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13/02/2022

Memórias e Reflexões sobre o Rio da Prata, extraídas do diário de um oficial da marinha brasileira (Jacinto Roque de Senna Pereira, 1849)


A 16 de Fevereiro de 1850, a quatro meses de falecer aos 66 anos, o chefe de divisão Jacinto Roque de Senna Pereira entregou ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do qual era sócio, quatro folhetos impressos contendo as suas Memórias e Reflexões Sobre o Rio da Prata. Na entrega, o antigo ministro da Guerra (1839) e da Marinha (1840) reflete criticamente sobre a importância da sua obra:  "Sei que não tem ella […] valor intrinseco, mas poderá talvez servir de auxiliar ou reportorio aquelle d'entre os nossos sabios que se dedique a escrever detalhadamente a historia do Imperio Brazileiro".

Nascido em Lisboa em 1784, Senna Pereira cursou Matemática na Real Academia de Marinha. Em 1802, embarcou como voluntário no bergantim Real João, servindo na Esquadra do Estreito, no Mediterrâneo. A 18 de março de 1811, foi promovido a segundo-tenente, iniciando assim o seu percurso de oficial da marinha que terminou como chefe de divisão (equivalente sensivelmente  a contra-almirante). 

Para a compreensão do extrato que apresento, Senna Pereira, como primeiro tenente, foi em 1818 nomeado comandante da escuna Oriental e da esquadrilha naval com que se pretendia entrar no rio Uruguai, com o fim de fazer a tão necessária ligação de Lecor e as forças portuguesas em Montevideu com as forças do Exército do Brasil que efetuavam, desde Março desse ano, uma ofensiva sobre a margem esquerda do rio, sob o comando do tenente general Joaquim Xavier Curado (1746-1830). Os problemas de comunicação eram um dos mais graves problemas das forças portuguesas que invadiam a Banda Oriental, não só pelas vastas distâncias em jogo, mas fundamentalmente pela perturbação que as tropas federais de Artigas causavam neste fluxo de comunicação já de si difícil.

O extrato cobre sensivelmente o período entre a entrada da esquadrilha no rio Uruguai (2.5.1818), sem oposição por parte de Buenos Aires, e a difícil subida do rio, uma área desconhecida para os marinheiros e os oficiais. Descreve o combate do Paso de Vera (3.5.1818), em que a escuna Oriental enfrenta uma bataria de artilharia no lado ocidental do rio. Refere, com algum pormenor, a ligação entre a escuna Oriental e as forças do general Curado, a 13 de Maio, e por último fala das ações tanto terrestres como navais que decorreram entre 15 e 18 de Maio, conhecidas coletivamente como Surpresa do Arroyo de La China, em que Bento Manuel Ribeiro (1783-1855) passou à margem ocidental do rio e destroçou as forças orientais presentes em Perucho Verna, Calera de Barquín e a referida vila do Arroyo de La China (hoje Concepción del Uruguay).

A transcrição foi feita a partir da edição impressa da Revista Militar Brasileira, em 1912, com a modernização da ortografia, assim como a utilização dos nomes originais dos locais em espanhol. Há, no entanto, uma outra edição, um pouco mais completa (tendo uma parte final referente a parte de 1819 e a 1820), publicada em 1931 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, e a partir da qual foi editada uma versão traduzida para castelhano no periódico uruguaio Boletin Histórico, em 1964. O caro leitor que queira ler as versões integrais poderá encontrar algumas ligações ao fim desta postagem.


* * *


MEMÓRIAS E REFLEXÕES SOBRE O RIO DA PRATA, extraídas do diário de um oficial da marinha brasileira (Jacinto Roque de Senna Pereira) e publicadas em 1849. [extrato]

[...]

Duas memoráveis batalhas campais (a de Catalán e a de India Muerta) reduziram o inimigo a deixar o passo franco aos nossos exércitos. A primeira foi ganha gloriosamente pelo exército brasileiro, apesar de surpreendido, em 4 de janeiro de 1817; a segunda dada bizarramente pela vanguarda da divisão de Voluntários Reais no dia 19 de novembro de 1816.

Comandou na ação o exército brasileiro o marquês de Alegrete, capitão-general da província de S. Pedro, que acidentalmente se achava no exército, retirando-se depois para Porto Alegre a 25 de dezembro do mesmo ano, deixando o exército a seu general em chefe Joaquim Xavier Curado, ínclito varão, cujo nome será sempre respeitado e que deu honra e grande credito ao país em que nascera. Era o comandante da vanguarda da divisão de Voluntários Reais de El-Rei o marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia.

O general Curado, enquanto esperava na fronteira a aproximação do exército do general Lecor e as precisas ordens para invadir o território Oriental, aproveitou o tempo para aguerrir seu exército, do que resultaram as vantajosas e assinaladas batalhas de S. Borja, Ibirocaí, Carumbé, Arapeí, Belém e outras, nas quais tanto figuraram os nomes de muitos bravos brasileiros, com especialidade os de José de Abreu, João de Deus Menna Barreto, Joaquim de Oliveira Álvares e Bento Manuel Ribeiro.

O general Curado, atravessando o Estado Oriental, marchou em uma direção quase paralela à do exército do general Lecor, e acampou na margem esquerda do Uruguai.

A divisão de Voluntários Reais entrou em Montevideu no dia 20 de janeiro de 1817, achando a praça abandonada e bloqueada por mar por nossas forças marítimas debaixo do comando do conde de Viana.

E destarte ficaram os dois exércitos separados um do outro por cerca de oitenta léguas.

D. José Artigas e D. Frutuoso Rivera, o primeiro chefe supremo da Republica e patriarca da Federação (2), o segundo seu imediato, tanto em prestígio como em força, puderam entretanto reabilitar-se das perdas ultimamente sofridas nas duas batalhas já indicadas e preparar-se senão para novos, combates decisivos ao menos para uma guerra de recursos; e conhecedores da índole daqueles habitantes, lançaram mão dos mais poderosos meios de os chamar às armas e de os reter com elas, — o da nacionalidade ofendida e o fuzilamento.

Assim conseguiram eles formar fortes guerrilhas e intercetar de tal modo a comunicação entre os dois exércitos que mister foi procurar-se um meio que os pusesse em relação, resultando daí a ideia da organização de uma esquadrilha.

O general Lecor, como capitão-general de mar e terra, havia pedido ao almirante Lobo dois oficiais de marinha e recaiu a escolha em Luís Barroso Pereira [1786 -1826] e Jacinto Roque de Senna Pereira [1784-1850], este natural de Lisboa, aquele de Minas Gerais; Barroso partiu logo para Buenos-Aires como em comissão secreta ao supremo diretor da Republica e Senna Pereira teve a nomeação de comandante da escuna Oriental e da esquadrilha.

Barroso foi distintamente acolhido tanto pelos particulares como pelas pessoas do governo de Buenos-Aires, o que não é para estranhar visto o excelente carácter e instrução daquele oficial e o estado de desordem em que se achava aquela capital.

Nas conferências havidas com Barroso parecia que o governo de Buenos-Aires marchava de acordo com o general Lecor em tudo que dizia respeito à destruição de Artigas e nossa ocupação pacífica ; mas assim mesmo não deixava aquele governo de fixar as bases sobre as quais no futuro poderia levantar-se. firmemente o edifício político que serviria de forte antemural para combater a nossa invasão à mão armada em um território que, apesar de solene declaração de Artigas, Buenos-Aires considerava como parte integrante daquela Republica; neste sentido mandou a Montevideu por vezes os emissários coronel Vedia [Nicolás de Vedia, 1771-1852] e dr. Passos, conservando ali por longo tempo a D. Santiago Vasques [Santiago Vázquez, 1787-1847]; protestando sempre os emissários ao general Lecor, e mesmo o diretor a Barroso, que tal proceder nada tinha de positivo, sendo seu único objeto tranquilizar as províncias do interior, já ciosas por nossa proximidade e pelos continuados triunfos adquiridos por nossas armas.

Pelos mesmos especiosos motivos se dificultou a entrada da esquadrilha no Uruguai pelo Passo da Ilha de Martim Garcia, o que ultimamente se concedeu por se conhecer que de contrário se poderia usar de força.

No dia 2 de maio de 1818 penetrou pela primeira vez no Rio Uruguai a nossa esquadrilha composta da escuna Oriental e das barcas Cossaca, Mameluca e Infante D. Sebastião.

Todos os que iam por práticos dessas embarcações eram tão ignorantes da navegação do rio como qualquer dos comandantes, que pela primeira vez davam vista daquelas paragens de tão agradável perspetiva e tão pitorescas como as que se descobrem na província de S. Pedro do Sul, desde o Itapuã à cidade de Porto Alegre, cujo nome com tanta propriedade lhe foi dado.

