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18/06/2019

Diário Militar de Bento Correia de Câmara (14 de Junho a 25 de Julho de 1819)


Num documento no Arquivo Histórico do Itamarati, do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, sob o título de “Documentos de militares contra Artigas (cop.)", encontramos o diário militar do brigadeiro Bento Correia de Câmara
O manuscrito de 14 folhas refere-se às movimentações que o brigadeiro Câmara, então comandante da fronteira de Bagé, encetou entre 14 de junho e 25 de julho de 1819, face a um aumento de pressão por parte das forças orientais, sob o comando de José Artigas, e que culminou na Ação de Santana, a 29 de junho, onde uma força oriental foi derrotada junto a Santana do Livramento.

A segunda Invasão Oriental de Missões

Em 25 de Abril desse ano, cerca de um mês e meio antes, o comandante oriental de Missiones, Andrés Guaçurari y Artigas, também conhecido por Andresito ou Artiguinhas, iniciou uma segunda invasão das Missões Ocidentais, transpondo o rio Uruguai a norte de S. Nicolau, que resultou na ocupação deste primeiro povo, assim como os de S. Luís, S. Miguel, S. Lourenço, S. João e inclusive tão a leste quanto Santo Angelo, 100 km já dentro do território das Missões ocidentais.

A acompanhar esta invasão, e como em 1816, José Artigas fez pressionar a fronteira do rio Quaraí, ameaçando Santana e Alegrete, assim como Bagé. Os movimentos e objetivos de Artigas são aliás muito semelhantes aos de 1816.

Mal tem conhecimento, o Conde de Figueira, D. José Maria Vasconcelos e Sousa, capitão general do Rio Grande desde Outubro do ano anterior, substituindo o marquês de Alegrete, parte de Bagé em direção a Missões, fazendo a ligação às forças de José de Abreu, em Alegrete, a 18 de Maio, e às de Francisco de Chagas dos Santos (o governador das missões portuguesas), a 27 de Maio, no rio Camacuã.

Após encontrar S. Nicolau abandonada pelos orientais, o conde da Figueira procede a libertar os restantes povos ocupados, tendo despachado previamente José de Abreu a procurar uma parte do exército oriental que tinha cruzado o rio Piratini para sul. Este contingente, comandando pelo próprio Andresito, é derrotado na Ação de Itacorubi, a 6 de junho, pondo fim à invasão e levando à própria captura de Andrés Artigas a 24 desse mês, quando procurava transpor o Passo de S. Isidro, de volta a Missiones.

Bento Correia de Câmara, Bagé e Santana

É 300 quilómetros a sul que encontramos o teatro a que se refere este manuscrito, entre Bagé e Santana, na fronteira do rio Quaraí. Aliás, é o próprio documento que nos informa que só a 2 de Julho é que o brigadeiro Câmara tem a notícia do fim da invasão a norte.

O manuscrito tem um interesse próprio, permitindo-nos perceber as movimentações do exército da Capitania do Rio Grande nesta área, face à pressão que Artigas desejava complementasse a invasão de Missões a norte.

Posso apenas tentar perceber a razão pela qual o mesmo ficou no Arquivo Histórico do Itamaraty, entre outros diários militares relativos a outros períodos, mas a menção que faz a um desentendimento entre os brigadeiros Bento Correia de Câmara e Félix José de Matos pode ajudar a perceber. Este desentendimento tem o seu zénite a 31 de Junho, dois dias depois da vitória obtida na Ação de Santana.
Terá sido graças a esta disputa e eventuais repercussões de índole política, que temos hoje acesso ao manuscrito e à transcrição que aqui apresento.

O Manuscrito

Ainda que tenha uma importância reduzida face aos eventos que estavam ainda a acontecer 300 km a norte, este tipo de documentos, que se inserem no memorialismo militar, são fundamentais para perceber o funcionamento e dinâmica do exército do Brasil durante o conflito de 1816-1820.

Aqui apresento pois uma transcrição do manuscrito, com ortografia moderna, em complemento de uma outra versão, com a ortografia original, que publiquei no blogue "Corpus de Memorialismo Militar Luso-Brasileiro nos Finais do Antigo Regime" e que pode ser lido aqui.

Tanto quanto possível tentei identificar as pessoas referidas, mas tal não foi possível em todos os casos, nomeadamente os militares de postos subalternos.

A acompanhar esta transcrição, ponho à disposição um pedaço de um mapa da área, de 1868, mas que apesar de ter sido feito meio século depois ainda reflete a realidade do terreno em 1819, com a exceção de muitas terras que não existiam na altura.

* * *

[Transcrição]

Dia 14 de Junho de 1819, Recebi parte do Alferes comandante da Guarda de Guabijú, de se terem recolhido os bombeiros, e participarem que na serra de Lunarejo divisarão uma grosssa coluna inimiga que se encaminhava para Santana [do Livramento] para a nossa Fronteira com abreviadas marchas.
Neste mesmo dia convidei o Brigadeiro Félix [Félix José de Matos Pereira de Castro (1772-1823), comandante do Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande] para com a sua divisão operarmos contra esta força assentando a reforçar a tropa do meu mando com 70 homens de seu comando.
Dirigi parte para proprio a Capela de Alegrete, participando ao Sargento Mor João António [possivelmente o sargento mor reformado João António da Silveira, do Regimento de Dragões]  desta força que se encaminhava para os limites daquela repartição.
Pus-me em marcha com as forças do meu Comando para o ponto proprio da fronteira ameaçada fazendo Pouso no Fazendeiro França.

