quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Batalha de Carumbé (II): As visões orientais

Estreio neste blogue as memórias e cartas de oficiais orientais que nos oferecem não só uma nova perspetiva, mas que em tecitura com outras, nos ajudam a perceber o que aconteceu e como, naquele dia há 200 anos.


Cerro Paloma, junto a Santana do Livramento. Este tipo de morros assemelhavam-se a carumbés (daá o nome que os espanhóis davam a estes morros) ou mais propriamente a carapaça do jabuti macho usada para peneirar ouro, entre outros uses como vasilhame.

Estritamente falando, o exército de Artigas luta pela Liga dos Povos Livres, também conhecida como Liga Federal, um pacto entre províncias do moribundo Vice Reino do Rio da Prata, nomeadamente Banda Oriental, Corrientes, Entre Rios e Missiones, entre outros, de carácter regional e de forte cunho federalista e republicano. Esta liga reivindicava os direitos das províncias contra o partido centralista de Buenos Aires, e frequentemente estava em guerra para defender esses direitos. Só no ano anterior é que se havia chegado a um paz, altura em que Montevidéu passou para mãos orientais, mas a relação continuava instável.

Para conhecer mais sobre a perspetiva portuguesa e brasileira e sobre como a campanha corria a esta altura, visite: 

Parte dada pelo major André de Latorre, comandante da ala direita das forças de Artigas nesse campo da batalha de Carumbé, em carta a Frutoso Rivera.

Arapey, Noviembre 19 de 1816.

Mi estimado Conpañero y amigo 

Amigo, el 27 del pasado tuvimos un fuerte ataque en las puntas del Cuñapiru yo mandaba la ala derecha que costaba de quinientos onbres, trescientos de ynfanteria y doscientos de Caballería de ygual numero mandaba Fermin Fernandes [Ramon Fernandez].

La ysquierda dentró en el mas vivo fuego con toda serenidad. Condosi la ynfanteria debajo el fuego de la piesa de artilleria que tenia al frente con la perdida de un solo onbre; los fuegos de cañon poniendo la ynfanteria en distancia y cargo la Caballeria enemiga y dispersó la infanteria y Caballeria nuestra de modo q.e los restos de la caballeria enemiga q.e havían q.e dado fueron los q.e me comensaron aser fuego para retaguardia y no tuve mas remedio q.e descolgar la ynfanteria por una q.e bra da abajo y la Caballería q.e estaba en otra  quee brada piatierra asiendo fuego de ynfanteria Como ygualmente la Caballería Enemiga sin poder operar uno ni otros. 

Cuando senti los fuego por mi retaguardia y  dentro la confusion en la tropa sin sufrir perdida no pude sugetar la Caballada tuvimos vna gran dispersion de tropas(,) el portugues lo mismo / mucha tropa dispersa u Muerta.

/yo estava dos dias a distansia de una Legua del Campo de Batalla y el enemigo ni tan solo un onbre parecia el  [......] despues de orasiones del Campo  de Batalla las Bentajas q.° Consiguio tan solas fueron el ser dueños del Campo.

/ tubimos la perdida de los Megores ofisiales q.e no se sitar por q.e los Cuerpos no sean encontrado q.e  son los siguientes: Laballeja y Gatel Ruiz Dias es muerto --  y dile a Laballeja que esta la tenga por sulla q.e ya le escrito a mi Comadre. yo estoi al mando del todo de la division.

Y Manda como siempre
Andres de la Torre

Al Com. D. Frutuoso Rivera

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Carumbé, ou um jabuti macho, era o nome também dado pelos espanhóis aos morros da fronteira de Santana,
um dos mais importantes passos para o movimento de pessoas e mercadorias na região, há 200 anos.

Transcrição da Parte do Interrogatório ao prisionero Ramón Bargas pertinentes à batalha de Carumbé

Acampamento de Iberapuitá, 7 de dezembro de 1816.

Respostas que dá o prisioneiro Ramón Bargas, paraguai

Foi perguntado quando Artigas deu a ultima batalha em Carumbé, se ele Bargas se achava na Acção.
Respondeu  =  Era  Soldado  de  Infantaria  da  7.ª  Comp.  de Belendengues, e que se achou.

Foi perguntado = Se o General Artigas se achou na acção, e quem eram os mais oficiais.
Respondeu que o própio Artigas foi quem dispoz a acção, e mandou avançar do Arroio vertente de Quaraí, que depois se retirou com uma escolta para observar a acção, e que se achavam na acção o tenente coronel de Belendengues D. Ramón Fernandez, o capitão do mesmo Regimento Andrés de LaTorre; o capitão Balta Oyera com a sua divisão de Milícias, muitos mais oficiais, entre os quais no Corpo de Belendengues se achava o Ajudante português Manuel da Rosa.