A custa de fadigas e perseverantes trabalhos ia-se vencendo a viagem, e pode-se dizer que tal expedição tinha muita semelhança com a empreendida pelos primeiros navegadores que ousaram descobrir os mesmos inóspitos lugares.

Era do dever do comandante da esquadrilha abrir comunicação com o exército do general Curado o mais brevemente possível, e as dificuldades naturais que se iam vencendo e renovando tornavam a viagem de uma morosidade censurável e bem desgostosa.

Como a escuna Oriental e a barca Cossaca encalhavam menos vezes, sem dúvida por nadarem em menos água, deliberou o comandante da esquadrilha subir só com essas duas embarcações, deixando as restantes encalhadas com uma lancha para as auxiliar. Em poucos dias favorecidas do vento avançaram elas sem inconveniente bastantes léguas, e então, tornando-se o vento contrário, foi expedida rio abaixo a Cossaca para que, já mais senhora da navegação, pudesse servia às outras de guia seguro.

Dois dias depois voltou o vento ao sul, e aproveitando-o subiu a Oriental sem mais alguma outra embarcação que a acompanhasse. 

[5.5.1818] Na manhã do dia seguinte descobriram-se sobre a margem direita do rio (província de Entre Rios, por ser banhada pelos Uruguai e Paraná) dois cavaleiros, os primeiros homens avistados e que rapidamente se ocultaram apenas a Oriental se lhes aproximou; um pouco mais acima foi a Oriental canhoneada repentinamente por uma bateria à barbeta [posição de tiro da artilharia ao descoberto] com três bocas de fogo, situada em uma pequena aba que forma o arvoredo em toda aquela costa, chamando-se a paragem Paso de Vera, por ser lugar estreito e por isso fácil a comunicação de uma a outra costa. Travou-se o combate que duraria por três quartos de hora, havendo intervalos nos quais o fogo da Oriental fez calar o da bateria, desmontando-lhe uma peça com perda de alguns homens, o que visivelmente se conheceu pela proximidade.

Hora e meia depois estava a escuna fundeada próximo à margem esquerda do rio, costa oriental, e ao abrigo de uma ilha; o estrago recebido foi algum pano furado, uma bala cravada no mastro grande, dois rombos no costado e um homem da guarnição levemente ferido.

Para que a escuna Oriental chegasse até onde estava acampado o general Curado era preciso vencer ainda mais de quinze léguas rio acima, bater mais duas baterias colocadas do mesmo lado da costa em frente a Paysandú e no arroio Perucho Verna [c. 16 km a norte de Paysandú, na margem ocidental, imediatamente a norte da atual Villa San José] e atravessar as sinuosidades complicadas do no, que se tornavam difíceis porque a agua ia diminuindo, e portanto a desejada e necessária comunicação ainda tinha dias de demora.

Há sucessos porém que parecem determinados pela providência como presságios de grandes acontecimentos, e tal foi o combate de Passo de Vera.

A aurora do dia 13 despontava risonha e aprazível, o rio corria brando e cristalino e apenas era bafejado pela brisa do norte anunciando um belo dia.

O prazer reinava em toda parte e todos estavam satisfeitos quando se começaram a divisar alguns cavaleiros sobre as colinas vizinhas, cujo numero foi prodigiosamente aumentando e por isso se tornou suspeito. A escuna preparou-se para qualquer eventualidade e arvorou a bandeira nacional; a qual sendo por aquela multidão reconhecida causou uma cena de entusiasmo, que só pode conceber um coração também surpreendido por tanta alegria. Fizeram-se correrias em diversos sentidos como noticiando-se mutuamente; mil cortejos, tiros e vivas repetidos formaram com o retinir das armas um tumulto que só terminou com a chegada ao lugar do embarque.

Fácil é conhecer que tal gente pertencia ao exército brasileiro ao mando do general Curado, exército sempre aguerrido, triunfante sempre, enquanto lhe coube a sorte de ser comandado por general tão hábil e honrado, tão inteligente e integro, tão bravo e perfeito militar.

Na ocasião do combate o vento reinava pelo sul, e correndo o rio ao norte, brevemente chegou ao acampamento daquele exército o troar dos canhões, o que sendo ouvido pelo general fez expedir logo uma forca a descobrir a causa, e foi deste modo extraordinário que se abriu a desejada e necessária comunicação com maior rapidez do que razoavelmente se podia esperar.

Mal pensava o inimigo que por sua ostentação de força havia de ser ele mesmo com seu fogo quem acelerasse sua própria ruína!

Para logo o general resolveu dar movimento ás suas forças afim de distraí-las da inação em que já se achavam, e projetou um plano de ataque sobre a província de Entre-Rios, no lugar da costa onde havia um deposito de Artigas, estavam situadas as três baterias e estacionavam para mais de seiscentos homens de infantaria ao mando do coronel Aguiar.

As restantes embarcações da esquadrilha reuniram-se quatro dias depois de aberta a comunicação, tendo sido oportunamente avisadas da existência da bateria no Passo de Vera, com a qual trocaram sempre alguns tiros em sua passagem, navegando então com vento fresco em popa.

Na tarde do dia 18 intimou-se ao comandante da bateria que se rendesse, e que a vila do Arroyo de la China [atual cidade de Concepción del Uruguay] seria no dia imediato tomada e entregue ao saque, se a bateria não nos fosse entregue dentro de um prazo marcado.

O exército havia no entanto levantado o acampamento, e seguido uma direção que indicava querer aproximar-se à esquadrilha; fez porém alto logo que escureceu e separou-se um pouco da costa, para a qual destacou já noite escura e sem que o inimigo o percebesse uma coluna composta de quinhentos combatentes ao mando do intrépido Bento Manuel Ribeiro, pondo assim em ação a mais hábil estratégia.

E por um desses atrevimentos militares, que só concebe e bem executa o génio e a bravura, a coluna brasileira passou durante a noite ao outro lado do rio, com todo o seu armamento, munições, cavalhada, arreios e mais trem, auxiliada unicamente por uma lancha e duas canoas que cautelosamente se haviam ocultado ao inimigo; servindo de muito, para o bom desempenho de plano tão arriscado, o desembaraço e agilidade do nadar de quase todas as praças rio grandenses, que meteram corpos no rio dirigindo deste modo a cavalhada com destreza tal, que nem um só cavalo se perdeu; e antes do alvorecer a força achava-se em marcha sem ter sido pressentida pelo inimigo.

Proximamente a este intervalo as embarcações da esquadrilha espiavam a tomar posição conveniente para flanquear a bateria de Passo de Vera.

Toda a vigilância do inimigo pois foi chamada sobre a costa, e tão atento se achava que, por vezes, fez fogo sobre os escaleres que adrede se aproximavam.

Tarde, porém, deram os descobridores do inimigo com a nossa força, e hesitando por algum tempo sobre que gente era essa que avistavam, ficaram em inação, até que carregados por nossa vanguarda levaram com pouca diferença de tempo a noticia e o terror ao seu acampamento, que quase surpreendido mal soube se defender, sendo a bateria repentinamente abandonada mal reconheceu a posição de nossas embarcações, e sem que houvesse tempo de dar-se um só tiro.

E destarte, sem prejuízo nosso e em bem pouco tempo, o coronel Aguiar parte de seus oficiaes e mais praças do corpo do seu comando ficaram prisioneiros, excedendo em total ao numero de trezentos.

Todas as baterias foram tomadas e destruídas, sua artilharia e trem embarcados, menos duas bocas de fogo dos calibres 18 e 12 que por velhas e mui pesadas se lançaram ao rio.

Doze embarcações, que Artigas havia tomado em Buenos Aires, uma lancha artilhada e um escaler, foram apresados no arroio Perucho Verna, e nestas embarcações como em algumas da esquadrilha foram recolhidos os prisioneiros e todo o espólio.

Era então presidente e comandante em chefe das forças militares daquela província D. Francisco Ramirez [1786-1821], gaúcho  intrépido e afortunado, e que nessa ocasião se achava a doze léguas de distancia em seu parque com mais de seiscentos homens.

E à primeira noticia por ele recebida da nossa invasão, pôs-se em marcha para socorrer o coronel [Gorgonio] Aguiar, e castigar, como ele dizia, semelhante atrevimento; mas recebendo logo a participação de estar tudo perdido, reservou o prometido castigo para melhor ocasião, e pôs-se em retirada para a costa do Paraná, abandonando mais de cem homens há pouco por ele recrutados, os quais caindo em poder de Bento Manuel foram postos em liberdade, por se julgar que assim se prejudicava ao inimigo.

