26/08/2021
Batalha de Catalán por uma Testemunha Ocular, 4 dias após o evento (Inácio José Vicente da Fonseca)
09/08/2020
Civil/Exército do Brasil: D. Margarida de Almeida Portugal (Marquesa de Alegrete)
A senhora Dona MARGARIDA DE ALMEIDA PORTUGAL , 5.ª marquesa de Alegrete, nasceu em Santa Clara, Lisboa, aos 24 de Agosto de 1791, filha dos marqueses do Lavradio, D. António de Almeida Portugal e D. Ana Teles da Silva, tendo sido batizada, no mesmo dia, no oratório do Palácio dos marqueses no campo de Santa Clara.
Em 1807, como muita da corte, viaja para o Brasil. A 1 de Outubro de 1808, casa-se com o 5.º marquês de Alegrete, D. Luís Teles da Silva, na Sé do Rio de Janeiro.
Acompanhou o marido quando este foi capitão general do São Paulo, em 1811, e depois, do Rio Grande de S. Pedro, em 1814.
Tem 25 anos de idade quando acompanha o marido na batalha de Catalán, a 4 de Janeiro de 1817, onde, de acordo com testemunhos presenciais, ajudou os feridos no campo após a ação:
“Demorámo-nos no Campo da ação o dia 4 e 5, ocupados em enterrar os nossos mortos, e curar os feridos, a senhora Marquesa tem zelado dos doentes com muita caridade, desfiando panos com suas próprias mãos para se curarem as feridas.”
(Tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, Artilharia da Legião de S. Paulo, em carta a Vicente Ferrer da Silva Freire)
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“Um exemplo novo de valor, e de heroísmo serviu para aumentar a celebridade da vitória gloriosa de Catalán: ele foi dado pela marquesa de Alegrete, tão ilustre por suas virtudes como por sangue: a presença do espírito varonil que patenteou no meio dos maiores perigos, e debaixo do fogo inimigo, e com que animava a todos, não foi menos admirável que a prática incansável de piedade, a que se entregou depois da batalha, em socorro dos feridos , sem distinção de amigos ou inimigos. Ela finalmente se fez naquele dia por todos os motivos digna de maior estima, respeito, e admiração do exército.”
(Capitão Diogo Arouche de Moraes Lara, Infantaria da Legião de S. Paulo, in: “Campanha de 1816”)
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Imagem (topo)
- "Batalha de Catalán", óleo do coronel Pedro Paulo Cantalice Estigarríbia (Hospital Militar de Porto Alegre, RS)
14/03/2020
Exército do Brasil: Inácio José Vicente da Fonseca
03/11/2018
A Evasão dos 33 Portugueses (17-25 de Maio de 1817)
Tendo prévio conhecimento da permanência ali de uma balandra federal, totalmente equipada, a ideia era tomá-la, não só para navegar à liberdade, mas para negar a munição ao inimigo. Uma balandra, uma espécie de sloop ou chalupa, é um barco à vela adequado à navegação fluvial. De acordo com o alferes Francisco António da Silva, da cavalaria da Divisão, foi o tenente do Estado Maior Jacinto Pinto de Araújo Correia que planeou e liderou a evasão.
O grupo de 33 evadidos, a que adicionaram nove “paisanos” agregados à Divisão, dirige-se, então, à praia no rio Negro, mas não encontrando a balandra esperada, acabaram, em desespero, por se lançar a nado encontrando providencialmente outra lancha. A balandra “5 de Julio” é tomada, apesar de alguma resistência e gritos de alarme da guarnição, e os 42 portugueses podem finalmente tomar o sul, com destino a Montevideu.
Alguns dos prisioneiros já estavam em cativeiro desde o 9 de setembro, prestes a chegar aos nove meses, quando dez cavaleiros das Milícias do Rio Grande (2) e da Legião de São Paulo (8) foram capturados na ação de Castillos. A vasta maioria (23) tinha sido capturada durante o mês de Dezembro, na estrada junto à costa atlântica, na marcha para Montevideu.
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| Praia, Isla Martin Garcia (fonte Wikicommons) |
No dia seguinte, Montevideu acorda com frescas notícias extraordinárias. Nesse mesmo dia, o capitão general Carlos Frederico Lecor, em carta a El-Rei Dom João VI, dá nota do extraordinário evento, “um sucesso daqueles que aparecessem de século em século”.
