sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Entrada em Montevidéu, 20 de Janeiro de 1817


Ao romper do dia 20 de Janeiro de 1817, pelas seis horas, toda a Divisão de Voluntários Reais assim como algumas tropas do Exército do Brasil formaram para que os seus comandantes lhes passassem as competentes revistas. 
Desde a tarde do dia anterior que esperavam no Saladero del Seco, 9 km a oeste da praça, logo após o seu general em chefe, Carlos Frederico Lecor, ter acertado os termos de rendição com emissários do Cabildo que se apresentaram em Pando. 

Após quase 6 meses de marchas e acampamentos, desde a ilha de Santa Catarina, a mais de 1000 quilómetros de distância, até este momento, todos usam os melhores uniformes, no maior garbo e asseio, e todos se preparavam para cumprir o maior objetivo de toda a campanha, Montevidéu, aquilo que os trouxe à América.


Cerimonial de entrega da praça

Carlos Frederico Lecor
Às nove horas da manhã, toda a Divisão de Voluntários Reais e demais forças, do exército do Brasil (vide ‘Ordem de Batalha’ em baixo), se perfilam perante as muralhas, junto à Porta Norte, a entrada principal da cidade. Por essa mesma altura, os membros do Cabildo, o conselho municipal, Juan de Medina, Felipe Garcia, Agustin Estrada, Lorenzo J. Perez e Jerónimo Pio Bianqui, e demais corporações da cidade, entre muito povo curioso, encaminham-se para a porta norte da cidade, onde encontram o general português.  O pintor uruguaio Gilberto Bellini captura esse momento, mostrando a pompa e circunstância, pese embora ser obra feita 100 anos depois dos acontecimentos.

Solenemente, Lecor perguntou se o Cabildo tinha algo a expor antes que ele entrasse na praça. Apresentou-se o síndico procurador geral, Jerónimo Pio Bianqui, em nome de todos, defendendo a necessidade de sufocar a “exaltación de las passiones” e acabar com os insultos que foram feitos pelos revolucionários à cidade. De acordo com Francisco Bauzá, Lecor respondeu que “estaba muy bien” e que iria levar essas preocupações a sua Majestade Fidelíssima.
Logo em seguida, Bianqui fez a entrega das chaves da cidade, pedindo que, sendo necessário, as retorne apenas e só ao Cabildo, que é quem as entrega:

El Exmo. Cabildo de esta Ciudad por medio de su Sindico Procurador General hace entrega de las llaves de esta Plaza á S. M. F. (que Dios guarde) depositandolas com satisfacion y placer, en manos de V. E. suplicandole sumisamente tenga la vondad de hacerle el gusto que en qualquier caso ó ebento que se vea en la necessidad de ebaquarla no las entriegue á ninguna otra autoridade ni potencia, que no sea el mismo Cabildo[...]

Bianqui conclui, indicando que o Cabildo espera que “un General que ha mostrada tanta generosidad á todos los Pueblos del tránsito [...] no se negará consederle esta suplica”. Bianqui foi, como veremos, na segunda parte desta postagem, uma figura fundamental na gestão dos acontecimentos. Tendo Barreiro retirado com os 800 homens da guarnição na noite de 18 para Paso del Cuello, a norte de Canelones, é ele que faz o Cabildo agir, na manhã de 19, da única forma que pode, a rendição, pedindo o razoável aos portugueses. Não há tropas, mas a cidade permanece, o comércio e a navegação devem continuar.

Sob o Pálio

Igreja Matriz (hoje Catedral Metropolotina)
Entregues as chaves e feitos os cumprimentos, os maiores da cidade guiaram o general Lecor, “en la forma acostumbrada”, debaixo do pálio, entre vivas e aclamações entusiásticas, à Igreja Matriz onde foi entoado um solene Te Deum. Após a cerimónia religiosa, a comitiva deslocou-se às Casas Capitulares, onde o Cabildo estava sediado, e onde Lecor tomou a posse da cidade.
O memorialista Lobo Barreto, então tenente de caçadores, reflete sobre a natureza dos vivas que eram dados a Lecor e a D. João VI, principalmente por parte dos espanhóis europeus:

[...] um regozijo extraordinario se mostrou em toda a Povoação, e muito principalmente nos Hespanhoes Europêos, que se persuadião que estas tropas de acordo com o gabinete de Madrid ião revendicar os direitos do seo Rei, e livrando-os da perseguição dos filhos do paiz, proteger as vinganças e caprichos dos seos primeiros colonos; do que bem breve se desenganarão [...].

Versão a cores da obra de Gilberto Bellini

Segundo Francisco Bauzá, não houve apenas vivas, tendo as autoridades alguma dificuldade em conter alguns “morram os traidores, os portugueses e os aportuguesados” que se ouviam. Segundo este autor, descendente de Rufino Bauzá, apoiante de Artigas e protagonista oriental dos dias anteriores, houve algumas agressões pessoais e o falatório de outras mais generalizadas para o futuro. De facto, e apesar das derrotas que os orientais sofrem em India Muerta e Catalán, a Banda Oriental está longe de estar controlada e a Liga de los Pueblos Livres, de Artigas, está ainda longe de submetida.

