terça-feira, 14 de agosto de 2018

Na Estrada de Montevideu



No final de 1814 foi mandada aprontar uma divisão de voluntários, a ser composta de pouco menos de 5000 militares das três armas, com o objetivo de intervir no sul do Brasil. Este blogue é uma humilde contribuição para o conhecimento da história da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, e depois d'El-Rei, entre 1815 e 1824, assim como das tropas da Capitania do Rio Grande.
A campanha de 1816 foi um esforço conjunto de mais unidades do Exército do Brasil e de Portugal num teatro de operações que ia desde a costa atlântica à costa do rio Uruguai, com quatro colunas distintas.
Apesar de adotar uma perspetiva portuguesa do conflito, este blogue procura também a perspetiva oriental a fim de traçar a mais fiel possível descrição dos acontecimentos desta guerra.


AS BATALHAS
As ações, sítios e batalhas da campanha, com ligação aos artigos disponíveis sobre elas, com ênfase forte nos memorialistas.
AS BIOGRAFIAS
Em constante atualização, aqui pode encontrar ligações à biografia de alguns dos militares, portugueses e federais.
OS MOMENTOS
Os artigos sobre momentos que não envolvem combate.
OS VOLUNTÁRIOS
Listas e caracterização dos militares da Divisão dos Voluntários Reais.
AS TÁTICAS
Os artigos predominantemente da análise tática militar.




Editor: Jorge Quinta-Nova [mail]
Historiador Militar e Local, baseado em Queluz, com especial interesse no Exército Português dos finais do Antigo Regime (1790-1830) e com um forte centro gravitacional no trabalho biográfico em torno do Marechal Lecor e dos seus irmãos. 
Formado em Línguas, a linguagem dos relatórios e outros documentos, mesmo familiares é também um fator determinante no gosto pela área. Também trabalha a área da Falerística, ou da disciplina que estuda as ordens, condecorações e medalhas, assim como distintivos ou emblemas de honra, tentando contribuir há alguns anos para a divulgação das condecorações e ordens militares portuguesas, assim como particularmente para a tipificação dos modelos e cunhos da Medalha Militar (1863-1911) monárquica.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Memórias: TenCor Vicente da Fonseca (Catalán, 1817)


N°  808  [Ignacio  José  Vicente  da  Fonseca  a  Vicente  Ferrer  da  Silva Freire.  Informa  detalladamente  sobre  los  movimientos  de  las  fuerzas portuguesas contra las de Artigas. Se refiere a la acción del 29 de octubre pasado en las inmediaciones de Santa Ana, y en particular a las de los días 3 y 4 de enero.]

[Arroyo del Catalán, 8 de enero de 1817.]

(...)

[15/12] Tendo o Ex.º Sñr. Marquéz de Alegrete chegado ao nosso campo do IBYRAPUITAN a 15 DE DEZEMBRO do passado, e sabindo pelos nossos Bombeiros que os Insurgentes se reunião com grande força e que ([....]) pertendião hir atacar-nos naquelle lugar,  

[25/12] / rezolveo, que devia-mos ([emtao]) encontrá-los, e consiguintem." levanta-mos  o Campo a 25 derigindo-nos p.a o Coraim - QUARAÍ;  

[31/12] / passamos este Arroio no dia 31,  

[1/1] / e falhá-mos ao 1.°, e tendo neste dia os nossos Bombeiros  agarrado 3 Bombeiros do Inimigo, soubé-mos destes, que Artigas tinha o seo Quartel General no Lugár denominado o Potreiro nas Imediaçoes do ARAPEY, aonde somente existião 400, e tantos homens, e que tinha feito marchar ([daqui]) deste lugar o Major General Latorre com pérto de quatro mil homens, e duas Pesas de Calibre 4, a este tempo já os nossos Espias descobriram Bombeiros, e pequenas partidas do Inimigo pela nossa retaguarda, mas como julga-mos que a força maior estava pela nossa frente,

[2/1] levantamos o Campo no dia dois, e avançámos 4 legoas e meia, e acampamos na  Margem direita do Arroio Catalan; a pozição de nosso Campo era elevada e propria p.a poder a Art.' operar p.r todos os lados tinhamos, o Flanco ([esquerdo]) direito apoiádo por huma Sanga, a frente, e flanco esquerdo por pequenas sangas, e a retaguarda pelo Arroio ainda que fráco por ser cortádo por varias partes;  

/ neste mesmo dia féz o Sñr, Marquez marchar a nossa avançada q.e hé Comandada pelo Ten. Coronél de Milicias Jozé de Abreu compósta de 500 homens (Milicianos deEntreRios, alguás Guerrilhas de Paizanos, 100 homens de Infant.° da Leg. de S. Paulo, e 2 Pesas de Calibre 3 Comandadas pelo Ten. Luz formão os mencionados 500  homens); sahiram ao pór do sól com ordem de marchar toda a noite p.' na madrugada do dia 3 ([nosa]) surprenderem a Artigas no mencionado Potreiro,  