Ainda que a celebração em torno da evasão dos 42 portugueses nos pareça hoje algo exagerada, o seu poder de aumento do moral foi enorme numa divisão que só há apenas quatro meses detinha Montevideu, e após duas sortidas que não ofereceram vantangens e apenas agravaram a questão do abastecimento da cidade.
Jacinto Pinto de Araújo Correia
O oficial a quem todos atribuem a liderança nesta evasão é o tenente Jacinto Pinto de Araújo Correia. A sua captura, a 11 de Dezembro de 1816, cinco meses antes, foi particularmente notória no Exército por duas razões. Primeiro. ele era o irmão do marechal Sebastião Pinto de Araújo Correia, o comandante da vanguarda e n.º 2 da Divisão. Segundo, a captura deu-se 3 dias após a ação de Sauce, uma das piores derrotas portuguesas antes da tomada de Montevideu.
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| Monumento a Artigas (Rocha). Ubicada en el departamento de Rocha (fonte: Wikicommons) |
João da Cunha Lobo Barreto [CONHEÇA MAIS], também ele tenente, refere-se ao caso nas suas memórias, atribuindo a captura a uma certa incúria profissional, o que realça o perigo constante dos ataques federais na área de Maldonado e Rocha, agora em plena guerrilha após a derrota em India Muerta. Já depois da tomada de Montevideu, nas duas incursões, os orientais, liderados por Juan Lavalleja, voltam a ensinar essa lição a retaguardas portuguesas isoladas do corpo principal, no Pintado e em Toledo.
“Novo acontecimento tambem pôz em cuidado o General Pinto, o Tenente do Estado Maior Jacinto Pinto (seo irmão) e um comissário com outro indivíduo, se deixarão ficar em Santa Thereza (alguns dizem, que divertindo-se) e depois de sahirem todas as tropas se metterão a caminho sosinhos, até que chegando ao Povo de Rocha forão prisioneiros”.(Lobo Barreto, p. 11)
As forças federais de Artigas estavam, por esta altura, a ter os seus próprios problemas. Menos de um mês após a visita de José Artigas à División de la Derecha (comandada desde setembro por Frutoso Rivera), onde assistiu ao combate de Toledo, a 5 de Maio, há um conflito de comando, percebendo-se que Rivera era substituído por Tomás Garcia de Zuñiga, com o apoio de vários oficiais. Só após ordem positiva de Artigas é que Frutuoso Rivera reassume o comando. É a segunda revolta do ano, após o batalhão de Libertos em Purificación, em Fevereiro, e sua passagem a Buenos Aires, assegurada pelos portugueses.
O tenente Jacinto Pinto de Araújo Correia, irmão do Ajudante General da Divisão, nasceu em 1794, em Viana do Castelo, filho do marechal de campo Francisco Pinto de Araújo Correia. Enquanto cursava humanidades, o apelo à defesa da pátria em perigo o faz alistar-se como cadete no Regimento de Infantaria n.º 18, a 5 de outubro de 1810. Já como cadete porta bandeira, é promovido a alferes de Infantaria 6 a 9 de janeiro de 1813, e como tal participa nas campanhas de 1813 e 1814, na batalha de Vitória e em St.Pierre, onde é ferido e aprisionado pelos franceses até que se vê libertado horas depois pelo marechal de campo Carlos Frederico Lecor, então comandante da Divisão Portuguesa.
Passa, com 22 anos, à Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, como tenente assistente do Quartel Mestre General, e, anos depois, em 1847 é coronel do Estado Maior, comendador da Ordem de Cristo e Cavaleiro da Imperial Ordem do Cruzeiro.
Deos guarde a Vossa Magestade muitos annos.
Monte Video 26 de Maio de 1817.
De V. Mag.de Fiel Vassallo
Carlos Frederico Lecor.
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| Excerto do Diário de Lisboa, Março de 1818, regerente a decreto de 19 de Novembro de 1816 |
Relação dos prisioneiros Portuguezes, que no dia 17 de maio tão gloriosamente se libertaram
Estado Maior
Jacinto Pinto de Araújo, Tenente, prisioneiro em Rocha em 11 de Dezembro de 1816, marchando para o exército.
