segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Na Estrada de Montevideu



No final de 1814 foi mandada aprontar uma divisão de voluntários, a ser composta de pouco menos de 5000 militares das três armas, com o objetivo de intervir no sul do Brasil. Este blogue é uma humilde contribuição para o conhecimento da história da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, e depois d'El-Rei, entre 1815 e 1824, assim como das tropas da Capitania do Rio Grande.
A campanha de 1816 foi um esforço conjunto de mais unidades do Exército do Brasil e de Portugal num teatro de operações que ia desde a costa atlântica à costa do rio Uruguai, com quatro colunas distintas.
Apesar de adotar uma perspetiva portuguesa do conflito, este blogue procura também a perspetiva oriental a fim de traçar a mais fiel possível descrição dos acontecimentos desta guerra.

Embarque da DVR a 29 de Maio de 1816, na Praia Grande (J. B. Debret)
AS BATALHAS
As ações, sítios e batalhas da campanha, com ligação aos artigos disponíveis sobre elas, com ênfase forte nos memorialistas.
AS BIOGRAPHIAS
Em constante atualização, aqui pode encontrar ligações à biografia de alguns dos militares, portugueses e federais.
OS MOMENTOS
Os artigos sobre momentos que não envolvem combate.
OS VOLUNTARIOS
Listas e caracterização dos militares da Divisão dos Voluntários Reais.
AS TÁCTICAS
Os artigos predominantemente da análise tática militar.
AS MEMORIAS
As vozes dos combatentes e testemunhas dos eventos.
UMA BIBLIOGRAPHIA 

1815 | 1816 | 1817 | 1818 | 1819 | 1821 | ... | 1823

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Relação dos Oficiais que aderiram à Sagrada causa do Império, e que querem ser empregados no Estado Cisplatino (Março de 1823)


Relação dos Oficiais das diferentes Armas, que aderiram à Sagrada causa do Império, e que querem ser empregados no Estado Cisplatino, remetida com Ofício do Tenente General Barão da. Laguna, de 31 de Março de 1823. 


Exercito do Brasil. [8]

Brig Grad José Manuel de  Almeida.
Cor Grad ENG Jacinto Desidério Cony.
TenCor EM Henrique Xavier Ferrara.
TenCor CAV Miguel Pereira.
TenCor Grad EM Luis del Host. [Luigi Dell'Hoste]
Maj EM António Rodrigues Gabriel de Castro.
Ten ENG José Cavalo.
Alf EM Manuel Marques de Sousa. 


Exercito de Portugal. [102]

Brig Grad João Crisóstomo Calado.

Coronéis [3]

Cor Grad CAÇ Manuel Jorge Rodrigues
Cor Grad CAÇ Francisco de Paula Rosado.
Cor EM Miguel António Flangini.

Tenente Coronéis [3]

TenCor CAV Joaquim Cláudio Barbosa Pita.
TenCor Grad EM José Ferreira da Cunha
TenCor Grad EM António Pinto de Araújo Correia.

Majores [3]

Maj CAÇ, João Teixeira de Queiroz.
Maj Grad EM Pedro Pinto de Araújo Correia
Maj Grad EM Manuel Freire de Andrade.

Capitães [17]

Cap EM Sebastião Navarro. 
Cap INF Salustiano Zeferino Reis;
Cap CAÇ José Maria de Araújo;
Cap CAV Filipe Nery de Oliveira
Cap CAV Theodoro Burlamaque
Cap ART Joaquim Felipe Lampreia
Cap ART  António José da Costa.
Cap CAV Francisco Nunes do Amaral
Cap CAV José de Melo Sousa Menezes
Cap CAV António Maria Xavier de Sousa;
Cap CAÇ Francisco Xavier da Cunha.
Cap CAÇ João Pedro Xavier de Ferrara
Cap CAÇ Caetano Cardoso de Lemos.
Cap Grad Quartel Mestre José António Ribeiro Branco;
Cap EM Jacinto Pinto de Araújo Correia
Cap EM Frederico Ernesto Krusse
Cap EM Francisco de Almeida.

Tenentes [23]

Ten CAÇ José dos Santos Fernandes
Ten CAÇ Luís Manuel de Jesus
Ten CAÇ José dos Santos Pereira
Ten CAÇ Gaspar José de Brito
Ten CAÇ João Teixeira de Macedo
Ten CAÇ João da Cunha Lobo
Ten CAÇ António Maria de Gouveia
Ten CAÇ António Osório de Magalhães
Ten CAÇ José Osório de Magalhães;
Ten EM José de Melo;
Ten CAV João Velez da Gama; 
Ten CAÇ José Joaquim Correia de Lacerda;
Ten INF António de Moura e Brito, Ajudante;
Ten CAV  Sebastião Rodrigues Dias;
Ten CAÇ Gregório José dos Santos , Ajudante;
Ten INF José da Cruz. de Freitas,
Ten INF Joaquim José Pereira;
Ten CAÇ António Inácio da Veiga,
Ten CAÇ Francisco Esteves de Figueiredo;
Ten CAV Anselmo José d'Almeida Vallejo,
e José António Pereira, Picador;
Ten CAÇ Manuel Mendes, Quartel Mestre
Ten CAÇ Jerónimo da Costa Ramalho, Quartel Mestre

Alferes [18]

Alf CAÇ Manuel Joaquim de Sousa;
Alf INF José Hermenegildo Ferreira Horta
Alf INF José Inácio Burquete;
Alf CAÇ António Jacinto da Costa Freire;
Alf INF Sebastião Correia:
Alf CAÇ Francisco Rodrigues Pereira;
Alf CAV Rodrigo Antunes Moreira
Alf CAV Luís Bernardo Machado
Alf CAV José António Mainarte
Alf CAV António Duarte Reis
Alf CAV António de Araújo e Silva
Alf CAV Cláudio José Dias;
Alf CAÇ António Pinto Homem;
Alf CAV António Maria de Azevedo;
Alf CAÇ José Pedro de Araújo;
Alf CAV Cláudio José dos Santos;
Alf CAÇ Jerónimo Herculano Rodrigues
Alf CAÇ João Francisco Xavier.

Cadetes [5]

Cad António Joaquim Pinheiro
Cad Francisco Bruno Monteiro
Cad José Cândido Sardinha
Cad José António Cazalens Rodrigues
Cad Bernardo Augusto Pereira.

Sargentos [29]

Manuel Carneiro da Costa
Joaquim José de Magalhães
José Teixeira de Lima
Mariano António
Joaquim Teles Jordão
João Crisóstomo Mouzinho
Joaquim Loureiro
Joaquim Martins
José Vieira da Silva
António da Cunha Paiva
António Maria de Sousa
Francisco Pinto de Sá
Rodrigo António Batista
João António do Amaral
Martinho Rodrigues
Domingos Gomes de Melo
José Alves da Silva
Manuel Joaquim de Sá
José de Gouveia
João José Simões
Pedro José de Lemos
José Xavier de Coes
Domingos Serrão
António da Silva
Manuel José Lisboa
Luís Henriques de Campos
Custodio de Azeredo
António José Marques
António Luís de Sousa Viana.

Estado Cisplatino. [3]

Alf DRAG Carlos Figueira de Figueiredo
Alf DRAG João Ladislau Monteiro de Mendonça
Alf DRAG João Cardoso.


Não são contemplados nesta Relação os oficiais do Batalhão de Artilharia a pé, os do Regimento de Cavalaria da União , e alguns oficiais espanhóis.

Campo em frente de Montevideu, 31 de. Março de 1823, Barão da Laguna.

* * *

Fonte

Diário do Governo do Império do Brasil, n.º 118, 28 de Maio de 1823, p.590.


LEIA TAMBÉM

Relação Nominal dos Oficiais da Divisão que tem desertado para atraiçoarem a sua pátria, e seguirem a causa do Governo do Rio de Janeiro (Janeiro 1823)

http://dvr18151823.blogspot.com/2022/07/relacao-nominal-dos-oficiais-da-divisao.html [Abre nova página]


domingo, 17 de julho de 2022

Relação Nominal dos Oficiais da Divisão que tem desertado para atraiçoarem a sua pátria, e seguirem a causa do Governo do Rio de Janeiro (Janeiro 1823)


Relação Nominal dos Oficiais da Divisão dos Voluntários Reais d'El Rei, e dos corpos a ela anexas, assim como das Repartições da dita que tem Desertado desta Praça, e dos seus Corpos; para atraiçoarem a Sua Pátria, e seguirem a Causa do Governo do Rio de Janeiro. [110 oficiais]


ESTADO MAIOR. [12]
Tenente General Barão da Laguna. Carlos Frederico Lecor. 
Tenente Coronel. Ajudante d' Ordens António Pinto de Araújo Correia.
Tenente Coronel. Ajudante d' Ordens José Ferreira da Cunha. 
Capitão, Major da segunda Brigada Pedro Pinto de Araújo Correia.
Capitão, Major da primeira Brigada Sebastião Navarro de Andrade. 
Capitão Assistente do Q. M. G. Jacinto Pinto de Araújo Correia.
Tenente Assistente do A. G. Frederico Hernesto Krusse.
Tenente Deputado Assistente do Q. M. G, Francisco de Almeida.
Maior encarregado das prisões das Abobadas Sebastião da Cunha.
Oficial Maior de Secretaria Militar António Félix Lobo Coelho.

