quarta-feira, 23 de junho de 2021

Na Estrada de Montevideu



No final de 1814 foi mandada aprontar uma divisão de voluntários, a ser composta de pouco menos de 5000 militares das três armas, com o objetivo de intervir no sul do Brasil. Este blogue é uma humilde contribuição para o conhecimento da história da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, e depois d'El-Rei, entre 1815 e 1824, assim como das tropas da Capitania do Rio Grande.
A campanha de 1816 foi um esforço conjunto de mais unidades do Exército do Brasil e de Portugal num teatro de operações que ia desde a costa atlântica à costa do rio Uruguai, com quatro colunas distintas.
Apesar de adotar uma perspetiva portuguesa do conflito, este blogue procura também a perspetiva oriental a fim de traçar a mais fiel possível descrição dos acontecimentos desta guerra.

Embarque da DVR a 29 de Maio de 1816, na Praia Grande (J. B. Debret)
AS BATALHAS
As ações, sítios e batalhas da campanha, com ligação aos artigos disponíveis sobre elas, com ênfase forte nos memorialistas.
AS BIOGRAPHIAS
Em constante atualização, aqui pode encontrar ligações à biografia de alguns dos militares, portugueses e federais.
OS MOMENTOS
Os artigos sobre momentos que não envolvem combate.
OS VOLUNTARIOS
Listas e caracterização dos militares da Divisão dos Voluntários Reais.
AS TÁCTICAS
Os artigos predominantemente da análise tática militar.
AS MEMORIAS
As vozes dos combatentes e testemunhas dos eventos.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Fiel, natural e circunstanciada exposição dos acontecimentos da noite de 23 de Junho de 1821 (João Crisóstomo Calado)


Resultado da revolução liberal do ano anterior, 1821 foi um ano de grandes perturbações políticas em todo o império e especialmente no Brasil, que albergou a corte portuguesa até Abril desse ano, após 13 anos de permanência. Ainda que integrado no Exército do Brasil, a Divisão de Voluntários Reais, que ocupava Montevideu (e Colónia do Sacramento) há já 4 anos, era ainda um vasto corpo militar que até o ano anterior estava destacado do Exército de Portugal, com vagas asseguradas no seus respetivos corpos de origem; isso já não acontecia em 1821, apesar das promessas prévias. 

Essa situação incerta, em conjunto com a propagação dos ideais constitucionalistas vindos da metrópole portuguesa, levou a um período de instabilidade e revolta política que afetou fortemente a disciplina e coesão militar da Divisão. 
Com o levantamento de alguns oficiais em 20 de Maio, liderados pelo coronel Claudino Pimentel, que entre outras coisas obrigou o tenente general Carlos Frederico Lecor a jurar previamente a constituição, iniciou-se um período revolucionário, com grande ação dos membros do Conselho Militar e a geral politização de todas as classes. As divisões que resultaram viriam a ter grande influência posteriormente na independência do Brasil, com este processo na recém-criada Província Cisplatina (será declarada formalmente a 31 de Julho de 1821) a assemelhar-se mais a uma guerra civil que propriamente uma independência modelo.

O texto memorialista que transcrevo é um pequeno exemplo das muitas situações que ocorreram neste autêntico período revolucionário em curso e centra-se no levantamento do 2.º Regimento de Infantaria da Divisão na noite de 23 de Junho de 1821. De sua própria volição, o regimento, aquartelado fora da praça de Montevideu, no Seco, um pouco a norte da praia do Buceu, pegou em armas com a inabalável intenção de se dirigir em massa a Montevideu a reclamar direitos.
O texto resulta da versão dos factos pelo coronel João Crisóstomo Calado, comandante do regimento, que tentou controlar a situação, articulando com o capitão general Lecor a melhor forma de resolver a delicada situação. A transcrição foi feita a partir de um manifesto impresso publicado no Rio de Janeiro e que pode ser encontrado no arquivo online Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo aqui.

A ortografia foi modernizada, com pequenas notas explicativas, assim como conversão de medidas antigas portuguesas, nomeadamente a toesa, que converti para o sistema métrico em 1,98 m. A acompanhar o texto, publico ainda uma parte do mapa "Planta dos Subúrbios de Monte-Video", referente a Maio de 1826, desenhado por Adolfo António Frederico de Seweloh e com base em levantamento feito pelo coronel Jacinto Desidério Cony, da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e que pode ser visto aqui. Neste mapa, que pode ser visto em cima, destaquei as localizações que são referidas no texto, para melhor ilustração da geografia.

* * *

Fiel, natural e circunstanciada exposição dos acontecimentos da noite de 23 de Junho de 1821, pela irregular e indiscreta reunião do 2.º Regimento de Infantaria da Divisão de Voluntários Reaes d' El-Rei em seu próprio acantonamento do Seco.

O coronel João Crisóstomo Calado, chefe deste regimento, aliás tão benemérito pelos seus serviços, e a quem ele não deixou um só instante de prestar todo o desvelo, e cuidados, que lhe prescreviam os seus deveres, e amor de seus próprios soldados, sem dúvida estimaria sepultar no silêncio tal acontecimento, sufocando a perene mágoa que lhe assiste, se este, além de ser tão público, não fosse objeto de transcendência quanto à sua honra , e quanto à disciplina do mesmo regimento, só levado a tal excesso por espírito de vertigem imprevisto, fruto das circunstâncias azedadas por quotidianos sofrimentos: eis a razão porque aparece à luz pública a presente exposição, que desfazendo ilusórios boatos, fará brilhar a verdade , mostrará com clara luz o erro, e falta; porém porá em seguro a honra do mesmo coronel, e removendo calúnias, que se possam atribuir ao seu Regimento, ou por ignorância do facto, ou por má tenção, não deixará em menos preço o conceito militar, de que é digno tal corpo.
    Não sendo por tanto o seu fim senão narrar a verdade, se limitará ao acontecimento, sem levantar o véu, que poderia sendo rasgado, descobrir estranhos motivos, e dar margem a dissensões sempre perniciosas, e de que he alheio o seu caráter, e sistema; assim, só apontará as reflexões devidas, e que se achem implícitas na sua exposição, protestando, do modo o mais sagrado, não ser da sua mente querer ofender a pessoa alguma, mas sim só pugnar por si, e pelo seu regimento, como lhe cumpre.

