Num conjunto de “documentos sem importância”, como o próprio documento do Arquivo Histórico do Itamaraty é denominado (cota AHI-REE-00944: “Rio da Prata: Documentos sem importância – 16 folhas, 1811-1818”) aparecem 3 folhas de uma "Relação" dada por um tenente Domingos, que tudo indica ser o tenente Domingos José das Neves, dos Esquadrões de Cavalaria Miliciana de Entre Rios [foi promovido a 12 de maio de 1815 de furriel do Regimento de Cavalaria Miliciana do Rio Pardo]*, da breve incursão além Uruguai do brigadeiro Francisco Chagas do Santos, entre 14 de janeiro e 13 de março de 1817, com o objetivo de eliminar a ameaça de uma segunda invasão federal das Missões Orientais.
* fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.
* fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.
Segue-se a transcrição desta relação, com a ortografia modernizada, deixando em aberto algumas pequenas partes que não consegui interpretar devidamente, muito especialmente alguns elementos linguísticos regionalistas, cuja definição exata é difícil de fazer após 200 anos.
Quem o desejar, poderá consultar também o documento diretamente no Projeto Rede da Memória Virtual Brasileira, em URL . [no pdf, páginas 28 e sg.]
Esta peça memorialista encontra-se também no mesmo conjunto de 16 folhas onde está o diário militar do brigadeiro Joaquim de Oliveira Álvares, para o mês de Março de 1817: Leia aqui.
Foto ao topo: Tierra-misionera.JPG in: wikicommons: veja aqui
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Relação do que tem acontecido do outro lado do Uruguai dado pelo Tenente Domingos dos Esquadrões de Entre-Rios
[19.1.1817] Passou-se no passo abaixo da Cruz, primeiramente a partida do tenente Luiz de Carvalho, este foi atacado pelo capitão Vicente [Tiraparé, desertor] com a sua partida, e com pouco fogo fez afastar e pôs o passo franco para a passagem da coluna, a qual passou no mesmo dia, e no seguinte [20.1.1817] avançou ao Povo, estando-se retirando na noite antecedente o Artiguinhas [Andrés Guaçurarý y Artigas, comandante das Missões Ocidentais] com 300 homens achou-se tão somente no Povo dois padres velhos e 3 ou 4 famílias brancas; no outro dia [21.1.1817] fez marchar 300 e tantos homens comandados pelo Capitão [José Maria da] Gama [Lobo] de Granadeiros do Regimento [de Infantaria] da Ilha de Santa Catarina em seguimento do dito Artiguinhas, o qual já não encontrou 6 léguas abaixo de Yapeyú [Japeju, no original], e não encontrando voltaram ao Povo de Yapeyú e depois de o saquearem o arrasaram [a]tacando fogo em tudo o que era coisa em circunferência do mesmo Povo, e retirando[-se] a reunir-se à coluna foram queimados e destruídos todos os arranchamentos que encontraram até onde alcançavam as partidas que exploravam o Campo, matando alguns garruchos que encontravam dispersos pelo Campo; [26.1.1817] depois de incorporadas com a coluna mandou o Brigadeiro [Francisco Chagas dos Santos] arrasar o Povo da Cruz com fogo tendo feito seguir o saque dos ditos dois povos, parte pelo rio, e parte pelas carretas que tinham levado, para o povo de S. Borja, e ele Brigadeiro marchou com a sua coluna pela costa do Uruguai em direitura ao Povo de S. Tomé botando de si partidas bastantemente longe para destruírem todo o edifício que encontrassem o que assim fizeram matando também algum garrucho que disperso topavam.
