Mostrar mensagens com a etiqueta Montevideu. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Montevideu. Mostrar todas as mensagens

01/08/2025

Carta Régia a D. Álvaro da Costa (21 de julho de 1823)

[O rei D. João VI ordena a retiradas das forças portuguesas da Cisplatina]

«D. Alvaro da Costa de Sousa Macedo, Commandante das Forças em Monte Video, ou na sua falta quem suas vezes fizer: Eu El Rei vos envio muito saudar: Havendo encarregado o Conde de Rio Maior, e o Desembargador Francisco José Vieira de passarem á Corte do Rio de Janeiro, com a importante comissão de junto do meu sobre todos muito amado e Prezado Filho Primogenito D. Pedro de Alcantara tratarem de restabelecer a harmonia, evitando se a desintelligencia que infelizmente tinham suscitado as pérfidas violências da Facção que insidiciosamente se havia levantado nestes Reinos, e que em todas as suas sinistras maquinações só tinha por objecto a perda de toda a Monarchia Portugueza em geral. Fui outro sim servido authorizallos para igualmente alli tratarem dos arranjos necessários para a evacuação das Forças de Mar e Terra que se acham nessa Praça e Banda Oriental do Rio da Prata; e de tudo o mais quanto for adequado para que assim devidamente se execute; avisando-vos dos termos em que tiverem convido a semelhante respeito: Portanto ordeno-vos que com a sua participação procedais logo á mencionada evacuação, pois em todo o sobredito, vos devereis inteiramente conformarao que, em meu Real Nome, vos fôr comunicado pelos referidos Commissarios todos, ou por aquelles que sobreviverem, e não forem compreendidos em qualquer legitimo impedimento, que perturbe a algum deles do exercício desta Commissão que a todos Fui servido encarregar, ficando a força que tendes debaixo do vosso comando assim dependente do que eles vos participarem q he do Meu Serviço, e do meu sobre todos muito Amado e Presado Filho Primogenito D. Pedro d’Alcantara. O que tudo assim cumprireis. Escripta no Palacio da bemposta aos vinte e um de Julho de mil oitocentos e vinte e três.

Rey»


Fonte

AHU, ACL, CU 065, Cx. 4, Doc. 217


03/08/2022

Relação dos Oficiais que aderiram à Sagrada causa do Império, e que querem ser empregados no Estado Cisplatino (Março de 1823)


Relação dos Oficiais das diferentes Armas, que aderiram à Sagrada causa do Império, e que querem ser empregados no Estado Cisplatino, remetida com Ofício do Tenente General Barão da. Laguna, de 31 de Março de 1823. 


Exercito do Brasil. [8]

Brig Grad José Manuel de  Almeida.
Cor Grad ENG Jacinto Desidério Cony.
TenCor EM Henrique Xavier Ferrara.
TenCor CAV Miguel Pereira.
TenCor Grad EM Luis del Host. [Luigi Dell'Hoste]
Maj EM António Rodrigues Gabriel de Castro.
Ten ENG José Cavalo.
Alf EM Manuel Marques de Sousa. 


Exercito de Portugal. [102]

Brig Grad João Crisóstomo Calado.

Coronéis [3]

Cor Grad CAÇ Manuel Jorge Rodrigues
Cor Grad CAÇ Francisco de Paula Rosado.
Cor EM Miguel António Flangini.

Tenente Coronéis [3]

TenCor CAV Joaquim Cláudio Barbosa Pita.
TenCor Grad EM José Ferreira da Cunha
TenCor Grad EM António Pinto de Araújo Correia.

Majores [3]

Maj CAÇ, João Teixeira de Queiroz.
Maj Grad EM Pedro Pinto de Araújo Correia
Maj Grad EM Manuel Freire de Andrade.

Capitães [17]

Cap EM Sebastião Navarro. 
Cap INF Salustiano Zeferino Reis;
Cap CAÇ José Maria de Araújo;
Cap CAV Filipe Nery de Oliveira
Cap CAV Theodoro Burlamaque
Cap ART Joaquim Felipe Lampreia
Cap ART  António José da Costa.
Cap CAV Francisco Nunes do Amaral
Cap CAV José de Melo Sousa Menezes
Cap CAV António Maria Xavier de Sousa;
Cap CAÇ Francisco Xavier da Cunha.
Cap CAÇ João Pedro Xavier de Ferrara
Cap CAÇ Caetano Cardoso de Lemos.
Cap Grad Quartel Mestre José António Ribeiro Branco;
Cap EM Jacinto Pinto de Araújo Correia
Cap EM Frederico Ernesto Krusse
Cap EM Francisco de Almeida.

Tenentes [23]

Ten CAÇ José dos Santos Fernandes
Ten CAÇ Luís Manuel de Jesus
Ten CAÇ José dos Santos Pereira
Ten CAÇ Gaspar José de Brito
Ten CAÇ João Teixeira de Macedo
Ten CAÇ João da Cunha Lobo
Ten CAÇ António Maria de Gouveia
Ten CAÇ António Osório de Magalhães
Ten CAÇ José Osório de Magalhães;
Ten EM José de Melo;
Ten CAV João Velez da Gama; 
Ten CAÇ José Joaquim Correia de Lacerda;
Ten INF António de Moura e Brito, Ajudante;
Ten CAV  Sebastião Rodrigues Dias;
Ten CAÇ Gregório José dos Santos , Ajudante;
Ten INF José da Cruz. de Freitas,
Ten INF Joaquim José Pereira;
Ten CAÇ António Inácio da Veiga,
Ten CAÇ Francisco Esteves de Figueiredo;
Ten CAV Anselmo José d'Almeida Vallejo,
e José António Pereira, Picador;
Ten CAÇ Manuel Mendes, Quartel Mestre
Ten CAÇ Jerónimo da Costa Ramalho, Quartel Mestre

Alferes [18]

Alf CAÇ Manuel Joaquim de Sousa;
Alf INF José Hermenegildo Ferreira Horta
Alf INF José Inácio Burquete;
Alf CAÇ António Jacinto da Costa Freire;
Alf INF Sebastião Correia:
Alf CAÇ Francisco Rodrigues Pereira;
Alf CAV Rodrigo Antunes Moreira
Alf CAV Luís Bernardo Machado
Alf CAV José António Mainarte
Alf CAV António Duarte Reis
Alf CAV António de Araújo e Silva
Alf CAV Cláudio José Dias;
Alf CAÇ António Pinto Homem;
Alf CAV António Maria de Azevedo;
Alf CAÇ José Pedro de Araújo;
Alf CAV Cláudio José dos Santos;
Alf CAÇ Jerónimo Herculano Rodrigues
Alf CAÇ João Francisco Xavier.

