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08/04/2026

Memoria Histórica do Regimento de Infantaria de Santa Catharina (Manuel Joaquim de Almeida Coelho, 1850]

«MEMORIA HISTORICA DO EXTINCTO REGIMENTO DE INFANTARIA DE LINHA DA PROVINCIA DE SANTA CATHARINA, OU INFORMAÇÕES DOS SEUS SERVIÇOS MAIS NOTÁVEIS E DOS MOTIVOS E LOGARES ONDE OS PRESTOU, ESCRIPTA NA CIDADE DO DESTERRO EM DIAS DO NATAL DO ANNO DE 1850

[Manuel Joaquim de Almeida Coelho]

PDF: Memoria Histórica do Regimento de Infantaria de Santa Catharina (Manuel Joaquim de Almeida Coelho, 1850]

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[...]

Campanhas de 1816 a 1820

SERVIÇOS E OCCUPAÇÕES DO REGIMENTO

As ideias do gabinete do Rio de Janeiro, de ocupar a praça de Montevidéu e seu território, descortinaram-se com a chegada ao Brasil da divisão de voluntários reais ao mando do general Carlos Frederico; e no detalhe geral dos corpos existentes então no Sul, ou para reforçar aquela divisão, ou para ocupar os diferentes e importantes pontos. da fronteira, foi o regimento de Santa Catarina destinado para fronteira de Missões (190 léguas pouco mais ou menos distante do Rio Grande). Sem se declarar o seu destino, ele teve ordem de marchar para Bagé, donde tomaria a direção conveniente; e foi então que alguns intrigantes espalharam boatos que o regimento repugnava a marcha, afirmando-o ao general Manoel Marques de Souza, comandante cio Rio Grande, e este ao Marquês de Alegrete, governador e capitão-general da capitania, com cores mui feias, como então se disse. Devia-se ao regimento 16 meses de soldo (tanto quanto tempo havia que não recebia) e debaixo deste pretexto a notícia da repugnância se foi propagando, o caso tornando-se sério, e alguns soldados mais simples tomando a peito o negócio, instigados pelos intrigantes. O certo é que, no dia 16 de março de 1816, tocou a chamada, e o regimento seguiu ao seu destino: todavia em abono da verdade devo dizer que uns poucos e mais inocentes soldados demonstraram alguma repugnância, deixando-se ficar firmes (sinal estabelecido pelos intrigantes) à voz de andar à direita; porém à primeira e simples admoestação, no maior silêncio, marcharam. (42)

Na charqueada de Domingos Rodrigues fez alto, e aí apareceu o general Manoel Marques, a titulo de despedir-se mas o fim dessa despedida foi mais politico e observador, que efeitos de amizade e separação; e isso foi bem conhecido por todos aqueles que sabiam que, por causa da intriga, pouco ou nada se ganhara, no Rio Grande, a sua afeição: entretanto que o general estava bem persuadido da desobediência e desordem no regimento, para que tanto trabalhavam os degradados e outros intrigantes, a quem parece que o tenente-coronel prestava ouvidos. No dia o regimento chegou a Bagé e teve ordem de esperar por algum soldo. Aí foi onde o tenente-coronel Terres [António José Torres de Meneses] dirigiu uma participação ao capitão-general, do regimento repugnar a marcha para a fronteira (tanto poder tem a ilusão no espírito do homem fraco!) quando nem uma repugnância havia, e com cores tão feias que o capitão-general mandou reforçar, com praças de outras, a companhia. de granadeiros, desmembrá-la e seguir para a fronteira, debilitando desta maneira o regimento. 

Houve, porque tudo se soube, quem afirmasse que fora tal a participação do tenente-coronel Terres que o capitão-general, no seu primeiro impulso de irritação, resolvera o tremendo castigo de mandar desarmar à viva força o regimento e quintá-lo: tais iam sendo as consequências do medo do tenente-coronel! E nesta parte, se disse, não ser ele tão culpado como um seu mentor, que era o oficial ou o homem mais medroso e intrigante que então havia. Entretanto que o procedimento do regimento foi bem observado. 

A desmembração da companhia de granadeiros quer corno disse, teve um fim político, por um acaso inesperado desmentiu ao comandante do regimento e destruiu todas quantas más ideias ocuparam a mente irritada do capitão-general. A companhia foi com uma marcha forçada de 150 léguas (descrevendo zig-zags, que assim o julgaram alguns necessário para o fim de a acabar) apresentar-se na missão de S. Francisco de Borja, onde a salvação de muitas vidas e a honra de nossas armas dependiam da sua chegada, ou de outro qualquer auxílio de tropa. Saíra ela de Bagé com cento e onze praças, inclusive os seus oficiais, (43) e por seduções de alguns dos corpos do continente, desertaram alguns bons soldados para a cavalaria de dragões ou para a força que reunia o general Joaquim Xavier Curado; e foi assim que, com mil promessas de vantagens, se pôs em prática um plano (fosse ele de quem quer que fosse) de deixar o regimento sem soldados. A companhia chegou a S. Francisco de Borja a 13 de setembro de 1816 com oitenta e cinco baionetas; e oito dias depois de aquartelada, foi posta a povoação em rigoroso e apertado assédio por André Artigas, à testa de dois mil homens, pouco mais ou menos, bem armados, e duas peças de artilharia.

Comandava a fronteira de Missões o brigadeiro Francisco das Chagas Santos; mas não havia tomado bem (ou confiava demasiadamente na sua valentia) as precauções e medidas necessárias para se não expor a um sítio, dentro de uma praça (130 léguas distante da capital mais de 80 do general Curado) sem segurança de auxílio e falto de alguns meios para sustentar-se; porque, afora a artilharia (sem artilheiros) pólvora e bala que tinha bastante, de tudo mais carecia. para acudir a mais de duas mil pessoas de ambos os sexos diferentes idades, das famílias dos índios e outros extranaturais que existiam ou se recolheram á praça, contando com a proteção das nossas armas. A força com que devia sustentar-se o general, pouco excedendo a 120 homens de cavalaria miliciana portuguesa e alguma do regimento de cavalaria miliciana guarani, de necessidade sucumbiria, se não chegara tanto a tempo a companhia de granadeiros.

Com este contingente, Chagas, a quem nunca faltou valor e presença de espírito, contou a seu lado duzentos e tantos combatentes. Foram imediatamente nomeados os comandantes das bocas das ruas ou entradas da praça (44) e assestada urna peça de artilharia em cada uma; e assim foi dividida a companhia, indo a cavalaria guarnecer a quinta. Foi nomeado pelo general, major da praça, o capitão José Maria da Gama, oficial que possuía, além da nobreza da sua pessoa, a valentia e mais predicados necessários para um posto tão importante em ocasião perigosa.

Amanheceu o dia 22 de outubro e com ele o inimigo a tiro de peça e ao som de instrumentos marciais, cercando a Povoação. Não direi que observara tática alguma adotada pelos exércitos sitiadores; mas fanatizado o de André Artigas por um frade apóstata (fr. Pedro) que nos seus discursos persuadira aos índios que morrendo no combate, ressuscitariam além do Uruguai entre suas famílias; e ao mesmo tempo, observando no exército muita disciplina, não podia deixar de ser um inimigo corajoso e temível; além da que os índios das Missões (de que se compunha cio grande parte a força inimiga) são sofredores e valentes, quando os dirige um chefe de sua fé. como então era André Artigas.

Estabelecido o assédio, teve a praça que sofrer vários, mas mal dirigidos ataques do inimigo, que foram sempre rechaçados pelos nossos: contudo, oficial houve da nossa cavalaria que, temendo algum fim desastroso, se atreveu a lembrar ao general Chagas uma escápula, rompendo-se em uma noite a linha dos sitiantes: felizmente essa lembrança não mereceu resposta alguma: e nunca a deve merecer o militar que se atrever a tanto, uma vez que se não tenham envidado todos os esforços e esgotado lodos os recursos da defesa! Ao amanhecer do dia 28 o inimigo carregou com tal furor e animosidade que a nossa cavalaria teve de recuar, cedendo alguns passos do terreno que ocupava, e a infantaria de sustentar um vivo fogo de o rebater muito de perto e quase braço a braço; e por, isso mesmo que o inimigo. preparado de machados, trabalhou por arrombar as portas do exterior (e o conseguiu de uma, apesar de ser muito forte) e algum houve que chegou a pôr pé dentro de casa: contudo, horrorizado e bem sangrado, se retirou às suas linhas, com perdas de muitos.

O general Chagas, que presenciou atentamente e a valentia da guarnição. congratulou-se com os granadeiros pelos atos do bravura e intrepidez, que acabavam de praticar; entretanto que iam faltando os mantimentos na povoação e não havia água. Era então dessa distinta companhia o cadete José Joaquim de Almeida Coelho, já bem conhecido por seu génio denodado. Esse moço (sem que alguém lhe encomendasse) encarregou-se de expor a vida, durante o sítio, para suavizar o sofrimento de muitos sitiados. Com seis ou oito granadeiros, de armas suspensas a tiracolo pelas bandoleiras e uma pequena peça de amiudar, puxada a mão, quando mal pensava o inimigo, estava na sua frente, desafiando-o e fazendo-lhe fogo e foscas. Ao abrigo desses granadeiros, muitos índios da praça e outras pessoas corriam a encher potes e barris de água, não tão boa como se desejava, mas como o permitiam as circunstâncias, porque era tirada de uma pequena lagoa, no meio do campo cento e cinquenta braças da povoação, bem remexida de barro vermelho e algumas vezes em quantidade tal que pouco mataria a sede dos sitiados, pela retirada precipitada dos protetores.