Dia 15
Me acampei nas vertentes do Arroio Ponche Verde.
Recebi Offício do Brigadeiro Félix comunicando-me de não puder mandar o reforço que tinha tratado pelo motivo de lhe participarem os seus Bombeiros vindos do rincão das Avarias terem ali divisado uma força Inimiga.
Fiz reunir a guarnição da Guarda de Guabijú, e por consulta fiz marchar no mesmo dia a metade das forças do meu Comando em Número de [espaço em branco] com direção a Itaquatiá [arroio Itaquatiá, entre o rio Upamaroti e o arroio Ibicuí da Faxina], com destino de atacar alguas escoltas da força Inimiga, que se dividirão em grossas partidas, a saquear, e queimar as habitações dos moradores situados no rincão de Ibicuí, repartição do Coronel Abreu [José de Abreu (1770-1827)], dobrando os Bombeiros para Santana a fim de descobrir a posição e direção do Inimigo.

Dia 16
Não houve novidade

Dia 17
Apresentou-se o Tenente Anacleto Jacinto e o Alferes Francisco José Farinha com 23 praças do seu distrito.

Dia 18
Enviei notícias a Bagé ao Capitão Pedro Fagundes, indo pelo […] do Cabo de Esquadra de Dragões Cândido de Abreu por quem solicitei a remessa de armamentos precisos
Recebi carta do Brigadeiro Félix José participando-me ter tomado a resolução de unir-se a este ponto.
Apresentou-se um soldado guerrilha do Distrito de S. Sebastião.

Dia 19
Apresentou-se um guerrilha da repartição de Guabijú.
Reuniu-se o Brigadeiro Félix, com a Divisão do seu Comando.
Recebi carta do Sargento Mor Antonio  Adolpho [António Adolfo Charão, ou Adolph Schramm (1761-1835)] de ter o Inimigo passado a parte oriental de Santa Maria no Passo do Rosário a supor teriam saqueado as bagagens que por aquelas imediações mandou o Exmo. Senhor Conde [1.º Conde da Figueira, José Maria Rita de Castelo Branco Correia da Cunha Vasconcelos e Sousa (1788-1872), capitão general do Rio Grande].
A esta mesma […] nos juntamos em marcha para a direção de Itaquatiá com o destino de procurar o Inimigo onde quer que apareça.

Dia 20
Pouso na Fazenda do Furriel Inácio Rodrigues.

Dia 21
Pouso na Antiga Guarda de Santiago em cuja marcha cansou muita cavalhada de todos os Corpos.
Recebi notícia pelo espanhol Ignacio Guterres apresado pelo Inimigo de quem pode fugar; notifica ter ouvido aos referidos ter Artigas destinado 200 homens para saquearem Bagé por cujo motivo fiz seguir o Capitão João dos Santos Campello, um dos homens de cavalaria, a ocupar o ponto da Guarda de Guabijú; ponto próprio interessante para ser repelida aquela força na pretendida entrada e retirada daquele destino.
Pela consulta feita com o Brigadeiro Félix em a utilidade do Real Serviço assentamos em deixar o Parque […] oculto a fim de mais aceleradamente ocuparmos a importante posição de Santana em atenção a falta de transportes, e cavalgadura que já experimentámos.
Este Parque por melhor acordo foi conduzido pelo Capitão Santos, para o remeter a Bagé e dali ser concentrado; fizemos Pouso nas vertentes do Uparamoti.

Dia 22
Pouso em outra vertente do Uparamoti, nada ocorreu.

Dia 23
Recolheu-se o Bombeiro Jerónimo Rodrigues e traz a notícia de ter o Furriel Inácio Rodrigues descoberto o rasto de 30 a 40 Inimigos terem se entranhado para as partes do Ibicuí, ficando de emboscada aos mesmos no sítio do Serro das Palomas; e por consulta feita entre mim e o Brigadeiro Félix, Vaquianno, e oficiais práticos do terreno, assentámos mandar 50 homens na Partida mandada pelo Bento Gonçalves [Bento Gonçalves da Silva (1788-1847)] de Proteção ao Bombeiro Jerónimo Rodrigues para explorar afoito onde se acha o Inimigo na direção se supõe ocupam, vertentes de Taquarembó a Santana.
Mandei um Soldado guerrilha ao passo do Rosário no Arroio de Santa Maria, a certificar-me das notícias do saque que tenham feito o Inimigo por aquela parte ficando de voltar ao fim de 5 dias.

Dia 24
Não houve novidade.

Dia 25
Apresentaram-se os guerrilhas Manuel de Vargas e João Franco, mandados pelo alferes Barbosa a dar a notícia de que o furriel Inácio Rodrigues com 19 homens atacou 60 a 70 inimigos, mataram 3 e vários baleados, aprisionaram um com um braço quebrado de uma bala, retomaram os nossos ao inimigo 900, a 1000 animais vacuns cavalares, entre estes trezentos e tantos cavalos mansos, asim como tomarãam 2 armas, uma lança e uma pistola e que o inimigo prisioneiro confessava terem 300 homens acampados na Tapera de Felisberto Goulart nas pontas de Quaraí, assim como o Fructuoso [José Fructuoso Rivera (1784-1854)] se encaminhava com 400 a saquearem Bagé, por cujo motivo reuniu, digo motivo mandou se reunir a partida para atacarem as referidas forças.
Próximo ao Pouso se apresentaram 2 pretos espanhóis, fugidos de seu Ssenhor Maxuca de quem eram escravos.
Fizemos Pouso na Fazenda de Joaquim Pedro.

Dia 26
Recebemos aviso do capitão Bento Gonçalves de depor o prisioneiro que Artigas [José Artigas (1764-1850)] se acha em Santana com as suas forças próximo à mesma Partida por cuja razão seguimos a reunirmos à mesma partida com o desígnio de os atacar; fizemos Pouso na tapera do Ribeiro; ao anoitecer foram descobertos pelos nossos bombeiros sobre a nossa frente 7 a 8 bombeiros inimigos.