Cavalaria, Divisão de Voluntarios Reais
Francisco Antonio da Silva, Alferes da 4.ª companhia, prisioneiro em Mata-ojo em 8 de Dezembro de 1816, em attaque
Vicente Ferreira Brandão, Alferes da 10.ª companhia, idem
Manuel Coelho, Furriel da 6.ª companhia, idem
José Manoel, soldado da 3.ª companhia, idem
Manoel Ventura, dito, dito, idem
José Cardozo, dito da 4.ª companhia, idem
Antonio Rodrigues, dito, dito, idem
José Procópio, dito, dito, idem
Domingos Rodrigues Villarinhos, dito da 10.ª companhia, idem
José Garcia, dito da 12.ª companhia, idem
Antonio Valles, dito, dito, idem
Antonio Braz, dito, dito, idem
Artilharia, Divisão de Voluntarios Reais
João Custodio Villas-Boas, Cadete da 1.ª companhia, prisioneiro em Santa Thereza em 25 de Dezembro de 1816. Estava destacado.
Antonio de Almeida, Soldado da 2.ª companhia, idem
Florêncio Roza, dito, dito, idem
Primeiro batalhão de Caçadores, DVR
Vicente de Oliveira, Corneta da 5.ª companhia, prisioneiro em Maldonado em 19 de dezembro de 1816, sahindo a ir buscar agoa.
Manuel da Cruz, soldado da dita, idem.
Segundo Regimento de Infantaria, DVR
João dos Reis, Soldado da 1.ª companhia de Granadeiros, prisioneiro em Rocha em 2 de Dezembro de 1816, em attaque de forragens.
Francisco de Carvalho, dito, dito, idem.
José Correia, dito, dito, idem.
Filipe Henriques, dito, dito, idem
Cavalaria, Legião de Voluntários Reais de São Paulo
Joaquim José de Bettencourt, Tenente da 3.ª companhia, prisioneiro em Castillos em 4 de setembro de 1816, em attaque.
João Ribas Sandim, Cadete da 2.ª companhia, idem
José António de Oliveira, Cabo da 4.ª companhia, idem.
José Joaquim de Barros, Soldado da dita, idem
Manuel Gonçalves, dito, dito, idem.
João Rodrigues, dito, dito, idem.
José Francisco de Sequeira, dito da 2.ª companhia, idem.
Joaquim Rodrigues, dito, dito, idem.
Regimento de Cavalaria de Milícias do Rio Grande
Francisco Carneiro de Fontoura, Alferes da 1.ª companhia, prisioneiro em Rocha em 11 de Dezembro de 1816, marchando para o Exercito.
Francisco Antonio, Soldado da 3.ª companhia, prisoneiro em Castillos em 4 de Setembro de 1816, em attaque.
Manuel Silverio, dito, dito, idem.
(+ 9 paisanos, agregados à divisão, prisioneiros em differentes lugares).
Resumo dos dias em que foram capturados:
4/9 (Castillos) – 10 (Legião São Paulo e Reg Milícias Rio Grande)
2/12 (Rocha, forragens) – 4 (2.º RI)
8/12 (Mata Ojo/Sauce) – 12 (Cavalaria DVR)
11/12 (Rocha, marcha para o exército) – 2
19/12 (Maldonado, a buscar água) – 2 (1.º BatCaç)
25/12 (Santa Teresa) – 3 (Artilharia)
Os sete oficiais foram todos promovidos ou graduados ao posto seguinte a 19 de novembro de 1817.
13/08/2018
Memórias: TenCor Vicente da Fonseca (Catalán, 1817)
Conforme escreveu Vicente de Fonseca na epístola, e serve para nós que o lemos 200 anos depois, “aqui tem V. S.ª o rezultado das Acçõis do dia 3 no Quartel General de Artigas, e do dia 4 na margem direita do Arroio Catalan, da qual tenho a felicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas bálas tão poucos palmos distantes do meo Corpo”.
Carta do tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, da Legião de S. Paulo, a Vicente Ferrer da Silva Freire (rio Catalán, 8 de Janeiro de 1817)
[transcrição com ortografia modernizada retirada do Archio Artigas, Tomo 33, páginas 14-19]
[...]
