quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Na Estrada de Montevideu



No final de 1814 foi mandada aprontar uma divisão de voluntários, a ser composta de pouco menos de 5000 militares das três armas, com o objetivo de intervir no sul do Brasil. Este blogue é uma humilde contribuição para o conhecimento da história da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, e depois d'El-Rei, entre 1815 e 1824, assim como das tropas da Capitania do Rio Grande.
A campanha de 1816 foi um esforço conjunto de mais unidades do Exército do Brasil e de Portugal num teatro de operações que ia desde a costa atlântica à costa do rio Uruguai, com quatro colunas distintas.
Apesar de adotar uma perspetiva portuguesa do conflito, este blogue procura também a perspetiva oriental a fim de traçar a mais fiel possível descrição dos acontecimentos desta guerra.

Embarque da DVR a 29 de Maio de 1816, na Praia Grande (J. B. Debret)
AS BATALHAS
As ações, sítios e batalhas da campanha, com ligação aos artigos disponíveis sobre elas, com ênfase forte nos memorialistas.
AS BIOGRAPHIAS
Em constante atualização, aqui pode encontrar ligações à biografia de alguns dos militares, portugueses e federais.
OS MOMENTOS
Os artigos sobre momentos que não envolvem combate.
OS VOLUNTARIOS
Listas e caracterização dos militares da Divisão dos Voluntários Reais.
AS TÁCTICAS
Os artigos predominantemente da análise tática militar.
AS MEMORIAS
As vozes dos combatentes e testemunhas dos eventos.
UMA BIBLIOGRAPHIA 

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terça-feira, 28 de setembro de 2021

Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816 (J. J. Machado de Oliveira)

 


“Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816".

Autor: José Joaquim Machado de Oliveira (Legião de São Paulo)

Datas extremas: 18.3.1816 - 9.3.1820

(Publicado em Revista do Arquivo Municipal, Ano VI, Volume LXXII, Novembro-Dezembro 1940, São Paulo, Departamento de Cultura da Prefeitura, pp. 5-20) [Leia online aqui - abre nova página]

* * *

[Início]

1816. 1.ª Campanha. 

Março 18. Saí de Pôrto Alegre embarcado e com tropa - 23. Cheguei à Vila do Rio Pardo.

Julho, 29. Saí de Rio Pardo com tropa, e acampamos na Picada. 30. Na Cruz Alta. - 31. No Campo de Felipe Carvalho.

Agosto 1. No Arroio Butucaraí. Passo de cima. - 2. No Capão dos Enforcados. 3. No Passo de Jacuí, aonde se esteve o dia. 4. Ocupado na passagem do rio. - 5. A meia légua distante daquele passo. - 6. No Passo da Estiva. – 7. Na Restinga Seca, estância de Antônio Gonçalves Borges. - 8. No Arroio do Sol, aonde se esteve também o dia 9, por chover muito. - 10. No capão de Manuel Paim. - 11. No Arroio de Santa Maria. - 12. No capão da eståncia do Pompeu. - 13. No rodeio velho das éguas do Felipinho ou Felipe Santiago. - 14. Na estância do Serino (Cirino ?), irmão de meu pag. (pagem ?) Domingues. - 15. Na estância do tenente-coronel Carneiro, ou Pau Fincado. — 16. Na estância de Manuel Ferreira, seu genro. - 17. Na estância de São Felipe. - 18. Na margem esquerda do Arroio Cacequi. Morreu afogado o cabo Malaquias. - 19. Ao pé da estância do inglês Daniel Luiz Carlos. - 20. No Passo do Rosário, aonde estivemos até o dia 29. - 30. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 31. No Vacacuá. estância de Antônio Caetano. 

Setembro 1. Na Guarda da Conceição. aonde estivemos os dias 2 e 3. - 4. No Arroio da Porteira (?) ao pé da estância de Inácio Adolfo. -. 5. No Pôrto do Alferes Pinto.- 6. Nas cabeceiras do Ibirapuitã Chico, aonde estivemos o dia 1. - 8. No campo de João da Costa. - 9. Em São Diogo. - 10. ... pontas do Arroio de Valença. - 11. Acampamos no Boqueirão das Lagoas - 12. Na tapera do Leme, ou Capão do Cirurgião. Ali chamando-nos o Abreu (tenente-coronel José de Abreu) a conselho, decidiu-se que deviamos ir à Provincia das Missões, já invadida pelos insurgentes deixando a nossa marcha para Belém. - 13. No Suaraim chico. - Passo das carretas 14. No Arroio Garopá. - 15. No Arroio Camoatim. - 16. No Arroio Caoati.  -- 17. Num dos galhos do Toro-passo. - 18. No Arroio Toro passo, aonde estivemos o dia 19, passando 0 Arroio, que estava de nado. - 20. No Arroio Cochi-passo. Foram vistos alguns bombeiros (espiões) do inimigo. - 21. Na estância do Aferidor. Ali fizemos passar para o outro lado do Uruguai os Insurgentes, que se achavam, tanto na estancia, como no Passo de Santa Maria no Ibicui, aprisionando-se 2 homens e 6 mulheres (?) e alguma cavalhada. Falhamos o dia 22. - 23. No Ibiraocaí - 24. Acampámos no Ibiricui, aonde estivemos passando o dia 25. - 26. Na estância de Joãozinho de Oliveira. Neste dia bateram-se duas partidas inimigas, que andavam em saque. Foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 26 insurgentes. - 28. Na estância do Padre Alexandre, aonde falhámos o dia 29, por chover muito. Foram vistos dois bombeiros (espiões) do inimigo. - 30. No capão de João Machado. 

Outubro 1. Na margem direita do Arroio Butuí, de nado. - 2. Além do Banhado de S. Borja. Ali estivemos até o dia 4. 5. No outro lado do Banhado de S. Borja. - 6. Neste dia fomos. ao Butuí, na sua barra, como não encontramos uma partida inimiga que ali fôra vista, retrogradamos... chovia. - 7. Acampamos no Povo de S. Borja, e ali estive até o dia 23, ocupado numa inquirição - 24. No Ivaí, aonde estava a divisão. - 25. No Capão de Butuí. - 26. No Butuí-chico. - 27. No pôrto da estância de Santa Rosa. - 28. No Ibicuí, Passo de S. Rosa e ali nos demoramos o dia 29 na passagem. -- 30. No capão da estância do tenente Olivério. - Na margem esquerda do Ibirapuită, Passo Guassú.

Novembro 1.º No Pai-passo. 2. Na tapera de Inácio dos Santos Abreu, – 3. Em S. Diogo. Ali se achava o Regimento da Ilha. - 4. No acampamento do Ibirapuitã, aonde estava o exército, Ali estivemos até 20 de dezembro.

Dezembro - 25. Marchou todo o exército e acampamos ao pé da estância do Cláudio. - 26. Saí para o Côrpo da Vanguarda, e acampamos ao pé da tapera do Cláudio, aonde se falhou o dia 27. - 28. Acampamos no campo de Juca Mingote. - 29. No Indahim, onde se falhou o dia 30. - 31. A vanguarda marchou um quarto de légua sobre a frente, aonde se falhou o dia 1.º de janeiro de 1817. 


1817.

Janeiro 2. No Arroio Catalã. A vanguarda marchou às 6 da tarde para o Arapeí, chegou alí a 3, atacou o acampamento inimigo e voltou no mesmo dia para Catalã, aonde chegou às 7 da tarde. No dia 4 houve nesse lugar a batalha de Catalã, e falhou-se o dia 5. - 6. Num dos galhos do Arroio Catalã, aonde se falhou os dias 7. 8. 9 e 10. - 11. Na barra do Catală, aonde se falhou os dias 12, 13, 14 e 15. - 16. No Suaraim, no Passo do Lageado. Dêste lugar saí em diligência para Pôrto Alegre a 29 e fui pernoitar na estância de João dos Santos Abreu. 30. No porto da estância de Joaquim Luiz - 31. Na estância de capitão Brito.

Fevereiro 1. Na estância do tenente-coronel Antônio Pinto. - 2. Na estància de S. João. - 3. Pernoitei nos Morais. - 4. Na Cachoeira. - 5. Em Rio Pardo. - Embarquei para Porto Alegre. - 8. Em Porto Alegre, aonde estive até o dia 3 de março, e embarcando com tropa para o Rio Pardo, ali cheguei no dia 11.