Dia 27
Não podendo seguir de dia mandámos bombeiros a partida do alferes Manuel Barbosa a saber notícias do inimigo.
Tem cansado até ao presente dia 96 cavalos.
Ao anoitecer segui com a tropa do meu comando a reunir-me com as partidas do capitão Bento Gonçalves e alferes Manuel Barbosa nas pontas do Ibicuí com o proposito de ir amanhecer atacando o inimigo, para cujo fim prestou o brigadeiro Félix José o reforço de 40 Praças, que, imediatamente as tornou a suplicar ficasem por não poder dispensá-las, com tudo vexado pela ordem que tinha do Exmo. Sr. Conde, cedeu, e marchei na mesma tarde para o Aroio Ibicuí [arroio Ibicuí da Faxina] dando a volta de três léguas, a fim do inimigo não reconhecer as forças do meu comando pelos seus bombeiros, que se achavam postados nas alturas da Serra de Santana, nessa noite me incorporei às duas partidas referidas, e ali soube dos oficiais comandantes das mesmas que era impraticável a mesma marcha por causa do grande peso da cavalhada magra, e cansada, que de necessidade se devia apartar da pouca que havia em melhor estado dar tempo no dia seguinte a carnear, e fazer fiambres, e remeter os presos a outra divisão.

Dia 28
Às doze da manhã tive parte pelos meus bombeiros que da parte dos nossos terrenos se divisava sua coluna de 200 Homens, que mandando-a reconhecer, soube ser o inesperado brigadeiro Félix José, que conferindo comigo, me fez ver o desejo que então teve de me acompanhar, ao qual anuí, e marchando naquela tarde fiz alto, às doze da noite no primeiro acampamento que o Inimigo ocupou.

Dia 29 [Ação de Santana]
Ao amanhecer, nada se pode divisar, pela grande cerração que durou até às dez horas, tendo com antecipação pedido-me o referido brigadeiro 20 homens da minhaa divisão, e parte dos meus bombeiros e vaquianos, que montariam a dez homens, e que permitisse deixar passar alám da minha vanguarda, o capitão das suas guerrilhas Bento Gonçalves com aquele reforço, e com mais 30 homens de que se compunha a sua guerrilha, ao que assenti, dissipada a cerração, veio parte dos bombeiros, de que em distância de légua atravessava uma partida Inimiga de mais de 100 homens, e pelo mesmo aviso tinham feito as guerrilhas da vanguarda, imediatamente fiz avançar os guerrilhas de minha vanguarda ao comando do intrépido capitão Anacleto Francisco Goulart, e me pus logo em marcha seguindo na minha retaguarda o brigadeiro Félix, das alturas da cochilha de Santana, avistámos a partida inimiga, na distância de mais de légua e meia ali me pediu o referido brigadeiro para que marchássemos em batalha, ao que não anuí dizendo-lhe [que] era impraticável, e desnecessário em tão longa distancia, que só servia para oprimir a tropa, diminuir a marcha, e que na distância de 40 toesas [cerca de 80 metros] do inimigo se deveria meter em linha, chegando [a]o 2.º acampamento do inimigo tive parte do capitão Anacleto, que o inimigo não mostrava ter mais reforço, que o que se apresentava na sua frente, e que sendo tão desigual em número às nossas forças, achava desnecessário que fossemos acabar de cansar a cavalhada, e que achava justo fazermos alto naquele ponto, para onde mandaria as novidades decorrentes, às 4 da tarde, tive aviso dos meus bombeiros, que ouviam alguns tiros de fuzilaria, pela qual notícia me pus em marcha para aquela direção seguindo-me os passos o dito brigadeiro ao longo da extensa coxilha, e em grande distância me uni à minhaa vanguarda, que se retirava do campo do ataque dando-me parte o capitão Anacleto, de ter ali encontrado a partida do Gonçalves em total derrota, tendo dado costas ao Inimigo, tendo este boleado alguns cavalos da partida, morto a cinco e ferido a outros muitos, a tempo que chegando o capitão Anacleto, os atacou com tal denodo, principiando a matar nos mesmos, e a fazer prisioneiros, na distância de mais de 2 léguas, em que sempre o acompanhou o capitão Gonçalves, e dois [...] da partida do referido, daquela distância retrocedeu, por causa de se achar com todos os cavalos cansados, dali fizemos pouso no acampamento que tinha sido do inimigo, tendo sido o resultado das operações deste dia na perda que sofreu o Inimigo de 20 prisioneiros, mais de 50 mortos, e para mais de 150 cavalos, 20 clavinas, 1 pistola, 3 espadas, 5 cartucheiras, 23 cartuchos, 1 lança, e 1 prisioneiro restaurado =

Dia 30
Tendo deposto os prisioneiros, que a partida destroçada era a única que se conservava naquela[s] imediações, por se ter retirado a mais força do interior de seu acampamento; e que Baltas Ogueda com 400 Homens, era mandado atacar Bagé. por cujo motivo resolvi retrogadar a minha marcha, em auxílio àquele ponto, pernoitei na principal vertente de Ibicuí =

Dia 31
Mandei pelo meu ajudante dizer a brigadeiro Matos [de novo, Félix José de Matos Pereira de Castro (1772-1823), também referido no texto como Felis ou Feliz J.e], que me via na precisa obrigação de acelerar as minhas marchas, para repelir a pretendida invasão da fronteira do meu comando, por cujo motivo marchava naquela manhã.
Este brigadeiro teve a grosseria de responder, quee sem a sua ordem não marchava = isto pelo temor de não atravessar a campanha sem a proteção da minha Cavalaria ao que tornei que a minhaa ordem se regressasse à fronteira de seu comando, da melhor forma que pudesse, e que não podia deixar de estranhar a grosseria com que regia comandâncias, apesar da prevenção do Ex.mo Sr. Conde, tendo determinado por ordem que nos deixou de sermos arimados a socorrer qualquer das fronteiras que necessitem, que não ignorava que ali (…/…) ordenava comandasse a patente mais moderna de cavalaria, ao mais antigo de infantaria em campanha, pelo contrário em praça de Armas, e fortalezas.
Fiz Pouso na Guarda de Itaquatiá, comando do Coronel Abreu.

