças da Capitania do Rio Grande de S. Pedro
Comandante - MarCamp João de Deus Mena Barreto

Regimento de Milícias do Rio Pardo, Cavalaria (regimento todo) 
(tenente coronel graduado Francisco Barreto Pereira Pinto)
150 efetivos, Lanceiros de Entre Rios (Regimento de Voluntários Reais de Entre Rios, tornado regimento a DATA)
1 esquadrão, Regimento de Dragões do Rio Grande
(tenente José Luís Mena Barreto)
1 esquadrão, Regimento de Milícias de Porto Alegre
(capitão graduado Manuel Inácio Salazar)
180 efetivos, Infantaria da Legião de Voluntários Reais (S. Paulo)
(sargento mor graduado Joaquim da Silveira Leite)
Total de 1,030 efetivos

Baixas Portuguesas
1 soldado morto (RMRP), e 2 feridos ligeiros

~ Forças da Liga dos Povos Livres (Orientais)
Comandante - Cap Cav Pablo Castro

400-500 efetivos
1 peça de calibre 2

Não há referências, nas fontes portuguesas, à estrutura das forças orientais, mas será de supor que fosse a regular predominância de cavalaria, com pouca infantaria.

Efetivos:
“sendo as suas forças seis centos homens” (Mena Barreto) ; “400 e tantos homens pertencentes a Divisão de Lavalhega” ('Noticia')
Joaquim Xavier Curado refere 500 homens em carta a Lecor.

Mena Barreto parece exagerar ligeiramente, quando fala de 600, mas parece-me certo que fossem entre 400 a 500, entre tropas e eventuais acompanhantes.

Baixas Orientais
266 prisioneiros, incluindo 12 oficiais
133 mortos (contados no campo de batalha)



Memória do marechal de campo João de Deus Mena Barreto, o comandante português da ação


[Puntas del Guaviyú, abril 7 - 8 de 1818.]

Ill.m° eEx.m° S.°r 


[6.4.1818, Noite] Eu marchei em consequencia das determinações de V Ex.a na noite do dia 6 a atacar Artigas, todas suas forças no arroio Guavejú. O meu destacamento compunha-se de todo o meo Regimento de Melicias do Rio Párdo; cento e cencuenta Lanceiros d Entre Rios; hum Esquadrão de Draçoens; outro de Melicias de Porto Alegre, e cento e oitenta de Infantaria da Legião de S Paulo, que fazia o todo; mil e trinta homens bem capazes de rectificar a gloria de que se tem coberto; a coluna do comando de V Ex.a o meo primeiro passo foi montar a Infanteria para acelerar a minha marcha: eu tinha de caminhar sete a oito legoas que as devia conseguir antes do dia sete; e o projecto hera surprender o inimigo no seo proprio acampamento. 

Com estas entençoens eu marchava com todo o silencio, mas a noite se fez tormentoza com groças pancadas d'agoa acauzionou a perdida do prático que me guiava, e por tal successo mandei fazer alto, tendo já marchado seis legoas sobre o arroio Guavejú, ou suas pontas, nesta posição eu esperava o dia para o acerto do guia, e então descobertamente atacar o inimigo, que não devia estar muito destante, [7.4.1818] o dia principiáva a zair, e logo accidentalmente me surprenderão os meos espias com a noticia dos insurgentes tão proximos que pude ouvir o seo toque d alvorada, sem que me tivessem percebido. 

