sábado, 3 de novembro de 2018

A Evasão dos 33 Portugueses (17-25 de Maio de 1817)


A 17 de maio de 1817, 33 militares portugueses, 22 deles da Divisão de Voluntarios Reaes, e 11 do Exército do Brasil, 7 oficiais e 26 sargentos e praças, fazem um buraco na parede traseira da prisão onde estavam, em S. Domingo Soriano, hoje Vila Soriano, 100 quilómetros dentro do rio Uruguai, onde o rio Negro se lhe reúne. 

Tendo prévio conhecimento da permanência ali de uma balandra federal, totalmente equipada, a ideia era tomá-la, não só para navegar à liberdade, mas para negar a munição ao inimigo. Uma balandra, uma espécie de sloop ou chalupa, é um barco à vela adequado à navegação fluvial. De acordo com o alferes Francisco António da Silva, da cavalaria da Divisão, foi o tenente do Estado Maior Jacinto Pinto de Araújo Correia que planeou e liderou a evasão.



O grupo de 33 evadidos, a que adicionaram nove “paisanos” agregados à Divisão, dirige-se, então, à praia no rio Negro, mas não encontrando a balandra esperada, acabaram, em desespero, por se lançar a nado encontrando providencialmente outra lancha. A balandra “5 de Julio” é tomada, apesar de alguma resistência e gritos de alarme da guarnição, e os 42 portugueses podem finalmente tomar o sul, com destino a Montevideu.

Alguns dos prisioneiros já estavam em cativeiro desde o 9 de setembro, prestes a chegar aos nove meses, quando dez cavaleiros das Milícias do Rio Grande (2) e da Legião de São Paulo (8) foram capturados na ação de Castillos. A vasta maioria (23) tinha sido capturada durante o mês de Dezembro, na estrada junto à costa atlântica, na marcha para Montevideu.


Praia, Isla Martin Garcia (fonte Wikicommons)

No dia 19, dia e meio depois, a “5 de Julio”, agora com uma bandeira portuguesa, “as sagradas quinas luzitanas”, “que muito à pressa construiram”, chegou junto da ilha Martin Garcia, que marca a foz do Uruguai e o início do Rio da Prata, 100km a sul do início da jornada. Tendo avistado uma embarcação de guerra que suposeram oriental, a guarnição do “5 de Julio” propôs-se a sua tomada, mas verificou que o mesmo tinha bandeira de Buenos Aires. Após este último susto, as autoridades argentinas facilitaram a chegada dos militares portugueses evadidos, o que vem a acontecer, cinco dias depois, a 24 de maio.

No dia seguinte, Montevideu acorda com frescas notícias extraordinárias. Nesse mesmo dia, o capitão general Carlos Frederico Lecor, em carta a El-Rei Dom João VI, dá nota do extraordinário evento, “um sucesso daqueles que aparecessem de século em século”.
Ainda que a celebração em torno da evasão dos 42 portugueses nos pareça hoje algo exagerada, o seu poder de aumento do moral foi enorme numa divisão que só há apenas quatro meses detinha Montevideu, e após duas sortidas que não ofereceram vantangens e apenas agravaram a questão do abastecimento da cidade.

Jacinto Pinto de Araújo Correia
O oficial a quem todos atribuem a liderança nesta evasão é o tenente Jacinto Pinto de Araújo Correia. A sua captura, a 11 de Dezembro de 1816, cinco meses antes, foi particularmente notória no Exército por duas razões. Primeiro. ele era o irmão do marechal Sebastião Pinto de Araújo Correia, o comandante da vanguarda e n.º 2 da Divisão. Segundo, a captura deu-se 3 dias após a ação de Sauce, uma das piores derrotas portuguesas antes da tomada de Montevideu.


Monumento a Artigas (Rocha). Ubicada en el departamento de Rocha (fonte: Wikicommons)


João da Cunha Lobo Barreto [CONHEÇA MAIS], também ele tenente, refere-se ao caso nas suas memórias, atribuindo a captura a uma certa incúria profissional, o que realça o perigo constante dos ataques federais na área de Maldonado e Rocha, agora em plena guerrilha após a derrota em India Muerta. Já depois da tomada de Montevideu, nas duas incursões, os orientais, liderados por Juan Lavalleja, voltam a ensinar essa lição a retaguardas portuguesas isoladas do corpo principal, no Pintado e em Toledo.


“Novo acontecimento tambem pôz em cuidado o General Pinto, o Tenente do Estado Maior Jacinto Pinto (seo irmão) e um comissário com outro indivíduo, se deixarão ficar em Santa Thereza (alguns dizem, que divertindo-se) e depois de sahirem todas as tropas se metterão a caminho sosinhos, até que chegando ao Povo de Rocha forão prisioneiros”.(Lobo Barreto, p. 11)

Division de la Derecha
As forças federais de Artigas estavam, por esta altura, a ter os seus próprios problemas. Menos de um mês após a visita de José Artigas à División de la Derecha (comandada desde setembro por Frutoso Rivera), onde assistiu ao combate de Toledo, a 5 de Maio, há um conflito de comando, percebendo-se que Rivera era substituído por Tomás Garcia de Zuñiga, com o apoio de vários oficiais. Só após ordem positiva de Artigas é que Frutuoso Rivera reassume o comando.  É a segunda revolta do ano, após o batalhão de Libertos em Purificación, em Fevereiro, e sua passagem a Buenos Aires, assegurada pelos portugueses.


