segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Um mau início: Xavier Curado a José de Abreu, Setembro de 1816


Quando publico Correspondência militar no teatro do Uruguai (13 a 23 Setembro de 1816), onde transcrevo 5 cartas escritas entre comandantes portugueses na área de Entre Rios (Quaraí e Ibicuí) e Missões, a norte, não senti necessidade de apresentar a transcrição desta que aqui faço. Faço-o por duas razões:
Primeiro, só tive acesso à primeira página do que talvez sejam mais uma ou duas. Se dá para compreender inclusive a data aproximada, dá para perceber o sentido, ao mesmo tempo, uma forte admoestação e um ultimatum a José de Abreu para fazer acontecer por parte do general em chefe.
Segundo, o assunto desta carta torna-se obsoleto em cerca de três dias, quando Abreu bate Sotelo no Passo de Yapeyú, e ainda por acontecer daí por uma semana a batalha de S. Borja, onde a lenda de Abreu se cimenta. Joaquim Xavier Curado é forte nas palavras e impõe-se a Abreu naquilo que coloquialmente poderemos inclusive nomear como 'piçada', ou 'mijada'.

Apesar de achar que não coube na postagem das cinco cartas, é de interesse divulgar esta sexta carta noutra postagem, mas fazendo a ligação. 

Fora de contexto e sem as outras cartas, um leitor não teria José de Abreu senão como um mau comandante, quando de facto vai ascender à fama e heroísmo nos dois meses seguintes, em Arapey, derrotando José Artigas ele mesmo, e fechando a batalha de Catalán (no dia a seguir) com uma carga de cavalaria na ala direita. 

[463-A] [Data desconhecida (c. 18/19.9.1816), possivelmente em Marcha, TenGen. Joaquim Xavier Curado a TenCor. José de Abreu]

Sr. Tenente Coronel Jozé de Abreu

Tive muita satisfação quando me participou o Brigadeiro Tomaz da Costa de ter tomado o expediente de nomear a V. S.ª para Comandante da Partida que devia atacar e destruir os Indios que de mistura com os Insurgentes se propunhão a invadir Missoens certificando-me em Oficio de 14 que era muito natural que V. S.ª os encontra-se no dia 13: e consultando a idea que sempre formei do seu zelo, e actividade no Serviço, facilmente me persuadi que o projecto de atacar prontamente se teria executado.

Em Oficio de 15 me participou o mesmo Brigadeiro que V. S.ª pedindo-lhe maior numero de Cavalaria proguntava se devia separar as forças para atacar em dous pontos, ou o que devia fazer. 

Esta duvida, e esta progunta alem de serem ociozas fazem patentes não só que a actividade de V. S.ª mancou na melhor occazião, como tambem que os Enemigos não tinhão sido atacados no dia em que se esperava: porque sendo a Comissão de V. S.ª atacar o Enemigos pouco emportava que fossem destruidos em massa ou em detalhe. Neste instante recebo o Oficio do Brigadeiro Francisco das Chagas com data de 15 exegindo, e clamando pelo socorro que me deprecou anteriormente: signal evidente de que V. S.ª ainda não deu um só passo para adiantar a deligencia de que se acha encarregado.

Sobre este asumpto já escrevi de oficio ao Brigadeiro Tomaz da Costa extranhando o vagar e frouxidão que se observava nos movimentos de V. S.ª na data de 17 que me foi remetido por Copia. 

Este procedimento não só tardio, como perigozo pelas funestas consequencias que podem rezultar deixão muito em duvida o merecimento de V., S.ª adquirido no decurso de muitos annos, e para que não seja destruido deve V. S.ª remediar a falta que tem cometido atacando e destruindo os Enimigos que invadirão Missoens estabelecendo o socego e tranquilidade publica àquela Provincia. Deixo de lembrar a V. S.ª a responsabilidade em que V. S.ª se acha na prezença do Illmo. E Ex.mo Sr. Marquez Capitão General desta Capitania aquem já dei parte de que V. S.ª na frente de um Corpo de 700 homens composto de Cavalaria, Infantaria e Artilharia foi in- [...] [capaz?]