Coronel, Secretario Militar, Miguel António Flangini. 
Oficial da Secretaria Militar João António Capelani. 
N.B. Estes dois indivíduos suposto foram com passaporte. sabe-se com certeza que abraçarão a causa da independência. sendo o primeiro hum dos que mais trabalhou para este fim e ….....

Corpo de Artilharia [3]
Capitão, Joaquim Filipe Lampreia.
Capitão António José da Costa.
2.º Tenente João Custodio Villas Boas.

Primeiro Regimento de Cavalaria. [7]
Capitão José de Mello de Sousa Menezes.
Capitão Teodoro Burlamaque.
Tenente Sebastião Rodrigues, 
Alferes Rodrigo Antunes
Alferes António Duarte Reis Villas Boas. 
Alferes Luiz Bernardo Machado. 
Alferes António Maria de Azevedo.

Segundo Regimento de Cavalaria. [10]
Tenente Coronel Comandante Joaquim Cláudio Cabral Barbosa Pitta.
Capitão António Maria José Xavier de Sousa. 
Capitão Filipe Neri de Oliveira.
Capitão Francisco Nunes do Amaral.
Tenente João Vellez da Gama.
Tenente Anselmo José Vallejo.
Alferes José António Mainarte
Alferes Cláudio José Dias
Alferes Cláudio José dos Santos
Picador António José Cambeta. 

Primeiro Regimento de Infantaria. [1]
Capitão Quartel Mestre João António Branco.

Segundo Regimento de Infantaria. [8]
Coronel e Comandante da primeira Brigada João Crisóstomo Calado.
Capitão Salustiano Severino dos Reis. 
Tenente José da Crus de Freitas.
Tenente Joaquim José Pereira.
Alferes José Inácio Burguete.
Alferes José Hermenegildo Horta. 
Alferes João Inácio Xavier. 
Alferes Sebastião Correia
 
1.º Batalhão de Libertos. [2]
Tenente António Inácio da Veiga.
Quartel Mestre Jerónimo da Costa Ramalho.

2.º Batalhão de Libertos. [6]
Capitão Comandante João Pedro Xavier Ferrara.
Capitão, Comandante pela Deserção do 1.º Caetano Cardoso de Lemos.
Tenente Francisco Esteves de Figueiredo.
Alferes António d' Antão [?] e Silva.
Alferes António Pinto Homem [?].
Alferes José Pedro de Araújo. 

Repartição da Cirurgia. [8]
Deputado do Cirurgião Mor do Exército José Pedro d' Oliveira.
Cirurgião Mor Francisco Andrade Taborda. 
Cirurgião Mor Joaquim António Salvaterra. 
Cirurgião Mor Julião José de Almeida.
Cirurgião Mor Joaquim José Barrão 
Cirurgião Mor Manuel Alexandre de Mota.
Cirurgião Mor Bernardo Machado da Cunha.
Ajudante de Cirurgia João Alexandre da Mota
N. B. Todos estes Cirurgiões Mores, estavam encarregados nesta Praça, e suas imediações de Hospitais Regimentais; deixaram os doentes por algum tempo sem recursos, e roubaram os Hospitais de que cuidavam. 

Repartição do Comissariado. [14]
Auditor da Divisão, e Encarregado da Repartição — António Gerardo Curado de Menezes.
Assistente Comissario José Alberto da Silveira.
Assistente Comissario Gregório José de. Carvalho.
Comissário Rodrigo de Vasconcelos Parada.
Comissário No[r]berto Trancoso.
Comissário José Maria da Cunha.
Comissário António Joaquim de Sonsa Perez.
Comissário Joaquim do Nascimento Correia.
Comissário Francisco Constâncio Maleval.
Escriturário Manuel Gomez Ribeiro.
Escriturário João Morezi.
Fiel José Joaquim Gomez.
Fiel Veríssimo Garcia.
Fiel Joaquim Domingos. Machado.

Repartição da Tesouraria. [5]
Comissário Assistente, Encarregado da dita, José Joaquim Justiniano.
Comissário pagador José Jesuíno de Godoy Barreto
Comissário pagador José da Silva Freire.
Comissário pagador Custodio José Pimentel.
Oficial de bofete. Luís César de Ataíde.

N. B. Os primeiros dois e o ultimo desertaram desta Praça; e os outros dois estando em diligência não recolherão segundo as ordens de S. E. o Senhor General D. Álvaro da Costa, Comandante Interino; e sabe-se que seguem a causa do Rio de Janeiro.

Desertores da Fragata Tétis, surta na baía desta Cidade. [6]
Vice Almirante Graduado, Rodrigo José Ferreira Lobo.
Capitão Tenente e Comandante da dita, Manuel de Sequeira Campelo.
1.º Tenente Cipriano José Pires.
Cirurgião Joaquim José de Carvalho. 
2.º Piloto, Luís Capelani.
Capelão Fr. João dos Remédios

Capitania do Porto. [1]
1.º Tenente servindo de Capitão do Porto, José Edgar.

* * *

Oficiais da sobredita Divisão dos V. R. d' Rei, que não Desertaram, mas tem seguido a mesma causa da Independência do Governo do Rio de Janeiro, sendo portanto Traidores à sua Pátria, bem como os já Relacionados.

1.º Batalhão de Caçadores [11]
Coronel Graduado Comandante Manuel Jorge Rodrigues.
Major João Teixeira de Queiroz [?].
Capitão Francisco Xavier da Cunha (o inabalável.)
Tenente Luís Manuel de Jesus.
Tenente José dos Santos Pereira.
Tenente João de Cunha Lobo.
Tenente António Mania de Gouveia.
Tenente António Osório de Magalhães.
Alferes António Jacinto da Costa Freire.
Alferes Francisco Rodrigues Pereira.
Quartel Mestre Manuel Mendes

Segundo Batalhão de Caçadores. [9]
Coronel Graduado e Comandante, Francisco de Paula Rosado.
Capitão Francisco de Paula Cabrita.
Ajudante Gregório José dos Santos.
Tenente José Fernandes dos Santos.
Tenente João Teixeira de Macedo.
Tenente José Osório de Magalhães.
Tenente Gaspar José de Brito.
Alferes Manuel Joaquim de Sousa.
Alferes Jerónimo Herculano Rodrigues.
 
Batalhão de Artilharia a Pé. [7]
Major Comandante Vicente António Buys.
Capitão João Caetano Rosado.
Tenente Roque António de Faria.
Tenente Gabriel António Franco de Castro
2.° Tenente Domingos Alves Damião.
2.° Tenente Teodoro José Alves.
Cirurgião Mor José Rebolido Pinheiro.

N. B. Consta que o primeiro Tenente Gabriel, e o 2.° Tenente Damião, foram para a Colónia. para dali embarcarem com o resto dos Caçadores, e bem assim o Cirurgião Mor Rebolido. 

O interesse que tenho em fazer conhecer ao Mundo inteiro os nomes de tão perversos infames, e indignos Portugueses, me obrigou a publicar esta relação, e pode o Publico ficar certo. que logo que haja mais algum (o que não é de esperar) farei públicos pela imprensa os seus nomes.—Montevideu 3o de Janeiro de 1823. — Hum Lusitano Constitucional amante da sua Pátria.


Fonte
- jornal Aurora, n.º 17 - suplemento, 20 de Fevereiro de 1823, Montevideu.



domingo, 13 de fevereiro de 2022

Memórias e Reflexões sobre o Rio da Prata, extraídas do diário de um oficial da marinha brasileira (Jacinto Roque de Senna Pereira, 1849)


A 16 de Fevereiro de 1850, a quatro meses de falecer aos 66 anos, o chefe de divisão Jacinto Roque de Senna Pereira entregou ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do qual era sócio, quatro folhetos impressos contendo as suas Memórias e Reflexões Sobre o Rio da Prata. Na entrega, o antigo ministro da Guerra (1839) e da Marinha (1840) reflete criticamente sobre a importância da sua obra:  "Sei que não tem ella […] valor intrinseco, mas poderá talvez servir de auxiliar ou reportorio aquelle d'entre os nossos sabios que se dedique a escrever detalhadamente a historia do Imperio Brazileiro".