Março 15. Saimos de Rio Pardo e acampamos no Capão da Vendinha do Arroio das Pedras. -16. No Butucaraí. Passo da Ponte. - 17. No Passo de S. Lourenço no Jacuí, 18. Em Santa Bárbara. - 19. Na estância do Corcundinha. - 20. No Arroio da estância do capitão Freire - 21. No ... de Luiz Machado - 22. Na estância do Padre João de Almeida. - 23. No Vacacaí, estância do coronel Pinto. - 24. No pôrto velho do Batoví. -- 25. No Passo de S. Borja. - 26. No Capão do Severo. - 27. Na Guarda da Conceição, donde se falhou o dia 28, por quebrar-se o eixo do carro. 29. Acampamos no pôrto de Joaquim Luiz. - 30. Na Estância do Tulio. 31. No campo de Juca Mingote.

Abril 1. No acampamento do exército no Suaraim, aonde estivemos até 20 de março de 1818, e a 21, marchando o exército, saí daquele acampamento com a tropa comandada pelo coronel Abreu, e acampamos no Arroio Sarandi.


1818.


Março 22. Nas pontas do Sarandi. - 23. No Arroio do Areal, estância do Guarda-mor. - 24. No Capão do Tigre, estância de Joaquim Pôrto. ---- 25. Nas pontas do Nhanduí, onde se falhou o dia 16, por chover. -- 27. No capão da estância de Gaspar Nunes. - 28. Na capela de Alegrete. Saí dêste lugar para Porto Alegre em diligência no dia 3 de junho e fui pernoitar na estância do Dornellas.

Junho 4. Na estância do major João Machado Bitancourt. - 5. Na estância do Severino. --- 6. Pernoitei na estância do capitão José Machado. - 7 No pôrto da estância de S. João. - 8. Na estância do alferes Machado.- 9. Na freguezia da Cachoeira. – 10. Na vila de Rio Pardo, aonde embarquei no dia 11, e no dia 12 cheguei a Pôrto Alegre.

Saí de Porto Alegre em 6 de novembro, embarcado, e cheguei a Rio Pardo a 12 do dito, de onde saí a 23 e pernoitei na chácara do capitão Bernardo. - 25. No Passo de S. Lourenço.-- 26. Em Santa Bárbara. -27. Na estância de Manuel Rodrigues Penteado. - 28. No Adolfo. 29. Na tapera de Luiz Machado. - - 30. Na estância do padre João de Almeida.

Dezembro. 1. Na capela de S. Gabriel. - 2. Na cochilha de Jubatuim. - 3. Na estância de Antônio Francisco. -- 4. No Passo do Rosário. - 5. Na estância da Côrte Real, no Capão. 6. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 7. Na estância do capitão Florêncio. -- 8. Na estância de José Maria. - 9. Na capela de Alegrete. Primeiro movimento da guarnição para a fronteira. A 25 de dezembro saiu de Alegrete a guarnição e foi acampar no Arroio Pai. Passo. - 26. No mesmo Arroio. No Passo da Marmota. - 27. Na estância da Marmota. -- 28. Numa das pontas do Pai-Passo. - 29. 


[1819]

Em outra ponta do dito, aonde estivemos até o dia 4 de janeiro de 1819, e no dia 5, marchando-se para a fronteira, soube se que o inimigo se retirara, e por conseguinte retrogradou-se, e acampamos no arroio da divisa do Marmota. 6. No lado esquerdo do Ibirapuitã. - Passo guassú. 7 - Na capela do Alegrete.

Segundo movimento. A 1.º de Abril saímos da Capela de Alegrete, em consequência da segunda invasão das Missões, e acampamos a meia légua distante dali, à margem do mesmo Ibirapuitã, e dêsse lugar passamos para o Pôrto das Pedras, ao pé da Capela, a 10 do dito mês. A 17 chegou o sr. Conde da Figueira, e a 20, movendo-se a divisão, acampou do outro lado do Ibirapuità - Passo guassú. 

Maio 21. Num capão do campo do Joaquim Machado. 22. No Ibicuí, Passo de S. Rosa, aonde nos demoramos a passá-lo o dia 23. ---- 24. No Pôrto de .... de S. Rosa. -- 25. Nas pontas do Butui. - 26. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel -- 27. No Camacuã. Ali nos reunimos com a tropa do marechal Chagas. -- 28. No Itaraoquim. 29. No capão do pôrto do Severino. - 30. Piratini, Passo Novo da Figueira. -- 31. Ao anoitecer marchamos, e ao amanhecer paramos em uns capões ao pé da estância de S. Jerónimo. 9.

Junho 1. Ao anoitecer marchamos e fomos amanhecer no dia 2 no Povo de S. Luiz, e acampamos fora - 3. Acampamos dentro do Povo de S. Luiz, aonde estivemos até o dia 9. 10. No Passo de Pirajú. - 11. Nuns capões de S. Jerónimo. -- 12. Estando assentado... no Arroio Guaraçá, marchamos para o Povo de S. Nicolau, por saber que o inimigo o evacuava. - 13. Marchamos com destino para o Passo de S. Isidoro, e por se achar o Arroio Jacatobá de nado, aí acampamos. - 14. Meia légua distante do Passo Geral do Piratini. 15. Apartando-se a Legião da divisão, para unir-se ao Côrpo de Abreu, acampou no capão do Porto do Severino.- 16. Em Itaroaquerim. - 17. Na estância de S. José, do Chagas, - 18. No Passo de S. José do Camacuã. -- 19. No G...iaçai, aonde se achava a tropa do Abreu. - 20. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel... 21. Nas pontas do Butui. - 22. Acampamos no capão da estância do Cunha. -- 28. No Ibirapuitã, Passo guassú.- 29. Na Capela de Alegrete.

Julho - Nos dias 4, 5, e 6 de julho marchou a divisão do brigadeiro Abreu, e eu fiquei para me retirar para Pôrto Alegre em consequência do meu emprego. - 31. Saí da Capela de Alegrete e pernoitei na estância de Felipe Carvalho.

Agosto. 1. Em Taperí, chácara de Joaquim Leonel. 2. No banhado de Saicã, meia légua distante do Pôrto da estância de Antônio Franeisco. -- 6. Na estância do major Tomaz 7. Na Capela de S. Gabriel, aonde falhei o dia 8. - 9. Na estância do tenente-coronel Antônio dos Santos - 10. Na estância do Mancio. - 11. Na estância do Quartel Mestre. - 12. Pernoitei na estância do Machado Gordo, ao pé da estância do tenente Ricardo. -13. Na chácara de Manuel Joaquim Teixeira no Capão dos Enforcados. 14. Na Cruz Alta. - 15. Em Rio Pardo, aonde embarquei a 17, e a 19 cheguei a Porto Alegre.


2.ª Campanha, 1820. 

Janeiro. Na noite de 2 saímos de Porto Alegre com & infantaria e a artilharia do meu comando, e chegamos a Rio Pardo a 8, e no mesmo dia acampamos no lado direito do Passo do Rio Pardo. - 9. No capão da Cruz Alta. - 10. No Passo de S. Lourenço no Jacuí. - 11. Nos Morais. - 12. No Arroio do Lageado, divisa de S. Jo... 13. No Passo de Carutaí. - 14. No Arroio do Lageado no campo de S. Fidélis. -- 15. No Passo de S. Borja. - 16. Na estância de Placido Severo. - 17. No Passo de Ibicuí-Chico. - 18. Acampamos duas léguas distantes de Itaquatiá. - 19. Em Itaquatiá, aonde estava o exército. - 20. Na tapera de d. Ramon. --- 21. Chegámos ao Passo do Sutil no Cunhapirú, e aí, esperando a noite, marchámos para o Taquarembó Grande, aonde chegámos na manhã de 22, em que atacamos o inimigo e o derrotamos. Aí estivemos nos dias 23 e 24. - 25. Retrogradamos para o Passo do Sutil. - 26. Acampamos no Cunhapirú. - 27. Nas pontas do Ibicuí. - 28. Nos morros de S. Ana. - 29. No Sarandi, - 30 No Funchal. --- 31. No Pai-Passo, pontas.

Fevereiro. - 1. No Passo do Pai Passo. - Em Alegrete. Aí ficamos até o dia 21. - 22. No Arroio do Lageado. - 23. No Arroio Jaguaquá. - 24. No tenente-coronel João Machado. - Falhamos o dia 25, por chover. - 26. Acampamos no Arroio Cacequí. - 27. Em S. Gabriel. - 28. No Fidélis, aonde estivemos o dia 29.

Março. - 1. No Arroio .... 2. Na tapera de Luiz Machado. 3. No Passo de S. Bárbara. - 4. Na estância do tenente Ricardo.- . No Arapoá. - 6. Na estância do Bibiano. - 7. No Arroio Francisquinho. - 8. No Arroio dos Ratos. – 9. Em Porto Alegre".