A distância que desde então ficou mediando entre as duas forças, era de natureza a não permitir a Bento Manuel o manobrar contra seu adversário sem carregar com o peso de uma grande responsabilidade: já porque a sua força constava unicamente de quinhentos homens, e tinha de atravessar toda a província inimiga, sem contar com mais recursos que os que pudesse acharem si; já porque nesse caso a separação do corpo do nosso exército era considerável pela distancia, e não era possível a junção com este em caso urgente e repentino; já finalmente porque as instruções o não permitiam.

A não se darem tão fortes razões estamos persuadidos de que a província de Entre-Rios cairia em nosso poder em poucos dias: tal era o terror e desanimo que, não só o sucesso recente como o das batalhas anteriormente ganhas, tinha impressionado nos espíritos de todos os seus habitantes, sem excetuar mesmo o do seu guerreiro mais denodado!

Oito dias depois estava reunida ao exército a coluna expedicionária, e este com mais mobilidade, melhor cavalhada tomada ao inimigo, e seu credito mais reforçado pelo bom resultado da expedição; e livre a navegação do Uruguai de todo o obstáculo por parte do inimigo por haverem sido tomadas e destruídas as baterias que o vedavam.

No dia imediato àquele em que tudo se tinha embarcado e posto em segurança, entrou na vila do Arroyo de La China o comandante da esquadrilha, antes que Bento Manuel nela tivesse penetrado.

Achavam-se ali, como emigradas, a maior, parte das famílias que Artigas tinha obrigado a evacuar as vilas da Purificación e Paysandú, para deste modo pôr em penúria o exército, que já com grande custo podia conseguir o gado necessário para o consumo diário, pois que o inimigo não havia retirado antecipadamente para grande distancia.

A exceção de algumas famílias pertencentes a indivíduos comprometidos e empregados no exército contrário, e domiciliárias da Purificação, todas as demais rogaram àquele comandante que as restituísse ao seu país e lar doméstico, o que efetivamente ele satisfez empregando-se quatro dias no transporte.

[...]

NOTAS

(2) Dava-se este titulo a Artigas com supersticiosa veneração, como meio poderoso contra a política de Buenos Aires.

Extrato retirado de: Revista Marítima Brazileira, Ano XXXII, n.º 1, Julho de 1912, Rio de Janeiro, Oficina Gráfica da Liga Marítima Brazileira, pp. 67-94. 


* * *

Edições das Memórias e Reflexões sobre o Rio da Prata:

- Edição original de 1849;

Revista Marítima Brazileira, Ano XXXII, n.º 1, Julho de 1912, Rio de Janeiro, Oficina Gráfica da Liga Marítima Brazileira, pp. 67-94. 

- Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, Ano XI, 2.º Trimestre, Porto Alegre, Tipografia do Centro, 1931, pp. 217-299 [ler aqui]

- Boletin Historico, n.º~100-103, Estado Mayor General del Ejercito, Montevideo, 1964, pp.177-202




28/09/2021

Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816 (J. J. Machado de Oliveira)

“Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816".

Autor: José Joaquim Machado de Oliveira (Legião de São Paulo)

Datas extremas: 18.3.1816 - 9.3.1820

(Publicado em Revista do Arquivo Municipal, Ano VI, Volume LXXII, Novembro-Dezembro 1940, São Paulo, Departamento de Cultura da Prefeitura, pp. 5-20) [Leia online aqui - abre nova página]

* * *



[Início]

1816. 1.ª Campanha. 

Março 18. Saí de Pôrto Alegre embarcado e com tropa - 23. Cheguei à Vila do Rio Pardo.

Julho, 29. Saí de Rio Pardo com tropa, e acampamos na Picada. 30. Na Cruz Alta. - 31. No Campo de Felipe Carvalho.

Agosto 1. No Arroio Butucaraí. Passo de cima. - 2. No Capão dos Enforcados. 3. No Passo de Jacuí, aonde se esteve o dia. 4. Ocupado na passagem do rio. - 5. A meia légua distante daquele passo. - 6. No Passo da Estiva. – 7. Na Restinga Seca, estância de Antônio Gonçalves Borges. - 8. No Arroio do Sol, aonde se esteve também o dia 9, por chover muito. - 10. No capão de Manuel Paim. - 11. No Arroio de Santa Maria. - 12. No capão da eståncia do Pompeu. - 13. No rodeio velho das éguas do Felipinho ou Felipe Santiago. - 14. Na estância do Serino (Cirino ?), irmão de meu pag. (pagem ?) Domingues. - 15. Na estância do tenente-coronel Carneiro, ou Pau Fincado. — 16. Na estância de Manuel Ferreira, seu genro. - 17. Na estância de São Felipe. - 18. Na margem esquerda do Arroio Cacequi. Morreu afogado o cabo Malaquias. - 19. Ao pé da estância do inglês Daniel Luiz Carlos. - 20. No Passo do Rosário, aonde estivemos até o dia 29. - 30. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 31. No Vacacuá. estância de Antônio Caetano. 

Setembro 1. Na Guarda da Conceição. aonde estivemos os dias 2 e 3. - 4. No Arroio da Porteira (?) ao pé da estância de Inácio Adolfo. -. 5. No Pôrto do Alferes Pinto.- 6. Nas cabeceiras do Ibirapuitã Chico, aonde estivemos o dia 1. - 8. No campo de João da Costa. - 9. Em São Diogo. - 10. ... pontas do Arroio de Valença. - 11. Acampamos no Boqueirão das Lagoas - 12. Na tapera do Leme, ou Capão do Cirurgião. Ali chamando-nos o Abreu (tenente-coronel José de Abreu) a conselho, decidiu-se que deviamos ir à Provincia das Missões, já invadida pelos insurgentes deixando a nossa marcha para Belém. - 13. No Suaraim chico. - Passo das carretas 14. No Arroio Garopá. - 15. No Arroio Camoatim. - 16. No Arroio Caoati.  -- 17. Num dos galhos do Toro-passo. - 18. No Arroio Toro passo, aonde estivemos o dia 19, passando 0 Arroio, que estava de nado. - 20. No Arroio Cochi-passo. Foram vistos alguns bombeiros (espiões) do inimigo. - 21. Na estância do Aferidor. Ali fizemos passar para o outro lado do Uruguai os Insurgentes, que se achavam, tanto na estancia, como no Passo de Santa Maria no Ibicui, aprisionando-se 2 homens e 6 mulheres (?) e alguma cavalhada. Falhamos o dia 22. - 23. No Ibiraocaí - 24. Acampámos no Ibiricui, aonde estivemos passando o dia 25. - 26. Na estância de Joãozinho de Oliveira. Neste dia bateram-se duas partidas inimigas, que andavam em saque. Foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 26 insurgentes. - 28. Na estância do Padre Alexandre, aonde falhámos o dia 29, por chover muito. Foram vistos dois bombeiros (espiões) do inimigo. - 30. No capão de João Machado. 

Outubro 1. Na margem direita do Arroio Butuí, de nado. - 2. Além do Banhado de S. Borja. Ali estivemos até o dia 4. 5. No outro lado do Banhado de S. Borja. - 6. Neste dia fomos. ao Butuí, na sua barra, como não encontramos uma partida inimiga que ali fôra vista, retrogradamos... chovia. - 7. Acampamos no Povo de S. Borja, e ali estive até o dia 23, ocupado numa inquirição - 24. No Ivaí, aonde estava a divisão. - 25. No Capão de Butuí. - 26. No Butuí-chico. - 27. No pôrto da estância de Santa Rosa. - 28. No Ibicuí, Passo de S. Rosa e ali nos demoramos o dia 29 na passagem. -- 30. No capão da estância do tenente Olivério. - Na margem esquerda do Ibirapuită, Passo Guassú.

Novembro 1.º No Pai-passo. 2. Na tapera de Inácio dos Santos Abreu, – 3. Em S. Diogo. Ali se achava o Regimento da Ilha. - 4. No acampamento do Ibirapuitã, aonde estava o exército, Ali estivemos até 20 de dezembro.

Dezembro - 25. Marchou todo o exército e acampamos ao pé da estância do Cláudio. - 26. Saí para o Côrpo da Vanguarda, e acampamos ao pé da tapera do Cláudio, aonde se falhou o dia 27. - 28. Acampamos no campo de Juca Mingote. - 29. No Indahim, onde se falhou o dia 30. - 31. A vanguarda marchou um quarto de légua sobre a frente, aonde se falhou o dia 1.º de janeiro de 1817. 


1817.

Janeiro 2. No Arroio Catalã. A vanguarda marchou às 6 da tarde para o Arapeí, chegou alí a 3, atacou o acampamento inimigo e voltou no mesmo dia para Catalã, aonde chegou às 7 da tarde. No dia 4 houve nesse lugar a batalha de Catalã, e falhou-se o dia 5. - 6. Num dos galhos do Arroio Catalã, aonde se falhou os dias 7. 8. 9 e 10. - 11. Na barra do Catală, aonde se falhou os dias 12, 13, 14 e 15. - 16. No Suaraim, no Passo do Lageado. Dêste lugar saí em diligência para Pôrto Alegre a 29 e fui pernoitar na estância de João dos Santos Abreu. 30. No porto da estância de Joaquim Luiz - 31. Na estância de capitão Brito.