Cadetes [5]

Cad António Joaquim Pinheiro
Cad Francisco Bruno Monteiro
Cad José Cândido Sardinha
Cad José António Cazalens Rodrigues
Cad Bernardo Augusto Pereira.

Sargentos [29]

Manuel Carneiro da Costa
Joaquim José de Magalhães
José Teixeira de Lima
Mariano António
Joaquim Teles Jordão
João Crisóstomo Mouzinho
Joaquim Loureiro
Joaquim Martins
José Vieira da Silva
António da Cunha Paiva
António Maria de Sousa
Francisco Pinto de Sá
Rodrigo António Batista
João António do Amaral
Martinho Rodrigues
Domingos Gomes de Melo
José Alves da Silva
Manuel Joaquim de Sá
José de Gouveia
João José Simões
Pedro José de Lemos
José Xavier de Coes
Domingos Serrão
António da Silva
Manuel José Lisboa
Luís Henriques de Campos
Custodio de Azeredo
António José Marques
António Luís de Sousa Viana.

Estado Cisplatino. [3]

Alf DRAG Carlos Figueira de Figueiredo
Alf DRAG João Ladislau Monteiro de Mendonça
Alf DRAG João Cardoso.


Não são contemplados nesta Relação os oficiais do Batalhão de Artilharia a pé, os do Regimento de Cavalaria da União , e alguns oficiais espanhóis.

Campo em frente de Montevideu, 31 de. Março de 1823, Barão da Laguna.

* * *

Fonte

Diário do Governo do Império do Brasil, n.º 118, 28 de Maio de 1823, p.590.


LEIA TAMBÉM

Relação Nominal dos Oficiais da Divisão que tem desertado para atraiçoarem a sua pátria, e seguirem a causa do Governo do Rio de Janeiro (Janeiro 1823)

http://dvr18151823.blogspot.com/2022/07/relacao-nominal-dos-oficiais-da-divisao.html [Abre nova página]


17/07/2022

Relação Nominal dos Oficiais da Divisão que tem desertado para atraiçoarem a sua pátria, e seguirem a causa do Governo do Rio de Janeiro (Janeiro 1823)


Relação Nominal dos Oficiais da Divisão dos Voluntários Reais d'El Rei, e dos corpos a ela anexas, assim como das Repartições da dita que tem Desertado desta Praça, e dos seus Corpos; para atraiçoarem a Sua Pátria, e seguirem a Causa do Governo do Rio de Janeiro. [110 oficiais]


ESTADO MAIOR. [12]
Tenente General Barão da Laguna. Carlos Frederico Lecor. 
Tenente Coronel. Ajudante d' Ordens António Pinto de Araújo Correia.
Tenente Coronel. Ajudante d' Ordens José Ferreira da Cunha. 
Capitão, Major da segunda Brigada Pedro Pinto de Araújo Correia.
Capitão, Major da primeira Brigada Sebastião Navarro de Andrade. 
Capitão Assistente do Q. M. G. Jacinto Pinto de Araújo Correia.
Tenente Assistente do A. G. Frederico Hernesto Krusse.
Tenente Deputado Assistente do Q. M. G, Francisco de Almeida.
Maior encarregado das prisões das Abobadas Sebastião da Cunha.
Oficial Maior de Secretaria Militar António Félix Lobo Coelho.

Coronel, Secretario Militar, Miguel António Flangini. 
Oficial da Secretaria Militar João António Capelani. 
N.B. Estes dois indivíduos suposto foram com passaporte. sabe-se com certeza que abraçarão a causa da independência. sendo o primeiro hum dos que mais trabalhou para este fim e ….....

Corpo de Artilharia [3]
Capitão, Joaquim Filipe Lampreia.
Capitão António José da Costa.
2.º Tenente João Custodio Villas Boas.

Primeiro Regimento de Cavalaria. [7]
Capitão José de Mello de Sousa Menezes.
Capitão Teodoro Burlamaque.
Tenente Sebastião Rodrigues, 
Alferes Rodrigo Antunes
Alferes António Duarte Reis Villas Boas. 
Alferes Luiz Bernardo Machado. 
Alferes António Maria de Azevedo.

Segundo Regimento de Cavalaria. [10]
Tenente Coronel Comandante Joaquim Cláudio Cabral Barbosa Pitta.
Capitão António Maria José Xavier de Sousa. 
Capitão Filipe Neri de Oliveira.
Capitão Francisco Nunes do Amaral.
Tenente João Vellez da Gama.
Tenente Anselmo José Vallejo.
Alferes José António Mainarte
Alferes Cláudio José Dias
Alferes Cláudio José dos Santos
Picador António José Cambeta. 

Primeiro Regimento de Infantaria. [1]
Capitão Quartel Mestre João António Branco.

Segundo Regimento de Infantaria. [8]
Coronel e Comandante da primeira Brigada João Crisóstomo Calado.
Capitão Salustiano Severino dos Reis. 
Tenente José da Crus de Freitas.
Tenente Joaquim José Pereira.
Alferes José Inácio Burguete.
Alferes José Hermenegildo Horta. 
Alferes João Inácio Xavier. 
Alferes Sebastião Correia
 
1.º Batalhão de Libertos. [2]
Tenente António Inácio da Veiga.
Quartel Mestre Jerónimo da Costa Ramalho.

2.º Batalhão de Libertos. [6]
Capitão Comandante João Pedro Xavier Ferrara.
Capitão, Comandante pela Deserção do 1.º Caetano Cardoso de Lemos.
Tenente Francisco Esteves de Figueiredo.
Alferes António d' Antão [?] e Silva.
Alferes António Pinto Homem [?].
Alferes José Pedro de Araújo. 

Repartição da Cirurgia. [8]
Deputado do Cirurgião Mor do Exército José Pedro d' Oliveira.
Cirurgião Mor Francisco Andrade Taborda. 
Cirurgião Mor Joaquim António Salvaterra. 
Cirurgião Mor Julião José de Almeida.
Cirurgião Mor Joaquim José Barrão 
Cirurgião Mor Manuel Alexandre de Mota.
Cirurgião Mor Bernardo Machado da Cunha.
Ajudante de Cirurgia João Alexandre da Mota
N. B. Todos estes Cirurgiões Mores, estavam encarregados nesta Praça, e suas imediações de Hospitais Regimentais; deixaram os doentes por algum tempo sem recursos, e roubaram os Hospitais de que cuidavam. 