* * *

O tenente Jacinto Pinto de Araújo Correia,  irmão do Ajudante General da Divisão, nasceu em 1794, em Viana do Castelo, filho do marechal de campo Francisco Pinto de Araújo Correia. Enquanto cursava humanidades, o apelo à defesa da pátria em perigo o faz alistar-se como cadete no Regimento de Infantaria n.º 18, a 5 de outubro de 1810. Já como cadete porta bandeira, é promovido a alferes de Infantaria 6 a 9 de janeiro de 1813, e como tal participa nas campanhas de 1813 e 1814, na batalha de Vitória e em St.Pierre, onde é ferido e aprisionado pelos franceses até que se vê libertado horas depois pelo marechal de campo Carlos Frederico Lecor, então comandante da Divisão Portuguesa. 
Passa, com 22 anos, à Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, como tenente assistente do Quartel Mestre General, e, anos depois, em 1847 é coronel do Estado Maior, comendador da Ordem de Cristo e Cavaleiro da Imperial Ordem do Cruzeiro.


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Carta do tenente general Carlos Frederico Lecor ao Rei Dom João VI, escrita de Montevideu, a 26 de Maio de 1817.


Senhor
Aprezentando-se muito Raramente ocazioens, que enchão tanto o Coração de hum Chéfe, que dezeja acreditar as Suas Tropas, e o Comando, que dellas se lhe conferio, como a prezente, gostosamente lanço mão della para levar ao Soberano Conhecimento de Vossa Magestade hum sucesso daquelles, que aparessem  de Seculo, em Seculo, e que tem o mesmo Cunho dos que tanto honraráo os Heroes Portuguezes.

[25.5.1817]
No dia de hontem entrarão nesta Bahia os individuos, comprehendidos na Rellação incluza; que protegidos pela Divina Mão, que abençoa o Reinado de Vossa Magestade, e os homens, que servem com virtude a Sua Patria, e o Seu Monarca, lograrão libertar-se gloriosamente da pezada escravidão,em que gemião.

Este Successo hé acompanhado de circunstancias demaziadamente notaveis, e que reflectam muita importancia em todos os individuos,  que  nelle  tiverão parte, e  com especcialidade no Tenente Jacinto Pinto d'Araujo Assistente do Quartel Mestre General, que, de acordo com o Alferes Francisco Antonio da Silva da Cavallaria desta Divizão, concebeu, e levou a efeito huma Empresa tão benemerita, e que tanto honra lhe faz.

Estes officiaes estavão, com os outros prizioneiros, em Santo Domingo Soriano, junto da confluente do Rio Negro, debaixo da guarda, que hum Tenente Comandava; e sabendo, que naquelle Porto se achava huma Balandra, com Bandeira Oriental, carregada com petrechos de guerra; projectarão apossar-se della, não só para subtrahir-se á pezada escravidão, que os oprima, mas para tirar ao inimigo hum tão avultadonumero de Artigos, intereçantes ás suas Operaçoens, como os que a dita Balandra continha.

A Fuga [17.5.1817 - noite]
A Providencia protegeu tão nobre, honrado, e bravo pensamento; e deixou que elles, na noite do dia 17 do corrente, tendo podido praticar na parede da sua prizão huma abertura por onde sahirão, sem que pelas Sentinellas fossem persentidos, se dirigissem á praia, onde, malograda a esperança de achar embarcação,  em  que se transbordassem  para a Balandra indicada, possuidos absolutamente do seu objecto, e Resolvidos a sacrificar por elle as Vidas, que tão comprometidas ja tinhão, corajosamente se lançarão a nado; e conseguido apossar-se de huma lancha, que perto havia, apezar dos gritos, com que os donos querião embaraça-los, lograrão finalmente apoderar-se da Balandra - Cinco de julio - e de toda a sua tripulação e Carga, Arvorando, cheios daquelle inexplicavel goso, que dá o bom Resultado, quando elle nace do Valor e da Virtude, o Sempre Triunfante Pavelhão das Sagradas Quinas Lusitanas, que muito á pressa construirão, o melhor, que as circunstancias lhes facilitarão.

[19.5.1817 ]
No dia 19 do corrente, Navegando para esta Praça, derão vista, junto de Martin Garcia, de huma Embarcação de Guerra, e julgando pela situação, que pertencia aos Orientaes, decidirão tomala, e só os dissuadio o saberem depois, que era de Buenos Ayres, para onde forão dirigidos pela ditaEmbarcação, a cujo Comandante contárão, que gente erão,  de que circunstancias vinhão e o fim a que se propunhão.

O Director Supremo daquelle Governo muito generosamente lhes franqueou quantos Socorros necessitavão, e teve a bondade de os enviar a este Porto, onde felizmente chegárão, dando a todos os Individuos desta Divizão hum Soblime Exemplo de bravura, honradez, e lealtade; e hum dia de completa Satisfação.

Inclusa Remeto a Vossa Magestade a Lista dos Objectos, aprezados a bordo da Balandra pelos Vallentes Prizioneiros, cujos nomes contem a Rellação indicada, e Rogo a Vossa Magestade, com a maior Submissão que, Servindo-se Usar da Sua  Real Munificencia, Haja por bem Tomar em Consideração hum facto, que tanto acredita o Patriotismo, e a Valentia dos que nelle intervierão, Dignando-se conferir a tão distintos Vasallos  aquelles Premios de que se fazem merecedores.

Deos guarde a Vossa Magestade muitos annos.


Monte Video 26 de Maio de 1817.

De V. Mag.de Fiel Vassallo
Carlos Frederico Lecor.