Foi perguntado que gente tinha o Artigas na acção.
Respondeu que perto de 1800 homens, 500 de infantaria entre pretos e brancos, 850 de cavalaria, e 150 charruas, minuanos e guaicurús, e perto de 300 mandurés.

Foi perguntado que gente morreu na acção de Carumbé.
Respondeu que ignora, e que sabe por um espia que veio ao campo depois da retirada de Artigas, e do Exército Português que só no lugar da cavalhada contara 104, e que não pode contar os mais que se achavam em todo o campo do ataque por ter visto uma partida portuguesa.

Foi perguntado Com que porção de cavalaria, e infantaria se retirou Artigas depois do combate.
Respondeu que se retirou com 60 homens de infantaria, e 25 de cavalaria, e que os mais se dispersaram por diferentes lugares, os quais se foram depois  reunindo pouco a pouco em uma ilha entre as pontas de Arapeí aonde foi pernoitar Artigas distante do lugar do combate 3 ou 4 legoas onde se demorou 5 dias escondido no mato para reunir alguma gente, os quais se juntaram em número de 400 homens mais en menos,  que deste lugar se mudara para outro Arroio vertente de Arapeí huma legoa destante.

Foi perguntado Que oficiais faltaram quando se reunirão os dispersados da acção.
Respondeu que o Tenente Gatel, o ajudante Bento Garcia, alferes Lavalleja, tenente Cordeiro, alferes Martins, tenente Silva, alferes Jacob, Carderon, Roque Grande, e mais oficiais que se não lembra, e que o tenente coronel Ramon Fernandez de Belendengues foi morto pelos seus soldados depois da acção por ter disparado no princípio do mesmo.

Foi perguntado. Quando Artigas disparou depois da acção de Carumbé que fala fez aos seus oficiais e soldados.
Respondeu = Que sendo perseguido pelos portugueses ia se precipitando de uma barranca mui alta onde a não ser advertido por um seu soldado que o desviou do precipício, e se achar montado em um bom cavalo zaino seria infalivelmente apanhado por alguns soldados que o perseguiram, e logo que chegou à ilha de que ja falou chorava de raiva pela perda que tinha sofrido.
O Latorre que ficou comandando os Belendengues, e o seu ajudante Turíbio Nação Paraguai, e o Secretário Monteroso o animaram muito, e o dissuadiram fortemente da tenção que Artigas tinha de se apresentar aos portugueses, o que sabe por ser voz constante entre toda a Tropa.


Biografias


Fontes
- Comisión Nacional Archivo Artigas, Archivo Artigas, Montevideo, Monteverde, tomo 31.
- Diogo Arouche de Moraes Lara, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista trimensal de historia e Geographia, ou, Jornal do Instituto Historico e Geographico Brazileiro, n.º 27, Outubro de 1845;
- Wikipedia em língua espanhola.
- Imagens da wikicommons.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Liga dos Povos Livres: Andrés Felipe Latorre


O major ANDRÉS FELIPE LATORRE nasceu em Montevidéu, a 16 de agosto de 1781. Filho de Antonio de la Torre, de Santander e de Josefa Abalos, de Buenos Aires, foi criado no campo em Canelones. 

Aos 17 anos, é voluntário num corpo de milícias de cavalaria, para combater incursões portuguesas na fronteira de Cerro Largo, tendo ficado a servir na fronteira do Jaguarão durante um tempo. 

Em 1806, durante as invasões inglesas do Rio da Prata, integra a companhia de granadeiros do Cuerpo de Husares e participa na defesa de Montevidéu, sendo distinguindo pela sua serenidade num ataque britânico a uma brecha da muralha sul, do qual saiu com dois ferimentos. 

Em 1811, aderiu à causa da revolução, tendo participado na batalha de Las Piedras, em 18 de maio de 1811, contra as forças realistas de Montevideu, como tenente ayudante mayor da divisão de cavalaria do coronel Manuel Artigas.. 

Já como capitão do Regimento de Blandengues, Latorre é, em 1815, promovido a major. 