No dia [31.1.1817] que chegou a S. Tomé se lhe apresentou o capitão comandante do povo D. Julião de tal com meia dúzia de moradores, e este capitão lhe entregou [as] chaves da igreja, e lhe deu notícia de dois caixões de prata que Artiguinhas tinha por ele Julião mandado depositar longe em uma capela [capilha, no original] que havia, e este sendo desde o princípio desta revolução apaixonado pelos portugueses meteu os dois caixões que só ele e dois indios sabiam e se foi em um capão de mato buscar e passar para o Povo de S. Borja aonde se acha em depósito com o saque que veio dos dois povos que só em prata destes 3 povos se avalia de 50 arrobas para cima, 20 e tantos finos, havendo 5 entre estes como o grande de Porto Al.e [Alegre], e daí seguindo-se para baixo gradualmente até o ponto de Campanas, depois de entrado o Brigadeiro no Povo de S. Tomé acampou a coluna dentro do dito Povo, e daí mandou ao tenente Luís Carvalho com uma partida sobre outra de garruchos que lhe deram parte e iam retirando com carreta e animais vacuums e cavalares, os quais o dito tenente encontrou; e depois de os destroçar escapando tal e qual com vida tomou uma carreta e 400 e tais animais mansos cavalares, e 150 e tantas reses mansas, isto e varas de leite e bois mansos, recolhendo-se com isto ao povo [1.2.1817 ?]: daí a 4 dias tornou a ir o dito Carvalho com 120 praças a bater uma partida que se estava juntando na costa do Paraná logo que seguiu a poucos dias encontrou uma partida de 30 garruchos mais ou menos a qual destroçou escapando desta 3 ou 4 com vida; daí seguiu a tomar uma porção de cavalhada que se achava em um rincão, a qual achou juntamente com 300 ou 400 reses mansas; depois seguiu a procurar a partida dos 300 garruchos a qual veio a encontrar o dito Carvalho; este os bateu que logo imediatamente se puseram em fuga e seguindo parte destes se foram refugiar nas Guardas de Corrientes a quem o dito Carvalho pediu que lhos entregassem, e logo assim o fizeram e daí os mandou passar pelas armas ficando as ditas guardas muito amigas do dito Carvalho.
Juntando-se o saque que andou por 2000 e tantos cavalos mandos e mulas mansas, três carretas, duas carregadas de erva de mate, duzentas e tantas vacas mansas, e 150 bois mansos que tudo conduziu ao quartel de S. Tomé, cujo povo foi saqueado e tudo quanto se podia conduzir até de madeiras, e grande número de milheiros de tela se queimou e arrasou e se veio acampar o Brigadeiro com a coluna sobre a margem ocidental do Uruguai em frente ao passo de S. Borja.
A tantos passou o comandante do Povo de S. Nicolau com 30 ou 40 homens ao lado ocidental do Uruguai e arrasando a guarda que aí se achava, a tomaram matando tão somente ou 2 ou 3 da dita guarda, e os mais se puseram em fuga os quais os nossos não seguiram por terem feito o avanço a pé, e depois que passaram os cavalos e montaram forão avançar ao Povo da Conceição sem acharem resistência alguma. Depois com ordem do Brigadeiro Chagas saquearam o Povo e [o] arrasaram; e os outros três povos: S. Maria, Marta e S. Carlos foram saqueados e arrasados a fogo, e tudo que era em circunferência de 6 léguas mais ou menos todo e qualquer edificio que se encontrava se fazia o mesmo.
Os paraguaios [paraguays, no original] logo que souberam que estava a campanha livre de inimigos, passaram duas companhias deles que se achavam sobre a margem ocidental do Paraná e se vieram meter dentro do povo de Candelaria, e logo fizeram um ofício ao Brigadeiro Chagas dando-lhe os parabéns pela sua boa felicidade, a qual muito estimavam. Tendo passado o Brigadeiro a este lado oriental do Uruguai ao povo de S. Borja, se demorou aí seis dias, e neste tempo tinha subido Artiguinhas que se achava no Passo do Rosário com 400 homens, e subindo para riba com a notícia do Carvalho que andava pela costa do Paraná e da destruição dos povos, fez suas proclamas [seus proclamas, no original] fazendo ver aos seus que era necessário juntar-se para punir-se e castigar-se os rebeldes portugueses, e seguindo juntamente pela costa da Miriñay [desmboca no Uruguai, com a foz do Quaraí a leste] logo que chegou na primeira guarda pertencente a Corrientes aí fez passar a uns poucos pelas armas, que o mesmo ia fazer a todas as guardas de cima por terem entregado a sua gente ao Luís Carvalho.
Estas logo que souberam da vinda de Artiguinhas expediram um chasque ao Brigadeiro Chagas pedindo-lhe socorro; este consultando com os seus oficiais assentou em lhe mandar pedir 2000 cavalos para os poder ir socorrer por se achar a pé, cuja resolução não sei o seu resumo, por ter sido isto tratado na véspera da minha saída para este lugar; é o que na realidade sei.