Repartição do Comissariado. [14]
Auditor da Divisão, e Encarregado da Repartição — António Gerardo Curado de Menezes.
Assistente Comissario José Alberto da Silveira.
Assistente Comissario Gregório José de. Carvalho.
Comissário Rodrigo de Vasconcelos Parada.
Comissário No[r]berto Trancoso.
Comissário José Maria da Cunha.
Comissário António Joaquim de Sonsa Perez.
Comissário Joaquim do Nascimento Correia.
Comissário Francisco Constâncio Maleval.
Escriturário Manuel Gomez Ribeiro.
Escriturário João Morezi.
Fiel José Joaquim Gomez.
Fiel Veríssimo Garcia.
Fiel Joaquim Domingos. Machado.

Repartição da Tesouraria. [5]
Comissário Assistente, Encarregado da dita, José Joaquim Justiniano.
Comissário pagador José Jesuíno de Godoy Barreto
Comissário pagador José da Silva Freire.
Comissário pagador Custodio José Pimentel.
Oficial de bofete. Luís César de Ataíde.

N. B. Os primeiros dois e o ultimo desertaram desta Praça; e os outros dois estando em diligência não recolherão segundo as ordens de S. E. o Senhor General D. Álvaro da Costa, Comandante Interino; e sabe-se que seguem a causa do Rio de Janeiro.

Desertores da Fragata Tétis, surta na baía desta Cidade. [6]
Vice Almirante Graduado, Rodrigo José Ferreira Lobo.
Capitão Tenente e Comandante da dita, Manuel de Sequeira Campelo.
1.º Tenente Cipriano José Pires.
Cirurgião Joaquim José de Carvalho. 
2.º Piloto, Luís Capelani.
Capelão Fr. João dos Remédios

Capitania do Porto. [1]
1.º Tenente servindo de Capitão do Porto, José Edgar.

* * *

Oficiais da sobredita Divisão dos V. R. d' Rei, que não Desertaram, mas tem seguido a mesma causa da Independência do Governo do Rio de Janeiro, sendo portanto Traidores à sua Pátria, bem como os já Relacionados.

1.º Batalhão de Caçadores [11]
Coronel Graduado Comandante Manuel Jorge Rodrigues.
Major João Teixeira de Queiroz [?].
Capitão Francisco Xavier da Cunha (o inabalável.)
Tenente Luís Manuel de Jesus.
Tenente José dos Santos Pereira.
Tenente João de Cunha Lobo.
Tenente António Mania de Gouveia.
Tenente António Osório de Magalhães.
Alferes António Jacinto da Costa Freire.
Alferes Francisco Rodrigues Pereira.
Quartel Mestre Manuel Mendes

Segundo Batalhão de Caçadores. [9]
Coronel Graduado e Comandante, Francisco de Paula Rosado.
Capitão Francisco de Paula Cabrita.
Ajudante Gregório José dos Santos.
Tenente José Fernandes dos Santos.
Tenente João Teixeira de Macedo.
Tenente José Osório de Magalhães.
Tenente Gaspar José de Brito.
Alferes Manuel Joaquim de Sousa.
Alferes Jerónimo Herculano Rodrigues.
 
Batalhão de Artilharia a Pé. [7]
Major Comandante Vicente António Buys.
Capitão João Caetano Rosado.
Tenente Roque António de Faria.
Tenente Gabriel António Franco de Castro
2.° Tenente Domingos Alves Damião.
2.° Tenente Teodoro José Alves.
Cirurgião Mor José Rebolido Pinheiro.

N. B. Consta que o primeiro Tenente Gabriel, e o 2.° Tenente Damião, foram para a Colónia. para dali embarcarem com o resto dos Caçadores, e bem assim o Cirurgião Mor Rebolido. 

O interesse que tenho em fazer conhecer ao Mundo inteiro os nomes de tão perversos infames, e indignos Portugueses, me obrigou a publicar esta relação, e pode o Publico ficar certo. que logo que haja mais algum (o que não é de esperar) farei públicos pela imprensa os seus nomes.—Montevideu 3o de Janeiro de 1823. — Hum Lusitano Constitucional amante da sua Pátria.


Fonte
- jornal Aurora, n.º 17 - suplemento, 20 de Fevereiro de 1823, Montevideu.



07/08/2019

Resumo das principais operações militares das Tropas de Guarnição de Montevideu (1 de Abril a 22 de Novembro de 1823)



Com a proclamação da independência do Brasil, a 7 de Setembro de 1822, muitos oficiais, sargentos e praças da Divisão de Voluntários Reais escolheram o serviço brasileiro. O próprio comandante em chefe, o tenente general Carlos Frederico Lecor saiu, dois dias depois, a 9 de Setembro, tendo aclamado o novo imperador Pedro I e tomado o comando das forças brasileiras na Cisplatina, passando a sitiar Colónia e Montevideu.

Apesar de se poder afirmar que os acontecimentos revolucionários intestinos à divisão desde 1821 tiveram um papel fundamental em iniciar esta ruptura dentro da unidade, a situação era agora algo diferente e infinitamente mais clara. Apesar disso, muitos dos que escolheram passar a servir o Brasil, eram os mesmos que apoiavam Lecor contra o Conselho Militar e, em grande medida, contra as Cortes Constituintes de Lisboa.

Ainda assim, o remanescente das Divisão dos Voluntários Reais, sob o comando do brigadeiro Álvaro da Costa de Sousa Macedo, manteve a posse da cidade de Montevideu e ficou sujeita a um sítio que durou até finais de 1823, aquando do armistício local, e da evacuação em Março de 1824, no que foi a saída do último contingente português do território brasileiro, no âmbito da guerra da independência.

Em seguida apresento a transcrição, contendo uma memória das várias operações militares portuguesas que ocorreram durante grande parte do ano de 1823.
A transcrição foi retirada da Gazeta de Lisboa, mantendo-se a ortografia original.

* * *

Resumo das principais operações militares das Tropas de Guarnição de Montevideo, commandadas pelo Brigadeiro D. Álvaro da Costa de Sousa de Macedo; extrahido das diferentes Ordens do Dia desde o 1.° de Abril até 22 de Novembro de 1823.

[13.4.1823]
«A 13 de Abril o Commandante das forças passou revista a differentes corpos, os quaes pela sua rigorosa disciplina, asseio, e bella execução das suas manobras, merecerão os mais distinctos elogios. Nesta occasião fez o Commandante o elogio do Mestre Pratico Manoel Joaquim da Costa, que no dia 27 de Março ajudado de seis Marinheiros reprezou huma lancha de que os inimigos em Maldonado se servião para hostilizar a Guarnição de Montevideo.