Em 1816, com 35 anos de idade, é um dos lugar tenentes de José Artigas, no corpo principal, na área de Santana do Livramento/Rivera, e comanda as forças orientais ou federais na batalha de Catalán.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Exército do Brasil: Joaquim Xavier Curado



O tenente general JOAQUIM XAVIER CURADO nasce a 1 de março de 1743 em Meia Ponte (hoje Pirinópolis), Goiás, filho de João Gomes Curado e de D. Maria Josefa Ribeiro. Órfão do pai, foi para o Rio de Janeiro habilitar-se nos estudos secundários, no Seminário de S. José. 

Por volta de 1764, assenta praça como soldado no 1.º Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro. Durante os próximos três anos, foi promovido a cabo de esquadra e sargento e, finalmente, a alferes a 19 de junho de 1767. 

Em 1773, é destacado para S. Paulo, sendo promovido a tenente a 6 de fevereiro de 1777. Com quase 39 anos, ascende ao posto de capitão, no seu regimento, a 2 de fevereiro de 1786. 

Por volta de 20 de agosto de 1789, é graduado a tenente coronel, sendo distinguindo por operações contra índios rebeldes, na fronteira entre São Paulo e Minas Gerais. 

É feito prisioneiro em alto mar por corsário franceses, numa missão à corte de Lisboa, e é aprisionado na área de Biscaia, mas consegue fugir dirigindo-se para Lisboa, o seu destino original.

A 8 de dezembro de 1800 é promovido a coronel e nomeado governador da ilha de Santa Catarina, cargo que ocupou até 1805. Aos 62 anos de idade, é reformado em brigadeiro, a 2 de junho de 1805. É no entanto, por alguma razão confirmado 2 anos depois como brigadeiro na ativa.

A 13 de maio de 1808, dia do aniversário do Príncipe Regente, é graduado em marechal de campo [major general ou general de divisão, hoje] e enviado ao Rio Grande sob as ordens do capitão geral, Diogo de Sousa. A 13 de maio de 1811 é efetivado em marechal de campo.

Na campanha de 1811-1812, comanda uma das duas colunas, valendo-lhe estes serviços a promoção a tenente general, uma ano depois, a 13 de maio de 1813.

Com 73 anos,  comanda as forças da Capitania do Rio Grande em operações a oeste, na fronteira do Quaraí.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Batalha de Ibirocaí (19 de Outubro de 1816)


A Campanha
Após ter conhecimento da vitória na batalha de S. Borja que frustrou o sítio da vila de de S. Borja e a tentativa de invasão da região das Missões, o tenente general Joaquim Xavier Curado pode pensar em atacar uma coluna do coronel José Antonio Berdún (1778-1837) que atuava já há algum tempo na área de Ibirocaí, na região entre Alegrete e Uruguaiana. 

Berdún, com cerca de 700 homens, estava já há pouco menos de um mês a norte do rio Quaraí, bem firmado em território português com objetivo apoiar André Artigas e Sotelo no avanço oriental sobre a região das Missões, assim como decerto a demonstrar ao corpo principal português no arroio Ibirapuitã, que defendia os importantes passos onde estão hoje as cidades de Rosário do Sul e Alegrete. Começou postado no arroio de Tres Cruces, na fronteira das atuais cidades de Artigas/Quaraí, mas por volta de 19 de setembro entrou no Rio Grande.

O general José Artigas mantinha-se com o grosso das forças orientais na área do arroio Arapeí e da mais importante fronteira de Santana/Rivera, situação que só resolvida com a batalha de Carumbé, oito dias depois.

A Batalha
A 13 de Outubro, o tenente general Xavier Curado, já com conhecimento da vitória de Abreu a norte, destacou uma força de cerca de 480 efetivos, maioritariamente cavalaria (com era regra para ambos os exércitos neste teatro de operações), sobre o comando do brigadeiro graduado João de Deus Mena Barreto, comandante do Regimento de Milícias a Cavalo do Rio Pardo (um de 3 existentes na capitania), constituída desse regimento e de alguns esquadrões do Regimento de Milícias a cavalo de Porto Alegre, um destacamento de infantaria e de artilharia, respetivamente do Regimento de Santa Catarina e da Legião de São Paulo, em direção ao rio Ibicuí a procurar Berdún e atacá-lo. 

Fazer Berdún recuar de volta à sua posição inicial, em Tres Cruces, de volta a território oriental significaria aliviar de vez a pressão na ala direita e manter o foco principal nas tropas de José Artigas na área do que é hoje a cidade de Santana do Livramento, as mais significativas em termos de número e experiência.



