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15/07/2026

Liga dos Povos Livres: Ramon de Cáceres

Ramón Erasmo de Cáceres nasceu em Montevidéu, a 26 de Novembro de 1798, filho de Ramón de Cáceres, alguacil mor.

Ingressou como cadete no Real Cuerpo de Artillería, na precoce idade de 14 anos, no início do segundo sítio de Montevideu, 1812. No entanto só em 1814 inicia de facto a sua carreira, sendo promovido a teniente segundo do 1.er  Regimiento de Milicias Orientales, mais especificamente da Compañia de Las Piedras. Participou na batalha de India Muerta, como ajudante do comandante da cavalaria da ala esquerda, capitán Venancio Gutiérrez.

No inverno meridional de 1817, em Junho ou Julho, é nomeado Ayudante Mor do Regimento de Blandengues, na vanguarda sob o comando de Mondragon, junto ao arroyo Areranguá.

Participa na última campanha da guerra, nos combates de Ibirapuitã e Passo do Rosário e na batalha de Tacuarembó, onde é ferido ligeiramente.

Emigra posteriormente para Entre Rios onde serve Ramirez. Teve posteriormente à campanha, uma bem sucedida e honra carreira militar ao serviço do Uruguai.

Escreveu a “Memória Postuma del Coronel Ramon de Caceres”, in: Revista Histórica, tomo XXIX, n.º 85-87, Montevideo, Museu Historico Nacional, em Julho de 1959 (pp. 377-566).


Bibliografia

J. M. Fernández Saldaña, Diccionario Uruguayo de Biografías 1810-1940, Montevideo, Editorial Amerindia, 1945, págs. 264-267; “Domingo González El Licenciado Peralta. Crónicas de un Montevideo lejano, Pacheco versus Cáceres. En los altos del Cabildo”, en Cuadernos de Marcha (Montevideo, Uruguay), n.º 11 (marzo de 1968), págs. 91-93.

05/09/2019

Estado Maior: Álvaro da Costa de Sousa de Macedo


O tenente coronel ÁLVARO DA COSTA DE SOUSA DE MACEDO nasceu no Palácio dos Viscondes de Mesquitela, na Calçada do Combro, em Lisboa, a 22 de Agosto de 1789. Era filho de D. José Francisco da Costa de Sousa e Albuquerque, 2.° visconde de Mesquitela, Armador Mor do Reino, e de Maria José de Sousa Macedo, 2.ª viscondessa de Mesquitela.

Alista-se a 5 de Agosto de 1809 no Regimento de Artilharia n.º 4, no Porto, passando, dois meses depois, a 24 de Outubro, ao Regimento de Infantaria n.º 6, na mesma cidade, como Alferes da 5.ª Companhia. No final do ano, a 29 de Dezembro, passa à 2.ª Companhia de Granadeiros do regimento.

A 29 de Novembro de 1810, é promovido a tenente e nomeado ajudante de ordens do coronel Wiliam Moundy Harvey. Este oficial, do mesmo regimento de Álvaro, comandava a brigada portuguesa constituída dos regimentos de infantaria n.º 11 e 23.

Participa na batalha de Albuhera, em Maio de 1811, onde a sua brigada trava brilhantemente cavalaria francesa em linha. Recebe posteriormente a Cruz de Distinção da batalha, outorgada por Espanha.

Em 1812, é ferido na tomada de Badajoz, juntamente com o seu general e o major da Brigada Thomas Peacocke. Um mês depois, a 5 de Maio, é promovido a capitão.

Em 17 de Agosto de 1813, após a morte do seu general, passa a capitão da 2.ª Companhia de Granadeiros, do Regimento de Infantaria n.º 23.

A 27 de Abril de 1814 é promovido a sargento mor do Regimento de Infantaria n.º 11, com antiguidade de 17 de Fevereiro, após ter sido “encarregado de appresentar a Suas Excellencias os Senhores Governadores do Reino os despachos do lllustríssimo e Excellentíssimo Senhor Marechal General Duque da Victoria, relativo ás acções que houverão desde 14 do referido mez de Fevereiro até 1 de Março". Pelo seu serviço durante a guerra, recebe a Cruz da Guerra Peninsular, 1.ª classe, por 5 campanhas.