Dia 1.º de Julho
Na hora de marcha recebi dois coices de um cavalo. Nesta guarda deixei uma patrulha de observação, ao cuidado da mesma 200 Cavalos e um vaquiano para auxílio da marcha da divisão do brigadeiro Félix, fiz Pouso na margem de Uparamoti =

Dia 2
Recebi as agradáveis notícias da derrota do Inimigo em Missões e fiz pouso na segunda vertente do mesmo arroio.

Dia 3
Pernoitei na margem de Ponche Verde; em cuja marcha continuou a ficar muita Cavalhada cansada a deixei ficar o soldado dragão João Cond.a (?) em casa do morador Ângelo de Vargas, por não poder resistir à jornada, por causa de sua ferida de bala que recebeu em uma coxa no ataque do dia 29 =

Dia 4
Pouso no arroio Piraí.

Dia 5
Chegada ao acampamento de Bagé em cuja Guarnição achei pouco mais de 100 homens, destes a maior parte inválidos, e desarmados.

Dia 6
Dirigi as minhas participações aos Ex.mos Senhores Conde Governador, General Marques [Manuel Marques de Sousa (1743-1820)], e Cambra [possivelmente o general Patrício José Correia da Câmara (c. 1737-1827)].

Dia 7
Recebi parte do falecimento do soldado dragão ferido.

Dia 8
Ordenei a Reunião da partida de observação composta de 80 Homens, que se achava postada em Piraí Grande ao mando do capitão Campelo, tendo mandado prestar a companhia de guerrilhas, composta de 46 praças, na margem do Arroio Hospital.

Dia 9
Ordenei a remessa para a prisão da capital de vários criminosos, composta de desertores, prisioneiros, e paisanos facinorosos.

Dia 10
Passou de marcha a divisão do brigadeiro Matos com direção para Aceguá.

Dia 11
Recebi ordens verbais do Ex.mo Sr. Conde pelo capitão Lousada, e apresentaram-se seis desertores do 2.º Regimento de Milícias dos que destacaram para Missões, e se acham de volta com o coronel Abreu no seu acampamento, alegando que a nudez e miséria em que se viam os obrigava a cometer esta infâmia.

Dia 12
Recebi ordem do Ex.mo Snr. Conde Governador para remeter-lhe os cavalos cansados que ficaram nestas imediações.

Dia 13
Foi reforçado o destacamento dos Hospitais com 116 praças, e mandei continuar a reunião dos homens pelos distritos desta repartição.

Dia 14
Recolheu-se a partida do alferes Silva que perseguia os desertores pelos distritos.

Dia 15
Apresentaram-se 5 desertores dos que destacaram para Missões.

Dia 16
Vieram reconduzidos à prisão deste campo 2 soldados desertores dos que destacaram para Missões, apresados pela partida do cabo José Bueno.

Dia 17
Mandei reconduzir pelo alferes Ribeiro o furriel José Inácio por ter dado coito em sua casa ao cabo desertor, Constantino de Oliveira.

Dia 18
Remessa de couros para Rio Grande que devem servir de […] para farinha de munício desta guarnição.

Dia 19
Recebi notícias dadas por um desertor da coluna do general Curado [Joaquim Xavier Curado (1746-1830)], de ter esta ficado 18 léguas aquém da Purificação, e notícias, ter Fructuoso conquistado com guerrilhas a retaguarda daquela coluna, e que retirando-se uma tarde avisaram os nossos bombeiros ao general Curado que Fructuoso se tinha acampado em uma [...] próximo à mesma Coluna, que mandando àquele general o major Bento Manoel [Bento Manoel Ribeiro (1783-1855)], com 500 homens atacá-lo, este o destroçara, retirando-se Fructuoso com mais de 100 homens, e a maior parte da sua cavalaria.

Dia 20
Recebi notícias de Missões dadas pelo marechal Mena [João de Deus Mena Barreto (1769-1849)] de ter o inimigo que repassou o Uruguai atacado-se de parte a parte por causa de preferência do saque que mereceram escapar, e do comandante; visto ter sido prisioneiro Andres Artigas, nesta peleja morreram mais de 100 insurgentes, perdendo a vida um dos pretendidos comandantes.

Dia 21
Negando-se pela 2.ª vez o major graduado de Milícias Ubaldo Pinto [possivelmente, Ubaldo Pinto Bandeira] com o pretexto de fingida moléstia, a fim de não vir tomar o comando do destacamento da frente, ordenei-lhe portanto, que se retirasse a sua casa, o que praticou, visto conhecer que não fazia a menor falta ao Real Serviço, onde só servia de intrigar, tratar mal a toda a guarnição que o detestava, e aborrecia, tendo motivado varias deserções.

Dia 22
Apresentarm-se 4 desertores que há meses tinham fugado deste campo.

Dia 23
Tendo desertado um dos paisanos deste distrito se lhe raiunou 10 bestas mansas que possuia, em observância das ordens.

Dia 24
Ordenou-se a tapagem dos trapos e cercas dos quartéis, destruído[s] pelas praças do Batalhão que ficaram neste campo, quando marchou para Santana esta divisão.

Dia 25
Recolheram-se os bombeiros de Taquarembó e não dão novidade.

* * *

Fonte
- Arquivo Histórico de Itamaraty, AHI-REE-00918, "Documentos de militares contra Artigas" - Manuscrito, 14 folhas.

Imagem
- "CARTA TOPOGRAPHICA DA PROVINCIA DE SÃO PEDRO DO RIO GRANDE DO SUL" (1868), do Arquivo Histórico do Museu Imperial de Petrópolis, Cota 00330-BR.RS-1868 [ver online]

25/04/2018

Correspondência militar no teatro do Uruguai (13 a 23 Setembro de 1816)


Apresento a transcrição de 5 cartas escritas no período entre 13 e 23 de Setembro de 1816, ao início da hostilidades no distrito de Entre Rios, fronteira de Santana, Quaraí e em Missões. Não as conheço transcritas na variada literatura que já consultei, pelo que pensei ser interessante aqui as divulgar.