N. B. No encontro da passagem de Luís Carvalho com o Capitão Vicente de Naturais este saiu baleado escapando de morrer por negar fogo a pistola do Tenente Luís Faiada (?) dos nossos Guaranis que este o seguiu pelo meio da rusma (?) dos garruchos a fim só de matar o dito Vicente, porém tendo a infelicidade da pistola lhe negar fogo por causa de um papel que tinha no fogão, dando volta ao seu cavalo meio rodou em um cupí e como estava muito longe da nossa gente e muito no centro da garruchada gritou logo o Vicente que o matassem com as lanças o que puseram em obra, porém o dito Faiada se pôs logo imediatamente a pé com a sua espada na mão e se defendeu das lanças até que chegou socorro da nossa gente, não deixando de ficar ferido de uma lançada na coxa a qual chegou a criar bicho(s) sem este dito tenente Faiada nunca querer dar-se por doente, e foi continuando sempre em todas as diligências que fez o tenente Luís Carvalho; nesta ação tomou-se um morteiro o qual traziam montado em um armão fincado em um cepo, o qual no primeiro tiro que fizeram saltou do dito armão pela boa segurança em que vinha pois era um armão feito por eles.
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Almeida Coelho: Outra memória acerca da campanha
[adicionado ao blogue a 10.5.2026]
«Invasão do território das Missões ocidentais do Uruguai, saque e incêndio das povoações, serviços e ocupações do regimento
[Manuel Joaquim de Almeida Coelho, Regimento de Infantaria de S. Catarina]
Ainda que o nosso território e fronteira de Missões se achava entregue aos cuidados e vigilância do general Chagas, contudo ele era subordinado ao governador e capitão-general, o qual, tendo de fazer seguir a divisão ou exército do general Curado ao seu destino, lembrou-se (e cara foi a lembrança!) da fronteira de Missões que, como ponto afastado e isolado da capital da província, devia ficar seguro e desafrontado dos insurgentes, que se asilavam pelas Missões além do rio Uruguai; e fossem quais fossem os motivos, ordenou ao general Chagas que passasse o rio, hostilizasse e fizesse saquear e arrasar as habitações dos índios e todos os lugares que pudessem servir de guarida aos insurgentes, fazendo passar os habitantes e suas famílias para o nosso lado do rio, bem como os despojos ou espólio.
É preciso recorrermos à história dos povos e dos tempos mais remotos, para encontrarmos exemplos de uma ordem semelhante, cujos efeitos e resultados de sua fiel execução não podiam deixar de ser senão, como foram, bárbaros, desumanos, impolíticos e até anticristãos. A guerra por si mesma é horrorosa e um dos maiores. flagelos da humanidade, ainda que, muitas vezes, ela seja necessária; mas invadir um território estrangeiro, devastar, saquear as povoações inermes, arrasar, reduzir a cinzas os templos e as habitações, forçar os seus habitantes a testemunhar atos de horror e acabamento e a transferirem-se para outros países, é só próprio das nações bárbaras; pois eis aqui o que sucedeu em consequência da ordem do marquês de Alegrete, governador e capitão-general da capitania do Rio Grande do Sul.
Entretanto que Chagas fez aprontar uma divisão de 550 ou mais homens, inclusive um contingente de 250 baionetas do regimento com os oficiais correspondentes e 5 bocas de fogo bem servidas de artilheiros do mesmo corpo, comandadas pelo tenente José de Oliveira Pais Lemos; e no dia 14 de janeiro de 1817 seguiu para o passo da Cruz, no Uruguai (20 léguas ao Sul de S. Borja); ordenando ao mesmo tempo ao comandante da povoação de S. Nicolau (o capitão Elias António de Oliveira) que, reunindo as forças daquela fronteira destacadas pelos diversos lugares da costa, atravessasse o rio para o lado ocidental no passo de Santo Isidro (outras tantas ao norte) hostilizasse e procedesse imediatamente ao saque e destruição das povoações próximas. No dia 17 o general deu princípio à passagem do rio: a 19 ocupou a margem direita e a 20 a missão da Vera Cruz. Antes de concluída a passagem do rio, para a qual muito concorreu o grande e fatigado trabalho da infantaria, o general fê-la marchar aceleradamente em socorro da nossa cavalaria, ao passo de Itaqui, marcha e serviço que ela soube desempenhar, bem como acabava de desempenhar a artilharia. Verificada a passagem e satisfeitos esses tão rápidos como necessários movimentos, seguiu com 300 homens de cavalaria o major José Maria da Gama para a missão de Santos Reis (Yapeyú) e aí procedeu ao saque e destruição da povoação, que se achava deserta, deixando-a reduzida a cinzas. Na exploração da campanha por esses lugares alguns encontros houve da nossa cavalaria com pequenas e dispersas forças de André Artigas, que sempre foram derrotadas com perda de homens, sem que da nossa parte houvera alguma. Concluída a destruição e saque, procedeu-se ao mesmo ato na missão de Vera Cruz , constrangendo-se os seus habitantes a passarem para o lado esquerdo do rio; depois do que, a divisão subiu pela costa ocidental e foi ocupar a missão de S. Tomé o tempo preciso para lhe deixar somente os alicerces. Daí seguiu a cavalaria a explorar a campanha até Loreto e costa do Paraná, hostilizando, saqueando e destruindo a ferro e fogo tudo quanto encontrava. E que atos de horror então se praticaram por esses lugares! Viu-se um tenente do regimento guarani (Luiz Mairá) estrangular mais de uma criança e disso jactar-se; viu-se a imoralidade, o sacrilégio, o roubo, o estupro no seu auge; viu-se, finalmente, a religião católica ofendida por todos os lados.