* * *
Transcrição da Parte Oficial do brigadeiro João de Deus Mena Barreto, sobre a Acção de  Ibirocaí

Como me não foi possível dar parte a V.E. da Acção travada com o inimigo no dia 19 de Outubro corrente, em consequência de ter sido baleado no braço esquerdo, que nao só me atenuou com imensas dores, como me causou algum desfalecimento, pela muita efusão de sangue, foi o meu Tenente Coronel [António Pinto da Fontoura], e meu imediato a quem encarreguei de fazer esta participação a V.E., e como ela foi  feita imediatamente, que se concluiu a Acção, e no meio do barulho, impossível foi também em tal ocasião o entrar em detalhes, e miúdos exames. Torno portanto a por na presença de V.E., a mesma acção com todas as circunstâncias desta Batalha tão terrível ao inimigo, e de tanta glória para as nossas armas.

[18/10] No dia 18 se me apresentaram dois desertores do inimigo, e tendo-me acompanhado nas imediações de Pai Passo [arroio a leste de Ibirocaí, próximo ao Ibirapuitã], estes me informaram, que as suas forças estavam acampadas na costa do Ibirocaí em numero de 700 homens, e mais comandados pelo coronel Berdún.  

[18/10 – noite/19/10 – manhã] Nessa mesma noite marchei, aproximando-me àquela posição, e consegui chegar pouco depois de sair o sol no dia 19 a uma légua de distância [c. 6.6. quilómetros) dos insurgentes.

Eu marchava em três colunas, duas de cavalaria nos dois flancos, e a de infantaria no centro, fazendo a avançada 80 homens de cavalaria, comandada pelo tenente Bento Manoel [Ribeiro].

Então se me apresentaram 200 do inimigo sobre a coxilha, os quais a minha avançada repeliu com muito valor, e vendo eu a desigualdade de forças, e conhecendo o estratagema do inimigo mandei a reforçar com dois meios esquadrões da direita, e esquerda, pondo à testa deste corpo avançado o sargento mor Francisco Barreto Pereira Pinto, o qual atacando o inimigo, lhe matou 18 homens, e feriu perto de 50, fugindo estes  com o resto a unir-se ao grosso de suas forças, que se achavam em [...] distância. Os feridos ganharam o mato, e é provável, que muitos perecessem. 

Mandei que a minha avançada não perseguisse os debandados, e eu continuei a mesma ordem de marcha de coluna.  
Desenvolvi sobre o centro, nesta ocasião a artilharia atirou contra o inimigo com muita vantagem, e a infantaria soube responder à infantaria do inimigo com  um vivíssimo, e bem dirigido fogo.  

Entretanto observei o apoio, que tinha a infantaria inimiga, e portanto retrogradei a minha linha para os chamar a terreno perfeitamente plano e unido.
Então o inimigo atribuindo a medo a minha marcha para a rectaguarda, avançou sobre a frente, e perdeu a vantagem, que eu lhe observava.

Enquanto durou o fogo, o inimigo fez diferentes tentativas de voltear os nossos flancos, porém todas lhe foram repelidas pelos nossos vigorosos, e atrevidos flanqueadores o capitão João Machado de Bettencourt, e o tenente Bento Manuel [Ribeiro].

De repente e quando o inimigo, vendo no chão para a vanguarda as mochilas da infantaria, se persuadiu, que eram mortos, e estava com esta ilusão muito animada aquela desgraçada gente, ataquei toda a sua linha com a cavalaria, e infantaria. Ao ataque vigoroso  dos nossos valentes soldados, seguiu-se a mais decisiva, e gloriosa vitória.

A sua cavalaria desordenou-se e fugiu debandada sendo perseguida na distância de uma légua [c. 6.6. quilómetros) pelo sargento mor Francisco Barreto [Pereira Pinto], e a sua infantaria foi feita em postas.

Finalmente a sua gritaria, e entusiasmo se tornaram com espanto, e medo, e o seu toque de degolar se verificou contra eles mesmos. Onze dos seus oficiais  foram mortos, entrando neste numero quatro capitães.

Perderam quase todo o armamento, e perderiam a cavalhada, se de antemão a não tivessem mandado para a costa de [rio] Quaraí, com as famílias, e mais roubos feitos com todo o distrito de Entre-Rios.

O número dos mortos, contados no campo da batalha chega a 238, além dos que morrerão na debandada, e dos muitos gravemente feridos, que deveriam nos matos, e no campo também morrer.