Nascido em Lisboa em 1784, Senna Pereira cursou Matemática na Real Academia de Marinha. Em 1802, embarcou como voluntário no bergantim Real João, servindo na Esquadra do Estreito, no Mediterrâneo. A 18 de março de 1811, foi promovido a segundo-tenente, iniciando assim o seu percurso de oficial da marinha que terminou como chefe de divisão (equivalente sensivelmente  a contra-almirante). 

Para a compreensão do extrato que apresento, Senna Pereira, como primeiro tenente, foi em 1818 nomeado comandante da escuna Oriental e da esquadrilha naval com que se pretendia entrar no rio Uruguai, com o fim de fazer a tão necessária ligação de Lecor e as forças portuguesas em Montevideu com as forças do Exército do Brasil que efetuavam, desde Março desse ano, uma ofensiva sobre a margem esquerda do rio, sob o comando do tenente general Joaquim Xavier Curado (1746-1830). Os problemas de comunicação eram um dos mais graves problemas das forças portuguesas que invadiam a Banda Oriental, não só pelas vastas distâncias em jogo, mas fundamentalmente pela perturbação que as tropas federais de Artigas causavam neste fluxo de comunicação já de si difícil.

O extrato cobre sensivelmente o período entre a entrada da esquadrilha no rio Uruguai (2.5.1818), sem oposição por parte de Buenos Aires, e a difícil subida do rio, uma área desconhecida para os marinheiros e os oficiais. Descreve o combate do Paso de Vera (3.5.1818), em que a escuna Oriental enfrenta uma bataria de artilharia no lado ocidental do rio. Refere, com algum pormenor, a ligação entre a escuna Oriental e as forças do general Curado, a 13 de Maio, e por último fala das ações tanto terrestres como navais que decorreram entre 15 e 18 de Maio, conhecidas coletivamente como Surpresa do Arroyo de La China, em que Bento Manuel Ribeiro (1783-1855) passou à margem ocidental do rio e destroçou as forças orientais presentes em Perucho Verna, Calera de Barquín e a referida vila do Arroyo de La China (hoje Concepción del Uruguay).

A transcrição foi feita a partir da edição impressa da Revista Militar Brasileira, em 1912, com a modernização da ortografia, assim como a utilização dos nomes originais dos locais em espanhol. Há, no entanto, uma outra edição, um pouco mais completa (tendo uma parte final referente a parte de 1819 e a 1820), publicada em 1931 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, e a partir da qual foi editada uma versão traduzida para castelhano no periódico uruguaio Boletin Histórico, em 1964. O caro leitor que queira ler as versões integrais poderá encontrar algumas ligações ao fim desta postagem.


* * *


MEMÓRIAS E REFLEXÕES SOBRE O RIO DA PRATA, extraídas do diário de um oficial da marinha brasileira (Jacinto Roque de Senna Pereira) e publicadas em 1849. [extrato]

[...]

Duas memoráveis batalhas campais (a de Catalán e a de India Muerta) reduziram o inimigo a deixar o passo franco aos nossos exércitos. A primeira foi ganha gloriosamente pelo exército brasileiro, apesar de surpreendido, em 4 de janeiro de 1817; a segunda dada bizarramente pela vanguarda da divisão de Voluntários Reais no dia 19 de novembro de 1816.

Comandou na ação o exército brasileiro o marquês de Alegrete, capitão-general da província de S. Pedro, que acidentalmente se achava no exército, retirando-se depois para Porto Alegre a 25 de dezembro do mesmo ano, deixando o exército a seu general em chefe Joaquim Xavier Curado, ínclito varão, cujo nome será sempre respeitado e que deu honra e grande credito ao país em que nascera. Era o comandante da vanguarda da divisão de Voluntários Reais de El-Rei o marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia.

O general Curado, enquanto esperava na fronteira a aproximação do exército do general Lecor e as precisas ordens para invadir o território Oriental, aproveitou o tempo para aguerrir seu exército, do que resultaram as vantajosas e assinaladas batalhas de S. Borja, Ibirocaí, Carumbé, Arapeí, Belém e outras, nas quais tanto figuraram os nomes de muitos bravos brasileiros, com especialidade os de José de Abreu, João de Deus Menna Barreto, Joaquim de Oliveira Álvares e Bento Manuel Ribeiro.

O general Curado, atravessando o Estado Oriental, marchou em uma direção quase paralela à do exército do general Lecor, e acampou na margem esquerda do Uruguai.

A divisão de Voluntários Reais entrou em Montevideu no dia 20 de janeiro de 1817, achando a praça abandonada e bloqueada por mar por nossas forças marítimas debaixo do comando do conde de Viana.

E destarte ficaram os dois exércitos separados um do outro por cerca de oitenta léguas.

D. José Artigas e D. Frutuoso Rivera, o primeiro chefe supremo da Republica e patriarca da Federação (2), o segundo seu imediato, tanto em prestígio como em força, puderam entretanto reabilitar-se das perdas ultimamente sofridas nas duas batalhas já indicadas e preparar-se senão para novos, combates decisivos ao menos para uma guerra de recursos; e conhecedores da índole daqueles habitantes, lançaram mão dos mais poderosos meios de os chamar às armas e de os reter com elas, — o da nacionalidade ofendida e o fuzilamento.

Assim conseguiram eles formar fortes guerrilhas e intercetar de tal modo a comunicação entre os dois exércitos que mister foi procurar-se um meio que os pusesse em relação, resultando daí a ideia da organização de uma esquadrilha.

O general Lecor, como capitão-general de mar e terra, havia pedido ao almirante Lobo dois oficiais de marinha e recaiu a escolha em Luís Barroso Pereira [1786 -1826] e Jacinto Roque de Senna Pereira [1784-1850], este natural de Lisboa, aquele de Minas Gerais; Barroso partiu logo para Buenos-Aires como em comissão secreta ao supremo diretor da Republica e Senna Pereira teve a nomeação de comandante da escuna Oriental e da esquadrilha.

Barroso foi distintamente acolhido tanto pelos particulares como pelas pessoas do governo de Buenos-Aires, o que não é para estranhar visto o excelente carácter e instrução daquele oficial e o estado de desordem em que se achava aquela capital.

Nas conferências havidas com Barroso parecia que o governo de Buenos-Aires marchava de acordo com o general Lecor em tudo que dizia respeito à destruição de Artigas e nossa ocupação pacífica ; mas assim mesmo não deixava aquele governo de fixar as bases sobre as quais no futuro poderia levantar-se. firmemente o edifício político que serviria de forte antemural para combater a nossa invasão à mão armada em um território que, apesar de solene declaração de Artigas, Buenos-Aires considerava como parte integrante daquela Republica; neste sentido mandou a Montevideu por vezes os emissários coronel Vedia [Nicolás de Vedia, 1771-1852] e dr. Passos, conservando ali por longo tempo a D. Santiago Vasques [Santiago Vázquez, 1787-1847]; protestando sempre os emissários ao general Lecor, e mesmo o diretor a Barroso, que tal proceder nada tinha de positivo, sendo seu único objeto tranquilizar as províncias do interior, já ciosas por nossa proximidade e pelos continuados triunfos adquiridos por nossas armas.

Pelos mesmos especiosos motivos se dificultou a entrada da esquadrilha no Uruguai pelo Passo da Ilha de Martim Garcia, o que ultimamente se concedeu por se conhecer que de contrário se poderia usar de força.

No dia 2 de maio de 1818 penetrou pela primeira vez no Rio Uruguai a nossa esquadrilha composta da escuna Oriental e das barcas Cossaca, Mameluca e Infante D. Sebastião.

Todos os que iam por práticos dessas embarcações eram tão ignorantes da navegação do rio como qualquer dos comandantes, que pela primeira vez davam vista daquelas paragens de tão agradável perspetiva e tão pitorescas como as que se descobrem na província de S. Pedro do Sul, desde o Itapuã à cidade de Porto Alegre, cujo nome com tanta propriedade lhe foi dado.

A custa de fadigas e perseverantes trabalhos ia-se vencendo a viagem, e pode-se dizer que tal expedição tinha muita semelhança com a empreendida pelos primeiros navegadores que ousaram descobrir os mesmos inóspitos lugares.

Era do dever do comandante da esquadrilha abrir comunicação com o exército do general Curado o mais brevemente possível, e as dificuldades naturais que se iam vencendo e renovando tornavam a viagem de uma morosidade censurável e bem desgostosa.