O general, logo que lhe constava a temeridade, ousadia e perigo a que se expunham esses granadeiros, mandava imediatamente alguns homens a cavalo protegê-los e cabe aqui dizer que sempre eram destemidos e de sua escolha e confiança.

Um tiro da nossa artilharia, dirigido pelo granadeiro José Dias de Arzão (45) no segundo dia de sítio, desmontou uma peça do inimigo que mais dano causava à guarnição da praça, dando a bala (calibre 4) em um dos munhões, de sorte que lhe deixou a peça inservível e mortos dois artilheiros.

Nesse estado se achavam as cousas, quando começava a raiar o dia 3 de outubro e tão nublado que não se podia divisar objeto algum ao longe: todavia, sentindo-se na praça grande rumor na linha inimiga, a guarnição se dispôs para um novo combate. Poucos minutos depois, o tenente do regimento de cavalaria miliciana guarani, António Eripi, do cume do zimbório da igreja, onde subira para observar melhor o rumor ou movimentos do inimigo, avisa que um corpo volumoso de cavalaria atravessa o extenso banhado ao sul da povoação, demandando o campo do inimigo. Era o tenente-coronel José de Abreu, que tendo aviso (46) do general Chagas, correu com oitocentos homens que comandava, não só em socorro de S. Borja, como a vingar nos sitiadores o arrasamento na nova povoação de Manduhi (cuja ereção fora animada e protegida por Abreu) e com marchas tão ocultas, que só foi pressentido pelos insurgentes quando começavam a ser batidos e derrotados: contudo Abreu não o conseguia impunemente.

Abreu, achava-se na fronteira de Alegrete a 50 ou mais léguas distante de S.. Borja, quando recebeu o aviso e no dia 3 de outubro começou a imortalizar seu nome (que jamais pode-se esquecer nos anais do Brasil) levando de rojo o inimigo e perseguindo-o até pô-lo além do Uruguai, ajudado pela companhia de granadeiros, que, instantaneamente deixando as trincheiras, se lhe reuniu e acompanhou até a barra do rio Butuí. Abreu retirou-se logo depois, ou no mesmo dia, coberto de bênçãos e da bem merecida glória de ter derrotado e enxotado para longe os insurgentes, com perda de muitos, e aberto as portas de S. Borja. A companhia de granadeiros comportou-se, durante os treze dias de sítio, como era de esperar de homens briosos e acostumados aos trabalhos da vida militar.

O seu digno capitão foi remunerado (por informações de Abreu) com a graduação de major. Os mais oficiais e toda a companhia se fez digna dos subidos louvores que com tanta justiça se lhes dirigiu.

Entretanto que o capitão-general, que fizera desmembrar a companhia por motivo, como disse, muito diverso, fazia seguir para Bagé o coronel Pedro da Silva Gomes, a tomar o comando do regimento, para que fora despachado na corte, sendo então tenente-coronel da Legião de S. Paulo. (47)

Empossado do comando, o coronel conheceu quão exagerada fora a participação do tenente-coronel Terres e que nenhuma coisa mais havia que uma pequena murmuração entre alguns soldados, mas simples pela falta de 18 ou 20 meses de soldo: e eles tinham razão! Entravam para uma nova campanha e lembravam-se das misérias que haviam sofrido nas passadas, e desses males não estava alheio o mesmo coronel.

Ratificada a ordem de marcha, o regimento seguiu para Missões em julho; mas as circunstâncias apertadas em que se achava o general Curado (sobre as vertentes do Quaraí em Sant'Anna, ou no lugar denominado Lageado) obrigaram-no a ordenar ao regimento que se lhe reunisse sem perda de tempo. A má estação, muitas chuvas e alguma falta de transporte concorreu para uma marcha assaz lenta: contudo bem a tempo ali se apresentou, e o general Curado teve logo motivo de o experimentar, mandando parte debaixo do comando do seu major Camilo Machado de Bittencourt, sob o comando de um oficial de cavalaria, explorar a campanha até Paipasso e Inhanduí, perto do Uruguai, havendo outra infantaria mais descansada. 

A guerra se desenvolvia por quase todos os pontos da fronteira, ou desafiada pelos insurgentes que, ciosos e ativos, se opunham à reunião das forças do general Curado, ocupação da província de Montevidéu, e a todas e quaisquer intenções hostis da nossa parte; ou por nossas mesmas forças, pela necessidade de atacar e rebater as hostilidades dentro das nossas linhas, que eles invadiam por diferentes pontos em colunas assaz fortes. Sob o comando do brigadeiro João de Deus Menna Barreto teve lugar o combate de Ibirocaí no dia 19 de outubro de 1816, e a infantaria que aí se achou da nossa parte, foi do regimento em número de 150 praças (e os seus oficiais, (48) uns por nomeação do chefe, outros por desejos de distinguir-se, como o ajudante Manuel José de Mello e o alferes Zeferino António de Souza Coutinho) comandadas pelo major Camilo Machado. Essa infantaria demonstrou na frente do inimigo muita presença de espírito, firmeza, destreza nas armas e um comportamento brioso e louvável, como era de esperar: teve, e com muita justiça, elogios do comandante da ação e de todos oficiais dos diferentes corpos que observaram a sua intrepidez.

Findo o combate, no qual o inimigo foi completamente derrotado, mormente pela infantaria, que o investiu pelo centro, dias depois o regimento recebeu ordem de marcha para Missões e em novembro chegou a S. Francisco de Borja. Aí se reuniu à sua digna companhia de granadeiros e se congratularam os amigos com recíprocos contos de suas façanhas.


NOTAS

(42) Desde o ano de 1816 a 1822, no qual foi extinto o regimento, não houve castigo algum corporal e meses se passaram, em algumas companhias, sem que houvera uma só prisão. O regimento, posto que pouco numeroso, tornou-se um corpo muito luzido e longe de ser o que alguém pense. Contendo em bom número oficiais inferiores e soldados de idade robusta ou moços alentados que haviam conhecido a ingratidão com que foram tratados nas campanhas passadas, só com maneiras afáveis poderiam ser conduzidos; pelo contrário ficaria o regimento sem a melhor parte dessas praças.

(43) Capitão José Maria da Gama Lobo Coelho d’Eça, tenente António Francisco Catella, alferes António Agostinho Capistrano.

(44) Tenente António Francisco Catella, dito adido António Máximo Franco, sargentos João da Silva Barralho, Henrique Alves da Cruz, João Pinheiro da Silva, cabo Teodósio Alves, anspeçada Pedro Fernandes (dentro da quinta), cadete José Joaquim de Almeida Coelho; o alferes António Agostinho Capristano, com 30 granadeiros de piquete (na quadra n.) para acudir ao ponto onde ocorresse maior perigo, ou fosse necessário.

(45) Era natural da vila, hoje cidade de S. Francisco, moço alto e bonito, mas tinha as canelas muito finas: contudo uma bala de fuzilaria no combate do dia 28 varou-lhe a barriga da perna direita e no assalto de S. Carlos, ano e meio depois, outra bala varou-lhe a barriga da perna direita. Com efeito! disse-lhe o intrépido cabo Pedro Fernandes, parece que o inimigo te procura as pernas para que não fujas! «Enganas-te, respondeu Arzão, o inimigo procura-me as pernas para que não o procure.

O cabo Pedro Fernandes, sendo alferes, foi morto pelos sublevados na fortaleza da Barra do Sul, em Santa Catarina, em o ano de 1830.

(46) O aviso de Chagas a Abreu foi conduzido pelo paulista miliciano António de Moura, que, numa noite muito escura, pôde romper a linha e sentinelas inimigas.

(47) Foi recebido no regimento com festejo e satisfação, da qual se fez digno, fechando os ouvidos à intriga e negando até a menor atenção aos seus autores, que logo conheceu com bastante perspicácia. Foi o 4.º e último coronel do regimento; faleceu no posto de brigadeiro em Santa Catarina. 

(48) Capitão João Cardoso Vieira, dito Alexandre José dos Campos, ajudante Manuel José de Mello, tenente José de Oliveira Pais Lemos, dito Manuel Lobo Capristano, alferes Zeferino António de Sousa Coutinho, dito António da Costa Fraga.»


FONTE

Manuel Joaquim de Almeida Coelho, “Memoria Historica do extincto regimento de infantaria de linha da provincia de Santa Catharina, ou informações dos seus serviços mais notáveis e dos motivos e logares onde os prestou, escripta na cidade do Desterro em dias do natal do anno de 1850”, in: Almanak Literário e Estatístico do Rio Grande do Sul (Alfredo Ferreira Rodrigues, org.), 21.º Ano, 1909, Ed. Pinto e Cia., Pelotas-Rio Grande-Porto Alegre. pp. 79-85


SOBRE O AUTOR

Manuel Joaquim de Almeida Coelho nasceu em Desterro, hoje Florianópolis, em 9 de novembro de 1792, filho do brigadeiro Manuel Coelho Rodrigues e Lauriana Joaquina de Almeida Correa. Assentou praça no Regimento de Infantaria de S. Catarina a 11 de novembro de 1808, dois dias após cumprir 16 anos de idade. Participou nas campanhas do Sul, entre 1811 e 1812, e na campanhas de 1816 e 1820. Em 1820, passou ao Regimento de Cavalaria miliciana de Missões, onde foi ajudante, a 12 de outubro de 1821, e capitão, a 24 de novembro de 1825. Foi ainda comandante militar da vila de Porto Belo, em 1841, na sua S. Catarina natal e reformou-se no posto de Major, com o soldo de Capitão de 1.ª Linha, a 31 de maio de 1849. Foi secretário da Câmara Municipal do Desterro de 5 de maio de 1850 a 16 de dezembro de 1864, e deputado à Assembleia Legislativa Provincial, entre 1848 e1849.