[Fim]


* * *


Pequena biografia

O capitão José Joaquim Machado de Oliveira nasceu em São Paulo, a 8 de Julho de 1790, filho do  tenente coronel Francisco José Machado de Vasconcelos e de D. Ana Esmerina (Esméria ou Esmênia) da Silva.

Com um ano e meio de idade, o pai assentou-lhe praça mas só em dezembro de 1807, já com 17 anos, foi reconhecido cadete.  É Alferes em 1809, tenente em 1811 e, finalmente, graduado em capitão em 13 de Maio de 1813, pelos seus serviços na Campanha de 1811-12.

Em 1816, com cerca de 26 anos, é capitão de infantaria da Legião de Voluntários Reais, de S. Paulo, e participa com distinção, nos combates do Passo de Yapeyú e na batalha de S. Borja, e, já em Janeiro, na Surpresa de Arapey, sempre sob o comando direto do tenente coronel José de Abreu.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Batalha de Catalán por uma Testemunha Ocular, 4 dias após o evento (Inácio José Vicente da Fonseca)


A carta do tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, o mais graduado oficial de artilharia da Legião de Voluntários Reais de São Paulo, ao coronel Vicente Ferrer da Silva Freire, de 8 de Janeiro de 1817, 4 dias após a grande batalha de Catalán, relata o recontro de um forma pessoal, estando ele no centro da posição portuguesa, equidistante da ala esquerda que, apeada, sofreu o assédio dos orientais, e da carga de cavalaria oriental na ala direita que foi rechaçada por  Sebastião Barreto e José de Abreu (carga esta a que Artigas atribui a derrota oriental). Adicionalmente, Vicente de Fonseca, enquanto artilheiro e “official scientifico” por excelência, é bastante pormenorizado na sua descrição.

Conforme escreveu Vicente de Fonseca na epístola, e serve para nós que o lemos 200 anos depois, “aqui tem V. S.ª o rezultado das Acçõis do dia 3 no Quartel General de Artigas, e do dia 4 na margem direita do Arroio Catalan, da qual tenho a felicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas bálas tão poucos palmos distantes do meo Corpo”.

Carta do tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, da Legião de S. Paulo, a Vicente Ferrer da Silva Freire (rio Quaraím, 8 de Janeiro de 1817)

[transcrição com ortografia modernizada retirada do Archivo Artigas, Tomo 33, páginas 14-19]

[...]
Tendo o excelentíssimo senhor marquês de Alegrete chegado ao nosso campo do Ibirapuitã a 15 de Dezembro do passado, e sabendo pelos nossos bombeiros que os insurgentes se reuniam com grande força e que pretendiam ir atacar-nos naquelle lugar, resolveu, que deviamos então encontrá-los, e conseguintemente levantámos  o Campo a 25 dirigindo-nos para o Quaraí. 
Passamos este Arroio no dia 31, e falhámos ao 1.°, e tendo neste dia os nossos bombeiros  agarrado 3 bombeiros do inimigo, soubemos destes, que Artigas tinha o seu quartel general no lugar denominado o Potreiro nas imediações do Arapey, aonde somente existiam 400 e tantos homens, e que tinha feito marchar deste lugar o major general Latorre com perto de quatro mil homens, e duas peças de calibre 4, a este tempo já os nossos espias descobriram bombeiros, e pequenas partidas do inimigo pela nossa retaguarda, mas como julgámos que a força maior estava pela nossa frente, levantamos o campo no dia dois, e avançámos 4 léguas e meia, e acampamos na  margem direita do arroio Catalán. A posição de nosso campo era elevada e própria para poder a artilharia operar por todos os lados tinhamos, o flanco ([esquerdo]) direito apoiado por uma sanga, à frente, e flanco esquerdo por pequenas sangas, e a retaguarda pelo arroio ainda que fraco por ser cortado por várias partes.

Neste mesmo dia fez o senhor marquês marchar a nossa avançada que é comandada pelo tenente coronel de milicias José de Abreu composta de 500 homens (milicianos de Entre Rios, algumas guerrilhas de paisanos, 100 homens de infantaria da Legião de S. Paulo, e 2 peças de calibre 3 comandadas pelo tenente Luz formam os mencionados 500  homens).

Saíram ao pôr do sol com ordem de marchar toda a noite para na madrugada do dia 3 surprenderem a Artigas no mencionado potreiro, mas apesar de terem marchado toda a noite chegaram a esse lugar uma hora depois de amanhecer, e por este motivo foram percebidos pelas guardas avançadas do inimigo, e pode Artigas escapar se precipitadamente deixando a sua carretilha, e até mesmo o seu ponche, escaparam muitas familias, e a maior parte da guarnição, e uma porção que ainda não tinha fugido foram derrotados pelos nossos depois de fazerem uma grande resistência.

Artigas tinha escolhido um lugar para seu quartel general aonde a Cavaleria não podia operar, e por isso somente a artilharia e infantaria de S. Paulo, e poucos de cavalaria a pá decidiram desta acção, (ouvimos os tiros de artilharia, e seriam 8 horas da manhã) a perda do Imimigo consistio em setenta e tantos mortos incluso um ajudante, 6 prisioneiros, ficou em nosso poder a carretilha de Artigas, 1500 mil e quinhentos cavalos, e algumas munições.
A nossa perda consistiu em dois soldados mortos da infantaria de S. Paulo, que foram os primeiros que investiram o mato, e 4 feridos da mesma infantaria sendo 2 gravemente. 

O valente tenente coronel Abreu pretendia perseguir a Artigas, mas sabendo dos prisioneiros, que Latorre tinha avisado a Artigas, que no dia 4 pretendia bater os portugueses, e que nesse mesmo dia estaria com ele vitorioso no potreiro, com esta notícia (apesar de não ter a nossa tropa comido, e nem dormido) picou a marcha o tenente coronel Abreu para reunir-se a nós com a brevidade possível, o que conseguiu no mencionado dia 3 depois de anoitecer; com a chegada do Abreu deram-se as ordens necessárias, e foram, que às três horas da manhã estaria toda a cavalcria montada, e toda a mais tropa debaixo de armas, mas assim não aconteceu por causa das facilidades, estivemos com efeito debaixo de armas às horas determinadas, porém só a cavalaria de S. Paulo estava montada, e Dragões e Milicianos não tinham pegado cavalos. E se não fosse a artilharia, e o valor da nossa tropa, o inimigo teria a conseguido uma completa surpresa.

Eram 4 horas e meia, e naquele momento tinha o nosso clarim acabado de tocar a alvorada, quando um chefe de guerrillas, que guardava uma nossa cavalhada que estava sobre o nosso acampamento no flanco esquerdo, presentiu os charruas avançarem para roubá-la, mandou logo disparar oito tiros, e reuniu-se a nós com a cavalhada que pode, eu estava na bataria do centro que é composta de 4 obúses, conversando com o major Pitta que é o comandante desta divisão de artilharia.

Principiámos logo a ouvir o grande alarido que costumam fazer estes bárbaros, e a descobrir um grande negrume por todas a coxilha que estava pela nossa frente, flanco, esquerdo e retaguarda. A nossa tropa dispos-se imediatamente para entrar em ação, e o inimigo aproximava-se cada vez mais tocando a sua música com grande desafogo.

A este tempo que seriam passados 5 minutos depois que foram percebidos, apareceu logo o senhor marquês na frente da tropa montado a cavalo animando-a com muita coragem, e vendo que o inimigo ja estava pelo nosso flanco esquerdo em distância de fuzil, mandou logo romper o fogo de artilharia, o que se executou prontamente, e tive então o gosto de ver laborar ao mesmo tempo toda a artilharia do meu comando, estava disposta em divisões sendo a do centro comandada pelo major Pitta, e composta de 4 obúses que lancaram granadas que fizeram um efeito terrível, a divisão da esquerda composta de 3 peças de calibre 6 é comandada pelo capitão José Olinto, a da direita composta de 2 peças de calibre 3 pelo tenente António Soares, as duas peças de 3 comandada pelo tenente José Joaquim da Luz estavam postadas num corpo de reserva que guardava a cavalhada, o inimigo respondeu-nos logo com o seu fogo de artilharia, as suas balas passavam muito altas, mas sempre acertaram com uma bala em um reparo de uma peça de 6 que chegou a partir o eixo de ferro. 