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Excerto do Diário de Lisboa, Março de 1818, regerente a decreto de 19 de Novembro de 1816


Relação dos prisioneiros Portuguezes, que no dia 17 de maio tão gloriosamente se libertaram

Estado Maior
Jacinto Pinto de Araújo, Tenente, prisioneiro em Rocha em 11 de Dezembro de 1816, marchando para o exército.

Cavalaria, Divisão de Voluntarios Reais
Francisco Antonio da Silva, Alferes da 4.ª companhia, prisioneiro em Mata-ojo em 8 de Dezembro de 1816, em attaque
Vicente Ferreira Brandão, Alferes da 10.ª companhia, idem
Manuel Coelho, Furriel da 6.ª companhia, idem
José Manoel, soldado da 3.ª companhia, idem
Manoel Ventura, dito, dito, idem
José Cardozo,  dito da 4.ª companhia, idem
Antonio Rodrigues, dito, dito, idem
José Procópio, dito, dito, idem
Domingos Rodrigues Villarinhos, dito da 10.ª companhia, idem
José Garcia, dito da 12.ª companhia, idem
Antonio Valles, dito, dito, idem
Antonio Braz, dito, dito, idem

Artilharia, Divisão de Voluntarios Reais
João Custodio Villas-Boas, Cadete da 1.ª companhia, prisioneiro em Santa Thereza em 25 de Dezembro de 1816. Estava destacado.
Antonio de Almeida, Soldado da 2.ª companhia, idem
Florêncio Roza, dito, dito, idem

Primeiro batalhão de Caçadores, DVR
Vicente de Oliveira, Corneta da 5.ª companhia, prisioneiro em Maldonado em 19 de dezembro de 1816, sahindo a ir buscar agoa.
Manuel da Cruz, soldado da dita, idem.

Segundo Regimento de Infantaria, DVR
João dos Reis, Soldado da 1.ª companhia de Granadeiros, prisioneiro em Rocha em 2 de Dezembro de 1816, em attaque de forragens.
Francisco de Carvalho, dito, dito, idem.
José Correia, dito, dito, idem.
Filipe Henriques, dito, dito, idem

Cavalaria, Legião de Voluntários Reais de São Paulo
Joaquim José de Bettencourt, Tenente da 3.ª companhia, prisioneiro em Castillos em 4 de setembro de 1816, em attaque.
João Ribas Sandim, Cadete da 2.ª companhia, idem
José António de Oliveira, Cabo da 4.ª companhia, idem.
José Joaquim de Barros, Soldado da dita, idem
Manuel Gonçalves, dito, dito, idem.
João Rodrigues, dito, dito, idem.
José Francisco de Sequeira, dito da 2.ª companhia, idem.
Joaquim Rodrigues, dito, dito, idem.

Regimento de Cavalaria de Milícias do Rio Grande
Francisco Carneiro de Fontoura, Alferes da 1.ª companhia, prisioneiro em Rocha em 11 de Dezembro de 1816, marchando para o Exercito.
Francisco Antonio, Soldado da 3.ª companhia, prisoneiro em Castillos em 4 de Setembro de 1816, em attaque.
Manuel Silverio, dito, dito, idem.

(+ 9 paisanos, agregados à divisão, prisioneiros em differentes lugares).

Resumo dos dias em que foram capturados:
4/9 (Castillos) – 10 (Legião São Paulo e Reg Milícias Rio Grande)
2/12 (Rocha, forragens) – 4 (2.º RI)
8/12 (Mata Ojo/Sauce) – 12 (Cavalaria DVR)
11/12 (Rocha, marcha para o exército) – 2
19/12 (Maldonado, a buscar água) – 2 (1.º BatCaç)
25/12 (Santa Teresa) – 3 (Artilharia)


Os sete oficiais foram todos promovidos ou graduados ao posto seguinte a 19 de novembro de 1817.

sábado, 27 de outubro de 2018

O vencido de Carumbé (Gustavo Barroso, 1930)


“Artigas há sido completamente derrotado y se há refugiado en los bosques...”
(Carta de Puerreydon a San Martin)

Um turbilhão de cavalos rolava sobre as coxilhas verdes à luz quente do sol de outubro. Os oficiais à frente, as esporas enterradas no vasio dos zainos e dos malacaras. Os lanceiros milicianos, de lanças em riste, quasi de pé, apoiados nos pesados estribos de bronze. Os dragões, com as clavinas curtas a tiracolo e nas mãos, altas no ar, os curvos sabres refulgindo. E a bandeira real agitada ao vento nas palpitações convulsas da carga.
Eram uns quatrocentos homens – dragões de Lunarejo de Sebastião Barreto, lanceiros do Rio Pardo de Francisco Pereira Pinto e legionários paulistas de Silva Brandão. À ordem de carregar, os esquadrões se tinham movido como em uma parada. Depois, a voz dos oficiais ordenara:
- A trote!
Os animais aceleraram a marcha. E, logo, a segunda ordem dominou, forte, o tropear da cavalhada:
- A galope!
Então, mal os baguais espumantes tomavam o impulso da corrida, sobre eles ecoou o mandado terrível:
- Por esquadrões, carregar!
O turbilhão rolou pelas coxilhas verdes, esmagando a macega meio ressequida, e foi bater cegamente a infantaria de Artigas abandonada no meio da planicie. Recebeu-o uma descarga estralejante. Alguns cavalos e alguns cavaleiros caíram. O turbilhão passou por cima deles. Um baque surdo. Uivos de dôr. Barbaros gritos de raiva. Detonações isoladas. E o rumor sinistro dos ferro mordendo as carnes e os ossos: baionetas que entravam no pescoço dos cavalos, lanças que varavam peitos e costas, sabres que fendiam ombros e craneos.
A infantaria artiguista fraquejou. Desfizeram-se os liames da formatura. Os soldados dispersaram-se em grupos, defendendo caramente a vida do ataque dos cavaleiros. A cavalaria brasileira caracolou à direita e à esquerda. Ouviam-se brados roucos. Os dragões abriam caminho pela pampa a talho e ponta de espada. Os lanceiros paravam de combater, cansados de matar. E o vento brincava nas bandeirolas de suas lanças empurpuradas de sangue.
Assim, fôram derrotados os últimos soldados de José Gervazio Artigas, chefe da confederação do uruguai, Corrientes e Entrerrios, nos campos dos serros de Sant'Ana, que os orientais denominam Carumbé, pelo brigadeiro Joaquim de Oliveira Alvares.