[3/1] / mas apezár de terem marchado toda a noite CHEGARAM A ESE LUGAR HÚA HORA DEPOIS DE AMANHECÉR, e por este motivo foram percebidos pelas Guardas avançadas do Inimigo, e poude Artigas escapar se precipitadam.'° deixando a sua Carretilha, e até mesmo o seo Ponxe, escapáram muitas familias, e a maior parte da Guarnição, e húa porção que ainda não tinha fugido foram derrotados pelos nossos depois de fazerem huá granderezistencia; Artigas tinha escolhido hum lugar p.' seo Quartel Generál aonde a Cavaleria não podía Operár, e por isso somente a Art.' e Infant.° de S. Paulo, e poucos de Cavaleria ape decidiram desta Acção, (ouvi-mos os tiros de Art.°, e serião 8 HORAS DA MANHAÑ;) a perda do Imimigo consistio em setenta e tantos mortos incluzo hum Ajud.`, 6 Prizioneiros, ficou em nosso podér a Carretilha de Artigas, 1500 mil e quinhentos Cavalos, e alguás muniçoes; a nossa perda consistio em dois Soldados mortos da  Infant." de S. Paulo, que foram os primeiros q. investiram fi matto, e 4 feridos da mesma Infant.' sendo 2 gravemente. 

O Valente Ten. Cor. Abreu pertendia perseguir a Artigas, mas sabendo dos Prizioneiros, que Latorre tinha avizado a Artigas, que no día 4 pertendia bater os Portuguezes, e que nesse mesmo día estarla com elle Victoriozo no Potreiro, com esta noticia (apezar de não tér a nossa Tropa comido, e nem dormido) picou a márcha o Ten. Cor. Abreu p.' reunir se a nós com a brevidade possivel, o que consiguio no mencionado día 3 DEPOIS DE ANOITECÉR; com a chegada do Abreu deram(se) as Ordens necessarias, e foram,  

[4/1 – 0300H] / q.' as TREZ HORAS DE MANHAÃ estaria toda a Cavaleria montada, e toda a máis Trópa debaixo de Armas, mas assim não aconteceu por cauza das facilidades, estivémos com efeito debaixo d'Armas ás horas determinadas,  porem só a Cavaleria de S. Paulo estáva montada, e Dragoens, e Milicianos não tinham pegado Cavallos; e se não fosse a Art.ª, e o valor da nossa Tropa, o Inimigo teria a conseguido huma Completa Surpresa:  

[4/1 – 0430H] / eram 4 HORAS E MEIA, e naquelle momento tinha o nosso clarim acabado de tocar a Alvorada, quando hum chefe de Guerrillas, que guardava huma nossa Cavalhada, que estava sobre o nosso Campamento no flanco esquerdo, persentio os charruas avancarem p.° roubála, mandou logo disparar oito tiros, e reunio-se a nós com a Cavalhada que poude, eu estava na Bataria do centro que hé composta de 4 Obuzes, conversando com o major Pitta q.' he o Comand desta Devizão de Art.' principiamos logo a ouvir o grande alarido que costumam fazer estes barbaros, e a descobrir hum grande negrúme por todas a Coxilha que estáva pela nossa frente, flanco, esquerdó, é retaguarda, a nossa Tropa dispoz-se imediatámente p.'. entrar em Acção, e o Inimigo aproximava-se cada vez mais tocando a sua Muzica com grande dezafogo,

[4/1 – c. 0435H] / a este tempo q.' serião PASSADOS 5 MINUTOS DEPOIS QUE FORAM PERCIBIDOS, aparecéo logo o Sñr. Marquéz na frente da Tropa montado a Cavalo animando-a com muita Corágem, e vendo q.e o Inimigo ja estava pelo nosso flanco esquerdo em distancia de fuzil, mandou logo romper o fogo de Art.a, o que se executou promtamente,  


[Artilharias] / e tive então o gosto de ver laborar ao mesmo tempo toda a Art.a do meo Comando, estava disposta em divizoens sendo a do centro comandada pelo Major Pitta, e composta de 4 Obuzes que lancaram Granadas q.e fizeram hum efeito terrivel, a divizão da esquerda composta de 3 Pesas de Calibre 6 he comandada pelo Cap.m Jozé Olinto, a da direita composta de 2 Pesas de Calibre 3 pelo Ten. Antonio Soares, as duas Pésas de 3 comandada pelo Ten. Jozé Joaquim da Luz estávam póstadas em hum Corpo de REZERVA que guardáva a Cavalhada, o Inimigo respondeu-nos logo com o seo fogo de Art.a, as suas balas passavam muito altas, mas sempre asertaram com huá bala em hum repáro de huá Pesa' de 6 que chegou apartir o eixo de ferro,  

/ a Cavaleria inimiga atemorizáda pelo nosso fogo amiudado de Art a não se animou a avançar, estáva formada em 2 linhas em numero de mais de dois mil homens, a Infant.ª inimiga formada na frente da Cavaleria em duas fileiras, ecom grande intervallo de hum a outro Soldado desceu a([Coxilha]) coxilha por baixo do fogo de Art.ª, passou huma Sanga, e apareceu-nos pela frente em pequena distancia de onde nos déo huma descárga cerrada,

/ a este mesmo tempo os Lanceiros Charruas carregaram sobre o nosso flanco direito, o Sñr. Marquéz correo p.a este flanco pelo meio das balas, e féz avançár huns cento e cincoenta e tantos Dragoens q.e ja se achavam montados p.a rebater os Charruas, e mandou imediátamente ([mandou]) tocár a dególa fazendo avançar a brava Infant.° de S. Paulo de Baioneta Calada, foi quando vi com muita satisfação estes meos valentes patricios correrem por hum Terreno cheio de pedras que mais parecia voarem do que correr; levando por diante huma poeira a Infant.a Inimiga a bála, e ponta de Baioneta fazendo-lhes fogo mesmo a queima roupa;  

