segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Batalha de São Borja (3 de Outubro de 1816)


Antecedentes
A vila de São Borja, nas missões orientais junto ao rio Uruguai, estava sitiada desde 21 de setembro. Após vários ataques, nomeadamente o de 28 de setembro, estava planeado um novo assalto oriental para o dia 3 de Outubro. 
É já na preparação das forças orientais sob André Artigas, que José de Abreu chega, atacando imediatamente a retaguarda, iniciando uma ação geral e a retirada oriental, terminando com o cerco à importante vila de fronteira.

O Plano de Artigas (voltando atrás)
Em Julho, o plano de José Artigas era o de avançar simultaneamente as suas forças em Missões e na fronteira do Quaraí, com o objetivo de entrar pela província do Rio Grande até à Serra Geral e ameaçar o flanco português, nomeadamente a Divisão de Voluntários Reais que começava a desembarcar nas praias de S. Catarina. A ação oriental deveria ser forte e rápida.

A Invasão das Missões Orientais
A 25 de agosto, José Artigas dá ordens a Andrès Guatuçari Artigas que avance sobre São Borja e que ele próprio iniciaria a ofensiva em breve, informando-o que os portugueses já haviam entrado em território oriental, no Cerro Largo. As fontes indicam que Artigas estava com dificuldades na recolha de cavalos, um problema que acossava também os portugueses.
Obedecendo às ordens, com a demora normal numa operação desta envergadura, Andrès Guatuçari, conhecido entre os portugueses como Artiguinhas, passa o rio Uruguai no passo de Itaqui a 12 de setembro, arrolando a guarda portuguesa em São João Velho, dando assim início à invasão das missões orientais.
[…] repasó el [........] [rio Uruguai] el 12 del pp. este dia forsó la guardia portuguesa q. estaba en la costa bien atrincherada. Apesar de su fortificacion fue asaltada y pasados a cuchillo 87 hombres q havia,  en  este dia  fue erido el Cap. Miño, un teniente, sinco sold[ado]s y tres muertos por otra parte. (Gorgonio Aguiar, carta de 11/10)
Quatro dias depois, a 16, Andresito desbarata um destacamento português de cerca de 300 elementos vindos de São Borja, comandado pelo capitão Ferreira Braga. A ação fica conhecida como o combate de Rincão de La Cruz:
El 16 se le presentaron 200 portugueses q. destroso al momento haviendoles muerto catorse y el resto disparado a S. Borja. (Gorgonio Aguiar, carta de 11/10)

Sítio de São Borja e... 
A 21 de Setembro, Andrés Artigas monta sítio à vila de S. Borja, intimando o brigadeiro Francisco das Chagas Santos à rendição. O brigadeiro comandante de S. Borja tinha, de acordo com Moraes Lara, ao seu dispor 200 homens, entre os granadeiros do Regimento de Infantaria de Santa Catarina e unidades brancas e guaranis locais.

A Ação de Yapeyú
Ao mesmo tempo, cem quilómetros a sul, nas costas do rio Uruguai, o tenente coronel José de Abreu (com ordens de aliviar S. Borja e atacar qualquer força oriental) batia em pormenor as forças de Pantaleón Sotelo, no passo de Yapeyú, que passavam para reforçar Andrés Artigas em S. Borja. 

Por não ter tido tempo de passar a cavalhada no dia anterior, Sotelo foi atacado por Abreu com as uma metade do sua divisão em cada margem do rio, sendo obrigado a retirar de novo para a margem direita do Uruguai, conforme nos informa Justo Negros:
Con esta fecha noticio a VS. q.e en el momento q.e me reuní con el comandante D. Pantaleon Sotelo para pasar su tropa del otro lado lo verificamos con los corsarios por el arroyo del vicuy [Ibicuí] el día veinte del q. gira y en virtud de no haver concluido deparar un corto trozo de Cavallada, tubimos q.e aguardar el día siguiente, luego q.e se concluyo dicho trabajo y q.e nos pusimos en franquia se nos presentaron los Enemigos en el mismo paso con dos piezas de Tren del Calibre de 4, luego q.e estos tomaron el monte principiaron a dirijir sus fuegos de cañon a los Buques y tropa q.e se hallaban deste lado; Inmediatamente determiné se hiciera safarrancho a bordo y rompi el fuego con los corsarios asta tirarles noche cañonasos contestandome ellos con seis de Bala raza; en nuestra Gente no se esperimento ninguna desgracia y al ber el  fuego de los Enemigos no sehoia mas voz q. era el de mueran los tiranos q. nos intentan oprimir.Seguidamente determiné salieran los Buques fuera del arroyo del Bicuy [Ibicuí] para lo qual nos habian preparado nuebamente una Embozcada de Cavalleria a esperar nos aproximaramos a la Costa para lograrnos, esta intencion nunca les surtió Efecto alguno pues con motivo de hir siempre una canoa armada con un cañon a la banguardia fueron descubiertos pues rompieron un fuego vivo afucileria y la canoa les correspondió con un cañonazo ametralla [Justo Negros, carta de 23 de Setembro]
[leia mais sobre a Ação do Passo de Yapeyú (21 de setembro de 1816)]


* * *

Continua o Sítio
Ao quarto dia do sítio de S. Borja, a 24, Andrès Artigas intima Chagas do Santos à rendição com um prazo de três horas. 
O brigadeiro português de 53 anos era o comandante das Missões desde Agosto de 1809, e, apesar de ter uma inferioridade de forças bastante apreciável, mantém uma defesa irredutível. No máximo, a um dada altura do sítio haveria 2 portugueses por cada 10 orientais, mas é de crer que muitas das forças de Andrès Artigas estivessem em outros serviços, em forreagem ou atacando outras povoações da região. 
O brigadeiro Chagas do Santos tinha no entanto bastante mais peças, disposta em defesa da vila de S. Borja; um total de 14 peças. Andresito só teria 2 peças e não é certo que as tenha tido em todo o sítio de 21 de setembro a 3 de outubro.