Tendo o excelentíssimo senhor marquês de Alegrete chegado ao nosso campo do Ibirapuitã a 15 de Dezembro do passado, e sabendo pelos nossos bombeiros que os insurgentes se reuniam com grande força e que pretendiam ir atacar-nos naquelle lugar, resolveu, que deviamos então encontrá-los, e conseguintemente levantámos o Campo a 25 dirigindo-nos para o Quaraí.Passamos este Arroio no dia 31, e falhámos ao 1.°, e tendo neste dia os nossos bombeiros agarrado 3 bombeiros do inimigo, soubemos destes, que Artigas tinha o seu quartel general no lugar denominado o Potreiro nas imediações do Arapey, aonde somente existiam 400 e tantos homens, e que tinha feito marchar deste lugar o major general Latorre com perto de quatro mil homens, e duas peças de calibre 4, a este tempo já os nossos espias descobriram bombeiros, e pequenas partidas do inimigo pela nossa retaguarda, mas como julgámos que a força maior estava pela nossa frente, levantamos o campo no dia dois, e avançámos 4 léguas e meia, e acampamos na margem direita do arroio Catalán. A posição de nosso campo era elevada e própria para poder a artilharia operar por todos os lados tinhamos, o flanco ([esquerdo]) direito apoiado por uma sanga, à frente, e flanco esquerdo por pequenas sangas, e a retaguarda pelo arroio ainda que fraco por ser cortado por várias partes.
[SURPRESA DE ARAPEY (3/1)]
Saíram ao pôr do sol com ordem de marchar toda a noite para na madrugada do dia 3 surprenderem a Artigas no mencionado potreiro, mas apesar de terem marchado toda a noite chegaram a esse lugar uma hora depois de amanhecer, e por este motivo foram percebidos pelas guardas avançadas do inimigo, e pode Artigas escapar se precipitadamente deixando a sua carretilha, e até mesmo o seu ponche, escaparam muitas familias, e a maior parte da guarnição, e uma porção que ainda não tinha fugido foram derrotados pelos nossos depois de fazerem uma grande resistência.
Artigas tinha escolhido um lugar para seu quartel general aonde a Cavaleria não podia operar, e por isso somente a artilharia e infantaria de S. Paulo, e poucos de cavalaria a pá decidiram desta acção, (ouvimos os tiros de artilharia, e seriam 8 horas da manhã) a perda do Imimigo consistio em setenta e tantos mortos incluso um ajudante, 6 prisioneiros, ficou em nosso poder a carretilha de Artigas, 1500 mil e quinhentos cavalos, e algumas munições.
A nossa perda consistiu em dois soldados mortos da infantaria de S. Paulo, que foram os primeiros que investiram o mato, e 4 feridos da mesma infantaria sendo 2 gravemente.
O valente tenente coronel Abreu pretendia perseguir a Artigas, mas sabendo dos prisioneiros, que Latorre tinha avisado a Artigas, que no dia 4 pretendia bater os portugueses, e que nesse mesmo dia estaria com ele vitorioso no potreiro, com esta notícia (apesar de não ter a nossa tropa comido, e nem dormido) picou a marcha o tenente coronel Abreu para reunir-se a nós com a brevidade possível, o que conseguiu no mencionado dia 3 depois de anoitecer; com a chegada do Abreu deram-se as ordens necessárias, e foram, que às três horas da manhã estaria toda a cavalcria montada, e toda a mais tropa debaixo de armas, mas assim não aconteceu por causa das facilidades, estivemos com efeito debaixo de armas às horas determinadas, porém só a cavalaria de S. Paulo estava montada, e Dragões e Milicianos não tinham pegado cavalos. E se não fosse a artilharia, e o valor da nossa tropa, o inimigo teria a conseguido uma completa surpresa.
[BATALHA DE CATALÁN (4/1)]
Eram 4 horas e meia, e naquele momento tinha o nosso clarim acabado de tocar a alvorada, quando um chefe de guerrillas, que guardava uma nossa cavalhada que estava sobre o nosso acampamento no flanco esquerdo, presentiu os charruas avançarem para roubá-la, mandou logo disparar oito tiros, e reuniu-se a nós com a cavalhada que pode, eu estava na bataria do centro que é composta de 4 obúses, conversando com o major Pitta que é o comandante desta divisão de artilharia.
Principiámos logo a ouvir o grande alarido que costumam fazer estes bárbaros, e a descobrir um grande negrume por todas a coxilha que estava pela nossa frente, flanco, esquerdo e retaguarda. A nossa tropa dispos-se imediatamente para entrar em ação, e o inimigo aproximava-se cada vez mais tocando a sua música com grande desafogo.