Com este successo dispús a minha Devisão para o combate; examinei o campo do inimigo, e igualmente no mesmo arroio Guavejú coberto pela sua retaguarda com hum bosque, e grande lago que os tornáva bem fortes para huma Obstinada resestencia, e sem dilonga fiz avançar hum Esquadrão de Melicias do Rio Pardo ás disposiçoens do Capitão Antonio de Medeiros da Costa, asegurarme de huma posicão vantajoza que pude Observar e por onde o inimigo se podia retirár quando eu força se toda a extenção da sua frente:

depoes desta providencia determinei que o Esquadrão de Dragoens seguise a ocupar a frente do inimigo, e chamando o a atenção me desse lugar a introduccão da Infanteria no mato, e por onde atacassem vigorozamente: 

Estas tropas marcharão, então adiantei mais hum Esquadrão de Melicias tomando a esquerda de Dragoens, em cuja ponto eu deveria de rouvolver o resto da Cavalaria tendo ja dente mão prevenido a minha reserva, e feito destacar o corpo de Lanceiros para humas alturas bem capaz de perseguir os desbandados: 

Nesta Ordem caminhei para o inimigo, e bem perto da nova linha que havia determinado, mandei fazer alto, e conservei-me em Coluna em quanta determinava as ultimas Ordens para o combate: 

O inimigo disparou seos tiros de pessa sobre o Esquadrão de Dragoens, toda a sua linha estava formada sobre o bosque que cobria a retaguarda. Nestas circunstancias julguei conveniente não retardar a victoria as armas de S Mag.e e logo então determinei que aos primeiros tiros da nossa Infanteria que tinha entrado no mato pelo flanco direito se carregase o Inimigo tão universal, como intrepidamente. 

A Infanteria conseguio o que me tinha disposto, e detalhado: romper o fogo que os insurgentes não esperavão, e ao seo estrondo desembrulhei toda a Cavalaria, ataquei, e en  hum momento tive a gloria de aununciar os vivas a S. Mag.e que forão repetidos ainda com os tenidos das Espadas da nossa Cavalaria, e o fogo vivissimo da Infantaria que aquecendo os inimigos pela retaguarda entregarão-se aos exforçados golpes dos Esquadroens. 

O Nome de S. Mag.e retumbava, e por todas as Tropas inda no calor da acção, e a proporção que se repetia com aquele entusiasmo que sempre se observou nos Vassalos do mais querido dos Soberanos do mundo, as nossas forças se multiplicavão, e o inimigo sobre aterra despedaçados formavão o espetaculo mais vivo da nossa fedelidade, e coragem, e o crime de tão indignos contendores, que sendo as suas forças seis centos homens só se escaparão tres de Cavalaria. A destruhição total desta vanguarda d Artigas, ao comando de D Paulo Castro Capitão de Cavalaria deveria certamente, tanto pelo estrondo dos tiros, como pelos vigiadores por-se em fuga aquele Chefe dos insurgentes. 

O n.° dos mortos que forão contados no campo do combate chegarão a cento, e trenta e tres, alem de muitos que se virão cahir carregados pelos Lanceiros, e os enfenitos que se lançávão no grande lágo conde se affogarão, e aonde lançavão armas, espadas, e seis mil cartuxos com confessão os prizioneiros que sao duzentos e sessenta, e seis, inclusive doze Officiaes e de toda a clase; huma Pessa de Calibre dois; duzentas e trinta e cinco armas; cento e quatorse espadas, cincoenta e duas pistolas, oito caixas de Guerra; hum Clarim; huma Corneta; huma bandeira com emblema de liberdade, seis centos cavalos; e muitas cartoxeiras. 

Sou obrigado a fazer justiça geralmente ao valor, bizarria e constancia dos Offeciaes, e Offeciaes inferiores, e Soldados que formão esta Devizão, devo com tudo recomendar a V Ex.a com especialidade para que apareção na Augusta prezença de S Mag.e O Tenente Coronel Francisco Barreto Pereira Pinto; o Capitão Bento Manoel Ribeiro; o Tenente Oliverio Joze Ortiz; todos estes do meo Regimento: de Dragoens o bravo Tenente Joze Luis Mena Barreto, e o Alferes Joze Joaquim da Cruz; estes Officeaes merecerão elogios de toda a Tropa e tudo meo dever não omitir nesta ocazião a bravura com que atacarão, eaboa ordem com que marcharão os seos Soldados, e por se fazerem muito dignos tenho a satisfação de derigir a V Ex.a a rellação dos Offeciaes e Offeciaes inferiores que mais se destinguiarão, com esta são tres vezes que tenho recomendado nos minhas partes d'ataques, e combates o Capitão Bento Manoel Ribeiro, e o Reverendo Capellão Feliciano Joze Rodrigues Prates, e prezente insto a V Ex.a que bem conhece os seos merecimentos para os levar com destinção a prezença de S Mag.e.