A 24 de Junho de 1815, com 25 anos de idade, é promovido a tenente coronel e nomeado deputado do Ajudante General da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, embarcando para o Brasil, em Setembro desse ano, onde serve durante a campanha. A 4 de Julho de 1817 é promovido a coronel.

Após a campanhas do sul do Brasil, é promovido a brigadeiro a 26 de Março de 1821, recebendo o grau de cavaleiro da Ordem da Torre e Espada dois meses antes, a 22 de Janeiro. É o último comandante da Divisão dos Voluntários Reais, assim como Capitão General da Província Cisplatina, quando Carlos Frederico Lecor toma o serviço brasileiro, em Setembro de 1822.
A 18 de Novembro de 1823, após um conflito de um ano entre as forças portuguesas e brasileiras, assina um compromisso com Lecor e as forças portuguesas abandonam Montevideu em Março do ano seguinte. Pelos seus serviços, recebe a Cruz de Ouro de Montevideu.

Já em Portugal, torna-se o governador da Praça de Setúbal em 1824, sendo, em 1828, o encarregado interino do Governo de Armas da província do Minho. 
Em 1830, torna-se o Capitão General e governador da Ilha da Madeira até ao fim da Guerra Civil, sendo promovido a marechal de campo a 2 de Janeiro de 1832. A 26 de Outubro de 1833, é feito conde da Ilha da Madeira e promovido no mês seguinte a tenente general (21 de Novembro).

Após o final da guerra civil, exila-se em França, onde falece em 1835.

05/05/2018

Estado Maior: José Ferreira da Cunha


O sargento mor José Ferreira da Cunha nasceu em Almeida por volta de 1786, filho de José Ferreira da Cunha.

Assentou praça e jurou bandeiras no Regimento de Infantaria de Almeida em 9 de Setembro de 1801, aos 15 anos de idade, tendo por fiador o seu tio, Simão José da Cunha. De acordo com os livros mestre do regimento, tinha olhos e cabelos castanhos e media 58 polegadas, cerca de 1,60 metros. Foi promovido a furriel em 16 de Fevereiro de 1805, na 5.ª companhia.  

Após a restauração, apresentou-se no regimento a 21 de Julho de 1808, e foi promovido a primeiro-sargento dias depois, a 1 de Agosto, passando a servir na 4.ª companhia do regimento. 

A 14 de Janeiro de 1809 é promovido a alferes, passando a servir por essa altura como ajudante de ordens do coronel Carlos Frederico Lecor, quando este assumiu o comando militar da Beira Baixa. 

A 16 de Maio de 1810, é promovido a tenente. Apesar de ser ajudante de ordens de Lecor desde o início de 1809, só a 2 de Maio de 1812 é confirmado no lugar, ficando desligado do Regimento de Infantaria n.º 23. A 3 de Janeiro de 1814, é promovido a Capitão, no mesmo exercício. 

A 22 de Junho de 1815, com 29 anos, é promovido a Sargento Mor Ajudante de Ordens do Comandante em Chefe da Divisão de Voluntários Reais.

27/01/2018

Transcripto: Informação sobre a situação político-militar das províncias do Rio da Prata enviada ao marquês de Alegrete (João Vieira de Carvalho)


A carta que apresento transcrita foi escrita nos finais de 1814 e inícios de 1815, pelo sargento mor João Vieira de Carvalho ao marquês de Alegrete, marechal de campo D. Luís Telles de Menezes, então o capitão general da província do Rio Grande de S. Pedro, hoje do Sul. 

Esta carta precede as primeiras operações militares portuguesas em meio ano, quando ainda é desconhecido se uma expedição portuguesa viria, de que tamanho, e se isso representaria a invasão da Banda Oriental.
A referência ao chefe miliciano Manuel dos Santos Pedroso (que falece em Março de 1816 e não chega a participar nas operações), permite-nos datar este documento de antes de Março de 1816, tendo sido escrito antes, mas é de crer que terá sido escrito por volta de Dezembro de 1814, quando o marquês de Alegrete tomou posse do cargo de capitão general do Rio Grande.