Como a escuna Oriental e a barca Cossaca encalhavam menos vezes, sem dúvida por nadarem em menos água, deliberou o comandante da esquadrilha subir só com essas duas embarcações, deixando as restantes encalhadas com uma lancha para as auxiliar. Em poucos dias favorecidas do vento avançaram elas sem inconveniente bastantes léguas, e então, tornando-se o vento contrário, foi expedida rio abaixo a Cossaca para que, já mais senhora da navegação, pudesse servia às outras de guia seguro.

Dois dias depois voltou o vento ao sul, e aproveitando-o subiu a Oriental sem mais alguma outra embarcação que a acompanhasse. 

[5.5.1818] Na manhã do dia seguinte descobriram-se sobre a margem direita do rio (província de Entre Rios, por ser banhada pelos Uruguai e Paraná) dois cavaleiros, os primeiros homens avistados e que rapidamente se ocultaram apenas a Oriental se lhes aproximou; um pouco mais acima foi a Oriental canhoneada repentinamente por uma bateria à barbeta [posição de tiro da artilharia ao descoberto] com três bocas de fogo, situada em uma pequena aba que forma o arvoredo em toda aquela costa, chamando-se a paragem Paso de Vera, por ser lugar estreito e por isso fácil a comunicação de uma a outra costa. Travou-se o combate que duraria por três quartos de hora, havendo intervalos nos quais o fogo da Oriental fez calar o da bateria, desmontando-lhe uma peça com perda de alguns homens, o que visivelmente se conheceu pela proximidade.

Hora e meia depois estava a escuna fundeada próximo à margem esquerda do rio, costa oriental, e ao abrigo de uma ilha; o estrago recebido foi algum pano furado, uma bala cravada no mastro grande, dois rombos no costado e um homem da guarnição levemente ferido.

Para que a escuna Oriental chegasse até onde estava acampado o general Curado era preciso vencer ainda mais de quinze léguas rio acima, bater mais duas baterias colocadas do mesmo lado da costa em frente a Paysandú e no arroio Perucho Verna [c. 16 km a norte de Paysandú, na margem ocidental, imediatamente a norte da atual Villa San José] e atravessar as sinuosidades complicadas do no, que se tornavam difíceis porque a agua ia diminuindo, e portanto a desejada e necessária comunicação ainda tinha dias de demora.

Há sucessos porém que parecem determinados pela providência como presságios de grandes acontecimentos, e tal foi o combate de Passo de Vera.

A aurora do dia 13 despontava risonha e aprazível, o rio corria brando e cristalino e apenas era bafejado pela brisa do norte anunciando um belo dia.

O prazer reinava em toda parte e todos estavam satisfeitos quando se começaram a divisar alguns cavaleiros sobre as colinas vizinhas, cujo numero foi prodigiosamente aumentando e por isso se tornou suspeito. A escuna preparou-se para qualquer eventualidade e arvorou a bandeira nacional; a qual sendo por aquela multidão reconhecida causou uma cena de entusiasmo, que só pode conceber um coração também surpreendido por tanta alegria. Fizeram-se correrias em diversos sentidos como noticiando-se mutuamente; mil cortejos, tiros e vivas repetidos formaram com o retinir das armas um tumulto que só terminou com a chegada ao lugar do embarque.

Fácil é conhecer que tal gente pertencia ao exército brasileiro ao mando do general Curado, exército sempre aguerrido, triunfante sempre, enquanto lhe coube a sorte de ser comandado por general tão hábil e honrado, tão inteligente e integro, tão bravo e perfeito militar.

Na ocasião do combate o vento reinava pelo sul, e correndo o rio ao norte, brevemente chegou ao acampamento daquele exército o troar dos canhões, o que sendo ouvido pelo general fez expedir logo uma forca a descobrir a causa, e foi deste modo extraordinário que se abriu a desejada e necessária comunicação com maior rapidez do que razoavelmente se podia esperar.

Mal pensava o inimigo que por sua ostentação de força havia de ser ele mesmo com seu fogo quem acelerasse sua própria ruína!

Para logo o general resolveu dar movimento ás suas forças afim de distraí-las da inação em que já se achavam, e projetou um plano de ataque sobre a província de Entre-Rios, no lugar da costa onde havia um deposito de Artigas, estavam situadas as três baterias e estacionavam para mais de seiscentos homens de infantaria ao mando do coronel Aguiar.

As restantes embarcações da esquadrilha reuniram-se quatro dias depois de aberta a comunicação, tendo sido oportunamente avisadas da existência da bateria no Passo de Vera, com a qual trocaram sempre alguns tiros em sua passagem, navegando então com vento fresco em popa.

Na tarde do dia 18 intimou-se ao comandante da bateria que se rendesse, e que a vila do Arroyo de la China [atual cidade de Concepción del Uruguay] seria no dia imediato tomada e entregue ao saque, se a bateria não nos fosse entregue dentro de um prazo marcado.

O exército havia no entanto levantado o acampamento, e seguido uma direção que indicava querer aproximar-se à esquadrilha; fez porém alto logo que escureceu e separou-se um pouco da costa, para a qual destacou já noite escura e sem que o inimigo o percebesse uma coluna composta de quinhentos combatentes ao mando do intrépido Bento Manuel Ribeiro, pondo assim em ação a mais hábil estratégia.

E por um desses atrevimentos militares, que só concebe e bem executa o génio e a bravura, a coluna brasileira passou durante a noite ao outro lado do rio, com todo o seu armamento, munições, cavalhada, arreios e mais trem, auxiliada unicamente por uma lancha e duas canoas que cautelosamente se haviam ocultado ao inimigo; servindo de muito, para o bom desempenho de plano tão arriscado, o desembaraço e agilidade do nadar de quase todas as praças rio grandenses, que meteram corpos no rio dirigindo deste modo a cavalhada com destreza tal, que nem um só cavalo se perdeu; e antes do alvorecer a força achava-se em marcha sem ter sido pressentida pelo inimigo.

Proximamente a este intervalo as embarcações da esquadrilha espiavam a tomar posição conveniente para flanquear a bateria de Passo de Vera.

Toda a vigilância do inimigo pois foi chamada sobre a costa, e tão atento se achava que, por vezes, fez fogo sobre os escaleres que adrede se aproximavam.

Tarde, porém, deram os descobridores do inimigo com a nossa força, e hesitando por algum tempo sobre que gente era essa que avistavam, ficaram em inação, até que carregados por nossa vanguarda levaram com pouca diferença de tempo a noticia e o terror ao seu acampamento, que quase surpreendido mal soube se defender, sendo a bateria repentinamente abandonada mal reconheceu a posição de nossas embarcações, e sem que houvesse tempo de dar-se um só tiro.

E destarte, sem prejuízo nosso e em bem pouco tempo, o coronel Aguiar parte de seus oficiaes e mais praças do corpo do seu comando ficaram prisioneiros, excedendo em total ao numero de trezentos.

Todas as baterias foram tomadas e destruídas, sua artilharia e trem embarcados, menos duas bocas de fogo dos calibres 18 e 12 que por velhas e mui pesadas se lançaram ao rio.

Doze embarcações, que Artigas havia tomado em Buenos Aires, uma lancha artilhada e um escaler, foram apresados no arroio Perucho Verna, e nestas embarcações como em algumas da esquadrilha foram recolhidos os prisioneiros e todo o espólio.

Era então presidente e comandante em chefe das forças militares daquela província D. Francisco Ramirez [1786-1821], gaúcho  intrépido e afortunado, e que nessa ocasião se achava a doze léguas de distancia em seu parque com mais de seiscentos homens.

E à primeira noticia por ele recebida da nossa invasão, pôs-se em marcha para socorrer o coronel [Gorgonio] Aguiar, e castigar, como ele dizia, semelhante atrevimento; mas recebendo logo a participação de estar tudo perdido, reservou o prometido castigo para melhor ocasião, e pôs-se em retirada para a costa do Paraná, abandonando mais de cem homens há pouco por ele recrutados, os quais caindo em poder de Bento Manuel foram postos em liberdade, por se julgar que assim se prejudicava ao inimigo.

A distância que desde então ficou mediando entre as duas forças, era de natureza a não permitir a Bento Manuel o manobrar contra seu adversário sem carregar com o peso de uma grande responsabilidade: já porque a sua força constava unicamente de quinhentos homens, e tinha de atravessar toda a província inimiga, sem contar com mais recursos que os que pudesse acharem si; já porque nesse caso a separação do corpo do nosso exército era considerável pela distancia, e não era possível a junção com este em caso urgente e repentino; já finalmente porque as instruções o não permitiam.