* * *

O general Curado, que defendia nossas fronteiras do sul, mandara-o reconhecer as posições de Artigas com menos de oitocentos homens e duas peças ligeiras. EM frente aos serros, a coluna expedicionária viu-se de repente em presença de grande força inimiga. Comandava-a Artigas em pessôa. Eram mil e seiscentos homens, dos quais quinhentos de infantaria mandados por Toríbio Fernandez e mil e cem cavaleiros guiados por André Latorre, Baltazar Ojeda, Inácio Gatelli e Domingos Manduré.
Surpreendido em ordem de marcha, Alvares foi forçado a aceitar combate. Ocupou rapidamente pequenas lombas, colocou bem a artilharia e, quando a numerosa cavalaria adversa o atacou, metralhou-a à vontade. Campo de tiro excelente. Artilheiros habeis. Canhões pequenos com bôas parelhas de machos atrelados aos armões, podendo ter grande mobilidade, fizeram perder muita gente à gauchada entrerriana e corrientina, enquanto parte de sua infantaria de apoio, os legionarios paulistas de Galvão Lacerda, dificultavam aos chefes artiguenhos reconduzir as cavalarias ao combate.
Esgotadas as reservas, brechados os esquadrões pelas granadas de Bento José de Morais, afeito a metralhar corrientinos e que os dizimara havia uma semana no Ibiroacaí, perdido o impulso primitivo pelo cansaço das cargas improfícuas, dispersos e espingardeados pelotões inteiros pelas guerrilhas de João Pais e Alexandre Luiz de Queiroz, Artigas sentiu-se  escarpar-se-lhe das mãos a sorte da peleja e apelou, como derradeiro recurso, para a infantaria.
O regimento de Toribio Fernandez avançou a marche-marche. Foi aí que o brigadeiro Alvares atirou sobre ele o turbilhão de dragões e lanceiros. Os esquadrões descoseram as companhias corrientinas de amplas gandolas escarlates. Os sabres e as lanças embebedaram-se fartamente no sangue dos defensores do caudilho. A derrota desgrenhada assoprou o panico nas filas desorganizadas e nos grupos dispersos, açoitando pelos agrestes caminhos dos serros de Sant'Ana, na mesma confusão, peões e cavaleiros.

* * *

“Graças á velocidade de seu cavallo” - afirma conciencioso escritor – Artigas pôde escapar. Os cavalarianos vencedores viram-no ao longe, galopando entre um oficial e um frade, - o indio Manduré, comandante de seus lanceiros negros, e frei Monterroro, seu secretario.
Enquanto, entre centenas de mortos e feridos, os guerrilheiros de Jacinto Guedes recolhiam troféus: armas de preço, tambores, estandartes; contavam os prisioneiros, e reconheciam no meio dos cadaveres o do comandante Inacio Gateli, sobrinho do ditador, este fugia, como fugiria no Arapeí, como fugiria no Arroio da China, como fugiria no Taquarembô...
Escurecia quando meteu o fatigado cavalo num vau do Arapei. O oficial indio seguia-o em silencio, o rosto carregado de odio. O frade gemia e se lamentava sacudido pelos passos incertos do animal dentro dagua, o habito arregaçado, as pernas nuas beijadas pela correnteza fria. Fôram ter a uma pequena ilha deserta. O guarani acendeu uma fogueira debaixo das arvores. O frade gemeu e acabou enrodilhando-se no chão e ressonando. O caudilho derrotado, de pé, braços cruzados ao peito, cravava o olhar nas chamas. E as labaredas agitavam sua sombra desmesurada na alta barrança do rio...
Ao longe, os quero-quero gritavam. Nos capões de mato, estridulavam corujas. O vôo rapido dos curiangos cortava a clareira. O indio encostou-se a uma pedra musgosa, cerrou os olhos e adormeceu...
Quando a luz do sol acordou a campanha verde, o rio cinzento e o ceu azul, Artigas ainda estava na mesma posição. A fogueira extinguira-se sob o orvalho da madrugada. Seu olhar fixo mergulhava filosoficamente nas cinzas humedecidas.

Fonte
BARROSO, Gustavo, A Guerra de Artigas, s/l, Ed. Getulio M. Costa, [1930]. pp. 27-34

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Exército do Brasil: Félix José de Matos Pereira de Castro

O coronel FELIX JOSÉ DE MATOS PEREIRA DE CASTRO nasceu em Monção, em 1772, filho do capitão José de Matos Pereira e de D. Maria Quitéria Pereira de Castro.

Assenta praça na 2.ª companhia do Regimento de Artilharia do Porto a 11 de fevereiro de 1785, sendo promovido a cabo de esquadra, cinco anos depois, em dezembro de 1790. 
A 16 de outubro de 1791, passa ao Regimento de 
Artilharia da Marinha, como sargento, estando embarcado em várias ocasiões na fragata Tétis, entre outras embarcações. 