Entre as várias obras históricas que produziu sobre S. Catarina, no qual se destaca a Memória Histórica sobre a Província de Santa Catarina (1854) e várias biografias de catarinenses ilustres, escreveu a Memória histórica do extinto regimento de infantaria de linha da província de Santa Catarina (escrito em 1850 e publicado em 1853), de que publico aqui uma extrato relativo às campanhas de 1816 a 1820, nomeadamente o sítio de S. Borja, entre 22 de setembro de 1816 e 3 de outubro de 1816, em que Andrés Artigas, tendo todos os povos das missões orientais sob o seu domínio, tentou tomar também a capital, S. Borja, no que foi impedido pela chegada da coluna do tenente coronel José de Abreu que desfez o sítio e destroçou as forças da Liga de Pueblos Libres.

Nesta obra, que tem por objetivo a recuperação da memória dos feitos do regimento a que pertenceu, que considera ignorados e mal compreendidos, Almeida Coelho descreve a história do regimento desde a sua fundação em 1739 à sua extinção em 1832. Para lá do óbvio valor histórico que muito beneficiou do acesso do autor a fontes primárias, a mesma reveste-se também de um investimento pessoal na medida em que o período das campanhas de 1811/12 e de 1816/20 o viram como participante, transparecendo isso num cruzamento de outras fontes e o seu texto, assim como um conjunto de conhecimento que só poderia ter sido adquirido, em boa verdade, se Almeida Coelho tivesse presenciado muitos dos factos.

BIBLIOGRAFIA

Piazza, W. F. (2011). Almeida Coelho e sua contribuição historiográfica. ÁGORA: Arquivologia Em Debate, 5(9), 5–11.

LEIA TAMBÉM

- Ação do Passos de Japejú e de Santa Maria (21 de setembro de 1816): 

https://dvr18151823.blogspot.com/2016/09/acao-do-passo-de-yapeyu-21-de-setembro.html

- Assalto de São Borja (28.9.1816): 

https://dvr18151823.blogspot.com/2020/09/assalto-de-sao-borja-2891816.html

- Batalha de São Borja (3 de Outubro de 1816): 

https://dvr18151823.blogspot.com/2016/10/batalha-de-sao-borja-3-de-outubro-de.html

- Batalha de Ibirocaí (19 de Outubro de 1816):

https://dvr18151823.blogspot.com/2016/10/batalha-de-ibirocai-19-de-outubro-de.html

14/03/2019

Batalha de S. Borja: A primeira notícia


Junto apresento a transcrição de um excerto de correspondência onde é apresentada a primeiríssima notícia da batalha de S. Borja, dada por Hipólito Francisco de Paula ao tenente general Joaquim Xavier Curado, que a comunica desde logo ao marquês de Alegrete, em Porto Alegre.

Apenas 6 dias após a batalha ela mesma (ocorrida a 3 de Outubro, leia mais), verifica-se pela narração de Hipólito Francisco de Paula que este se terá apartado da coluna de José de Abreu por volta desse mesmo dia ou no dia seguinte, de forma a cumprir os cerca de 175 km de distância entre S. Borja e o acampamento do rio Ibirapuitã, onde o grosso do exército da Capitania do Rio Grande estava. Os eventos descritos referem-se exclusivamente ao dia 3 de Outubro, parecendo claro que este primeiro mensageiro não assistiu aos eventos que ainda decorreram nos dois dias seguintes à batalha.

«Suposto que não tive parte oficioza do Tenente Coronel Jozé de Abreo sobre o rezultado da diligencia de Missoens, com tudo chega agora Hipolito Francisco de Paula, paizano que se offereceu voluntario para o ataque dos Insurgentes no Distrito de Missoens, dizendo me, que o referido Tenente Coronel Abreo o mandava incumbido da obrigação de dar-me parte vocal do rezultado do ataque, prencipiando no dia trez, the o dia cinco do Corrente, por não lhe ser possivel escrever-me no barulho da acção, remetendo-me com antecipação todos os papeis que forão achados a André Artigas, Comandante da acção, que se escapou.
Este homem enviado narra o seguinte:

= Que no dia tres do Corrente chegou a Coluna comandada pelo Tenente Coronel José de Abreo ás dés Óras da manhãa em frente ao Passo de São Borja, que se achava com quatorze dias de Citio apertado: que logo que o Enemigo avistou a nossa coluna, sahio a encontrar-la, e emboscando-se em hum laranjal atacou-a furiozamente; porem sem efeito por que a nossa Tropa depois de huma Óra de fogo atacou com a espada na mão e destrosando inteiramente // os Enemigos, lhes tomou duas Pessas de Artelharia, e grande quantidades de armamentos: que aquelles que escaparão deste primeiro encontro correrão precipitadamente ao Passo do Uruguay, onde forão novamente atacados, e mortos quase todos, e alguns passarão o banhado de Santa Luzia, e ficarão com a retirada cortada; por que o Butuy, e o Uruguay estando muito cheios lhes prohibe a passagem: e que o tenente coronel comandante hia atacalos; para acabar com o resto dos insurgentes: que se avalia o numero dos mortos dos enemigos em mil homens, quaze todos indios, e mestiços, dous negros, e hum branco, e muitos prizioneiros; e entres estes alguns dos nossos indios, que se tinhão revoltado, sendo o chefe destes o indio João da Cruz; e que outro indio Chará se distinguio muito a favor da nossa cauza: que a nossa perda concistio em sete homens mortos, destes cinco milicianos, e dous da Legião de São Paulo, e doze ou quatorze feridos: que os enemigos tinhão já proximo o reforço pelo o Uruguay, distinado pelo o Artigas, e que já se achava no Passo pronto a desembarcar; porem que o destrosso geral dos Citiantes o brigou a // a retirar-se precepitadamente, sendo perseguido pelos nossos, que meterão a pique huma canoa carregada de tropa; e que os outros Barcos se retirarão pelo o Uruguay abaixo.

Logo que receba a partecipação oficioza do Tenente Coronel Jozé d'Abreo, terei a onra de levar á prezença de V. Ex.ª.»


Fonte
Carta do tenente general Joaquim Xavier Curado ao capitão general Marquês de Alegrete, 9 de Outubro de 1816, in: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

* * * 

Nota Biográfica
Hipolito Francisco de Paula – Natural do Paraná, e referido em algumas fontes como tenente, terá sido em 1814 o primeiro povoador do Rincão de São Miguel, obtendo a Sesmaria de São Jerônimo, local onde foi criada a fazenda do Pinhal.

* * *

Saiba mais sobre a Batalha de S. Borja e as ações da coluna do tenente coronel José de Abreu em:

Batalha de São Borja (3 de Outubro de 1816)

Ação do Passo de Yapeyú (21 de setembro de 1816)



17/09/2017

Tenente Luiz Faiada, um oficial de Lanceiros Guaranis


O Sentinela, por Breresa

Luís Faiada foi um oficial guarani ao serviço de Portugal, tenente em 1816, aquando do início da guerra contra Artigas. Parte das companhias de Lanceiros 'naturaes' de cavalaria miliciana das missões orientais, o tenente Faiada participa decerto na defesa de S. Borja contra o sítio e na invasão das Missões a ocidente do rio Uruguai. Para lá das menções sobre as quais me debruço em seguida, duas apenas, estas memórias ajudam a compreender a perspetiva de um indígena guarani e a sua ética militar, mas no contexto de uma guerra moderna.


Remexendo vasta documentação, é rara a vez em que um militar guarani  é indicado por nome nos relatórios oficiais por mérito e feitos em campanha. 
Ao esquadrão de Lanceiros Guaranis destacados no comando de José de Abreu, por exemplo, nunca é atribuído um comando a um guarani ou este não é mencionado nunca; só se sabe que era o capitão Chico.