A este tempo que seriam passados 5 minutos depois que foram percebidos, apareceu logo o senhor marquês na frente da tropa montado a cavalo animando-a com muita coragem, e vendo que o inimigo ja estava pelo nosso flanco esquerdo em distância de fuzil, mandou logo romper o fogo de artilharia, o que se executou prontamente, e tive então o gosto de ver laborar ao mesmo tempo toda a artilharia do meu comando, estava disposta em divisões sendo a do centro comandada pelo major Pitta, e composta de 4 obúses que lancaram granadas que fizeram um efeito terrível, a divisão da esquerda composta de 3 peças de calibre 6 é comandada pelo capitão José Olinto, a da direita composta de 2 peças de calibre 3 pelo tenente António Soares, as duas peças de 3 comandada pelo tenente José Joaquim da Luz estavam postadas num corpo de reserva que guardava a cavalhada, o inimigo respondeu-nos logo com o seu fogo de artilharia, as suas balas passavam muito altas, mas sempre acertaram com uma bala em um reparo de uma peça de 6 que chegou a partir o eixo de ferro.
A cavalaria inimiga atemorizada pelo nosso fogo amiudado de artilharia e não se animou a avançar, estava formada em 2 linhas em número de mais de dois mil homens, a infantaria inimiga formada na frente da cavalaria em duas fileiras, e com grande intervalo de um a outro soldado desceu a coxilha por baixo do fogo de artilharia, passou uma sanga, e apareceu-nos pela frente em pequena distância de onde nos deu uma descarga cerrada.
A este mesmo tempo os lanceiros charruas carregaram sobre o nosso flanco direito, o senhor marquês correu para este flanco pelo meio das balas, e fez avançar uns cento e cinquenta e tantos dragões que já se achavam montados para rebater os charruas, e imediatamente tocar a degola fazendo avançar a brava infantaria de S. Paulo de baioneta calada, foi quando vi com muita satisfação estes meus valentes patrícios correrem por um terreno cheio de pedras que mais parecia voarem do que correr. Levando por diante uma poeira a infantaria inimiga a bala, e ponta de baioneta fazendo-lhes fogo mesmo à queima roupa.
Nesta mesma ocasião avançou o bravo e incomparável tenente coronel José de Abreu com 300 homens pouco mais ou menos que eram milicianos de Entre Rios, cavalaria de S. Paulo, Dragões, Milicianos, e algumas guerrilhas de paisanos, e com este punhado de homens valentes pôs a cavalaria inimiga em vergonhosa fugida perseguindo-os, e fazendo uma grande mortandade até à distância de 3 léguas, tomando muitos cargueiros de munições, e cinco mil e tantos cavalos.
Enquanto o tenente coronel Abreu perseguia a cavalaria, a infantaria de S. Paulo, e os Milicianos do Rio Pardo, e Porto Alegre a pé por não terem tido tempo de pegar cavalos continuaram um vivo fogo contra uma grande porção da infantaria inimiga que se tinha emboscada em um pequeno mato, fizeram uma resistência terrível, mas nada pode vencer ao valor das nossas tropas, e não tiveram remédio senão depôr as armas uns 239 que ainda viviam, entre estes 6 oficiais um dos quais é sobrinho de Artigas, e também há um inglês.
A força inimiga era composta de 3200 homens, sendo mil e tantos de infantaria, tinham duas peças de artilharia, e mais 400, e tantos homens que guardavam a cavalhada. O comandante em chefe era o major general Latorre, o coronel Mondragon o comandante da cavalaria, e o coronel Berdún comandava a infantaria e artilharia. Dizem varios prisioneiros que Berdún morrera, porém esta notícia ainda não se verificou, e por isso não dou como certa.
A nossa força era composta de dois mil duzentos e tantos homens, e 11 bocas de fogo, mas em rigor entrariam na acção 1300 a 1400 homens, ficando os mais guardando as cavalhadas, boiadas, e bagagens.
Da relação junta verá V. S. qual foi a nossa perda, uma grande parte dos nossos feridos foram gravemente, e já tem morrido muitos: a perda do inimigo foi considerável, contam-se em pequena distancia 468 mortos inclusos muitos oficiais, e não se contaram os que ficaram estivados por esse campo até a distância de 3 léguas.
Ficaram prisioneiros 239 inclusos 6 oficiais, (dos prisioneiros já tem morridos uma grande parte dos feridos) tem-se apresentado até hoje vinte e tantos, tomámos a sua artilharia que eram duas peças de calibre 4, uma carreta com muitas munições de infantaria e artilharia, muitos cargueiros com munições, 5000 e tantos cavalos, um estandarte, caixas de guerra, instrumentos de música, e muito armamento, pode-se avaliar por um cálculo bem aproximado que a perda do inimigo entre mortos, prisioneiros, e aprezentado excede a mil homens.