A não se darem tão fortes razões estamos persuadidos de que a província de Entre-Rios cairia em nosso poder em poucos dias: tal era o terror e desanimo que, não só o sucesso recente como o das batalhas anteriormente ganhas, tinha impressionado nos espíritos de todos os seus habitantes, sem excetuar mesmo o do seu guerreiro mais denodado!

Oito dias depois estava reunida ao exército a coluna expedicionária, e este com mais mobilidade, melhor cavalhada tomada ao inimigo, e seu credito mais reforçado pelo bom resultado da expedição; e livre a navegação do Uruguai de todo o obstáculo por parte do inimigo por haverem sido tomadas e destruídas as baterias que o vedavam.

No dia imediato àquele em que tudo se tinha embarcado e posto em segurança, entrou na vila do Arroyo de La China o comandante da esquadrilha, antes que Bento Manuel nela tivesse penetrado.

Achavam-se ali, como emigradas, a maior, parte das famílias que Artigas tinha obrigado a evacuar as vilas da Purificación e Paysandú, para deste modo pôr em penúria o exército, que já com grande custo podia conseguir o gado necessário para o consumo diário, pois que o inimigo não havia retirado antecipadamente para grande distancia.

A exceção de algumas famílias pertencentes a indivíduos comprometidos e empregados no exército contrário, e domiciliárias da Purificação, todas as demais rogaram àquele comandante que as restituísse ao seu país e lar doméstico, o que efetivamente ele satisfez empregando-se quatro dias no transporte.

[...]

NOTAS

(2) Dava-se este titulo a Artigas com supersticiosa veneração, como meio poderoso contra a política de Buenos Aires.

Extrato retirado de: Revista Marítima Brazileira, Ano XXXII, n.º 1, Julho de 1912, Rio de Janeiro, Oficina Gráfica da Liga Marítima Brazileira, pp. 67-94. 


* * *

Edições das Memórias e Reflexões sobre o Rio da Prata:

- Edição original de 1849;

Revista Marítima Brazileira, Ano XXXII, n.º 1, Julho de 1912, Rio de Janeiro, Oficina Gráfica da Liga Marítima Brazileira, pp. 67-94. 

- Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, Ano XI, 2.º Trimestre, Porto Alegre, Tipografia do Centro, 1931, pp. 217-299 [ler aqui]

- Boletin Historico, n.º~100-103, Estado Mayor General del Ejercito, Montevideo, 1964, pp.177-202




terça-feira, 28 de setembro de 2021

Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816 (J. J. Machado de Oliveira)

 


“Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816".

Autor: José Joaquim Machado de Oliveira (Legião de São Paulo)

Datas extremas: 18.3.1816 - 9.3.1820

(Publicado em Revista do Arquivo Municipal, Ano VI, Volume LXXII, Novembro-Dezembro 1940, São Paulo, Departamento de Cultura da Prefeitura, pp. 5-20) [Leia online aqui - abre nova página]

* * *

[Início]

1816. 1.ª Campanha. 

Março 18. Saí de Pôrto Alegre embarcado e com tropa - 23. Cheguei à Vila do Rio Pardo.

Julho, 29. Saí de Rio Pardo com tropa, e acampamos na Picada. 30. Na Cruz Alta. - 31. No Campo de Felipe Carvalho.

Agosto 1. No Arroio Butucaraí. Passo de cima. - 2. No Capão dos Enforcados. 3. No Passo de Jacuí, aonde se esteve o dia. 4. Ocupado na passagem do rio. - 5. A meia légua distante daquele passo. - 6. No Passo da Estiva. – 7. Na Restinga Seca, estância de Antônio Gonçalves Borges. - 8. No Arroio do Sol, aonde se esteve também o dia 9, por chover muito. - 10. No capão de Manuel Paim. - 11. No Arroio de Santa Maria. - 12. No capão da eståncia do Pompeu. - 13. No rodeio velho das éguas do Felipinho ou Felipe Santiago. - 14. Na estância do Serino (Cirino ?), irmão de meu pag. (pagem ?) Domingues. - 15. Na estância do tenente-coronel Carneiro, ou Pau Fincado. — 16. Na estância de Manuel Ferreira, seu genro. - 17. Na estância de São Felipe. - 18. Na margem esquerda do Arroio Cacequi. Morreu afogado o cabo Malaquias. - 19. Ao pé da estância do inglês Daniel Luiz Carlos. - 20. No Passo do Rosário, aonde estivemos até o dia 29. - 30. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 31. No Vacacuá. estância de Antônio Caetano. 

Setembro 1. Na Guarda da Conceição. aonde estivemos os dias 2 e 3. - 4. No Arroio da Porteira (?) ao pé da estância de Inácio Adolfo. -. 5. No Pôrto do Alferes Pinto.- 6. Nas cabeceiras do Ibirapuitã Chico, aonde estivemos o dia 1. - 8. No campo de João da Costa. - 9. Em São Diogo. - 10. ... pontas do Arroio de Valença. - 11. Acampamos no Boqueirão das Lagoas - 12. Na tapera do Leme, ou Capão do Cirurgião. Ali chamando-nos o Abreu (tenente-coronel José de Abreu) a conselho, decidiu-se que deviamos ir à Provincia das Missões, já invadida pelos insurgentes deixando a nossa marcha para Belém. - 13. No Suaraim chico. - Passo das carretas 14. No Arroio Garopá. - 15. No Arroio Camoatim. - 16. No Arroio Caoati.  -- 17. Num dos galhos do Toro-passo. - 18. No Arroio Toro passo, aonde estivemos o dia 19, passando 0 Arroio, que estava de nado. - 20. No Arroio Cochi-passo. Foram vistos alguns bombeiros (espiões) do inimigo. - 21. Na estância do Aferidor. Ali fizemos passar para o outro lado do Uruguai os Insurgentes, que se achavam, tanto na estancia, como no Passo de Santa Maria no Ibicui, aprisionando-se 2 homens e 6 mulheres (?) e alguma cavalhada. Falhamos o dia 22. - 23. No Ibiraocaí - 24. Acampámos no Ibiricui, aonde estivemos passando o dia 25. - 26. Na estância de Joãozinho de Oliveira. Neste dia bateram-se duas partidas inimigas, que andavam em saque. Foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 26 insurgentes. - 28. Na estância do Padre Alexandre, aonde falhámos o dia 29, por chover muito. Foram vistos dois bombeiros (espiões) do inimigo. - 30. No capão de João Machado. 

Outubro 1. Na margem direita do Arroio Butuí, de nado. - 2. Além do Banhado de S. Borja. Ali estivemos até o dia 4. 5. No outro lado do Banhado de S. Borja. - 6. Neste dia fomos. ao Butuí, na sua barra, como não encontramos uma partida inimiga que ali fôra vista, retrogradamos... chovia. - 7. Acampamos no Povo de S. Borja, e ali estive até o dia 23, ocupado numa inquirição - 24. No Ivaí, aonde estava a divisão. - 25. No Capão de Butuí. - 26. No Butuí-chico. - 27. No pôrto da estância de Santa Rosa. - 28. No Ibicuí, Passo de S. Rosa e ali nos demoramos o dia 29 na passagem. -- 30. No capão da estância do tenente Olivério. - Na margem esquerda do Ibirapuită, Passo Guassú.

Novembro 1.º No Pai-passo. 2. Na tapera de Inácio dos Santos Abreu, – 3. Em S. Diogo. Ali se achava o Regimento da Ilha. - 4. No acampamento do Ibirapuitã, aonde estava o exército, Ali estivemos até 20 de dezembro.

Dezembro - 25. Marchou todo o exército e acampamos ao pé da estância do Cláudio. - 26. Saí para o Côrpo da Vanguarda, e acampamos ao pé da tapera do Cláudio, aonde se falhou o dia 27. - 28. Acampamos no campo de Juca Mingote. - 29. No Indahim, onde se falhou o dia 30. - 31. A vanguarda marchou um quarto de légua sobre a frente, aonde se falhou o dia 1.º de janeiro de 1817. 


1817.

Janeiro 2. No Arroio Catalã. A vanguarda marchou às 6 da tarde para o Arapeí, chegou alí a 3, atacou o acampamento inimigo e voltou no mesmo dia para Catalã, aonde chegou às 7 da tarde. No dia 4 houve nesse lugar a batalha de Catalã, e falhou-se o dia 5. - 6. Num dos galhos do Arroio Catalã, aonde se falhou os dias 7. 8. 9 e 10. - 11. Na barra do Catală, aonde se falhou os dias 12, 13, 14 e 15. - 16. No Suaraim, no Passo do Lageado. Dêste lugar saí em diligência para Pôrto Alegre a 29 e fui pernoitar na estância de João dos Santos Abreu. 30. No porto da estância de Joaquim Luiz - 31. Na estância de capitão Brito.