O Pavilhão Portuguez

Após todas estas cerimónias, as tropas portuguesas desfilaram ainda pelas ruas principais da cidade, exibindo o seu garbo marcial e os seus uniformes castanhos distintos, que tanto tinham impressionado em Lisboa e no Rio de Janeiro. Como último ato do dia, içou-se a bandeira portuguesa na cidadela, ao que se seguiram salvas e repique de sinos. 
Lobo Barreto informa-nos que, com a exceção da Coluna da Vanguarda que ficou aquartelada na cidadela, todas as forças portuguesas se foram postar a cerca de 5 kms das muralhas, montando postos avançados. Montevidéu pode ter sido tomada, mas a Banda Oriental está longe de ser dominada.

Continua (em breve):
- Parte II – Antecedentes: Aproximação da Divisão à cidade e negociação, a 19 de janeiro; retirada de MiguelBarreiro, Joaquin Suárez e guarnição a 18 de janeiro. Marcha de Lecor desde Pan de Azúcar, de onde parte no dia 15 de janeiro.

* * *

Ordem de ‘Batalha’
(de acordo com DUARTE: 1984)

Divisão de Voluntários Reais
1.ª Brigada de Infantaria:
- 1.º Regimento de Infantaria ... 1,040
- 1.º Batalhão de Caçadores ... 712
2.ª Brigada de Infantaria:
- 2.º Regimento de Infantaria ... 1,076
- 2.º Batalhão de Caçadores ... 615
Cavalaria ... 756
Artilharia ... 233
(Total de 4,432 efectivos)

Unidades Brasileiras
Batalhão de Infantaria do Rio Grande ... 220
Esquadrão de Cavalaria do Rio Grande ... 113
2 Esquadrões da Legião de São Paulo ... 54
2 Esquadrões da Milícia do Rio Grande ... 196
Companhia de Artilharia a Cavalo ... 62
Guerrilhas do Rio Grande ... 17
(Total de 662 efectivos)

Grande total de 5,094 efectivos

* * *

Extrato das memórias de João da Cunha Lobo Barreto

[…]

ENTRADA NA PRAÇA DE MONTEVIDÉO
No dia 20 de Janeiro ao romper do sol se formarão todos os Corpos no maior asseio possivel afim dos seos respectivos Commandantes lhes passarem as competentes revistas, e depois de reunida toda a columna nos posemos em marcha para a dita Praça, onde entramos ás 9 horas da manhã do mesmo dia; um regozijo extraordinario se mostrou em toda a Povoação, e muito principalmente nos Hespanhoes Europêos, que se persuadião que estas tropas de acordo com o gabinete de Madrid ião revendicar os direitos do seo Rei, e livrando-os da perseguição dos filhos do paiz, proteger as vinganças e caprichos dos seos primeiros colonos; do que bem breve se desenganarão como logo diremos. O General em Chefe foi recebido pelo Cabildo (Senado da Camara) debaixo do Palio, assim conduzido á Matriz, aonde se entoou Te-Deum; depois as tropas percorrerão algumas ruas do centro da cidade; e á excepção da columna da vanguarda que se aquartelou na Cidadella, forão formar uma linha a uma legoa da cidade, cobrindo os seos suburbios todos com postos avançados. O General Pinto foi nomeado Governador da Praça, e o corpo de vanguarda desfeito no outro dia.
No dia seguinte se arvorou na Cidadella, e mais fortes da praça o Pavilhão Portuguez; a cuja vista os Hespabhoes ali residentes murmurarão, e desde logo supposerão que a usurpação daquelle territorio é que ali nos tinha levado; os filhos do paiz, que até então gemião sobre o tirano jugo de José Artigas, uns porque tinhão sido por elle perseguidos, e outros querendo figurar na ordem das cousas, ou tirar vantagem della; o caso é, que se mostravão muito satisfeitos, ou ao menos assim o apparentavão, rendendo seos respeitos ao General em Chefe, que a todos habitantes acolhia com summa consideração e affabilidade, conservando todas as authoridades que se achavão constituidas, e preferindo para os empregos que se hião creando os Americanos, aos Europêos, de cuja politica estes muito se ressentião, porem mais escandalisados dos filhos do paiz, antes querião soffrer semelhante humilhação, do que de novo lhes serem sugeitos, visto que seo desenfreamento, lingoagem, e regozijo, no acto da nossa entrada, mais tinha incitado a aquelles, que de certo lhe tomarião novas e restrictas contas se as nossas tropas de ali levantassem.

* * *

Fontes
- BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in:Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.
- BAUZA, Francisco, História de la Dominación Española en el Uruguay (tomo VI), Col. Clásicos Uruguayos, Ministério de Instrucción Pública: Montevideo, 1965. 444 pp.
- DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 ( 3 v.), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.
- ARCHIVO ARTIGAS, tomo XXII

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Antecedentes à Tomada de Montevidéu: 15 a 19 de Janeiro de 1817


Por altura das acções de Arapeí e Catalán, nos primeiros dias do ano, o tenente general Carlos Frederico Lecor e o grosso da Divisão de Voluntários Reais, com a excepção dos cerca de 400 efetivos destacados na coluna do Centro, estavam acampados em San Carlos e Maldonado, na extrema esquerda da linha que se extende das Missões, pela fronteira e terminando no Atlântico. Já há 3 semanas (após a ação de Sauce) que ali permaneciam. A paragem da DVR nesta área, na margem esquerda do arroio de Sauce, deveu-se fundamentalmente à junção com a Marinha e a concentração de forças para a aproximação a Montevidéu, apenas a 140 quilómetros.
Concertado com Lecor, desde o início de janeiro que a divisão naval ligeira do capitão de mar e guerra Conde de Viana, D. João Manoel de Meneses, bloqueava Montevidéu, desde a fragata Calipso. 