Fevereiro 1. Na estância do tenente-coronel Antônio Pinto. - 2. Na estància de S. João. - 3. Pernoitei nos Morais. - 4. Na Cachoeira. - 5. Em Rio Pardo. - Embarquei para Porto Alegre. - 8. Em Porto Alegre, aonde estive até o dia 3 de março, e embarcando com tropa para o Rio Pardo, ali cheguei no dia 11.

Março 15. Saimos de Rio Pardo e acampamos no Capão da Vendinha do Arroio das Pedras. -16. No Butucaraí. Passo da Ponte. - 17. No Passo de S. Lourenço no Jacuí, 18. Em Santa Bárbara. - 19. Na estância do Corcundinha. - 20. No Arroio da estância do capitão Freire - 21. No ... de Luiz Machado - 22. Na estância do Padre João de Almeida. - 23. No Vacacaí, estância do coronel Pinto. - 24. No pôrto velho do Batoví. -- 25. No Passo de S. Borja. - 26. No Capão do Severo. - 27. Na Guarda da Conceição, donde se falhou o dia 28, por quebrar-se o eixo do carro. 29. Acampamos no pôrto de Joaquim Luiz. - 30. Na Estância do Tulio. 31. No campo de Juca Mingote.

Abril 1. No acampamento do exército no Suaraim, aonde estivemos até 20 de março de 1818, e a 21, marchando o exército, saí daquele acampamento com a tropa comandada pelo coronel Abreu, e acampamos no Arroio Sarandi.


1818.


Março 22. Nas pontas do Sarandi. - 23. No Arroio do Areal, estância do Guarda-mor. - 24. No Capão do Tigre, estância de Joaquim Pôrto. ---- 25. Nas pontas do Nhanduí, onde se falhou o dia 16, por chover. -- 27. No capão da estância de Gaspar Nunes. - 28. Na capela de Alegrete. Saí dêste lugar para Porto Alegre em diligência no dia 3 de junho e fui pernoitar na estância do Dornellas.

Junho 4. Na estância do major João Machado Bitancourt. - 5. Na estância do Severino. --- 6. Pernoitei na estância do capitão José Machado. - 7 No pôrto da estância de S. João. - 8. Na estância do alferes Machado.- 9. Na freguezia da Cachoeira. – 10. Na vila de Rio Pardo, aonde embarquei no dia 11, e no dia 12 cheguei a Pôrto Alegre.

Saí de Porto Alegre em 6 de novembro, embarcado, e cheguei a Rio Pardo a 12 do dito, de onde saí a 23 e pernoitei na chácara do capitão Bernardo. - 25. No Passo de S. Lourenço.-- 26. Em Santa Bárbara. -27. Na estância de Manuel Rodrigues Penteado. - 28. No Adolfo. 29. Na tapera de Luiz Machado. - - 30. Na estância do padre João de Almeida.

Dezembro. 1. Na capela de S. Gabriel. - 2. Na cochilha de Jubatuim. - 3. Na estância de Antônio Francisco. -- 4. No Passo do Rosário. - 5. Na estância da Côrte Real, no Capão. 6. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 7. Na estância do capitão Florêncio. -- 8. Na estância de José Maria. - 9. Na capela de Alegrete. Primeiro movimento da guarnição para a fronteira. A 25 de dezembro saiu de Alegrete a guarnição e foi acampar no Arroio Pai. Passo. - 26. No mesmo Arroio. No Passo da Marmota. - 27. Na estância da Marmota. -- 28. Numa das pontas do Pai-Passo. - 29. 


[1819]

Em outra ponta do dito, aonde estivemos até o dia 4 de janeiro de 1819, e no dia 5, marchando-se para a fronteira, soube se que o inimigo se retirara, e por conseguinte retrogradou-se, e acampamos no arroio da divisa do Marmota. 6. No lado esquerdo do Ibirapuitã. - Passo guassú. 7 - Na capela do Alegrete.

Segundo movimento. A 1.º de Abril saímos da Capela de Alegrete, em consequência da segunda invasão das Missões, e acampamos a meia légua distante dali, à margem do mesmo Ibirapuitã, e dêsse lugar passamos para o Pôrto das Pedras, ao pé da Capela, a 10 do dito mês. A 17 chegou o sr. Conde da Figueira, e a 20, movendo-se a divisão, acampou do outro lado do Ibirapuità - Passo guassú. 

Maio 21. Num capão do campo do Joaquim Machado. 22. No Ibicuí, Passo de S. Rosa, aonde nos demoramos a passá-lo o dia 23. ---- 24. No Pôrto de .... de S. Rosa. -- 25. Nas pontas do Butui. - 26. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel -- 27. No Camacuã. Ali nos reunimos com a tropa do marechal Chagas. -- 28. No Itaraoquim. 29. No capão do pôrto do Severino. - 30. Piratini, Passo Novo da Figueira. -- 31. Ao anoitecer marchamos, e ao amanhecer paramos em uns capões ao pé da estância de S. Jerónimo. 9.

Junho 1. Ao anoitecer marchamos e fomos amanhecer no dia 2 no Povo de S. Luiz, e acampamos fora - 3. Acampamos dentro do Povo de S. Luiz, aonde estivemos até o dia 9. 10. No Passo de Pirajú. - 11. Nuns capões de S. Jerónimo. -- 12. Estando assentado... no Arroio Guaraçá, marchamos para o Povo de S. Nicolau, por saber que o inimigo o evacuava. - 13. Marchamos com destino para o Passo de S. Isidoro, e por se achar o Arroio Jacatobá de nado, aí acampamos. - 14. Meia légua distante do Passo Geral do Piratini. 15. Apartando-se a Legião da divisão, para unir-se ao Côrpo de Abreu, acampou no capão do Porto do Severino.- 16. Em Itaroaquerim. - 17. Na estância de S. José, do Chagas, - 18. No Passo de S. José do Camacuã. -- 19. No G...iaçai, aonde se achava a tropa do Abreu. - 20. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel... 21. Nas pontas do Butui. - 22. Acampamos no capão da estância do Cunha. -- 28. No Ibirapuitã, Passo guassú.- 29. Na Capela de Alegrete.

Julho - Nos dias 4, 5, e 6 de julho marchou a divisão do brigadeiro Abreu, e eu fiquei para me retirar para Pôrto Alegre em consequência do meu emprego. - 31. Saí da Capela de Alegrete e pernoitei na estância de Felipe Carvalho.

Agosto. 1. Em Taperí, chácara de Joaquim Leonel. 2. No banhado de Saicã, meia légua distante do Pôrto da estância de Antônio Franeisco. -- 6. Na estância do major Tomaz 7. Na Capela de S. Gabriel, aonde falhei o dia 8. - 9. Na estância do tenente-coronel Antônio dos Santos - 10. Na estância do Mancio. - 11. Na estância do Quartel Mestre. - 12. Pernoitei na estância do Machado Gordo, ao pé da estância do tenente Ricardo. -13. Na chácara de Manuel Joaquim Teixeira no Capão dos Enforcados. 14. Na Cruz Alta. - 15. Em Rio Pardo, aonde embarquei a 17, e a 19 cheguei a Porto Alegre.


2.ª Campanha, 1820. 

Janeiro. Na noite de 2 saímos de Porto Alegre com & infantaria e a artilharia do meu comando, e chegamos a Rio Pardo a 8, e no mesmo dia acampamos no lado direito do Passo do Rio Pardo. - 9. No capão da Cruz Alta. - 10. No Passo de S. Lourenço no Jacuí. - 11. Nos Morais. - 12. No Arroio do Lageado, divisa de S. Jo... 13. No Passo de Carutaí. - 14. No Arroio do Lageado no campo de S. Fidélis. -- 15. No Passo de S. Borja. - 16. Na estância de Placido Severo. - 17. No Passo de Ibicuí-Chico. - 18. Acampamos duas léguas distantes de Itaquatiá. - 19. Em Itaquatiá, aonde estava o exército. - 20. Na tapera de d. Ramon. --- 21. Chegámos ao Passo do Sutil no Cunhapirú, e aí, esperando a noite, marchámos para o Taquarembó Grande, aonde chegámos na manhã de 22, em que atacamos o inimigo e o derrotamos. Aí estivemos nos dias 23 e 24. - 25. Retrogradamos para o Passo do Sutil. - 26. Acampamos no Cunhapirú. - 27. Nas pontas do Ibicuí. - 28. Nos morros de S. Ana. - 29. No Sarandi, - 30 No Funchal. --- 31. No Pai-Passo, pontas.