Tenho a Gloria de partecipar a V Ex.a que hum só soldado de Melicias de Porto Alegre perdi [por] hum tiro de mosquete, e que dois do meo Regemento, e hum d' Infanteria forão levemente feridos. 

O felis rezultado desta acção com tão piquena perda da nossa parte, he devido a V Ex.a que tão sabia como prudente me tem guiado com instruçoens tão melitares para o dezempenho dos meos mais sagrados deveres, e huma prova incontestavel que o grande Deos Senhor dos Exercitos cobre com a sua mão direita as armas dos Fieis Portuguezes para gloria do mais justo dos Soberanos. 

Deos guarde a V Ex.a
Pontas de Guavejú sete d'Abril de 1818
Ill.m° e Ex.m" S.°,Tenente General Comandante Joaquim Xavier Curado = João de Deos Menna Barreto

Rellacão dos Offeciaes, e Offeciaes Inferiores que cheios de Valor, e constancia se distinguirão na acção do dia sete do Corrente que tive a honra de os comandar e que os recomendo a protecção de V Ex.a

Regimento de Dragoens, o Tenente Joze Luis Menna Barreto. Alferes Joze Joaquim da Crus. Furriel Vasco Joze Ignacio .

Infantaria de S Paulo, Sargento mor graduado Joaquim da Silveira Leite. Capitão Joze Joaquim de S Anna. Alferes Manoel Soares.

Melicias do Rio Pardo, Tenente Coronel graduado Francisco Barreto Pereira Pinto. - Sargento mór graduado Francisco Alves da Cunha. Capitães Bento Manoel Ribeiro, Antonio de Medeiros da Costa. Tenente Oliverio Joze Ortiz. Ditos agregados - Paulo Ribeiro de Souto maior. Joze Cardozo de Souza. Alferes Antonio Pinto d Azambuja. Furriel Bento Joze Bragança. Porte Estandarte. Joze Xavier d Azambuja R.°° Capelão Felicianno Joze Roiz Prates este Padre fez as Campanhas de 1811, e de 1812, a de 1817, e continúa na de 1818, tem asestido a batalha de Catalan, combate de Ibiroucay, e de guaveju, com valor, he o primeiro que aparece nos fileiras entre o fogo, animando a tropa o mais que he possivel.

Regimento de Porto Alegre - Capitão graduado Manoel Ignacio Salazar. Tenente Demetrio Ribeiro de Sa. Alferes Jeronimo Joze de Vargas. Furriel Henrique Joze da Silveira. 

Acampamento em Guaveju oito d'Abril de 1818
O Marechal João de Deos Menna Barreto

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Mapas de Campanha do livro "Artigas Conductor Militar"

As seguintes ilustrações foram retiradas do livro "Artigas Conductor Militar", escrito pelo tenente coronel Juan Antonio Vazquez, que pode ser encontrado online aqui.

Para além dos dois planos das operações gerais, chamo a atenção para o plano da batalha de Carumbé, o único que conheço, com indicação da localização geográfica.


Plano das operações a Sul do Rio Negro (1816-17)



Plano das operações a Sul do Rio Negro (1816-17)


Plano da Batalha de India Muerta (19.11.1816)
(leia mais sobre a batalha aqui)


Plano da Batalha de Carumbé (27.10.1816)
(leia mais sobre a batalha aqui)

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Fonte
- VAZQUEZ, Ten. Cor. Juan Antonio, Artigas Conductor Militar (Coleção General Artigas, n.º 12) Centro Militar, Montevidéu, 1953.