Fevereiro 1. Na estância do tenente-coronel Antônio Pinto. - 2. Na estància de S. João. - 3. Pernoitei nos Morais. - 4. Na Cachoeira. - 5. Em Rio Pardo. - Embarquei para Porto Alegre. - 8. Em Porto Alegre, aonde estive até o dia 3 de março, e embarcando com tropa para o Rio Pardo, ali cheguei no dia 11.

Março 15. Saimos de Rio Pardo e acampamos no Capão da Vendinha do Arroio das Pedras. -16. No Butucaraí. Passo da Ponte. - 17. No Passo de S. Lourenço no Jacuí, 18. Em Santa Bárbara. - 19. Na estância do Corcundinha. - 20. No Arroio da estância do capitão Freire - 21. No ... de Luiz Machado - 22. Na estância do Padre João de Almeida. - 23. No Vacacaí, estância do coronel Pinto. - 24. No pôrto velho do Batoví. -- 25. No Passo de S. Borja. - 26. No Capão do Severo. - 27. Na Guarda da Conceição, donde se falhou o dia 28, por quebrar-se o eixo do carro. 29. Acampamos no pôrto de Joaquim Luiz. - 30. Na Estância do Tulio. 31. No campo de Juca Mingote.

Abril 1. No acampamento do exército no Suaraim, aonde estivemos até 20 de março de 1818, e a 21, marchando o exército, saí daquele acampamento com a tropa comandada pelo coronel Abreu, e acampamos no Arroio Sarandi.


1818.


Março 22. Nas pontas do Sarandi. - 23. No Arroio do Areal, estância do Guarda-mor. - 24. No Capão do Tigre, estância de Joaquim Pôrto. ---- 25. Nas pontas do Nhanduí, onde se falhou o dia 16, por chover. -- 27. No capão da estância de Gaspar Nunes. - 28. Na capela de Alegrete. Saí dêste lugar para Porto Alegre em diligência no dia 3 de junho e fui pernoitar na estância do Dornellas.

Junho 4. Na estância do major João Machado Bitancourt. - 5. Na estância do Severino. --- 6. Pernoitei na estância do capitão José Machado. - 7 No pôrto da estância de S. João. - 8. Na estância do alferes Machado.- 9. Na freguezia da Cachoeira. – 10. Na vila de Rio Pardo, aonde embarquei no dia 11, e no dia 12 cheguei a Pôrto Alegre.

Saí de Porto Alegre em 6 de novembro, embarcado, e cheguei a Rio Pardo a 12 do dito, de onde saí a 23 e pernoitei na chácara do capitão Bernardo. - 25. No Passo de S. Lourenço.-- 26. Em Santa Bárbara. -27. Na estância de Manuel Rodrigues Penteado. - 28. No Adolfo. 29. Na tapera de Luiz Machado. - - 30. Na estância do padre João de Almeida.

Dezembro. 1. Na capela de S. Gabriel. - 2. Na cochilha de Jubatuim. - 3. Na estância de Antônio Francisco. -- 4. No Passo do Rosário. - 5. Na estância da Côrte Real, no Capão. 6. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 7. Na estância do capitão Florêncio. -- 8. Na estância de José Maria. - 9. Na capela de Alegrete. Primeiro movimento da guarnição para a fronteira. A 25 de dezembro saiu de Alegrete a guarnição e foi acampar no Arroio Pai. Passo. - 26. No mesmo Arroio. No Passo da Marmota. - 27. Na estância da Marmota. -- 28. Numa das pontas do Pai-Passo. - 29. 


[1819]

Em outra ponta do dito, aonde estivemos até o dia 4 de janeiro de 1819, e no dia 5, marchando-se para a fronteira, soube se que o inimigo se retirara, e por conseguinte retrogradou-se, e acampamos no arroio da divisa do Marmota. 6. No lado esquerdo do Ibirapuitã. - Passo guassú. 7 - Na capela do Alegrete.

Segundo movimento. A 1.º de Abril saímos da Capela de Alegrete, em consequência da segunda invasão das Missões, e acampamos a meia légua distante dali, à margem do mesmo Ibirapuitã, e dêsse lugar passamos para o Pôrto das Pedras, ao pé da Capela, a 10 do dito mês. A 17 chegou o sr. Conde da Figueira, e a 20, movendo-se a divisão, acampou do outro lado do Ibirapuità - Passo guassú. 

Maio 21. Num capão do campo do Joaquim Machado. 22. No Ibicuí, Passo de S. Rosa, aonde nos demoramos a passá-lo o dia 23. ---- 24. No Pôrto de .... de S. Rosa. -- 25. Nas pontas do Butui. - 26. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel -- 27. No Camacuã. Ali nos reunimos com a tropa do marechal Chagas. -- 28. No Itaraoquim. 29. No capão do pôrto do Severino. - 30. Piratini, Passo Novo da Figueira. -- 31. Ao anoitecer marchamos, e ao amanhecer paramos em uns capões ao pé da estância de S. Jerónimo. 9.

Junho 1. Ao anoitecer marchamos e fomos amanhecer no dia 2 no Povo de S. Luiz, e acampamos fora - 3. Acampamos dentro do Povo de S. Luiz, aonde estivemos até o dia 9. 10. No Passo de Pirajú. - 11. Nuns capões de S. Jerónimo. -- 12. Estando assentado... no Arroio Guaraçá, marchamos para o Povo de S. Nicolau, por saber que o inimigo o evacuava. - 13. Marchamos com destino para o Passo de S. Isidoro, e por se achar o Arroio Jacatobá de nado, aí acampamos. - 14. Meia légua distante do Passo Geral do Piratini. 15. Apartando-se a Legião da divisão, para unir-se ao Côrpo de Abreu, acampou no capão do Porto do Severino.- 16. Em Itaroaquerim. - 17. Na estância de S. José, do Chagas, - 18. No Passo de S. José do Camacuã. -- 19. No G...iaçai, aonde se achava a tropa do Abreu. - 20. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel... 21. Nas pontas do Butui. - 22. Acampamos no capão da estância do Cunha. -- 28. No Ibirapuitã, Passo guassú.- 29. Na Capela de Alegrete.

Julho - Nos dias 4, 5, e 6 de julho marchou a divisão do brigadeiro Abreu, e eu fiquei para me retirar para Pôrto Alegre em consequência do meu emprego. - 31. Saí da Capela de Alegrete e pernoitei na estância de Felipe Carvalho.

Agosto. 1. Em Taperí, chácara de Joaquim Leonel. 2. No banhado de Saicã, meia légua distante do Pôrto da estância de Antônio Franeisco. -- 6. Na estância do major Tomaz 7. Na Capela de S. Gabriel, aonde falhei o dia 8. - 9. Na estância do tenente-coronel Antônio dos Santos - 10. Na estância do Mancio. - 11. Na estância do Quartel Mestre. - 12. Pernoitei na estância do Machado Gordo, ao pé da estância do tenente Ricardo. -13. Na chácara de Manuel Joaquim Teixeira no Capão dos Enforcados. 14. Na Cruz Alta. - 15. Em Rio Pardo, aonde embarquei a 17, e a 19 cheguei a Porto Alegre.


2.ª Campanha, 1820. 

Janeiro. Na noite de 2 saímos de Porto Alegre com & infantaria e a artilharia do meu comando, e chegamos a Rio Pardo a 8, e no mesmo dia acampamos no lado direito do Passo do Rio Pardo. - 9. No capão da Cruz Alta. - 10. No Passo de S. Lourenço no Jacuí. - 11. Nos Morais. - 12. No Arroio do Lageado, divisa de S. Jo... 13. No Passo de Carutaí. - 14. No Arroio do Lageado no campo de S. Fidélis. -- 15. No Passo de S. Borja. - 16. Na estância de Placido Severo. - 17. No Passo de Ibicuí-Chico. - 18. Acampamos duas léguas distantes de Itaquatiá. - 19. Em Itaquatiá, aonde estava o exército. - 20. Na tapera de d. Ramon. --- 21. Chegámos ao Passo do Sutil no Cunhapirú, e aí, esperando a noite, marchámos para o Taquarembó Grande, aonde chegámos na manhã de 22, em que atacamos o inimigo e o derrotamos. Aí estivemos nos dias 23 e 24. - 25. Retrogradamos para o Passo do Sutil. - 26. Acampamos no Cunhapirú. - 27. Nas pontas do Ibicuí. - 28. Nos morros de S. Ana. - 29. No Sarandi, - 30 No Funchal. --- 31. No Pai-Passo, pontas.