Alguns oficiais das Milícias das Missões são mencionados porém por terem desertado à causa federal e republicana, comandada ali por Andrés Artigas, "Andresito" ou "Artiguinhas", mas apenas encontrei uma menção por mérito e ainda assim numa fase já recrudescente da campanha, com Artigas fraco e na defensiva. 
Ruínas da igreja de S. Miguel, nas Missões orientais (fonte: Wikicommons)

Tenente Luís Faiada
Felizmente, o tenente Domingos legou uma relação dos eventos da Campanha Além do Uruguai, realizada entre Janeiro e Março de 1817, em que os portugueses invadem a província de Corrientes. A relação nomeia este oficial, tenente Luís Faiada, guarani, numa nota final da sua relação, relativamente a um combate decorrido no início da campanha, a 19 de janeiro de 1817, no passo da Cruz, próximo a Yapeyú:
N. B. No encontro da passagem de Luís Carvalho com o Capitão Vicente [Tiraparé] de Naturais este saiu baleado escapando de morrer por negar fogo a pistola do Tenente Luís Faiada dos nossos Guaranis que este o seguiu pelo meio da rusma dos garruchos a fim só de matar o dito Vicente, porém tendo a infelicidade da pistola lhe negar fogo por causa de um papel que tinha no fogão, dando volta ao seu cavalo meio rodou em um cupí e como estava muito longe da nossa gente e muito no centro da garruchada gritou logo o Vicente que o matassem com as lanças o que puseram em obra, porém o dito Faiada se pôs logo imediatamente a pé com a sua espada na mão e se defendeu das lanças até que chegou socorro da nossa gente, não deixando de ficar ferido de uma lançada na coxa a qual chegou a criar bicho(s) sem este dito tenente Faiada nunca querer dar-se por doente, e foi continuando sempre em todas as diligências que fez o tenente Luís Carvalho; nesta ação tomou-se um morteiro o qual traziam montado em um armão fincado em um cepo, o qual no primeiro tiro que fizeram saltou do dito armão pela boa segurança em que vinha pois era um armão feito por eles.
Andres Artigas.
O tenente Domingos (tudo leva a crer ser Domingos José das Neves dos esquadrões de Voluntarios Reaes de Entre Rios, comandados pelo tenente coronel José de Abreu), fala não só dos feitos de coragem e heroísmo pessoal de Luís Faiada, mas que estes são motivados pessoalmente pela vingança sobre um capitão Vicente, desertor. 
Este Vicente é Vicente Tiraparé, conforme é nomeado nas listas de oficiais dos esquadrões guaranis organizados em 1811, como comandante da 1.ª companhia. Tiraparé e toda a sua companhia vêm a desertar e aderem à causa republicana de Artigas.


Oficial Guarani Recomendado
O brigadeiro Francisco Chagas dos Santos, no final da sua vigorosa campanha em Corrientes, saqueando e destruíndo, de forma a completar os sucessos na área de Santana do Livramento e Catalán [leia mais aqui], refere-se a Luís Faiada, não pelo nome, mas pela notícia de um miliciano guarani com um ferimento em todo semelhante. Parece-me claro que é Luís Faiada, a quem Chagas do Santos se refere, mas tendo em vista o que ele fez, possivelmente uma menção ao nome pudesse ser o mínimo...

Chagas do Santos, numa carta muito extensa ao comandante de Fronteira marechal de campo (hoje major general ou general de divisão) Joaquim Xavier Curado, refere-se muito brevemente a Faiada:

[...] do tenente Carvalho cuja retirada não deixou de ser assaz demorada, em razão de conduzir 3 carretas com alguma herva mate, 740 cavallos, 130 mulas, e 308 rezes de gado vacuum, havendo deixado recommendado em uma casa conhecida um miliciano guarani, que quebrou uma coxa.
O nome não é referido, mas a 'recomendação' em que foi deixado a recuperar numa casa 'conhecida', possivelmente impossibilitado de viajar, e a natureza do ferimento, que coincide em Domingos e em Chagas Santos, indica-nos que se trata do corajoso tenente de milícias.

Luís Faiada não aparece como oficial na organização inicial das oito companhias de milícias guaranis, seis anos antes em 1811, pelo que é de supor que tenha sido feito oficial posteriormente, mesmo até sabendo que toda a 1.ª companhia, pelo menos, desertou para a causa de Artigas, abrindo decerto vagas para promoção.

Guaranis anónimos
É bem vincada e visível a descriminação (como se diz hoje) pela qual um oficial português, guarani puro, não chega a ser nomeado pelo nome, ainda que seja nomeada a particularidade de o deixar a recuperar de ferimentos, recomendado, em Corrientes. Isto em carta ao comandante das Tropas do Rio Grande em operações.

As milícias guaranis não eram vistas à mesma luz que as restantes milícias brancas e caboclas da zona de Missões e Entre Rios, apesar de de estarem tão comprometidas militar e politicamente com a autoridade real portuguesa e com a segurança da sua terra.
Em 1811, havia em Missões oito companhias de milícias guaranis, 'naturaes', e três companhias de 'brasileiros' residentes em Missões (a primeira delas comandada por um dos heróis de 1801, que conquistaram Missões, Gabriel Ribeiro de Almeida [memórias]).


Lanceiros Originais
As milícias no Exército do Brasil eram divididas por 'raça', desde o século XVII, e a sua posição na hierarquia militar era exatamente a mesma que a que detinham socialmente no mundo civil, mas exclusivamente o meio de promoção social mais eficaz para quem combatesse bem.

Ainda que socialmente na base do Exército do Brasil, os guaranis eram presença assídua na vanguarda das tropas do Rio Grande em 1816 e 1817, pelo seu conhecimento do terreno e adaptação às condições locais. José de Abreu usa-os sempre na sua vanguarda, assumindo funções que modernamente diríamos de reconhecimento. 
São eles o primeiro verdadeiro uso moderno de Lanceiros tanto em Portugal como no Brasil. Oficialmente, apenas em 1832, é que é levantado um regimento de Lanceiros, ainda hoje ativo (Lanceiros 2); quanto no Brasil, são então primeiros inovadores, os guaranis da províncias das Missões orientais, oficialmente em 1811.

A forma tradicional guarani de fazer a guerra mantinha-se, mas no serviço do rei português. Não por acaso, o teatro de operações de Missões foi o mais sanguinolento e feroz, tanto a nível militar como civil, devido à enorme politização das sete Missões Orientais, portuguesas apenas desde 1801.
Quando Andres Artigas monta cerco a S. Borja, a sua primeira proposta de rendição da vila pelo portugueses, a 21 de setembro de 1816, é clara em que todas as Missões, orientais e ocidentais devem ser únicas sob a égide da Liga de Povos Livres, de Artigas.

Reivindicação
Fica então contada, no que se pôde, a história do tenente Luís Faiada, em dois breve traços do tempo. Não descobri mais nada sobre ele, nomeadamente se retornou a Missões orientais e o que fez na vida, inclusive se pereceu eventualmente devido aos seus ferimentos. 

Se o espírito da época diminuía os guaranis, nós agora não podemos senão evidenciar feitos militares, sejam eles de quem for. Hoje em dia, este tenente receberia uma condecoração de coragem, por arrojo face ao inimigo com desprezo da sua própria vida; é justo então que o mérito seja pois honrado.

Imagens
- Ruínas da igreja de S. Miguel, nas Missões orientais.
- "O Sentinela", de Beresa, 1991.

Fontes
- ARQUIVO HISTÓRICO DE ITAMARATY, Ministério das Relações Exteriores: AHI-REE-00944: “Rio da Prata: Documentos sem importância – 16 folhas, 1811-1818”.
- LARA, Diogo Arouche de Moraes, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista Trimensal de História e Geografia, n.º 26, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Julho de 1845, pp. 125-328.
- PORTO, Aurélio, História das Missões Orientais do Uruguai - Segunda Parte (2.º Edição), Porto Alegre, Livraria Selbach, 1954. [Ler]

Biografia: brigadeiro Francisco de Chagas Santos
Biografia: marechal de campo Joaquim Xavier Curado

10/03/2017

Apontamentos sobre as táticas empregues pelas tropas da Capitania do Rio Grande: José de Abreu em S. Borja e Arapeí




As duas ações comandadas pelo tenente coronel José de Abreu, em S. Borja (3.10.1816) e Arapeí (3.1.1817), dão interessantes pistas para a tática usada pelas forças da Capitania do Rio Grande, no que tange ao uso combinado das 3 armas, infantaria, cavalaria e artilharia. Ambas as ações tiveram sensivelmente o mesmo número de militares portugueses em ação, 670 em S. Borja e cerca de 600 em Arapeí, o que nos permite aferir o uso tático de forças desta dimensão, destinadas fundamentalmente a ações de vanguarda.

A vanguarda da Divisão de Voluntários Reais, a atuar do outro lado dos teatros de operações, junto à costa atlântica, tinha cerca de 850 efetivos, ainda que com uma muito maior percentagem de infantaria.

Caracterização das tropas sob o comando de Abreu

Ambas as colunas de Abreu, em outubro e em janeiro, tinham a mesma distribuição entre tropas da 1.ª (profissionais) e de 2.ª linha (milícias). 

No primeiro grupo, das tropas permanentes, encontramos o Regimento de Dragões do Rio Grande (ou Rio Pardo, com também eram conhecidos) e a Legião de Voluntário Reais de S. Paulo, que era uma força de tropas ligeiras, que tinha cavalaria, infantaria e artilharia. Esta Legião havia sido criada em 1775 e desde quase o seu início que atuou sempre na província do Rio Grande, ficando lá aquartelado.

Na capitania do Rio Grande, em 1816, havia 3 regimentos de cavalaria de milícias, ou tropas não permanentes, mobilizadas apenas em caso de conflito: Rio Pardo, Porto Alegre e Rio Grande. 



Adicionalmente, havia os esquadrões de Milícias a Cavalo de Missões (composto por soldados de etnia guarani, que combatiam com lanças) e os esquadrões de cavalaria miliciana do distrito de Entre Rios [Ibicúi e Quaraí]. Ambos se tornam regimentos posteriormente à campanha. José de Abreu é titularmente o comandante dos esquadrões de Entre Rios.

Algumas destas unidades, apesar de titularmente milícias, no que indica que seriam apenas mobilizadas em caso de guerra, eram de facto as unidades de linha da fronteira mais remota, a oeste. A questão era que a zona de fronteira era uma zona militarizada. Estes militares, principalmente os oficiais, eram ao mesmo tempo colonos e a autoridade militar portuguesa, tão longe de Porto Alegre e até da vila do Rio Pardo.

Ainda assim, ambas as colunas Abreu são constituídas por cerca de 80% de cavalaria, mais ao menos distribuída entre cavalaria de 1.ª e 2.ª linha. A infantaria e artilharia representavam cerca de 20% da força total.