A Segunda Sortida Portuguesa e a Ação de Toledo (3 a 6 de Maio de 1817)


Há 200 anos, cumpridos que eram 3 meses da ocupação portuguesa de Montevidéu e após a sortida de Santa Lucia, em meados de Março, a Divisão de Voluntários Reais d’El-Rei (DVR) preparava-se para o que se esperava ser um Inverno calmo. Fontes, tanto portuguesas como orientais, falam de um aumento na deserção, que iria ainda aumentar. O nosso já conhecido tenente João da Cunha Lobo Barreto mostra-nos bem, na concisão típica de um caçador, o espírito desse Outono meridional entre as tropas portuguesas:

Nada ocorreu digno de memória, à excepção de uma pequena sortida que se fez sobre Toledo, cujo resultado nos ia sendo mui funesto. As deserções foram bastantes, a falta de pagamentos redobraram a ponto de sofrerem os oficiais e soldados toda a qualidade de privações e desgostos. (Barreto, p. 14).
Muitos portugueses sentiam a mudança das estações de forma especial, de outro hemisfério. O que para eles, criados num Portugal fortemente rural, era normalmente uma estação de desabrochar da natureza, flores, dias mais quentes, era ali o oposto, mais frio e igualmente ventoso. Na verdade, os homens e mulheres da DVR já o tinham sentido quando começaram a campanha, nas infindáveis areias do litoral de Santa Catarina e do Rio Grande, mas deste feita era o primeiro ciclo completo. Outros, é certo, agarravam a promessa de aventura do patriotismo republicano.  Na verdade, a vasta maioria apenas seguiu o padrão natural de deserção das fileiras de um Exército dessa era, quando as operações paravam de forma abrupta.

Enquanto que para os Orientais e Artigas, a luta era agora de cerrada guerrilha, durante o ano inteiro, uma luta política, civil e militar, envolvendo todos, para os portugueses era 'apenas' o Real Serviço e a missão tinha de facto sido cumprida – a tomada de Montevidéu. 
Uma boa metade da DVR, contando feridos e doentes, estava permanentemente em serviço de guarnição da Praça. As duas brigadas de Voluntários Reais alternavam nesse serviço, acompanhadas das milícias locais e de unidades da Capitania do Rio Grande.





A Sortida

A maior da condicionantes estratégicas para o tenente general Carlos Frederico Lecor, agora capitão general da Banda Oriental, era a falta de provimentos em Montevidéu. A necessidade havia sido já a prioridade na sortida de Santa Lucia, em Março (com a eventual sobre extensão das forças portuguesas em forragem a causar aliás o desastre do Pintado), e era um problema crescente, dado o tamanho da cidade. A falta de trigo é particularmente premente, a acreditar mas fontes.

Devido, porém, ao acertado sítio montado pela divisão de Frutuoso Rivera, que atacava todas as sortidas portuguesas, qualquer que fosse o seu tamanho, qualquer sortida tinha de ser feita com todos os efetivos da DVR e do Exército do Brasil disponíveis. Rivera, que contava com o excelente comandante de cavalaria Juan Lavalleja, obtinha vários sucessos limitados, principalmente em ações sobre a retaguarda portuguesa, quando em marcha, ou forças isoladas em forragem.

Em Maio, pressionado pela chegada do inverno e pela necessidade de obter os tão necessitados mantimentos para a cidade, Lecor decide mandar forragear em força a única zona ainda não explorada: Toledo. Esta povoação, 15 kms a nordeste de Montevidéu, na estrada para Maldonado, era usada em Março como base para as operações da vanguarda oriental, comandanda por Lavalleja, que todas as fontes apontam como extremamente bem sucedida no combate aos portugueses.

