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28/09/2021

Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816 (J. J. Machado de Oliveira)

“Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816".

Autor: José Joaquim Machado de Oliveira (Legião de São Paulo)

Datas extremas: 18.3.1816 - 9.3.1820

(Publicado em Revista do Arquivo Municipal, Ano VI, Volume LXXII, Novembro-Dezembro 1940, São Paulo, Departamento de Cultura da Prefeitura, pp. 5-20) [Leia online aqui - abre nova página]

* * *



[Início]

1816. 1.ª Campanha. 

Março 18. Saí de Pôrto Alegre embarcado e com tropa - 23. Cheguei à Vila do Rio Pardo.

Julho, 29. Saí de Rio Pardo com tropa, e acampamos na Picada. 30. Na Cruz Alta. - 31. No Campo de Felipe Carvalho.

Agosto 1. No Arroio Butucaraí. Passo de cima. - 2. No Capão dos Enforcados. 3. No Passo de Jacuí, aonde se esteve o dia. 4. Ocupado na passagem do rio. - 5. A meia légua distante daquele passo. - 6. No Passo da Estiva. – 7. Na Restinga Seca, estância de Antônio Gonçalves Borges. - 8. No Arroio do Sol, aonde se esteve também o dia 9, por chover muito. - 10. No capão de Manuel Paim. - 11. No Arroio de Santa Maria. - 12. No capão da eståncia do Pompeu. - 13. No rodeio velho das éguas do Felipinho ou Felipe Santiago. - 14. Na estância do Serino (Cirino ?), irmão de meu pag. (pagem ?) Domingues. - 15. Na estância do tenente-coronel Carneiro, ou Pau Fincado. — 16. Na estância de Manuel Ferreira, seu genro. - 17. Na estância de São Felipe. - 18. Na margem esquerda do Arroio Cacequi. Morreu afogado o cabo Malaquias. - 19. Ao pé da estância do inglês Daniel Luiz Carlos. - 20. No Passo do Rosário, aonde estivemos até o dia 29. - 30. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 31. No Vacacuá. estância de Antônio Caetano. 

Setembro 1. Na Guarda da Conceição. aonde estivemos os dias 2 e 3. - 4. No Arroio da Porteira (?) ao pé da estância de Inácio Adolfo. -. 5. No Pôrto do Alferes Pinto.- 6. Nas cabeceiras do Ibirapuitã Chico, aonde estivemos o dia 1. - 8. No campo de João da Costa. - 9. Em São Diogo. - 10. ... pontas do Arroio de Valença. - 11. Acampamos no Boqueirão das Lagoas - 12. Na tapera do Leme, ou Capão do Cirurgião. Ali chamando-nos o Abreu (tenente-coronel José de Abreu) a conselho, decidiu-se que deviamos ir à Provincia das Missões, já invadida pelos insurgentes deixando a nossa marcha para Belém. - 13. No Suaraim chico. - Passo das carretas 14. No Arroio Garopá. - 15. No Arroio Camoatim. - 16. No Arroio Caoati.  -- 17. Num dos galhos do Toro-passo. - 18. No Arroio Toro passo, aonde estivemos o dia 19, passando 0 Arroio, que estava de nado. - 20. No Arroio Cochi-passo. Foram vistos alguns bombeiros (espiões) do inimigo. - 21. Na estância do Aferidor. Ali fizemos passar para o outro lado do Uruguai os Insurgentes, que se achavam, tanto na estancia, como no Passo de Santa Maria no Ibicui, aprisionando-se 2 homens e 6 mulheres (?) e alguma cavalhada. Falhamos o dia 22. - 23. No Ibiraocaí - 24. Acampámos no Ibiricui, aonde estivemos passando o dia 25. - 26. Na estância de Joãozinho de Oliveira. Neste dia bateram-se duas partidas inimigas, que andavam em saque. Foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 26 insurgentes. - 28. Na estância do Padre Alexandre, aonde falhámos o dia 29, por chover muito. Foram vistos dois bombeiros (espiões) do inimigo. - 30. No capão de João Machado. 