Ibicuí
Mais a sul, José de Abreu, tomando conhecimento que a norte do rio Ibicuí havia actividade inimiga, passou em dois dias este rio, que tinha as águas bastante altas:
[…] se empregarão  dois  dias  por  faltarem  todos  os  recursos, e pelas muitas águas que  inundavam [...] (José de Abreu) 
A 26 de Setembro, mal passa o Ibicuí, José de Abreu começa imediatamente a atacar as forças hostis:
Tendo [...] passado o Ibicuí [...] e sabendo que na sua margem direita andava huma Partida de Indios em saque, e ja possuidora de duas Carretas de effeitos, de hum Estanciero, fiz avanzar a guarda que flanqueava o lado direito da Divizão Comandada pelo Tenente Floriano dos Santos do Esquadrão d'Entre Rios, e este encontrando-a a destruirlo matando oito aprisionando dez mulheres, e somente fugindo  hum. No mesmo dia vindo-se reunir a Divisão o Cabo Ribeiro com uma Partida de quarenta Milicianos, e Paisanos encontrou outra dos Inimigos superior em n.º entre as pontas do Arroio  Yacuhy destinada a conduzir gado para os que cercavam S. Borja, e batendo-a a pôs em completa  fuga  com  perda  de  cinco. [José de Abreu]
No dia seguinte (27), José de Abreu, com os seus 600 efetivos, das três armas, continua a ditar um ritmo acelerado e, com base num batedor oriental capturado, bate 200 cavaleiros 'insurgentes' – avançadas da divisão de Sotelo – junto ao arroio Tuparaí. Alguns dos mesmos que haviam sido derrotados no dia 21, mais a sul.
[...] Havendo os flanqueadores aprendido um Bombeiro nas imediações do Tuparahy, deste soube que infestavam aqueles lugares 200 insurgentes, os mais avançados de Sotelo Comandante do reforço do Sitio (a quem desorganizei a marcha no Passo de Santa Maria no Ibicuí [no dia 21]) e destinando o Esquadrão de Dragões para os bater, este medindo de mais perto, as suas forças os entreteve até que foi reforçado, com mais cavalaria, e as puseram em derrota matando vinte [e] quatro e dispersando o resto sem o menor prejuízo dos nossos. (José de Abreu)
Ao oitavo dia do Sítio de S. Borja, a 28 de Setembro, Andresito efetuou um ataque geral à povoação, que  foi rechaçado por Chagas Santos. O comandante português faz menção nas suas cartas ao general Curado, da grande eficácia da artilharia e da infantaria nos muros da horta da vila nesse dia.

Passam os dias 29 de setembro a 2 de outubro sem nota, mantendo-se o sítio de S. Borja por Andresito e a progressão de José de Abreu, na sua direção, para o alívio da vila. 

Por volta do dia 2 de Outubro, Sotelo consegue finalmente juntar-se a Andrès Artigas, passando no Passo do rio Uruguai fronteiro a S. Borja, bastante mais a norte do que o primeiro sítio onde o pretendia fazer. 
Tendo as tropas de Sotelo reunidas a si, apesar das baixas que Abreu lhes infligiu nas semana anterior, Andrés Artigas marca um ataque geral à vila para o dia seguinte. Era este já o 13.º dia do sítio. 
Urgia a tomada desta importante povoação, ou toda a estratégia oriental ficava em perigo nas Missões.

A Batalha
Na manhã de 3 de Outubro, Andresito dispunha metade da sua divisão perante S. Borja, mantendo, em retaguarda a outra metade, mais afastada para ocidente, para observar a eventual chegada dos portugueses de sul. As duas metades do divisão oriental estavam separadas por um pequeno arroio.
José de Abreu, a coberto de nevoeiro, conforme nos informa o capitão Moraes Lara, defronta-se com a parte ocidental, ou a retaguarda, e imediatamente o comandante português dispõe as suas forças.

Segue a narração oficial dos factos feita por José de Abreu.




***

Parte oficial do tenente coronel José de Abreu, sobre a batalha de São Borja [escrito em São Borja, 8 de Outubro de 1816.]

Ill.mo Snr.


Agora que tenho concluído a total Evacuação dos Insurgentes em toda a margem do Uruguai, desde a Estância do Capitão Francisco Soares em frente do Povo de Yapeyú até este cumpre ao meu dever participar a V. S. o complemento desta Comissão em que V. S. tão justamente se empenhava, e aonde caia o maior peso das forças inimigas.

[26.9]


Tendo no dia 26 do que expirou passado o Ibicuí (onde se empregaram dois dias por faltarem todos os recursos, e pelas muitas águas que inundavam) e sabendo que na sua margem direita andava uma Partida de Índios em saque, e já possuidora de duas Carretas de efeitos, de hum estancieiro, fiz avançar a guarda que flanqueava o lado direito da Divisão comandada pelo Tenente Floriano dos Santos do Esquadrão d'Entre Rios, e este encontrando-a a destruí-lo matando oito aprisionando dez mulheres, e somente fugindo hum. No mesmo dia vindo-se reunir a Divisão o Cabo Ribeiro com uma Partida de quarenta Milicianos, e Paisanos encontrou outra dos Inimigos superior em n.º entre as pontas do Arroio YACUHY destinada a conduzir gado para os que cercavam S. BORJA, e batendo-a a pôs em completa fuga com perda de cinco.  

[27.9]


No dia 27 havendo os flanqueadores aprendido hum Bombeiro nas imediações, do TUPARAHY, deste soube que infestavam aqueles lugares 200 Insurgentes, os mais avançados de SOTELO Comandante do reforço do Sitio (a quem desorganizei a marcha  no PASSO  DE SANTA MARIA no IBICUÍ [21/9]) e destinando o Esquadrão de Dragões para os bater, este medindo de mais perto, as suas forças os entreteve até que foi reforçado, com mais cavalaria, e as puseram em derrota matando vinte quatro e dispersando o resto sem o menor prejuízo dos nossos.  

(...)

[3.10 - a batalha]


Finalmente no dia 3 do que corre aproximando-me em distância de meia légua no sitiado assomou o Inimigo numa altura que fica por detrás do mesmo em n.º de 800 homens, e chamando-nos para aquela parte com uma continuada fuzilaria dispus a Divisão em Ordem de Ataque em quanto avançava hum Esquadrão d'Entre Rios comandada pelo Tenente Romão de Sousa a reprimi-lo, e corta-lhe a comunicação que tinha pelo flanco esquerdo com o resto do Exercito, composto de 700 Insurgentes, porém notando que quanto mais nos aproximávamos mais se dispersava, e que com marchas retrogradas ora compunha pequenas massas ora debandara, e com pequenas escaramuças pretendendo penetrar os nossos flancos; 


Ordenei em detalhe os diferentes Corpos apropriando os ao terreno que nos ofereciam. 