Fevereiro. - 1. No Passo do Pai Passo. - Em Alegrete. Aí ficamos até o dia 21. - 22. No Arroio do Lageado. - 23. No Arroio Jaguaquá. - 24. No tenente-coronel João Machado. - Falhamos o dia 25, por chover. - 26. Acampamos no Arroio Cacequí. - 27. Em S. Gabriel. - 28. No Fidélis, aonde estivemos o dia 29.

Março. - 1. No Arroio .... 2. Na tapera de Luiz Machado. 3. No Passo de S. Bárbara. - 4. Na estância do tenente Ricardo.- . No Arapoá. - 6. Na estância do Bibiano. - 7. No Arroio Francisquinho. - 8. No Arroio dos Ratos. – 9. Em Porto Alegre".

[Fim]


* * *


Pequena biografia

O capitão José Joaquim Machado de Oliveira nasceu em São Paulo, a 8 de Julho de 1790, filho do  tenente coronel Francisco José Machado de Vasconcelos e de D. Ana Esmerina (Esméria ou Esmênia) da Silva.

Com um ano e meio de idade, o pai assentou-lhe praça mas só em dezembro de 1807, já com 17 anos, foi reconhecido cadete.  É Alferes em 1809, tenente em 1811 e, finalmente, graduado em capitão em 13 de Maio de 1813, pelos seus serviços na Campanha de 1811-12.

Em 1816, com cerca de 26 anos, é capitão de infantaria da Legião de Voluntários Reais, de S. Paulo, e participa com distinção, nos combates do Passo de Yapeyú e na batalha de S. Borja, e, já em Janeiro, na Surpresa de Arapey, sempre sob o comando direto do tenente coronel José de Abreu.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Batalha de Catalán por uma Testemunha Ocular, 4 dias após o evento (Inácio José Vicente da Fonseca)


A carta do tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, o mais graduado oficial de artilharia da Legião de Voluntários Reais de São Paulo, ao coronel Vicente Ferrer da Silva Freire, de 8 de Janeiro de 1817, 4 dias após a grande batalha de Catalán, relata o recontro de um forma pessoal, estando ele no centro da posição portuguesa, equidistante da ala esquerda que, apeada, sofreu o assédio dos orientais, e da carga de cavalaria oriental na ala direita que foi rechaçada por  Sebastião Barreto e José de Abreu (carga esta a que Artigas atribui a derrota oriental). Adicionalmente, Vicente de Fonseca, enquanto artilheiro e “official scientifico” por excelência, é bastante pormenorizado na sua descrição.

Conforme escreveu Vicente de Fonseca na epístola, e serve para nós que o lemos 200 anos depois, “aqui tem V. S.ª o rezultado das Acçõis do dia 3 no Quartel General de Artigas, e do dia 4 na margem direita do Arroio Catalan, da qual tenho a felicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas bálas tão poucos palmos distantes do meo Corpo”.

Carta do tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, da Legião de S. Paulo, a Vicente Ferrer da Silva Freire (rio Quaraím, 8 de Janeiro de 1817)

[transcrição com ortografia modernizada retirada do Archivo Artigas, Tomo 33, páginas 14-19]

[...]
Tendo o excelentíssimo senhor marquês de Alegrete chegado ao nosso campo do Ibirapuitã a 15 de Dezembro do passado, e sabendo pelos nossos bombeiros que os insurgentes se reuniam com grande força e que pretendiam ir atacar-nos naquelle lugar, resolveu, que deviamos então encontrá-los, e conseguintemente levantámos  o Campo a 25 dirigindo-nos para o Quaraí. 
Passamos este Arroio no dia 31, e falhámos ao 1.°, e tendo neste dia os nossos bombeiros  agarrado 3 bombeiros do inimigo, soubemos destes, que Artigas tinha o seu quartel general no lugar denominado o Potreiro nas imediações do Arapey, aonde somente existiam 400 e tantos homens, e que tinha feito marchar deste lugar o major general Latorre com perto de quatro mil homens, e duas peças de calibre 4, a este tempo já os nossos espias descobriram bombeiros, e pequenas partidas do inimigo pela nossa retaguarda, mas como julgámos que a força maior estava pela nossa frente, levantamos o campo no dia dois, e avançámos 4 léguas e meia, e acampamos na  margem direita do arroio Catalán. A posição de nosso campo era elevada e própria para poder a artilharia operar por todos os lados tinhamos, o flanco ([esquerdo]) direito apoiado por uma sanga, à frente, e flanco esquerdo por pequenas sangas, e a retaguarda pelo arroio ainda que fraco por ser cortado por várias partes.

Neste mesmo dia fez o senhor marquês marchar a nossa avançada que é comandada pelo tenente coronel de milicias José de Abreu composta de 500 homens (milicianos de Entre Rios, algumas guerrilhas de paisanos, 100 homens de infantaria da Legião de S. Paulo, e 2 peças de calibre 3 comandadas pelo tenente Luz formam os mencionados 500  homens).

Saíram ao pôr do sol com ordem de marchar toda a noite para na madrugada do dia 3 surprenderem a Artigas no mencionado potreiro, mas apesar de terem marchado toda a noite chegaram a esse lugar uma hora depois de amanhecer, e por este motivo foram percebidos pelas guardas avançadas do inimigo, e pode Artigas escapar se precipitadamente deixando a sua carretilha, e até mesmo o seu ponche, escaparam muitas familias, e a maior parte da guarnição, e uma porção que ainda não tinha fugido foram derrotados pelos nossos depois de fazerem uma grande resistência.

Artigas tinha escolhido um lugar para seu quartel general aonde a Cavaleria não podia operar, e por isso somente a artilharia e infantaria de S. Paulo, e poucos de cavalaria a pá decidiram desta acção, (ouvimos os tiros de artilharia, e seriam 8 horas da manhã) a perda do Imimigo consistio em setenta e tantos mortos incluso um ajudante, 6 prisioneiros, ficou em nosso poder a carretilha de Artigas, 1500 mil e quinhentos cavalos, e algumas munições.
A nossa perda consistiu em dois soldados mortos da infantaria de S. Paulo, que foram os primeiros que investiram o mato, e 4 feridos da mesma infantaria sendo 2 gravemente. 

O valente tenente coronel Abreu pretendia perseguir a Artigas, mas sabendo dos prisioneiros, que Latorre tinha avisado a Artigas, que no dia 4 pretendia bater os portugueses, e que nesse mesmo dia estaria com ele vitorioso no potreiro, com esta notícia (apesar de não ter a nossa tropa comido, e nem dormido) picou a marcha o tenente coronel Abreu para reunir-se a nós com a brevidade possível, o que conseguiu no mencionado dia 3 depois de anoitecer; com a chegada do Abreu deram-se as ordens necessárias, e foram, que às três horas da manhã estaria toda a cavalcria montada, e toda a mais tropa debaixo de armas, mas assim não aconteceu por causa das facilidades, estivemos com efeito debaixo de armas às horas determinadas, porém só a cavalaria de S. Paulo estava montada, e Dragões e Milicianos não tinham pegado cavalos. E se não fosse a artilharia, e o valor da nossa tropa, o inimigo teria a conseguido uma completa surpresa.

Eram 4 horas e meia, e naquele momento tinha o nosso clarim acabado de tocar a alvorada, quando um chefe de guerrillas, que guardava uma nossa cavalhada que estava sobre o nosso acampamento no flanco esquerdo, presentiu os charruas avançarem para roubá-la, mandou logo disparar oito tiros, e reuniu-se a nós com a cavalhada que pode, eu estava na bataria do centro que é composta de 4 obúses, conversando com o major Pitta que é o comandante desta divisão de artilharia.

Principiámos logo a ouvir o grande alarido que costumam fazer estes bárbaros, e a descobrir um grande negrume por todas a coxilha que estava pela nossa frente, flanco, esquerdo e retaguarda. A nossa tropa dispos-se imediatamente para entrar em ação, e o inimigo aproximava-se cada vez mais tocando a sua música com grande desafogo.

A este tempo que seriam passados 5 minutos depois que foram percebidos, apareceu logo o senhor marquês na frente da tropa montado a cavalo animando-a com muita coragem, e vendo que o inimigo ja estava pelo nosso flanco esquerdo em distância de fuzil, mandou logo romper o fogo de artilharia, o que se executou prontamente, e tive então o gosto de ver laborar ao mesmo tempo toda a artilharia do meu comando, estava disposta em divisões sendo a do centro comandada pelo major Pitta, e composta de 4 obúses que lancaram granadas que fizeram um efeito terrível, a divisão da esquerda composta de 3 peças de calibre 6 é comandada pelo capitão José Olinto, a da direita composta de 2 peças de calibre 3 pelo tenente António Soares, as duas peças de 3 comandada pelo tenente José Joaquim da Luz estavam postadas num corpo de reserva que guardava a cavalhada, o inimigo respondeu-nos logo com o seu fogo de artilharia, as suas balas passavam muito altas, mas sempre acertaram com uma bala em um reparo de uma peça de 6 que chegou a partir o eixo de ferro. 