Outubro 1. Na margem direita do Arroio Butuí, de nado. - 2. Além do Banhado de S. Borja. Ali estivemos até o dia 4. 5. No outro lado do Banhado de S. Borja. - 6. Neste dia fomos. ao Butuí, na sua barra, como não encontramos uma partida inimiga que ali fôra vista, retrogradamos... chovia. - 7. Acampamos no Povo de S. Borja, e ali estive até o dia 23, ocupado numa inquirição - 24. No Ivaí, aonde estava a divisão. - 25. No Capão de Butuí. - 26. No Butuí-chico. - 27. No pôrto da estância de Santa Rosa. - 28. No Ibicuí, Passo de S. Rosa e ali nos demoramos o dia 29 na passagem. -- 30. No capão da estância do tenente Olivério. - Na margem esquerda do Ibirapuită, Passo Guassú.

Novembro 1.º No Pai-passo. 2. Na tapera de Inácio dos Santos Abreu, – 3. Em S. Diogo. Ali se achava o Regimento da Ilha. - 4. No acampamento do Ibirapuitã, aonde estava o exército, Ali estivemos até 20 de dezembro.

Dezembro - 25. Marchou todo o exército e acampamos ao pé da estância do Cláudio. - 26. Saí para o Côrpo da Vanguarda, e acampamos ao pé da tapera do Cláudio, aonde se falhou o dia 27. - 28. Acampamos no campo de Juca Mingote. - 29. No Indahim, onde se falhou o dia 30. - 31. A vanguarda marchou um quarto de légua sobre a frente, aonde se falhou o dia 1.º de janeiro de 1817. 


1817.

Janeiro 2. No Arroio Catalã. A vanguarda marchou às 6 da tarde para o Arapeí, chegou alí a 3, atacou o acampamento inimigo e voltou no mesmo dia para Catalã, aonde chegou às 7 da tarde. No dia 4 houve nesse lugar a batalha de Catalã, e falhou-se o dia 5. - 6. Num dos galhos do Arroio Catalã, aonde se falhou os dias 7. 8. 9 e 10. - 11. Na barra do Catală, aonde se falhou os dias 12, 13, 14 e 15. - 16. No Suaraim, no Passo do Lageado. Dêste lugar saí em diligência para Pôrto Alegre a 29 e fui pernoitar na estância de João dos Santos Abreu. 30. No porto da estância de Joaquim Luiz - 31. Na estância de capitão Brito.

Fevereiro 1. Na estância do tenente-coronel Antônio Pinto. - 2. Na estància de S. João. - 3. Pernoitei nos Morais. - 4. Na Cachoeira. - 5. Em Rio Pardo. - Embarquei para Porto Alegre. - 8. Em Porto Alegre, aonde estive até o dia 3 de março, e embarcando com tropa para o Rio Pardo, ali cheguei no dia 11.

Março 15. Saimos de Rio Pardo e acampamos no Capão da Vendinha do Arroio das Pedras. -16. No Butucaraí. Passo da Ponte. - 17. No Passo de S. Lourenço no Jacuí, 18. Em Santa Bárbara. - 19. Na estância do Corcundinha. - 20. No Arroio da estância do capitão Freire - 21. No ... de Luiz Machado - 22. Na estância do Padre João de Almeida. - 23. No Vacacaí, estância do coronel Pinto. - 24. No pôrto velho do Batoví. -- 25. No Passo de S. Borja. - 26. No Capão do Severo. - 27. Na Guarda da Conceição, donde se falhou o dia 28, por quebrar-se o eixo do carro. 29. Acampamos no pôrto de Joaquim Luiz. - 30. Na Estância do Tulio. 31. No campo de Juca Mingote.

Abril 1. No acampamento do exército no Suaraim, aonde estivemos até 20 de março de 1818, e a 21, marchando o exército, saí daquele acampamento com a tropa comandada pelo coronel Abreu, e acampamos no Arroio Sarandi.


1818.


Março 22. Nas pontas do Sarandi. - 23. No Arroio do Areal, estância do Guarda-mor. - 24. No Capão do Tigre, estância de Joaquim Pôrto. ---- 25. Nas pontas do Nhanduí, onde se falhou o dia 16, por chover. -- 27. No capão da estância de Gaspar Nunes. - 28. Na capela de Alegrete. Saí dêste lugar para Porto Alegre em diligência no dia 3 de junho e fui pernoitar na estância do Dornellas.