A Infantaria da Legião de São Paulo dividida em duas partes, e comandadas pelos Capitães [Joaquim da] Silveira [Leite]  e [José Joaquim] Machado [de Oliveira] avançou a ocupar dois pomares que serviam de apoio aos Insurgentes e que na sua retirada pareciam limpos. Noventa e uma balas daquela Arma fizeram o mais pronto efeito, e que era de esperar de um Corpo que com bravura e intrepidez entranhou-se naqueles lugares que serviam de emboscada aos Inimigos que em numero de 91 esperavam ocasião própria de operarem.  


A Artilharia e Cavalaria do mesmo Corpo comandadas pelos Tenentes [José Joaquim da] Luz e  [José de] Castro [do Canto e Melo] , depois de terem protegido a marcha da Infantaria, e depois de a colocarem nos Pomares; a primeira em lugar oportuno começou as suas cargas de metralha dirigidas as pequenas Massas quando se formaram, e varrendo-as decididamente e em muito prejuízo dos contrários, deu pronta ocasião a segunda para com todo o peso, e com mais pronta velocidade tomar uma boca de fogo, e concluir a derrota total dos inimigos.  


O Esquadrão de Dragões do comando do Capitão [José de Paula] Prestes disposto por sua ordem no centro tive pouco que avançar porém teve ocasião de reprimir o Choque de uma Escaramuça com que intentava o inimigo bater-nos pela retaguarda. 


O Corpo dos Naturais Lanceiros formando sempre a vanguarda da Divisão nesta acção teve de ocupar o terreno em frente do flanco direito, e na sua Ordem dispersa de ataque, e em correrias singelas destruiu os mais dispersos do Inimigo, e serviço de apoio aquele flanco.  


Não quis empenhar todas as forças da Divisão neste Choque, e ficou como de reserva, e observação o Esquadrão de Milícias do Rio Pardo, e a Guarda da  retaguarda composta de cinquenta homens alem da que guardava a munição e bagagem tudo debaixo das disposições do Capitão Corte Real para em caso de precisão aplicá-los as circunstâncias que ocorressem.  

Comandante das forças orientais no sítio e na batalha de S. Borja

É incrível que hum Inimigo indisciplinado se bem que feroz sem ordem, e posto em confusão se arrostasse por espaço de duas horas na persuasão de fazer balancear as nossas Armas: ele pretendeu em vão uma arrebatada fuga para todos os lados, foi a conclusão da vitoria.  


Os poucos que restavam dos que atacamos unindo-se aquela parte do Exercito que acaba de Sitiar o POVO, passando o com tanta rapidez, e desordem que deixaram-nos uma boca de fogo e uma Carreta com alguma munição.  

Esta retirada praticada com tanta violência, e em tempo que ainda se  aplicaram os Corpos que atacavam a total extinção de alguns dispersos, só foi observada pelo Corpo de reserva que nada podia operar pela sensível desproporção de forças, por em quando as circunstâncias o permitiram destaquei os Esquadrões de Dragões, e D' Entre Rios com toda a reserva, e logo após o resto da Divisão para  picar-lhe a retaguarda, o que foi sem fruto por causa da grande distância que haviam ganhado na nossa vanguarda, e porque o supra dito banhado impediu a velocidade que se devia praticar naquele caso.  


Tendo marchado para o povo soube que outra parte dos Inimigos em n.º de 700 se encaminhava para o PASSO DO URUGUAI no intento de o passar, imediatamente dirigi para aquele lugar a Infantaria protegida pelo Esquadrão de Milícias do  Rio Pardo com as duas bocas de fogo; foi muito a tempo esta avançada pois encontrando ainda o inimigo que principiava a passar pelo fogo de Artilharia assestada do outro lado, e por uma das barcas Canhoneiras que em Yapeyú serviu-lhes para igual efeito; bateu-os completamente, e os apertou contra o Rio de tal forma que aqueles que não eram alvos do fuzil iam perecer nas suas águas.


A Artilharia dirigindo as suas pontarias com tanto acerto meteu ao fundo uma canoa com Armamento, e gente, e rompeu a bandeira da Canhoneira. O resto dos Inimigos que ficou deste lado procurando salvar-se no mato foi batido pela Infantaria, e obrigado com mais rapidez a lançar se ao  Rio, aqueles que não estavam ao alcance do seu peto


Havendo-se retirado esta gente, e depois de estar mais descansada fiz marchar os Esquadrões de Dragões, e de Milícias do Rio Pardo, e com alguns Milicianos desta Província comandados pelo Capitão Prestes em seguimento da Coluna Inimiga que se havia retirado pelo banhado depois de acossada pelo primeiro Ataque.  

[4.10]


No dia 4 a encontrou em distância de cinco léguas deste Povo, e dirigindo-se para o Uruguai no lugar onde este conflui o Arroio Butuí; aí atacou-a, e com muita vantagem apesar da desproporção das  forças, pois opondo a mais de 700 a sua gente composta de duzentos matou quarenta e tantos atropelou-os, e os fez retirar por grande espaço e com muita velocidade, mas aproximando-se a noite, e receando a exposição da gente, e além disto muito distante do grosso da Divisão retrogradou a sua marcha para este Povo com a  Perda de cinco Milicianos desta Província.  

[5.10]


No dia 5 marchei com toda a Divisão,  

[6.10]
e o 6 chegando aquele lugar nada mais encontrei senão 620 cavalos, que ainda pretendiam passar, e os recentes sinais de uma desesperada fuga pelo Uruguai; Tendo, assim ultimado a Comissão de  que por V. S.ª  fui encarregado, não só de romper o assédio que apertava este povo como de limpar esta Província dos Insurgentes que a infestavam, e que com ligeiros passos pretendiam escravizá-la em titulo de liberdade, tendo em primeiro lugar de tender as Graças, ao Altíssimo como primeiro móvel de todo o bem, e em segundo a valentia, e hábil Oficialidade, e mais indivíduos desta Divisão que com a mais heróica intrepidez, e coragem repeliram o Inimigo, e o fizeram conhecer em poucos momentos que o peso das Armas Portuguesas não fraqueja. Sim Ill.mo Snr não teve a presença de 20 Inimigos força bastante para fazer vacilar a sua valentia e patriotismo.