[infelizmente, só tive acesso à primeira página]

Fonte
Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

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Biografias
- Ten Gen Joaquim Xavier Curado (comandante da Fronteira do Quaraí) [LER]
Brig Francisco das Chagas Santos, governo militar das missões orientais, em São Borja [LER]

- TenCor José de Abreu (Esquadrões de Cavalaria de Milícias de Entre Rios) [LER]

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Tomada do Forte de Santa Teresa (16 de Agosto de 1816)


De forma a preparar a chegada dos Divisão de Voluntários Reais (DVR) ao sul, assim como para estabelecer desde logo pontos de apoio face a qualquer oposição oriental na área da fronteira do rio Jaguarão e Chui, foi considerado fundamental pelo governo do Rio de Janeiro, em acordo com os objetivos da campanha, mandar as forças da capitania do Rio Grande do Sul ocupar a vila de Melo e a fortaleza de Santa Teresa.

Enquanto que Santa Teresa, uma fortaleza originalmente construída pelos portugueses em 1762 (e perdida para os espanhóis no ano seguinte), dominava a estrada real para Montevideu e Colónia, numa zona estreita de terra próxima a Castillos entre a Laguna Negra e o mar, Melo dominava uma estrada secundária que passava pelo interior, a ocidente da Cochilha Grande, a principal cadeia montanhosa da Banda Oriental, e que levava a Minas e depois também à estrada principal, em Pan de Azúcar.

A posse de ambos os pontos era essencial agora em 1816, como em campanhas anteriores (Santa Teresa havia sido ocupada na campanha de 1811/1812, mas logo depois abandonada), não só para garantir a segurança das rota inevitáveis de penetração portuguesa (que não estavam ainda plenamente estabelecidas), como para criar pressão sobre as divisões orientais na zona (Fernando Otorgués no interior, próximo a Melo; e Frutoso Rivera na área costeira de Maldonado, um dos dois portos de águas fundas da província), negando assim também ao inimigo o conhecimento das verdadeiras intenções portuguesas, o número e movimento das suas tropas.

Assim, enquanto a DVR parte do Rio de Janeiro, o Secretário de Estado dos Negócios da Guerra, Fernando José de Portugal e Castro, 1.º marquês de Aguiar [na imagem], no Rio, manda instruções, a 6 de Junho, ao capitão general do Rio Grande, então de S. Pedro, Luís Teles da Silva Caminha e Meneses, marquês de Alegrete para que, entre outra medidas, mande ocupar Melo e Santa Teresa.


A 12 de Julho, o marquês de Alegrete [na imagem à direita] transmite essas mesmas ordens ao tenente general Manuel Marques de Sousa, comandante das forças da capitania na fronteira do rio Jaguarão, logo a sul da Vila do Rio Grande e cuja área de atuação dizia respeito a toda a área oriental da fronteira portuguesa com a banda oriental, estipulando inicialmente que a ocupação dos dois pontos devia ser simultânea no dia 20 de Agosto. Em novas ordens a 17 de Julho, decerto devido a questões diversas na reunião das forças nos dois pontos de partida, o marquês do Alegrete indica que os dois objetivos devem ser tomados antes do dia 20, ainda que em dias diferentes.

Para a ocupação de Melo, que trataremos noutro artigo, foi escolhido o coronel Félix José de Matos, comandante do Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande, assim como um pequeno destacamento de infantaria da DVR, a grande maioria da cavalaria da mesma divisão, assim como mais cavalaria de linha, de Milícias e Guerrilhas. 

Para Santa Teresa, cujo objetivo tinha um maior significado simbólico, pelo facto de ser o forte originariamente uma construção portuguesa, o tenente general escolheu o seu filho, o sargento mor Manuel Marques de Sousa, da Legião de Cavalaria Ligeira do Rio Grande, também eles Voluntários Reais, para comandar uma força constituída por cavalaria da Legião riograndense e da Legião de S. Paulo. A escolha deste oficial foi sugerida pelo marquês de Alegrete logo nas ordens originais de 12 de Julho, destinada decerto a honrar o pai e o bom serviço do filho.
A ambos os comandantes foi entregue o estandarte nacional para que fosse formalmente hasteado nos dois locais, com toda a pompa. Este era o início da invasão portuguesa.

Enquanto que Félix José de Matos entra em Melo pela manhã de 13 de Agosto, Manuel Marques de Sousa conquista o forte de Santa Teresa pelas 7 horas da manhã do dia 16, enviando a parte oficial ao seu pai e comandante, fazendo o relatório que transcrevo em seguida, valendo por si na descrição do que aconteceu nesse dia.

A vanguarda da DVR, sob o comando do marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia, prenunciando os 4000 portugueses expedicionários, chega depois ao forte duas semanas depois, a 1 de Setembro, passando as forças que ocuparam o forte a fazer parte dessa mesma vanguarda até Montevideu cumprindo as ordens do Capitão General. 