[14.4.1823]
No dia 14 partindo hum destacamento de 100 homens, ás ordens do Major José Joaquim Pacheco, a proteger hum corte de lenhas, conseguio com 10 Praças desalojar 40 e tantos homens do inimigo, de huma casa, e o obrigou a desamparar o passo do arroyo Miguelete em frente da Ferraria, com a perda de hum soldado morto e 3 feridos, sem que este pequeno destacamento soffresse casualidade alguma.

[19.4.1823]
«No dia 19 teve lugar o combate de Saladeiro de Duran, entre as tropas dissidentes Brasileiras, e as Reais Portuguesas de Montevideo dirigidas pelo Tenente Coronel João Joaquim Pereira do Lago, as quaes constavão de hum Esquadrão do 1.º Regimento de Cavalaria de V. R. d'El-Rei, commandado pelo Major João Nepumeceno de Macedo; de outro do 2.°, commandado pelo Capitão João Baptista de Oliveira; das Companhias de Cavalaria do Comando do Major D. Manoel Oribe e Capitão D. Caetano Rodrigues, do Corpo de Milícias de Canelones, do Commando do Coronel D. Bonifácio Vidal; e apoiadas por 100 homens do 1.º Regimento de Infantaria, commandados peio Major José Joaquim Pacheco; e pela 3.ª Companhia de Cavalaria de linha do Commando do Capitão João Peres.
Huma completa victoria coroou os esforços destas valoriosas tropas, e o inimigo retrocedeo precipitadamente com a perda de 20 mortos, e muitos feridos, deixando algumas armas e cavailos, e seis prizioneiros no poder dos vencedores.

«Merecem particular menção alguns Officiaes que neste combate adquirirão novos títulos á estima dos seus compatriotas; a saber: o Tenente Coronel João Joaquim Pereira do Lago, Commandante da columna que traçou o plano da acção; o Major João Nepumeceno de Macedo, do 1.º de Cavallaria, que se distinguio particularmente; o Major D. Manoel de Oribe, que attrahio com grande destreza o inimigo á cilada preparada; e o Capitão João Baptista de Oliveira, do 2.º Regimento de Cavallaria; o Commandante elogia altamente todos os mais Commandantes dos Corpos, Officiaes, Officiaes Inferiores, e soldados. A nossa perda foi só de hum Anspeçada ferido por hum próprio camarada.

[8.5.1823]
«A 8 de Maio marchou o Tenente Ajudante Leonardo de Sousa Leite á testa de hum destacamento do 2.º Regimento de Infanteria da Divisão de V. R. pela Sanja até em frente da casa da Ferraria, e encontrando huma partida inimiga a poz em completa fuga, ferindo-lhe dois homens.

[11.5.1823]
«No dia 11 a segunda Companhia de Granadeiros do dito Regimento, commandada pelo Tenente Lopo José Corte Real;  parte do 1.º Batalhão dos Libertos d'El-Rei, commandado pelo Capitão Joaquim de Sousa Pinto com 1 peça d'artilharia dirigida pelo 2.º Tenente Joaquim José Ribeiro, conseguio desalojar o inimigo em numero de 140 homens da Chácara do Presumido. Esta força que o Tenente Coronel Lopo José Corte Real, acompanhado pelo Official Superior do dia o Major José de Barros e Abreu, fez marchar para naquelle ponto proteger os forregeadores, desalojou depois huma partida que occupava a Ferraria. 

[12.5.1823]
O Capitão António Silvestre de Sousa, do 2.° Regimento de Infanteria, distinguio-se no dia 12 no piquete do centro de Casavalle, onde na emboscada em que se achava ferio alguma gente ao inimigo, e lhe tomou hum prizioneiro.

[13.5.1823]
«No dia 13 de Maio, por ser o fausto anniversario de S. M. se formarão as tropas da guarnição de Montevideo na Praça do Cabildo em grande Parada, Commandadas pelo Tenente Coronel João Joaquim Pereira do Lago. As três salvas do estilo em todas as fortalezas, e embarcações da Esquadra Nacional, estando tanto as primeiras como as segunda todas embandeiradas, forão além de outros, não equívocos signaes do regozijo com que os bons Portugueses em todos os pontos do globo celebrão este fausto dia.

[18.5.1823]
«A 18 o Coronel do Corpo de Milicias de Canelones, D. Bonifácio Vidal, levando debaixo das suas ordens a 3.ª Companhia de Cavallaria de linha, do Commando do Capitão D. João Peres, 50 homens do corpo de Milicias de Canelones, commandados pelo Capitão D. Santos Casavalle, e parte do Esquadrão das Milicias de Pando debaixo do commando do Capitão D. Joaquim Figueiredo, se dirigio á Estancia denominada de Chocarro, onde se achava huma grande porção de gado protegida por 70 homens ás ordens do Major Felisberto. O inimigo foi atacado nessa occasião com tal denodo por huma diversão que se lhe fez para distrahir a sua attenção daquelle ponto, que soffrendo total destroço, desamparou o campo, e foi perseguido até a Villa das Pedras.
As nossas tropas depois de haverem feito 12 prizioneiros se apoderarão de perto de duas mil cabeças de gado vaccum: a nossa perda foi só de hum Sargento e hum Soldado ferido; e do Alferes das Milicias de Pando, D. Francisco Burgeno que recebeo algumas cutiladas por equivocação de hum Soldado do seu mesmo corpo. Nesta empreza distinguirão-se o Tenente Coronel Jeronymo Pereira de Vasconcellos, commandante do 2.° Regimento de Infanteria da Divisão de V. R. de El Rei, os Majores João Nepumeceno de Macedo, e José de Barros e Abreu, commandantes do 1.º e 2.º de Cavallaria, o 2.º Tenente Joaquim José Ribeiro, Commandante do Parque de Artilharia, o Major Pedro António Rebocho, Commandante do 2.º Batalhão de Libertos, o Major D. Manoel de Oribe, os Capitães D. Caetano Rodrigues, e D. João Peres, Commandantes das 3 Companhias de Cavallaria de Linha , o Coronel D. Bonifácio Vidal do Corpo de Milicias de Canelones, o Capitão D. Simão del Pino, e D. Santos Casavalle que commandavão dois destacamentos deste Corpo, o Capitão D. Joaquim de Figueiredo que commandava parte do Esquadrão de Milicias de Pando, e o Major José Joaquim Pacheco, que com hum Destacamento do 1.º Regimento de Infanteria marchou da Praça para reforçar as posições de Serrito e Casavalle.
O Commandante das forças agradeceo aos Ajudantes de Campo os Tenentes D. Fernando Xavier de Almeida e José de Mendonça David, e ao Capitão do 1.º Regimento de Cavallaria José Maria de Sá Camello o zelo que mostrarão nesta occasiâo.