Eles foram batidos constantemente, e de certo metade daquele número pagou com a vida os seus insultos, e devastações. Dois mil e tantos cavalos ficaram em nosso poder assim como uma grande quantidade de Armamentos, duas bocas de fogo de Cal-3, e 6, alguma munição de guerra, todas as montarias da Coluna que passando o Uruguai no Passo deste Povo, toda a grande e interessante correspondência entre os dois Artigas, da qual parte já enviei a S. Ex.ª, e 74 Prisioneiros de ambos os Sexos inclusos um Capitão, um Alferes, e 4 Negros.  


Vejo-me na triste precisão, e com toda a sensibilidade de acrescentar a esta Exposição a perda de 2 Soldados da Legião de S. Paulo, os 2 dignos Portugueses que um no conflito, e outro no seguinte dia deram a vida no Criador, tem sido ela bem lamentável, e já mais se apagará da nossa ideia a lembrança de duas vitimas imoladas a Pátria pelas mãos de uns bárbaros que estão bem longe de apreciar as qualidades de hum Soldado Português e que naqueles bem se distinguiram o n.º somente 15 feridos 8 levemente, e o resto com mais gravidade. 


Nada mais me resta dizer a V. S., a quem desejo completa saúde e felicidades. 


Deos Guarde a V. S. Povo de S. Borja 8 de Outubro de 1816


Ill.mo Sñr Brigadeiro Thomaz daCosta Correa Rabelo e Silva
José de Abreu.




Baixas

S. BORJA E AÇÕES SOBRE O URUGUAI

MORTOS FERIDOS
Ação OFICIAIS PRAÇAS OFICIAIS PRAÇAS
Cav, LSP 0 1 0 1
Inf, LSP 0 1 0 3
Art, LSP 0 0 0 1
Reg Mil Rio Pardo 0 10 0 1
Reg. Entre Rios 0 0 0 6
TOTAL 0 12 0 12


LSP = Legião de Voluntários Reais, São Paulo


* * *


COLUNA ABREU: Ordem de Batalha

Tenente coronel José de Abreu, comandante


Cavalaria:

1 esquadrão, Regimento de Dragões do Rio Grande (capitão José de Paula Prestes);
1 esquadrão, Legião de S. Paulo (tenente José de Castro Canto e Melo);
1 esquadrão, Regimento de Milícias do Rio Pardo (tenente Olivério José Ortiz);
1 esquadrão, Milícias do Distrito de Entre Rios (tenentes Romão de Sousa & Joaquim Félix de Fonseca);
1 esquadrão, Milícias Guaranis;
Total de 513 efetivos

Infantaria:

Capitães Joaquim da Silveira Leite & José Joaquim Machado de Oliveira
Legião de São Paulo, 117 homens

Artilharia:

2.º Tenente José Joaquim da Luz
Legião de São Paulo, 23 homens, guarnecendo 2 peças de calibre 3

Total geral: 653


Guarnição de S. Borja: Ordem de Batalha e Baixas


Brigadeiro Francisco das Chagas Santos, comandante


- Companhia de Granadeiros, Regimento de Infantaria de S. Catarina (Capitão José Maria da Gama Lobo);

- Milícias Brancas;
- Milícias Guaranis;
c. 200 efetivos 

De acordo com Moraes Lara, a guarnição teve 5 feridos graves e 4 leves nos assaltos à vila, prévios à batalha.


* * *

Leia mais:

Batalha de S. Borja: A primeira notícia (dada por Hipólito Francisco de Paula a Joaquim Xavier Curado, a 9.10.1816):


* * * 

Biografias
- Tenente coronel José de Abreu
- Brigadeiro Francisco das Chagas Santos


Fontes

- Comisión Nacional Archivo Artigas, Archivo Artigas, Montevideo, Monteverde, t. 31: pp. 364-367
- Diogo Arouche de Moraes Lara, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista trimensal de Historia e Geographia, ou, Jornal do Instituto Historico e Geographico Brazileiro, n.º 27, Outubro de 1845

Antecedentes: Regimento de Voluntários Reais (1762-1770?)

Uniformes da infantaria, c. 1763


Regimento de Voluntários Reais foi criado em 8 de Agosto de 1762 com o efectivo de 800 praças, divididos em 8 companhias de Infantaria e  4 companhias de Cavalaria, sob o comando do coronel Charles Chauncy. Após a Guerra do Pacto de Família, ficou aquartelado em Faro, pelo menos desde 1767, onde foi extinto entre 1769 e 1772, possivelmente logo nesse primeiro ano.

Foi a primeira experiência do uso de tropas ligeiras na primeira linha, ou tropa paga, do Exército Português. Os batalhões de caçadores iriam adotar em 1806 a cor castanha do tecido de saragoça que esta unidade usou. Também a Divisão de Voluntários Reais do Rei, em 1815, emulou tanto o nome quanto a cor dos uniformes. Várias outras unidades posteriores do tipo usaram o nome Voluntários Reais (S. Paulo e Rio Grande), assim como o modelo do uso combinado ligeiro da infantaria, cavalaria e artilharia.

Uniformes da cavalaria, c. 1763

Imagem
Divisas de los Regimientos de Infantería y Caballería del Reyno de Portugal, disponibilizado pela Biblioteca Nacional de Espanha [Sítio]

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Memórias: “Diário de um oficial superior de Cavalaria de Setembro de 1815 a Maio de 1816”

“Diário de um oficial superior de Cavalaria de Setembro de 1815 a Maio de 1816”.  Consta de um pequeno caderno que tem escrito "9º diário". 68 pp. manuscritas, no Arquivo Histórico Militar, AHM 2/1/14/63

Por exclusão de partes, com base na informação que o autor dá no texto, identifiquei o “oficial superior de cavalaria” como o major João Nepomuceno de Lima, um dos dois majores que viajaram para o Brasil com família, mas o único que navegou na nau Princesa do Brasil. No texto, todos os outros oficiais superiores de cavalaria são referidos na terceira pessoa, nomeadamente quando indica os comandantes dos diversos exercícios e mostras. No texto, aparece por várias vezes a indicação de que o autor pertence ao 2.º Corpo, o que fortalece mais a pretensão.