/ NESTA MESMA OCCAZIÃO avançou o brávo, e incomparavel Ten. Coronél Jozé de Abreu com 300 homens pouco mais ou menos q. eram Milicianos de entre Rios, Cavaleria de S. Paulo, Dragoens, Milicianos, e alguas Guerrilhas de Paizanos, e com este punhado de homens Valentes por a Cavaleria Inimiga en vergonhosa fugida perseguindo-os, e fazendo húa grande mortandáde até a distancia de 3 legoas, tomando muitos Cargueiros de munições, e cinco mil e tantos Cavalos:  

/ em quanto o Ten. Cor. Abreu perseguia a Cavaleria, a infant.a de S. Paulo, e os Milicianos do Rio Pardo, e Porto Alegre a pé por não terem tido tempo de pegar Cavalos continuáram hum vivo fogo contra hua grande porção da Infant.' Inimiga q.' se tinha emboscada em hum pequeno matto, fizéram hua resistencia terrivel, mas nada poude vencér ao valor das nossas Tropas, e não tivéram remedio senão depór as Armas huns 239 que ainda vivião, entre estes 6 Officiaes hum dos quais hé Sobrinho de Artigas, e taõbem há hum Inglez.  

/ A força Inimiga era composta de 3200 homens, sendo mil e tantos de Infanta, tinham duas Pésas d'Art.', e mais 400, e tantos homens q.' guardavam a Cavalhada; o Comandante em chéfe éra o Major General Latorre, o Coronel Mondragon o  Comand.' da Cavaleria, e o Coronel Verdum Comandava a Infant.", e Art.° (dizem varios Prizioneiros que Verdum morrera , porem esta noticia ainda não se verificou, e por isso não dou como certa).

/ A nossa forçaera composta de dois mil duzentos e tantos homens, e 11 bocas de  fogo, mas em rigor entrarião na acção 1300, á 1400 homens, ficando os mais guardando as Cavalhadas, Boiadas, e Bagagens: 

/ da relação junta verá V.S. qual foi a nossa perda, hua grande parte dos nossos feridos foram gravemente. e já tem morrido muitos: a pérda do inimigo foi concideravel, contam-se em pequena distancia 468 mortos incluzos muitos Officiaes, e não se contáram os que ficaram estivados por esse Campo até a distancia de 3 legoas; ficaram Prizioneiros 239 incluzos 6 Officiaes, (dos Prizioneiros já tem morridos hua grande parte dos feridos) tem-se aprezentado até hoje vinte e tantos, tomámos a sua Art.^ que erão duas Pésas de Calibre 4, huá Carreta com muitas munições de Infant.", e Art.a, muitos cargueiros com munições, 5000 e tantos Caválos, hum Estandarte, caixas de Guerra, Instrumentos de Muzica, e muito Armamento, póde-se avaliar por hum Calculo bem aproximado que a perda do inimigo entre mortos, Prizioneiros, e aprezentádo excéde a mil homens:  

[4/1 – 1145H] / o fogo durou até as ([  ...]) onze hóras e tres quartos da manhaã. O Sñr. Marquéz corréo depois por todas as fileiras dando mil agradecimentos a toda a Trópa, que assim mesmo fatigada, e muitos lavádos em Sangue das feridas que tinham recebido gritávam com grande corágem, que estávam prontos para principiar já outro Combate, então o Sñr. Marquéz dava mil vivas a Sua Magestade, que eram mutuamente correspondidos por toda a Tropa, e todo se finalizou com huá Salva Real de 21 tiros de Art.'  

[4/1 – TARDE] / A tarde o Sñr. Marquéz assitio ao Funeral dos nossos Officiaes mortos, e foram Carregados pelo Sñr. Marquéz, Sñr. Ten. General Curado, Brigadeiros, Estado  maior de S. Ex.' &. &.  



[4-5/1] / Demorámonos no Campo da Acção o dia 4, e 5 occupados em enterrar os nossos mortos, e Curár os feridos, a Snr.a Marqueza ten zelado dos doentes com  muita Caridáde,  desfiando panos com Suaspropias maós p.a se curarem as  feridas:  

[6/1] / no dia 6 avançamos 3 legoas p.^ baixo do mesmo Arroio Catalam p.a fugir da podridão q.'  já inficionáva o Campo, e aqui nos conservamos sem por ora saber de nosso destino sobre a márcha:  

[8/1] / os nossos Bombeiros chégaram hoje, e dizem que a reunião dos dispersos hé na Purificação, e consta que Artiguinh  já passou o Vruguay p.' este lado em Yapejú, e que se reunio a Artigas com 1500  homens; eu estou persuadido q.' os homens se reunen com grande força e que bréve teremos outro divertimento, tão bem estou persuadido q.' Artigas não nos aparéce agora com menos de 5000 homens, o que póde conseguir com a junção de Outorguez, e háó de continuar a aparecer-nos em quanto restar a Artigas hum unico homen.  