A cavalaria inimiga atemorizada pelo nosso fogo amiudado de artilharia e não se animou a avançar, estava formada em 2 linhas em número de mais de dois mil homens, a infantaria inimiga formada na frente da cavalaria em duas fileiras, e com grande intervalo de um a outro soldado desceu a coxilha por baixo do fogo de artilharia, passou uma sanga, e apareceu-nos pela frente em pequena distância de onde nos deu uma descarga cerrada.

A este mesmo tempo os lanceiros charruas carregaram sobre o nosso flanco direito, o senhor marquês correu para este flanco pelo meio das balas, e fez avançar uns cento e cinquenta e tantos dragões que já se achavam montados para rebater os charruas, e imediatamente tocar a degola fazendo avançar a brava infantaria de S. Paulo de baioneta calada, foi quando vi com muita satisfação estes meus valentes patrícios correrem por um terreno cheio de pedras que mais parecia voarem do que correr. Levando por diante uma poeira a infantaria inimiga a bala, e ponta de baioneta fazendo-lhes fogo mesmo à queima roupa.

Nesta mesma ocasião avançou o bravo e incomparável tenente coronel José de Abreu com 300 homens pouco mais ou menos que eram milicianos de Entre Rios, cavalaria de S. Paulo, Dragões, Milicianos, e algumas guerrilhas de paisanos, e com este punhado de homens valentes pôs a cavalaria inimiga em vergonhosa fugida perseguindo-os, e fazendo uma grande mortandade até à distância de 3 léguas, tomando muitos cargueiros de munições, e cinco mil e tantos cavalos.

Enquanto o tenente coronel Abreu perseguia a cavalaria, a infantaria de S. Paulo, e os Milicianos do Rio Pardo, e Porto Alegre a pé por não terem tido tempo de pegar cavalos continuaram um vivo fogo contra uma grande porção da infantaria inimiga que se tinha emboscada em um pequeno mato, fizeram uma resistência terrível, mas nada pode vencer ao valor das nossas tropas, e não tiveram remédio senão depôr as armas uns 239 que ainda viviam, entre estes 6 oficiais um dos quais é sobrinho de Artigas, e também há um inglês.

A força inimiga era composta de 3200 homens, sendo mil e tantos de infantaria, tinham duas peças de artilharia, e mais 400, e tantos homens que guardavam a cavalhada. O comandante em chefe era o major general Latorre, o coronel Mondragon o comandante da cavalaria, e o coronel Berdún comandava a infantaria e artilharia. Dizem varios prisioneiros que Berdún morrera, porém esta notícia ainda não se verificou, e por isso não dou como certa.

A nossa força era composta de dois mil duzentos e tantos homens, e 11 bocas de  fogo, mas em rigor entrariam na acção 1300 a 1400 homens, ficando os mais guardando as cavalhadas, boiadas, e bagagens.

Da relação junta verá V. S. qual foi a nossa perda, uma grande parte dos nossos feridos foram gravemente, e já tem morrido muitos: a perda do inimigo foi considerável, contam-se em pequena distancia 468 mortos inclusos muitos oficiais, e não se contaram os que ficaram estivados por esse campo até a distância de 3 léguas.
Ficaram prisioneiros 239 inclusos 6 oficiais, (dos prisioneiros já tem morridos uma grande parte dos feridos) tem-se apresentado até hoje vinte e tantos, tomámos a sua artilharia que eram duas peças de calibre 4, uma carreta com muitas munições de infantaria e artilharia, muitos cargueiros com munições, 5000 e tantos cavalos, um estandarte, caixas de guerra, instrumentos de música, e muito armamento, pode-se avaliar por um cálculo bem aproximado que a perda do inimigo entre mortos, prisioneiros, e aprezentado excede a mil homens.

O fogo durou até às onze horas e três quartos da manhã. O senhor marquês correu depois por todas as fileiras dando mil agradecimentos a toda a tropa, que assim mesmo fatigada, e muitos lavados em sangue das feridas que tinham recebido gritavam com grande corágem, que estavam prontos para principiar já outro combate, então o senhor marquês dava mil vivas a sua Majestade, que eram mutuamente correspondidos por toda a tropa, e todo se finalizou com uma salva real de 21 tiros de artilharia.  

À tarde o senhor marquês assitiu ao funeral dos nossos oficiais mortos, e foram carregados pelo senhor marquês, senhor tenente general Curado, brigadeiros, estado  maior de S. Excelência, etc.  

Demoramo-nos no campo da ação o dia 4, e 5 ocupados em enterrar os nossos mortos, e curar os feridos, a senhora marquesa tem zelado dos doentes com  muita caridade,  desfiando panos com suas própias mãos para se curarem as  feridas. 

No dia 6 avançámos 3 léguas para baixo do mesmo arroio Catalán para fugir da podridão que já infeccionava o campo, e aqui nos conservamos sem por ora saber de nosso destino sobre a marcha.  

Os nossos bombeiros chegaram hoje, e dizem que a reunião dos dispersos é na Purificação, e consta que Artiguinhas  já passou o Uruguay para este lado em Japejú, e que se reuniu a Artigas com 1500  homens. Eu estou persuadido que os homens se reúnem com grande força e que breve teremos outro divertimento, tão bem estou persuadido que Artigas não nos aparece agora com menos de 5000 homens, o que pode conseguir com a junção de Otorgués, e hão de continuar a aparecer-nos em quanto restar a Artigas um único homem.  

Esqueceu-me referir que o inimigo já nos tinha tomado na nossa retaguarda treze carretas de vivandeiros que vinham com uma marcha de diferença da nossa, e eram o mulato Romualdo, e o José Cabeça, mas todas foram restauradas no dia da acção, e felizmente todos os vivandeiros que eles conservavam prisioneiros, e não tiveram tempo de matar um só.

O meu camarada e amigo major Rosário [António José do Rosário, Inf LTL] caiu morto ao meu lado esquerdo logo das primeiras balas do inimigo, ele certamente nem soube de que morreu, que tão repentina foi a sua morte de uma bala que lhe passou ambas as frontes, logo o mandei carregar para baixo de um carro de munições, e o mandei cobrir com um ponche. 

Os capitães Prestes [José de Paula Prestes, RegDrag], e Corte  Real [Francisco de Borja de Almeida Corte Real, RegDrag], e o secretário de Dragões [Eleutério Severiano dos Santos Pereira]; o valente furriel Moura [Mateus José de Moura] da cavalaria de S. Paulo, e o cadete da mesma cavalaria filho do coronel engenheiro de S. Paulo [Manuel Joaquim Carneiro de Fontoura] morreram todos trespassados de lanças dos charruas, e o ajudante Marçal foi ferido de cutiladas na cabeça. O tenente Joaquim Maria baleado em uma coxa, o capitão Gaspar ferido num pé.  

Entre os prisioneiros acham-se 3 portugueses, um dos quais é da infantaria de S. Paulo desertado em Maldonado na campanha passada. Persuado-me que o senhor marquês os mandará arcabuzar.
Pelo balanço que acabo de dar ao parque vejo, que a artilharia deu cento e quarenta e quatro tiros, que talvez fosse a nossa redenção, pois além do estrago que fez, deu tempo para se pegarem os cavalos que deviam estar pegados antes das 3 horas da manhã. No potreiro  deram-se além destes 13 tiros de artilharia. Distribuiram-se onze mil e tantos cartuchos de espingarda, e sete mil e tantos de clavina. 

Aqui tem vossa Senhoria o resultado das ações do dia 3 no quartel General de Artigas, e do dia 4, na margem direita do Arroio Catalán, da qual tenho a felicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas balas tão poucos palmos distantes do meu corpo, tendo assistido já em uma e já em outra divisão de artilharia que fizeram um vivo fogo sobre a frente, flanco esquerdo, e retaguarda.  

Nada sabemos de combinação com os Talaveiras, sabe-se que Santa Teresa foi retomada por Fructuoso Ribeiro, e Serro Lárgo por Otorgués.

(...)

Campo da Margem direita de Arroio Catalan 8 de Janeiro de 1817
Ignacio Jozé Vicente da Fonseca

terça-feira, 22 de junho de 2021

Fiel, natural e circunstanciada exposição dos acontecimentos da noite de 23 de Junho de 1821 (João Crisóstomo Calado)


Resultado da revolução liberal do ano anterior, 1821 foi um ano de grandes perturbações políticas em todo o império e especialmente no Brasil, que albergou a corte portuguesa até Abril desse ano, após 13 anos de permanência. Ainda que integrado no Exército do Brasil, a Divisão de Voluntários Reais, que ocupava Montevideu (e Colónia do Sacramento) há já 4 anos, era ainda um vasto corpo militar que até o ano anterior estava destacado do Exército de Portugal, com vagas asseguradas no seus respetivos corpos de origem; isso já não acontecia em 1821, apesar das promessas prévias. 