Sendo 1.º tenente da Brigada Real de Marinha, passa ao Exército do Brasil, a 11 de agosto de 1800, como sargento mor do Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande.

Em 1816, com 44 anos, é coronel do seu batalhão e foi o primeiro comandante da Coluna do Centro, que atuou entre Melo e Santa Lucia, sendo substituído pelo brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto em Outubro.

Foi ele o comandante que iniciou as hostilidades quando entra em território oriental a 9 de Agosto de 1816, forçando a Guarda do Arredondo, e toma a vila de Melo, a 13, arvorando o pavilhão português.

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terça-feira, 18 de setembro de 2018

Exército do Brasil: Bento Manuel Ribeiro



O tenente Bento Manuel Ribeiro nasceu em Sorocaba (SP), no ano de 1783, filho do tropeiro Manuel Ribeiro de Almeida e de D. Ana Maria Bueno. 

Após concluir os primeiros estudos, alistou-se a 1 de Dezembro de 1800 no Regimento de Milícias de Rio Pardo. Fez a campanha de 1801 como soldado, acompanhado de seu irmão capitão Gabriel Ribeiro de Almeida. Comandado pelo coronel Patrício Correia da Câmara, participou da expulsão dos espanhóis de Batovi e da fortaleza de Santa Tecla.

A 1 de Janeiro de 1808 foi promovido a furriel, tendo participado com distinção nas Campanha de 1811-1812. É promovido a tenente a 17 de Dezembro de 1813.

Em 1816, com 33 anos de idade, é tenente do Regimento de Cavalaria de Milícias do Rio Pardo e vem a participar nas batalhas de Ibirocaí, Carumbé e Catalán, e no combate de Santana.

[Durante a campanha vem ser graduado e promovido a capitão, em 1817 e 1818.]


domingo, 16 de setembro de 2018

Exército do Brasil: Gaspar Francisco Mena Barreto


O tenente Gaspar Francisco Mena Barreto nasceu em Rio Pardo a 24 de Outubro de 1790, filho de João de Deus Mena Barreto, futuro visconde de S. Gabriel, e da D. Francisca Veloso. 

Com cerca de 13 anos, assentou praça no Regimento de Dragões do Rio Grande (popularmente conhecidos como do Rio Pardo). Participou na campanha de 1811-1812, tendo tomado parte nos assaltos aos fortes de S. Teresa e S. Miguel

Em 1816, aos 26 anos, era tenente do Regimento de Dragões do Rio Grande e vem a participar em várias ações, nomeadamente o combate de Santana, onde comandou as forças do seu regimento, e as batalhas de Carumbé e Catalán. Por distinção, virá a ser promovido a capitão do seu regimento após a campanha, em 1817.

De acordo com o sítio “Gaúchos Ilustres: M-O” in: Maragato Assessoramento [Visitar Página],  “Gaspar Francisco Mena Barreto era poeta e homem de letras, destacando-se suas “ordens do dia” - que os companheiros achavam fora das normas usuais”.

Legou-nos a sua visão do que aconteceu no Combate de Santana, sendo uma de duas memórias portuguesas desse recontro inicial da campanha. [LER]

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Exército do Brasil: Tomás da Costa Rebelo Correia e Silva


O brigadeiro graduado Tomás da Costa Rebelo Correia e Silva nasceu em Castro Marim, no Algarve, a 6 de Março de 1768, filho do capitão Belchior da Costa Correa Rebelo e de D. Ana Joaquina Correa da Silva. Era de descendência nobre, da família Costa de alcaides mor de Lagos.

Assenta praça de voluntário na 5.ª Companhia de Granadeiros do Regimento de Infantaria de Tavira a 18 de Janeiro de 1788, com quase 20 anos, passando ao Regimento de Artilharia do Algarve a 1 de Julho do ano seguinte. Um mês depois, a 9 de Agosto é declarado cadete de artilharia. Matriculou-se na Universidade de Coimbra em 1788, tendo-se formado em Filosofia em 1791 e em Matemática em 1792. De acordo com os livros mestre regimentais, tinha cabelos castanhos, olhos azuis e media 1,74 m.
A 15 de Setembro de 1791, é promovido a 2.º tenente da 5.ª Companhia de Artilheiros. Quatro anos depois, a 18 de Julho de 1795, é promovido diretamente a capitão Ajudante d'Ordens do novo Capitão General de São Paulo, D. António Manuel de Melo e Castro de Mendonça, passando assim ao Brasil, pelo menos em 1797.
A 19 de Novembro de 1797, é promovido a sargento mor da recém criada Brigada de Artilharia a Cavalo da Corte, sendo confirmado no posto a 10 de Outubro do ano seguinte.

Em 1805, é promovido a tenente coronel do Regimento de Dragões do Rio Grande (conhecidos popularmente como Dragões do Rio Pardo), com o exercício de lente das tropas da capitania do Rio Grande de S. Pedro. Cinco anos depois, a 22 de Setembro de 1810 é promovido a coronel agregado do seu regimento, sendo depois graduado em Brigadeiro a 13 de Maio de 1813, pelos seus serviços na campanha de 1811/1812.