«O Commandandante das forças faz menção honrosa das excellentes disposições que tomou o Tenente Coronel João Joaquim Pereira do Lago, Commandante do 1.º Regimento de lnfanteria e da columna em Casavalle para proteger, em 20 de Junho o corte de lenha além dos pontos avançados do inimigo; assim como do valor com que o Major do dito Regimento no dia 24 do mesmo mez surprehendeo o inimigo no Saladeiro de Duran, e lhe fez dois prisioneiros, distinguindo-se nesta occasião o Alferes Rodrigo de Sá Valente.

[15.7.1823]
«No dia 15 de Julho pela madrugada tendo o Commandante das forças ordenado hum movimento contra as avançadas do inimigo, este que marchava á descoberta foi atacado e cortado por 70 homens do 2.º Regimento de Cavallaria da Divisão de V. R. de El-Rei ás ordens do Major Commandante deste Regimento José de Barros e Abreu, em cujo seguimento marchava o Coronel D. Bonifacio Vidal com parte das Milicias de Canelones, apoiado por duas companhias de infanteria e pequenos destacamentos de Cavallaria.
A intrepidez destas tropas cujos movimentos forão dispostos pelo Tenente Coronel Jeronymo Pereira de Vasconcellos Commandante do 2.º  Regimento de Infanteria e da Columna em Casavalle, deixou por longo tempo duvidoso o resultado da empreza: o inimigo soffreo notável perda de mortos e feridos além de 16 prizioneiros. A carga e a retirada foi muito habil e corajosamente executada á vista de 200 homens do inimigo que em vão tentarão tolher a passagem.
O Major José Barros de Abreu, e o Coronel Vidal se fiarão acredores de particular elogio pelo seu brioso comportamento.

[20.8.1823]
«A 20 de Agosto o Tenente Coronel João Joaquim Pereira de Lago, Commandante do 1.º Regimento de Infanteria e da columna em Casavalle, marchou com o intento de bater as partidas inimigas que costumavão fazer a descoberta, empreza esta da qual lhe resultou grande credito pela habilidade com que a desempenhou com bastante damno para o inimigo em feridos e tres prisioneiros que se lhe fizerão.

[24.8.1823]
«Na noite de 24 do mesmo mez o Capitão do Corpo de Milicias do Pando D. Thomas Burgueño bateo denodadamente no passo do Carrasco huma partida inimiga, aprisionando-lhe o Official Commandante e 3 Soldados, e protegendo ao mesmo tempo huma porção de gado a que se oppunha o inimigo.

[6.9/17.9/27.9.1823]
«Nos 6, 17, e 27 de Setembro o Tenente Coronel Jeronymo Pereira de Vasconcellos, Commandante do 2.º Regimento de Infanteria e da columna em Casavalle, verificou differentes movimentos sobre o inimigo, fazendolhes nos mesmos dias vários prisioneiros, sem perda alguma da nossa parte.

São elogiados por estas operações o Capitão Manoel Jeronymo Pinto, do 2.º Regimento de Infanteria, o Tenente D. José Vidal, do Corpo de Milicias de Canelones, e D. Santiago Aleman (?) ào mesmo Corpo. He digno de louvor o intrépido procedimento dos Commandantes dos navios de guerra denominados a Restauradora, (Corveta) e D. Maria Thereza (Escuna), isto he, do 1.° Tenente de Marinha José Maria de Sousa Soares, e do 2.º Tenente Procopio Lourenço d'Andrade, os quaes avistando a 10 de Setembro a Corveta Liberal, com bandeira do Governo do Rio de Janeiro (superior em forças aos dois mencionados vasos), fundeada na ponta de Carretas, á vista de Montam, a acommeterão com tal valor que só lhe derão trapo para picar a amarra, e fugir vergonhosamente.
O Commandante das forças louva com muita particularidade o comportamento do 1.º Tenente José Maria Soares, que commandava em geral, e que aproveitando-se do andar da sua embarcação logo deo caça á dita Corveta inimiga até ao Pão de Assucar, onde, apezar de se achar a mui larga distancia da Escuna D. Maria Thereza, a corveta inimiga não se atreveo a offerecer-lhe acção. Os Officiaes e equipagens destas duas embarcações mostrarão nesta ocasião o maior zelo e enthusiasmo por sustentar a honra da Bandeira Portugueza , ea sua lealdade a El-Rei. Esta vantagem briosamente adquirida pelo Primeiro Tenente da Armada, José Maria de Sousa Soares, foi precursora de outra de maior importância e maior renome. Tendo-lhe ordenado o Commandante das Forças, que com os Navios de guerra debaixo do seu commando se fizésse de vela, e atacasse os Navios inimigos que fazião o bloqueio de Montevideo, verificou-se o ataque no dia 21 de Outubro á vista dos habitantes da Cidade, e de grande número de estrangeiros nella residentes. Não obstante os vasos inimigos serem 6, e os nossos só 4, tendo os primeiros a seu favor o barlavento, travou-se o combate com denodo e crédito das nossas armas: os vasos inimigos perdendo grande parte das amarras, fizerão-se de vela com a maior precipitação.

«Não deixaremos em ingrato silencio os nomes de muitos Officiaes que nesta acção se fizerão distinctos. Além do Commandante Geral assignalárão-se pelo seu valor os commandantes da Corveta Restauradora , do Brigue Fausto, e Escuna D. Maria Thereza; os segundos Tenentes João Caetano de Bulhões Leotte, Procopio Lourenço de Andrade, e Pedro António da Silva os Pilotos das differentes embarcações também se distinguirão pela sua actividade no desempenho dos seus deveres. Desempenharão perfeitamente o conceito adquirido os destacamentos que levavão o seu bordo da Divisão de V. R. El-Rei, Brigada Real da Marinha, e dos Batalhões de Libertos.
O Commandante geral das embarcações de Guerra o 1.º Tenente da Armada Real José Maria de Sousa Soares, faz particular menção do serviço que fes nesta occasião o 2.° Tenente Procopio Lourenço de Andrade, Commandante do Brigue Fausto, que por falta do Alferes António Lourenço Marques Silva, cuja morte foi muito sentida, e pelos inconvenientes que tiverão o Piloto e Escrivão, ficou só attendendo a tudo, è mostrou pela sua conducta que era mui digno do posto que occupava. Merecerão igualmente distincta menção o Major José Joaquim Pacheco , o Alferes Luiz Xavier Valente, ambos do 1.º Regimento de Infanteria, o Tenente Ajudante do 2.º José Joaquim do Amaral, Officiaes a bordo do navio Conde dos Arcos, e o Alferes Francisco António de Carvalho do 2.º Batalhão de Libertos, Commandante de Infanteria abordo da Escuna D. Maria Thereza.