Essa situação incerta, em conjunto com a propagação dos ideais constitucionalistas vindos da metrópole portuguesa, levou a um período de instabilidade e revolta política que afetou fortemente a disciplina e coesão militar da Divisão. 
Com o levantamento de alguns oficiais em 20 de Maio, liderados pelo coronel Claudino Pimentel, que entre outras coisas obrigou o tenente general Carlos Frederico Lecor a jurar previamente a constituição, iniciou-se um período revolucionário, com grande ação dos membros do Conselho Militar e a geral politização de todas as classes. As divisões que resultaram viriam a ter grande influência posteriormente na independência do Brasil, com este processo na recém-criada Província Cisplatina (será declarada formalmente a 31 de Julho de 1821) a assemelhar-se mais a uma guerra civil que propriamente uma independência modelo.

O texto memorialista que transcrevo é um pequeno exemplo das muitas situações que ocorreram neste autêntico período revolucionário em curso e centra-se no levantamento do 2.º Regimento de Infantaria da Divisão na noite de 23 de Junho de 1821. De sua própria volição, o regimento, aquartelado fora da praça de Montevideu, no Seco, um pouco a norte da praia do Buceu, pegou em armas com a inabalável intenção de se dirigir em massa a Montevideu a reclamar direitos.
O texto resulta da versão dos factos pelo coronel João Crisóstomo Calado, comandante do regimento, que tentou controlar a situação, articulando com o capitão general Lecor a melhor forma de resolver a delicada situação. A transcrição foi feita a partir de um manifesto impresso publicado no Rio de Janeiro e que pode ser encontrado no arquivo online Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo aqui.

A ortografia foi modernizada, com pequenas notas explicativas, assim como conversão de medidas antigas portuguesas, nomeadamente a toesa, que converti para o sistema métrico em 1,98 m. A acompanhar o texto, publico ainda uma parte do mapa "Planta dos Subúrbios de Monte-Video", referente a Maio de 1826, desenhado por Adolfo António Frederico de Seweloh e com base em levantamento feito pelo coronel Jacinto Desidério Cony, da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e que pode ser visto aqui. Neste mapa, que pode ser visto em cima, destaquei as localizações que são referidas no texto, para melhor ilustração da geografia.

* * *

Fiel, natural e circunstanciada exposição dos acontecimentos da noite de 23 de Junho de 1821, pela irregular e indiscreta reunião do 2.º Regimento de Infantaria da Divisão de Voluntários Reaes d' El-Rei em seu próprio acantonamento do Seco.

O coronel João Crisóstomo Calado, chefe deste regimento, aliás tão benemérito pelos seus serviços, e a quem ele não deixou um só instante de prestar todo o desvelo, e cuidados, que lhe prescreviam os seus deveres, e amor de seus próprios soldados, sem dúvida estimaria sepultar no silêncio tal acontecimento, sufocando a perene mágoa que lhe assiste, se este, além de ser tão público, não fosse objeto de transcendência quanto à sua honra , e quanto à disciplina do mesmo regimento, só levado a tal excesso por espírito de vertigem imprevisto, fruto das circunstâncias azedadas por quotidianos sofrimentos: eis a razão porque aparece à luz pública a presente exposição, que desfazendo ilusórios boatos, fará brilhar a verdade , mostrará com clara luz o erro, e falta; porém porá em seguro a honra do mesmo coronel, e removendo calúnias, que se possam atribuir ao seu Regimento, ou por ignorância do facto, ou por má tenção, não deixará em menos preço o conceito militar, de que é digno tal corpo.
    Não sendo por tanto o seu fim senão narrar a verdade, se limitará ao acontecimento, sem levantar o véu, que poderia sendo rasgado, descobrir estranhos motivos, e dar margem a dissensões sempre perniciosas, e de que he alheio o seu caráter, e sistema; assim, só apontará as reflexões devidas, e que se achem implícitas na sua exposição, protestando, do modo o mais sagrado, não ser da sua mente querer ofender a pessoa alguma, mas sim só pugnar por si, e pelo seu regimento, como lhe cumpre.