A ortografia do texto é modernizada, tendo as partes apresentadas sido selecionadas de 68 páginas manuscritas, tendo em atenção os meus interesses particulares, nomeadamente o treino e vida em guarnição das cavalaria e artilharia da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, tanto em Belém, como no Rio de Janeiro e depois em Santa Catarina. Adaptei o menos possível o texto, mas poderá não estar totalmente exato, além de ter muitas partes truncadas.
De salientar, por último, que o autor abarca oito meses neste seu 9.º diário, o que nos permite calcular que os seu primeiro diário, com o mesmo número de meses, terá sido iniciado por volta de outubro de 1809. Infelizmente só o 9.º está no Arquivo Histórico Militar. Muitos destes diários mais antigos cobrirão decerto a Guerra Peninsular.

DADOS BIOGRÁFICOS
João Nepomuceno de Lima foi promovido a alferes da 8.ª companhia do Regimento de Cavalaria n.º 4 (Mecklemburgo, Lisboa), em 12 de dezembro de 1810. Pouco mais de um mês depois,  a 23 de janeiro de 1811, é promovido a tenente da 3.ª companhia e, dois anos depois, a 17 de abril de 1813, a capitão da 5.ª companhia. É daqui que João Nepomuceno é promovido, em 26 de junho de 1815, a Major do 2.º corpo de Cavalaria da Divisão de Voluntários Reais. Em 1810, já não está na Divisão e e em 1822 aparece como major reformado em Salvador. Recebe a Estrela de Ouro de Montevidéu, em 1825, como major na disponibilidade.

Fontes
MACHADO, F. S. de Lacerda, O Tenente-general Conde de Avilez (1785-1845) (2 v.), Gaia, Edições Pátria, 1931.


Mapa com os locais descritos no diário

* * *

“Diário de um oficial superior de Cavalaria de Setembro de 1815 a Maio de 1816”.  

[O diário inicia em setembro de 1815]

2.9.1815 (sábado) – Fizeram exercício os dois corpos de cavalaria na presença do general da divisão [tenente general Carlos Frederico Lecor];

8.9.1815 (6.ª feira) – Da meia noite do dia 7 à uma da manhã de 8, houve um duelo entre o capitão [António José] Gama [Lobo] do 3.º Batalhão, e o alferes João Inácio Xavier do 4.º Batalhão, de que resultou ficar o capitão morto e o alferes ferido;
10.9.1815 (domingo) – Passou em continência, e fez exercício, o 1.º e 2.º corpos de cavalaria em presença do ministro da guerra e depois a artilharia;
11.9.1815 (2.ª feira) – Passaram mostra os dois corpos de cavalaria e artilharia – E depois embarcaram na fragata Fénix, e Príncipe D. Pedro, e nos navios Princesa do Brasil e Oceano;
12.9.1815 (3.ª feira) – Chuviscou;
13.9.1815 (4.ª feira) – Embarquei com a minha família a bordo do navio Princesa do Brasil (dia enublado), às 3 horas da tarde;
14.9.1815 (5.ª feira) – Dia enublado. A bordo do navio;
15.9.1815 (6.ª feira) – A bordo; choveu muito toda a madrugada;
16.9.1815 (sábado) – A bordo. Mau tempo. Saiu o Oceano que estava para ir connosco, indo comboiado pela fragata Pérola;
17.9.1815 (domingo) – Excelente dia. Demos à vela às 3 horas e um quarto da tarde, tendo estado fundeados defronte do largo de Belém, com maré de vazante, e vento norte = e juntamente, as fragatas Fénix e Príncipe D. Pedro.

[travessia do Atlântico]

26.9.1815 (3.ª feira) – (vento freco) Levantaram-se os soldados da 5.ª companhia, querendo conspirar-se contra os oficiais, e chegaram a atacar a guarda; porém, acomodou-se com pancadas – podia haver terrível consequência por se irem envolvendo soldados de outras companhias – os capitães [José de Barros e] Abreu e Filipe [Neri de Oliveira], que pressentiram o levantamento, o atalharam com a espada na mão;

[travessia do Atlântico]

12.10.1815 (domingo) – Avistou-se o Cabo Frio ao romper do dia = e duas sumacas pela manhã com rumo para o Rio. De Cabo Frio à Barra são 18 léguas – A costa é monstruosa e cheia de ilhas pequenas e inabitadas – às 9 da noite falámos a uma escuna, Correio da Bahia, que também andava pairando, a qual trazia 8 dias de viagem;
13.10.1815 (2.ª feira) – Muita névoa até às 9 da manhã, e depois dia muito claro, falámos a uma sumaca, que vinha do Rio da Prata com 43 dias de viagem – que entrou, e juntamente um bergantim carregado de escravatura da costa de África = Na entrada da barra à direita, fica o Forte de Santa Cruz à esquerda o de [espaço em branco] = Também há alguma ilhas como a das Cobras, que fica um tiro de pedra da cidade de S. Sebastião, uma laje a que chamam a ilha dos Ratos – Há também a ilha das Enchadas, onde está o hospital do ingleses, que serve para o da Divisão. Deu fundo o navio às 15 horas. Ainda não tinham chegado as fragatas.
14.10.1815 (3.ª feira) – Fui à Praia Grande, pela manhã cedo, falar ao coronel João Carlos de Saldanha [de Oliveira e Daun] [...] quartéis, e mais [...] o 2.º corpo, o que efectuei, ficando aquartelado na Armação, onde já se achava a artilharia da divisão, que tinha vindo no Oceano, o que tinha chegado a 10 dias antes. Os soldados ficaram muito bem aquartelados, porém os oficiais ficaram pessimamente em quartéis na Praia Grande;
15.10.1815 (4.ª feira) – Houve uma revista passada pelo Ajudante General Sebastião Pinto [de Araújo Correia] – chuviscou todo o dia. A revista foi ao 2.º corpo de cavalaria [...];

Rio de Janeiro, Paço Real, 1818 (wikicommons)


17.10.1815 (6.ª feira) – Chuviscou. Fui à cidade. Estive com o visconde de Barbacena, e [tenente coronel João Vieira] Tovar [e Albuquerque].