Aconteceu que, pelas sete horas e meia da tarde [1930h] do mesmo dia 23, tratando o referido coronel de diferentes objetos de policia para o seu regimento com o ajudante José Joaquim do Amaral, em virtude de certas participações, e reflexões, fez o coronel chamar o capitão do estado maior, a quem recomendou nova, e expressa exação nas revistas ordenadas no regimento. Pouco depois das oito horas, voltou o mesmo capitão do estado maior, e deu parte que tudo se tinha cumprido, e sem novidade. Após disso se retirou, e havendo-se despedido o ajudante, ficou só o coronel no seu próprio quartel.
    Às nove horas [2100h] pouco mais ou menos, comparece o sargento da 6.ª Companhia Manuel José Lopes, e dá parte que as companhias 3.ª 4.ª 5.ª e 6.ª se achavam armadas, e fora dos quartéis; pouco depois, chega o capitão do estado maior dá a confirmação oficial à mesma parte. O coronel se veste arrebatadamente, e vai apresentar-se ás companhias, alheio inteiramente do que pretendessem por tal desatino; chama os sargentos para avisarem aos senhores oficiais a comparecerem imediatamente; a intimação desta ordem não era precisa em geral, pois já alguns se achavam presentes, clamando pela boa ordem.
    Apenas o coronel é visto, e reconhecido dos soldados, rompem estes gritos: “Meu coronel V[ossa]. S[enhoria]. perdoe, porém nós queremos ir a Montevideu para que se paguem nossos soldos segundo o prometimento, que se nos fez na madrugada do dia 20 de Março: a estas vozes, tendo o coronel respondido que estavam loucos, segundam: “Não estamos, meu coronel, V. S. e os senhores oficiais que queiram, hão de acompanhar-nos: nós não demos parte deste acontecimento a V. S., porque o não queríamos ver em Conselho de Guerra, e a nos todos não nos hão de meter; e os senhores oficiais, assim como nos convidarão na noite de 20 de março, nós os convidamos agora”. Apesar de ser crítico o momento de interpor com firmeza a voz de autoridade, o coronel, fiado na disciplina do seu corpo, e respeito dos soldados, que mostravam amá-lo quer fazer-se obedecer, e dissolver uma reunião, filha do delírio, chama os sargentos, e intima a ordem para que os senhores oficiais sem demora fizessem entrar as companhias no seu dever, e as recolhessem nos quartéis: a 3.ª companhia, dócil à ordem, se encaminha a cumpri-la, porém as outras desgraçadamente se conservam firmes, e não obedecem, Passa então o coronel a tentar os meios da persuasão, e conciliação. Determina aos sargentos que formem as companhias para ele ir falar-lhe a cada uma de por si, o que executa, procurando com razões fazê-los capacitar, que deviam sossegar, obedecer, e entrar nos quartéis, que ele coronel se fazia cargo das suas queixas, e representações, que não era aquela a maneira cordata de as fazerem, anti militar, imprópria, e indigna de tão bons soldados, com todas outras reflexões próprias do assunto: neste momento, de uma das companhias rompem os gritos: “Vamos aos Granadeiros”; de outra: “Meu coronel, V. S. não tem que recear o sucesso, esta deliberação é de toda a Divisão, quando nós chegarmos a Montevideu, teremos as portas abertas, e os nossos camaradas da guarnição á nossa espera, e nós ternos que ir pela artilharia, e cavalaria”. Declarada à geral inteligência, e mostrando-se ser este ato tão premeditado, e serio, reflexiona o coronel que é preciso variar de expediente, sendo inúteis, e infrutíferos os meios já aplicados, e que é forçoso ceder por hum momento à torrente, para depois regular a sua direção; assim grita: “Senhores, iremos onde queiram, porem primeiro quero saber se me obedecem”. Respondem por aclamação: “Sim, senhor, faremos quanto V. S. mandar, porém queremos ir a Montevideu”. Aproveita o coronel esta pausa, e manda ao Ajudante José Joaquim do Amaral que apresentando-se no quartel das duas companhias de Granadeiros que distará 72 Toesas do Seco [c. 143 metros], contivesse a ordem e precaucionasse maior desatino, caso ali já lavrasse o alvoroço; e ordena ao major José António Franco passe rapidamente a Montevideu, e inteire de tudo ao ilustríssimo e excelentíssimo senhor capitão general barão da Laguna [Carlos Frederico Lecor, 1765-1836], o que não tinha antes praticado, por não remeter uma participação de tanto dissabor, em quanto julgava estar ao seu alcance remediar o mal, não sendo tão pouco, a seu ver, acertado que se alvoroçasse Montevideu àquela hora da noite, sem absoluta precisão; pois eram já 11 horas [2300h]; e é certo que o referido major falou a S. excelência às 11 e três quartos [2345h].
    Passa depois o coronel a ponderar aos soldados, que deviam ir em ordem, e levar as bandeiras do regimento: nisto é obedecido de bom grado. Encaminha-se pois ao quartel com duas companhias a executar o que havia proposto, e bem que ali com motivos prolixos e frívolas razões se demorasse meia hora, se conservam era silencio e sossego os soldados. Enfim, dois oficiais tomam as bandeiras, e marchando para a Cidadela se reúnem ali às duas companhias. Postas em formatura, tenta outra vez o coronel persuadir aos soldados quanto era melhor entrarem nos quartéis, e ali esperar que S. excelência o senhor capitão general fosse ouvir as suas representações, que ele como seu Chefe lho prometia, e obrigava a consegui-lo do seu general. Bem entendido o coronel que ainda não era o momento da saudável crise, mas não quis omitir a menor coisa, para descargo do seu dever: assim não lhe foi estranha a resposta do seguinte grito: Não, senhor, queremos ir a Montevideu por nossas pagas”; faz-lhes entender que era impraticável serem pagos daquela maneira, como pensavam, que nem havia dinheiro, nem estava á disposição de S. excelência: resposta: “A Divisão está paga em dia pelo Estado, e o dinheiro deve estar em Montevideu”. E é nesta