Estes insurgentes pelejam como desesperados: a sua infantaria é constante; porem a sua cavalaria de pouca força. Devo notar, que eu apenas tive em linha 450 homens, entrando os flanqueadores; pois que o resto das minhas forças apoiava, e fazia a guarda da cavalhada.

Sou obrigado a fazer justiça geralmente ao valor, e bizarria dos oficiais, oficiais inferiores [sargentos], e soldados dos diferentes Corpos, que formam esta divisão: todos queriam ser dos primeiros em atacar o inimigo, sem lhe fazer o mais pequeno remorso, ou terror a obstinação, a superioridade das forças inimigas. Devo contudo um obséquio da verdade recomendar o valor, e boas  disposições do tenente coronel António Pinto da Fontoura, e do sargento mor Francisco Barreto [Pereira Pinto], que não só dirigiram com muito denodo e ordem as alas direita e esquerda, como até geralmente se empenharam no ataque de toda a  linha. São dignos de maior atenção o capitão João Machado de Bettencourt, e o  tenente Bento Manuel [Ribeiro]. Estes oficiais cumpriram com discrição, e valor os seus deveres.

São igualmente dignos de louvor o tenente de artilharia de São Paulo Bento José de Morais, e o alferes do Regimento de [Infantaria de] Santa Catarina, Zeferino António, que comandando cada um huma peça de artilharia, dirigiram os seus tiros com muita habilidade, e fizeram muito horror ao inimigo.
Estimo esta ocasião de dirigir a presença de V.E. a parte de uma acção tão gloriosa; e a o mesmo tempo tão necessária para o sossego do país de Entre-Rios inteiramente assolado pelos bárbaros insurgentes.
Dos nossos morreram unicamente um do Regimento de [Infantaria de] Santa Catarina, e um miliciano: e foram feridos 19.

Em tudo o mais me reporto à parte dada pelo meu Tenente Coronel, recomendado novamente a V.E. a fidelidade, e o valor do Capelão do meu  regimento o Reverendo Feliciano José Rodrigues Prates.

O feliz resultado desta acção tão renhida, e com tão pequena perda da nossa parte, é mais uma prova sem réplica, de que o grande Deus, o senhor dos exércitos cobre com a Sua omnipotente mão direita as armas dos fiéis Portugueses, para glória do mais justo de todos os soberanos.  

Deus Guarde & Campo de Ibirapuitã  24 de Outubro de 1816.
(Assinado) João de Deus Mena Barreto.


* * *

Ordem de Batalha e Baixas

IBIROCAÍ (19/10) (Baixas portuguesas)

MORTOS
FERIDOS
Ação
OFICIAIS
PRAÇAS
OFICIAIS
PRAÇAS
Reg Mil Rio Pardo
0
1
7
14
RegInf S. Catarina
0
1
0
1
Reg Mil
Porto Alegre
0
0
0
1
Total
0
2
7
16


Tropas Portuguesas (Exército do Brasil): Capitania do Rio Grande de São Pedro 
Comandante: Brigadeiro João de Deus Menna Barreto (Rio Pardo), 480 homens

- Regimento de Infantaria de Santa Catarina, 150 (Granadeiros): tenente Zeferino António (comanda uma das 2 peças de artilharia).
-Regimento de Milícias do Rio Pardo, cavalaria: 
- Regimento de Milícias de Porto Alegre, cavalaria, 300 efetivos: tenente coronel António Pinto de Fontoura; sargento mor Francisco Barreto Pereira Pinto
- Guerrilha de Voluntários, cavalaria, 30
- Legião de Tropas Ligeiras (São Paulo), Artilharia, 30 efetivos + 2 peças de calibre 3: tenente José de Morais

Tropas da Liga Federal
Comandante: Coronel José Antonio Berdún

Biografias
Tenente general JOAQUIM XAVIER CURADO
Brigadeiro graduado JOÃO DE DEUS MENNA BARRETO
Coronel JOSÉ ANTONIO BERDÚN

Fontes
- Comisión Nacional Archivo Artigas, Archivo Artigas, Montevideo, Monteverde, t. 31: pp. 364-367
- Diogo Arouche de Moraes Lara, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista trimensal de historia e Geographia, ou, Jornal do Instituto Historico e Geographico Brazileiro, n.º 27, Outubro de 1845

Imagem (de topo)
- Panoramio.com: Pôr do sol BR290 [entre os arroios Inhanduí e Ibirocaí], por Manoel Viana.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Os Voluntários: Contributos para uma caracterização do oficialato


Em finais de 1814, na ressaca da Guerra Peninsular, o príncipe regente D. João mandou aprontar um corpo de tropas ligeiras do Exército Português para servir no Brasil.  A Divisão de Voluntários Reais (DVR), que tenho vindo a tratar aqui, no âmbito do bicentenário sobre a campanha de Montevidéu, serviu como válvula de escape para centenas de oficiais que procuravam avanço e promoção num exército completo, saído ‘vítima’ da eficiência de Miguel Pereira Forjaz e do marechal general W. C. Beresford e do total comprometimento português nas campanhas da Guerra Peninsular.