Não praticava o contrário, ainda que com mais moderação, na destruição, saque e incêndio das povoações, a força de cavalaria que passara em Santo Isidro, para a qual marchou de S. Tomé a coadjuvar nesses trabalhos, com alguma força, o ajudante Manuel José de Melo.
Os índios da fação artiguenha [sic] ou insurgentes com seus chefes que existiam por esses lugares (entre os rios Paraná e Uruguai) ou fora pelos revezes sofridos no ano de 1816, ou pela notícia da batalha de Catalán, que teve lugar no dia 4 de Janeiro de 1817, na qual foram derrotadas completamente ao tropas de Artigas, parece que, desacoroçoados, fugiram para longe, abandonando à discrição dos invasores todo o território das Missões, permitindo-lhes uma plena liberdade de reduzirem a cinzas o seu país e conduzirem suas famílias e bens para este lado do rio.
Concluídos esses trabalhos, todas as forças invasoras se recolheram a este lado de Uruguai, repassando-o pelos pontos mais convenientes.
Os despojos, como sinos, ornamentos das igrejas e vários objetos, foi tudo conduzido para São Borja. A prata (e ornamentos mais ricos) foi encaixotada e remetida para Porto Alegre (65 arrobas) e daí constou que fora para o Rio de Janeiro, onde tivera o destino que costuma ter, em toda a parte do mundo habitado, tudo quanto não custou a ganhar.
A infantaria de Santa Catarina, quer ocupada no serviço de artilharia quer não, viu-se em crescidos trabalhos por tão longínquas e incómodas paragens para transportar esses objetos, ora por terra, ora pelo rio, no rigor de uma estação abrasadora, e muitos adoeceram. O cadete José Joaquim de Almeida, foi um deles que, recolhendo-se a S. Borja, acometido de uma febre maligna, cobrindo-se-lhe o corpo de grandes chagas, achou-se (e viu muita gente) esse intrépido, deitado no chão, sobre um couro sendo o seu sustento, alguns dias, bofes de rês, cozidos sem sal, nem outro algum adjunto; contudo a sua resignação e coragem venceram tantos males, como para conservação de uma vida tão necessária no teatro da guerra.
Entretanto que essa infantaria se portou com muita honra na destruição e saque, ou nesses atos próprios das nações bárbaras, não constando que um só indivíduo manchasse as suas mãos, nem profanasse sem grande repugnância esses templos majestosos, eretos com tantos suores e fadigas para reconcentração dos sacrifícios, louvores e cânticos ao Eterno, e que tanto honravam a memória dos seus fundadores. Em S. Borja permanecia a falta de recursos e iam adoecendo os oficiais mais aptos, inferiores e soldados; o hospital ia-se amontoando de enfermos e a pobreza, para com alguns, tocando a sua meta.
De muito foi devedor o regimento ao seu prestimoso e inteligente ajudante de cirurgia Tomás Silveira de Sousa; muitos a vida aos seus desvelos e cuidados; para ele apelavam os infelizes doentes e nele achavam alívio aos seus padecimentos.»
Fontes
- ALMEIDA COELHO, Manuel J., “Memoria Historica do extincto regimento de infantaria de linha da provincia de Santa Catharina, ou informações dos seus serviços mais notáveis e dos motivos e logares onde os prestou, escripta na cidade do Desterro em dias do natal do anno de 1850”, in: Almanak Literário e Estatístico do Rio Grande do Sul (Alfredo Ferreira Rodrigues, org.), 21.º Ano, 1909, Ed. Pinto e Cia., Pelotas-Rio Grande-Porto Alegre.
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