19.10.1815 (domingo) – Fui à cidade visitar o marechal Beresford, o Sebastião Pinto, e [tenente coronel António Feliciano Teles de Castro] Aparício, e [...] José Egídio [Álvares de Almeida, secretário particular do Príncipe-Regente];

23.10.1815 (5.ª feira) – Fomos visitar em corporação Beresford, [António de Azeredo] Araújo e marquês de Aguiar [D. Fernando José de Portugal e Castro];

25.10.1815 (sábado) – Revista aos dois corpos de cavalaria, passada pelo coronel Aparício;

28.10.1815 (3.ª feira) – Revista passada pelo Ajudante General nos quartéis da Armação, em fato de polícia. Trovejou à tarde;

[...]

4.12.1815 (2.ª feira) – Houve exercício aos dois corpos de cavalaria em fato de polícia, e espada, comandado pelo coronel Aparício = Trabalhou-se mal porque o dito coronel, charlatão de primeira ordem, principiou a partir com os oficiais, sem tom, nem som, a fim de mostrar a alguns espectadores, que nada entendem de manobra, que à excepção dele, ninguém mais sabia coisa alguma = Porém a sua impostura é conhecida – Assistiu ao exercício o Ajudante General Sebastião Pinto. À tarde, veio o marechal Beresford, e foi ver os dois corpos, que o dito coronel tinha mandado ir à tarde, para lhes fazer exercício em fato de polícia, e espada. Não gostou de que os corpos fossem naquele vestuário, e que não trabalhassem a pé, como a infantaria. isto é culpa do dito coronel;
5.12.1815 (3.ª feira) – Beresford passou revista às 5 da manhã aos dois corpos e fez exercício – À tarde pela 5 também se formaram os dois corpos, e a artilharia, e passaram em continência, o que fizeram bem, e mandou-os embora. – Adoeci com uma inflamação de pele – Foi o marechal para a cidade;
6.12.1815 (4.ª feira) – Fiquei de cama. Exercícios de manhã e tarde;
7.12.1815 (5.ª feira) – Fiquei em casa. Exercícios de manhã e tarde. Veio o Príncipe de Santa Cruz para a cidade;

9.12.1815 (sábado) – Os oficiais superiores foram baijar a mão ao Príncipe. Não fui por estar doente. Exercício à tarde;
10.12.1815 (domingo) – Foram os oficiais de cavalaria em corporação beijar a mão ao príncipe;
11.12.1815 (2.ª feira) – Exercício à tarde;
12.12.1815 (3.ª feira) – Exercício de manhã e tarde;
13.12.1815 (4.ª feira) – Exercício de manhã e tarde;
14.12.1815 (5.ª feira) – Exercício de manhã e tarde;
15.12.1815 (6.ª feira) – Exercício de manhã e tarde;
16.12.1815 (sábado) – Exercício de manhã e tarde. Fui beijar a mão a Sua Alteza Real;
17.12.1815 (domingo) – Aniversário da rainha. Fui à cidade com a família. Vim da cidade às 23 horas.
18.12.1815 (2.ª feira) – Exercício de manhã e tarde;
19.12.1815 (3.ª feira) – Exercício às 4 horas da manhã no Campo de S. Bento, onde se achou Beresford. À tarde, exercício de espada no Campo de D. Helena;
20.12.1815 (4.ª feira) – às 5 horas da manhã no Campo de S. Bento, onde esperávamos Sua Alteza Real, porém ele foi em direitura aos quartéis da Armação, onde somente achou alguns doentes, e mulheres pertencentes aos corpos. À tarde, Sua Alteza Real passou revista aos corpos de cavalaria e artilharia, e depois de se passar em continência, o 2.º corpo fez o manejo de espada, com o ataque e a defesa – à noite, deu beija mão, em que mostrou a maior satisfação a toda a oficialidade, e aos corpos;
21.12.1815 (5.ª feira) – Manobra para sua Alteza, às 6 da manhã, no Campo de São Bento, do que ficou muito satisfeito. À tarde, deu o marechal ajudante general um jantar diplomático. À noite, beija mão;
22.12.1815 (6.ª feira) – Exercício no Campo de S. Bento a um esquadrão de 30 filas do 1.º corpo de cavalaria que montou em cavalos dos milicanos; o 2.º corpo esteve vendo formado em coluna cerrada, depois trabalhou a  artilharia em atirar ao alvo, onde fez excelente pontaria [...] granadas de lanternetas (?), tudo isto diante de sua Alteza. à tarde, exercício de espadão o 1.º corpo no Campo de D. Helena. Os corpos passaram primeiro em continência.
23.12.1815 (sábado) – Sua Alteza Real foi ver os quartéis da Armação.
24.12.1815 (domingo) – Foi Sua Alteza para a cidade pela manhã. O marechal general Beresford foi com o ministro da guerra Araújo ver os quartéis dos soldados;
25.12.1815 (2.ª feira, Natal) – Pedi licença até 31 do corrente = Temporal de vento e chuva das onze horas da noite para diante;
26.12.1815 (3.ª feira) – O mesmo tempo toda a madrugada. Fez bom dia. Fui ao beija mão à cidade;

29.12.1815 (6.ª feira) – Fui à cidade;
30.12.1815 (sábado) – Fui à cidade com a minha família, e lá ficámos;
31.12.1815 (domingo) – Fui beijar a mão ao Príncipe com minha família;

[1816]

1.1.1816 (2.ª feira) – Voltei para a Praia Grande pela manhã;
2.1.1816 (3.ª feira) – Embarcou trem da artilharia da divisão;
3.1.1816 (4.ª feira) – Continuou a embarcar trem da artilharia. = Fui à cidade;
4.1.1816 (5.ª feira) – Fui à cidade. Houve uma revista passada pelo coronel Aparício aos soldados em fato de polícia na Armação;