A Parte Portuguesa

A fonte mais diretamente relacionada à sortida que partiu de Casavalles [na verdade, a ocidente do arroio Miguelete, provavelmente o atual bairro de Peñarol] para Toledo a 3 de maio de 1817 é um ofício do tenente general Lecor ao ministro da Guerra, António de Araújo de Azevedo, conde da Barca, datado de 10 de maio. Foi transcrito e publicado no Archivo Artigas, volume XXX, a qual transcrevemos em seguida, com a modernização da ortografia e uma leve adaptação. 

Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor 
Para informação de Sua Majestade tenho a honra de informar a V.a Ex.ª que tendo sido preciso recolher algum trigo a esta praça ordenei ao brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto que marchasse sobre a povoação de Toledo com os Corpos seguintes = o 1.º Regimento d'Infantaria, o 2.º Batalhão de Caçadores; Quatro Esquadrões do Regimento [de Cavalaria] dos Voluntarios Reaes d'El-Rey, um Esquadrão composto de Cavalaria de S.Paulo, e Milícias do Rio Grande, e com a Brigada d'Artilharia [a cavalo] da Corte do Rio de Janeiro; 
[3.5.1817] 
No dia 3 do Corrente, saiu de  Casavalles, [nas] imediações desta Praça, em direitura àquela povoação. Artigas e D. Frutuoso Ribeiro [Rivera], reunindo forças muito consideráveis apareceram logo ao passar o [arroio] Miguelete, mas o brigadeiro continou a sua marcha pelo Pastoreiro de Pereira a Toledo, aonde acampou, entretendo somente algum tiroteio com o Inimigo. 
[4.5.1817] 
No dia seguinte, o brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto não saiu daquele ponto, começando o serviço, de que estava encarregado: o inimigo intentou, mas inutilmente estorvar esta diligência, e usando do despotismo para com os habitantes do [...] tinha por muitas casas espalhado o trigo, e derramando-o em outras tinha lhe lançado fogo dentro das mesmas casas, as quais teriam sido consumidas pelas chamas, se os nossos soldados não apagassem o incêndio, deixando desta maneira reduzidas a miséria desgraçadas famílias, que não tem outro modo de viver. 
[5.5.1817] 
O brigadeiro Silveira tendo concluído a sua diligência voltou no dia 5 trazendo hum comboy de trigo. Pouco depois de ter saído de Toledo, o inimigo apareceu em força debaixo do comando de Artigas, querendo carregar a guarda da Rectaguarda do comando do major João Joaquim Pereira do Lago do 1.° Regimento d'Infantaria, e composta de um esquadrão de Voluntarios Reaes d'El-Rey, comandado pelo capitão José de Barros e Abreu, e de uma companhia do 2.º Batalhão de Caçadores: o major Lago ordenou ao capitão Abreu que com o esquadrão do seu comando repelisse o inimigo o que (me informa o Brigadeiro Silveira) aquele Capitão praticou, carregando-o com a maior bizarria.  
O brigadeiro Silveira ordenou que outro esquadrão de Voluntarios Reaes d'El-Rey sustentasse aquele, e ambos carregaram vigorosamente. O inimigo foi perseguido por espaço de mais de meia légua [c. 3,3 km], três vezes intentou reunir-se, e outras tantas foi repelido tendo grande número de mortos e feridos. 