ocasião que novamente remete outra parte a s. excelência o senhor barão da Laguna pelo ajudante José Joaquim do Amaral rogando-lhe encarecidamente se apressasse a ir encontrar o Regimento: assegurando-lhe ao mesmo tempo que ele Coronel se faria forte a detê-lo em ordem. Outrossim, que sua excelência devia persuadir-se que só a sua presença poderia evitar que o regimento entrasse em Montevideu; onde achando-se de acordo com os outros corpos, poderia promover funestos desacertos, em menos cabo de todo o respeito ás autoridades, em menos preço da honra nacional: que sim sua excelência tomasse na praça as medidas que julgasse a propósito, porém sem demora, ou falência fosse encontrar, e falar ao Regimento. Contudo, podia assegurar a sua excelência que os outros corpos não seriam tocados pelo do seu comando, que este se prestaria respeitoso a receber a pessoa do senhor capitão general; e que finalmente a marcha se fazia pelo caminho do cordão, visto ele a não poder estorvar. Isto era uma hora da noite, e é certo ter o ajudante faltado a sua excelência à uma e meia.
    Tenta depois o coronel mostrar aos soldados o absurdo da sua opinião, e persuasão, porfiam em marchar adiante. Como faltasse a 1.ª companhia, lembra-se este incidente para os fazer demorar; debalde foi, porque respondem: “Já está avisada”. Assim, sem poder evitar, o coronel marcha com as seis companhias para o ponto onde costumava reunir o regimento, quando era mandado vir a Montevideu [1] [Este lugar distará da Cidadella 139 toesas [cerca de 275 metros]. Aí procura entreter o tempo que pode em prolixidades de formaturas, até que se reuniu a l.ª companhia: lembra então que faltam a 2.ª e 8.ª, e que as ia fazer avisar, o que executa pelo capitão da l.ª de Granadeiros Salustiano Severino dos Reis com expressa recomendação para que o major Francisco de Paula Esteves conservando-as formadas o esperasse, fazendo observar toda a possível ordem. Tendo decorrido alguns minutos, se põe o coronel à frente das sete Companhias, e procurando o caminho o mais extenso, se dirige ao quartel da 2.ª e 8.ª companhias, que distará 130 Toesas do lugar aqui citado [c. 257 metros], e com tudo, seria já uma hora e meia, quando se efetuou a incorporação das duas Companhias com o major Esteves, que ali o esperava, conforme a ordem comunicada: a este determina que forme o regimento (*) [Existia este só com nove companhias, porque a 7.ª ainda se achava a bordo da fragata Tétis, tendo só desembarcado duas das 3 que já estavam a bordo para seguirem com o regimento para o Rio de Janeiro.] por ordem de companhias em um largo que fica entre o Campo do Silva; e o Seco (**) [Este sitio distará de Montevideu 2822 toesas. [cerca de 5588 metros] segue pois a marcha em razão dos repetidos clamores dos soldados, que já não era possível rebater: o coronel a efetua por um desfiladeiro, caminho só de escolha para ganhar tempo; e vem colocar o regimento junto do Saladeiro do Pereira, da outra parte do caminho, onde é o quartel de uma companhia do 1.º Regimento de Cavalaria, que felizmente não foi inquietada. Foram tantas as delongas, que só ás duas horas e meia aproximadamente, é que o regimento se formou no citado sítio, que pouco mais ou menos distará 264 toesas do Silva [c. 523 metros].
    Não tinha já o coronel oficial algum, que pudesse dispensar para dirigir a sua excelência o Sr. Barão; e como instava a necessidade, manda o seu próprio criado para pessoalmente vir ter com sua excelência, e instar quisesse apressar-se, pois haviam ultimado os esforços para conter, e demorar a marcha, e resolução do regimento; que ele coronel tinha esgotado todos os recursos para sossegar os Soldados, que ainda ia a tempo de o escutarem com decoro, que a não aproveitar os momentos, era inevitável a entrada em Montevideu o que seria o pior dos males, e a maior desgraça. Chega depois de poucos momentos o ajudante Amaral, tendo já falado com sua excelência em Montevideu, a quem de novo faz marchar na mesma diligencia. Progredia a marcha para os subúrbios da Praça. Porém graças ao delineado estratagema, só às três horas e três quartos [0345h] formou no sitio denominado Tres Cruces, junto á Panadaria de Morales, aquartelamento da artilharia da Divisão, que distará 497 toesas [c. 984 metros] do quartel da 1.ª companhia de cavalaria acima referida, e fica a meio caminho de Montevideu ao Seco.
    Dada a voz de alto, e preenchidas as formalidades usadas, pensa o coronel fazer o último esforço para se opor à aproximação da Praça, que era já o mal eminente. Reverte-se da energia de chefe e lança mão do encanto, que embeleza os corpos filhos da disciplina, quando o chefe é amado e respeitado: “Soldados! Quero e ordeno que aqui se a guarde o senhor capitão general: eu castigarei o primeiro que me desobedeça. A junção com outros corpos não é agradável neste caso um obre como queira, e vós como julga o vosso coronel, que é vosso verdadeiro amigo”. Ficam firmes em coluna, e não replicam. Dá-se ordem para fumarem, e conservarem-se sem rumor, e assim se conservam até depois das quatro horas [0400h] em perfeita docilidade. Era muito para delicadas circunstâncias, e o mais que podia conseguir qualquer Chefe depois dos primeiros sucessos.