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Fortaleza de Santa Teresa, vista aérea (Wikicommons)

Ofício que escreveu o Sargento Mor Manuel Marques de Souza ao seu pai e comandante da fronteira do Jaguarão e Taim, tenente general Manuel Marques de Souza, sobre a tomada do forte de Santa Teresa ao início da manhã do dia 16 de Agosto de 1816.

Illmo. E Exmo. Senhor 
Odepois de passados cincoenta e trez annos voltou a ser arvorada nesta Fortaleza, ontem pelas sete horas da manham a Bandeira Portugueza, e firmada com trez descargas de fogo de alegria, e os competentes vivas de Sua Magestade. 
Para conseguir pois encontrar nella alguma parte da sua guarnição, foi me percizo marchar debaixo do mais rigorozo tempo, e fazer a ultima marcha de doze leguas entre tarde e noite, q' foi sertamente mais tempestuoza, e escura, a ponto de assunar-se a guarnição a ficar dentro do Forte, posto que com os Cavallos Sellados, apezar de já têr tido noticia da minha chegada a Geribatuba, e só me esperavaõ ontem por noite: porem ao manifestar se a Aurora, estava eu junto ao portaõ com quarenta homens, tendo ja deixado dois Esquadroens sercando o Arrayal, afim de que no Cazo que estivese fora do Forte a guarniçaõ se não escapava, e logo fiz forçar o portaõ e a hum brado que dei de Viva El Rey de Portugal renderaõ as Armas e entregaraõ-se prizioneiros o Cap.m de Dragoens da Liberdade e Coman.de do Forte D.m Cypriano Martins, o Ten.e Natario Molina, hum Cabo de Esquadra e oito Soldados, tendose escapado onze que na ocaziaõ do ataque se precipitaraõ das muralhas abaixo. 
No Arrayal foi prezioneiro o Tenente Coronel Coman.de dos Civicos e da Companhia de Maldonado D.m Angelo Nunes, o qual andava alistando gente para o seu Corpo, e assim mais dezanove Milicianos deste Destricto.  
Como os tivessem de levante já tinhão marchado hum Ten.e com 14 Soldados e hum Tambor, arreunir-se ao Destacamento da Cavalhada que tinhaõ em as mediaçoens de Castilhos com o fim de a porem em marcha. 
Comtudo eu ainda assim me esperanço muito de que a Partida q' ontem mesmo fiz seguir de baixo do mando do Sarg.to Mor gr.do de Cav.a de Milicias Joaquim Gomes de Melo os vá alcançar, e lhes tome a cavalhada, que me consta ser de duzentos, sobre o pouco mais ou menos. 
Os que se acháraõ se acharaõ dentro desta Fortaleza foraõ trinta e dois os quais fiz reiúnar, e foraõ intregues ao Sargento Mor Joze Pedro Galvaõ, para o serviço dos Esquadroens do seu mando. 
Amanham pertendo remeter para o Rio Grande os prezioneiros feitos dentro desta Fortaleza, e juntam.e o Ten.e Cor.el Angelo Nunes (filho de Portuguezes e acerrimo Portenho) e hoje mando para suas Cazas os Milicianos, que foraõ prezioneiros no Arrayal. 
Finalm.e Ex.mo Senhor já ninguem pode negar a V Ex.a de terem cido tropas do Comando de V. Ex.a as primeiras q' nesta Campanha trouceraõ a esta Provincia a Bandeira Portugueza, nem a mim, e aos meus Camaradas a de termos cido os que a Arvoramos nesta Fortaleza. 
D.e g.e a V. Ex.a por m. ann.
Fortaleza de Santa Thereza, 17 de Agosto de 1816
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Fontes
- Arquivo Histórico de Itamaraty, AHI-REE-00553 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Memórias do coronel Francisco de Paula Azeredo - I

A expedição demorou-se quatro mezes no Rio de Janeiro antes de seguir ao seu destino. Não está no animo dos portuguezes a grande actividade. N'aquelle clima ardente ainda esta era menor e mais demorada a sua acção.

Durante o tempo que esteve no Rio de Janeiro foi o Coronel Azeredo muito bem recebido pelo novo soberano, e pelo Principe real, que depois foi Imperador e Rei com os titulos de D. Pedro 1.° imperador e D. Pedro IV rei de Portugal.