Os Muros de Montevidéu
A 5 de janeiro, um dia depois da derrota em Catalán, José Artigas escreve a Miguel Barreiro recomendando o abandono da praça e a a destruição dos muros. Artigas tinha recebido nesse dia informações da batalha por dispersos. Uma ordem semelhante já havia sido dada em dezembro, tendo dias depois determinado que seriam Barreiro e o Cabildo a decidir. Estes eram contra então como agora.

Esta mesma questão já se tinha posto em dezembro, quando Barreiro desabafando por carta a Frutoso Rivera, informa que Artigas havia dado a ordem de destruição dos muros para que não aproveitassem aos portugueses, tendo enviado depois uma contra ordem para que fosse o Cabildo a decidir, sendo que o Cabildo decidiu pela não destruição seja o que for na praça.


Pan de Azúcar e a Estrada de Montevidéu
Logo após a reunião com a Coluna do Centro, sob o comando do brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto, a 15 de janeiro em Pan de Azúcar, que tratamos noutra postagem, o general Lecor decide avançar com todas as suas forças sobre Montevidéu.

“(...) marchei de S. Carlos no dia 14, tendo dado ordem ao Exc. Conde de Vianna Commandante da Esquadra de Sua Magestade para hir com os Navios effectuar o desembarque da Artilharia grossa; o Trem do Sitio na Praia de Busseu, e estreitar o Bloqueo do porto de Monte Video; e feito previamente hum movimento da Collunna do Commando do Brigadeiro Silveira de Minnas para o Pam de Assucar, pude illudir o Innimigo com esta marcha a respeito do avançamento das outras tres Collunnas do Commando dos Generaes - Pinto, Aviles, e Pizarro, com as quaes cheguei no dia 15 ao Campo do Pam de Assucar, e logo com todas as Forças reunidas [continuei] a avançar, avistando algumas pequenas Partidas Innimigas, que apennas fizeraõ hum ligeiro tiroteio com as minhas avançadas em alguns Pontos, retirando se sempre sobre as Troppas de Fructuoso Ribeiro.” (Carlos Frederico Lecor ao Marquês de Aguiar, 27/1)

Solis Chico
Segundo Tomás Burgueño, bombeiro oriental que informava regularmente Montevidéu, às 10 horas de 17 de janeiro, as avançadas portuguesas atingiam já o arroio de Solis Chico, a 50 quilómetros da capital.

“Por esta, participo á V E q.e el exercito enemigo todo reunido pasa en marcha p.a montev.e todo reunido pues las abansadas llegan lla á Solis Chico pues Yo no me separo un quarto de legua de la vista de ellos y otras veses á tiro de fucil p.' benir observando los movimientos de ellos.” (Tomás Burgueño a Miguel Barreiro, 17/1)

Burgueño, possivelmente tenente, à altura, documenta com zelo os movimentos do inimigo para o delegado Miguel Barreiro, que tem assim a noção exata da localização do inimigo português. As forças orientais pouco mais podiam fazer, tendo em vista as forças enormes que se aproximavam, próximas dos 4 mil homens, entre a DVR e várias unidades do Exército do Brasil.

No dia seguinte, 18, o grosso das forças portuguesas chega, segundo o Contemporâneo Oriental (1830), que muitos propõem seja o próprio Frutuoso Rivera, a um local chamado Chacarita de Los Padres, que não consigo localizar hoje, mas que seria próximo do arroio de Los Padres, entre Soca a Embalse Olmos atuais.

Evacuação de Montevidéu
Nessa noite, o delegado Miguel Barreiro decide evacuar a praça de Montevidéu. A guarnição, de cerca de 800 efetivos, era constituída por um batalha de infantaria de Libertos, comandado por Rufino Bauzá e a Artilharia de guarnição, comandanda por Bonifacio Ramos, portenho de Buenos Aires. Com estes, muitos civis patriotas sairam também da cidade, como Joaquin Suárez (na imagem) e Santiago Serra. Tomavam a direção de Canelones e o Paso do Cuello, mais a norte.


* * *

Arroio de Pando (Wikicomons)

Entre os arroios de Pando e Manga
A 19 de Dezembro, os portugueses já haviam passado Pando e estavam já a duas léguas portuguesas e meia da capital da banda Oriental (cerca de 15 km) quando recebem, por volta das dez horas da manhã, Agustin Estrada e o padre Dámaso Antonio Larrañaga, em representação do Cabildo da cidade, para anunciar a retirada da guarnição federal e negociar a entrega da cidade.

“(...) a duas legoas e meia de Monte Video se me apresentou huma Deputaçaõ do Cabildo daquella Cidade informando-me = que Barreiro Dellegado de Artigas evacuando a Praça no dia 18 tinha devolvido o Governo ao Cabildo, de quem os Diputados apresentaraõ-me o officio, que tenho a honra de trasmittir a V. Exca e trataraõ das condicoés com que se me offerecia tomar posse das Fortalezas e Cidade”. (Carlos Frederico Lecor ao Marquês de Aguiar, 27/1)
A primeira reunião do Cabildo
P. Damaso Antonio Larrañaga
Antes nesse mesmo dia,  o Cabildo havia reunido com Juan de Medina, Alcaide de 2.º voto, que presidiu a reunião em substituição de Juan José Duran, ausente em Buenos Aires), Felipe Garcia, Agustin Estrada, Lorenzo J. Perez e o procurador Jeronimo Pio Bianqui. Ausente também em comissão em Buenos Aires, estava Juan F. Giró.