Aconteceu que, pelas sete horas e meia da tarde [1930h] do mesmo dia 23, tratando o referido coronel de diferentes objetos de policia para o seu regimento com o ajudante José Joaquim do Amaral, em virtude de certas participações, e reflexões, fez o coronel chamar o capitão do estado maior, a quem recomendou nova, e expressa exação nas revistas ordenadas no regimento. Pouco depois das oito horas, voltou o mesmo capitão do estado maior, e deu parte que tudo se tinha cumprido, e sem novidade. Após disso se retirou, e havendo-se despedido o ajudante, ficou só o coronel no seu próprio quartel.
    Às nove horas [2100h] pouco mais ou menos, comparece o sargento da 6.ª Companhia Manuel José Lopes, e dá parte que as companhias 3.ª 4.ª 5.ª e 6.ª se achavam armadas, e fora dos quartéis; pouco depois, chega o capitão do estado maior dá a confirmação oficial à mesma parte. O coronel se veste arrebatadamente, e vai apresentar-se ás companhias, alheio inteiramente do que pretendessem por tal desatino; chama os sargentos para avisarem aos senhores oficiais a comparecerem imediatamente; a intimação desta ordem não era precisa em geral, pois já alguns se achavam presentes, clamando pela boa ordem.
    Apenas o coronel é visto, e reconhecido dos soldados, rompem estes gritos: “Meu coronel V[ossa]. S[enhoria]. perdoe, porém nós queremos ir a Montevideu para que se paguem nossos soldos segundo o prometimento, que se nos fez na madrugada do dia 20 de Março: a estas vozes, tendo o coronel respondido que estavam loucos, segundam: “Não estamos, meu coronel, V. S. e os senhores oficiais que queiram, hão de acompanhar-nos: nós não demos parte deste acontecimento a V. S., porque o não queríamos ver em Conselho de Guerra, e a nos todos não nos hão de meter; e os senhores oficiais, assim como nos convidarão na noite de 20 de março, nós os convidamos agora”. Apesar de ser crítico o momento de interpor com firmeza a voz de autoridade, o coronel, fiado na disciplina do seu corpo, e respeito dos soldados, que mostravam amá-lo quer fazer-se obedecer, e dissolver uma reunião, filha do delírio, chama os sargentos, e intima a ordem para que os senhores oficiais sem demora fizessem entrar as companhias no seu dever, e as recolhessem nos quartéis: a 3.ª companhia, dócil à ordem, se encaminha a cumpri-la, porém as outras desgraçadamente se conservam firmes, e não obedecem, Passa então o coronel a tentar os meios da persuasão, e conciliação. Determina aos sargentos que formem as companhias para ele ir falar-lhe a cada uma de por si, o que executa, procurando com razões fazê-los capacitar, que deviam sossegar, obedecer, e entrar nos quartéis, que ele coronel se fazia cargo das suas queixas, e representações, que não era aquela a maneira cordata de as fazerem, anti militar, imprópria, e indigna de tão bons soldados, com todas outras reflexões próprias do assunto: neste momento, de uma das companhias rompem os gritos: “Vamos aos Granadeiros”; de outra: “Meu coronel, V. S. não tem que recear o sucesso, esta deliberação é de toda a Divisão, quando nós chegarmos a Montevideu, teremos as portas abertas, e os nossos camaradas da guarnição á nossa espera, e nós ternos que ir pela artilharia, e cavalaria”. Declarada à geral inteligência, e mostrando-se ser este ato tão premeditado, e serio, reflexiona o coronel que é preciso variar de expediente, sendo inúteis, e infrutíferos os meios já aplicados, e que é forçoso ceder por hum momento à torrente, para depois regular a sua direção; assim grita: “Senhores, iremos onde queiram, porem primeiro quero saber se me obedecem”. Respondem por aclamação: “Sim, senhor, faremos quanto V. S. mandar, porém queremos ir a Montevideu”. Aproveita o coronel esta pausa, e manda ao Ajudante José Joaquim do Amaral que apresentando-se no quartel das duas companhias de Granadeiros que distará 72 Toesas do Seco [c. 143 metros], contivesse a ordem e precaucionasse maior desatino, caso ali já lavrasse o alvoroço; e ordena ao major José António Franco passe rapidamente a Montevideu, e inteire de tudo ao ilustríssimo e excelentíssimo senhor capitão general barão da Laguna [Carlos Frederico Lecor, 1765-1836], o que não tinha antes praticado, por não remeter uma participação de tanto dissabor, em quanto julgava estar ao seu alcance remediar o mal, não sendo tão pouco, a seu ver, acertado que se alvoroçasse Montevideu àquela hora da noite, sem absoluta precisão; pois eram já 11 horas [2300h]; e é certo que o referido major falou a S. excelência às 11 e três quartos [2345h].
    Passa depois o coronel a ponderar aos soldados, que deviam ir em ordem, e levar as bandeiras do regimento: nisto é obedecido de bom grado. Encaminha-se pois ao quartel com duas companhias a executar o que havia proposto, e bem que ali com motivos prolixos e frívolas razões se demorasse meia hora, se conservam era silencio e sossego os soldados. Enfim, dois oficiais tomam as bandeiras, e marchando para a Cidadela se reúnem ali às duas companhias. Postas em formatura, tenta outra vez o coronel persuadir aos soldados quanto era melhor entrarem nos quartéis, e ali esperar que S. excelência o senhor capitão general fosse ouvir as suas representações, que ele como seu Chefe lho prometia, e obrigava a consegui-lo do seu general. Bem entendido o coronel que ainda não era o momento da saudável crise, mas não quis omitir a menor coisa, para descargo do seu dever: assim não lhe foi estranha a resposta do seguinte grito: Não, senhor, queremos ir a Montevideu por nossas pagas”; faz-lhes entender que era impraticável serem pagos daquela maneira, como pensavam, que nem havia dinheiro, nem estava á disposição de S. excelência: resposta: “A Divisão está paga em dia pelo Estado, e o dinheiro deve estar em Montevideu”. E é nesta ocasião que novamente remete outra parte a s. excelência o senhor barão da Laguna pelo ajudante José Joaquim do Amaral rogando-lhe encarecidamente se apressasse a ir encontrar o Regimento: assegurando-lhe ao mesmo tempo que ele Coronel se faria forte a detê-lo em ordem. Outrossim, que sua excelência devia persuadir-se que só a sua presença poderia evitar que o regimento entrasse em Montevideu; onde achando-se de acordo com os outros corpos, poderia promover funestos desacertos, em menos cabo de todo o respeito ás autoridades, em menos preço da honra nacional: que sim sua excelência tomasse na praça as medidas que julgasse a propósito, porém sem demora, ou falência fosse encontrar, e falar ao Regimento. Contudo, podia assegurar a sua excelência que os outros corpos não seriam tocados pelo do seu comando, que este se prestaria respeitoso a receber a pessoa do senhor capitão general; e que finalmente a marcha se fazia pelo caminho do cordão, visto ele a não poder estorvar. Isto era uma hora da noite, e é certo ter o ajudante faltado a sua excelência à uma e meia.
    Tenta depois o coronel mostrar aos soldados o absurdo da sua opinião, e persuasão, porfiam em marchar adiante. Como faltasse a 1.ª companhia, lembra-se este incidente para os fazer demorar; debalde foi, porque respondem: “Já está avisada”. Assim, sem poder evitar, o coronel marcha com as seis companhias para o ponto onde costumava reunir o regimento, quando era mandado vir a Montevideu [1] [Este lugar distará da Cidadella 139 toesas [cerca de 275 metros]. Aí procura entreter o tempo que pode em prolixidades de formaturas, até que se reuniu a l.ª companhia: lembra então que faltam a 2.ª e 8.ª, e que as ia fazer avisar, o que executa pelo capitão da l.ª de Granadeiros Salustiano Severino dos Reis com expressa recomendação para que o major Francisco de Paula Esteves conservando-as formadas o esperasse, fazendo observar toda a possível ordem. Tendo decorrido alguns minutos, se põe o coronel à frente das sete Companhias, e procurando o caminho o mais extenso, se dirige ao quartel da 2.ª e 8.ª companhias, que distará 130 Toesas do lugar aqui citado [c. 257 metros], e com tudo, seria já uma hora e meia, quando se efetuou a incorporação das duas Companhias com o major Esteves, que ali o esperava, conforme a ordem comunicada: a este determina que forme o regimento (*) [Existia este só com nove companhias, porque a 7.ª ainda se achava a bordo da fragata Tétis, tendo só desembarcado duas das 3 que já estavam a bordo para seguirem com o regimento para o Rio de Janeiro.] por ordem de companhias em um largo que fica entre o Campo do Silva; e o Seco (**) [Este sitio distará de Montevideu 2822 toesas. [cerca de 5588 metros] segue pois a marcha em razão dos repetidos clamores dos soldados, que já não era possível rebater: o coronel a efetua por um desfiladeiro, caminho só de escolha para ganhar tempo; e vem colocar o regimento junto do Saladeiro do Pereira, da outra parte do caminho, onde é o quartel de uma companhia do 1.º Regimento de Cavalaria, que felizmente não foi inquietada. Foram tantas as delongas, que só ás duas horas e meia aproximadamente, é que o regimento se formou no citado sítio, que pouco mais ou menos distará 264 toesas do Silva [c. 523 metros].
    Não tinha já o coronel oficial algum, que pudesse dispensar para dirigir a sua excelência o Sr. Barão; e como instava a necessidade, manda o seu próprio criado para pessoalmente vir ter com sua excelência, e instar quisesse apressar-se, pois haviam ultimado os esforços para conter, e demorar a marcha, e resolução do regimento; que ele coronel tinha esgotado todos os recursos para sossegar os Soldados, que ainda ia a tempo de o escutarem com decoro, que a não aproveitar os momentos, era inevitável a entrada em Montevideu o que seria o pior dos males, e a maior desgraça. Chega depois de poucos momentos o ajudante Amaral, tendo já falado com sua excelência em Montevideu, a quem de novo faz marchar na mesma diligencia. Progredia a marcha para os subúrbios da Praça. Porém graças ao delineado estratagema, só às três horas e três quartos [0345h] formou no sitio denominado Tres Cruces, junto á Panadaria de Morales, aquartelamento da artilharia da Divisão, que distará 497 toesas [c. 984 metros] do quartel da 1.ª companhia de cavalaria acima referida, e fica a meio caminho de Montevideu ao Seco.
    Dada a voz de alto, e preenchidas as formalidades usadas, pensa o coronel fazer o último esforço para se opor à aproximação da Praça, que era já o mal eminente. Reverte-se da energia de chefe e lança mão do encanto, que embeleza os corpos filhos da disciplina, quando o chefe é amado e respeitado: “Soldados! Quero e ordeno que aqui se a guarde o senhor capitão general: eu castigarei o primeiro que me desobedeça. A junção com outros corpos não é agradável neste caso um obre como queira, e vós como julga o vosso coronel, que é vosso verdadeiro amigo”. Ficam firmes em coluna, e não replicam. Dá-se ordem para fumarem, e conservarem-se sem rumor, e assim se conservam até depois das quatro horas [0400h] em perfeita docilidade. Era muito para delicadas circunstâncias, e o mais que podia conseguir qualquer Chefe depois dos primeiros sucessos.
    Seriam quatro e um quarto [0415h], quando chega o secretário militar, o coronel Miguel António Flangini. Em razão da névoa e escuro, é equivocado com o senhor barão da Laguna, e o coronel dá a voz de sentido que é obedecida como voz de comando em parada. Conhecida porém dos soldados a equivocação rompem de novo os gritos: “Vamos a Montevideu; sua excelência não vem aqui”. Dá-se a voz de silêncio, e então o coronel Flangini declara aos soldados, que o senhor capitão general tinha já sabido da Praça pelo portão novo, que estava em caminho, e que necessariamente se tinha desencontrado. Esta fala é escutada com respeito, e decoro; porém clamam logo adiante. Toma então o coronel a frente do regimento, e com firmeza, e inteira resolução faz entender que castigaria o primeiro que falasse, e em segunda manda ao capitão da 2.ª companhia, António José de Carvalho, que se adiantasse da coluna a esperar a sua excelência, para o acompanhar, e dirigir ao lugar, onde o Regimento tinha feito alto. Chega finalmente sua excelência o senhor capitão general. Tudo se conserva firme em coluna como estavam, e guardam silêncio.
    Determina sua excelência, que saiam os primeiros sargentos, e 1 soldado por companhia a falar-lhe. Os Soldados trepidam, receiam sair fora da formatura: nenhum quer fazer cabeça na representação. Em virtude disto, o coronel dá a voz, que saiam os soldados da direita das companhias. É obedecido, e vem apresentar-se a sua excelência que lhes faz a interrogação acerca do que querem os seus camaradas: respondem que querem os seus pagamentos. Um dos sargentos se excede em menos preço do respeito devido a sua excelência, referindo com aspereza, e sem comedimento injustiças sofridas em promoções, falta de soldos, e outras queixas, que sendo proferidas de modo indevido, o coronel toma o arbítrio de o mandar calar, o que não tinha praticado imediatamente, em atenção a estar perante o Sr. capitão general, que o escutava, e a quem se dirigia; mas não era lícito tolerar desatinos a infinito sem os estorvar.
    Em circunstâncias tais, julga o coronel dever satisfazer a todo o o corpo, e pede a sua Ex.ª queira entrar na coluna, a fim de que todos os Soldados pudessem ouvir, o que tivesse a dizer-lhes. Manda abrir intervalos, e pôr as armas ao ombro, o que é executado, como se fora em parada regular. Passa sua excelência ao centro da coluna, e pergunta aos Soldados de que se queixavam, e convida-os a que falem. Repetem as queixas de faltas de soldos, e acrescentam que em outras capitanias se havia dado uma gratificação à Tropa, e que nesta pelo contrário, tendo-se-lhe prometido pagar, nem isso tinham obtido. Que tinham muito frio, que estavam sem mantas, e vivendo em um quartel sem tarimbas, e deitados pelos chão muito húmido, o que era mui penoso e prejudicial à saúde, que não podiam resistir ao desarranjo, em que viviam com metade de um pão (*) [Como recebiam um dia pão, e outro farinha, por isso contam meio pão por dia.] por dia, e péssima ração de carne, por ser tão magra, se apegava ás paredes, que os trapos com que se cobriam, e esteiras em que dormiam, as tinham destruído em que consequência de embarcarem para o Rio de Janeiro, como se tinha feito publico por ordem, não se tendo efectuado, por sua Ex.ª o estorvar, apesar de já estarem embarcadas três companhias; que eles estavam prontos a servir em qualquer parte que os mandassem, porém queriam a sua paga.
    Tendo-os sua Ex.ª escutado urbanamente, passa a animá-los, e persuadi-los, que o não terem ido para o Rio, fora em razão de terem chegado novas disposições, e contra ordem para assim o executar, que se lhe havia de pagar, que estivessem contentes, que àqueles, que aqui quisessem continuar o serviço, se lhe dariam hortas aos casados e por fim procura sua excelência fazer-lhes ver, que em alguns pontos das suas queixas havia dificuldades, que ele não podia remover, e que era absurda a desconfiança, em que estavam a seu respeito; que ele contava, como era de esperar, fossem sempre dignos soldados, e que merecessem o agradecimento da nação, como tinham merecido até ao presente. Replicam que queriam ser pagos por letras bem como os oficiais. Segue sua excelência dizendo-lhes, que os oficiais se sujeitavam a um alto rebate, que eles o não podiam sofrer, nem ele general passar letras de pequenas quantias. Estando a romper a alva (**) [Seriam aproximadamente cinco horas e um quarto [0515h].] e havendo já concorrência de povo na estrada, roga o coronel a sua excelência queira retirar-se, ao que anui, e seguindo para a Praça, marcha o coronel, com regimento para o seu acantonamento, acompanhando-o o coronel Flangini, no maior sossego, e na melhor ordem, chega às 6 horas, e recolhem-se as companhias nos seus respetivos quartéis sem a menor novidade.
Á vista deste relatório tão verdadeiro, como exato, seria escusado nada adicionar, mas o coronel julga de justiça ajuntar algumas reflexões, que o mesmo objeto parece apontar. É bem certa, e clara a falta, que este Regimento cometeu, mas que moral, disciplina militar não é preciso haver em seu corpo para retrogradar do seu delirante desacerto, e parar depois dos primeiros passos! É mais fácil conservar sucessiva e pacífica ordem, do que fazer reviver a ordem quebrantada. Lisonjeia ver triunfar o respeito, e a subordinação mesmo a par do erro, e mostrar-se este corpo digno mesmo na sua falta. É nas circunstâncias difíceis que se prova o verdadeiro espírito, e conceito de um corpo. O perigo apura o merecimento; nisto se prova quanto pode a boa educação militar com bons soldados; e é de esperar que este acontecimento não seja mais que ligeira nuvem nos belos dias da sua existência militar.
    Cumpre igualmente não deixar em silencio que o seu coronel tinha já repetidas vezes dirigido representações tocantes aos sofrimentos dos soldados, e bem que algumas não pudessem ter pronta solução, ignora a fatalidade porque outras não foram escutadas em tempo oportuno, como o foram imediatamente depois deste triste facto. Longe da sua ideia querer por tais reflexões disfarçar a gravidade em si de tal procedimento no seu regimento; mas é justo que a verdade apareça e que se pese o bem e o mal. Desta maneira julga ter praticado e satisfeito ao que se tinha proposto. Montevideu, o l.° de Novembro do ano de 1821.