Junho 4. Na estância do major João Machado Bitancourt. - 5. Na estância do Severino. --- 6. Pernoitei na estância do capitão José Machado. - 7 No pôrto da estância de S. João. - 8. Na estância do alferes Machado.- 9. Na freguezia da Cachoeira. – 10. Na vila de Rio Pardo, aonde embarquei no dia 11, e no dia 12 cheguei a Pôrto Alegre.

Saí de Porto Alegre em 6 de novembro, embarcado, e cheguei a Rio Pardo a 12 do dito, de onde saí a 23 e pernoitei na chácara do capitão Bernardo. - 25. No Passo de S. Lourenço.-- 26. Em Santa Bárbara. -27. Na estância de Manuel Rodrigues Penteado. - 28. No Adolfo. 29. Na tapera de Luiz Machado. - - 30. Na estância do padre João de Almeida.

Dezembro. 1. Na capela de S. Gabriel. - 2. Na cochilha de Jubatuim. - 3. Na estância de Antônio Francisco. -- 4. No Passo do Rosário. - 5. Na estância da Côrte Real, no Capão. 6. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 7. Na estância do capitão Florêncio. -- 8. Na estância de José Maria. - 9. Na capela de Alegrete. Primeiro movimento da guarnição para a fronteira. A 25 de dezembro saiu de Alegrete a guarnição e foi acampar no Arroio Pai. Passo. - 26. No mesmo Arroio. No Passo da Marmota. - 27. Na estância da Marmota. -- 28. Numa das pontas do Pai-Passo. - 29. 


[1819]

Em outra ponta do dito, aonde estivemos até o dia 4 de janeiro de 1819, e no dia 5, marchando-se para a fronteira, soube se que o inimigo se retirara, e por conseguinte retrogradou-se, e acampamos no arroio da divisa do Marmota. 6. No lado esquerdo do Ibirapuitã. - Passo guassú. 7 - Na capela do Alegrete.

Segundo movimento. A 1.º de Abril saímos da Capela de Alegrete, em consequência da segunda invasão das Missões, e acampamos a meia légua distante dali, à margem do mesmo Ibirapuitã, e dêsse lugar passamos para o Pôrto das Pedras, ao pé da Capela, a 10 do dito mês. A 17 chegou o sr. Conde da Figueira, e a 20, movendo-se a divisão, acampou do outro lado do Ibirapuità - Passo guassú. 

Maio 21. Num capão do campo do Joaquim Machado. 22. No Ibicuí, Passo de S. Rosa, aonde nos demoramos a passá-lo o dia 23. ---- 24. No Pôrto de .... de S. Rosa. -- 25. Nas pontas do Butui. - 26. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel -- 27. No Camacuã. Ali nos reunimos com a tropa do marechal Chagas. -- 28. No Itaraoquim. 29. No capão do pôrto do Severino. - 30. Piratini, Passo Novo da Figueira. -- 31. Ao anoitecer marchamos, e ao amanhecer paramos em uns capões ao pé da estância de S. Jerónimo. 9.

Junho 1. Ao anoitecer marchamos e fomos amanhecer no dia 2 no Povo de S. Luiz, e acampamos fora - 3. Acampamos dentro do Povo de S. Luiz, aonde estivemos até o dia 9. 10. No Passo de Pirajú. - 11. Nuns capões de S. Jerónimo. -- 12. Estando assentado... no Arroio Guaraçá, marchamos para o Povo de S. Nicolau, por saber que o inimigo o evacuava. - 13. Marchamos com destino para o Passo de S. Isidoro, e por se achar o Arroio Jacatobá de nado, aí acampamos. - 14. Meia légua distante do Passo Geral do Piratini. 15. Apartando-se a Legião da divisão, para unir-se ao Côrpo de Abreu, acampou no capão do Porto do Severino.- 16. Em Itaroaquerim. - 17. Na estância de S. José, do Chagas, - 18. No Passo de S. José do Camacuã. -- 19. No G...iaçai, aonde se achava a tropa do Abreu. - 20. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel... 21. Nas pontas do Butui. - 22. Acampamos no capão da estância do Cunha. -- 28. No Ibirapuitã, Passo guassú.- 29. Na Capela de Alegrete.