[22.11.1823]
«A 22 de Novembro o Commandante das forças lhes annunciou a conclusão de huma convenção conciliatória, terminando-se deste modo as hostilidades entre as forças mencionadas, e as do Brazil.

«Em fim a excellente disciplina, a lealdade e o valor destas tropas he o thema geral dos louvores de todas as ordens do dia. Ellas mostrarão-se fieis ao seu Rei e á Pátria, e superiores á seducção e a todas as necessidades. Seus Concidadãos os esperão com os braços abertos, e durável será a lembrança da honra com que se portou a pequena mas briosa Divisão Portuguesa de Montevideo em circunstancias de particular apuro.»

* * *

Fonte
- Gazeta de Lisboa, n.º 144, 19.6.1824 - pp. 679-681

20/02/2018

A visita da fragata Congress a Montevideu (22-23 de Fevereiro de 1818)


No dia 20 de Fevereiro de 1818, a fragata norte-americana "Congress" chegou ao largo de Montevideu, vinda do Rio de Janeiro. Nela viajava uma missão diplomática constituída por Caesar Augustus Rodney (1772-1824), John Graham (1774-1820) e Theodorick Bland (1776-1846), um conjunto de políticos e diplomatas americanos nomeados pelo então presidente James Monroe para uma missão especial à América do sul, que veio a receber o nome de Comissão Sul-Americana de 1817-1818. Tendo visitado o Rio de Janeiro, entre 29 de Janeiro e 9 de Fevereiro, onde assistiram às celebrações da aclamação do rei D. João VI, largaram depois com destino a Montevideu.


Henry Brackenridge
As atividades desta comissão são importantes, mas para os nossos fins imediatos, interessa-nos mais a figura de Henry Marie Brackenridge (1786-1871), secretário dessa comissão, que legou para a posteridade as suas observações pessoais da viagem que veio a publicar em 1820, logo a seguir ao seu retorno aos EUA em 1819.

A fragata chega a Montevideu a 20 de Fevereiro de 1818, pouco mais de um ano após a conquista de Montevidéu pelas forças portuguesas, e os seus membros partiram para Buenos Aires na manhã do dia 25. O pouco tempo em que estiveram na cidade permitiram que tenhamos hoje acesso, pelas palavras de Brackenridge, a elementos esclarecedores sobre o estado presente da cidade, assim como estado maior português. 

No dia 22, visitou o quartel-general português. 
No dia 23, participou num jantar com vários oficiais do estado maior português. 

Da duas relativamente breves ocasiões, Henry Brackenridge oferece-nos um testemunho interessantíssimo do Montevideu ocupado, assim como do próprio capitão general Carlos Frederico Lecor. 

Desde já aqui deixo os excertos que poderão ter mais relevância, traduzido da sua língua original por mim, mas deixo também ao fundo as ligações para o texto completo da edição de 1820, em inglês, e para uma reedição de 1924, escrita em espanhol:

[Montevideu 22 de Fevereiro de 1818]
“Dessa forma procedemos para os alojamentos do general português, que ocupam uma das maiores e melhores casas na cidade. Entrámos num pátio ou veranda espaçoso, com galerias a toda a volta, por uma guarda de tropas negras, com aspeto brilhante e gorduroso, vestidos com uniformes vistosos. Nestes países os negros são preferidos para guardas e sentinelas, perto dos oficiais de distinção.
Depois de passarmos por vários salas, cruzando-nos com sentinelas e oficiais de serviço, que exibiam perante nós a pompa e circunstância do estabelecimento de um grande chefe, entrámos numa sala onde fomos polidamente convidados a nos sentar.
Mal tivémos tempo de nos refazer das reflexões produzidas por isto, para nós, uma cena pouco usual, quando o general ele próprio fez a sua aparição, com a qual ficámos extremamente impressionados. Ele é uma figura notavelmente elegante, alto e erecto, com uma dignidade nativa sem afetação de maneiras. Tem para cima de 55 anos, a sua tez é demasiado clara para um português; de facto, soubemos depois que ele é de descendência flamenga. A personalidade deste oficial não contradiz a impressão favorável que a sua aparência é calculada a fazer. A sua reputação é a de um soldado bravo e honrado, e de um homem polido e altruísta. Pelo que todos dizem, no entanto, ele não é excluvivamente devedor destas suas boas qualidades, pela sua elevação de um baixa estação de vida. O Sr. Bland apresentou-se através do White, que atuou como intérprete, e, após alguma conversação, no qual apresentou os motivos da visita, aceitou um convite geral para jantar no dia seguinte, o general ao mesmo tempo da forma mais prestativa prometia os seus serviços.” (p. 45-46.)

“Há algo extremamente doloroso na contemplação de cenas de decadência rápida e recente. Os sofredores no caos e na desolação são trazidos a nós, e não podemos senão simpatizar com os seus infortúnios. Ruínas antigas estão associados com seres, que no devido curso da natureza e do tempo, há muito tempo teriam desaparecido de qualquer forma, mas nós inevitavelmente partilhamos as misérias dos nossos contemporâneos, onde estamos cercados pelos seus tristes memoriais. A cada passo eu encontrava algo que me despertava estas reflexões. Vestígios do mais rápido declínio desta cidade há tão pouco tempo florescente e populosa. As casas, na sua maioria, estavam a cair ou desocupadas, ruas inteiras estavam desabitadas com a exceção das casernas da soldadesca. Nas ruas mais frequentadas, poucos eram vistos senão soldados […]. Parecia haver poucos ou mesmo nenhuns negócios a decorrer, mesmo nas pulperias e lojas. A cidade, de facto, parecia ter recebido a visita de uma praga.” (p. 46)

[Montevideu 23 de Fevereiro de 1818]