A Coluna

Em coluna, José de Abreu usa, nas duas ações, a mesma ordem: à cabeça, um esquadrão de Lanceiros Guaranis (Milícias a Cavalo de Missões), seguido de um esquadrão do Regimento de Dragões do Rio Grande e um esquadrão de Milícias a Cavalo de Entre Rios. 

Um quarto esquadrão, das Milícias a Cavalo do Rio Pardo, foi usado em S. Borja, mas não em Arapeí. Tendo em vista as duas ações, considero este esquadão excedentário para uma análise da formação típica.

Em seguida, o chamado centro, com a infantaria da Legião de S. Paulo (Legião de Voluntários Reais, na designação oficial), em duas subunidades, com a artilharia entre elas (2 peças de calibre 3 em S. Borja e Arapeí).

Na segunda parte da coluna, ou a esquerda, começando logo a seguir à segunda subunidade de infantaria, Abreu usa dois esquadrões das Milícias a Cavalo de Entre Rios nas duas ações.

Fecha a coluna na retaguarda com unidades diferentes em ambas as ações, dois esquadrões de cavaria: um da Legião de São Paulo e um das milícias do Rio Pardo, na batalha de S. Borja, e um esquadrão de milícias de Porto Alegre, em Arapeí, 3 meses depois.

Como flanqueadores da coluna, Abreu usa sempre dois esquadrões das milícias de Entre Rios, do seu comando.

Coluna (3-13) – 670 homens
S. Borja, 3.10.16

Lanceiros Guaranis [ala direita]
1 esq, RegDragRG [ala esquerda]
Esq Entre Rios [ala esquerda]

Esq RM Rio Pardo [perseguição a sudoeste]

Inf LSP [centro/bosque]
Art LSP + 2 peças c.3 [centro/bosque]
Inf LSP [centro/bosque]

Esq Entre Rios
Esq Entre Rios [ala direita]
Cav LSP [ala direita-bosque]
Esq RM Rio Pardo [perseguição a sudoeste]

Flanqueadores:
Esq Entre Rios [ala direita]
Esq Entre Rios [ala esquerda]
Coluna (1-9) – 500/600 homens
Arapeí, 3.1.17

Lanceiros Guaranis (centro)
RegDragRG (ambas as alas, destacamentos)
Entre Rios (centro-direita)

Inf LSP (centro-direita)
Art LSP + 2 peças c.3 (centro)
Inf LSP (centro-esquerda)

Esq Entre Rios (centro-esquerda)
Esq Entre Rios (centro-esquerda)
RMil Porto Alegre (centro)

RegDragRG (ambas as alas, destacamentos)

Flanqueadores (10 e 11):
Esq Entre Rios [ala direita]
Esq Entre Rios [ala esquerda]





A Linha

Tanto na batalha de S. Borja como na de Arapeí, a Coluna Abreu chega em coluna e rapidamente se coloca em linha, engajando o inimigo de forma rápida e decisiva, com rápido destacamento de unidades específicas com objetivos concretos. Em S. Borja, Abreu destaca desde logo um esquadrão a cortar a ligação das forças federais que se lhes opunham e a que já se encontravam diante da vila de S. Borja, então sitiada, muito provavelmente em preparação para uma 3.ª tentativa de assalto.

Não há propriamente a paciente transformação da coluna em linha como em divisões maiores e  com mais infantaria, mas um uso mais fluído e dinâmico das forças predominantemente de cavalaria, muito mais móveis e ágeis, principalmente nas pampas, muito propícias à manobra da arma montada.

No entanto, ao oferecer combate, Abreu forma linha antes de decidir nas ações o já referido uso rápido e decisivo de manobra, até pela forte preocupação em colocar a artilharia, de forma segura, numa posição de fogo sobre o inimigo.

Abreu tem as suas unidades em linha intercaladas entre tropas de 1.ª e 2.ª linha, conforme era o uso na época das guerras napoleónicas, normalmente sendo a antiguidade determinada pela antiguidade do comandante. 

Normalmente, em uso no Exército Português, a unidade mais à direita da linha era a comandandada pelo oficial mais antigo (daí o uso dos números paras os regimentos, em 1806, que determinaria a posição do corpo na linha, em vez da antiguidade do comandante), sendo a ala esquerda para o 2.º mais antigo, o 3.º mais antigo à esquerda do 1.º, o 4.ª à direita do 2.º e por aí fora, com as unidades de menos antiguidade ao centro. Esta colocação tinha o fim de equilibrar a linha em termos de experiência e força.

Ora, com Abreu, no âmbito das táticas em uso pelas tropas da Capitania do Rio Grande, com bastante mais cavalaria que o normal, não são as tropas mais antigas que ocupam as alas (ou a cabeça e a cauda de uma coluna, onde normalmente se esperariam essas unidades), mas, na verdade, as mais recentes (Missões e Entre Rios), assim como decididamente as mais adaptadas ao ambiente, tanto homem como cavalo. Logo a seguir, na 3.ª e 4.ª posições (as segundas unidades à esquerda e à direita), estão unidades de linha, que acabam por normalmente ser as verdadeiras alas, pelo uso das outras em tarefas de flanco. Depois delas esquadrões dos 3 regimentos de milícias, verdadeiras tropas não permanentes, mobilizadas apenas em caso de conflito, apesar de manter algum treino ocasional, conforme já referimos. Ao centro, a infantaria e a artilharia, com o eixo central de tudo sobre as peças, fundamentais à duas vitórias, especialmente em Arapeí.

Por ora, fica aqui feita uma primeira análise às táticas das forças da capitania do Rio Grande, que tão bem serviram as armas portuguesas na brilhante campanha de 1816. É uma forma de olhar mais especificamente para o uso de colunas de movimento, com forças flanqueadoras, usado frequentemente por todos os comandantes do Rio Grande e o seu uso brilhante por parte de José de Abreu. Este tenente coronel de 45 anos é um exemplo do melhor a que um comandante de cavalaria na fronteira pode oferecer. Abreu recebeu o epíteto de Anjo de Vitória, e verificando os seus feitos em S. Borja e em Arapeí, nunca um epíteto foi tão bem atribuído.

Antiguidades dos comandantes de corpos & Posição na linha

A posição na linha das unidades era determinada pela antiguidade dos seus respetivos comandantes, à ausência de um sistema de numeração, em uso na metrópole desde 1806.
No geral, as linhas são preenchidas de acordo com a antiguidade.

1. Francisco das Chagas Santos, Comte. Povo de Missões - Brigadeiro Graduado (20.1.1813) 
2. Tomás da Costa Correia Rebelo Correia (E Silva), Dragões do Rio Grande - Brigadeiro Graduado (13.5.1813)
2. João de Deus Menna Barreto, Milícias do Rio Pardo - Brigadeiro Graduado (13.5.1813)
4. Joaquim de Oliveira Alvares, Legião de Voluntários Reais de S. Paulo - Brigadeiro Graduado (1814) 

5. Bento Correia da Câmara, Milícias de Porto Alegre - Coronel
6. José de Abreu, Esquadrões de Milícias de Entre Rios - Tenente Coronel.

De acordo com as práticas, o regimento mais antigo, os Dragões do Rio Grande, ocupava a posição mais à direita da linha, reservada à unidade mais veterana e respeitada. Isto acontece em S. Borja e Arapeí. A 2.ª unidade mais antiga, as Milícias de Cavalaria do Rio Pardo, ocupam a posição mais à esquerda da linha. A 3.ª unidade, no caso a cavalaria da Legião de Voluntários reais de S. Paulo, ocupa a posição ao lado dos Dragões, à direita e por aí adiante, sendo este formato de colocação em linha pela antiguidade, uma forma de garantir uma linha equilibrada em termos de qualidade.

* * *

Ordens de Batalha (linha/coluna)

A) OdB (21/9 a 4/10 – Alívio de S. Borja)

TenCor José de Abreu (EntreRios), 670 homens (soma)

Cap Corte Real

Cavalaria (530):
- 1 esq, Cav, LSP: Ten José de Castro do Canto e Mello
- 1 esq, Reg Dragões RG, Cap José de Paula Prestes
- 1 esq, Reg Mil Rio Pardo, (Ten Olivério José Ortiz)
- 1 esq, Reg. Entre Rios: 1 esq, Tenente Romão da Sousa: 1 esq, (Tenente Floriano dos Santos)
- 1 esq, Mil Guarani (lanceiros)

Inf, LSP (117): Capitães Joaquim da Silveira Leite & José Joaquim Machado de Oliveira
Art, LSP: 2.º Ten José Joaquim da Luz (23), 2 peças c.3



B) Linha de batalha (S. Borja, 3/10)

Coluna (3-13):
Lanceiros Guaranis [ala direita]
1 esq, RegDragRG [ala esquerda] Cap José de Paula Prestes
Esq Entre Rios [ala esquerda]
Esq RM Rio Pardo [perseguição a sudoeste]
Inf LSP [centro/bosque] Cap Joaquim da Silveira Leite (ou o outro)
Art LSP + 2 peças c.3 [centro/bosque] 2.º Ten José Joaquim da Luz
Inf LSP [centro/bosque] Cap José Joaquim Machado de Oliveira (ou o outro)
Esq Entre Rios
Esq Entre Rios [ala direita]
Cav LSP [ala direita-bosque] Cap José de Castro do Canto e Mello
Esq RM Rio Pardo [perseguição a sudoeste]