Ao contrário de Durán e Giró, que voltariam e aceitariam também a decisão do Cabildo, Joaquim Suárez, número dois de Miguel Barreiro,  e Santiago Serra, capitão do porto, haviam retirado com Miguel Barreiro e a guarnição.

De facto, Montevidéu quedava sem guarnição militar federal e as autoridades civis retiraram daí a sua conclusão, a única ação possível: a entrega das chaves da cidade, pedindo as condições mais favoráveis para o vecindário e o comércio.
Na primeira reunião, é o procurador geral síndico Jeronimo Pío Bianqui que toma a iniciativa, apresentando a moção para a entrega da cidade e renega a autoridade da Liga Federal e de José Artigas:

Jeronimo Pio Vianqui que tomando la palavra hizo mosion Sobre que medios devian adoptarse despues del avandono hecho dela fuerza armada que oprimia al Vecindario, representando los deseos por la paz y tranquilidad que havian sido constantemente manifestado por el Pueblo, q.e hasta ahora se vio forzado á sofocarlos y de consiguiente livres de aquella opresion se hallaban en el caso de declarar y demostrar publicamente si la violencia havía sido el motivo de Tolerar y ovedecer á Artigas.  

Após discussão, os capitulares decidem por unanimidade enviar uma carta ao tenente general Lecor, a entregar pelos dois mensageiros que haviam chegado ao campo:

"Ilustrísimo y Exmo Sor, el Cavildo de esta Ciudad de Montevideo acava de reasumir la autoridad politica y militar en ella desde que las tropas de su guarnicion la desampararon marchando á otros destinos. La municipalidad pues se halla á la Caveza de un Pueblo pacifico y absolutamen.te tranquilo que lejos de defenderse con el uzo de la fuerza, solo desea se avrebien los momentos de verse resguardado y seguro bajo la protexcion de las Armas Portuguezas, Al efecto dirije el Cavildo á V.E. la presente Diputacion premunida de amplios poderes paraque acordando con V.E. la forma y modo con q.e deve ocupar esta Plaza, y ratificadas las condiciones por esta Municipalidad pase V.E. á ocuparla con la fuerza de su man do p. satisfaccion comun. Aunque el Cavildo no ha sido enterado oficialmen.te dela intimacion hecha al ([Montevideo]) Govierno sobre el motivo de la Guerra há llegado no obstante á sus oidos q.e el obgeto de S. M. F. se reducia al restablecimiento del orden Publico para seguridad de sus fronteras, y que por lo demas garantia la seguridad individual de todos los avitantes de esta Provincia, el pleno goze de sus propiedades y poseciones rurales y hurbanas su[s]establecimientos Cientificos laudables usos y costumbres. Si á este veneficio se agregase el de livertar de contrivuciones á un Vecindario empobrecido y exauto, consideraría esta Ciudad (colmada su fortuna) ala sombra de tan alto protector. Tales podran ser las bases de las favorables condiciones que espera esta pacifica Ciudad se le dispensen. [...]”

Com a mesma mensagem e propósito, o Cabildo envia também uma delegação ao capitão de mar e guerra Conde Viana, D. João Manuel  de  Meneses, que comandava as forças navais sitiantes, formada por Jeronimo  Pio  Bianqui  y  o vizinho Francisco Xavier de Viana.

Uma Pequena Coluna
Na ocasião em que Larrañaga e Estrada se encontravam com Lecor, topou-se ao longe a noroeste uma pequena coluna, possivelmente retardatário da evacuação que havia começado na noite anterior.

Nesta mesma occasião se vio sobre a estrada de Cameloens [Canelones] uma pequena columna; era a guarnição da praça commandada por Barreiros [Miguel Barreiro], Delegado do General Artigas, que se retirava na direcção d’aquelle povo. O General em Chefe por mais instigado que fosse pelo General Pinto, não consentio que se perseguisse este pequeno Corpo, que de certo ficaria prisioneiro, visto ter [sic] quase todo de infantaria; e bem assim cahiria em nosso poder uma grande porção de carretas, que escoltava. Não faltou quem murmurasse da apathia com que o General em Chefe se mostrou n’esta occasião; e nos consta, que o General Silveira, e o Coronel Saldanha (os melhores officiaes da Divisão) também não levarão a bem este comportamento. 

O tenente Lobo Barreto, que elogia quase sempre Lecor, critica-o aqui com recurso à opinião dos melhores oficiais da DVR, questionando o seu espírito de iniciativa.

Até que ponto seria benéfico para Lecor ordenar um ataque à coluna de Barreiro na estrada para Canelones, não sabendo que outras tropas orientais poderiam estar nas proximidades, ao mesmo tempo em que a cidade de Montevidéu lhe pergunta os termos da sua rendição, através de Estrada e Larrañaga? A questão do general político ou do político general coloca-se de novo, apesar das acusações de falta de iniciativa serem uma constante ao longo dos anos entre muitos dos seus subordinados, inclusive os que apreciavam Lecor.