O brigadeiro Silveira reunindo depois as tropas continuou a sua marcha, e ficou a noite na Estância de Pedro Guerra no Mangue [Manga]. O inimigo contem-se com respeito o resto do dia, aparecendo apenas em pequeno número em grande distância. 
[6.5.1817] 
No dia seguinte, o brigadeiro Silveira marchou para o seu acampamento de Casavalles, e estando em marcha apareceu na rectaguarda um forte destacamento, entretendo somente um tiroteio bastante vivo com a guarda da rectaguarda, no qual foi ferido o capitão Alexandre Eloi da Legião do Rio Grande.  
O inimigo durante os quatro dias de movimento sofreu a perda entre mortos, e feridos para cima de cem homens; contando-se no número dos primeiros, três capitães, e no numero dos Segundo[s] vários oficiais. A nossa perda nestes dias, ainda que não foi grande, com tudo tivemos oito bravos soldados mortos, e alguns feridos, como V.ª Ex.ª verá do Mapa junto [N.E.: o mapa não está transcrito]. 
O brigadeiro Silveira faz os maiores elogios aos dois esquadrões de [Cavalaria dos] Voluntarios Reaes d'El-Rey, que se engajaram, pois que se conduziram com uma bizarria, e valor superior a todo elogio: louva igualmente a intrepidez, e presença d'espírito, com que o capitão José de Barros e Abreu conduziu o seu esquadrão em umas poucas de cargas sucessivas, e recomenda-o mérito deste oficial, acrescentando que em outras muitas ocasiões, que tem tido de se bater com o inimigo, (depois que está ás suas ordens) se tem portado constantemente da maneira a mais brilhante. 
O brigadeiro Silveira me declara que o cadete do Regimento da Cavalaria da Divisão António Carlos manifestou a maior intrepidez, e valor, e tendo-se distinguido já em outras varias ocasiões, tenho a honra de recomendar a Sua Majestade o mencionado cadete para que seja promovido a alferes, não só pelo seu comportamento, mas até por ser o Cadete mais antigo do Regimento, e o qual mesmo já propus para Alferes, em proposta que remeti a V.ª  Ex.ª em Ofício de 6 de Março próximo passado. 
O brigadeiro Silveira recomenda o 2.° Sargento José Pires do mesmo Regimento de Cavalaria, o qual portando-se muito valerosamente no dia 5 foi gravemente ferido, e sofreu a amputação de uma mão, e tendo a bem disto muita boa conduta, o recomendo a Sua Majestade para ser promovido a Alferes, podendo passar à Infantaria, onde pode fazer o serviço.  
O coronel do 1.° Regimento d'Infantaria João Carlos de Saldanha faz os maiores elogios ao brigadeiro Silveira, pois achando-se junto ao mesmo Brigadeiro, quando o esquadrão do capitão Abreu carregou o inimigo, correu à rectaguarda, envolveu-se com aquele esquadrão, e teve o seu cavalo morto.  
O Major Lago foi  contuso de uma bala no dia 5 comandando a rectaguarda, e portando-se muito dignamente. Igualmente foi contuso o Tenente da Legião de S. Paulo Rodrigo Pinto. 
A Companhia d'Artilharia montada da Corte continuadamente tem servido bem, e o seu Commandante Isidoro de Almada [e Castro], e mais oficiais daquele corpo merecem os maiores elogios. 
Toda a Tropa empregada nos referidos dias mereceu a aprovação do brigadeiro Silveira pois portando-se admiravelmente bem mostrou a melhor disposição e boa vontade.