As cartas, escritas por vários comandantes na área, o principal, o tenente general Joaquim Xavier Curado, comunicando com o marquês de Alegrete (que só assume o comando no terreno no dia de Natal, daí por 2 meses), José de Abreu, destacado com cerca de 700 homens para o rio Uruguai em apoio, ou o brigadeiro Francisco das Chagas Santos, comandante militar das Missões, em S. Borja.

É de destacar, para contexto, que Andrés Guaçurari y Artigas (Andresito) começa a invasão da província de Missões a 12 de Setembro, quando força a guarda portuguesa de S. João Velho, no rio Uruguai, com a sua divisão, dirigindo-se depois ao Povo de S. Borja que sitia a partir do dia 21.

As transcrições foram feitas a partir de registros fotográficos que me foram disponibilizados, e infelizmente com alguns corte que não permitem um trabalho melhor.

Esta correspondência tem no entanto um grande valor pois nos dá a perspetiva daqueles primeiros momentos da guerra que se desenrolará por mais 3 anos, e a incógnita que representava ao comando português do Rio Grande as primeiras movimentações das forças de José Artigas não só nesta fronteira, mas a Leste, na costa atlântica.
Têm ainda valor estas transcrições por revelar os pensamentos do general Xavier Curado em termos táticos, com uma especial atenção aos vitais elementos logísticos, sem os quais como ele próprio refere n~ºao há possibilidade de bom sucesso. Apesar dos reforços estarem, por esta altura, já na estrada para o passo do Rosário, as tropas da capitania do Rio Grande são ainda diminutas para fazer face aos orientais, principalmente pela dispersão por uma enorme fronteira, extremamente falha de população ou aldeias.

Nota-se, em pormenor, que na perspetiva do oficialato português uma forte distinção entre os indios e os 'insurgentes' federais, quando na verdade o exército de Artigas era bem mais coeso em termos revolucionários, com um grande apoio de todas as classes sociais. No entanto, a questão federal era, em bastantes aspetos, algo diferente da questão missionária, o que o percurso histórico desde 1680 pode ajudar a perceber melhor, nomeadamente as tonalidades raciais que são norma nesta altura.

Para concluir o que já vai longo, indico que no final deste artigo poderá encontrar a ligação para as biografias dos mencionados nas cartas, assim como outras que sejam relevantes a uma melhor compreensão do momento histórico desta segunda quinzena de Setembro em que tudo aquece.



I.
[464 A] [TenCor. José de Abreu a Brig. Tomás da Costa Rebelo e Silva, Passo do Baptista (hoje, cidade de Quaraí), 13 de Setembro de 1816 ]

Ilustrissimo Senhor Brigadeiro Commandante

Neste mesmo instante ao amanhecer recebo as Partes de que seguem copias e estando com tudo pronto para passar o Quarahim me resolvi a chamar todos os Officiaes que me acompanhão para que à vista das ditas partes desse cada hum seu parecer se devemos passar para os Dominios Espanhoes, ou acudir aos terrenos de Sua Majestade invadidos pelos insurgentes que entrão pelo Rincão da Cruz na Provincias de Missoens, a qual se acha com muito pouca guarnição; e sitiados no Capão de Atanazio como consta das mesmas partes; asentamos unanimemente em indireitar pelo Jaráo dereito a Coxilha grande mandando bombeiros por toda a parte para no cazo deque os ditos Insurgentes se retirem logo que nos precintão endireitarmos a passar no Paço da Barra do Quarahim, e seguir as mesmas Ordens que V. S.ª me deu, e quando não acudir aquella Provincia que não pode ter brevemente soccorro de parte alguma, antes pelo contrario temo que os Indios fação algum desatino.
Como os inimigos carregão para esta parte com mais força, parecia-me muito acertado que V. S.ª sendo do seu agrado se encaminhase direito a Jaráo, ou mandasse algum corpo a este mesmo ponto por lhes não mdê na cabeça entrarem por aqui, porque já se conhece que elles não querem alargarse muito das costas, e dali está V. S.ª abel [ábil?] a sahir por donde lhe parecer, ou dar as providencias com mais brevidade as que se precizão na estação prezente.
Julgo V. S.ª não me levará a mal esta deliberação de não passar para os terrenos do inimigo, deixando os nossos occupado por elles; espero que V. S.ª delibere com brevidade; entretanto Deus Nosso Senhor Guarde a V. S.ª por muitos annos.

Passo do Baptista, treze de Setembro de mil oitocentos e dezeseis
Illustrissimo Senhor Brigadeiro Thomaz da Costa Correia Rebelo e Silva = Jose de Abreu

Fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

* * *

II.
[464] [TenGen Joaquim Xavier Curado a CapGen Marquês de Alegrete, em Marcha (a caminho do rio Ibirapuitã), 14 de Setembro de 1816]

Illmo. E Exmo. Sor.