Fevereiro. - 1. No Passo do Pai Passo. - Em Alegrete. Aí ficamos até o dia 21. - 22. No Arroio do Lageado. - 23. No Arroio Jaguaquá. - 24. No tenente-coronel João Machado. - Falhamos o dia 25, por chover. - 26. Acampamos no Arroio Cacequí. - 27. Em S. Gabriel. - 28. No Fidélis, aonde estivemos o dia 29.

Março. - 1. No Arroio .... 2. Na tapera de Luiz Machado. 3. No Passo de S. Bárbara. - 4. Na estância do tenente Ricardo.- . No Arapoá. - 6. Na estância do Bibiano. - 7. No Arroio Francisquinho. - 8. No Arroio dos Ratos. – 9. Em Porto Alegre".

[Fim]


* * *


Pequena biografia

O capitão José Joaquim Machado de Oliveira nasceu em São Paulo, a 8 de Julho de 1790, filho do  tenente coronel Francisco José Machado de Vasconcelos e de D. Ana Esmerina (Esméria ou Esmênia) da Silva.

Com um ano e meio de idade, o pai assentou-lhe praça mas só em dezembro de 1807, já com 17 anos, foi reconhecido cadete.  É Alferes em 1809, tenente em 1811 e, finalmente, graduado em capitão em 13 de Maio de 1813, pelos seus serviços na Campanha de 1811-12.

Em 1816, com cerca de 26 anos, é capitão de infantaria da Legião de Voluntários Reais, de S. Paulo, e participa com distinção, nos combates do Passo de Yapeyú e na batalha de S. Borja, e, já em Janeiro, na Surpresa de Arapey, sempre sob o comando direto do tenente coronel José de Abreu.

26/08/2021

Batalha de Catalán por uma Testemunha Ocular, 4 dias após o evento (Inácio José Vicente da Fonseca)


A carta do tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, o mais graduado oficial de artilharia da Legião de Voluntários Reais de São Paulo, ao coronel Vicente Ferrer da Silva Freire, de 8 de Janeiro de 1817, 4 dias após a grande batalha de Catalán, relata o recontro de um forma pessoal, estando ele no centro da posição portuguesa, equidistante da ala esquerda que, apeada, sofreu o assédio dos orientais, e da carga de cavalaria oriental na ala direita que foi rechaçada por  Sebastião Barreto e José de Abreu (carga esta a que Artigas atribui a derrota oriental). Adicionalmente, Vicente de Fonseca, enquanto artilheiro e “official scientifico” por excelência, é bastante pormenorizado na sua descrição.

Conforme escreveu Vicente de Fonseca na epístola, e serve para nós que o lemos 200 anos depois, “aqui tem V. S.ª o rezultado das Acçõis do dia 3 no Quartel General de Artigas, e do dia 4 na margem direita do Arroio Catalan, da qual tenho a felicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas bálas tão poucos palmos distantes do meo Corpo”.

Carta do tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, da Legião de S. Paulo, a Vicente Ferrer da Silva Freire (rio Quaraím, 8 de Janeiro de 1817)

[transcrição com ortografia modernizada retirada do Archivo Artigas, Tomo 33, páginas 14-19]

[...]
Tendo o excelentíssimo senhor marquês de Alegrete chegado ao nosso campo do Ibirapuitã a 15 de Dezembro do passado, e sabendo pelos nossos bombeiros que os insurgentes se reuniam com grande força e que pretendiam ir atacar-nos naquelle lugar, resolveu, que deviamos então encontrá-los, e conseguintemente levantámos  o Campo a 25 dirigindo-nos para o Quaraí. 
Passamos este Arroio no dia 31, e falhámos ao 1.°, e tendo neste dia os nossos bombeiros  agarrado 3 bombeiros do inimigo, soubemos destes, que Artigas tinha o seu quartel general no lugar denominado o Potreiro nas imediações do Arapey, aonde somente existiam 400 e tantos homens, e que tinha feito marchar deste lugar o major general Latorre com perto de quatro mil homens, e duas peças de calibre 4, a este tempo já os nossos espias descobriram bombeiros, e pequenas partidas do inimigo pela nossa retaguarda, mas como julgámos que a força maior estava pela nossa frente, levantamos o campo no dia dois, e avançámos 4 léguas e meia, e acampamos na  margem direita do arroio Catalán. A posição de nosso campo era elevada e própria para poder a artilharia operar por todos os lados tinhamos, o flanco ([esquerdo]) direito apoiado por uma sanga, à frente, e flanco esquerdo por pequenas sangas, e a retaguarda pelo arroio ainda que fraco por ser cortado por várias partes.

Neste mesmo dia fez o senhor marquês marchar a nossa avançada que é comandada pelo tenente coronel de milicias José de Abreu composta de 500 homens (milicianos de Entre Rios, algumas guerrilhas de paisanos, 100 homens de infantaria da Legião de S. Paulo, e 2 peças de calibre 3 comandadas pelo tenente Luz formam os mencionados 500  homens).

Saíram ao pôr do sol com ordem de marchar toda a noite para na madrugada do dia 3 surprenderem a Artigas no mencionado potreiro, mas apesar de terem marchado toda a noite chegaram a esse lugar uma hora depois de amanhecer, e por este motivo foram percebidos pelas guardas avançadas do inimigo, e pode Artigas escapar se precipitadamente deixando a sua carretilha, e até mesmo o seu ponche, escaparam muitas familias, e a maior parte da guarnição, e uma porção que ainda não tinha fugido foram derrotados pelos nossos depois de fazerem uma grande resistência.

Artigas tinha escolhido um lugar para seu quartel general aonde a Cavaleria não podia operar, e por isso somente a artilharia e infantaria de S. Paulo, e poucos de cavalaria a pá decidiram desta acção, (ouvimos os tiros de artilharia, e seriam 8 horas da manhã) a perda do Imimigo consistio em setenta e tantos mortos incluso um ajudante, 6 prisioneiros, ficou em nosso poder a carretilha de Artigas, 1500 mil e quinhentos cavalos, e algumas munições.
A nossa perda consistiu em dois soldados mortos da infantaria de S. Paulo, que foram os primeiros que investiram o mato, e 4 feridos da mesma infantaria sendo 2 gravemente. 

O valente tenente coronel Abreu pretendia perseguir a Artigas, mas sabendo dos prisioneiros, que Latorre tinha avisado a Artigas, que no dia 4 pretendia bater os portugueses, e que nesse mesmo dia estaria com ele vitorioso no potreiro, com esta notícia (apesar de não ter a nossa tropa comido, e nem dormido) picou a marcha o tenente coronel Abreu para reunir-se a nós com a brevidade possível, o que conseguiu no mencionado dia 3 depois de anoitecer; com a chegada do Abreu deram-se as ordens necessárias, e foram, que às três horas da manhã estaria toda a cavalcria montada, e toda a mais tropa debaixo de armas, mas assim não aconteceu por causa das facilidades, estivemos com efeito debaixo de armas às horas determinadas, porém só a cavalaria de S. Paulo estava montada, e Dragões e Milicianos não tinham pegado cavalos. E se não fosse a artilharia, e o valor da nossa tropa, o inimigo teria a conseguido uma completa surpresa.

Eram 4 horas e meia, e naquele momento tinha o nosso clarim acabado de tocar a alvorada, quando um chefe de guerrillas, que guardava uma nossa cavalhada que estava sobre o nosso acampamento no flanco esquerdo, presentiu os charruas avançarem para roubá-la, mandou logo disparar oito tiros, e reuniu-se a nós com a cavalhada que pode, eu estava na bataria do centro que é composta de 4 obúses, conversando com o major Pitta que é o comandante desta divisão de artilharia.

Principiámos logo a ouvir o grande alarido que costumam fazer estes bárbaros, e a descobrir um grande negrume por todas a coxilha que estava pela nossa frente, flanco, esquerdo e retaguarda. A nossa tropa dispos-se imediatamente para entrar em ação, e o inimigo aproximava-se cada vez mais tocando a sua música com grande desafogo.

A este tempo que seriam passados 5 minutos depois que foram percebidos, apareceu logo o senhor marquês na frente da tropa montado a cavalo animando-a com muita coragem, e vendo que o inimigo ja estava pelo nosso flanco esquerdo em distância de fuzil, mandou logo romper o fogo de artilharia, o que se executou prontamente, e tive então o gosto de ver laborar ao mesmo tempo toda a artilharia do meu comando, estava disposta em divisões sendo a do centro comandada pelo major Pitta, e composta de 4 obúses que lancaram granadas que fizeram um efeito terrível, a divisão da esquerda composta de 3 peças de calibre 6 é comandada pelo capitão José Olinto, a da direita composta de 2 peças de calibre 3 pelo tenente António Soares, as duas peças de 3 comandada pelo tenente José Joaquim da Luz estavam postadas num corpo de reserva que guardava a cavalhada, o inimigo respondeu-nos logo com o seu fogo de artilharia, as suas balas passavam muito altas, mas sempre acertaram com uma bala em um reparo de uma peça de 6 que chegou a partir o eixo de ferro. 