/ Esqueceo-me referir que o Inimigo ja nos tinha tomado na nossa retaguarda treze Carretas de Vivandeiros que vinham com huá marcha de differença da nossa, e eram o Mulato Romúaldo, e o Jozé Cabeça, mas todas foram restauradas no dia da acção, e felizmente todos os Vivandeiros q.' elles conservávam Prizioneiros, e não tivéram tempo de mattár hum só.

/ O meo Camarada, ([.......]) e amigo Majór Rozário [António José do Rosário, Inf LTL] cahio morto, ao meo ládo esquerdo logo das primeiras balas do Inimigo, elle cértam.'e nem soube de que morreo, que tão repentina foi a sua morte de huma bála que lhe passou ambas as frontes, logo o mandei Carregar p.a baixo de hum Carro de moniçois, e o mandei cobrir com hum ponxe, 

/ os Capitaens Prestes [José de Paula Prestes, RegDrag], e Córte  Real [Francisco de Borja de Almeida Corte Real, RegDrag], e o Secretario de Dragones [Eleutério Severiano dos Santos Pereira]; o Valente Furriel Moira da Cavalleria de S. Paulo, e o Cadete da mesma Cavaleria filho do Coronél Engenheiro de S. Paulo [Manuel Joaquim Carneiro de Fontoura] morreram todos traspasados de lanças dos Charrúas, e o Ajud.° Marçal foi ferido de cutiládas na cabeça. o Ten. Joaquim Maria baleado em huá coxa, o Cap.m Gaspár ferido em hum pé.  

/ Entre os Prizioneiros achaó-se 3 Portuguezes, hum dos quaes hé da infant.' de S, Paulo dezertado em Maldonado na campanha passada persuado-me q.' o Sñr. Marquéz os mandará arcabuzár: pelo balanço que acabo de dár ao Parque vejo, que a Art.' deo cento e quarenta e quatro tiros, que talvéz fosse a nossa redenção, pois alem do estrágo q.' fez, deo ([alg]) tempo p.' se pegrem os Caválos q.' devião estár pegados antes das 3 horas da manhaá.....  (No  Potreiro  deram-se alem destes 13 tiros de Art.°)  

/ Destribuiram-se onze mil e tantos cartuxos de Espingarda, e sete mil e tantos de Clavina. Aqui tem V. S.' o rezultado das Acçois do dia 3 no Quartel General de Artigas, e do dia 4 ([  ...]) na margem direita do Arroio Catalan, da qual tenho afelicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas bálas tão poucos palmos distantes do meo Corpo, tendo assistido já em huá e já em outra Devizão de Artilheria q.' fizéram hum vivo fogo sobre afrente, flanco esquerdo, e retaguarda:  

/nada sabemos de combinação com os Talaveiras, sabe-se q.e S. Tereza foi retomada por Fructuoso Ribeiro, e Serro Lárgo por Outorguéz.

(...)

Campo da Margem direita de Arroio Catalan 8 de Janeiro de 1817
Ignacio Jozé Vicente da Fonseca

Archivo Artigas, volume 33: pp.14-19

domingo, 5 de agosto de 2018

India Muerta (Gustavo Barroso, 1930)

 

“... Artigas, na fronteira, de onde dirigia as suas ordens, e onde recebia tais recursos, projetava, além da resistência à divisão do general Lecor, pelas fronteiras de Serro Largo e Santa Teresa, também uma diversão com suas maiores forças ... “(Diogo Arouche – Memoria da campanha de 1816).

NOVEMBRO de 1816. O exercito brasileiro de Lecor invade o Uruguai pelas fronteiras de Santa Teresa e Serro Largo. “Invasão rápida e pujante”. Artigas, ditador da Banda Oriental, pretende tolher-lhe o passo no caminho de Montevidéo.
Vanguardeava o grosso dos invasores o general Sebastião Pinto com pouco mais de mil homens das tres armas e um obús. Eram 722 granadeiros, caçadores e artilheiros da divisão de Voluntários Reais e 106 milicianos gauchos de cavalaria.

* * *

Fructuoso Rivera, à frente de 1700 uruguaios a cavalo e a pé, com uma peça, obedecendo aos designios do ditador, espera a vanguarda brasileira entre o Puerto de la Paloma e o Passo e Coronilla, à margem do arroio India Muerta. 

Ao avista-lo, no dia 14 de pela manhã, Sebastião Pinto desenvolve a sua linha de batalha: granadeiros, caçadores e o obuseiro ao centro; os dois pequenos esquadrões de Manoel Marques de Sousa e João Vieira Tovar nas alas. Os nossos atiradores abrigam-se por trás das touceiras de pita, cujos penachos ondêam ao vento, e começam a hostilizar o inimigo. No alto da coxilha forma a cavalaria de Rivera e carrega como uma tromba. As guerrilhas incorporam-se ao grosso. Os infantes, em quadrado, recebem na ponta das baionetas os orientais. Alvoroço. Gritaria. Tiros. Alguns cavaleiros trazem à garupa voltigeiros armados de pistola e sabre, que pulam dentro do quadrado e logo são esfuracados a arma branca. Rivera em pessoa, agitando o rebenque no ar, comanda seus centauros que revolutêam, coroados de lanças, de laços e boleadeiras ameaçadoras.

A formidavel infantaria resiste ao ariete. Os esquadrões das alas acometem furiosamente os contrarios, para alivia-las.