As noticias adquiridas pelos bombeiros de que se acha […] nos serros brancos hua Partida de trezentos Insurgentes comandados pelo Ramires; e junto ao Serro de Cunhapirú outras mais pequenas, guardando uma porção de cavalos; e finalmente que em Lunaresco avião Tropas, que fazião a vanguarda do corpo principal comandado por Artigas, tomei o expediente mandar o Sargento Mór Sebastião Barreto [Pereira Pinto, Dragões do Rio Grande] atacar com quatrocentos ómens o Corpo que se dizia existir em serros brancos: este Major inda não voltou, nem a Tropa do seu Comando, e nada sei do rezultado da sua diligência. 
O Capitão de Dragoens Jozé de Paula Prestes foi mandado tirar a Cavalhada, e bater a Tropa que aguardava em Cunhapirú. Estes oficial voltou logo dando parte de não encontrar couza algua, e de ter observado vestigios da retirada de muita Tropa para a parte do Uruguay.
O Tenente Coronel Jozé d'Abreu com quinhentos ómens, e duas Peças de Artilheria foi mandado atacar as Tropas do Lunaresco; e o Brigadeiro Tomaz da Costa foi encarregado da deligencia de marchar com mais de trezentos homens, e duas Peças de Artilharia a ocupar um lugar destinado nas pontas de Arapey, com o projecto de se corresponder com o Tenente Coronel José de Abreu, e prestarem entre si mutuo soccorro.
Já tinhão estes dous Comandantes dado principio á sua marcha quando recebi esta manhã as incluzas participaçoens, de que um numerozo Corpo de Indios, e e Espanhoes tinhão atacado a quem, e alem do Ibicuy, e desolado alguas Estancias nas margens do Uruguay: na mesma occaszião recebi juntamente o Oficio do Brigadeiro Francisco das Chagas, que sobem igualmente à Prezença de V. Ex.ª.
Em consequencia pois destas novidades mandei sustar a marcha do Brigadeiro Tomaz da Costa, incumbindo ao Tenente Coronel Jozé de Abreu a obrigação de marchar prontamente com a Tropa confiada ao seu Comando, e se apreçasse a chegar a tempo de atacar o Corpo, que se achava deste lado do Ibicuy, e prezumo que amanhãa ao manhecer se encontrará com ele: e que depois conforme as notícias que adquirisse, pasasse o Rio e fose socorrer Missoens.
He de prezumir que esta deliberação dos Insurgentes he dirigida a divertir as forças desta Fronteira para facilitar os seus projectos. A tropa existente é muito pouca para defender perto de cem léguas de Fronteira. A cessão Comandada pelo Tenente Coronel Ignacio Jozé Vicente, que conduz a Artilheria de seis ainda não chegou ao Rozario: o mesmo sucede a Tropa de Santa Catarina, que partio de Bagé no dia 19 do mez passado, apezar das deligencias, e auxilios de Boyada que tenho mandado a ambos os Comandantes: talvez a cauza da demora seja o mau estado da Cavalhada e Boiyada, que suposto não falte em numero, tem com tudo falta de forças, e vão ficando cançadas ainda em hua marcha ordinaria: da Legião de S. Paulo nada sei nem ainda por noticia: e só conto com as Praças deste Corpo que precederam a minha marcha de Rio Pardo.
O Regimento de Milicias tem falta de muitas praças para o seu estado efectivo.
O Brigadeiro Tomaz da Costa com mais de trezentos ómens, e duas peças dÁrtilheria vai a ocupar o Paço do Lageado em Quaraim com o destino de auxiliar o Tenente Coronel José de Abreu, ou obstar qualquer tentativa dos Insurgentes de Artigas: eu marcho para as imediaçoens de Ibarapuitam com cem omens de Infanteria da Legião, e secenta Milicianos do Rio Pardo, e sem a Artilheria por não terem ainda chegado, com o projecto de embaraçar qualquer pretenção do Artigas, que tendo a sua Cavalhada em descanço pode projectar com vantagem algua surpreza contra a nossa, que se acha efectivamente em movimento ou girando pela Fronteira, ou conduzindo Tropas do Rio Pardo na distancia de mais de oitenta leguas, até á Linha divizoria, e na estação mais critica para estes animaes, que alem de magros estão fracos com os novos pastos.
Agora depois de ter concluido este Oficio recebo a Carta do Brigadeiro Chagas com data de doze, que sobe à Presença de V. Ex.ª.

A Excellentissima Pessoas de Vossa excellência guarde Deus muitos annos.
Em marcha 14 de Setembro de 1816

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Alegrete = Joaquim Xavier Curado

Fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

* * *

III.
[…]5A] [Brig. Francisco das Chagas Santos a TenGen. Joaquim Xavier Curado, São Borja, 15 de Setembro de 1816]

Illustrissimo e Excelentissimo Senhor

A 10, e 12 do corrente mez dei parte a V. Ex.ª da cituação critica em que me acho neste Povo onde espero de V. Ex.ª o mais vigorozo soccorro de gente; acabo de receber noticia que são 900, ou 1000 Indios Hespanhóes que se achão no Campo de São João de Atanazio e que se estão intrincheirando junto a Caza da estancia do mesmo Atanazio emquanto lhe chegão 1000 homens de Artigas: os quaes dizem que vem por este lado do Uruguay a passarem no Passo de São Felipe afim de me atacarem neste Povo aonde pertendo defenderme: com a pouca gente que tenho serão 300 homens, e alguma Artilharia por tanto rogo a V. Ex.ª a brevidade do dito soccorro. O inimigo tem aparecido em São Nicoláo dando alguns tiros aos nossos Milicianos que tambem lhe tem correspondido: finalmente as minhas esperanças se fundão na conhecida actividade de Vossa Excellencia que Deus guarde muitos annos.

São Borja, quinze de Setembro de mil oito centos e dezesseis. 

Illustrissimo e Excelentissimo Senhor Joaquim Xavier Curado
P.D. = Não me tem chegado ainda a gente que tenho mandado avizar = Francisco das Chagas Santos

Fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825

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IV.
[465]  [TenGen Joaquim Xavier Curado a CapGen Marquês de Alegrete, em Marcha (a caminho do rio Ibirapuitã), 20 de Setembro de 1816]



Illmo. e Exmo. Sr.