O fogo durou até às onze horas e três quartos da manhã. O senhor marquês correu depois por todas as fileiras dando mil agradecimentos a toda a tropa, que assim mesmo fatigada, e muitos lavados em sangue das feridas que tinham recebido gritavam com grande corágem, que estavam prontos para principiar já outro combate, então o senhor marquês dava mil vivas a sua Majestade, que eram mutuamente correspondidos por toda a tropa, e todo se finalizou com uma salva real de 21 tiros de artilharia.
À tarde o senhor marquês assitiu ao funeral dos nossos oficiais mortos, e foram carregados pelo senhor marquês, senhor tenente general Curado, brigadeiros, estado maior de S. Excelência, etc.

Demoramo-nos no campo da ação o dia 4, e 5 ocupados em enterrar os nossos mortos, e curar os feridos, a senhora marquesa tem zelado dos doentes com muita caridade, desfiando panos com suas própias mãos para se curarem as feridas.
No dia 6 avançámos 3 léguas para baixo do mesmo arroio Catalán para fugir da podridão que já infeccionava o campo, e aqui nos conservamos sem por ora saber de nosso destino sobre a marcha.
Os nossos bombeiros chegaram hoje, e dizem que a reunião dos dispersos é na Purificação, e consta que Artiguinhas já passou o Uruguay para este lado em Japejú, e que se reuniu a Artigas com 1500 homens. Eu estou persuadido que os homens se reúnem com grande força e que breve teremos outro divertimento, tão bem estou persuadido que Artigas não nos aparece agora com menos de 5000 homens, o que pode conseguir com a junção de Otorgués, e hão de continuar a aparecer-nos em quanto restar a Artigas um único homem.
Esqueceu-me referir que o inimigo já nos tinha tomado na nossa retaguarda treze carretas de vivandeiros que vinham com uma marcha de diferença da nossa, e eram o mulato Romualdo, e o José Cabeça, mas todas foram restauradas no dia da acção, e felizmente todos os vivandeiros que eles conservavam prisioneiros, e não tiveram tempo de matar um só.
O meu camarada e amigo major Rosário [António José do Rosário, Inf LTL] caiu morto ao meu lado esquerdo logo das primeiras balas do inimigo, ele certamente nem soube de que morreu, que tão repentina foi a sua morte de uma bala que lhe passou ambas as frontes, logo o mandei carregar para baixo de um carro de munições, e o mandei cobrir com um ponche.
Os capitães Prestes [José de Paula Prestes, RegDrag], e Corte Real [Francisco de Borja de Almeida Corte Real, RegDrag], e o secretário de Dragões [Eleutério Severiano dos Santos Pereira]; o valente furriel Moura [Mateus José de Moura] da cavalaria de S. Paulo, e o cadete da mesma cavalaria filho do coronel engenheiro de S. Paulo [Manuel Joaquim Carneiro de Fontoura] morreram todos trespassados de lanças dos charruas, e o ajudante Marçal foi ferido de cutiladas na cabeça. O tenente Joaquim Maria baleado em uma coxa, o capitão Gaspar ferido num pé.
Entre os prisioneiros acham-se 3 portugueses, um dos quais é da infantaria de S. Paulo desertado em Maldonado na campanha passada. Persuado-me que o senhor marquês os mandará arcabuzar.
Pelo balanço que acabo de dar ao parque vejo, que a artilharia deu cento e quarenta e quatro tiros, que talvez fosse a nossa redenção, pois além do estrago que fez, deu tempo para se pegarem os cavalos que deviam estar pegados antes das 3 horas da manhã. No potreiro deram-se além destes 13 tiros de artilharia. Distribuiram-se onze mil e tantos cartuchos de espingarda, e sete mil e tantos de clavina.
Aqui tem vossa Senhoria o resultado das ações do dia 3 no quartel General de Artigas, e do dia 4, na margem direita do Arroio Catalán, da qual tenho a felicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas balas tão poucos palmos distantes do meu corpo, tendo assistido já em uma e já em outra divisão de artilharia que fizeram um vivo fogo sobre a frente, flanco esquerdo, e retaguarda.
Nada sabemos de combinação com os Talaveiras, sabe-se que Santa Teresa foi retomada por Fructuoso Ribeiro, e Serro Lárgo por Otorgués.
[...]
Campo da Margem direita de Arroio Catalan 8 de Janeiro de 1817
Ignacio Jozé Vicente da Fonseca
- Archivo Artigas, volume 33: pp.14-19