Em 1816, com 48 anos,  é brigadeiro comandante do Regimento de Dragões do Rio Grande. Apesar de estar presente ao início das campanhas no distrito de Entre Rios (Quaraím e Ibicuí), tendo sido ele o comandante que enviou o tenente coronel José de Abreu à vitória na margem ocidental do rio Uruguai em inícios de Outubro, não tem participação visível nas operações posteriores, sendo o regimento comandando interinamente pelo sargento mor Sebastião Barreto Pereira Pinto.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Memórias: TenCor Vicente da Fonseca (Catalán, 1817)


N°  808  [Ignacio  José  Vicente  da  Fonseca  a  Vicente  Ferrer  da  Silva Freire.  Informa  detalladamente  sobre  los  movimientos  de  las  fuerzas portuguesas contra las de Artigas. Se refiere a la acción del 29 de octubre pasado en las inmediaciones de Santa Ana, y en particular a las de los días 3 y 4 de enero.]

[Arroyo del Catalán, 8 de enero de 1817.]

(...)

[15/12] Tendo o Ex.º Sñr. Marquéz de Alegrete chegado ao nosso campo do IBYRAPUITAN a 15 DE DEZEMBRO do passado, e sabindo pelos nossos Bombeiros que os Insurgentes se reunião com grande força e que ([....]) pertendião hir atacar-nos naquelle lugar,  

[25/12] / rezolveo, que devia-mos ([emtao]) encontrá-los, e consiguintem." levanta-mos  o Campo a 25 derigindo-nos p.a o Coraim - QUARAÍ;  

[31/12] / passamos este Arroio no dia 31,  

[1/1] / e falhá-mos ao 1.°, e tendo neste dia os nossos Bombeiros  agarrado 3 Bombeiros do Inimigo, soubé-mos destes, que Artigas tinha o seo Quartel General no Lugár denominado o Potreiro nas Imediaçoes do ARAPEY, aonde somente existião 400, e tantos homens, e que tinha feito marchar ([daqui]) deste lugar o Major General Latorre com pérto de quatro mil homens, e duas Pesas de Calibre 4, a este tempo já os nossos Espias descobriram Bombeiros, e pequenas partidas do Inimigo pela nossa retaguarda, mas como julga-mos que a força maior estava pela nossa frente,

[2/1] levantamos o Campo no dia dois, e avançámos 4 legoas e meia, e acampamos na  Margem direita do Arroio Catalan; a pozição de nosso Campo era elevada e propria p.a poder a Art.' operar p.r todos os lados tinhamos, o Flanco ([esquerdo]) direito apoiádo por huma Sanga, a frente, e flanco esquerdo por pequenas sangas, e a retaguarda pelo Arroio ainda que fráco por ser cortádo por varias partes;  

/ neste mesmo dia féz o Sñr, Marquez marchar a nossa avançada q.e hé Comandada pelo Ten. Coronél de Milicias Jozé de Abreu compósta de 500 homens (Milicianos deEntreRios, alguás Guerrilhas de Paizanos, 100 homens de Infant.° da Leg. de S. Paulo, e 2 Pesas de Calibre 3 Comandadas pelo Ten. Luz formão os mencionados 500  homens); sahiram ao pór do sól com ordem de marchar toda a noite p.' na madrugada do dia 3 ([nosa]) surprenderem a Artigas no mencionado Potreiro,  

[3/1] / mas apezár de terem marchado toda a noite CHEGARAM A ESE LUGAR HÚA HORA DEPOIS DE AMANHECÉR, e por este motivo foram percebidos pelas Guardas avançadas do Inimigo, e poude Artigas escapar se precipitadam.'° deixando a sua Carretilha, e até mesmo o seo Ponxe, escapáram muitas familias, e a maior parte da Guarnição, e húa porção que ainda não tinha fugido foram derrotados pelos nossos depois de fazerem huá granderezistencia; Artigas tinha escolhido hum lugar p.' seo Quartel Generál aonde a Cavaleria não podía Operár, e por isso somente a Art.' e Infant.° de S. Paulo, e poucos de Cavaleria ape decidiram desta Acção, (ouvi-mos os tiros de Art.°, e serião 8 HORAS DA MANHAÑ;) a perda do Imimigo consistio em setenta e tantos mortos incluzo hum Ajud.`, 6 Prizioneiros, ficou em nosso podér a Carretilha de Artigas, 1500 mil e quinhentos Cavalos, e alguás muniçoes; a nossa perda consistio em dois Soldados mortos da  Infant." de S. Paulo, que foram os primeiros q. investiram fi matto, e 4 feridos da mesma Infant.' sendo 2 gravemente. 

O Valente Ten. Cor. Abreu pertendia perseguir a Artigas, mas sabendo dos Prizioneiros, que Latorre tinha avizado a Artigas, que no día 4 pertendia bater os Portuguezes, e que nesse mesmo día estarla com elle Victoriozo no Potreiro, com esta noticia (apezar de não tér a nossa Tropa comido, e nem dormido) picou a márcha o Ten. Cor. Abreu p.' reunir se a nós com a brevidade possivel, o que consiguio no mencionado día 3 DEPOIS DE ANOITECÉR; com a chegada do Abreu deram(se) as Ordens necessarias, e foram,  

[4/1 – 0300H] / q.' as TREZ HORAS DE MANHAÃ estaria toda a Cavaleria montada, e toda a máis Trópa debaixo de Armas, mas assim não aconteceu por cauza das facilidades, estivémos com efeito debaixo d'Armas ás horas determinadas,  porem só a Cavaleria de S. Paulo estáva montada, e Dragoens, e Milicianos não tinham pegado Cavallos; e se não fosse a Art.ª, e o valor da nossa Tropa, o Inimigo teria a conseguido huma Completa Surpresa:  