Flanqueadores:
Esq Entre Rios [ala direita]
Esq Entre Rios [ala esquerda]



C) Linha de Batalha (Arapei, 3/1)

Coluna (1-9):
Lanceiros Guaranis  (centro)
RegDragRG (ambas as alas, destacamentos)
Entre Rios (centro-direita)
Inf LSP (centro-direita)
Art LSP + 2 peças c.3 (centro)
Inf LSP (centro-esquerda)
Esq Entre Rios (centro-esquerda)
Esq Entre Rios (centro-esquerda)
RMil Porto Alegre (centro)

Flanqueadores (10 e 11):
Esq Entre Rios [ala direita]
Esq Entre Rios [ala esquerda]

RegDragRG

dados: Inf LSP (100 homens)


D) OdB CATALÁN

Marquês do Alegrete 12 [14] – Piquete Cav, guarda do General em Chefe

TenCor Joaquim Mariano Galvão de Moura Lacerda, LTL
Artilharia: TenCor Inácio José Vicente de Fonseca

[ALA DIREITA]
1 – Reg Dragões Rio Grande  (Cap. Sebastião Barreto Pinto)
2 – Cav, Legião de S. Paulo

7 [3] – Bat. da Esquerda, Legião de São Paulo, 3 de 6 (Cap. José Pinto de Carvalho)

3 [4] – 2.º Bat Inf, Legião de S. Paulo
6 [5] – Bataria do Centro, Legião de São Paulo, 4 obuses (SargMor. Francisco Castro Matutino Pitta + TenCor Vicente da Fonseca)
4 [6] – 1.º Bat Inf, Legião de S. Paulo

5 [7] – Bataria da Direita, Legião de São Paulo, 2 peças de calibre 3  (Ten. António Soares)

[ALA ESQUERDA (primeiro contacto)]
8 – 2 Esq Cav, Regimento de Milícias de Porto Alegre  (Cor. Bento Correia da Câmara)
9 – Regimento de Cavalaria de Milícias do Rio Pardo  (Brig. João de Deus Mena Barreto)

10 [13] – 1 Esq Cav, Guarda avançada da Cav, Legião de S. Paulo  (Cap José da Silva Brandão) – vai reforçar o general
11 [10] – Cav, Esquadrões de Entre Rios  (TenCor José de Abreu) – vai reforçar a direita da linha

RESERVA (& Cavalhada, etc.)
13 – Inf, Legião de S. Paulo (reserva)
+ as duas Peças de 3, Legião de São Paulo (Ten. José Joaquim da Luz)

* * * 

Fontes
- Gazeta do Rio de Janeiro
- Comisión Nacional Archivo Artigas, Archivo Artigas, Montevideo, Monteverde, t. 31: pp. 364-367
- Diogo Arouche de Moraes Lara, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista trimensal de Historia e Geographia, ou, Jornal do Instituto Historico e Geographico Brazileiro, n.º 27, Outubro de 1845

03/10/2016

Batalha de São Borja (3 de Outubro de 1816)


Antecedentes
A vila de São Borja, nas missões orientais junto ao rio Uruguai, estava sitiada desde 21 de setembro. Após vários ataques, nomeadamente o de 28 de setembro, estava planeado um novo assalto oriental para o dia 3 de Outubro. 
É já na preparação das forças orientais sob André Artigas, que José de Abreu chega, atacando imediatamente a retaguarda, iniciando uma ação geral e a retirada oriental, terminando com o cerco à importante vila de fronteira.

O Plano de Artigas (voltando atrás)
Em Julho, o plano de José Artigas era o de avançar simultaneamente as suas forças em Missões e na fronteira do Quaraí, com o objetivo de entrar pela província do Rio Grande até à Serra Geral e ameaçar o flanco português, nomeadamente a Divisão de Voluntários Reais que começava a desembarcar nas praias de S. Catarina. A ação oriental deveria ser forte e rápida.

A Invasão das Missões Orientais
A 25 de agosto, José Artigas dá ordens a Andrès Guatuçari Artigas que avance sobre São Borja e que ele próprio iniciaria a ofensiva em breve, informando-o que os portugueses já haviam entrado em território oriental, no Cerro Largo. As fontes indicam que Artigas estava com dificuldades na recolha de cavalos, um problema que acossava também os portugueses.
Obedecendo às ordens, com a demora normal numa operação desta envergadura, Andrès Guatuçari, conhecido entre os portugueses como Artiguinhas, passa o rio Uruguai no passo de Itaqui a 12 de setembro, arrolando a guarda portuguesa em São João Velho, dando assim início à invasão das missões orientais.
[…] repasó el [........] [rio Uruguai] el 12 del pp. este dia forsó la guardia portuguesa q. estaba en la costa bien atrincherada. Apesar de su fortificacion fue asaltada y pasados a cuchillo 87 hombres q havia,  en  este dia  fue erido el Cap. Miño, un teniente, sinco sold[ado]s y tres muertos por otra parte. (Gorgonio Aguiar, carta de 11/10)
Quatro dias depois, a 16, Andresito desbarata um destacamento português de cerca de 300 elementos vindos de São Borja, comandado pelo capitão Ferreira Braga. A ação fica conhecida como o combate de Rincão de La Cruz:
El 16 se le presentaron 200 portugueses q. destroso al momento haviendoles muerto catorse y el resto disparado a S. Borja. (Gorgonio Aguiar, carta de 11/10)

Sítio de São Borja e... 
A 21 de Setembro, Andrés Artigas monta sítio à vila de S. Borja, intimando o brigadeiro Francisco das Chagas Santos à rendição. O brigadeiro comandante de S. Borja tinha, de acordo com Moraes Lara, ao seu dispor 200 homens, entre os granadeiros do Regimento de Infantaria de Santa Catarina e unidades brancas e guaranis locais.

A Ação de Yapeyú
Ao mesmo tempo, cem quilómetros a sul, nas costas do rio Uruguai, o tenente coronel José de Abreu (com ordens de aliviar S. Borja e atacar qualquer força oriental) batia em pormenor as forças de Pantaleón Sotelo, no passo de Yapeyú, que passavam para reforçar Andrés Artigas em S. Borja. 

Por não ter tido tempo de passar a cavalhada no dia anterior, Sotelo foi atacado por Abreu com as uma metade do sua divisão em cada margem do rio, sendo obrigado a retirar de novo para a margem direita do Uruguai, conforme nos informa Justo Negros:
Con esta fecha noticio a VS. q.e en el momento q.e me reuní con el comandante D. Pantaleon Sotelo para pasar su tropa del otro lado lo verificamos con los corsarios por el arroyo del vicuy [Ibicuí] el día veinte del q. gira y en virtud de no haver concluido deparar un corto trozo de Cavallada, tubimos q.e aguardar el día siguiente, luego q.e se concluyo dicho trabajo y q.e nos pusimos en franquia se nos presentaron los Enemigos en el mismo paso con dos piezas de Tren del Calibre de 4, luego q.e estos tomaron el monte principiaron a dirijir sus fuegos de cañon a los Buques y tropa q.e se hallaban deste lado; Inmediatamente determiné se hiciera safarrancho a bordo y rompi el fuego con los corsarios asta tirarles noche cañonasos contestandome ellos con seis de Bala raza; en nuestra Gente no se esperimento ninguna desgracia y al ber el  fuego de los Enemigos no sehoia mas voz q. era el de mueran los tiranos q. nos intentan oprimir.Seguidamente determiné salieran los Buques fuera del arroyo del Bicuy [Ibicuí] para lo qual nos habian preparado nuebamente una Embozcada de Cavalleria a esperar nos aproximaramos a la Costa para lograrnos, esta intencion nunca les surtió Efecto alguno pues con motivo de hir siempre una canoa armada con un cañon a la banguardia fueron descubiertos pues rompieron un fuego vivo afucileria y la canoa les correspondió con un cañonazo ametralla [Justo Negros, carta de 23 de Setembro]
[leia mais sobre a Ação do Passo de Yapeyú (21 de setembro de 1816)]


* * *

Continua o Sítio
Ao quarto dia do sítio de S. Borja, a 24, Andrès Artigas intima Chagas do Santos à rendição com um prazo de três horas. 
O brigadeiro português de 53 anos era o comandante das Missões desde Agosto de 1809, e, apesar de ter uma inferioridade de forças bastante apreciável, mantém uma defesa irredutível. No máximo, a um dada altura do sítio haveria 2 portugueses por cada 10 orientais, mas é de crer que muitas das forças de Andrès Artigas estivessem em outros serviços, em forreagem ou atacando outras povoações da região. 
O brigadeiro Chagas do Santos tinha no entanto bastante mais peças, disposta em defesa da vila de S. Borja; um total de 14 peças. Andresito só teria 2 peças e não é certo que as tenha tido em todo o sítio de 21 de setembro a 3 de outubro.