O então coronel Saldanha reflete meses depois sobre a falta de actividade e vigor do general:

[...] «não tem a actividade e o vigor que necessita um comandante em chefe, e por isso as nossas operações hão-de ser sempre lentas e pouco brilhantes e sabe Deus qual será o resultado.» (Carta de 28.11.1817, Saldanha ao irmão – Sacramento,em Belisário Pimenta)


A Segunda Reunião do Cabildo
Os emissários Estrada e Larrañaga, a Lecor, e Bianqui e Viana, ao Conde de Viana, retornaram e numa segunda reunião do Cabildo, provavelmente ao início da tarde, leu-se a proclamação que Lecor havia endereçado ao povo oriental, e novas condições que pretendiam manter o Cabildo e demais autoridades, assim como toda a normalidade no comércio e na indústria, principalmente charqueadas (como se dizia no Rio Grande) ou saladeros, de seca de carne, a maior exportação oriental.

-- CarlosFederico Le-cor Teniente General de los Exercitos de Su Magestad Fidelisima General en Gefe delas Tropas destinadas ala pasificacion dela margen isquierda ([hasta]) del Rio dela Plata, Comendador de las ordenes de S.  Bento de Aviz y dela Torre y Espada  &  &  &  -=  Pueblos de la  margen isquierda  del  Rio  dela  Plata  =  /  Los  repetidos  insultos  q.e  el caudillo  Artigas  ha  hecho  álos  havitantes  pasificos  de  buestro pais  y  álos  del  Rio  Grande;  la  prohivicion  absoluta  de  comunicaciones  entre  huesitos  Paysanos  y  los  Portugueses dela  frontera;  y  ultimamente  la  disposicion  obstil  en  q.e colocó  sus  Tropas  dirigiendolas  alas  imediaciones  del  Rio Pardo  son  hechos  muy  publicos,  y  mas  q.e  suficientes  para probar  las  intenciones  de  aquel  caudillo,  p."  demostrar  con ebidencia,  q.e  (ni)  entre  vosotros  puede  haver  estabilidad de  Govierno,  ni  seguridad  en  los  dominios  Portugueses mientras  el  os  oprima.  Vn  caudillo  q.°  apropiandose  buestra fuerza  armada  os  arrastro  con  ella  á  seguir  sus  opiniones: un  Caudillo  cuyo  comportamiento  ha  sido  hostil,  y equiboco,  menos  enlo  q.e  toca  á  sus  intereses  particulares, no  puede  hacer  la  fortuna  de  buestro  Paiz,  ni  huesitos  vecinos  pueden  fiarse  en  sus  relaciones  politicas.  Terminemos  pues,  havitantes  de  la  Provincia  de  Montevideo  un  estado de  insertidumbre  q.e  arruina  buestro  paiz  y  inquieta  la  frontera del  Reyno  del  Brasil.  Para  ebitar  tantos  males  soy  yo  mandado  por  mi  Soberano  con  las  Tropas  q .e  veis  /  y  otras  q.`  las siguen.  Ellas  empero  no  marchan  á  conquistaros,  ni  arruinar buestras  propiedades;  bien  al  contrario  su  unico  objeto  es  el de  sugetar  al  enemigo,  libraros  dela  opresion  restableser buestra  tranquilidad,  abolir  las  contribuciones extrahordinarias  q.'  se  os  huvieren  impuesto,  y  tratar  atodos con  blandura,  á  esepsion  solamente  de  aquellos  que  os  Acen perturbar de aqui adelante el sociego publico, Havitantes  q.°  amais  los  intereses  de  buestro  paiz!  Permaneced  tranquilos  en  buestras  casas.  Confiad  enlas  promesas  q  .e  os  hago  en  nombre  de  mi  Soberano;  el  me  constituye Gefe de un Govierno interino en esta provincia; y yo protesto por  el  honor  de  un  antiguo  Oficial,  y  de  vasallo  fiel,  q.e  boy  á cumplir  escrupulosamente  las  ordenes  q.`  resibi  del  mismo  augusto  Señor,  y  q.e  todas  se  dirigen  á  buestra  felicidad.-  Carlos Federico  Le-cor  Comandante  en  Gefe

Que amas de esto apropuesta de los Señores diputados combenia en q.e permaneciese el establecim.to del cuerpo Capitular, q.e aquellos oficiales q.e se le presentasen a su entrada en la Plaza serian atendidos; exponiendo aserca dela  conserbacion de leyes usos costumbres y libertad del comercio q.e las ideas, de S.M.F. eran las mas liberales y beneficas á faboreser estos Pueblos, q.e esperaba de los generosos sentimientos de su soberano, q.e se le guardarian todos los fueros, excencions  y  privilegios;  y q.e desde luego ibamos á gosar de la misma libertad de Comercio con todos los Pueblos, q.e la q.e disfrutaban sus vasallos del Brasil: q.e se trataria y acordaria algunas otras disposiciones q.e se jusgasen utiles al mejor bien y combeniencia del Pueblos, baxo cuya garantia acordo este Ayuntam.to

O Cabildo aprova a comunicação e as condições do comandante português e decide fazer a entrega formal da praça no dia seguinte:

Que  correspondiendo  los  deseos  de  aquel  augusto  soberano á los votos publicos baxo la seguridad q.` el mismo Iltmo y  Exmo  S-ir  General  havia  ofresido,  se  determinase  la  entrega de  esta  Ciudad  y  se  admitiese  la  p(r)oteccion  q.e  la  bondad  de S.M.F.  ofresia  por  medio  del  expresado  Iltmo  y  Exmo  Sór General  Don  Carlos  Federico  Le-cor  á  estos  miserables paises  desolados  por  la  anarquia  en  q.e  han  sido enbueltos  en  espacio  de  tres  años.  En  esta  virtud  acordó  S.E. la forma en q .e devia resibirse en el dia inmediato, y siguiendo el  seremonial  acostumbrado  p.'  los  Señores  Capitanes  Generales  de  Provincia  combinieron  en  q.°  saliese  el  Ayuntamiento en  Cuerpo  con  los  demas  Tribunales  hasta  la  puerta  dela  Ciudad  donde  haciendo  entrega  delas  llaves  el  Caballero  Sindico Procurador  General  de  Ciudad  al  expresado  Iltmo  y  Exmo  Sór General  sele  condujese  baxo  de Palio  ala  Iglecia  Matriz,  donde se entonase un solemne Tedeun, y se diesen gracias al todo Poderoso  por  los  veneficios  q.`  su  infinita  misericordia  se  dignaba  dispensarnos

Saladero del Seco
É Lobo Barreto que nos informa que as tropas portuguesas ficam em Pando até à noite, em que recebem a acta da segunda reunião, e demais informação sobre a entrega formal da cidade. Depois vão para o Saladero del Seco, uma charqueada, mais a sul, próxima da praia de Buceo, onde a artilharia pesada foi desembarcada.

Depois de nos demorarmos neste ponto até quase á noite nos encaminhamos para o Saladeiro do Secco (a trez quartos de legoa da Praça) e ali acampamos com ordem de nos prepararmos a fazer nossa entrada em Montevidéo. (João da Cunha Lobo Barreto, p.12)

No dia seguinte, Lecor tomou posse da cidade de Montevidéu e tornou-se capitão general da Banda Oriental, em nome de sua Majestade Fidelíssima D. João VI.


* * *


Biografias

Fontes
- BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in:Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.
- BAUZA, Francisco, História de la Dominación Española en el Uruguay (tomo VI), Col. Clásicos Uruguayos, Ministério de Instrucción Pública: Montevideo, 1965. 444 pp.
- DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 ( 3 v.), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.
- LAMAS, Andrés, Coleccion de Memorias y Documentos para la Historia e la Jeografia de los Pueblos del Rio de la Plata, Tomo I, Montevideo, 1859.
- ARCHIVO ARTIGAS, tomo XXII

Imagens
- Cabildo de Montevideo, Uruguai, File:CabildoMontevideo1.jpg in: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:CabildoMontevideo1.jpg
- Arroio de Pando, File:Arroyo Pando at Pando.jpg in: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Arroyo_Pando_at_Pando.jpg

sábado, 14 de janeiro de 2017

Reunião: Pan de Azúcar, 15 de Janeiro de 1817


A 15 de Janeiro de 1817, toda a Divisão de Voluntários Reais se reúne finalmente em Pan de Azúcar, a 90 quilómetros de Montevidéu, sob o comando do tenente general Carlos Frederico Lecor. O general em chefe chega à povoação nesse dia, vindo de San Carlos. 

A coluna do Centro, comandada pelo brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto, já lá estava desde o dia 13. Havia marchado, forte de 950 homens, pelo interior desde Melo, no Cerro Largo, permanentemente acossado pela divisão de Frutoso Rivera, especialmente em Cassupá, nos últimos dez dias de 1816, e no passo do arroio Santa Lucia, à entrada de vila de Minas. Silveira teve grandes dificuldades durante a marcha em comunicar com Lecor, à sua esquerda, o que permitiu a Rivera assediá-lo quase permanentemente, enquanto Silveira marcava passo, procurando ligar-se de novo, enquanto cumpria o seu papel de coluna flanqueadora, atraindo sobre si a atenção de Rivera e Otorgués, este último já lhes tendo cortado a retaguarda, como veremos.

Conforme já indicámos em postagens anteriores, Rivera estava a empregar táticas de guerrilha, atacando onde praticável e rapidamente retirando. Após a derrota em India Muerta, o comandante oriental perdeu a capacidade de tentar uma nova ação campal, pelo que fustigava a força de Silveira e a sua linha de abastecimento. 
A 8 de janeiro, o tenente coronel Vicente da Fonseca indica que tanto a vila de Melo como o forte de Santa Teresa haviam sido reocupados por Otorgués e Rivera respetivamente, pelo que a retaguarda desta coluna estava cortada das forças além da fronteira do Jaguarão e de Chuí, a sul da vila do Rio Grande.

O único caminho era o de Montevidéu e a estrada estava aberta. 


A Grande Reunião em Pan de Azucar

“Marchei de S. Carlos no dia 14, tendo dado ordem ao Exc. Conde de Viana, commandante da Esquadra de Sua Majestade para ir com os navios efectuar o desembarque da artilharia grossa, o Trem do sítio na Praia de Buceo [cerca de 6 km a leste de Montevidéu], e estreitar o bloqueio do porto de Montevidéu; e feito previamente um movimento da colunna do comando do Brigadeiro[Bernardo da] Silveira [Pinto] de Minas para Pan de Azúcar, pude iludir o innimigo com esta marcha a respeito do avançamento das outras três colunas do comando dos generais  Pinto,  Avilez e Pizarro, com as quais cheguei no dia 15 ao Campo do Pan de Azúcar[...].”(Carlos Frederico Lecor, 27 de janeiro)

Para percebermos o impacto deste dia, que hoje faz 200 anos, no povoado de Pán de Azucar, marcado geologicamente por um serro visível a grande distância de qualquer lado, é necessário numerar as forças presentes nesse dia.