7.1.1816 (domingo) – Houve uma revista aos soldados em ordem de marcha nos quartéis da Armação passada pelo coronel Aparício;
8.1.1816 (2.ª feira) – Houve uma revista em fato de polícia, no dito sítio, passada pelo dito coronel. À tarde embarcou a tropa a bordo das fragatas Fénix, Príncipe D. Pedro, brigue Lebre, e fragatinha voador, e dois bergantis da praça Atrevido e Previdente [...];
9.1.1816 (3.ª feira) – Embarquei com a minha família a bordo da fragata Príncipe D. Pedro, onde embarcou a artilharia, e a 5.ª companhias do 2.º corpo e parte da 4.ª;
10.1.1816 (4.ª feira) – Fui à cidade com a minha família, onde jantámos;
11.1.1816 (5.ª feira) – Fui à cidade;
12.1.1816 (6.ª feira) – Fui à cidade e levantou a fragata o primeiro ferro;
13.1.1816 (sábado) – Levantámos os segundo ferro, de madrugada, e fomos dar fundo à Boa Viagem próximo à Torre de Santa Cruz, por falta de vento;
14.1.1816 (domingo) – Fizemos à vela às 5 da manhã, excelente dia, vento em pompa. Diminuímos pano por causa dos brigues Atrevido e Previdente;

17.1.1816 (4.ª feira) – Claro, o mesmo vento, bonança. – Avistámos o Morro pela manhã, e pela tarde passámos por entre a ilha do Arvoredo e terra firme. Demos fundo já noite na Enseada dos Ganchos, uma légua distante da ilha do Arvoredo;
18.1.1816 (5.ª feira) – Excelente dia = Suspendemos ferro e fizemos à vela pelas 7 horas da manhã, e fomos dar fundo entre as fortalezas da Ponta Grossa que está na ilha, e a de Santa Cruz, que está na terra firme a 4 léguas e meio distantes da Vila;
19.1.1816 (6.ª feira) – Desembarcámos pelas 8 até 9 horas da manhã de bordo da fragata, e desembarquei com a minha família no trapiche em Santa Catarina às uma e meia da tarde. Neste dia, desembarcou a tropa das outras embarcações, tendo principiado a desembarcar na véspera;
20.1.1816 (sábado) – Desembarcou o resto da tropa. À tarde, fez mau tempo com chuva e vento e trovoada;
21.1.1816 (domingo) – Continua o tempo. Chuviscou. O governador da Ilha [Luís Maurício da Silveira, ?] deu um jantar aos oficiais superiores;

[...]

1.2.1816 (5.ª feira) – Passaram mostra os corpos de cavalaria e artilharia;

4.2.1816 (domingo) – Fui passar o dia a uma chácara com a minha família.

8.2.1816 (5.ª feira) – Houve exercício aos dois corpos de cavalaria [...];
9.2.1816 (6.ª feira) – Revista à vista do brigadeiro [Bernardo da] Silveira [Pinto];

11.2.1816 (domingo) – Fui passar o dia a uma chácara com a minha família = choveu, e trovejou à tarde, e princípio de noite;
 14.2.1816 (4.ª feira) – Excelente dia = Houve uma revista e exercício aos corpos de cavalaria pelo coronel;

[...]

23.2.1816 (6.ª feira) – Excelente manhã, e à tarde fizeram trovoadas terríveis com muita chuva;
24.2.1816 (sábado) – Excelente dia = Fui com a minha família, e outra pessoas de amizade embarcados passar o Entrudo a uma chácara.
25.2.1816 (domingo) – Domingo de Entrudo;

28.2.1816 (4.ª feira) – Voltámos para a Vila por terra;

1.3.1816 (6.ª feira) – Passou mostra de Tesouraria o 1.º corpo de cavalaria;
2.3.1816 (sábado) – Passou mostra o 2.º corpo, e artilharia;
3.3.1816 (domingo) – Chegou o resto da cavalaria, que tinha ficado em Lisboa.
4 e 5.3.1816 (2.ª e 3.ª feira) – Muito calor;

8.3.1816 (6.ª feira) – Calor = Trovejou e chuviscou de tarde e à noite;
9.3.1816 (sábado) – Calor = Vieram a enterrar dois marujos mortos por um raio, que caiu em um bergantim ontem, deixando outro homem quase morto;
10.3.1816 (domingo) – Fui às águas férreas com a minha família. Tro[v]ejou, e choveu à tarde e à noite;

14.3.1816 (5.ª feira) – Exercício às 6 da manhã;

30.3.1816 (sábado) – Comprei um cavalo por 11[$000]
1.4.1816 (2.ª feira) – Mostra de Tesouraria à cavalaria, e artilharia = dia enublado, vento e chuvisco;

3.4.1816 (4.ª feira) – Chegou um brigue com a notícia da morte da rainha;
5.4.1816 (6.ª feira) – Formou a cavalaria com armas em funeral;
6.4.1816 (sábado) – Fui para a chácara com a minha família = choveu e ventou à noite;

[...]

11.4.1816 (5.ª feira) – Endoenças. Excelente dia;
12.4.1816 (6.ª feira) – Paixão;
13.4.1816 (sábado) – Aleluia. Fui ao continente e comprei um cavalo por 6200 [?], vim com a família da chácara;
14.4.1816 (domingo) – Páscoa;

[...]

22.4.1816 (2.ª feira) – Fui para a Chácara com a minha família, e fui conduzir um major preso a Santa Cruz = 4 léguas e meia da vila. É uma fortaleza construída em um ilhote, que fica distante do continente um oitavo de légua = Fui dormir à Cacixa (?), um lugar de pescadores = Às 4 horas da manhã embarquei, e arribámos à ilha por causa de um aguaceiro, em um sítio chamado Sambaquí, e fomos eu, o capitão Filipe Neri [de Oliveira], e um negociante, Monteiro, que me acompanharam até a freguesia de Santo António a pé. Santo António está à borda do mar, e é muito ameno. Não posso dizer quantos vizinhos tem. Embarcámos às 10 horas e chegámos à Praia de Fora, que são três léguas à 1 hora da tarde = Muito vento e chuvisco toda a tarde. Fui para a chácara onde estava a minha família;

2.5.1816 (5.ª feira) – Mostra de Tesouraria;

[...]