Tenho a honra de levar à prezença de V. Ex.ª o oficio que dirigio o Brigadeiro Francisco das Chagas Santos na data de 15 acompanhado da primeira resposta, e do oficio que dirigio ao Tenente Coronel Jozé de Abreu, oficial encarregado de atacar aos Indios, que unidos aos Insurgentes procurarão invadir a Provincia de Missoens, como fiz a V. Ex.ª participante no meu oficio na data de 14.
Este Tenente Coronel Abreu tem cometido u~a grande falta em demorar o auxilio destinado para Missoens: por cujo motivo já lhe foi extranhada a sua conduta, e segunda vez referindo o seu comportamento, como V. Ex.ª se dignará ver na Copia incluza. Espero da ónra daquele oficial, cujo merecimento o fazia recomendavel, que desempenhará a comissaõ de que se acha encarregado.

[LEIA TAMBÉM: Um mau início: Xavier Curado a José de Abreu, Setembro de 1816]

O sargento mór Sebastiaõ Barreto [Pereira Pinto, Dragões do Rio Grande] de quem fiz mençaõ no meu citado Oficio de 15 ontem se recolheu, dando parte de não ter encontrado inimigos té as imediaçoens de Santa Anna. Era muito natural que assim sucedesse por que o Chefe dos Rebeldes tem congregado todas as suas forças em Quaraim, e vezinhanças de Arapey aproximando-se ao uruguay, não só para favorecer a pertendida invazão de Missoens, como para ficar ambidestro para os roubos, e destruiçoens das Cazas, das familias, dos gados, e das cavalgaduras. Para este fim destaca partidas de duzentos trezentos e mais ómens que unidos aos Indios Charruas tem aparecido em diversas partes do interior da Linha desde Santa Anna the as vizinhanças do Uruguay; adoptando o metodo da Guerra que costumaõ fazer os mencionados Indios, que atacão com vigor aos poucos que se lhes (…), e dispersaõ-se em debandada quando reconhecem forças superiores […] logo depois reunidos na distancia d'oito ou dêz leguas continuaõ os insultos, e repetem as ostilidades. Na noite do dia 14 tive parte de […] os Indios Charruas, e alguns Insurgentes tinhaõ queimado trêz Cazas […] matado alguas pessoas, e roubado tudo quanto lhes foi possivel.
No […] momento mandei marchar u~a partida para os atacar: forão encontrados, porem longe de querer experar pelo Combate, dispersaraõ-se e procuráraõ reunir-se em outro lugar onde tem dado exercicio […] vil pervercidade. Oje mandei marchar trez Partidas para o […] rem sobre si, ou unidas, conforme as circunstancias, fazendo o total de quatro centas Praças de Cavalaria, com o projecto de os obrigar a combate, ou seguilos por diversas partes como parecer conveniente. Espero o rezultado deste deligencia.

As actuais despoziçoens do Chefe dos Rebeldes dao idéa de que o seu intento hé a conquista de Missoens, ónde protegido dos Indios do outro lado dos quaes a maior parte já se acha difundida pelos Terrenos pertencentes à Provincia de Missoens possa impunemente invadir, a solar e roubar, naõ só os Destrictos de Sima da Serra pertencentes a Saõ Paulo, como às imediaçoens pertencentes a esta Capitania descendo pela Serra de São Martinho, e Boca do Monte dilatar as suas ostilidades até ao Rio Pardo. Pode bem sêr que seja quimerico este modo de pençar: porem é certissimo que estes piratas não querem combater, mas sim subsistir por meio de roubo cuja ambiçaõ lizongea o interesse de seus sequazes. 
Seja qual fôr o seu intento o certo é que este metodo de fazer a Guerra é o mais ruinozo, e destruidôr porque não se pode guardar nem defender a vasta extençaõ de terreno compreendido entre Santa Anna, e Uruguay onde existem as forças que da Fronteira do Rio Grande se retiraraõ. As tropas que existiaõ nesta Fronteira sempre foraõ muito deminutas relativamente à dilatada extençaõ do terreno que devem proteger.
Actualmente que se achaõ desmembrados sete centos ómens para a defeza de Missoens resta muito pouca Tropa: a Cavalaria é muito diminuta, e sem esta qualidade de arma nada se pode empreender com probabilidade de bom sucesso.

Agora que os Rebeldes aparecem em diversos pontos vejo-me obrigado a reunir a um só ponto toda a Cavalhada, e Boyada, e estabelecer u~a guarda numeroza para defender estes animaes, que fazem o primeiro objecto, e de maior interesse para felicitar as operaçoens militares nestas Campanhas. Isto feito apenas restará Cavalaria para agenciar o municio da Tropas.
O Regimento de Dragoens alem das praças legitimamente empregadas fora do Exercito faltaõ-lhe vinte sete para o seu estado completo: actualmente existem duzentas Praças: o Regimento de Milicias de Rio Pardo alem das duas Companhias ocupadas em Missoens, e outra do Camaquam que inda se não apresentou, acha se muito diminuto; apenas duzentos e setenta e cinco omens se podem conciderar neste Campamento. A Partida dos Guerrilhas d'Queirós que foi do falecido Manoel dos Santos consta por ora de quarente praças. A Cavalaria de S. Paulo aprezenta cincoenta praças. Destes corpos extraidos trezentos ómens para guardar e defender efectivamente a Cavalhada, e Boyada e cuidar na subsistencia da Tropa, pouco ou nada restará. Amanhãa pretendo marchar para a vezinhanças de Ibirapuitam. Afim de procurar um ponto mais proximo ao foco principal das Forças dos Rebeldes, para objetar as suas tentativas, e de onde nos seja mais facil auxiliar Missoens, porque concidero importantissima a sua conservaçaõ; e ao mesmo tempo proteger parte da Fronteira mais vezinha, que por sêr muito extença tarde poderaõ chegar os auxilios nos pontos mais distantes, que me forem possiveis mandar.
A falta de proporçoens na marcha me impossibilita de levar à Prezença de V. Ex.ª o Mapa da Tropa existente.

Em poucos dias pertendo campar no ponto que julgar mais conveniente, para as minhas futuras operaçoens: atentas as circunstancias já referidas: então cumprirei com este dever.