Além das medalhas do commando nas batalhas da guerra peninsular em que o Coronel Azeredo commandara, com que El-Rei o havia agraciado, foi por decreto de 17 de Dezembro de 181o, muito antes de elle chegar ao Rio de Janeiro, condecorado com o gráo de cavalleiro da ordem da Torre e Espada.

El-Rei confiou-lhe o commando do segundo regimento d'infanteria d'esta expedição, que exerceu immediatamente. Durante o tempo que esteve no Rio procurou adestrar o regimento no exercicio e manobra, e como El-Rei ordenasse differentes paradas, a que elle e o Principe com o Infante D. Miguel iam assistir, tambem n'estes actos d'ostentação se foi passando o tempo. 

[junho 1816]
Finalmente em junho de 1816 deixou o magnifico e frequentado porto de S. Sebastião do Rio de Janeiro a expedição destinada á campanha do Rio da Prata, seguindo para a Ilha de Santa Catharina, onde aportaram ao cabo de dez dias de viagem favoravel. N'esta derrota passaram rapidamente pelas alturas de S. Paulo e de Santos, villa muito importante, de commercio consideravel em assucar, couros, agoardente e café, e vieram lançar ferro á cidade de Nossa Senhora do Desterro, na costa occidental da Ilha de Santa Catharina. Esta cidade, que hoje tem largas proporções, já então era de valia, possuindo varias fabricas e fazendo extenso commercio.

[15 de Julho de 1816]
Ahi esteve a expedição aquartelada alguns dias, e foi só a 15 de julho que ás sete horas da manhã sahiu para o continente o 2.° batalhão do 2.° Regimento de voluntarios reaes d'El-Rei, a cuja frente se collocou o Coronel Azeredo. O embarque fez-se em lanchas baleeiras, assim chamadas por se empregarem na pesca das balêas, que se faz em larga escala n'estas paragens. Com vento fresco apenas levou sete horas a atravessar o estreito canal que separa a Ilha de Santa Catharina da província em terra firme do mesmo nome. O desembarque fez-se no pontal da Pinheira, praia arenosa, sita no fim da extensa bahia do mesmo nome, proxima á barra do Sul a seis legoas de distancia da cidade de Nossa Senhora do Desterro. São sempre as praias que bordam o mar por tal forma varridas pelos ventos, que difficil é poder acampar n'ellas sem grande incommodo: nos paizes porém da America do Sul, os ventos são por modo tão impetuosos, que taes acampamentos se tornam cheios de riscos. Além d'estas circumstancias geraes, o regimento não levava barracas nem abrigo de qualidade alguma. O governo portuguez é sempre o mesmo em todas as épocas: occupa-se especialmente do luxo e sumptuosidade no adorno das secretarias d'estado e nos gabinetes dos ministros: e de resto abandono completo: quando além d'isto se trata da força armada, esse abandono e desleixo sobe de ponto. Bem longe de se procurar mitigar-lhe o rigor dos seus penosos deveres, mais se lhe aggravam. Manda-se que marche e lá se avenha como podér: estamos na primitiva. Xenophonte retirando da invasão na Persia, e Annibal atravessando os Alpes para conquistar a Italia e sopear a altivez dos romanos, não conduziriam de certo os seus soldados mais expostos. Conhecemos os inconvenientes da equipagem de castrametação, mas ha circumstancias em que ella é indispensavel. Tal era a presente, em que a divisão havia de atravessar durante mezes inteiros um paiz deserto e açoitado pelos mais borrascosos temporaes.

Forçoso foi comtudo acampar em tão inhospita praia, e escolhido o logar mais abrigado dos ventos, bivacou o batalhão, occupando o Coronel e o seu ajudante o unico casebre -que alli havia, onde vivia uma pobre velha, que tinha tres netos, que se sustentavam de farinha de pau. Os soldados procuraram lenha nas proximidades do acampamento, e vieram fazer o rancho, e aquecer-se, porque a estação era, como se sabe, o rigor do inverno, por ser o mez de julho, que n'aquella latitude meridional é muito aspero.

Pelas 10 horas da noite sobreveio uma espantosa trovoada com relampagos horriveis e copiosa chuva.

Posto que esta paragem já esteja ao sul do tropico de Capricornio, ainda assim está sujeita como todos os paizes do imperio brazileiro, a tufões, trovoadas e tempestades continuadas. Estes phenomenos meteorologicos sempre respeitaveis em toda a parte, tomam um aspecto pavoroso n'aquellas regiões. 