D. João já havia tomado a decisão de ocupar Montevideu pela altura em que esta carta foi escrita, mas só em maio, 5 meses depois, é que se sabe quantos homens levava a expedição (os nossos Voluntarios Reaes do Príncipe), que foi maior que o esperado (pelo menos duas fontes, incluindo aqui Carvalho - e Luís Santos Marrocos, esperavam 2000 portugueses veteranos da Guerra Peninsular).

A carta é fundamentalmente dividida em três partes: a primeira, versando sobre as questões políticas gerais. A segunda, sobre as cautelas diplomáticas a ter face às eventuais partes no terreno (Buenos Aires, Artigas e Espanha). A terceira parte da carta é uma reflexão puramente militar sobre como deviam decorrer as operações militares, no caso de se decidir a invasão.


João Vieira de Carvalho
Futuro ministro da Guerra do Brasil imperial, por três vezes, após a independência, João Vieira de Carvalho, de 32 anos de idade, escreve ao seu general, a pedido do governo da Corte, refletindo, a partir da sua experiência de vários anos na província como sargento mor de Engenharia. 

A sua reflexão, erudita e militar em boa combinação, com referências culturais muito localizadas no tempo, data 202 anos hoje de nós que a lemos aqui. 

Vieira de Carvalho reflete, por exemplo, sobre a dispendiosas campanhas de 1811-1812, como a primeira "guerra sem aquisição de terras"; e defende que é vital ocupar a banda Oriental até ao rio Uruguai.

A ortografia é modernizada, e as minhas notas estão formuladas entre parênteses retos, que reputei fundamentais à compreensão de algumas referências. Coloca ainda também elementos titulares, antes de determinados pontos de interesse. Utilizo ainda o vermelho escuro para identificar passos de interesse, que servem de título ao que se segue.

[nota biográfica sobre o autor no final do artigo]


* * *
Informação sobre a situação político-militar das províncias do Rio da Prata enviada ao marquês de Alegrete

As vantagens que se podem seguir ao Brasil com a posse da margem oriental do Rio da Prata merecem mais as vistas do governo do que mesmo o receio do novo sistema daquelas províncias, ou o cuidado filantrópico e pacificador das mesmas. O egoísmo nacional, que é desculpável em todas as nações e que praticamente sustentam as que melhor se governam, a desunião revolucionária de Buenos Aires, apatia do governo de Espanha a respeito dos negócios do Rio da Prata, e sobretudo a força política de um governo legítimo como o do Brasil guiado por fortuna nossa pelas virtudes e espírito de justiça de S. A. R o Príncipe R. N. S. formam a base da presente questão, que deve ter por princípio fundamental: aplicar meios proporcionais ao proveito do resultado. Se este não há-de ser a posse que deixo dita nada mais julgo próprio dos grandes esforços do governo.


Estão muito frescas as ideias dos anos de 1811 e 1812; duas campanhas se passaram. Absorveram mais dinheiro, armas, gente e recursos de transporte. Entendeu-se com a economia interna da capitania do Rio Grande. Os habitantes deste viram pela primeira vez e com desgosto uma guerra sem aquisição de terras. As capitanias do sul do Brasil sofreram uma concussão política, que bem se manifestou nas imigrações e fugas dos habitantes que se esconderam ao recrutamento e marcha das tropas (1). [notas de roda pé ao fim do documento]

Desfiguraram-se as boas intenções do novo governo publicando os revolucionários, e talvez acreditando-o os mesmo espanhóis, que de mãos postas pediam o socorro do Exército Português, que S. A. R. só queria de mão armada apossar-se da província de Montevideu; tendo o fecho de tais serviços a necessidade que se figurou de ir um emissário do Rio de Janeiro a Buenos Aires apadrinhar a retirada de um exército que não tinha conhecido reveses (2).