Recua a cavalaria oriental no preparo de nova carga. Porém abre com esse movimento à frente do quadrado o campo de tiro. Granadeiros e caçadores fuzilam-na. O obús consegue falar e uma granada rebenta no meio dos cavaleiros, desmoralizando-lhes a formatura e causando muitas baixas. Um tiro de mestre! Vagam cavalos à solta pelo pampa, as selas ensanguentadas. De novo as linhas de atiradores se estendeme os homens, emboscados nas piteiras, caçam o inimigo.
A infantaria de Lasalle vem a marche-marche afim de sustentar a cavalaria batida. Jeronimo Pereira de Vasconcelos, irmão do grande Bernardo de Vasconcelos, manda rufar os tambores e leva seus caçadores a baioneta contra ela. Trava-se terrivel corpo a corpo. Os infantes engalfinham-se a arma branca. Distante, o canhão oriental é inutil, porque a confusão dos lutadores não lhe permite atirar. O nosso também está calado.  Os milicianos enovelam-se aos cavalarianos de Rivera. Na luta, Tovar perde um braço, cortado à espada, Marques de Sousa recebe um talho na cabeça. Então, avançam cerrados, solidos, com seus sargentos de chilfarotes e piques em punho, os granadeiros de Moura Lacerda.

- A baioneta! Grita-lhes estentoreamente o comandante. E eles varrem, literalmente os infantes uruguaios. É o tempo que a nossa cavalaria reflúe, deixando livre a frente de batalha, onde se reformam os esquadrões de Rivera.
- Granadeiros, fogo!
- Caçadores, fogo!

As duas descargas ceifam a gauchada oriental. Pronuncia-se a derrota, depois de mais de quatro horas de peleja. Os restos da infantaria inimiga, dispersos, são aprisionados. A única peça de Rivera e todas as suas bagagens caem em nosso poder. O vanguardeiro destroçado de Artigas escapa a casco de cavalo e chega ao acampamento do seu chefe à teste unicamente de cem homens, miseraveis remanescentes de mil e setecentos que levara...

* * *

Sebastião Pinto, vitorioso, à margem da India Muerta. A soldadesca arma tendas e ranchos. Ao cair da noite acendem-se as fogueiras. E, à sua luz e calor, os violeiros descantam as saudades das querencias e dos pagos.

De repente, um deles dedilha o pinho e solta estes primeiros versos duma copia uruguais popular sobre o ditador:

Viva o general Artigas,
Su tropa bien arreglada...

Um silencio. E o soldado brasileiro repete:

Viva o general Artigas,
Su tropa bien arreglada...

Aí sonora gargalhada sacode todo o acampamento.

Fonte
BARROSO, Gustavo, A Guerra de Artigas, s/l, Ed. Getulio M. Costa, [1930]

terça-feira, 29 de maio de 2018

Embarque da Divisão na Praia Grande (29 de Maio de 1816)


Jean Baptiste Debret., "Embarque, na Praia Grande, de tropas destinadas ao bloqueio de Montevidéu.", Óleo sobre papel colado na madeira. Assinado. 1826. 0, 640 x 0, 420 m. (Museu Imperial de Petrópolis).

Este óleo terá sido feito com base na mais conhecida gravura [em baixo] de Jean Baptiste Debret, publicada em França na década de 1820, em baixo, retratando o dia 29 de Maio de 1816, em que a Divisão de Voluntários Reais embarcou nos transportes que a 12 de Junho partiriam para a ilha de Santa Catarina. O interessante neste óleo relativamente pouco conhecido é que retrata mais do que a gravura, assim como apresenta grandes diferenças no uniforme dos soldados portugueses.


Para lá da gazeta oficial, também Claudino Pimentel nos elucida acerca do que acontecia na Corte nesta altura. Um conselho de guerra naval no Rio decidia aonde desembarcar as tropas, se em S. Catarina, com as tropas a marchar daí em diante por terra (como aconteceu), se dentro do Rio da Prata, em Maldonado, mais próximo de Montevideu. Ferreira Lobo decidiu-se pela primeira opção, contra a opinião de todos os almirante ouvidos. A principal ameaça era os pamperos meridionais, tão devastadores quanto imprevisíveis.

A gravura, domínio pericial de Debret, apresenta uma melhor qualidade e pormenor, mas o óleo, cuja autoria lhe é dada, é bastante diferente.


O óleo que apresento ao topo deste artigo apresenta mais cenas, nomeadamente a particular cena dos soldados já embarcados numa barcaça de transporte e a caminho dos seus navios que das águas da Guanabara saúdam el-Rei. Esta não aparece de todo nas gravura que Debret publicou, senão apenas o mestre da barcaça.



Também o pelotão que avança de costas, o seu tenente usando uma fita negra no braço esquerdo em luto por D. Maria, perfilando-se perante o rei D. João VI, usa vermelho na gola e canhões num, e amarelo no outro. Amarelos seriam o 3.º Batalhão de Caçadores, apenas recentemente passado a ser o 1.º Regimento de Infantaria, com mais duas companhias do 1.º Batalhão. Vermelho não há, porém, indicação de ter sido usado pelas quatro unidades de infantaria.





Note-se as diferenças entre a gravura e o óleo. As figuras por trás da família real são totalmente diferentes em cada uma das peças.