Julho - Nos dias 4, 5, e 6 de julho marchou a divisão do brigadeiro Abreu, e eu fiquei para me retirar para Pôrto Alegre em consequência do meu emprego. - 31. Saí da Capela de Alegrete e pernoitei na estância de Felipe Carvalho.

Agosto. 1. Em Taperí, chácara de Joaquim Leonel. 2. No banhado de Saicã, meia légua distante do Pôrto da estância de Antônio Franeisco. -- 6. Na estância do major Tomaz 7. Na Capela de S. Gabriel, aonde falhei o dia 8. - 9. Na estância do tenente-coronel Antônio dos Santos - 10. Na estância do Mancio. - 11. Na estância do Quartel Mestre. - 12. Pernoitei na estância do Machado Gordo, ao pé da estância do tenente Ricardo. -13. Na chácara de Manuel Joaquim Teixeira no Capão dos Enforcados. 14. Na Cruz Alta. - 15. Em Rio Pardo, aonde embarquei a 17, e a 19 cheguei a Porto Alegre.


2.ª Campanha, 1820. 

Janeiro. Na noite de 2 saímos de Porto Alegre com & infantaria e a artilharia do meu comando, e chegamos a Rio Pardo a 8, e no mesmo dia acampamos no lado direito do Passo do Rio Pardo. - 9. No capão da Cruz Alta. - 10. No Passo de S. Lourenço no Jacuí. - 11. Nos Morais. - 12. No Arroio do Lageado, divisa de S. Jo... 13. No Passo de Carutaí. - 14. No Arroio do Lageado no campo de S. Fidélis. -- 15. No Passo de S. Borja. - 16. Na estância de Placido Severo. - 17. No Passo de Ibicuí-Chico. - 18. Acampamos duas léguas distantes de Itaquatiá. - 19. Em Itaquatiá, aonde estava o exército. - 20. Na tapera de d. Ramon. --- 21. Chegámos ao Passo do Sutil no Cunhapirú, e aí, esperando a noite, marchámos para o Taquarembó Grande, aonde chegámos na manhã de 22, em que atacamos o inimigo e o derrotamos. Aí estivemos nos dias 23 e 24. - 25. Retrogradamos para o Passo do Sutil. - 26. Acampamos no Cunhapirú. - 27. Nas pontas do Ibicuí. - 28. Nos morros de S. Ana. - 29. No Sarandi, - 30 No Funchal. --- 31. No Pai-Passo, pontas.

Fevereiro. - 1. No Passo do Pai Passo. - Em Alegrete. Aí ficamos até o dia 21. - 22. No Arroio do Lageado. - 23. No Arroio Jaguaquá. - 24. No tenente-coronel João Machado. - Falhamos o dia 25, por chover. - 26. Acampamos no Arroio Cacequí. - 27. Em S. Gabriel. - 28. No Fidélis, aonde estivemos o dia 29.

Março. - 1. No Arroio .... 2. Na tapera de Luiz Machado. 3. No Passo de S. Bárbara. - 4. Na estância do tenente Ricardo.- . No Arapoá. - 6. Na estância do Bibiano. - 7. No Arroio Francisquinho. - 8. No Arroio dos Ratos. – 9. Em Porto Alegre".

[Fim]


* * *


Pequena biografia

O capitão José Joaquim Machado de Oliveira nasceu em São Paulo, a 8 de Julho de 1790, filho do  tenente coronel Francisco José Machado de Vasconcelos e de D. Ana Esmerina (Esméria ou Esmênia) da Silva.

Com um ano e meio de idade, o pai assentou-lhe praça mas só em dezembro de 1807, já com 17 anos, foi reconhecido cadete.  É Alferes em 1809, tenente em 1811 e, finalmente, graduado em capitão em 13 de Maio de 1813, pelos seus serviços na Campanha de 1811-12.

Em 1816, com cerca de 26 anos, é capitão de infantaria da Legião de Voluntários Reais, de S. Paulo, e participa com distinção, nos combates do Passo de Yapeyú e na batalha de S. Borja, e, já em Janeiro, na Surpresa de Arapey, sempre sob o comando direto do tenente coronel José de Abreu.