Quando a divisão foi anunciada formalmente através da publicação do decreto da sua criação no Diário do Governo a 15 de maio de 1815, eram nele pedidos voluntários entre o oficialato do Exército Português, com a promessa de acesso ao posto superior e que se manteriam agregados ao seu regimento de origem, no número dos destacados.

Nesta postagem vou analisar o número de voluntários que se responderam ao apelo e retratar o espírito de aventura e promoção profissional que a DVR proporcionou àquela altura.

O Exército Português

2.º Corpo de Cavalaria (Divisão dos Voluntários Reais): Oficial e Soldado (1815-1823) - trajavam a azul ferrete


Antes de mais, é preciso perceber que apesar de estar a fazer um ano sobre o fim da Guerra Peninsular, o Exército Português manteve-se em números de guerra até meados de novembro; altura em que passou a efectivos de paz, totalizando 40,840. Refletindo o número sem precedentes de oficiais que se haviam incorporado, em cerca de 48 batalhões de infantaria (2 batalhões por cada um dos 24 regimentos), só para nos referir à mais significativa das armas.

Uma expedição ao Brasil, em defesa do império e da Santa religião, já de si promessa de aventuras e de avanço e promoção, quem sabe por distinção no campo da honra, era ainda mais adocicado pelo acesso ao posto seguinte e a manutenção no Exército de Portugal, e não, como era habitual passar aos quadros do Exército do Brasil.

É natural que muitos oficiais tenham respondido sem grande hesitação. João da Cunha Lobo Barreto, que entra na DVR como tenente do 1.º Batalhão de Caçadores, vindo de Caçadores n.º 4, exprime bem o sentimento em presença:

Tão depressa se publicou este Decreto, se ofereceram para servir na mesma Divisão um sem numero de oficiais, inferiores e soldados; sendo tal o entusiasmo que podemos asseverar [...]  que se o governo naquela ocasião mandasse prontificar um corpo de 12 ou 15 mil homens aguerridos, os encontraria prontos para semelhante expedição.


Nas suas memórias, editadas pelo filho, o coronel Francisco de Paula Azeredo, que vem a comandar o 2.º Regimento de Infantaria, apresenta-nos o élan que a DVR inspirava num exército que esteve em guerra, de 1807 a 1814, e que se sujeitava agora à paz:

[...] 45 anos, com constituição robusta e ânimo ousado. A vida sedentária incomodava-o; o serviço ordinários das guarnições era uma ocupação modesta para quem via uma nova carreira de combates e glória. O trabalho era o seu deleite, e a actividade o maior prazer da existência. Não quis portanto deixar escapar esta oportunidade favorável de ir ao novo mundo aumentar os seus créditos e melhorar a sua posição, pois é sabido que além da sua espada não tinha outro património.

A questão da composição da infantaria da DVR: Caçadores todos?

William Carr Beresford
(Sir William Beechey)
Apesar de comummente se pensar que a DVR era constituída por 4 batalhões de caçadores, a 8 companhias cada, a mesma foi pensada para ser constituída por 12 companhias de caçadores e 20 companhias de infantaria ligeira (na verdade infantaria de linha regular, mas fardada como caçadores), mais não seja porque esvaziaria os 12 batalhões de caçadores que ficariam em Portugal (basta notar desde já que 38 dos 60 tenentes de todos os batalhões se apresentaram como voluntários).

Silvino da Cruz Curado refere que foi Beresford, no conflito com os governadores do Reino, que forçou um limite de 12 companhias de caçadores, pois como o marechal general Beresford coloca de forma clara, “[...] ponhamos-lhe nós o fardamento que quisermos, nem por isso os faremos caçadores... podendo, talvez tirar-lhes as qualidade de boa infantaria”. 


Oficiais generais e soldado e oficial da DVR
(José Wasth Rodrigues)

Apesar do conflito entre Beresford e os governadores do reino ser algo que foi mais ou menos constante desde 1809, a situação em paz era pior no sentido em que os interesses do maior aliado, D. Miguel Pereira Forjaz, começavam a divergir fortemente do dos ingleses desde o final da Guerra em 1814.