***

Parece-me pertinente comparar com o óleo que retrata a parada e desfile da divisão no campo de D. Helena, 2 semanas antes, a 13 de Maio:


Mais informações acerca deste último óleo, que está na Pinacoteca de S. Paulo, no blogue Em Busca de Lecor AQUI.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Tomada de Colónia do Sacramento (Maio de 1818)


No início de Maio de 1818, e após quase um ano e meio após a tomada de Montevideu, vários habitantes de origem portuguesa de Colónia, liderados por Salvador Antunes Maciel, levantam-se contra a autoridade oriental e hasteam a bandeira portuguesa, aproveitando o apoio dado pelo chefe de divisão [hoje em dia, comodoro] António Manuel de Noronha (1772-1860) que estava ancorado diante da povoação, com três corvetas e mais alguns barcos armados.

Após os revoltosos aprisionarem o comandante de Colónia e a pequeníssima guarnição, o capitão de fragata Diogo Jorge de Brito desembarcou com artilharia, e montou as suas peças num reduto que foi construído. Hernani Donato, no Dicionário de Batalhas Brasileiras, apresenta o dia 2 de Maio, como o dia da rebelião.

Colónia do Sacramento
No início de 1815, o sargento mor João Vieira de Carvalho, do estado maior da Capitania do Rio Grande, referia que Colónia tinha “as suas fortificações [...] em terra, e apenas existem uns miseráveis restos de povoação que mal podem servir para acantonamento de tropas”. Isso explica o atraso na tomada de Colónia, que se observa assim ter acontecido devido a um conjunto acidental de eventos. 
No entanto, Vieira de Carvalho refere-se também à sua localização, mesmo em frente a Buenos Aires, e após Montevideu e Maldonado, sem dúvida o terceiro porto atlântico da Banda Oriental.

Alívio de Montevideu
Nos primeiros dias de maio, o tenente general Lecor, agora Barão da Laguna, envia uma força portuguesa, comandada pelo nosso conhecido Sebastião Pinto de Araújo Correia, para ocupar definitivamente Colónia, onde fica até à retirada final das tropas, então brasileiras, em finais de 1828.
Esta força, comandada como já vimos pelo general Pinto, era composta de quatro companhias d0 1.º Batalhão de Caçadores e variada cavalaria da capitania do Rio Grande, assim como uma bataria montada que não consigo identificar se é da Divisão, se do Esquadrão de Artilharia Montada, do Rio de Janeiro, que atuou na Coluna Silveira, em finais de 1816, e esteve em Montevideu a 20 de Janeiro de 1817.  

A 5 de Maio, Lecor envia também uma proclamação aos habitantes de Colónia, anunciando o envio do governador intendente Sebastião Pinto de Araújo Correia e prometendo ouvir as suas petições, aliviar as suas necessidades e assegurar os seus direitos.

A expedição portuguesa de alívio à pressão oriental que ainda se fazia sentir, composta de cerca de 600 homens, chega a Colónia a 11 de Maio mas só a 13  desembarca toda a expedição.
De acordo com Hernani Donato, um dia antes, a 12 de Maio, as forças de cavalaria miliciana formadas por Salvador Antunes e as praças de artilharia do capitão de Fragata Diogo José de Brito repelem um ataque de forças orientais sob o comando do comandante oriental Francisco Encarnacion Benítez.


Memorialismo
O nosso conhecido memorialista João da Cunha Lobo Barreto, com 23 anos e integrado nesta força para ocupar Colónia, era ainda em 1818 tenente do 1.º Batalhão de Caçadores, na 1.ª Brigada de Voluntários Reais. O seu testemunho relativamente aos eventos que ocorreram em Colónia do Sacramento é muito relevante pois ele serviu na cidade de 1818 até pelo menos 1821, quando se vê apanhado como representante da sua unidade no Conselho Militar, em oposição a Claudino Pimentel. Assistiu, pois, em primeira mão ao que aqui tentamos relembrar.  Lobo Barreto escreveu estas memórias muito possivelmente na década de 1850, 32 anos após os eventos.

Das memórias de João da Cunha Lobo Barreto (páginas 17-18):

Neste estado se achavão as nossas manobras na campanha de Montevidéo, quando um acontecimento veio dar lugar a novas operações no já proximo inverno.
Emquanto uma Esquadrilha tinha subido pelo Rio da Prata, entrando pelo Uruguay para abrir communicação com a Columna do General Curado, que alcançando repetidas victorias se dirigia ao Rincão das Galinhas.

O Chefe da Divisão Noronha [António Manuel de Noronha (1772-1860), futuro visconde de Santa Cruz], com tres corvetas e mais alguns barcos de guerra, deitou ancora no porto de Colonia do Sacramento, e buscou abrir communicação com a terra; sua prudencia e affabilidade lhe grangearão a affeição da maior parte dos habitantes deste Povo; o que constando ao sanguinario caudilho Encarnação [Francisco Encarnacion Benítez, comandante oriental], preparou-se este para castigar semelhante rebeldia: então o Brasileiro Vasco Antunes Maciel, (11) um dos mais comprometidos, convocando varios socios prenderão o commandante, e poucos soldados, ali destacados, e arvorando o Estandarte Portuguez, avizou á aquelle desta revolução, que fez, pedindo-lhe soccorro; e o // dito Chefe de Divisão, já antes prevenido, concedeo, mandando-lhe algum armamento, e fazendo desembarcar o Capitão de Fragata Diogo Jorge de Brito com alguns praças de artilharia.