Retirado de: AGUILAR, Francisco D’Azeredo Teixeira D’, Apontamentos Biographicos de Francisco de Paula D’Azeredo, Conde de Samodães, Porto, Tip. Manoel José Pereira, 1866.

sábado, 2 de julho de 2016

Memórias do tenente coronel António José Claudino de Oliveira Pimentel - I

Janeiro de 1816 – O dia 20 de janeiro de 1816 foi o dia do embarque da infantaria pertencente á divisão dos voluntarios reaes do principe, tendo já embarcado para o Rio de Janeiro, em setembro de 1815, toda a cavallaria e artilheria da mesma divisão.

Pelas oito horas da manhã d’aquelle dia pozeram-se em marcha as duas brigadas de caçadores para embarcarem no arsenal da marinha. Durante a marcha, desde Belem a Lisboa, notava-se extraordinaria concorrencia de gente de todas as classes, em cujos rostos se manifestava profunda mágua, por verem partir de Portugal uma tão brilhante porção de tropa, que se lhe afigurava não regressaria á patria. Tal é o descostume em que estão os portuguezes de ver partir dos nossos portos expedições marítimas de maior vulto!

As brigadas embarcaram na melhor ordem, assistindo a esta operação o general Lecor, commandante da divisão, e o incansavel chefe de divisão Rodrigo José Ferreira Lobo, que havia dado para este effeito as mais acertadas providencias.
Ás duas horas da tarde estava ultimado o embarque a bordo dos seguintes navios: nau Vasco da Gama e charrua S. João Magnanimo; e nos vasos mercantes: Caridade; Flor do Tejo; S. José, Phenix; Asia Grande; S. Thiago Maior; Commerciante; Russia (sueco); L’Orient (francez) e um bergantim inglez.

Os governadores do reino haviam-se esmerado em dar as mais generosas providencias para que durante a viagem nada faltasse aos officiaes da divisão, e para que os soldados fossem tratados o melhor possivel, não poupando para o conseguir nem desvelos nem despezas.

Estivemos fundeados no Tejo desde 20 de janeiro até 15 de fevereiro, não ocorrendo durante este tempo cousa alguma notavel, senão os ventos contrarios que nos não deixavam levantar ferro.

Finalmente, amanheceu esplendido o dia 15 de fevereiro. Soprava um vento de nordeste que convidava os navegantes a desaferrar do porto de Lisboa. Era dever o partir. Ás sete horas da manhã fez a nau o sinal de suspender. poz-se então todo o comboio em movimento, e do meio dia para a uma hora da tarde todos os navios tinham saido a barra, escondendo-se ás nossas vistas a capital do reino, sem que podessemos agourar quando, ou se a tornariamos a ver.
Ao sair a barra a nau Vasco da Gama abalroou com um pequeno bergantim inglez que bordejava para entrar no Tejo, e que é muito natural que ficasse maltratado, porque a nau pela sua parte teve o beque partido.

No dia 21 avistámos a ponta de oeste da ilha da Madeira e separou-se então de nós o bergantim Balão, que havia acompanhado o comboio até aquela altura para informar os governadores do reino do que até àquele ponto houvesse occorrido. 

Continuámos com a maior felicidade a navegação tão bem encetada; pois não houve durante toda ella um só temporal no mar, nem a mais leve doença a bordo, nem a menor falta; sendo a tropa sustentada, não só com abundância de mantimentos, mas até com profusão de refrescos, havendo à disposição do corpos tudo quanto era necessário para conservar a saúde, asseio e bom estado dos soldados. E na verdade tropa alguma foi jamais bem vestida, equipada e tratada do que a divisão dos voluntarios reaes do principe, sendo tudo isto devido ao desvelos e assiduos cuidados de D. Miguel Pereira Forjaz, secretario d’estado da guerra e marinha.

No fim de quarenta e quatro dias da mais feliz e tranquilla viagem avistámos no dia 29 de março a ponta de Cabo Frio, navegando sempre com vento favorável e fresco. Este porém acalmou de tarde, o que no obrigou a dar fundo à vista da barra do Rio de Janeiro.
Pouco tempo depois de fundearmos, passou um escaler do Rio de Janeiro, dando a notícias do fallecimento de sua majestade a rainha D. Maria I, de saudosa memória. Soubemos também então que o marechal Beresford ainda se achava no Rio de Janeiro, e esta notícia não foi de certo agradavel a muitos dos que íamos...” 