“Por volta do meio dia, recebemos uma visita do general Lecor e entourage. Os seus oficiais falavam em geral bom inglês, provavelmente por terem servido com eles contra os franceses. Esta era entendida como uma visita de cerimónia. Às três horas, procedemos aos seus aposentos, de acordo com o convite. O comodoro [Arthur] Sinclair tinha inicialmente recusado, mas posteriormente, após um convite premente enviado pelo general, sentiu-se impelido a ir. […] Encontrámos um grande número de pessoas reunidas, todos eles oficiais portugueses de terra e mar, exceptuando um cavalheiro num fato de cidadão, que, fomos informados, era um agente de Buenos Aires, num qualquer negócio especial; ele parecia um homem inteligente e aguçado, e o seu fato preto simples formava um singular contraste com os esplêndidos uniformes, e cruzes, e medalhas dos oficiais portugueses. Os divertimentos foram os mais sumptuosos. Era, com efeito, um banquete, composto de tudo à laia de peixe, carne e caça, que possa ser imaginado, sendo seguido por toda a qualidade de frutas que tanto este mercado como o de Buenos Aires podem oferecer. Os nossos ouvidos eram ao mesmo tempo regalados com a mais doce música da banda do General. Muitos destes oficiais, particularmente os ajudantes do General, era notavelmente belos homens; Acontece que me sentei junto a um deles, com quem pude conversar bastante. Ele expressou grande admiração pelas nossas instituições políticas, e caráter nacional, parte das quais eu obviamente tomei como cumprimentos. Ele falou dos patriotas de Buenos Aires como um grupo faccioso, incapaz de estabelecer um governo sóbrio; os seus líderes todos corruptos, e desejosos apenas de adquirir uma pequena dose de auto importância; o povo ignorante, e à mercê de demagogos ambiciosos: ele contrastava o caráter deles com as virtudes e inteligência do povo dos Estados Unidos. Ele falou de Artigas, como um atroz selvagem, e declarou um acontecimento recente de tratamento cruel aos seus prisioneiros; que o seu povo era, como todos os selvagens, totalmente insensível aos sentimentos da humanidade. Ele falou de uma forma pouco elogiosa acerca dos ingleses, e manteve a ideia que algumas vãs tentativas haviam sido recentemente feitas da sua parte, para induzir o Rei de Portugal a retornar a Lisboa.” (p. 52-53)

Henry Marie Brackenridge (1820), Voyage to Buenos Ayres Performed in the years 1817 and 1818 by Order of the American Government, London.

Leia em-linha 
- A versão em inglês, de 1820 [aqui - na Archive.net], 
- & em espanhol, a de 1924 [aqui - na GoogleLivros].


* * *

A missão norte-americana vista pelos Portugueses

Numa carta de 25 de Fevereiro, o capitão general Carlos Frederico Lecor, que havia entretanto sido feito barão da Laguna no início do mês, por ocasião da aclamação do rei D. João VI, informa o secretário de estado dos negócios da guerra, Tomás António Vilanova Portugal, refletindo que apesar dos propósitos expressos desta comissão serem os de “tomar conhecimento do estado político das Províncias Unidas do Rio da Prata, inteirar-se da economia, e estabilidade do seu governo”, na verdade conseguiu apurar que esta missão era “mais aparente que necessária”, pelo que já estaria decidido que não só os Estados Unidos iriam reconhecer as Províncias Unidas (futura Argentina) como também socorrê-las contra a pretensões de Espanha e seus aliados.

11/11/2017

Entrada em Montevidéu, 20 de Janeiro de 1817


Ao romper do dia 20 de Janeiro de 1817, pelas seis horas, toda a Divisão de Voluntários Reais assim como algumas tropas do Exército do Brasil formaram para que os seus comandantes lhes passassem as competentes revistas. 
Desde a tarde do dia anterior que esperavam no Saladero del Seco, 9 km a oeste da praça, logo após o seu general em chefe, Carlos Frederico Lecor, ter acertado os termos de rendição com emissários do Cabildo que se apresentaram em Pando. 

Após quase 6 meses de marchas e acampamentos, desde a ilha de Santa Catarina, a mais de 1000 quilómetros de distância, até este momento, todos usam os melhores uniformes, no maior garbo e asseio, e todos se preparavam para cumprir o maior objetivo de toda a campanha, Montevideu, aquilo que os trouxe à América.



Cerimonial de entrega da praça

Carlos Frederico Lecor
Às nove horas da manhã, toda a Divisão de Voluntários Reais e demais forças, do exército do Brasil (vide ‘Ordem de Batalha’ em baixo), se perfilam perante as muralhas, junto à Porta Norte, a entrada principal da cidade. Por essa mesma altura, os membros do Cabildo, o conselho municipal, Juan de Medina, Felipe Garcia, Agustin Estrada, Lorenzo J. Perez e Jerónimo Pio Bianqui, e demais corporações da cidade, entre muito povo curioso, encaminham-se para a porta norte da cidade, onde encontram o general português.  O pintor uruguaio Gilberto Bellini captura esse momento, mostrando a pompa e circunstância, pese embora ser obra feita 100 anos depois dos acontecimentos.

Solenemente, Lecor perguntou se o Cabildo tinha algo a expor antes que ele entrasse na praça. Apresentou-se o síndico procurador geral, Jerónimo Pio Bianqui, em nome de todos, defendendo a necessidade de sufocar a “exaltación de las passiones” e acabar com os insultos que foram feitos pelos revolucionários à cidade. De acordo com Francisco Bauzá, Lecor respondeu que “estaba muy bien” e que iria levar essas preocupações a sua Majestade Fidelíssima.
Logo em seguida, Bianqui fez a entrega das chaves da cidade, pedindo que, sendo necessário, as retorne apenas e só ao Cabildo, que é quem as entrega:

El Exmo. Cabildo de esta Ciudad por medio de su Sindico Procurador General hace entrega de las llaves de esta Plaza á S. M. F. (que Dios guarde) depositandolas com satisfacion y placer, en manos de V. E. suplicandole sumisamente tenga la vondad de hacerle el gusto que en qualquier caso ó ebento que se vea en la necessidad de ebaquarla no las entriegue á ninguna otra autoridade ni potencia, que no sea el mismo Cabildo[...]

Bianqui conclui, indicando que o Cabildo espera que “un General que ha mostrada tanta generosidad á todos los Pueblos del tránsito [...] no se negará consederle esta suplica”. Bianqui foi, como veremos, na segunda parte desta postagem, uma figura fundamental na gestão dos acontecimentos. Tendo Barreiro retirado com os 800 homens da guarnição na noite de 18 para Paso del Cuello, a norte de Canelones, é ele que faz o Cabildo agir, na manhã de 19, da única forma que pode, a rendição, pedindo o razoável aos portugueses. Não há tropas, mas a cidade permanece, o comércio e a navegação devem continuar.