Este fez construir logo um pequeno reducto em que montou alguns canhões; e Vasco Antunes organizou de todos os habitantes de sua confiança uma Companhia de Guerrilhas a cavallo, para guarda da Povoação, e seos suburbios.

Mal que o General em Chefe teve nos 1.ºs dias de Maio aviso desta occurencia, fez immediatamente embarcar para a dita praça ao General pinto com quatro companhias do 1.º Batalhão de Caçadores, commandadas pelo Coronel Manoel Jorge Rodrigues, uma Bateria de artilharia montada; algumas Milicias de São Paulo, um Esquadrão de Voluntarios do Rio Grande, commandando pelo Major Gaspar Pinto Bandeira, e as Guerrilhas do Coronel Alvim: comtudo por mais presteza com que se verificou o mesmo embarque, em razão de ventos contrarios, só começarão a saltar em terra estas tropas á 11 do dito mez, e á 13 é que chegou toda a expedição. 

O General logo organizou um Cabildo, nomeou Administrador da Alfandega, e os Officiaes dentre os mesmo habitantes para um Regimento de Milicias, promoveo Vasco Antunes á Coronel do mesmo: nomeando iguaes officiaes para um Corpo de Civicos a pé; o qual jamais se organisou. O General em Chefe approvou todas estas disposições. 

[...]

(11) A entrega de Colonia foi devida não só a Vasco Antunes como a m.tos filhos do paiz. [nota do Conde do Rio Branco]

Fonte
BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in: Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, 68pp. pp. 17-18.

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Ordem de Batalha Portuguesa

Comandante: Sebastião Pinto de Araújo Correia

- quatro companhias, 1.º Batalhão de Caçadores, coronel Manuel Jorge Rodrigues, c. 450 efetivos
- uma Bateria de artilharia montada; 
- 'algumas' Milícias de São Paulo;
- um Esquadrão de Voluntários do Rio Grande, major Gaspar Pinto Bandeira, 
- Guerrilhas, Coronel Alvim

- uma Companhia de Guerrilhas a Cavalo,  Vasco Antunes Maciel
- Destacamento de artilharia da Marinha, Capitão de Fragata Diogo José de Brito

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Biografias

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A relação entre condecorações e a experiência militar dos voluntários reais (II) : Cruz da Guerra Peninsular n.º 1 e 2


A Condecoração
A Cruz da Guerra Peninsular (adiante CGP) foi criada pelo Rei D. João VI em 28 de Junho de 1816,  para distinguir os oficiais que participaram nas campanhas da Guerra Peninsular de 1809 a 1814, mas apenas foi regulamentada em 1820. Era outorgada a todos os oficiais com pelo menos 2 campanhas cumpridas. Em Prata para quem tivesse participado em até 3 campanhas e em Ouro para quem participasse em 4, 5 ou 6 campanhas.

Desenho
Anverso: Uma cruz pátea, de contornos rectilíneos, de ouro ou prata, assente numa coroa circular de folhas de louro. Ao centro, um emblema nacional (constituído pelo escudo das armas nacionais, assente numa esfera armilar). Circundado por uma bordadura de azul com a legenda «GUERRA PENINSULAR». 
Reverso: no disco central o número de campanhas.

Atribuição
As Campanhas eram contadas em termos de anos:
1.ª Campanha:1809
2.ª Campanha: 1810
3.ª Campanha: 1811
4.ª Campanha: 1812
5.ª Campanha: 1813
6.ª Campanha: 1814

Em cada ano, ou campanha, eram consideradas os seguintes combates e batalhas, sendo que a participação numa delas seria considerada participação na campanha:

1809: TALAVERA
1810: BUSSACO
1811: FUENTES DE HONOR, ALBUHERA
1812: CIUDAD RODRIGO, BADAJOZ, SALAMANCA
1813: VICTORIA, PIRINEOS, S. SEBASTIÃO [SAN SEBASTIAN], NIVELLE, NIVE
1814: ORTHES, TOULOSE

A primeira menção a esta condecoração  já vem de 1816, aquando da criação da Medalha de Distinção de Comando, mas só 4 anos depois é regulada.

Cautelas
A atribuição da CGP n.º 1 e 2 é o equivalente a uma medalha de campanha, refletindo tempo de serviço.  Ao contrário da n.º 3, para sargentos e praças, de que falei aqui, um misto de medalha de campanha mas com elementos de distinção, as dos oficiais era atribuída a todos os oficiais participantes. 
Para o fim de verificar em números concretos a experiência militar dos Voluntarios Reaes nas campanhas da Guerra Peninsular, a média do número de campanhas, no máximo de seis (1808-1814), são um indicativo muito interessante.

A Divisão de Voluntários Reais foi levantada em Maio de 1815 e em Junho já tinha nomeados quase todos os oficiais, de alferes a tenente general. A Cruz da Guerra Peninsular foi apenas criada em 1816 e o processo longo de atribuição fez com que as medalhas só fossem atribuídas em Dezembro de 1820. Houve um esforço bastante acentuado da Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra, com D. Miguel Pereira Forjaz ao leme, de verificar exatamente quais os números de anos de campanha respeitante a todos os oficiais do Exército.