A cavalaria inimiga atemorizada pelo nosso fogo amiudado de artilharia e não se animou a avançar, estava formada em 2 linhas em número de mais de dois mil homens, a infantaria inimiga formada na frente da cavalaria em duas fileiras, e com grande intervalo de um a outro soldado desceu a coxilha por baixo do fogo de artilharia, passou uma sanga, e apareceu-nos pela frente em pequena distância de onde nos deu uma descarga cerrada.

A este mesmo tempo os lanceiros charruas carregaram sobre o nosso flanco direito, o senhor marquês correu para este flanco pelo meio das balas, e fez avançar uns cento e cinquenta e tantos dragões que já se achavam montados para rebater os charruas, e imediatamente tocar a degola fazendo avançar a brava infantaria de S. Paulo de baioneta calada, foi quando vi com muita satisfação estes meus valentes patrícios correrem por um terreno cheio de pedras que mais parecia voarem do que correr. Levando por diante uma poeira a infantaria inimiga a bala, e ponta de baioneta fazendo-lhes fogo mesmo à queima roupa.

Nesta mesma ocasião avançou o bravo e incomparável tenente coronel José de Abreu com 300 homens pouco mais ou menos que eram milicianos de Entre Rios, cavalaria de S. Paulo, Dragões, Milicianos, e algumas guerrilhas de paisanos, e com este punhado de homens valentes pôs a cavalaria inimiga em vergonhosa fugida perseguindo-os, e fazendo uma grande mortandade até à distância de 3 léguas, tomando muitos cargueiros de munições, e cinco mil e tantos cavalos.

Enquanto o tenente coronel Abreu perseguia a cavalaria, a infantaria de S. Paulo, e os Milicianos do Rio Pardo, e Porto Alegre a pé por não terem tido tempo de pegar cavalos continuaram um vivo fogo contra uma grande porção da infantaria inimiga que se tinha emboscada em um pequeno mato, fizeram uma resistência terrível, mas nada pode vencer ao valor das nossas tropas, e não tiveram remédio senão depôr as armas uns 239 que ainda viviam, entre estes 6 oficiais um dos quais é sobrinho de Artigas, e também há um inglês.

A força inimiga era composta de 3200 homens, sendo mil e tantos de infantaria, tinham duas peças de artilharia, e mais 400, e tantos homens que guardavam a cavalhada. O comandante em chefe era o major general Latorre, o coronel Mondragon o comandante da cavalaria, e o coronel Berdún comandava a infantaria e artilharia. Dizem varios prisioneiros que Berdún morrera, porém esta notícia ainda não se verificou, e por isso não dou como certa.

A nossa força era composta de dois mil duzentos e tantos homens, e 11 bocas de  fogo, mas em rigor entrariam na acção 1300 a 1400 homens, ficando os mais guardando as cavalhadas, boiadas, e bagagens.

Da relação junta verá V. S. qual foi a nossa perda, uma grande parte dos nossos feridos foram gravemente, e já tem morrido muitos: a perda do inimigo foi considerável, contam-se em pequena distancia 468 mortos inclusos muitos oficiais, e não se contaram os que ficaram estivados por esse campo até a distância de 3 léguas.
Ficaram prisioneiros 239 inclusos 6 oficiais, (dos prisioneiros já tem morridos uma grande parte dos feridos) tem-se apresentado até hoje vinte e tantos, tomámos a sua artilharia que eram duas peças de calibre 4, uma carreta com muitas munições de infantaria e artilharia, muitos cargueiros com munições, 5000 e tantos cavalos, um estandarte, caixas de guerra, instrumentos de música, e muito armamento, pode-se avaliar por um cálculo bem aproximado que a perda do inimigo entre mortos, prisioneiros, e aprezentado excede a mil homens.

O fogo durou até às onze horas e três quartos da manhã. O senhor marquês correu depois por todas as fileiras dando mil agradecimentos a toda a tropa, que assim mesmo fatigada, e muitos lavados em sangue das feridas que tinham recebido gritavam com grande corágem, que estavam prontos para principiar já outro combate, então o senhor marquês dava mil vivas a sua Majestade, que eram mutuamente correspondidos por toda a tropa, e todo se finalizou com uma salva real de 21 tiros de artilharia.  

À tarde o senhor marquês assitiu ao funeral dos nossos oficiais mortos, e foram carregados pelo senhor marquês, senhor tenente general Curado, brigadeiros, estado  maior de S. Excelência, etc.  

Demoramo-nos no campo da ação o dia 4, e 5 ocupados em enterrar os nossos mortos, e curar os feridos, a senhora marquesa tem zelado dos doentes com  muita caridade,  desfiando panos com suas própias mãos para se curarem as  feridas. 

No dia 6 avançámos 3 léguas para baixo do mesmo arroio Catalán para fugir da podridão que já infeccionava o campo, e aqui nos conservamos sem por ora saber de nosso destino sobre a marcha.  

Os nossos bombeiros chegaram hoje, e dizem que a reunião dos dispersos é na Purificação, e consta que Artiguinhas  já passou o Uruguay para este lado em Japejú, e que se reuniu a Artigas com 1500  homens. Eu estou persuadido que os homens se reúnem com grande força e que breve teremos outro divertimento, tão bem estou persuadido que Artigas não nos aparece agora com menos de 5000 homens, o que pode conseguir com a junção de Otorgués, e hão de continuar a aparecer-nos em quanto restar a Artigas um único homem.  

Esqueceu-me referir que o inimigo já nos tinha tomado na nossa retaguarda treze carretas de vivandeiros que vinham com uma marcha de diferença da nossa, e eram o mulato Romualdo, e o José Cabeça, mas todas foram restauradas no dia da acção, e felizmente todos os vivandeiros que eles conservavam prisioneiros, e não tiveram tempo de matar um só.

O meu camarada e amigo major Rosário [António José do Rosário, Inf LTL] caiu morto ao meu lado esquerdo logo das primeiras balas do inimigo, ele certamente nem soube de que morreu, que tão repentina foi a sua morte de uma bala que lhe passou ambas as frontes, logo o mandei carregar para baixo de um carro de munições, e o mandei cobrir com um ponche. 

Os capitães Prestes [José de Paula Prestes, RegDrag], e Corte  Real [Francisco de Borja de Almeida Corte Real, RegDrag], e o secretário de Dragões [Eleutério Severiano dos Santos Pereira]; o valente furriel Moura [Mateus José de Moura] da cavalaria de S. Paulo, e o cadete da mesma cavalaria filho do coronel engenheiro de S. Paulo [Manuel Joaquim Carneiro de Fontoura] morreram todos trespassados de lanças dos charruas, e o ajudante Marçal foi ferido de cutiladas na cabeça. O tenente Joaquim Maria baleado em uma coxa, o capitão Gaspar ferido num pé.  

Entre os prisioneiros acham-se 3 portugueses, um dos quais é da infantaria de S. Paulo desertado em Maldonado na campanha passada. Persuado-me que o senhor marquês os mandará arcabuzar.
Pelo balanço que acabo de dar ao parque vejo, que a artilharia deu cento e quarenta e quatro tiros, que talvez fosse a nossa redenção, pois além do estrago que fez, deu tempo para se pegarem os cavalos que deviam estar pegados antes das 3 horas da manhã. No potreiro  deram-se além destes 13 tiros de artilharia. Distribuiram-se onze mil e tantos cartuchos de espingarda, e sete mil e tantos de clavina. 

Aqui tem vossa Senhoria o resultado das ações do dia 3 no quartel General de Artigas, e do dia 4, na margem direita do Arroio Catalán, da qual tenho a felicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas balas tão poucos palmos distantes do meu corpo, tendo assistido já em uma e já em outra divisão de artilharia que fizeram um vivo fogo sobre a frente, flanco esquerdo, e retaguarda.  

Nada sabemos de combinação com os Talaveiras, sabe-se que Santa Teresa foi retomada por Fructuoso Ribeiro, e Serro Lárgo por Otorgués.

(...)

Campo da Margem direita de Arroio Catalan 8 de Janeiro de 1817
Ignacio Jozé Vicente da Fonseca