João Crisóstomo Calado

RIO DE JANEIRO NA TYPOGRAPHIA NACIONAL.

***

Pouco menos de um mês depois, o general Carlos Frederico Lecor publica uma ordem do dia em que se refere expressamente aos acontecimentos de 23 de Junho:


Quartel General de Montevideu, 20 de Julho de 1821

Ordem do Dia

O capitão general, comandante em chefe, ao mesmo tempo que desaprova a conduta que mostrou inconsideradamente o 2.º Regimento de Infantaria da Divisão dos Voluntário Reais d'El-Rei, na noite do dia 23 do mês próximo passado, escolhendo o modo menos militar, e mais incompetente, para lhe fazer as suas representações quando, sem ordem, saiu dos seus quartéis e resolveu assim causar-lhe o sentimento mais estranhável, tem a satisfação que é possível no meio de um sucesso tão fatal, considerando que a deliberação dos soldados em pedirem naquela ocasião os seus oficiais, e as suas bandeiras, a atenção ao que se lhes disse, e o sossego e harmonia com que voltaram para o seu acantonamento, parece provar que o seu momentâneo desvio da primeira lei dos exércitos não foi ação voluntária deles, mas sim obra de um alento sedutor que se agitou para os alucinar.

O comandante em chefe quer persuadir-se de que os filhos de um povo constante e generoso, e eles os mesmos que deram às nações admiradas, no abandono das suas casas, dos seus haveres, e de tudo o que mais anima os homens na vida, para cumprirem as ordens do seu governo, o maior exemplo de patriotismo, de obediência, e de resignação, que os anais do mundo apresentaram e que a história cuidadosamente recomendará à posteridade mais remota, para que lá mesmo seja famoso; as tropas que no espaço de seis campanhas combateram na Europa com vantagem, porque o fizeram com honra e subordinação; os soldados a quem a vitória acompanha desde os campos da Roliça, até às margens do Garona, onde a paz desejada mandou fazer alto aos seus brios, aqueles finalmente que na América sustentaram  em quatro campanha o crédito merecido porque foram valentes, humanos e disciplinados, não podiam aventurar-se a um passo que é contrário aos seus deveres, à sua reputação e aos seus interesses, e que seus veneráveis pais, encanecidos na prática da virtude, hão de saber com a dor mais intensa, por ser diametralmente oposto à boa educação que lhes deram, sem que a eles enganosamente os arrastasse mão insidiosa, malévola e estranha, invejosa da glória deles, adversa ao bom nome português e declarada inimiga da felicidade desta província, e dos seus dignos e beneméritos habitantes.

Ainda assim sendo, o proceder do 2.º Regimento, naquele repente vertiginoso, não é escusável, porque mal se parece a debilidade e ligeireza com que os soldados então faltaram à sua obrigação, com a fortaleza e reflexão de quem tantas vezes viu inalteradamente a morte no meios dos combates.

O comandante em chefe, na impossibilidade de que os acontecimentos passados deixem de ter existido, deseja ao menos que o poder eterno apague na memória das gentes a recordação da parte da noite de 23, e lavar, à força de bom comportamento, a nódoa que tanto o afronta, para que não vá escurecer com uma nuvem negra e ominosa os claros e gloriosos dias da pátria, e para que modere, ou inteiramente satisfaça, e desarme a justa indignação, com que ela há de castigar os ultrajes que fazem ao seu decoro e dignidade os que violam o respeito e obediência das leis.

Barão da Laguna


segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Assalto de São Borja (28.9.1816)

A 28 de Setembro de 1816, Andrés Guaçurari y Artigas manda atacar a vila de S. Borja. A vila estava sitiada desde dia 21, mas este terá sido a primeira tentativa de tomar a localidade pela força. Todas as outras seis missões, deficientemente defendidas, foram tomadas, mas S. Borja era a capital e estava bem guarnecida. De acordo com as poucas fontes, nesse dia 10 peças de artilharia com metralha assim como a fuzilaria portuguesa nos muros da horta (Regimento de Infantaria de S. Catarina) foram fundamentais para frustrar a tentativa oriental.