Ibicuí
Mais a sul, José de Abreu, tomando conhecimento que a norte do rio Ibicuí havia actividade inimiga, passou em dois dias este rio, que tinha as águas bastante altas:
[…] se empregarão  dois  dias  por  faltarem  todos  os  recursos, e pelas muitas águas que  inundavam [...] (José de Abreu) 
A 26 de Setembro, mal passa o Ibicuí, José de Abreu começa imediatamente a atacar as forças hostis:
Tendo [...] passado o Ibicuí [...] e sabendo que na sua margem direita andava huma Partida de Indios em saque, e ja possuidora de duas Carretas de effeitos, de hum Estanciero, fiz avanzar a guarda que flanqueava o lado direito da Divizão Comandada pelo Tenente Floriano dos Santos do Esquadrão d'Entre Rios, e este encontrando-a a destruirlo matando oito aprisionando dez mulheres, e somente fugindo  hum. No mesmo dia vindo-se reunir a Divisão o Cabo Ribeiro com uma Partida de quarenta Milicianos, e Paisanos encontrou outra dos Inimigos superior em n.º entre as pontas do Arroio  Yacuhy destinada a conduzir gado para os que cercavam S. Borja, e batendo-a a pôs em completa  fuga  com  perda  de  cinco. [José de Abreu]
No dia seguinte (27), José de Abreu, com os seus 600 efetivos, das três armas, continua a ditar um ritmo acelerado e, com base num batedor oriental capturado, bate 200 cavaleiros 'insurgentes' – avançadas da divisão de Sotelo – junto ao arroio Tuparaí. Alguns dos mesmos que haviam sido derrotados no dia 21, mais a sul.
[...] Havendo os flanqueadores aprendido um Bombeiro nas imediações do Tuparahy, deste soube que infestavam aqueles lugares 200 insurgentes, os mais avançados de Sotelo Comandante do reforço do Sitio (a quem desorganizei a marcha no Passo de Santa Maria no Ibicuí [no dia 21]) e destinando o Esquadrão de Dragões para os bater, este medindo de mais perto, as suas forças os entreteve até que foi reforçado, com mais cavalaria, e as puseram em derrota matando vinte [e] quatro e dispersando o resto sem o menor prejuízo dos nossos. (José de Abreu)
Ao oitavo dia do Sítio de S. Borja, a 28 de Setembro, Andresito efetuou um ataque geral à povoação, que  foi rechaçado por Chagas Santos. O comandante português faz menção nas suas cartas ao general Curado, da grande eficácia da artilharia e da infantaria nos muros da horta da vila nesse dia.

Passam os dias 29 de setembro a 2 de outubro sem nota, mantendo-se o sítio de S. Borja por Andresito e a progressão de José de Abreu, na sua direção, para o alívio da vila. 

Por volta do dia 2 de Outubro, Sotelo consegue finalmente juntar-se a Andrès Artigas, passando no Passo do rio Uruguai fronteiro a S. Borja, bastante mais a norte do que o primeiro sítio onde o pretendia fazer. 
Tendo as tropas de Sotelo reunidas a si, apesar das baixas que Abreu lhes infligiu nas semana anterior, Andrés Artigas marca um ataque geral à vila para o dia seguinte. Era este já o 13.º dia do sítio. 
Urgia a tomada desta importante povoação, ou toda a estratégia oriental ficava em perigo nas Missões.

A Batalha
Na manhã de 3 de Outubro, Andresito dispunha metade da sua divisão perante S. Borja, mantendo, em retaguarda a outra metade, mais afastada para ocidente, para observar a eventual chegada dos portugueses de sul. As duas metades do divisão oriental estavam separadas por um pequeno arroio.
José de Abreu, a coberto de nevoeiro, conforme nos informa o capitão Moraes Lara, defronta-se com a parte ocidental, ou a retaguarda, e imediatamente o comandante português dispõe as suas forças.

Segue a narração oficial dos factos feita por José de Abreu.




***

Parte oficial do tenente coronel José de Abreu, sobre a batalha de São Borja [escrito em São Borja, 8 de Outubro de 1816.]

Ill.mo Snr.


Agora que tenho concluído a total Evacuação dos Insurgentes em toda a margem do Uruguai, desde a Estância do Capitão Francisco Soares em frente do Povo de Yapeyú até este cumpre ao meu dever participar a V. S. o complemento desta Comissão em que V. S. tão justamente se empenhava, e aonde caia o maior peso das forças inimigas.

[26.9]


Tendo no dia 26 do que expirou passado o Ibicuí (onde se empregaram dois dias por faltarem todos os recursos, e pelas muitas águas que inundavam) e sabendo que na sua margem direita andava uma Partida de Índios em saque, e já possuidora de duas Carretas de efeitos, de hum estancieiro, fiz avançar a guarda que flanqueava o lado direito da Divisão comandada pelo Tenente Floriano dos Santos do Esquadrão d'Entre Rios, e este encontrando-a a destruí-lo matando oito aprisionando dez mulheres, e somente fugindo hum. No mesmo dia vindo-se reunir a Divisão o Cabo Ribeiro com uma Partida de quarenta Milicianos, e Paisanos encontrou outra dos Inimigos superior em n.º entre as pontas do Arroio YACUHY destinada a conduzir gado para os que cercavam S. BORJA, e batendo-a a pôs em completa fuga com perda de cinco.  

[27.9]


No dia 27 havendo os flanqueadores aprendido hum Bombeiro nas imediações, do TUPARAHY, deste soube que infestavam aqueles lugares 200 Insurgentes, os mais avançados de SOTELO Comandante do reforço do Sitio (a quem desorganizei a marcha  no PASSO  DE SANTA MARIA no IBICUÍ [21/9]) e destinando o Esquadrão de Dragões para os bater, este medindo de mais perto, as suas forças os entreteve até que foi reforçado, com mais cavalaria, e as puseram em derrota matando vinte quatro e dispersando o resto sem o menor prejuízo dos nossos.  

(...)

[3.10 - a batalha]


Finalmente no dia 3 do que corre aproximando-me em distância de meia légua no sitiado assomou o Inimigo numa altura que fica por detrás do mesmo em n.º de 800 homens, e chamando-nos para aquela parte com uma continuada fuzilaria dispus a Divisão em Ordem de Ataque em quanto avançava hum Esquadrão d'Entre Rios comandada pelo Tenente Romão de Sousa a reprimi-lo, e corta-lhe a comunicação que tinha pelo flanco esquerdo com o resto do Exercito, composto de 700 Insurgentes, porém notando que quanto mais nos aproximávamos mais se dispersava, e que com marchas retrogradas ora compunha pequenas massas ora debandara, e com pequenas escaramuças pretendendo penetrar os nossos flancos; 


Ordenei em detalhe os diferentes Corpos apropriando os ao terreno que nos ofereciam. 


A Infantaria da Legião de São Paulo dividida em duas partes, e comandadas pelos Capitães [Joaquim da] Silveira [Leite]  e [José Joaquim] Machado [de Oliveira] avançou a ocupar dois pomares que serviam de apoio aos Insurgentes e que na sua retirada pareciam limpos. Noventa e uma balas daquela Arma fizeram o mais pronto efeito, e que era de esperar de um Corpo que com bravura e intrepidez entranhou-se naqueles lugares que serviam de emboscada aos Inimigos que em numero de 91 esperavam ocasião própria de operarem.  


A Artilharia e Cavalaria do mesmo Corpo comandadas pelos Tenentes [José Joaquim da] Luz e  [José de] Castro [do Canto e Melo] , depois de terem protegido a marcha da Infantaria, e depois de a colocarem nos Pomares; a primeira em lugar oportuno começou as suas cargas de metralha dirigidas as pequenas Massas quando se formaram, e varrendo-as decididamente e em muito prejuízo dos contrários, deu pronta ocasião a segunda para com todo o peso, e com mais pronta velocidade tomar uma boca de fogo, e concluir a derrota total dos inimigos.  


O Esquadrão de Dragões do comando do Capitão [José de Paula] Prestes disposto por sua ordem no centro tive pouco que avançar porém teve ocasião de reprimir o Choque de uma Escaramuça com que intentava o inimigo bater-nos pela retaguarda. 


O Corpo dos Naturais Lanceiros formando sempre a vanguarda da Divisão nesta acção teve de ocupar o terreno em frente do flanco direito, e na sua Ordem dispersa de ataque, e em correrias singelas destruiu os mais dispersos do Inimigo, e serviço de apoio aquele flanco.  


Não quis empenhar todas as forças da Divisão neste Choque, e ficou como de reserva, e observação o Esquadrão de Milícias do Rio Pardo, e a Guarda da  retaguarda composta de cinquenta homens alem da que guardava a munição e bagagem tudo debaixo das disposições do Capitão Corte Real para em caso de precisão aplicá-los as circunstâncias que ocorressem.  

Comandante das forças orientais no sítio e na batalha de S. Borja

É incrível que hum Inimigo indisciplinado se bem que feroz sem ordem, e posto em confusão se arrostasse por espaço de duas horas na persuasão de fazer balancear as nossas Armas: ele pretendeu em vão uma arrebatada fuga para todos os lados, foi a conclusão da vitoria.  


Os poucos que restavam dos que atacamos unindo-se aquela parte do Exercito que acaba de Sitiar o POVO, passando o com tanta rapidez, e desordem que deixaram-nos uma boca de fogo e uma Carreta com alguma munição.  

Esta retirada praticada com tanta violência, e em tempo que ainda se  aplicaram os Corpos que atacavam a total extinção de alguns dispersos, só foi observada pelo Corpo de reserva que nada podia operar pela sensível desproporção de forças, por em quando as circunstâncias o permitiram destaquei os Esquadrões de Dragões, e D' Entre Rios com toda a reserva, e logo após o resto da Divisão para  picar-lhe a retaguarda, o que foi sem fruto por causa da grande distância que haviam ganhado na nossa vanguarda, e porque o supra dito banhado impediu a velocidade que se devia praticar naquele caso.  