07/05/2018

A relação entre condecorações e a experiência militar dos voluntários reais (II) : Cruz da Guerra Peninsular n.º 1 e 2


A Condecoração
A Cruz da Guerra Peninsular (adiante CGP) foi criada pelo Rei D. João VI em 28 de Junho de 1816,  para distinguir os oficiais que participaram nas campanhas da Guerra Peninsular de 1809 a 1814, mas apenas foi regulamentada em 1820. Era outorgada a todos os oficiais com pelo menos 2 campanhas cumpridas. Em Prata para quem tivesse participado em até 3 campanhas e em Ouro para quem participasse em 4, 5 ou 6 campanhas.

Desenho
Anverso: Uma cruz pátea, de contornos rectilíneos, de ouro ou prata, assente numa coroa circular de folhas de louro. Ao centro, um emblema nacional (constituído pelo escudo das armas nacionais, assente numa esfera armilar). Circundado por uma bordadura de azul com a legenda «GUERRA PENINSULAR». 
Reverso: no disco central o número de campanhas.

Atribuição
As Campanhas eram contadas em termos de anos:
1.ª Campanha:1809
2.ª Campanha: 1810
3.ª Campanha: 1811
4.ª Campanha: 1812
5.ª Campanha: 1813
6.ª Campanha: 1814

Em cada ano, ou campanha, eram consideradas os seguintes combates e batalhas, sendo que a participação numa delas seria considerada participação na campanha:

1809: TALAVERA
1810: BUSSACO
1811: FUENTES DE HONOR, ALBUHERA
1812: CIUDAD RODRIGO, BADAJOZ, SALAMANCA
1813: VICTORIA, PIRINEOS, S. SEBASTIÃO [SAN SEBASTIAN], NIVELLE, NIVE
1814: ORTHES, TOULOSE

A primeira menção a esta condecoração  já vem de 1816, aquando da criação da Medalha de Distinção de Comando, mas só 4 anos depois é regulada.

Cautelas
A atribuição da CGP n.º 1 e 2 é o equivalente a uma medalha de campanha, refletindo tempo de serviço.  Ao contrário da n.º 3, para sargentos e praças, de que falei aqui, um misto de medalha de campanha mas com elementos de distinção, as dos oficiais era atribuída a todos os oficiais participantes. 
Para o fim de verificar em números concretos a experiência militar dos Voluntarios Reaes nas campanhas da Guerra Peninsular, a média do número de campanhas, no máximo de seis (1808-1814), são um indicativo muito interessante.

A Divisão de Voluntários Reais foi levantada em Maio de 1815 e em Junho já tinha nomeados quase todos os oficiais, de alferes a tenente general. A Cruz da Guerra Peninsular foi apenas criada em 1816 e o processo longo de atribuição fez com que as medalhas só fossem atribuídas em Dezembro de 1820. Houve um esforço bastante acentuado da Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra, com D. Miguel Pereira Forjaz ao leme, de verificar exatamente quais os números de anos de campanha respeitante a todos os oficiais do Exército.

Observações gerais
Os cinco oficiais generais da Divisão contavam entre si uma média de 4 campanhas e meia, todos condecorados com a cruz da guerra peninsular n.º 1, dourada.

Os oficiais superiores do Estado Maior têm uma experiência de quase 5 campanhas (4,7), apresentando 6 cruzes de guerra n.º1 e um oficial apenas sem medalha. São o setor da Divisão que apresenta mais experiência, em termos médios, sendo que entre os seis oficiais superiores que obtiveram a cruz, a média é de cinco campanhas e meia. Isso indica que quase todos eles cumpriram serviço durante todas as campanhas, pelo menos desde 1809 e pelos seis anos seguinte, por Espanha até França.

Um oficial superior da Divisão (todas as armas) tinha em média 4 campanhas, com apenas 3 oficiais sem qualquer campanha ou a cruz. Desta classe, 13 receberam a cruz de guerra peninsular n.º 1, de ouro, e 4 a n.º 2, de prata.

Um capitão comandante de companhia tinha a experiência de entre 3 e 4 campanhas no exército de operações (3,5),. Destes, três não receberam a medalha. 16 receberam a CGP n.º 1, enquanto que 13 receberam a CGP n.º 2.