Cerca de 950 homens da Coluna do Centro, comandados pelo brigadeiro Silveira, já a eles me referi, com 4 esquadrões de cavalaria da DVR, 2 companhias de infantaria assim como a Legião de Voluntários do Rio Grande (cavalaria), Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande e uma bataria de artilharia a cavalo da Corte (Rio de Janeiro) (vide Ordem de Batalha).

Com Lecor, chegam também neste dia as colunas restantes que vieram por Santa Teresa e Castillos: 

- A Vanguarda, vitoriosa em India Muerta, comandanda pelo marechal de campo (hoje, major general ou general de divisão) Sebastião Pinto de Araújo Correia, com cerca de 800 homens;
- A 1.ª Brigada de Voluntários Reais, comandada pelo brigadeiro Jorge de Avillez Zuzarte Ferreira de Sousa, apenas com 3 companhias destacadas na Vanguarda - uma de caçadores e duas de granadeiros (do 1.º Regimento de Infantaria), totalizando cerca de 1500 homens.
- E a 2.ª Brigada de Voluntários Reais, sem as mesmas companhias que a 1.ª, comandada pelo brigadeiro Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro, também com cerca de 1500 homens.

Estavam em Pan de Azucar cerca de 5000 militares de todas as armas, toda a Divisão de Voluntários Reais, unida pela primeira vez desde que embarcaram na Praia Grande (hoje, Niterói) no já distante junho de 1816, retratado por Debret.
Uma significativa porção desta força eram tropas da Capitania do Rio Grande, nomeadamente do comando da Fronteira do Jaguarão, do tenente general Manoel Marques de Sousa (este general, baseado na Vila do Rio Grande, tem inclusive o filho, major com o mesmo nome, a comandar dois esquadrões, uma da Legião do Rio Grande e outra da Legião de São Paulo, adstritos à Vanguarda)

Alguma artilharia, nomeadamente o trem de sítio, estava embarcada ainda, e seria desembarcada numa praia mais próxima de Montevidéu (Buceo). A Marinha não estava ociosa; a esquadra de apoio e transporte à DVR, do Chefe de Divisão Rodrigo José Ferreira Lobo, bloqueava já os portos de Montevidéu e Colónia, enquanto a divisão naval ligeira do Capitão de mar e guerra Conde de Viana [D. João Manuel  de Meneses] colaborava no esforço final para chegar a Montevidéu, antes de navegar para o rio Uruguai para cumprir a sua missão principal de atuar no enorme e importantíssimo rio, contrariando as várias batarias fixas orientais assim como a marinha oriental de Yusto Negros.

Cerro de Pan de Azúcar

Que General era Lecor?

Montevidéu está apenas a 2 dias de marcha, mas Lecor mobiliza todos os recursos para obter o prémio final, se possível sem recorrer a operações de sítio e combate. Esta é a natureza e o estilo de Lecor enquanto general, procurando sempre a via menos gravosa se possível, preservando a sua força. Alguns anos depois, na primeira fase da Guerra da Cisplatina, em 1825/6, Lecor foi apelidado de o segundo Fabio Cuntactor, o general romando que defrontou Aníbal, negando-lhe uma ação geral e preservando o seu exército. É notório que Lecor assimilou muito bem a influência de Wellington entre 1809 e 1814, e a importância do abastecimento e fundamentalmente uma preocupação com os homens, a sua mais importante “ferramenta”. 
Lecor é um general prudente e político, seja ofensivamente, com 5000 homens de Portugal e do Brasil, perante uma oposição oriental quase inexistente, como a situação que completa hoje 200 anos, seja, anos depois, na defensiva em 1826 após um péssimo 1825. Muitos dos seus subordinados, entre eles o coronel Saldanha, consideravam-no pouco dinâmico.

Na verdade, Lecor, mais do que o General em Chefe da DVR, era o Capitão Geral da província a haver, a Banda Oriental. Lecor era um general político, pois era de facto, e ao mesmo tempo, um general e um político. Não é de supor que o melhor fosse, na sua mente, antagonizar a sociedade civil que pretende governar em nome de D. João VI. Conforme já mostrámos noutras postagens, o exército oriental, nas várias divisões em operações na Banda Oriental (Artigas, Otorgués e Rivera) era composto por uma maioria de milícias, filhos da mesma sociedade civil que referi, com relativamente poucas unidades de linha (e quase todas na divisão de José Artigas). Conforme o viu decerto Lecor, todas as oportunidades para mostrar que os portugueses não pretendem ser os opressores eram para ser tomadas, mostrando que a pacificação era o objetivo, apelando assim a toda a comunidade mercantil de Montevidéu e Colónia, competidores do porto de Buenos Aires.

O tenente de caçadores João da Cunha Lobo Barreto faz a destrinça entre a disposição de Lecor e a do seu número dois, o marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia, comandante da vanguarda:

Era na verdade um contraste remarcável: o General em Chefe, preenchendo os fins da sua missão, desenvolvia toda a indulgência para com estes habitantes; ao mesmo tempo que o seu Ajudante General só respirava terror e vingança contra os indivíduos que defendiam o jugo estrangeiro sempre odioso ao verdadeiro patriota.


As Fronteiras e a Ocupação Portuguesa da Banda Oriental

A ocupação portuguesa pretende, agora em 1817, fazer aquilo que não se chegou a fazer em 1811/1812, assumir o governo de Montevidéu e da Banda Oriental, não só para cumprir a fronteira ideal ou natural, na perspetiva portuguesa, o Rio da Prata, ainda que não de forma permanente a longo prazo, mas estabelecer uma zona tampão que impossibilite que o republicanismo oriental e platense verta para o Brasil, da forma em que o fazia desde 1814.