[4/1 – 0430H] / eram 4 HORAS E MEIA, e naquelle momento tinha o nosso clarim acabado de tocar a Alvorada, quando hum chefe de Guerrillas, que guardava huma nossa Cavalhada, que estava sobre o nosso Campamento no flanco esquerdo, persentio os charruas avancarem p.° roubála, mandou logo disparar oito tiros, e reunio-se a nós com a Cavalhada que poude, eu estava na Bataria do centro que hé composta de 4 Obuzes, conversando com o major Pitta q.' he o Comand desta Devizão de Art.' principiamos logo a ouvir o grande alarido que costumam fazer estes barbaros, e a descobrir hum grande negrúme por todas a Coxilha que estáva pela nossa frente, flanco, esquerdó, é retaguarda, a nossa Tropa dispoz-se imediatámente p.'. entrar em Acção, e o Inimigo aproximava-se cada vez mais tocando a sua Muzica com grande dezafogo,

[4/1 – c. 0435H] / a este tempo q.' serião PASSADOS 5 MINUTOS DEPOIS QUE FORAM PERCIBIDOS, aparecéo logo o Sñr. Marquéz na frente da Tropa montado a Cavalo animando-a com muita Corágem, e vendo q.e o Inimigo ja estava pelo nosso flanco esquerdo em distancia de fuzil, mandou logo romper o fogo de Art.a, o que se executou promtamente,  


[Artilharias] / e tive então o gosto de ver laborar ao mesmo tempo toda a Art.a do meo Comando, estava disposta em divizoens sendo a do centro comandada pelo Major Pitta, e composta de 4 Obuzes que lancaram Granadas q.e fizeram hum efeito terrivel, a divizão da esquerda composta de 3 Pesas de Calibre 6 he comandada pelo Cap.m Jozé Olinto, a da direita composta de 2 Pesas de Calibre 3 pelo Ten. Antonio Soares, as duas Pésas de 3 comandada pelo Ten. Jozé Joaquim da Luz estávam póstadas em hum Corpo de REZERVA que guardáva a Cavalhada, o Inimigo respondeu-nos logo com o seo fogo de Art.a, as suas balas passavam muito altas, mas sempre asertaram com huá bala em hum repáro de huá Pesa' de 6 que chegou apartir o eixo de ferro,  

/ a Cavaleria inimiga atemorizáda pelo nosso fogo amiudado de Art a não se animou a avançar, estáva formada em 2 linhas em numero de mais de dois mil homens, a Infant.ª inimiga formada na frente da Cavaleria em duas fileiras, ecom grande intervallo de hum a outro Soldado desceu a([Coxilha]) coxilha por baixo do fogo de Art.ª, passou huma Sanga, e apareceu-nos pela frente em pequena distancia de onde nos déo huma descárga cerrada,

/ a este mesmo tempo os Lanceiros Charruas carregaram sobre o nosso flanco direito, o Sñr. Marquéz correo p.a este flanco pelo meio das balas, e féz avançár huns cento e cincoenta e tantos Dragoens q.e ja se achavam montados p.a rebater os Charruas, e mandou imediátamente ([mandou]) tocár a dególa fazendo avançar a brava Infant.° de S. Paulo de Baioneta Calada, foi quando vi com muita satisfação estes meos valentes patricios correrem por hum Terreno cheio de pedras que mais parecia voarem do que correr; levando por diante huma poeira a Infant.a Inimiga a bála, e ponta de Baioneta fazendo-lhes fogo mesmo a queima roupa;  

/ NESTA MESMA OCCAZIÃO avançou o brávo, e incomparavel Ten. Coronél Jozé de Abreu com 300 homens pouco mais ou menos q. eram Milicianos de entre Rios, Cavaleria de S. Paulo, Dragoens, Milicianos, e alguas Guerrilhas de Paizanos, e com este punhado de homens Valentes por a Cavaleria Inimiga en vergonhosa fugida perseguindo-os, e fazendo húa grande mortandáde até a distancia de 3 legoas, tomando muitos Cargueiros de munições, e cinco mil e tantos Cavalos:  

/ em quanto o Ten. Cor. Abreu perseguia a Cavaleria, a infant.a de S. Paulo, e os Milicianos do Rio Pardo, e Porto Alegre a pé por não terem tido tempo de pegar Cavalos continuáram hum vivo fogo contra hua grande porção da Infant.' Inimiga q.' se tinha emboscada em hum pequeno matto, fizéram hua resistencia terrivel, mas nada poude vencér ao valor das nossas Tropas, e não tivéram remedio senão depór as Armas huns 239 que ainda vivião, entre estes 6 Officiaes hum dos quais hé Sobrinho de Artigas, e taõbem há hum Inglez.  

/ A força Inimiga era composta de 3200 homens, sendo mil e tantos de Infanta, tinham duas Pésas d'Art.', e mais 400, e tantos homens q.' guardavam a Cavalhada; o Comandante em chéfe éra o Major General Latorre, o Coronel Mondragon o  Comand.' da Cavaleria, e o Coronel Verdum Comandava a Infant.", e Art.° (dizem varios Prizioneiros que Verdum morrera , porem esta noticia ainda não se verificou, e por isso não dou como certa).