Os oficiais subalternos de infantaria têm, equitativamente entre as brigadas, três campanhas de experiência (2,8). Falamos nomeadamente de tenentes com dez CGP n.º 1 ou douradas, e 17 CGP n.º 2, prateadas. Cinco tenentes não receberam medalha.


NUMEROS
([0] representa não ter recebido a Cruz da Guerra Peninsular)

Estado Maior
Oficiais Generais: 6+3+4 = média de 4,3 campanhas
Oficiais Superiores:  6+5+6+5+5+6  (+ um sem medalha) = média de 4,7 campanhas (5 campanhas e meia entre os que obtiveram a cruz)
Capitães e Oficiais Subalternos: 3+2+2+2+2 (+ dois sem medalha) = média de 1,6 campanhas

1.ª Brigada de Voluntários Reais
Oficiais Generais e Estado Maior: 5+2+4+6 =  média de 4,3 campanhas
Oficiais Superiores: 6+4+5+3+0+5 = média de 3,8 campanhas (4,6 entre os que obtiveram a cruz)
Capitães: 4+4+4+2+4+2+5+5    5+2+2+5+3+5+5+2 = média de 3,7 campanhas
Oficiais Subalternos: 3+2+2+2+2+2+3+4     2+5+0+2+5+4+3+4 = média de 2,8 campanhas

2.ª Brigada de Voluntários Reais
Oficiais Generais: 4+2+5+0 (capelão) = média de 2,8 campanhas (3,7 entre os que obtiveram a cruz)
Oficiais Superiores: 6+5+3+3+5+3 = média de 4,2 campanhas
Capitães : 3+0+5+5+4+2+4+2   0+2+6+3+5+4+2+4 = média de 3,2 campanhas
Oficiais Subalternos: 0+2+2+0+2+0+2+3     4+0+5+4+5+4+3+3 = média de 2,8 campanhas

Infantaria (em pormenor)
1.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,8) Tenente (2,5)
3.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,6) Tenente (3,1)
4.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,3) Tenente (3,5)
2.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,1) Tenente (1,4)
(2 cap. + 5 ten. sem medalha)

Cavalaria
Oficiais Superiores: 5+0+0+4+4 = média de 2 campanhas (4 entre os que obtiveram a cruz)
Capitães: 5+6+4+4+2+3 (25) 4+2+0+0+2 (8) = média de 2,8 campanhas (3,3 entre os que obtiveram a cruz)
Oficiais Subalternos: n/d

Artilharia
Oficiais Superiores: 5
Capitães: 4+0+5 = média de 3 campanhas (4,5 entre os que obtiveram a cruz)
Oficiais Subalternos: 6+6

Conclusão
De tenente para cima, a DVR era uma unidade cujos oficiais tinham em média 3 campanhas na Guerra Peninsular, principalmente, supomos, nos seus dois últimos anos 1813 e 1814 em que o exército de operações anglo-português leva a cabo as suas mais importantes manobras sobre o sul de França.

Um oficial superior não tem menos de 4 campanhas, e deste só três não receberam cruz. Especificamente os oficiais superiores do Estado Maior, têm quase 5 campanhas, com apenas um destes sem direito à cruz, no caso o sargento mor (major) João Pedro Lecor, irmão do comandante em chefe e seu 1.º Ajudante de Ordens. João Pedro foi governador de Albufeira durante a guerra e não participou em operações.

Os capitães comandantes de companhia, elementos chave da estrutura da DVR, apresentam em média entre 3 e 4 campanhas da Guerra Peninsular. Dos 32 capitães que analisei, apenas três não receberam cruz. Exatamente metade desses 32 receberam a CGP n.º 1 de ouro, por terem pelo menos 4 campanhas. 
Um tenente de infantaria tinha em média 2,6 campanhas, um ano menos que os capitães, sendo que apenas cinco (entre 32) não tiveram direito a cruz. Dez tenentes receberam a CGP n.º 1, por pelo menos 4 campanhas.

É claro então que a DVR tinha um quadro de oficiais extremamente experimentado em termos de operações de guerra europeia, o que já tínhamos verificado com o quadro de sargentos e praças e a CGP3.