Deos Guarde a V.ª Ex.ª Quartel General de Montevidéu, 10 de Maio de 1817.
Ill.m° e Ex.m° Snr. Conde da Barca
Carlos Frederico Lecor 
 
Tenente General 
(AA 33: p. 70-sg)


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LEIA TAMBÉM:
O duque de Saldanha e a Ação de Toledo (5 de Maio de 1817)

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Uma Parte Uruguaia

Um ‘oriental contemporâneo’, como se identifica o autor de umas memórias, escritas em 1830, que o historiador Bartolomé Mitre conota com alguém próximo de Frutuoso Rivera, oferece dados importantes sobre a perspetiva oriental da guerra. Pese embora uma grande confusão nas datas dos eventos, que também se podem encontrar, embora menos, no tenente Lobo Barreto, parece corroborar eventos reais. 
No caso específico, este ‘contemporaneo’ refere uma sortida a Toledo, mas coloca-a narrativamente antes da sortida de Março, na região  de Canelones/Santa Lucia, bastante mais a norte (a propósito, o autor coloca esta que sabemos ser em Março, em Setembro, enquanto que coloca a de Toledo em Julho – ambas as datas erradas, e trocadas!). 
O facto é que muito do que descreve parece ser relativo a esta sortida de Maio: a intensidade do assédio oriental à marcha portuguesa, as indicações geográficas a Toledo e Manga, as menções ao trigo que Lecor, ele mesmo, indicou ser o objeto principal da sortida (“comboy de trigo”, etc).
Poderia aqui ser bastante mais pormenorizado a prová-lo, mas creio que esta passagem do texto uruguaio diz respeito à sortida de 3 a 6 de Maio, nomeadamente o facto de ter havido um oficial oriental morto num grande combate (decerto o de 5 de Maio, junto a Toledo). Não houve desde janeiro, nenhuma outra confrontação de semelhante tamanho, senão a de Paso de Cuello, em 19 de março, onde não pereceu nenhum oficial oriental.

Com as precauções que indico em cima, transcrevo a parte do ‘oriental contemporaneo’, pelo que o leitor mais interessado poderá aferir das semelhanças.  De notar, porém, que Lecor não estava em Toledo e Manga, apesar do que escreve o ‘Contemporaneo’. Lecor estava em Montevidéu, no início da sua Vigia, como o colocou Mario Falcão Espalter em 1819:

Por último acosado ya el Baron con los continuos asaltos y perjuícos que sufría de los patriotas, resolvió lhacer una salida que efectuó á principios de Julio, y llegó hasta la quinta de Da. Ana Cipriano, en Toledo, á cinco leguas de Montevideo, de donde regresó después de haber tenido continuas guerrillas con los patriotas, que le dísputaban el terreno á palmos día y noche. El jeneral de los patriotas, Rivera, mandaba estas fuerzas, y en la misma quinta de Da. Ana, hubo un encuentro de no poca consíderacion, pués produjo porcion de muertos de una y otra parte: los portugueses perdieron un mayor, sobrino ó pariente del jeneral Márquez, y otro oficial, y los patriotas perdieron al ayudante del jeneral Rivera, D. Juan Manuel Otero, que murió en el encuentro: el capítan Lavalleja se distinguió en aquel día como acostumbraba hacerlo. 

El Baron, después de haber hecho cargar en carretas que traía todos los trígos y maíz de aquellos infelices moradores de Toledo y Manga, se retiró á Montevideo é hizo ocupar nuevamente a su ejército las posiciones que habían dejado al emprender esta primera salida a la campaña, en la cual no adelantó el Baron, mas que el aumento de granos que trajo á sus almacenes, habiendo dejado alguna caballada cansada de flaca, que llevaba, y no pocos soldados muertos. (Lamas)

Salvo algumas incongruências que poderão levantar dúvidas legítimas, creio que esta descrição diz respeito à sortida de que nos ocupamos agora, em Maio, sobre a região de Toledo e Manga, a leste de Montevidéu.


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Artigas em Toledo

Se Lecor lá não estava, as referências, porém, que encontramos a José Artigas enquanto comandante das forças orientais não são erradas. José Artigas estava de facto presente no combate de 5 de Maio, próximo a Toledo. 
Artigas estava já, aliás, no Paso de la Arena, junto a Florida, pelo menos desde meados de Abril, numa visita que inicia então à divisão de Rivera. Quemos nos informa é o bem informado Lecor, em carta de 24 de Abril ao conde da Barca:

[...] nada tem ocorrido importante, nem pelo que respeita aos nossos movimentos nem aos do inimigo, a não ser a chegada de Artigas ao passo de Arenas, sobre o Santa Lucia Chico, com uma escolta de cem homens: com o fim, dizem, de ver a tropa: observar a influência, que sobre ela tem Fructuoso Rivera, e indagar as transações políticas, havidas entre este e o Governo de Buenos Aires, com quem Artigas  está  muito  indisposto. (AA 32:p.214)

Por Lecor sabemos também que, em 18 de Abril, Artigas passa revista às tropas da Divisão Rivera, ou de la Derecha: cerca de 800 homens de “fusil e lanza”. A sua ordem de Batalha é muito semelhante à da ação de Paso Cuello. É pela parte de D. Álvaro da Costa, tenente coronel deputado do Ajudante General da DVR, escrevendo a um amigo a 7 de Maio, de Montevidéu, que sabemos da presença de Artigas no combate de Toledo.