Tendo marchado para o povo soube que outra parte dos Inimigos em n.º de 700 se encaminhava para o PASSO DO URUGUAI no intento de o passar, imediatamente dirigi para aquele lugar a Infantaria protegida pelo Esquadrão de Milícias do  Rio Pardo com as duas bocas de fogo; foi muito a tempo esta avançada pois encontrando ainda o inimigo que principiava a passar pelo fogo de Artilharia assestada do outro lado, e por uma das barcas Canhoneiras que em Yapeyú serviu-lhes para igual efeito; bateu-os completamente, e os apertou contra o Rio de tal forma que aqueles que não eram alvos do fuzil iam perecer nas suas águas.


A Artilharia dirigindo as suas pontarias com tanto acerto meteu ao fundo uma canoa com Armamento, e gente, e rompeu a bandeira da Canhoneira. O resto dos Inimigos que ficou deste lado procurando salvar-se no mato foi batido pela Infantaria, e obrigado com mais rapidez a lançar se ao  Rio, aqueles que não estavam ao alcance do seu peto


Havendo-se retirado esta gente, e depois de estar mais descansada fiz marchar os Esquadrões de Dragões, e de Milícias do Rio Pardo, e com alguns Milicianos desta Província comandados pelo Capitão Prestes em seguimento da Coluna Inimiga que se havia retirado pelo banhado depois de acossada pelo primeiro Ataque.  

[4.10]


No dia 4 a encontrou em distância de cinco léguas deste Povo, e dirigindo-se para o Uruguai no lugar onde este conflui o Arroio Butuí; aí atacou-a, e com muita vantagem apesar da desproporção das  forças, pois opondo a mais de 700 a sua gente composta de duzentos matou quarenta e tantos atropelou-os, e os fez retirar por grande espaço e com muita velocidade, mas aproximando-se a noite, e receando a exposição da gente, e além disto muito distante do grosso da Divisão retrogradou a sua marcha para este Povo com a  Perda de cinco Milicianos desta Província.  

[5.10]


No dia 5 marchei com toda a Divisão,  

[6.10]
e o 6 chegando aquele lugar nada mais encontrei senão 620 cavalos, que ainda pretendiam passar, e os recentes sinais de uma desesperada fuga pelo Uruguai; Tendo, assim ultimado a Comissão de  que por V. S.ª  fui encarregado, não só de romper o assédio que apertava este povo como de limpar esta Província dos Insurgentes que a infestavam, e que com ligeiros passos pretendiam escravizá-la em titulo de liberdade, tendo em primeiro lugar de tender as Graças, ao Altíssimo como primeiro móvel de todo o bem, e em segundo a valentia, e hábil Oficialidade, e mais indivíduos desta Divisão que com a mais heróica intrepidez, e coragem repeliram o Inimigo, e o fizeram conhecer em poucos momentos que o peso das Armas Portuguesas não fraqueja. Sim Ill.mo Snr não teve a presença de 20 Inimigos força bastante para fazer vacilar a sua valentia e patriotismo.


Eles foram batidos constantemente, e de certo metade daquele número pagou com a vida os seus insultos, e devastações. Dois mil e tantos cavalos ficaram em nosso poder assim como uma grande quantidade de Armamentos, duas bocas de fogo de Cal-3, e 6, alguma munição de guerra, todas as montarias da Coluna que passando o Uruguai no Passo deste Povo, toda a grande e interessante correspondência entre os dois Artigas, da qual parte já enviei a S. Ex.ª, e 74 Prisioneiros de ambos os Sexos inclusos um Capitão, um Alferes, e 4 Negros.  


Vejo-me na triste precisão, e com toda a sensibilidade de acrescentar a esta Exposição a perda de 2 Soldados da Legião de S. Paulo, os 2 dignos Portugueses que um no conflito, e outro no seguinte dia deram a vida no Criador, tem sido ela bem lamentável, e já mais se apagará da nossa ideia a lembrança de duas vitimas imoladas a Pátria pelas mãos de uns bárbaros que estão bem longe de apreciar as qualidades de hum Soldado Português e que naqueles bem se distinguiram o n.º somente 15 feridos 8 levemente, e o resto com mais gravidade. 


Nada mais me resta dizer a V. S., a quem desejo completa saúde e felicidades. 


Deos Guarde a V. S. Povo de S. Borja 8 de Outubro de 1816


Ill.mo Sñr Brigadeiro Thomaz daCosta Correa Rabelo e Silva
José de Abreu.




MEMÓRIA

Cadete Porta-bandeira Manuel Fonseca de Almeida Coelho
(Regimento de Infantaria de S. Catarina)
[adicionado ao blogue a 10 de maio de 2026]

«Nesse estado se achavam as cousas, quando começava a raiar o dia 3 de outubro e tão nublado que não se podia divisar objeto algum ao longe: todavia, sentindo-se na praça grande rumor na linha inimiga, a guarnição se dispôs para um novo combate. Poucos minutos depois, o tenente do regimento de cavalaria miliciana guarani, António Eripi, do cume do zimbório da igreja, onde subira para observar melhor o rumor ou movimentos do inimigo, avisa que um corpo volumoso de cavalaria atravessa o extenso banhado ao sul da povoação, demandando o campo do inimigo. Era o tenente-coronel José de Abreu, que tendo aviso (46) do general Chagas, correu com oitocentos homens que comandava, não só em socorro de S. Borja, como a vingar nos sitiadores o arrasamento na nova povoação de Manduhi (cuja ereção fora animada e protegida por Abreu) e com marchas tão ocultas, que só foi pressentido pelos insurgentes quando começavam a ser batidos e derrotados: contudo Abreu não o conseguia impunemente.

Abreu, achava-se na fronteira de Alegrete a 50 ou mais léguas distante de S.. Borja, quando recebeu o aviso e no dia 3 de outubro começou a imortalizar seu nome (que jamais pode-se esquecer nos anais do Brasil) levando de rojo o inimigo e perseguindo-o até pô-lo além do Uruguai, ajudado pela companhia de granadeiros, que, instantaneamente deixando as trincheiras, se lhe reuniu e acompanhou até a barra do rio Butuí. Abreu retirou-se logo depois, ou no mesmo dia, coberto de bênçãos e da bem merecida glória de ter derrotado e enxotado para longe os insurgentes, com perda de muitos, e aberto as portas de S. Borja. A companhia de granadeiros comportou-se, durante os treze dias de sítio, como era de esperar de homens briosos e acostumados aos trabalhos da vida militar.

O seu digno capitão foi remunerado (por informações de Abreu) com a graduação de major. Os mais oficiais e toda a companhia se fez digna dos subidos louvores que com tanta justiça se lhes dirigiu.»

Baixas

S. BORJA E AÇÕES SOBRE O URUGUAI

MORTOS FERIDOS
Ação OFICIAIS PRAÇAS OFICIAIS PRAÇAS
Cav, LSP 0 1 0 1
Inf, LSP 0 1 0 3
Art, LSP 0 0 0 1
Reg Mil Rio Pardo 0 10 0 1
Reg. Entre Rios 0 0 0 6
TOTAL 0 12 0 12


LSP = Legião de Voluntários Reais, São Paulo


* * *


COLUNA ABREU: Ordem de Batalha

Tenente coronel José de Abreu, comandante


Cavalaria:

1 esquadrão, Regimento de Dragões do Rio Grande (capitão José de Paula Prestes);
1 esquadrão, Legião de S. Paulo (tenente José de Castro Canto e Melo);
1 esquadrão, Regimento de Milícias do Rio Pardo (tenente Olivério José Ortiz);
1 esquadrão, Milícias do Distrito de Entre Rios (tenentes Romão de Sousa & Joaquim Félix de Fonseca);
1 esquadrão, Milícias Guaranis;
Total de 513 efetivos

Infantaria:

Capitães Joaquim da Silveira Leite & José Joaquim Machado de Oliveira
Legião de São Paulo, 117 homens

Artilharia:

2.º Tenente José Joaquim da Luz
Legião de São Paulo, 23 homens, guarnecendo 2 peças de calibre 3

Total geral: 653


Guarnição de S. Borja: Ordem de Batalha e Baixas


Brigadeiro Francisco das Chagas Santos, comandante


- Companhia de Granadeiros, Regimento de Infantaria de S. Catarina (Capitão José Maria da Gama Lobo);

- Milícias Brancas;
- Milícias Guaranis;
c. 200 efetivos 

De acordo com Moraes Lara, a guarnição teve 5 feridos graves e 4 leves nos assaltos à vila, prévios à batalha.


* * *

Leia mais:

Batalha de S. Borja: A primeira notícia (dada por Hipólito Francisco de Paula a Joaquim Xavier Curado, a 9.10.1816):


* * * 

Biografias
- Tenente coronel José de Abreu
- Brigadeiro Francisco das Chagas Santos


Fontes

- Manuel Joaquim de Almeida Coelho, “Memoria Historica do extincto regimento de infantaria de linha da provincia de Santa Catharina, ou informações dos seus serviços mais notáveis e dos motivos e logares onde os prestou, escripta na cidade do Desterro em dias do natal do anno de 1850”, in: Almanak Literário e Estatístico do Rio Grande do Sul (Alfredo Ferreira Rodrigues, org.), 21.º Ano, 1909, Ed. Pinto e Cia., Pelotas-Rio Grande-Porto Alegre. pp. 79-85;
- Comisión Nacional Archivo Artigas, Archivo Artigas, Montevideo, Monteverde, t. 31: pp. 364-367;
- Diogo Arouche de Moraes Lara, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista trimensal de Historia e Geographia, ou, Jornal do Instituto Historico e Geographico Brazileiro, n.º 27, Outubro de 1845