/ A nossa forçaera composta de dois mil duzentos e tantos homens, e 11 bocas de  fogo, mas em rigor entrarião na acção 1300, á 1400 homens, ficando os mais guardando as Cavalhadas, Boiadas, e Bagagens: 

/ da relação junta verá V.S. qual foi a nossa perda, hua grande parte dos nossos feridos foram gravemente. e já tem morrido muitos: a pérda do inimigo foi concideravel, contam-se em pequena distancia 468 mortos incluzos muitos Officiaes, e não se contáram os que ficaram estivados por esse Campo até a distancia de 3 legoas; ficaram Prizioneiros 239 incluzos 6 Officiaes, (dos Prizioneiros já tem morridos hua grande parte dos feridos) tem-se aprezentado até hoje vinte e tantos, tomámos a sua Art.^ que erão duas Pésas de Calibre 4, huá Carreta com muitas munições de Infant.", e Art.a, muitos cargueiros com munições, 5000 e tantos Caválos, hum Estandarte, caixas de Guerra, Instrumentos de Muzica, e muito Armamento, póde-se avaliar por hum Calculo bem aproximado que a perda do inimigo entre mortos, Prizioneiros, e aprezentádo excéde a mil homens:  

[4/1 – 1145H] / o fogo durou até as ([  ...]) onze hóras e tres quartos da manhaã. O Sñr. Marquéz corréo depois por todas as fileiras dando mil agradecimentos a toda a Trópa, que assim mesmo fatigada, e muitos lavádos em Sangue das feridas que tinham recebido gritávam com grande corágem, que estávam prontos para principiar já outro Combate, então o Sñr. Marquéz dava mil vivas a Sua Magestade, que eram mutuamente correspondidos por toda a Tropa, e todo se finalizou com huá Salva Real de 21 tiros de Art.'  

[4/1 – TARDE] / A tarde o Sñr. Marquéz assitio ao Funeral dos nossos Officiaes mortos, e foram Carregados pelo Sñr. Marquéz, Sñr. Ten. General Curado, Brigadeiros, Estado  maior de S. Ex.' &. &.  



[4-5/1] / Demorámonos no Campo da Acção o dia 4, e 5 occupados em enterrar os nossos mortos, e Curár os feridos, a Snr.a Marqueza ten zelado dos doentes com  muita Caridáde,  desfiando panos com Suaspropias maós p.a se curarem as  feridas:  

[6/1] / no dia 6 avançamos 3 legoas p.^ baixo do mesmo Arroio Catalam p.a fugir da podridão q.'  já inficionáva o Campo, e aqui nos conservamos sem por ora saber de nosso destino sobre a márcha:  

[8/1] / os nossos Bombeiros chégaram hoje, e dizem que a reunião dos dispersos hé na Purificação, e consta que Artiguinh  já passou o Vruguay p.' este lado em Yapejú, e que se reunio a Artigas com 1500  homens; eu estou persuadido q.' os homens se reunen com grande força e que bréve teremos outro divertimento, tão bem estou persuadido q.' Artigas não nos aparéce agora com menos de 5000 homens, o que póde conseguir com a junção de Outorguez, e háó de continuar a aparecer-nos em quanto restar a Artigas hum unico homen.  

/ Esqueceo-me referir que o Inimigo ja nos tinha tomado na nossa retaguarda treze Carretas de Vivandeiros que vinham com huá marcha de differença da nossa, e eram o Mulato Romúaldo, e o Jozé Cabeça, mas todas foram restauradas no dia da acção, e felizmente todos os Vivandeiros q.' elles conservávam Prizioneiros, e não tivéram tempo de mattár hum só.

/ O meo Camarada, ([.......]) e amigo Majór Rozário [António José do Rosário, Inf LTL] cahio morto, ao meo ládo esquerdo logo das primeiras balas do Inimigo, elle cértam.'e nem soube de que morreo, que tão repentina foi a sua morte de huma bála que lhe passou ambas as frontes, logo o mandei Carregar p.a baixo de hum Carro de moniçois, e o mandei cobrir com hum ponxe, 

/ os Capitaens Prestes [José de Paula Prestes, RegDrag], e Córte  Real [Francisco de Borja de Almeida Corte Real, RegDrag], e o Secretario de Dragones [Eleutério Severiano dos Santos Pereira]; o Valente Furriel Moira da Cavalleria de S. Paulo, e o Cadete da mesma Cavaleria filho do Coronél Engenheiro de S. Paulo [Manuel Joaquim Carneiro de Fontoura] morreram todos traspasados de lanças dos Charrúas, e o Ajud.° Marçal foi ferido de cutiládas na cabeça. o Ten. Joaquim Maria baleado em huá coxa, o Cap.m Gaspár ferido em hum pé.  

/ Entre os Prizioneiros achaó-se 3 Portuguezes, hum dos quaes hé da infant.' de S, Paulo dezertado em Maldonado na campanha passada persuado-me q.' o Sñr. Marquéz os mandará arcabuzár: pelo balanço que acabo de dár ao Parque vejo, que a Art.' deo cento e quarenta e quatro tiros, que talvéz fosse a nossa redenção, pois alem do estrágo q.' fez, deo ([alg]) tempo p.' se pegrem os Caválos q.' devião estár pegados antes das 3 horas da manhaá.....  (No  Potreiro  deram-se alem destes 13 tiros de Art.°)  

/ Destribuiram-se onze mil e tantos cartuxos de Espingarda, e sete mil e tantos de Clavina. Aqui tem V. S.' o rezultado das Acçois do dia 3 no Quartel General de Artigas, e do dia 4 ([  ...]) na margem direita do Arroio Catalan, da qual tenho afelicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas bálas tão poucos palmos distantes do meo Corpo, tendo assistido já em huá e já em outra Devizão de Artilheria q.' fizéram hum vivo fogo sobre afrente, flanco esquerdo, e retaguarda:  

/nada sabemos de combinação com os Talaveiras, sabe-se q.e S. Tereza foi retomada por Fructuoso Ribeiro, e Serro Lárgo por Outorguéz.

(...)

Campo da Margem direita de Arroio Catalan 8 de Janeiro de 1817
Ignacio Jozé Vicente da Fonseca

Archivo Artigas, volume 33: pp.14-19