    Seriam quatro e um quarto [0415h], quando chega o secretário militar, o coronel Miguel António Flangini. Em razão da névoa e escuro, é equivocado com o senhor barão da Laguna, e o coronel dá a voz de sentido que é obedecida como voz de comando em parada. Conhecida porém dos soldados a equivocação rompem de novo os gritos: “Vamos a Montevideu; sua excelência não vem aqui”. Dá-se a voz de silêncio, e então o coronel Flangini declara aos soldados, que o senhor capitão general tinha já sabido da Praça pelo portão novo, que estava em caminho, e que necessariamente se tinha desencontrado. Esta fala é escutada com respeito, e decoro; porém clamam logo adiante. Toma então o coronel a frente do regimento, e com firmeza, e inteira resolução faz entender que castigaria o primeiro que falasse, e em segunda manda ao capitão da 2.ª companhia, António José de Carvalho, que se adiantasse da coluna a esperar a sua excelência, para o acompanhar, e dirigir ao lugar, onde o Regimento tinha feito alto. Chega finalmente sua excelência o senhor capitão general. Tudo se conserva firme em coluna como estavam, e guardam silêncio.
    Determina sua excelência, que saiam os primeiros sargentos, e 1 soldado por companhia a falar-lhe. Os Soldados trepidam, receiam sair fora da formatura: nenhum quer fazer cabeça na representação. Em virtude disto, o coronel dá a voz, que saiam os soldados da direita das companhias. É obedecido, e vem apresentar-se a sua excelência que lhes faz a interrogação acerca do que querem os seus camaradas: respondem que querem os seus pagamentos. Um dos sargentos se excede em menos preço do respeito devido a sua excelência, referindo com aspereza, e sem comedimento injustiças sofridas em promoções, falta de soldos, e outras queixas, que sendo proferidas de modo indevido, o coronel toma o arbítrio de o mandar calar, o que não tinha praticado imediatamente, em atenção a estar perante o Sr. capitão general, que o escutava, e a quem se dirigia; mas não era lícito tolerar desatinos a infinito sem os estorvar.
    Em circunstâncias tais, julga o coronel dever satisfazer a todo o o corpo, e pede a sua Ex.ª queira entrar na coluna, a fim de que todos os Soldados pudessem ouvir, o que tivesse a dizer-lhes. Manda abrir intervalos, e pôr as armas ao ombro, o que é executado, como se fora em parada regular. Passa sua excelência ao centro da coluna, e pergunta aos Soldados de que se queixavam, e convida-os a que falem. Repetem as queixas de faltas de soldos, e acrescentam que em outras capitanias se havia dado uma gratificação à Tropa, e que nesta pelo contrário, tendo-se-lhe prometido pagar, nem isso tinham obtido. Que tinham muito frio, que estavam sem mantas, e vivendo em um quartel sem tarimbas, e deitados pelos chão muito húmido, o que era mui penoso e prejudicial à saúde, que não podiam resistir ao desarranjo, em que viviam com metade de um pão (*) [Como recebiam um dia pão, e outro farinha, por isso contam meio pão por dia.] por dia, e péssima ração de carne, por ser tão magra, se apegava ás paredes, que os trapos com que se cobriam, e esteiras em que dormiam, as tinham destruído em que consequência de embarcarem para o Rio de Janeiro, como se tinha feito publico por ordem, não se tendo efectuado, por sua Ex.ª o estorvar, apesar de já estarem embarcadas três companhias; que eles estavam prontos a servir em qualquer parte que os mandassem, porém queriam a sua paga.
    Tendo-os sua Ex.ª escutado urbanamente, passa a animá-los, e persuadi-los, que o não terem ido para o Rio, fora em razão de terem chegado novas disposições, e contra ordem para assim o executar, que se lhe havia de pagar, que estivessem contentes, que àqueles, que aqui quisessem continuar o serviço, se lhe dariam hortas aos casados e por fim procura sua excelência fazer-lhes ver, que em alguns pontos das suas queixas havia dificuldades, que ele não podia remover, e que era absurda a desconfiança, em que estavam a seu respeito; que ele contava, como era de esperar, fossem sempre dignos soldados, e que merecessem o agradecimento da nação, como tinham merecido até ao presente. Replicam que queriam ser pagos por letras bem como os oficiais. Segue sua excelência dizendo-lhes, que os oficiais se sujeitavam a um alto rebate, que eles o não podiam sofrer, nem ele general passar letras de pequenas quantias. Estando a romper a alva (**) [Seriam aproximadamente cinco horas e um quarto [0515h].] e havendo já concorrência de povo na estrada, roga o coronel a sua excelência queira retirar-se, ao que anui, e seguindo para a Praça, marcha o coronel, com regimento para o seu acantonamento, acompanhando-o o coronel Flangini, no maior sossego, e na melhor ordem, chega às 6 horas, e recolhem-se as companhias nos seus respetivos quartéis sem a menor novidade.
Á vista deste relatório tão verdadeiro, como exato, seria escusado nada adicionar, mas o coronel julga de justiça ajuntar algumas reflexões, que o mesmo objeto parece apontar. É bem certa, e clara a falta, que este Regimento cometeu, mas que moral, disciplina militar não é preciso haver em seu corpo para retrogradar do seu delirante desacerto, e parar depois dos primeiros passos! É mais fácil conservar sucessiva e pacífica ordem, do que fazer reviver a ordem quebrantada. Lisonjeia ver triunfar o respeito, e a subordinação mesmo a par do erro, e mostrar-se este corpo digno mesmo na sua falta. É nas circunstâncias difíceis que se prova o verdadeiro espírito, e conceito de um corpo. O perigo apura o merecimento; nisto se prova quanto pode a boa educação militar com bons soldados; e é de esperar que este acontecimento não seja mais que ligeira nuvem nos belos dias da sua existência militar.
    Cumpre igualmente não deixar em silencio que o seu coronel tinha já repetidas vezes dirigido representações tocantes aos sofrimentos dos soldados, e bem que algumas não pudessem ter pronta solução, ignora a fatalidade porque outras não foram escutadas em tempo oportuno, como o foram imediatamente depois deste triste facto. Longe da sua ideia querer por tais reflexões disfarçar a gravidade em si de tal procedimento no seu regimento; mas é justo que a verdade apareça e que se pese o bem e o mal. Desta maneira julga ter praticado e satisfeito ao que se tinha proposto. Montevideu, o l.° de Novembro do ano de 1821.