[...] El-rei mostrava no semblante extrema alegria ao ver aqueles seus fieis vassalos que por tantas vezes haviam arriscado as vidas, em defesa dos seus direitos e da nacionalidade portuguesa, nos campos de batalha contra o grande conquistador da Europa, e que agora deixavam outra vez a pátria, famílias, fortuna e amigos para correrem, voluntários, a novo combates em que se achava empenhada a honra nacional.

Retirado de: PIMENTEL, Júlio Machado de Oliveira, Memorial Biographico de um militar ilustre, O General Claudino Pimentel, Lisboa, Imprensa Nacional, 1884, pp.75-77

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Estado Maior: Sebastião Pinto de Araújo Correia

Igreja Matriz de Viana do Castelo
O marechal de campo SEBASTIÃO PINTO DE ARAÚJO CORREIA nasceu em Viana do Castelo, em 1784, filho do brigadeiro Francisco Pinto de Barbosa Araújo Correia e de D. Francisca de Araújo Pinto.

Em 16 de Agosto de 1799, assentou praça como voluntário no Regimento de Infantaria de Viana, futuro n.º 9, na companhia de caçadores, tendo participado na campanha de 1801. É reconhecido como cadete a 1 de Julho de 1804.

A 1 de abril de 1805, é sargento mor agregado ao Regimento de Milícias de Braga. Pouco depois da restauração do reino, é promovido a sargento mor do Batalhão de Caçadores n.º 6, estando presente nas batalhas do Buçaco, em 1810, e de Fuentes de Honor, em 1811, onde recebe um ferimento na cabeça. 

A 10 de julho de 1813, é promovido a coronel do Regimento de Infantaria n.º 18, o antigo 2.º Regimento do Porto. 
A 6 de novembro de 1813, parte para o Rio de Janeiro, com licença de três meses. A 12 de outubro do ano seguinte, é promovido a brigadeiro. A sua contribuição para a ideia de uma divisão de tropas ligeiras vindas de Portugal para o Rio Grande foi enorme e foi este oficial a transportar a Lisboa as ordens de criação da mesma em dezembro de 1814. 

Passa, com 31 anos de idade, à Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, como marechal de campo Ajudante General. Comandou, a partir de 4 de julho de 1816, a Coluna da Vanguarda da divisão e comandou as forças portuguesas na batalha de India Muerta.

Fontes:
- Arquivo Histórico Militar
- Wikipedia Commons


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Leia também

BATALHA DE INDIA MUERTA:

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Liga Federal ou dos Povos Livres e suas campanhas (1814-1820)

Conjunto de esculturas y pinturas de autores uruguayos del período 1880 - 1945 ubicadas en el Cuartel de Dragones. Ubicada en el departamento de Maldonado



Fonte: Wikicommons [primeira] [segunda]

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Mapa da Batalha de Catalão: 4 Janeiro de 1817

clique para visitar o mapa no seu sítio
Apesar deste blogue assumir pelo nome o seu interesse na Divisão de Voluntários Reais, na verdade - e no que diz respeito à Campanha de 1816/1817 -, queremos também divulgar as ações da zona oeste do teatro de operações, onde as tropas das Capitania do Rio Grande, sob o comando do Capitão General Marquês do Alegrete e do Tenente General Joaquim Xavier Curado, na fronteira do rio Quaraí e nas Missões, defrontaram o grosso das tropas orientais, impedindo Artigas de penetrar na zona de Entre Rios pelo Rio Grande adentro, assim negando o objetivo de ameaçar a retaguarda da Divisão de Voluntários Reais a leste, pela Angostura e pela fronteira do rio Jaguarão.

Disponibilizado originalmente pela Biblioteca Nacional do Brasil e pela Biblioteca Mundial Digital, este mapa diz respeito à batalha de Catalán, disputada um pouco a sul das atuais cidades de Artigas (Uruguai) e Quaraí (Brasil) e resultou numa vitória que permitiu a tomada de Montevidéu apenas 13 dias depois pelas forças da Divisão e as unidades do Brasil comandadas pelo Sargento Mor Manuel Marques de Sousa.

A batalha de Catalán foi combatida por 2436 militares portugueses do Exército do Brasil, comandados pelo Marquês do Alegrete e por Joaquim Xavier Curado, e por cerca de 3300 militares orientais comandados por Latorre e Verdún. Entre a informação preciosa e a descrição narrativa em baixo, encontramos informação acerca das munições despendidas pelo lado português:

Artilharia, 149
Fuzil (ou Mosquete), 11,749