Agora acabo de receber a parte que me dirigio o Brigadeiro Tomaz da Costa, que levo à Prezença de V. Ex.ª na qual se faz patente o motivo da demora que tem tido o Tenente Coronel Jozé de Abreu em atacar os rebeldes que pertendem invadir Missoens certificando-me que no dia 19 seriaõ atacados.
Espero que o dito Tenente Coronel Abreu dezempenhe com muita onra os deveres da sua comissão, como tem feito por muitas vezes.

A Exma. Pessoa de V. Ex.ª Guarde Deus muitos annos.

Em marcha[,] 20 de Setembro de 1816
Illmo. e Exmo. Sr. Marquêz d'Alegrete = Joaquim Xavier Curado

Fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

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V.
[466] [TenGen Joaquim Xavier Curado a CapGen Marquês de Alegrete, Campamento junto ao rio Ibirapuitã), 23 de Setembro de 1816] (Combate de Santana, 22/9)



Illustrissimo e Excellentissimo Senhor


No meu ultimo Officio de 20 do corrente tive a honra participar a V. Ex.ª que tinha mandado marchar trez Partidas para operarem sobre si, ou unidas, conforme as circunstancias; com o projecto de obrigar aos Insurgentes a entrar em Combate, ou a seguilos por diversas partes, como parecesse conveniente.

No dia 22 forão encontrados os Inimigos que retirandose procurarão o apóio d'hum Corpo numerozo, que augmentado depois com mais Cavalaria, e Infantaria travarão hum combate de quatro óras, no qual forão mortos doze, e feridos trinta e hum, cujos nomes constão da relação incluza: e suposto que fosse muito maior o numero dos mortos entre os Enemigos, com tudo a nossa perda foi muito sencivel, não tanto pela quantidade, como pela qualidade de valentes que perecerão no Combate.
Consta-me que a tropa combateu com muito valor, e que muito particularmente se distinguirão o tenente Joze Rodrigues Barbosa, o tenente Gaspar Francisco Menna Barreto, o alferes Joze Luiz Menna Barreto, o porta estandarte Patricio Joze Correia da Camara, o cadete Belxior da Roza e Brito, o cadete Joze Maria Correa Marques; todos do Regimento de Dragoens: e do Regimento de Melicias o tenente Anacleto Francisco Gulart, o tenente Joze Cardoso de Souza, o tenente Antonio de Medeiros da Costa, o tenente Bento Manuel Ribeiro, o Alferes Antonio Gracez de Moraes, o alferes Antonio Pinto de Azambuja, o Alferes Francisco das Chagas, o Capitão Alexandre Luiz; e da Legião de São Paulo o sargento Antonio Luiz de Moraes Pissarro.
Sobre as particularidades do Combate eu me refiro as participações que me forão dirigidas pelos Commandantes, que tenho a honra de levar à Prezença de V. Ex.ª:

Pelo Mappa incluzo se dignará V. Ex.ª ver o Estado actual da tropa existente neste Campamento, desmembrada aquella que marchou a soccorrer Missoens: com ellas nada se pode empreender, nem deliberar: a Cavallaria é muito pouca; os Insurgentes tem reunido as suas forças nas vizinhanças de Santa Anna, em frente a este Campamento.

No combate do dia 22 forão vistos e reconhecidos todos os Comandantes de Corpos, e ainda o mesmo Otorguez: a sua Infantaria he boa bem armada, e opera em boa ordem: a sua Cavallaria não paresse digna de attenção.

Estes revolucionarios não poderão ser destruidos sem forças combinadas, que atacando ao mesmo tempo por duas ou trez partes os obriguem a perder a vantagem do lugar escolhido com antecipação.

A Partida de Queirós [Alexandre Luís de Queiroz, Guerrilhas do Rio Grande] que foi […] do falecido Tenente Coronel Manoel dos Santos [Manoel dos Santos Pedroso, ou Maneco, falecido no início do ano], alem de muito pouco numeroza dá poucas esperanças: os mais Partidarios que se offerecerão, quando cheguei a Rio Pardo, não tem realizado as suas promessas, nem deles tenho noticia.
Da Provincias de Missoens não tenho tido participação alguma.

Continuo a esperar pelo Regimento de Santa Catharina, e pela Tropa que acompanha o Tenente Coronel Ignacio Joze Vicente [Inácio José Vicente da Fonseca, Artilharia da Legião de Voluntários Reais de S. Paulo].

No instante em que estive a fexar este Officio recebo a parte do Tenente Coronel Joze de Abreu que sóbe a Prezença de V. Ex.ª e julgo poder afirmar a V. Ex.ª que está livre a Provincia de Missoens; e que o Tenente Coronel Abreu continua a fazer valer o seu merecimento. [Refere-se aqui ao combate de Yapeyú, onde Abreu frustrou a passagem do Uruguai a Pantaleon Sotelo, que queria unir-se a Andresito]

A Excellentissima Pessoas de Vossa Excellência guarde Deus muitos annos.
Campamento em Ibirapuitan vinte trez de Setembro de mil oitocentos e dezesseis

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Alegrete = Joaquim Xavier Curado

Fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

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José de Abreu

Biografias
- CapGen Luís Teles da Silva Caminha e Meneses, Marquês de Alegrete (capitão general do Rio Grande) [LER]
- Ten Gen Joaquim Xavier Curado (comandante da Fronteira do Quaraí) [LER]
Brig Grad Francisco das Chagas Santos, governo militar das missões orientais, em São Borja [LER]
- Brig Grad Tomás da Costa Rebelo Correia e Silva (comandante do Regimento de Dragões do Rio Grande) [LER]
- TenCor José de Abreu (Esquadrões de Cavalaria de Milícias de Entre Rios) [LER]
Sarg Mor Sebastião Barreto Pereira Pinto ("Regimento de Dragões do Rio Pardo") [LER]

Comandante Andrés Guaçurari y Artigas  (Blandengues da Fronteira de Montevidéu) [LER]

Batalhas