João Crisóstomo Calado

RIO DE JANEIRO NA TYPOGRAPHIA NACIONAL.

***

Pouco menos de um mês depois, o general Carlos Frederico Lecor publica uma ordem do dia em que se refere expressamente aos acontecimentos de 23 de Junho:


Quartel General de Montevideu, 20 de Julho de 1821

Ordem do Dia

O capitão general, comandante em chefe, ao mesmo tempo que desaprova a conduta que mostrou inconsideradamente o 2.º Regimento de Infantaria da Divisão dos Voluntário Reais d'El-Rei, na noite do dia 23 do mês próximo passado, escolhendo o modo menos militar, e mais incompetente, para lhe fazer as suas representações quando, sem ordem, saiu dos seus quartéis e resolveu assim causar-lhe o sentimento mais estranhável, tem a satisfação que é possível no meio de um sucesso tão fatal, considerando que a deliberação dos soldados em pedirem naquela ocasião os seus oficiais, e as suas bandeiras, a atenção ao que se lhes disse, e o sossego e harmonia com que voltaram para o seu acantonamento, parece provar que o seu momentâneo desvio da primeira lei dos exércitos não foi ação voluntária deles, mas sim obra de um alento sedutor que se agitou para os alucinar.

O comandante em chefe quer persuadir-se de que os filhos de um povo constante e generoso, e eles os mesmos que deram às nações admiradas, no abandono das suas casas, dos seus haveres, e de tudo o que mais anima os homens na vida, para cumprirem as ordens do seu governo, o maior exemplo de patriotismo, de obediência, e de resignação, que os anais do mundo apresentaram e que a história cuidadosamente recomendará à posteridade mais remota, para que lá mesmo seja famoso; as tropas que no espaço de seis campanhas combateram na Europa com vantagem, porque o fizeram com honra e subordinação; os soldados a quem a vitória acompanha desde os campos da Roliça, até às margens do Garona, onde a paz desejada mandou fazer alto aos seus brios, aqueles finalmente que na América sustentaram  em quatro campanha o crédito merecido porque foram valentes, humanos e disciplinados, não podiam aventurar-se a um passo que é contrário aos seus deveres, à sua reputação e aos seus interesses, e que seus veneráveis pais, encanecidos na prática da virtude, hão de saber com a dor mais intensa, por ser diametralmente oposto à boa educação que lhes deram, sem que a eles enganosamente os arrastasse mão insidiosa, malévola e estranha, invejosa da glória deles, adversa ao bom nome português e declarada inimiga da felicidade desta província, e dos seus dignos e beneméritos habitantes.

Ainda assim sendo, o proceder do 2.º Regimento, naquele repente vertiginoso, não é escusável, porque mal se parece a debilidade e ligeireza com que os soldados então faltaram à sua obrigação, com a fortaleza e reflexão de quem tantas vezes viu inalteradamente a morte no meios dos combates.

O comandante em chefe, na impossibilidade de que os acontecimentos passados deixem de ter existido, deseja ao menos que o poder eterno apague na memória das gentes a recordação da parte da noite de 23, e lavar, à força de bom comportamento, a nódoa que tanto o afronta, para que não vá escurecer com uma nuvem negra e ominosa os claros e gloriosos dias da pátria, e para que modere, ou inteiramente satisfaça, e desarme a justa indignação, com que ela há de castigar os ultrajes que fazem ao seu decoro e dignidade os que violam o respeito e obediência das leis.

Barão da Laguna


segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Assalto de São Borja (28.9.1816)

A 28 de Setembro de 1816, Andrés Guaçurari y Artigas manda atacar a vila de S. Borja. A vila estava sitiada desde dia 21, mas este terá sido a primeira tentativa de tomar a localidade pela força. Todas as outras seis missões, deficientemente defendidas, foram tomadas, mas S. Borja era a capital e estava bem guarnecida. De acordo com as poucas fontes, nesse dia 10 peças de artilharia com metralha assim como a fuzilaria portuguesa nos muros da horta (Regimento de Infantaria de S. Catarina) foram fundamentais para frustrar a tentativa oriental.

Sítio de São Borja

Quando o sítio teve o seu início a 21 de Setembro, de madrugada, Andresito (Andrés Guaçurari, acima) mandou um ultimatum ao brigadeiro Francisco Chagas dos Santos, comandante militar das Missões. Três dias depois, a 24, o comandante oriental envia um ultimatum ao comandante português para render a praça em três horas. No dia seguinte, a ameaça dos orientais vem renovada com a notícia que apenas S. Borja permanece na mão dos portugueses e apelando ao direito dos povos nativos à unificação de todas as Missões, roubadas, segundo ele, em 1801.

Procederam-se a vários ataques orientais sobre S. Borja durante o sítio, mas limitados, talvez destinados a testar as defesas e encontrar pontos fracos; estes são facilmente rebatidos pela guarnição, bem entrincheirada e com 14 peças de artilharia a apoiar a defesa.