A cavalaria inimiga atemorizada pelo nosso fogo amiudado de artilharia e não se animou a avançar, estava formada em 2 linhas em número de mais de dois mil homens, a infantaria inimiga formada na frente da cavalaria em duas fileiras, e com grande intervalo de um a outro soldado desceu a coxilha por baixo do fogo de artilharia, passou uma sanga, e apareceu-nos pela frente em pequena distância de onde nos deu uma descarga cerrada.

A este mesmo tempo os lanceiros charruas carregaram sobre o nosso flanco direito, o senhor marquês correu para este flanco pelo meio das balas, e fez avançar uns cento e cinquenta e tantos dragões que já se achavam montados para rebater os charruas, e imediatamente tocar a degola fazendo avançar a brava infantaria de S. Paulo de baioneta calada, foi quando vi com muita satisfação estes meus valentes patrícios correrem por um terreno cheio de pedras que mais parecia voarem do que correr. Levando por diante uma poeira a infantaria inimiga a bala, e ponta de baioneta fazendo-lhes fogo mesmo à queima roupa.

Nesta mesma ocasião avançou o bravo e incomparável tenente coronel José de Abreu com 300 homens pouco mais ou menos que eram milicianos de Entre Rios, cavalaria de S. Paulo, Dragões, Milicianos, e algumas guerrilhas de paisanos, e com este punhado de homens valentes pôs a cavalaria inimiga em vergonhosa fugida perseguindo-os, e fazendo uma grande mortandade até à distância de 3 léguas, tomando muitos cargueiros de munições, e cinco mil e tantos cavalos.

Enquanto o tenente coronel Abreu perseguia a cavalaria, a infantaria de S. Paulo, e os Milicianos do Rio Pardo, e Porto Alegre a pé por não terem tido tempo de pegar cavalos continuaram um vivo fogo contra uma grande porção da infantaria inimiga que se tinha emboscada em um pequeno mato, fizeram uma resistência terrível, mas nada pode vencer ao valor das nossas tropas, e não tiveram remédio senão depôr as armas uns 239 que ainda viviam, entre estes 6 oficiais um dos quais é sobrinho de Artigas, e também há um inglês.

A força inimiga era composta de 3200 homens, sendo mil e tantos de infantaria, tinham duas peças de artilharia, e mais 400, e tantos homens que guardavam a cavalhada. O comandante em chefe era o major general Latorre, o coronel Mondragon o comandante da cavalaria, e o coronel Berdún comandava a infantaria e artilharia. Dizem varios prisioneiros que Berdún morrera, porém esta notícia ainda não se verificou, e por isso não dou como certa.

A nossa força era composta de dois mil duzentos e tantos homens, e 11 bocas de  fogo, mas em rigor entrariam na acção 1300 a 1400 homens, ficando os mais guardando as cavalhadas, boiadas, e bagagens.

Da relação junta verá V. S. qual foi a nossa perda, uma grande parte dos nossos feridos foram gravemente, e já tem morrido muitos: a perda do inimigo foi considerável, contam-se em pequena distancia 468 mortos inclusos muitos oficiais, e não se contaram os que ficaram estivados por esse campo até a distância de 3 léguas.
Ficaram prisioneiros 239 inclusos 6 oficiais, (dos prisioneiros já tem morridos uma grande parte dos feridos) tem-se apresentado até hoje vinte e tantos, tomámos a sua artilharia que eram duas peças de calibre 4, uma carreta com muitas munições de infantaria e artilharia, muitos cargueiros com munições, 5000 e tantos cavalos, um estandarte, caixas de guerra, instrumentos de música, e muito armamento, pode-se avaliar por um cálculo bem aproximado que a perda do inimigo entre mortos, prisioneiros, e aprezentado excede a mil homens.

O fogo durou até às onze horas e três quartos da manhã. O senhor marquês correu depois por todas as fileiras dando mil agradecimentos a toda a tropa, que assim mesmo fatigada, e muitos lavados em sangue das feridas que tinham recebido gritavam com grande corágem, que estavam prontos para principiar já outro combate, então o senhor marquês dava mil vivas a sua Majestade, que eram mutuamente correspondidos por toda a tropa, e todo se finalizou com uma salva real de 21 tiros de artilharia.  

À tarde o senhor marquês assitiu ao funeral dos nossos oficiais mortos, e foram carregados pelo senhor marquês, senhor tenente general Curado, brigadeiros, estado  maior de S. Excelência, etc.  

Demoramo-nos no campo da ação o dia 4, e 5 ocupados em enterrar os nossos mortos, e curar os feridos, a senhora marquesa tem zelado dos doentes com  muita caridade,  desfiando panos com suas própias mãos para se curarem as  feridas. 

No dia 6 avançámos 3 léguas para baixo do mesmo arroio Catalán para fugir da podridão que já infeccionava o campo, e aqui nos conservamos sem por ora saber de nosso destino sobre a marcha.  

Os nossos bombeiros chegaram hoje, e dizem que a reunião dos dispersos é na Purificação, e consta que Artiguinhas  já passou o Uruguay para este lado em Japejú, e que se reuniu a Artigas com 1500  homens. Eu estou persuadido que os homens se reúnem com grande força e que breve teremos outro divertimento, tão bem estou persuadido que Artigas não nos aparece agora com menos de 5000 homens, o que pode conseguir com a junção de Otorgués, e hão de continuar a aparecer-nos em quanto restar a Artigas um único homem.  

Esqueceu-me referir que o inimigo já nos tinha tomado na nossa retaguarda treze carretas de vivandeiros que vinham com uma marcha de diferença da nossa, e eram o mulato Romualdo, e o José Cabeça, mas todas foram restauradas no dia da acção, e felizmente todos os vivandeiros que eles conservavam prisioneiros, e não tiveram tempo de matar um só.

O meu camarada e amigo major Rosário [António José do Rosário, Inf LTL] caiu morto ao meu lado esquerdo logo das primeiras balas do inimigo, ele certamente nem soube de que morreu, que tão repentina foi a sua morte de uma bala que lhe passou ambas as frontes, logo o mandei carregar para baixo de um carro de munições, e o mandei cobrir com um ponche. 

Os capitães Prestes [José de Paula Prestes, RegDrag], e Corte  Real [Francisco de Borja de Almeida Corte Real, RegDrag], e o secretário de Dragões [Eleutério Severiano dos Santos Pereira]; o valente furriel Moura [Mateus José de Moura] da cavalaria de S. Paulo, e o cadete da mesma cavalaria filho do coronel engenheiro de S. Paulo [Manuel Joaquim Carneiro de Fontoura] morreram todos trespassados de lanças dos charruas, e o ajudante Marçal foi ferido de cutiladas na cabeça. O tenente Joaquim Maria baleado em uma coxa, o capitão Gaspar ferido num pé.  

Entre os prisioneiros acham-se 3 portugueses, um dos quais é da infantaria de S. Paulo desertado em Maldonado na campanha passada. Persuado-me que o senhor marquês os mandará arcabuzar.
Pelo balanço que acabo de dar ao parque vejo, que a artilharia deu cento e quarenta e quatro tiros, que talvez fosse a nossa redenção, pois além do estrago que fez, deu tempo para se pegarem os cavalos que deviam estar pegados antes das 3 horas da manhã. No potreiro  deram-se além destes 13 tiros de artilharia. Distribuiram-se onze mil e tantos cartuchos de espingarda, e sete mil e tantos de clavina. 

Aqui tem vossa Senhoria o resultado das ações do dia 3 no quartel General de Artigas, e do dia 4, na margem direita do Arroio Catalán, da qual tenho a felicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas balas tão poucos palmos distantes do meu corpo, tendo assistido já em uma e já em outra divisão de artilharia que fizeram um vivo fogo sobre a frente, flanco esquerdo, e retaguarda.  

Nada sabemos de combinação com os Talaveiras, sabe-se que Santa Teresa foi retomada por Fructuoso Ribeiro, e Serro Lárgo por Otorgués.

(...)

Campo da Margem direita de Arroio Catalan 8 de Janeiro de 1817
Ignacio Jozé Vicente da Fonseca

03/09/2019

Memórias do coronel Francisco de Paula Azeredo: V (Final)


Memórias do coronel Francisco de Paula Azeredo: Parte V
Desde a Batalha de India Muerta, a 19 de Novembro, até à tomada de Montevideu e início da ocupação portuguesa.