Sob o Pálio

Igreja Matriz (hoje Catedral Metropolotina)
Entregues as chaves e feitos os cumprimentos, os maiores da cidade guiaram o general Lecor, “en la forma acostumbrada”, debaixo do pálio, entre vivas e aclamações entusiásticas, à Igreja Matriz onde foi entoado um solene Te Deum. Após a cerimónia religiosa, a comitiva deslocou-se às Casas Capitulares, onde o Cabildo estava sediado, e onde Lecor tomou a posse da cidade.
O memorialista Lobo Barreto, então tenente de caçadores, reflete sobre a natureza dos vivas que eram dados a Lecor e a D. João VI, principalmente por parte dos espanhóis europeus:

[...] um regozijo extraordinario se mostrou em toda a Povoação, e muito principalmente nos Hespanhoes Europêos, que se persuadião que estas tropas de acordo com o gabinete de Madrid ião revendicar os direitos do seo Rei, e livrando-os da perseguição dos filhos do paiz, proteger as vinganças e caprichos dos seos primeiros colonos; do que bem breve se desenganarão [...].

Versão a cores da obra de Gilberto Bellini

Segundo Francisco Bauzá, não houve apenas vivas, tendo as autoridades alguma dificuldade em conter alguns “morram os traidores, os portugueses e os aportuguesados” que se ouviam. Segundo este autor, descendente de Rufino Bauzá, apoiante de Artigas e protagonista oriental dos dias anteriores, houve algumas agressões pessoais e o falatório de outras mais generalizadas para o futuro. De facto, e apesar das derrotas que os orientais sofrem em India Muerta e Catalán, a Banda Oriental está longe de estar controlada e a Liga de los Pueblos Livres, de Artigas, está ainda longe de submetida.

O Pavilhão Portuguez

Após todas estas cerimónias, as tropas portuguesas desfilaram ainda pelas ruas principais da cidade, exibindo o seu garbo marcial e os seus uniformes castanhos distintos, que tanto tinham impressionado em Lisboa e no Rio de Janeiro. Como último ato do dia, içou-se a bandeira portuguesa na cidadela, ao que se seguiram salvas e repique de sinos. 
Lobo Barreto informa-nos que, com a exceção da Coluna da Vanguarda que ficou aquartelada na cidadela, todas as forças portuguesas se foram postar a cerca de 5 kms das muralhas, montando postos avançados. Montevideu pode ter sido tomada, mas a Banda Oriental está longe de ser dominada.

LEIA TAMBÉM:

* * *

Ordem de ‘Batalha’
(de acordo com DUARTE: 1984)

Divisão de Voluntários Reais
1.ª Brigada de Infantaria:
- 1.º Regimento de Infantaria ... 1,040
- 1.º Batalhão de Caçadores ... 712
2.ª Brigada de Infantaria:
- 2.º Regimento de Infantaria ... 1,076
- 2.º Batalhão de Caçadores ... 615
Cavalaria ... 756
Artilharia ... 233
(Total de 4,432 efectivos)

Unidades Brasileiras
Batalhão de Infantaria do Rio Grande ... 220
Esquadrão de Cavalaria do Rio Grande ... 113
2 Esquadrões da Legião de São Paulo ... 54
2 Esquadrões da Milícia do Rio Grande ... 196
Companhia de Artilharia a Cavalo ... 62
Guerrilhas do Rio Grande ... 17
(Total de 662 efectivos)

Grande total de 5,094 efectivos

* * *

Extrato das memórias de João da Cunha Lobo Barreto

[…]

ENTRADA NA PRAÇA DE MONTEVIDÉO
No dia 20 de Janeiro ao romper do sol se formarão todos os Corpos no maior asseio possivel afim dos seos respectivos Commandantes lhes passarem as competentes revistas, e depois de reunida toda a columna nos posemos em marcha para a dita Praça, onde entramos ás 9 horas da manhã do mesmo dia; um regozijo extraordinario se mostrou em toda a Povoação, e muito principalmente nos Hespanhoes Europêos, que se persuadião que estas tropas de acordo com o gabinete de Madrid ião revendicar os direitos do seo Rei, e livrando-os da perseguição dos filhos do paiz, proteger as vinganças e caprichos dos seos primeiros colonos; do que bem breve se desenganarão como logo diremos. O General em Chefe foi recebido pelo Cabildo (Senado da Camara) debaixo do Palio, assim conduzido á Matriz, aonde se entoou Te-Deum; depois as tropas percorrerão algumas ruas do centro da cidade; e á excepção da columna da vanguarda que se aquartelou na Cidadella, forão formar uma linha a uma legoa da cidade, cobrindo os seos suburbios todos com postos avançados. O General Pinto foi nomeado Governador da Praça, e o corpo de vanguarda desfeito no outro dia.
No dia seguinte se arvorou na Cidadella, e mais fortes da praça o Pavilhão Portuguez; a cuja vista os Hespabhoes ali residentes murmurarão, e desde logo supposerão que a usurpação daquelle territorio é que ali nos tinha levado; os filhos do paiz, que até então gemião sobre o tirano jugo de José Artigas, uns porque tinhão sido por elle perseguidos, e outros querendo figurar na ordem das cousas, ou tirar vantagem della; o caso é, que se mostravão muito satisfeitos, ou ao menos assim o apparentavão, rendendo seos respeitos ao General em Chefe, que a todos habitantes acolhia com summa consideração e affabilidade, conservando todas as authoridades que se achavão constituidas, e preferindo para os empregos que se hião creando os Americanos, aos Europêos, de cuja politica estes muito se ressentião, porem mais escandalisados dos filhos do paiz, antes querião soffrer semelhante humilhação, do que de novo lhes serem sugeitos, visto que seo desenfreamento, lingoagem, e regozijo, no acto da nossa entrada, mais tinha incitado a aquelles, que de certo lhe tomarião novas e restrictas contas se as nossas tropas de ali levantassem.

* * *

Fontes
- BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in:Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.
- BAUZA, Francisco, História de la Dominación Española en el Uruguay (tomo VI), Col. Clásicos Uruguayos, Ministério de Instrucción Pública: Montevideo, 1965. 444 pp.
- DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 ( 3 v.), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.
- ARCHIVO ARTIGAS, tomo XXII