A 26 de setembro, o tenente coronel José de Abreu, que havia impedido Pantaleón Sotelo, a 21 e 22, de passar em Japejú e incorporar-se a Andresito, passa o rio Ibicuí para norte com a sua força. Pelo final do mês já não havia dúvida para Andrés Artigas que os portugueses viriam tentar aliviar o sítio à vila. Tão cedo quanto o dia 23, já Justo Negros, comandante da flotilha oriental no rio Uruguai, havia avisado Andresito do fracasso de Sotelo, que teria a notícia num dia, se tanto.

O Assalto 

Na urgência de tomar S. Borja, e assim ter toda a região, Andrés Artigas ordena um assalto geral que ocorre a 28 de Setembro de 1816. O mesmo falha devido à tenaz resistência portuguesa, nomeadamente a sua artilharia. Andresito terá usado o mesmo dispositivo de 3 de outubro, dias depois, aquando da batalha de S. Borja, destacando metade dos seu milhar e meio de efetivos para o assalto, enquanto a outra metade ficava em reserva, afastada da vila, muito possivelmente na expetativa de um ataque português. Em 3 de Outubro, 700 forças orientais estavam prestes a começar um segundo assalto geral, com 800 um pouco afastadas a oriente, em terreno alto.

A 3 de Outubro, Andresito (ou Artiguinhas, como era conhecido entre os luso-brasileiros) tentará de novo quebrar o sítio, com a pressão de ser flanqueado pelos portugueses que se aproximam  pelo sul, mas é surpreendido pela coluna de José de Abreu que o apanha dividido, mas essa é outra história.


ORDEM DE BATALHA

Guarnição de S. Borja, Exército do Brasil, Capitania do Rio Grande de S. Pedro

Comandante – brigadeiro Francisco das Chagas Santos

c. 200 efetivos

14 peças (de acordo com Moraes Lara). O brigadeiro Chagas dos Santos fala de 10 peças destas carregas de metralha.

Regimento de Infantaria de Santa Catarina - Companhia de Granadeiros, Capitão José Maria da Gama Lobo (uma companhia de granadeiros num regimento português da época seria em estado completo, composta de cerca de 120)

“Alguns dos 200 guaranis que havia” (Chagas do Santos, 9.10.1816)

Será de admitir que metade dos membros da guarnição de S. Borja eram granadeiros de infantaria de S. Catarina e metade milícias guaranis e brancas.

Baixas Portuguesas

5 soldados gravemente feridos e 4 levemente (Moraes Lara, 1817 e 1845).

“2 granadeiros e 2 guaranis queimados, e 2 soldados e 3 guaranis feridos de bala” (Chagas do Santos, 9.10.1816)

* * *

Divisão de Missiones, Liga Federal (com base nas indicações de 3 de Outubro)

Comandante -  Andrés Guaçurari y Artigas

c. 1500-2000 efetivos

Moraes Lara indica o número de orientais para 2000 homens e 2 peças de artilharia. No entanto, José de Abreu indica no seu relatório que encontrou uma força de cerca de 1500 efetivos, no dia 3, dividida em dois grupos, um de 800 e outro de 700.

Sabemos, no entanto, que Pantaleon Sotelo, que não conseguiu passar o Uruguai em Japejúa, a 21, vai por terra e entra por passos mais a norte, juntando as suas forças a Andresito. Se em 3 de Outubro Andresito teria cerca de 1500 homens, em 28 de Setembro teria menos.

Baixas Orientais

De acordo com o brigadeiro Chagas dos Santos, a 9 de Outubro, os orientais teriam sofrido 200 baixas em diversos ataques.

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Extrato da correspondência do brigadeiro Francisco Chagas dos Santos, em carta ao tenente general Joaquim Xavier Curado, a 9 de Outubro de 1816:

“O inimigo foi derrotado por todas as partes [refere-se ainda à batalha no dia 3 de Outubro e dias seguintes]. No sítio perdeu mais ou menos 200 homens, que matámos e ferimos nos diversos choques  e ataques que nos fez, sendo o principal e mais impetuoso no dia 28 do passado [Setembro], em que dez peças nossas, carregadas á metralha, fizeram grande estrago sobre o inimigo, além da nossa fuzilaria, especialmente nos muros da horta, que com o maior empenho procurou assaltar em grande número; mas sendo reforçada opportunamente, se pôz em fuga o inimigo, horrorisado com a nossa resistência, e pelos seus mortos e feridos; não havendo da nossa parte mais que 2 granadeiros e 2 guaranis queimados, e 2 soldados e 3 guaranis feridos de balas.

A nossa guarnição de este povo, composto de 200 portugueses, inclusa a companhia de Granadeiros e alguns dos 200 guaranis que havia, manifestaram muito valor e prontidão em todos os 13 dias de sítio”.


Fontes

- LARA, Diogo Arouche de Moraes, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista Trimensal de História e Geografia, n.º 26, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Julho de 1845, pp. 125-328.

Imagens

Na imagem, a batalha de São Borja, combatida a 3 de Outubro, quando Andresito se preparava para a segunda e última investida contra a vila & Uma planta aproximada de S. Borja circa 1816.

domingo, 9 de agosto de 2020

Civil/Exército do Brasil: D. Margarida de Almeida Portugal (Marquesa de Alegrete)

A senhora Dona MARGARIDA DE ALMEIDA PORTUGAL , 5.ª marquesa de Alegrete, nasceu em Santa Clara, Lisboa, aos 24 de Agosto de 1791, filha dos marqueses do Lavradio, D. António de Almeida Portugal e D. Ana Teles da Silva, tendo sido batizada, no mesmo dia, no oratório do Palácio dos marqueses no campo de Santa Clara. 

Em 1807, como muita da corte, viaja para o Brasil. A 1 de Outubro de 1808, casa-se com o 5.º marquês de Alegrete, D. Luís Teles da Silva, na Sé do Rio de Janeiro. 

Acompanhou o marido quando este foi capitão general do São Paulo, em 1811, e depois, do Rio Grande de S. Pedro, em 1814. 