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Com a chegada ao campo inimigo restabeleceu-se a disciplina nas tropas, que estavam bastante faltas d'ella pela sua longa demora nas Pelotas, o que é sempre muito prejudicial aos exercitos, que marcham em paiz estrangeiro. Não foi dos mais atacados da febre d'indisciplina o regimento que commandava o Coronel Azeredo.

Em pequeno numero foram as deserções, e insignificantes as faltas commettidas. Para isto concorreu essencialmente o exemplo e firmeza do Coronel. Para poder punir os soldados apresentou para modêlo a sua propria conducta, e começou castigando as faltas dos officiaes mais graduados do seu regimento. ".

O Tenente-coronel João Chrysostomo Calado, sem solicitar licença, ausentou-se por tres dias, indo á villa do RioGrande. No seu regresso, o Coronel mandou-o immediatamente prender, e deu parte ao Commandante da brigada o Brigadeiro Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro: esta falta foi publicada em ordem do regimento, e d'ella aproveitou o reprehendido, que tendo sido sempre um official valente, se tornou depois irreprehensivel.

Ainda então estavam presentes na memoria de todos os officiaes, que faziam esta campanha, as ordens do dia do exercito do Marechal-general Lord Beresford, que nas de 23 d'outubro e 2 do dezembro de 1810 manda lançar a nota de desertor ao official que se conservar ausente do acampamento mais de vinte e quatro horas. Tão sevéro era em punir como indulgente em perdoar, quando a voz da clemencia se podia escutar sem prejuizo da disciplina.'Tambem não soffria a menor quebra na sua dignidade como commandante do regimento, não consentindo que se executasse ordem superior, que lhe não fosse communicada directamente, e tambem intercedia sempre pelos seus subordinados, quando via que os superiores os vexavam sem razão. Isto o tornou amado de officiaes e soldados, que o acompanhavam alegres e cheios de confiança.

Depois dos acontecimentos que acima se referem, teve logar o combate da India-Morta, em que o regimento d'infanteria n.° 2 não tomou parte. Westa acção commandou o General Manoel Sebastião Pinto d'Araujo, e combateu n'ella com grande denodo, como costumava, o Major Jeronymo Pereira de Vasconcellos, estando gravissimamente enfermo quando entrou em fogo : depois d'esta acção passou este official para o regimento do commando do Coronel Azeredo.

A marcha da brigada foi demorada, estacionando por muitos dias nos diversos acampamentos em Roxa e em S. Carlos. A estação era magnifica, pois a marcha se fez desde e mez de novembro até ao fim de Janeiro de 1817, em que as tropas deram entrada na praça de Montevideu ; comtudo este paiz é por tal forma açoitado pelos ventos do poente, chamados pamperos, que mesmo n'esta estação a permanencia nos acampamentos se tornava muito incommoda.

N'essas solidões immensas, regadas pelo Uruguay e pelos seus confluentes, sob o ceo do Cruzeiro, a vida dos expedicionarios se passava na monotonia dos campos, varados pelos ventos, batidos pelas trovoadas, ensopados pelas chuvas meridionaes.

Ahi as saudades da patria, augmentadas pela immensa distancia que a separava, eram exacerbadas pela falta de conforto, pelo máo sustento, pela pequena e demorada paga. O pão era de péssima qualidade, e ainda assim diminuido de seis onças de pêzo sobre o que determinava a ordenança; o serviço do commissariado era feito só com a mira no ganho immoral; e a carne mesma, não obstante a abundancia do paiz, era por vezes tão ruim, que os soldados a recusavam, e não tinham que comer. No meio d'estas inclemencias e contrariedades, o regimento do commando do Coronel Azeredo não leve um unico desertor desde a sua marcha das Pelotas pelo pontal de S. Miguel, onde os dois paizes s'extremam, até á praça de Montevideu, sobre o rio da Prata: por este motivo, o Capitão-general commandante em chefe elogiou, em ordem de divisão de 7 de março de 1817, o excellente comportamento do Coronel e do regimento que commandara n'esta longa e penosa marcha.

A cidade de Montevideu, edificada n'uma peninsula, tem um aspecto risonho pela sua construcção em amphitheatro: suas ruas não são calçadas, e as casas tem apenas um andar com terrassos servindo de telhados. A falta d'aguas a que está sujeita, obriga os habitantes a aproveitar aquellas que provém das chuvas, que recolhem em cisternas. No tempo em que a expedição portugueza chegou ao Rio da Prata estava Montevideu n'um estado florescente: mais tarde as guerras continuas, os bombardeamentos e as devastações não interrompidas tem enfraquecido o seu primitivo esplendor. Não obstante todos estes desastres e calamidades, as republicas argentinas tem progredido, e segundo a descripção de mr. Martin de Moussy, a civilisação e os fructos da liberdade mesmo incompleta apparecem por cima das ruinas e dos massacres.

Ao contemplar o vasto golfo do Rio da Prata, o Coronel Azeredo não pôde deixar de sentir a impressão d'enthusiasmo que transparece nos cantos inspirados de Cooper, Echeverria e Gongol, poetas que de diversas regiões do globo vieram celebrar as grandezas do vasto imporio das aguas do Uruguay e do Paraná, e prestar a sua admiração ás interminaveis planicies, e aos pampas, de que se compõe este paiz na sua magestosa uniformidade, cujos limites são só o horisonte. Um porto de mar com uma abertura de cincoenta legoas e com a extensão de sessenta, deve ser o mais admiravel panorama. Assim elle serve de ponto de reunião ás esquadras de todas as nações da terra, e pelos rios que n'elle desaguam são levados e conduzidos os productos d'importação e exportação d'esta vasta e esplendida região, a que Martin de Moussy déra o nome de Mesopotamia argentina.

Esta bella região tem sido o theatro de guerras devastadoras. Na época em que os portuguezes foram ao Rio da Prata, a historia das suas luctas estava apenas em começo. Artigas assolava as ricas provincias argentinas, declarando-se o defensor da liberdade e dos povos. O exercito portuguez veio tomar parte nesta lucta, e apesar de manter inalteraveis os seus creditos grangeados noutras campanhãs, não concorreu senão para aggravar as desgraças da mãe patria, pelas despezas que lhe causou sem proveito algum, e com prejuizo, porque da oceupação de Montevideu tirou a Hespanha pretexto para não restituir Olivença depois da paz geral, como se estipulou no tratado de Vienna.

Os louros ceifados nos campos de batalha na longa lucta da peninsula pelo exercito portugues, não murcharam nas planicies do Rio da Prata, e o estandarte da cruz quinqnipartida manteve-se glorioso; mas dos sacrifícios e fadigas dos portuguezes só tirou proveito a ingrata colonia brazileira, que rasgou as entranhas da mãe, que a concebêra. Mais tarde ella mesma teve de perder a conquista que lhe grangearam as armas portuguezas, porque o seu funesto exemplo foi seguido pela antiga colonia hespanhola; teve ella de amargar durante quatro annos de anarquia sanguinaria a sua emancipação, para depois se entregar durante vinte annos ao despotismo furioso de Rosas, até que vencido por Urquizà, se fez a constituição de Santa Fé, que hoje prepara melhojes destinos ás vastas provincias argentinas.

Apenas entrada a expedição em Montevideu foi o regimento commandado pelo Coronel Azeredo, e que fazia parte da brigada capitaneada pelo Rrigadeiro Pizarro, destinado para a guarnição da praça, fazendo destacamentos sobre o forte do Serro e varias ilhotas, que ha na bahia. O tempo se passou no serviço de guarnição, adoçado por.não interrompida serie de divertimentos e bailes, em que os habitantes da cidade muito se deleitavam, como é habitual em todos os povos que participam do sangue hespanhol.
O serviço do exterior da praça era feito pela primeira brigada. Pertencia-lhe vigiar o inimigo, que se abrigava nas circumvisinhanças do recinto, e cobrir a praça. Faziam-se sortidas de tempos a tempos, e estas traziam o proveito de se fazerem prezas no campo inimigo.


* * *

CONHEÇA A BIOGRAFIA DESTE OFICIAL AQUI

Retirado de: AGUILAR, Francisco D’Azeredo Teixeira D’, Apontamentos Biographicos de Francisco de Paula D’Azeredo, Conde de Samodães, Porto, Tip. Manoel José Pereira, 1866. pp. 82-sg

Memórias do coronel Francisco de Paula Azeredo - IV


Memórias do coronel Francisco de Paula Azeredo: Parte IV
Desde que marcha de Torres, a 31 de Agosto de 1816 até à Batalha de India Muerta, a 19 de Novembro.

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[28/8/1816]
'No dia 28 porém, tiveram noticias de Portugal, e o Coronel Azeredo teve a satisfação de receber cartas das pessoas que mais amava, e cuja saudade acerba lhe não deixava gozar um só momento, nem dos passatempos que a boa hospitalidade d'estes povos lhe proporcionava, nem do vasto e admiravel espectaculo d'este paiz magestoso.