Sítio de São Borja

Quando o sítio teve o seu início a 21 de Setembro, de madrugada, Andresito (Andrés Guaçurari, acima) mandou um ultimatum ao brigadeiro Francisco Chagas dos Santos, comandante militar das Missões. Três dias depois, a 24, o comandante oriental envia um ultimatum ao comandante português para render a praça em três horas. No dia seguinte, a ameaça dos orientais vem renovada com a notícia que apenas S. Borja permanece na mão dos portugueses e apelando ao direito dos povos nativos à unificação de todas as Missões, roubadas, segundo ele, em 1801.

Procederam-se a vários ataques orientais sobre S. Borja durante o sítio, mas limitados, talvez destinados a testar as defesas e encontrar pontos fracos; estes são facilmente rebatidos pela guarnição, bem entrincheirada e com 14 peças de artilharia a apoiar a defesa.

A 26 de setembro, o tenente coronel José de Abreu, que havia impedido Pantaleón Sotelo, a 21 e 22, de passar em Japejú e incorporar-se a Andresito, passa o rio Ibicuí para norte com a sua força. Pelo final do mês já não havia dúvida para Andrés Artigas que os portugueses viriam tentar aliviar o sítio à vila. Tão cedo quanto o dia 23, já Justo Negros, comandante da flotilha oriental no rio Uruguai, havia avisado Andresito do fracasso de Sotelo, que teria a notícia num dia, se tanto.

O Assalto 

Na urgência de tomar S. Borja, e assim ter toda a região, Andrés Artigas ordena um assalto geral que ocorre a 28 de Setembro de 1816. O mesmo falha devido à tenaz resistência portuguesa, nomeadamente a sua artilharia. Andresito terá usado o mesmo dispositivo de 3 de outubro, dias depois, aquando da batalha de S. Borja, destacando metade dos seu milhar e meio de efetivos para o assalto, enquanto a outra metade ficava em reserva, afastada da vila, muito possivelmente na expetativa de um ataque português. Em 3 de Outubro, 700 forças orientais estavam prestes a começar um segundo assalto geral, com 800 um pouco afastadas a oriente, em terreno alto.

A 3 de Outubro, Andresito (ou Artiguinhas, como era conhecido entre os luso-brasileiros) tentará de novo quebrar o sítio, com a pressão de ser flanqueado pelos portugueses que se aproximam  pelo sul, mas é surpreendido pela coluna de José de Abreu que o apanha dividido, mas essa é outra história.


ORDEM DE BATALHA

Guarnição de S. Borja, Exército do Brasil, Capitania do Rio Grande de S. Pedro

Comandante – brigadeiro Francisco das Chagas Santos

c. 200 efetivos

14 peças (de acordo com Moraes Lara). O brigadeiro Chagas dos Santos fala de 10 peças destas carregas de metralha.

Regimento de Infantaria de Santa Catarina - Companhia de Granadeiros, Capitão José Maria da Gama Lobo (uma companhia de granadeiros num regimento português da época seria em estado completo, composta de cerca de 120)

“Alguns dos 200 guaranis que havia” (Chagas do Santos, 9.10.1816)

Será de admitir que metade dos membros da guarnição de S. Borja eram granadeiros de infantaria de S. Catarina e metade milícias guaranis e brancas.

Baixas Portuguesas

5 soldados gravemente feridos e 4 levemente (Moraes Lara, 1817 e 1845).

“2 granadeiros e 2 guaranis queimados, e 2 soldados e 3 guaranis feridos de bala” (Chagas do Santos, 9.10.1816)

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Divisão de Missiones, Liga Federal (com base nas indicações de 3 de Outubro)

Comandante -  Andrés Guaçurari y Artigas

c. 1500-2000 efetivos

Moraes Lara indica o número de orientais para 2000 homens e 2 peças de artilharia. No entanto, José de Abreu indica no seu relatório que encontrou uma força de cerca de 1500 efetivos, no dia 3, dividida em dois grupos, um de 800 e outro de 700.

Sabemos, no entanto, que Pantaleon Sotelo, que não conseguiu passar o Uruguai em Japejúa, a 21, vai por terra e entra por passos mais a norte, juntando as suas forças a Andresito. Se em 3 de Outubro Andresito teria cerca de 1500 homens, em 28 de Setembro teria menos.

Baixas Orientais

De acordo com o brigadeiro Chagas dos Santos, a 9 de Outubro, os orientais teriam sofrido 200 baixas em diversos ataques.

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Extrato da correspondência do brigadeiro Francisco Chagas dos Santos, em carta ao tenente general Joaquim Xavier Curado, a 9 de Outubro de 1816:

“O inimigo foi derrotado por todas as partes [refere-se ainda à batalha no dia 3 de Outubro e dias seguintes]. No sítio perdeu mais ou menos 200 homens, que matámos e ferimos nos diversos choques  e ataques que nos fez, sendo o principal e mais impetuoso no dia 28 do passado [Setembro], em que dez peças nossas, carregadas á metralha, fizeram grande estrago sobre o inimigo, além da nossa fuzilaria, especialmente nos muros da horta, que com o maior empenho procurou assaltar em grande número; mas sendo reforçada opportunamente, se pôz em fuga o inimigo, horrorisado com a nossa resistência, e pelos seus mortos e feridos; não havendo da nossa parte mais que 2 granadeiros e 2 guaranis queimados, e 2 soldados e 3 guaranis feridos de balas.

A nossa guarnição de este povo, composto de 200 portugueses, inclusa a companhia de Granadeiros e alguns dos 200 guaranis que havia, manifestaram muito valor e prontidão em todos os 13 dias de sítio”.


Fontes

- LARA, Diogo Arouche de Moraes, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista Trimensal de História e Geografia, n.º 26, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Julho de 1845, pp. 125-328.

Imagens

Na imagem, a batalha de São Borja, combatida a 3 de Outubro, quando Andresito se preparava para a segunda e última investida contra a vila & Uma planta aproximada de S. Borja circa 1816.

domingo, 9 de agosto de 2020

Civil/Exército do Brasil: D. Margarida de Almeida Portugal (Marquesa de Alegrete)

A senhora Dona MARGARIDA DE ALMEIDA PORTUGAL , 5.ª marquesa de Alegrete, nasceu em Santa Clara, Lisboa, aos 24 de Agosto de 1791, filha dos marqueses do Lavradio, D. António de Almeida Portugal e D. Ana Teles da Silva, tendo sido batizada, no mesmo dia, no oratório do Palácio dos marqueses no campo de Santa Clara. 

Em 1807, como muita da corte, viaja para o Brasil. A 1 de Outubro de 1808, casa-se com o 5.º marquês de Alegrete, D. Luís Teles da Silva, na Sé do Rio de Janeiro. 

Acompanhou o marido quando este foi capitão general do São Paulo, em 1811, e depois, do Rio Grande de S. Pedro, em 1814. 

Tem 25 anos de idade quando acompanha o marido na batalha de Catalán, a 4 de Janeiro de 1817, onde, de acordo com testemunhos presenciais, ajudou os feridos no campo após a ação:


Demorámo-nos no Campo da ação o dia 4 e 5, ocupados em enterrar os nossos mortos, e curar os feridos, a senhora Marquesa tem zelado dos doentes com muita caridade, desfiando panos com suas próprias mãos para se curarem as feridas.”

(Tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, Artilharia da Legião de S. Paulo, em carta a Vicente Ferrer da Silva Freire)

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Um exemplo novo de valor, e de heroísmo serviu para aumentar a celebridade da vitória gloriosa de Catalán: ele foi dado pela marquesa de Alegrete, tão ilustre por suas virtudes como por sangue: a presença do espírito varonil que patenteou no meio dos maiores perigos, e debaixo do fogo inimigo, e com que animava a todos, não foi menos admirável que a prática  incansável de piedade, a que se entregou depois da batalha, em socorro dos feridos , sem distinção de amigos ou inimigos. Ela finalmente se fez  naquele dia  por todos os motivos digna de maior estima, respeito, e admiração do exército.

(Capitão Diogo Arouche de Moraes Lara, Infantaria da Legião de S. Paulo, in: “Campanha de 1816”)

 

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Imagem (topo)

- "Batalha de Catalán", óleo do coronel Pedro Paulo Cantalice Estigarríbia (Hospital Militar de Porto Alegre, RS)