Tem 25 anos de idade quando acompanha o marido na batalha de Catalán, a 4 de Janeiro de 1817, onde, de acordo com testemunhos presenciais, ajudou os feridos no campo após a ação:


Demorámo-nos no Campo da ação o dia 4 e 5, ocupados em enterrar os nossos mortos, e curar os feridos, a senhora Marquesa tem zelado dos doentes com muita caridade, desfiando panos com suas próprias mãos para se curarem as feridas.”

(Tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, Artilharia da Legião de S. Paulo, em carta a Vicente Ferrer da Silva Freire)

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Um exemplo novo de valor, e de heroísmo serviu para aumentar a celebridade da vitória gloriosa de Catalán: ele foi dado pela marquesa de Alegrete, tão ilustre por suas virtudes como por sangue: a presença do espírito varonil que patenteou no meio dos maiores perigos, e debaixo do fogo inimigo, e com que animava a todos, não foi menos admirável que a prática  incansável de piedade, a que se entregou depois da batalha, em socorro dos feridos , sem distinção de amigos ou inimigos. Ela finalmente se fez  naquele dia  por todos os motivos digna de maior estima, respeito, e admiração do exército.

(Capitão Diogo Arouche de Moraes Lara, Infantaria da Legião de S. Paulo, in: “Campanha de 1816”)

 

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Imagem (topo)

- "Batalha de Catalán", óleo do coronel Pedro Paulo Cantalice Estigarríbia (Hospital Militar de Porto Alegre, RS) 

sábado, 14 de março de 2020

Exército do Brasil: Inácio José Vicente da Fonseca


O tenente coronel de artilharia Inácio José Vicente da Fonseca nasceu em S. Paulo, filho natural do coronel de milícias João Vicente da Fonseca, tendo sido batizado a 28 de fevereiro de 1782.

Em 1804 frequentava o curso de Filosofia na Universidade de Coimbra, tendo no ano anterior assentado praça de cadete na artilharia da Legião de Voluntários Reais de São Paulo. Não é certo quando é promovido a 2.º tenente e dessa forma, a oficial de patente, mas em julho de 1805 pede a confirmação da sua promoção a tenente, pelo que terá sido promovido nos meses anteriores.

Em 24 de junho de 1809 é promovido a 1.º tenente da 2.ª companhia de artilharia a cavalo da legião, sendo já 1.º tenente agregado. No mesmo ano, é promovido a saagento mor, quiçá saltando o posto de capitão da artilharia montada.

A 13 de maio de 1815 é graduado em tenente coronel comandante da artilharia da Legião, sendo efetivado no posto a 6 de fevereiro de 1818.

Escreveu uma carta datada de 8 de janeiro de 1817, ao coronel Vicente  Ferrer  da  Silva Freire contendo a sua perspetiva do que aconteceu nos dias 3 e 4 de janeiro, aquando do combate de Arapeí e da batalha de Catalán, esta última onde participa estando na bataria do centro da linha portuguesa. Esta peça de correspondência, pela sua candura, é uma fonte valiosíssima para a compreensão do que aconteceu no campo de Catalán.

LEIA
- Memórias: tenente coronel Vicente da Fonseca (Batalha de Catalán, 1817):

IMAGEM
- Palácio do Governo de S. Paulo, antigo Colégio dos Jesuítas (J. B. Debret)

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Exército do Brasil: José Maria Rita de Castelo Branco, conde da Figueira


O capitão general JOSÉ MARIA RITA DE CASTELO BRANCO CORREIA DA CUNHA VASCONCELOS E SOUSA, 1º Conde da Figueira, nasceu em Salvaterra de Magos, a 5 de Fevereiro de 1788, filho de José Luís de Vasconcelos e Sousa, marquês de Belas, e de D. Maria Rita de Castelo Branco Correia e Cunha.

Tendo assentado praça como cadete a 10 de Março de 1806, com 18 anos, é promovido no ano seguinte, a 24 de Junho, a alferes agregado ao Regimento de Cavalaria n.º4 (ou de Mecklemburgo, aquartelado em Lisboa). Nos finais de 1807 embarca na Corte com destino ao Rio de Janeiro.

A 13 de Maio de 1808, aniversário do regente, é promovido a tenente, muito provavelmente no 1.º Regimento de Cavalaria do Rio, unidade que é levantada nesse mesmo dia, para empregar vários oficiais vndos de Portugal com a Corte.  Dois anos depois, a 24 de Junho, é promovido a capitão. No mês anterior é titulado conde da Figueira (13 de Maio de 1810).

A 7 de Março de 1812, é graduado em major (ou sargento mor), ajudante de ordens do Governador das Armas do Rio de Janeiro, marechal de campo Ricardo Xavier Cabral.

Em 1817, é tenente coronel. Fez parte da expedição portuguesa que foi à cidade de Pernambuco em 1817. Serve, na aclamação de D. João VI, em inícios de 1818, como reposteiro mor, vindo oito anos depois a servir na mesma capacidade do funeral do monarca.

A 19 de Outubro de 1818, com 30 anos de idade, toma posse como capitão general do Rio Grande de São Pedro, assumindo o comando das tropas do Rio Grande, em plena atividade operacional desde meados de 1816. Substitui o Marquês de Alegrete.

Herdou um dispositivo bastante espalhado no terreno, desde a fronteira oeste da província na área entre Missões e Santana do Livramento, e no território oriental, na margem esquerda (ocidental) do rio Uruguai, até Paysandu, resultado na ofensiva do tenente general Joaquim Xavier Curado em 1818.

É o comandante das forças portuguesas  na batalha de Tacuarembó, a 22 de Janeiro de 1820, que coloca um fim à guerra de 1816-1820 entre Portugal, Brasil e Algarves e a Liga Federal, ou dos Povos Livres.

A 14 de Abril de 1820, pelos seus sucessos na campanha, é promovido a coronel de cavalaria, mantendo como capitão general da província até Setembro desse ano.