Estudando todas estas campanhas, se nota o carácter fluído da fronteira luso-espanhola, agora luso-rioplatense, que tanto flutua nas segunda metade do século XVIII. Apenas na década de 1770 é que a Vila do Rio Grande fica permanentemente em mãos portuguesas e o Rio Pardo, a "tranqueira invicta", é onde o Brasil acaba (em 1816, ambos povoados estão bem na retaguarda já, longe dos combates, com o Rio Pardo estreando a primeira rua calcetada do Rio Grande). Só em 1801, é que as Missões Ocidentais são tomadas por uma centena de cavaleiros locais, para serem, 15 anos depois defendidas por um general (brigadeiro Francisco das Chagas Santos) que iniciou a sua carreira como oficial de infantaria com exercício de engenharia na demarcação dos limites entre os dois impérios, em 1781. 

Este carácter fluído é vital para perceber a dinâmica militar em jogo. Enforma todas as guerras que aqui tomaram lugar entre portugueses e espanhois desde 1680. Um vasto território desabitado, mesmo em 1817, onde quase todas as atuais localidades, algumas bem importantes como Alegrete ou Santana do Livramento, não existiam ainda ou estavam na sua infância, por vezes meros acampamentos.

JOSE ARTIGAS, por Juan Manuel Blanes (1884), Wikicommons

Esfuerzos sobre Esfuerzos: Artigas

Em Purificación, junto ao rio Uruguai, próximo de Salto, José Artigas reflete e lamenta a derrota em Catalán, em carta de 13 de janeiro, ao seu delegado em Montevidéu, Miguel Barreiro: “hemos de hacer esfuerzos sobre esfuerzos”. Tudo ficava mais complicado após Catalán, que o impede de atuar operacionalmente no teatro mais a oeste, junto ao rio Quaraí e à fronteira. Impede-o de poder auxiliar as forças orientais no leste e remete-o a uma postura defensiva.

Ya empezamos a sentir  la escases de armamento con las perdidas conseguintes  a las acciones dadas. Yo me hallo aqui reuniendo de nuevo el Exército, y con esperanzas de haver una defensa vigorosa.

A iniciativa está agora quase totalmente com os 5000 portugueses e brasileiros sob Lecor, em Pan de Azúcar. Frutoso Rivera pode apenas beliscar as forças portuguesas, observando-as, verificando o seu avanço sobre a capital da Banda Oriental.




* * *

BIOGRAFIAS
- tenente general Carlos Frederico Lecor

[ + Biografias  ]

* * *

ORDEM DE ‘BATALHA’
Forças portuguesas estacionadas em Pan de Azúcar, a 15 de janeiro de 1817

Divisão de Voluntários Reais, Exército de Portugal
+ Tropas da Capitania do Rio Grande, Exército do Brasil

GENERAL EM CHEFE
Tenente general Carlos Frederico Lecor

COLUNA DA VANGUARDA
Marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia
Ajudante General da DVR

cerca de 800 efetivos.

- 2 esquadrões de Cavalaria, DVR
Batalhão provisório: 4 companhias de granadeiros, DVR
(tenente coronel António José Claudino Pimentel)
- 1 obús, calibre 3
(1.º tenente Gabriel António de Franco)
- 2 companhias de caçadores, DVR (uma de cada batalhão)
(sargento mor Jerónimo Pereira de Vasconcelos e sargento mor Andrew McGregor) 
- 2 esquadrões de cavalaria,  Legião de Voluntários do Rio Grande + 2 esq de cavalaria da Legião de Tropas Ligeiras (de São Paulo) 
(sargento mor Manoel Marques de Sousa)

COLUNA DO CENTRO
Brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto
Quartel Mestre General da DVR

- 4 esquadrões de cavalaria, DVR (376 homens)
(Coronel António Feliciano Teles de Castro Aparício)
- Batalhão provisório de Infantaria DVR (194 homens, 2 companhias)
(sargento mor José Pedro de Mello, 1.º RI)
- Bataria, Companhia de Artilharia a Cavalo da Corte (65 homens)
(sargento mor Isidoro d’Almada e Castro)
- Legião de Voluntários do Rio Grande (120 homens)
- Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande (206 homens)

1.ª BRIGADA DE VOLUNTÁRIOS REAIS
Brigadeiro Jorge de Avillez Zuzarte Ferreira de Sousa

1.º Regimento de Infantaria (c. 800 homens)
(coronel João Carlos de Saldanha de Oliveira e Daun )
1.º Batalhão de Caçadores (c. 600 homens)
(tenente coronel Manuel Jorge Rodrigues)

2.ª BRIGADA DE VOLUNTÁRIOS REAIS
Brigadeiro Jorge de Avillez Zuzarte Ferreira de Sousa

2.º Regimento de Infantaria (c. 800 homens)
(coronel Francisco de Paula de Azeredo)
2.º Batalhão de Caçadores (c. 600 homens)
(tenente coronel Francisco de Paula Rosado)

* * *

Fontes
- BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in:Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.
- DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 ( 3 v.), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.
- ARCHIVO ARTIGAS

Imagens
- Cima del Cerro Pan de Azucar.jpg in: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cima_del_Cerro_Pan_de_Azucar.jpg
- Cerro Pan de Azúcar Maldonado.JPG in: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cerro_Pan_de_Az%C3%BAcar_Maldonado.JPG