Observações gerais
Os cinco oficiais generais da Divisão contavam entre si uma média de 4 campanhas e meia, todos condecorados com a cruz da guerra peninsular n.º 1, dourada.

Os oficiais superiores do Estado Maior têm uma experiência de quase 5 campanhas (4,7), apresentando 6 cruzes de guerra n.º1 e um oficial apenas sem medalha. São o setor da Divisão que apresenta mais experiência, em termos médios, sendo que entre os seis oficiais superiores que obtiveram a cruz, a média é de cinco campanhas e meia. Isso indica que quase todos eles cumpriram serviço durante todas as campanhas, pelo menos desde 1809 e pelos seis anos seguinte, por Espanha até França.

Um oficial superior da Divisão (todas as armas) tinha em média 4 campanhas, com apenas 3 oficiais sem qualquer campanha ou a cruz. Desta classe, 13 receberam a cruz de guerra peninsular n.º 1, de ouro, e 4 a n.º 2, de prata.

Um capitão comandante de companhia tinha a experiência de entre 3 e 4 campanhas no exército de operações (3,5),. Destes, três não receberam a medalha. 16 receberam a CGP n.º 1, enquanto que 13 receberam a CGP n.º 2.

Os oficiais subalternos de infantaria têm, equitativamente entre as brigadas, três campanhas de experiência (2,8). Falamos nomeadamente de tenentes com dez CGP n.º 1 ou douradas, e 17 CGP n.º 2, prateadas. Cinco tenentes não receberam medalha.


NUMEROS
([0] representa não ter recebido a Cruz da Guerra Peninsular)

Estado Maior
Oficiais Generais: 6+3+4 = média de 4,3 campanhas
Oficiais Superiores:  6+5+6+5+5+6  (+ um sem medalha) = média de 4,7 campanhas (5 campanhas e meia entre os que obtiveram a cruz)
Capitães e Oficiais Subalternos: 3+2+2+2+2 (+ dois sem medalha) = média de 1,6 campanhas

1.ª Brigada de Voluntários Reais
Oficiais Generais e Estado Maior: 5+2+4+6 =  média de 4,3 campanhas
Oficiais Superiores: 6+4+5+3+0+5 = média de 3,8 campanhas (4,6 entre os que obtiveram a cruz)
Capitães: 4+4+4+2+4+2+5+5    5+2+2+5+3+5+5+2 = média de 3,7 campanhas
Oficiais Subalternos: 3+2+2+2+2+2+3+4     2+5+0+2+5+4+3+4 = média de 2,8 campanhas

2.ª Brigada de Voluntários Reais
Oficiais Generais: 4+2+5+0 (capelão) = média de 2,8 campanhas (3,7 entre os que obtiveram a cruz)
Oficiais Superiores: 6+5+3+3+5+3 = média de 4,2 campanhas
Capitães : 3+0+5+5+4+2+4+2   0+2+6+3+5+4+2+4 = média de 3,2 campanhas
Oficiais Subalternos: 0+2+2+0+2+0+2+3     4+0+5+4+5+4+3+3 = média de 2,8 campanhas

Infantaria (em pormenor)
1.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,8) Tenente (2,5)
3.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,6) Tenente (3,1)
4.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,3) Tenente (3,5)
2.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,1) Tenente (1,4)
(2 cap. + 5 ten. sem medalha)

Cavalaria
Oficiais Superiores: 5+0+0+4+4 = média de 2 campanhas (4 entre os que obtiveram a cruz)
Capitães: 5+6+4+4+2+3 (25) 4+2+0+0+2 (8) = média de 2,8 campanhas (3,3 entre os que obtiveram a cruz)
Oficiais Subalternos: n/d

Artilharia
Oficiais Superiores: 5
Capitães: 4+0+5 = média de 3 campanhas (4,5 entre os que obtiveram a cruz)
Oficiais Subalternos: 6+6

Conclusão
De tenente para cima, a DVR era uma unidade cujos oficiais tinham em média 3 campanhas na Guerra Peninsular, principalmente, supomos, nos seus dois últimos anos 1813 e 1814 em que o exército de operações anglo-português leva a cabo as suas mais importantes manobras sobre o sul de França.

Um oficial superior não tem menos de 4 campanhas, e deste só três não receberam cruz. Especificamente os oficiais superiores do Estado Maior, têm quase 5 campanhas, com apenas um destes sem direito à cruz, no caso o sargento mor (major) João Pedro Lecor, irmão do comandante em chefe e seu 1.º Ajudante de Ordens. João Pedro foi governador de Albufeira durante a guerra e não participou em operações.

Os capitães comandantes de companhia, elementos chave da estrutura da DVR, apresentam em média entre 3 e 4 campanhas da Guerra Peninsular. Dos 32 capitães que analisei, apenas três não receberam cruz. Exatamente metade desses 32 receberam a CGP n.º 1 de ouro, por terem pelo menos 4 campanhas. 
Um tenente de infantaria tinha em média 2,6 campanhas, um ano menos que os capitães, sendo que apenas cinco (entre 32) não tiveram direito a cruz. Dez tenentes receberam a CGP n.º 1, por pelo menos 4 campanhas.

É claro então que a DVR tinha um quadro de oficiais extremamente experimentado em termos de operações de guerra europeia, o que já tínhamos verificado com o quadro de sargentos e praças e a CGP3.