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Imagem
- Capela do Antigo Paço Real - Salvaterra de Magos
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Capela_do_Antigo_Pa%C3%A7o_Real_-_Salvaterra_de_Magos_-_Portugal_(2624895948).jpg

sábado, 7 de setembro de 2019

O Filho do Marechal


Sebastião Pinto de Araújo Correia nasceu em Viana do Castelo e era, em Novembro de 1813, aos 28 anos, o coronel do Regimento de Infantaria n.º 18, promovido apenas três meses antes. Estava a sua divisão e o Exército nas margens do Adour, defronte de Bayonne, já bem dentro de França. Pequeno nobre do Minho, o mais velho de sete irmãos, era primo de D. António Araújo de Azevedo, antigo ministro da guerra em Lisboa, o que ajuda a explicar ser coronel a uma idade tão precoce. Ainda assim, Sebastião Pinto havia sido prejudicado na antiguidade, por via de um ferimento na cabeça na batalha de Fuentes de Onoro, no dia 5 de maio desse 1811, no comando de Caçadores 6. Esteve 4 meses e meio com parte de doente. Outros tenentes coronéis promovidos de 1809, alguns que conheceremos mais à frente, obtiveram a patente de coronel em 1812, um ano antes.

A 6 de novembro, o  novel coronel de Infantaria 18 pediu e recebeu uma licença de três meses para recuperação em Portugal de uma moléstia que padece, resultado decerto do ferimento em 1811, mas a mesma é posteriormente alterada para ir ao Rio de Janeiro, para tratar na corte assuntos da sua casa. O coronel Pinto viaja para Portugal e não volta ao exército em operações na França para a campanha de 1814.

Ainda que concebamos que a visita de Pinto à corte fosse simplesmente em busca da devida recompensa de um herói da guerra, ferido no serviço real, por especial deferência do seu mentor e ‘pai’, o marechal Beresford, fica também claro que essa estadia se tornou depois em diligência do real serviço, não só decerto pelo transporte dos decretos e demais correspondência a Lisboa, mas por ter dado o seu conselho profissional ao Principe Regente e ao marquês de Aguiar.

Parece também provável que Sebastião Pinto tenha sido autorizado a ir ao Rio de Janeiro, em vez de voltar à campanha, isto é, já de um forma oficiosa, em diligência de serviço. É estranho que um comandante de regimento, por mais protegido que fosse, seja especialmente autorizado a permanecer em licença por 3 meses mais que o inicialmente, sendo depois autorizado a ir o Rio de Janeiro.

No âmbito da divergência de interesses lusos-britânicos que se processava desde finais de 1813, com o afastamento definitivo de uma ameaça francesa sobre Portugal, Beresford terá enviado Pinto com ofícios, à laia de guarda avançada, de forma a recuperar alguma da autoridade face à regência. Nada melhor que enviar um heroi de guerra, oficial de potencial e ferido até numa grande batalha, além de primo de um dos ministros.

As circunstâncias dão a volta, porém, quando Sebastião Pinto participa na idealização da divisão e traz os ofícios, acaba por minar mais ainda a autoridade do marechal general, ainda que não o desejasse. A vontade do Príncipe Regente supercede todas as outras, e a necessidade de pacificar a Banda Oriental e Artigas era o mais importante agora para Portugal, na nova configuração europeia que se esboçava em Viena.

O coronel Pinto tem feito sempre remarcáveis serviços à sua Pátria,” recomenda António de Lemos Pereira de Lacerda, secretário militar do marechal Bereford, a D. António Araújo de Azevedo em carta de 4 de maio de 1814, que Pinto mesmo transportou. Sebastião Pinto parte para o Rio de Janeiro pouco depois dessa data. Lacerda salienta que o seu recomendado “tem constantemente merecido a amizade, e consideração do Chefe do Exercito, que o ama tanto, que se chega a denominá-lo: o filho do Marechal”. É também em abono de Sebastião Pinto que Lacerda intercede por justiça ao seu recomendado, por este  ter entregue os seis irmãos ao serviço do soberano:

Os seus sentimentos a respeito da boa cauza da Monarquia não se limitarão unicamente a servir elle; mas tinha seis irmãos, e todos seis entregou ao serviço do Exercito, e todos seis tem alcançado pelo seu comportamento os Postos em concequencia do bom conceito que tem merecido. Sebastião Pinto como bom irmão os pôs na estrada da honra, e ali os tem cuidadosamente alimentado á custa de sacreficios, e de grandes despezas; e estas, unidas as que elle com sigo proprio tem feito, não podem deixar de ter muito deteorado os seus fundos. Elle aí vai, tem a V. Ex.ª por Parente, e Amigo, e Protector, e tudo se remediará, e o seu merecimento será premiado, porque o nosso Augusto Soberano se não ha de esquecer de fazer justiça.

Tendo sido ferido na cabeça numa das batalhas mais famosas da Guerra Peninsular, Pinto considerou possivelmente que seria uma oportunidade para se apresentar a sua Alteza Real o Príncipe Regente e pedir que se lhe faça justiça. O coronel Pinto vai obter exatamente o que pretende no Rio de Janeiro, uma espécie de debutância na corte, com a proteção do seu primo D. António, ministro do reino no Brasil. A corte está fora de Portugal há já seis anos e apresentando-se um verdadeiro heroi da Guerra europeia, este é recompensado. No aniversário da rainha D. Maria, a 12 de outubro, Sebastião Pinto é promovido a brigadeiro, obtendo o avanço que pretendia.

Já Sebastião Pinto navegava no mares do Atlântico sul, na sua “estrada da honra”, em direitura ao Brasil, o exército português em operações, fora do país desde maio de 1813, celebra a rendição de Soult, o fim da Guerra Peninsular e o exílio de Napoleão em Elba e começa a percorrer a sua estrada do triunfo de regresso à pátria.