[...] Enfim agora todo anda activamente. As nossas tropas sairam daqui há 5 dias e hontem recolherão com o trigo que tinham hido buscar, mas antes de ontem tiveram uma acção, (os Inimigos) com dois ou três dos nossos esquadrões e com alguma infantaria do que resultou deixassem no campo três oficiais mortos, e bastantes soldados levando muitos feridos, nós tivemos um oficial ferido e alguns soldados.Artigas que aqui chegou há dias, isto é, chegou a D. Fructos, viu de longe a acção pois de perto nunca entende. [meu sublinhado] (AA 32:219)

Em suporte à presença de Artigas em Toledo, ainda que assistindo de longe,  estão declarações de desertores orientais de Purificación que indicaram, já em julho, que uma tinha rebentado uma sublevação de 200 Libertos em Purificación, que acabou debelada pelos Blandengues, “quando Artigas se ausentó del Ervidero y fue a verse con Fructuoso Ribero”.

Purificación
Adicionalmente, os desertores que nos informam da visita de Artigas a Rivera (Antonio Castillo e Juan Fernandez) dão uma muito minuciosa descrição de como era Purificación, a capital dos Federais na foz do arroio Hervidero com o Uruguai, da sua guarnição, artilharia e disposições, assim como dos conflitos internos nos patriotas orientais. Ficará isso para um próximo artigo.

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Ponte moderna sobre o arroio de Toledo.

ORDENS DE BATALHA

Coluna Silveira (3 a 6 de Maio de 1817)

Brigadeiro general Bernardo da Silveira Pinto, comandante

1.º Regimento de Infantaria (DVR): c. 1000 efetivos
Coronel João Carlos de Saldanha de Oliveira e Daun

2.º Batalhão de Caçadores (DVR): c. 600 efetivos
Tenente coronel Francisco de Paula Rosado

4 esquadrões de Cavalaria (DVR)

1 esquadrão misto da Legião de Voluntários Reais e São Paulo e do Regimento de Milícias do Rio Grande.

Companhia de Artilharia a Cavalo da Corte do Rio de Janeiro
Sargento mor Isidoro d’Almada e Castro

Retaguarda (combate do dia 5 de Maio, junto a Toledo)
Comandante: Sargento Mor João Joaquim Pereira do Lago (1.º Reg Inf)
- Esquadrão de Cavalaria (DVR) - Capitão José de Barros e Abreu
- Companhia, 2.º Batalhão de Caçadores (DVR)
(- Reforço de um esquadrão de cavalaria)

BAIXAS
(Portugueses) 8 soldados mortos
(Orientais) cerca de 100 mortos e feridos

Contusos
- Sargento Mor João Joaquim Pereira do Lago (1.º Reg Inf, DVR), no combate de 5.5.1817
- Tenente Rodrigo Pinto (Legião de S. Paulo)
- Alferes António Félix Meneses (1.º Reg Inf, DVR), no combate de 5.5.1817

Feridos
-Capitão Alexandre Eloi (Legião do Rio Grande), no Combate de 6.5.1817
- 2.º sargento José Pires (Cavalaria, DVR), no combate de 5.5.1817 - amputação de mão

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Fontes
- Archivo Artigas XXX: 64-67
- BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in:Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.
- “Memoria escrita en 1830 por un oriental contemporaneo”, in: LAMAS, Andrés (Ed.), Coleccion de Memorias y Documentos para La Historia y la Jeografia de los Pueblos del Rio De La Plata (1.º Volume), Montevidéu, 1849.