É de crer que Beresford terá estabelecido a divisão de efetivos entre infantaria de linha e caçadores da forma que veio a tomar, interpretando ao mesmo tempo os desejos do governo do Rio de Janeiro e as necessidades do Exército. 12 companhias de caçadores já implicaria que se retirasse cerca de um quinto de todos os oficiais de caçadores; imagine-se então se todas as 32 fossem recrutadas  nesta arma.

Os números

Embarque das tropas em Praia Grande (J. B. Debret)

Assim sendo, a DVR deveria ser constituída por 20 companhias de infantaria, 12 de caçadores, 12 de cavalaria e 2 de artilharia, tirando o efetivo do estado maior ao nível divisão, brigada e batalhão/corpo. 
Os efetivos seriam recrutados para cada um destas companhias a partir da arma correspondente.

Em termos da classe de oficiais, a DVR apresentava as seguintes vagas:

Infantaria:
2 tenente coronéis, 4 majores, 20 capitães, 20 tenentes, 40 alferes

Caçadores
2 tenente coronéis, 4 majores, 12 capitães, 12 tenentes, 24 alferes

Cavalaria
2 tenente coronéis, 4 majores, 12 capitães, tenentes e alferes

Artilharia
2 capitães, 2 primeiro tenentes e 6 segundo tenentes


Artilharia a Cavalo, da2.ª Brigada)  (Divisão dos Voluntários Reais): Oficial e Soldado (1815-1823) - trajavam a azul ferrete

A partir de 15 de maio, muitos oficiais voluntariaram-se para a expedição no Brasil. 
Estes são os números, por arma e por posto, de quantos se apresentaram:

Infantaria
3 coronéis, 7 tenentes coronéis, 14 majores, 55 capitães, 88 tenentes, 147 alferes
(Incluem-se nestes os coronéis Luís do Rego Barreto e Carlos Sutton e o tenente coronel John Prior, sendo que nenhum entrou)



Caçadores
5 tenente coronéis, 6 majores, 30 capitães, 38 tenentes e 41 alferes



Cavalaria
4 tenente coronéis, 3 majores, 10 capitães, 14 tenentes e 11 alferes


Artilharia
1 coronel, 1 tenente coronel, 7 capitães, 9 primeiros tenentes e 17 segundos tenentes


Se voltarmos atrás e relembrarmos as palavras do memorialista Lobo Barreto, que se o governo “mandasse prontificar um corpo de 12 ou 15 mil homens aguerridos”, não teria problema em o fazer. Pois os números demonstram-no de forma clara, e pouco faltaria (excetuo a cavalaria) para formar uma segunda DVR, se tal fosse necessário.

Aqui temos o rácio entre oficiais voluntários face às vagas no posto imediatamente superior na DVR e percebemos melhor a oportunidade que esta DVR representou para o oficialato português, sem perspetiva de promoção e muito jovem.




A classe dos capitães é a que mais se candidata, até porque era tradicionalmente o ponto de engarrafamento na carreira militar e o término desta para muitos. As pouquíssimas vagas de major (12 em toda a DVR, no que respeita aos batalhões) refletem um rácio que chega a ser de 14 capitães de infantaria de linha para 4 vagas de major, seguida de perto por 30 capitães de caçadores (mais de metade de todos os comandantes de companhias de caçadores do Exército) para 4 vagas de major. A arma que parece menos afetada é a de cavalaria, mas ainda assim apresenta 3 capitães por cada cada uma das 4 vagas de major nos dois corpos da arma. Apesar das outras classes não apresentarem rácios tão altos, mostram claramente que a oferta excedeu a procura em cinco vezes (se excluirmos as vagas de estado maior de brigada e divisão, que influem muito pouco nos resultados).

O caso dos Caçadores

2.º e 4.º Batalhões de Caçadores (Divisão dos Voluntários Reais, 1815-1823) - trajavam a castanho ou Saragoça


Ainda que Beresford tenha reduzido a 12 companhias o número de caçadores a retirar do Exército, ainda assim os 12 batalhões de caçadores ficaram sem muitos dos seus efetivos. 19,3% de todos os oficiais dos batalhões de caçadores foram para a DVR, abrindo promoção aos que ficaram. 

1 em cada 5 oficiais de caçadores em 1815 entrou na DVR.