[31/8]
No dia 31, como acima dissemos, terminou o doce ocio d'esta Capua-americana, e o Coronel fez embarcar os seus cavallos e os dos seus officiaes, e deu ordem para elles o esperarem no pontal de S. Miguel, a setenta legoas de distancia; para este pontal se dirigiu o batalhão, primeiramente embarcando em hiates na lagoa dos Patos, e depois pelo rio de S. Gonçalo, que é navegavel: mas os cavallos apenas embarcaram para atravessar a lagoa, que tem aqui cinco legoas de largura, seguindo depois por terra, até ao dito pontal.

Tendo o Coronel atravessado tambem a lagoa dos Patos, subiu pelo rio de S. Gonçalo duas legoas, e ahi desembarcou, indo acampar o batalhão no logar das Pelotas, que já então era uma bonita povoação,, banhada pelo rio do mesmo nome, o qual vem vazar suas aguas no rio de S. Gonçalo. Chegado ás Pelotas encontrou parte das forças que tinham vindo adiante, e ahi deliberou esperar pelo resto do regimento, que vinha á rectaguarda.

Foi hospedar-se para casa do vigario, que o recebeu com a mesma cordialidade, com que os outros seus hospedes o tinham regalado n'esta longa jornada.

Esta povoação das Pelotas está n'uma situação vantajosissima para' o commercio, sobre o rio do mesmo nome, que é navegavel mais de nove legoas, e desagua no rio de S. Gonçalo, que vem da lagoa Mirim, navegavel mais de setenta legoas. A' famosa lagoa dos Patos pagam o tributo de suas aguas outros muitos rios, que levam a navegação até logares collocados a grandes distancias da costa.

São as casas aqui construidas de tijolo, cobertas de telha, e de um só andar, por causa da força dos ventos, caiadas e muito aceadas. O paiz produz todos os fructos do nosso clima de Portugal: e a não ser o viço da vegetação d'uma terra virgem, e a immensidade dos horisontes, que não offerecem repouso algum á vista, não se acharia differença entre um e outro paiz.

E' aqui o centro e coração da importante e rica provincia do=Rio Grande do Sul. Tudo n'este paiz é grande e maravilhoso, mas muito tem que desbravar a industria humana: os habitantes cultivam apenas uma parte de seus campos, e o resto fica para pastagens de gados. O seu principal negocio consiste nos couros dos bois, e carne sêcca: aquelles são exportados em quantidade enorme para o nosso paiz: a carne sêcca é consummida embarricada nas differentes provincias do Brazil.

Aos grandes proprietarios chamam-se=scharqueadores, por isso que á operação de matar os bois se dá o nome de charquear. Ha proprietario que mata annualmente mais de trinta mil bois; e esta carnificina tem principalmente lugar em dezembro e janeiro, porque sendo os mezes mais ardentes, é quando a carne se sêcca melhor.

A não ser a salubridade do clima, e a pureza dos ares, as epidemias seriam frequentes, porque a podridão do sangue e dos intestinos, de que os campos estão juncados bestes mezes, damnificariam o ar, e produziriam as pestes: pois não são só os bois que os charqueadores matam em quantidade consideravel, mas fazem igual carnificina das egoas e mullas, cujas pelles só aproveitam para as venderem por um preço insignificante. 0 numero de cabeças e ossos de bois é tal, que construem com elles paredes; e nos fornos de telha e tijolo, em vez de lenha, empregam os mesmos ossos. Como a vida se torna facil n'este magnifico paiz, a ociosidade é partilhada por todos os brancos, e só os escravos trabalham nas industrias que deixamos indicadas, que dão comtudo lugar a um trafico immenso, facilitado pelos grandes rios e vias aquaticas, onde se movem centenares de hiates, carregados dos productos do paiz, que vem trazer a abundancia á Europa e á America, e dando a esta provinda uma importancia imponente, que ella tem sabido conservar e augmentar, tornando-a uma das mais opuleutas e magnificas d'este formidavel imperio. 

[Outubro e Novembro]
O batalhão passou nas Pelotas os mezes de setembro é outubro, vivendo no seio da abundancia e dos bons commodos. Principalmente o bom vigario, que era irmão d'um Hypolito, redactor do Correio Braziliense tratou o Coronel com tal carinho e generosidade, que nos seus velhos dias, quando o frio dos annos procurava regelar-lhe a memoria, elle o recordava com saudade. Que todo o homem, em qualquer posição, procure sempre fazer o bem e crear sympathias: por obscuro que elle seja, viverá perennemente na memoria das almas bem formadas, e não será inutil a sua passagem sobre a terra.

[...]

[4/11]
Como haviamos dito, nas Pelotas se tinha reunido o regimento todo, o qual embarcou no dia 4 de novembro ás 6 horas da tarde, 

[5/11]
e como não houvesse vento, ficaram no mesmo ancoradouro, largando-o no dia 5, pelas 9 horas da manhã; subindo o rio de S. Gonçalo, e andando nesse dia dezoito legoas, foram pernoitar ao sitio dos Canudos. As margens do rio são agradaveis, mas incultas e desertas; e o rio' é mais largo e tão caudaloso como o nosso Douro.

[6/11]
No dia 6, pela 1 hora da noite, seguiram viagem, e duas legoas a montante entraram na grande lagoa chamada = Mirim, = d'onde o rio toma a origem. Tem esta lagoa mais de 70 legoas de comprido, e de largo 40, e em partes menos. No sitio onde o regimento a atravessou tem 30 legoas: a sua navegação é perigosa, por causa dos muitos baixios, e por ser muito varejada pelos ventos: pelo que se tomam pilotos práticos para dirigir os hiates.
N'este dia soprava o vento do quadrante de Nordeste, o que deu á lagoa o aspecto d'um mar agitado por uma grande tormenta: de modo que todos enjoaram, mesmo os que não conheceram tal incommodo na travessia para a America. Felizmente a viagem foi sem risco, e ás 6 horas da tarde do mesmo dia deixaram á popa a turbulenta lagoa, e commettiam um rio que n'ella vasa, chamado = Arroyo de S. Miguel =. Foi á entrada- do dito Arroyo que os hiates pararam, e passaram a noite.

[7/11]
No dia 7 seguiram o curso do rio para montante, e tendo andado cinco legoas, desembarcaram na ponta de S. Miguel, assim chamada de uma fortaleza que os hespanhoes ahi tiveram, e que os portuguezes arrazaram em 1801. O regimento desembarcou numa planicie immensa, sendo já terra hespanhola a que pizavam, e objecto das contendas.

[8-12/11]
Acampou junto ao rio n'este pontal, e ahi se demorou, seguindo as ordens recebidas, os dias 8, 9, 10, 11 e 12. Os cavallos que tinham vindo adiante, estavam magnificos, tendo engordado espantosamente nas bellissimas pastagens d'estas campinas. Era consideravel o numero de cobras, que havia neste campo; os soldados mataram muitas, e houve a fortuna de não haver desgraças. Aqui se reuniu o resto da tropa que formava a brigada, 

[13/11]
e assim reforçados marcharam no dia 13 sobre o forte de Santa Thereza, que se rendeu á discripção, sendo a guarnição diminuta, e privada dos me os de defeza.
Dista este forte do de S. Miguel sete legoas, e á sua direita, marchando n'esta direcção, se prolonga uma serra, que cerca uma formidavel lagoa, onde nasce o mesmo rio S. Miguel.

[14/11]
No dia seguinte a brigada permaneceu no seu acampamento; 

[15/11]
e no dia 15 continuaram a marcha para Angustura, nome derivado de ser ahi a terra muito estreita, entre o mar e a lagoa, a que acima nos referimos, e que tem seis legoas de comprido sobre uma de largo. 

[16/11]
Tambem dista este campo seis legoas do antecedente e cinco de Talayes, para onde se dirigiram no dia 16: ahi encontraram as tropas da vanguarda, que foram reforçadas como se tornava mister, por haver probabilidade de no dia seguinte encontrar o inimigo: e como as direcções em que elle podia achar-se eram diversas, 

[17/11]
no dia 17 marcharam em sentidos oppostos, indo o 2." regimento pernoitar a Paso de Canullos, a duas e meia legoas: 

[18/11]
e no dia 18 avançou outra tanta distancia sobre Chafalote: 

[19/11]
comtudo no dia 19 a vanguarda encontrou-se com o inimigo, com quem se bateu denodadamente.

[CONTINUA]


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Retirado de: AGUILAR, Francisco D’Azeredo Teixeira D’, Apontamentos Biographicos de Francisco de Paula D’Azeredo, Conde de Samodães, Porto, Tip. Manoel José Pereira, 1866. pp. 82-sg