5.5.11816 (domingo) – Fui para a vila com a família = Comprei um cavalo por 4[$000];
6.5.1816 (2.ª feira) – Exercício de manhã; e à tarde espadão comandados por Tovar;
7.5.1816 (3.ª feira) – Exercício de manhã e tarde, comandados por [António Manuel de Almeida Morais] Pessanha;

9.5.1816 (5.ª feira) – Excelente dia. = Tive uma dor de cólica furiosa. Exercício comandado por Duarte [Joaquim Correia de Mesquita];

13.5.1816 (2.ª feira) – Anos de Sua Alteza Real o Príncipe Regente. = A cavalaria e a artilharia dos Voluntários Reais do Príncipe formaram-se na praça, e deram descargas e fogo de alegria;

16.5.1816 (5.ª feira) – Dia enublado, e chuva; Exercício comandado por [António de] Castro [Ribeiro];
17.5.1816 (6.ª feira) – Exercício, e espadão, comandados por mim. Dia enublado;

20.5.1816  (2.ª feira) – Exercício comandado pelo coronel. = Choveu todo o dia;
21.5.1816 (3.ª feira) – Excelente dia. Exercício comandado pelo capitão [José António] Esteves [de Mendonça e Sá];

23.5.1816 (5.ª feira) – Ascensão.

[Diário acaba no dia 31.5.1816]

sábado, 24 de setembro de 2016

Ação de Chafalote (24 de setembro de 1816)




A ação de Chafalote consistiu num combate de cavalaria no teatro oriental, junto à costa atlântica, na fase inicial das operações, em que uma pequena força portuguesa de cavalaria, do Exército do Brasil, atacou e desbaratou um acampamento de tropas orientais junto ao arroio Chafalote.

Antecedentes
Após ter tomado de surpresa o forte de Santa Teresa, a 16 de agosto [LEIA], o sargento mor Manoel Marques de Sousa ficou à espera da vanguarda da Divisão de Voluntários Reais, conforme as suas ordens. Manteve, durante esse período, a observação do inimigo, que estava ainda na área de Maldonado, mais a sul, sob o comando de Rivera. As forças orientais ainda estavam a formar-se e no geral eram milícias sem treino e afastadas do teatro de operações a Oeste, bastante ativo desde 1813, contras as forças de Buenos Aires.

A Vanguarda chega ao forte a 1 de setembro, e faz a ligação com os dois esquadrões de Manoel Marques de Sousa. Após um período de confusão acerca da forma como as tropas locais colaborariam de futuro com a Divisão (algo que é comum em toda a campanha e em todos os teatros), Marques de Sousa acaba por ser integrado à Vanguarda, sendo o seu conhecimento local e experiência militar muito valorizados.

A 5 de Setembro, dá-se a ação de Castillos, em que uma partida portuguesa de 30 cavaleiros, comandados pelo tenente Joaquim José de Bettencourt, da Legião de S. Paulo, é batida por forças orientais em Castillos, comandada pelo capitão Eusebio Gómez (Sebastião Pinto diz ser de 200 efetivos, mas Marques de Sousa fala de 60 a 70).

Ao receber a notícia no forte de S. Teresa, o marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia (comandante da vanguarda) envia uma partida de apoio bastante substancial, mas já não encontra o inimigo, e confirma a extensão do desastre, que custou a captura de quase toda a partida, e pelo menos duas mortes.



A Ação
A 23 de Setembro, Manuel Marques de Sousa é encarregado por Sebastião Pinto de ir observar as posições do inimigo na área a sul de Castillos , com um esquadrão de 100 homens, da Legião de S. Paulo e da Legião de Cavalaria do Rio Grande.

Ao amanhecer do dia 24, ao transpor o passo do arroio Chafalote (onde existe hoje a povoação de 19 de Abril), Sousa topou o acampamento inimigo e bateu as forças orientais (Sousa calcula-as em 200 efetivos), obrigando-as a fugir, provocando 13 mortos e 20 prisioneiros.

Apesar de ter sido uma ação de pequena envergadura, ajuda a consolidar a posição das forças portuguesas em território oriental, assim como a fama de Manuel Marques de Sousa, afastando das mentes a derrota em Castillos no início do mês.

Apesar desta vitória, a crónica falta de cavalos vai continuar a atrasar toda a ofensiva portuguesa e só quase dois meses depois, em meados de Novembro, é que o grosso da força portuguesa sai de Castillos.


* * *

Excerto de carta do major Manoel Marques de Sousa, da cavalaria da Legião de Cavalaria Ligeira do Rio Grande, ao seu irmão, acerca da ação de Chafalote


[Santa Teresa, 9 de outubro de 1816.]


Ill.mo Mano Amigo e Sr.


As minhas ocupações tem me privado de dar a VS. noticias, e apesar de que elas se vão aumentando de dia a dia, aproveito esta hora de descanso para cumprir com este dever.

Creio já terá chegado a noticia de VS o feliz resultado da ultima diligência que fiz sobre o inimigo. Havendo sido encarregado pelo Sr. Ajudante General comandante da Divisão da Vanguarda de ir observar a posição do inimigo, marchei com hum Esquadrão de cem homens, sendo sessenta e tantos da Cav. de V. S., 

e ao amanhecer p. o DIA 24 AO PASSAR O PASSO DE CHAFALOTE achei ali o seu acampamento que ele excedia a 200, e que foram completamente batidos, tendo eles sofrido a perda de 13 mortos três mortalmente feridos (alguns dos meus Camaradas ainda querem que fossem mais, porem eu não vi); 20 prisioneiros entre os quais dois Tenentes,  350  Cavalos, 30 Clavinas com as suas competentes baionetas, e boldreis 22 Patronas, 8 Espadas de bainhas de forro e boldreis  de cinta com franqueletes, Seis baionetas avulças huma porçaõ de Cartuxame, e muitas maletas em cujo não entraram as dos dois Cap Munis [Julian Muniz] (o comandante) e Moreira, com todas as suas correspondências Oficiais, e Ordens 

& Foi juntamente retomada a Espada do seu Cadete Sandí, a roupa q. lhe tiraram, e assim também a dos dois Soldados de Milícias que foram asa m." occaz." prisioneiros. Depois ([...]) desta Caça não se tem aproximado mais. 


Os batidos ainda se não reunirão todos, a seu Campo é, seguindo informações [que] tenho na Serra das Cabeceiras do arroyo de D. Carlos, Frutuoso Rivera, que tinha passado acima [...] com 700 homens com o fim de se ver reunir a sua avançada, para vir aqui bater, desistiu da empreza e voltou para o seu Campo de Mamarajá às cabeceiras de S. Carlos.

(...)

Fonte
- Comisión Nacional Archivo Artigas, Archivo Artigas, Montevideo, Monteverde, t. 31

Imagem

- Playa del arroyo Chafalote,19 de Abril (Wikicommons) 


***