Se verificarmos o número de oficiais de caçadores que se voluntariaram, por posto, é impressionante, tendo em vista as percentagens face aos efetivos dos 12 batalhões metropolitanos:

5 tenente coronéis (41.6% de todos os tenentes coronéis de caçadores)
6 majores (50%)
30 capitães (41.6%)
38 tenentes (63%)
41 alferes (34,2%)

Por exemplo, 63% de todos os tenentes de caçadores do Exército à altura, 38 num total de 60, ofereceram-se como voluntários, tendo 12 deles obtido o comando de uma das companhias.

***


Ainda que hoje tenuemente lembrada pela história militar portuguesa, a Divisão de Voluntários Reais foi naquela altura um imenso acontecimento para todos os militares do seu tempo e que se repercutiu de forma extraordinária na vida de muitos homens, mesmo entre os que estiveram em combate na Espanha e na França em 1813 e 1814.

Próximo: que medalhas usavam estes militares e como nos indicam elas a experiência militar que eles levaram à Campanha de 1816?

Conheça mais sobre o Exército Português nos Finais do Antigo Regime, de Manuel Amaral 

Fontes

- Arquivo Histórico Militar, 2/1/8/4 & 2/1/8/10

- AGUILAR, Francisco D’Azeredo Teixeira D’, Apontamentos Biographicos de Francisco de Paula D’Azeredo, Conde de Samodães, Porto, Tip. Manoel José Pereira, 1866.

- BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in: Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.

- CURADO, Silvino da Cruz, Campanha de Montevideu, A Ocupação Portuguesa do Uruguai, 1816-1823 (Col. Batalhas da História de Portugal, n.º 14), Matosinhos, QuidNovi, 2006.

- LIMA, Cor. Henrique de Campos Ferreira, O Exército Português: Enciclopédia pela Imagem ; dir. artística Alberto de Sousa. - Porto : Livraria Lello, Limitada Editora, 1930. pp 54-55.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Estado Maior: Bernardo da Silveira Pinto

Igreja da Várzea de Abrunhais

O brigadeiro BERNARDO DA SILVEIRA PINTO (DA FONSECA) nasceu em 1780, na Várzea de Abrunhais, Lamego, filho de João Brum da Silveira Pinto da Fonseca e de D. Isabel Rita da Câmara Figueiredo e Castro. A 1 de Abril de 1794, assenta praça como cadete no Regimento de Infantaria de Almeida, sendo promovido a capitão do Regimento de Cavalaria de Almeida, dois anos depois, a 30 de Setembro.

Em 18 de Setembro de 1808, é major de cavalaria da Leal Legião Lusitana, sendo promovido a tenente coronel a 24 de Janeiro do ano seguinte. 

A 14 de junho de 1809, é tenente coronel agregado ao Regimento de Cavalaria n.º 2, servindo como Deputado Quartel Mestre General da Divisão de Trás-os-Montes. Três anos depois, a 5 de fevereiro de 1812, é promovido a coronel desse mesmo regimento. 

Passa, com 36 anos, à Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, como brigadeiro Quartel Mestre General. Comandou a Coluna do Centro, que marchou no flanco direito ao corpo principal da divisão.


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4/12 – Combate de Pablo Páez: 4 de dezembro de 1816

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Exército do Brasil: Francisco das Chagas Santos

Rio de Janeiro

O brigadeiro graduado FRANCISCO DAS CHAGAS SANTOS nasceu a 17 de setembro de 1763, no Rio de Janeiro, filho de António Manoel dos Santos. Após os estudos primários, foi com pai para Lisboa onde foi admitido no Real Colégio dos Nobres. 

A 5 de fevereiro de 1781, com 17 anos, é promovido ajudante de infantaria, com exercício de engenheiro, para o Rio Grande, membro da Comissão de Demarcação de fronteira comandada pelo brigadeiro Xavier da Veiga Cabral. Dez anos depois, a 12 de dezembro, é promovido a capitão. 
Só a 9 de janeiro de 1800, com 37 anos, recebe a promoção a sargento mor, mas logo quatro anos depois, a 25 de agosto de 1804, é promovido a tenente coronel. No ano seguinte, torna-se o 1.º comissário da Comissão de Demarcação, ainda em atividade. 

A 13 de maio de 1808 é graduado em coronel. A 4 de agosto do ano seguinte, já coronel efetivo, é nomeado comandante dos Povos de Missões, movendo a sede do quartel general de S. Luís para S. Borja. 

A 20 de janeiro de 1813, é graduado em Brigadeiro, com o mesmo exercício, assim se mantendo até 1816.