Salvou-se, é verdade, por uma vez a praça e província de Montevideu, porém ela caiu quando largámos a sua guarda. A revolução de Buenos Aires continuou, e da mesma sorte a Espanha na sua indiferença. 

Não me consta que ela mostrasse o mais pequeno reconhecimento ao Exército Pacificador, e no congresso de Viena, onde as nações parece ajustarem as suas contas políticas, esquecem talvez esta.

Recopilando portanto a minha primeira ideia digo, que sem a certeza da posse do território em questão devemos limitar-nos ao bom estado de respeito da nossa fronteira, punindo exemplarmente os roubos, estabelecendo pontos determinados para o comércio entre os dois países, vigiando escrupulosamente sobre a legalidade e boa fé do mesmo, deixando assim à feliz capitania do Rio Grande gozar do seu doce governo, e do espantoso acréscimo de agricultura e comércio que diariamente se lhe conhece (3).

Mas se enfim o céu tem reservado para o feliz reinado de S. A. R. a aquisição de um terreno de mais de quatro mil léguas quadradas, com dois portos de mar, próprio pela sua fertilidade e clima ao estabelecimento de muitos vassalos, o arredondamento da fronteira do Brasil por este lado nos limites naturais dos Rio da Prata e Uruguai, a influência direta em todas as províncias da América do sul até ao Peru, a melhor segurança das capitanias do sul do Brasil pela regularidade dos princípios que ministra a guerra a estabilidade de limites naturais, então ajustemos os dois grandes meios de o conseguir e abram o caminho às armas.


* * * 

Montevideu


Buenos Aires, Artigas e Espanha parecem ser os alvos das negociações políticas. O governo de Buenos Aires cheio de fações que se mexem com rapidez, sem representação nacional, dilacerado pelos partidos que lhe absorvem os seus pequenos recursos de numerário, sem exército, e enfim sem força para vingar.-se dos seus inimigos internos, não está em estado de oferecer vantagens nas suas negociações. Um governo revolucionário quando negoceia principalmente com aqueles que lhe são diametralmente opostos em princípios ou cobre de refinada malícia os protestos de reconciliação com que ganha tempo, ou patenteia indiretamente a sua fraqueza interna. Temos a experiência. Começaram os portenhos a revolução, e começaram logo a tentar o nosso governo com negociações que sempre abortaram. Protestos, intriga e dinheiro, tudo manejaram para se acreditarem dispostos a submeterem-se um dia a S. M. C. ou a unirem-se ao Brasil. Queriam ganhar tempo, e se agora renovam as suas instâncias é porque estão no segundo caso que deixo dito da fraqueza interna. Como poderá afiançar a realidade e fidelidade dos seus ajustes um governo que não tendo podido estender a sua revolução além do Peru, que não tem aliciado cabalmente a província do Paraguai, que não pode seduzir ou vingar-se de Artigas, e que até agora não tem obtido o favor de um só governo legítimo?

A intriga faz nascer as revoluções, e só as armas as acabam. Livre-se S. A. R. de ouvir protestos de revolucionários, e confiando tudo das suas virtudes, e ao valor e mor dos seus exércitos poderá um dia imperar sobre Buenos Aires tomando a divisa de Sobieski [rei João III Sobiesky da Polónia (1629–1696)]: Per has ad instam [referência a um brasão histórico deste rei com uma espada atravessando 3 coroas, e com a sua própria coroa no topo, com o lema: Através destas, aquela].

É portanto o meu parecer a respeito de Buenos Aires que nem se trate com altivez, porque é ela muitas vezes quem acende mais o republicanismo, nem com a consideração de relações.

Artigas tem roubado uma reputação que não merece. Reduzido a comandar talvez três mil homens mal armados, sem disciplina e rotos contenta-se com a sombra de uma representação que mal pode sustentar. Bem longe está ele das virtudes dos célebres campeões da liberdade dos povos Washington [George Washington (1732-1799)] e Guilherme Tell. Nem mesmo tem a ambição e coragem dos rebelados Oglow [Osman Pazvantoğlu, ou Pass[e]wan Oglow (1758–1807)] e Alibek [Ali Bey (tb. Bek ou Bak), al-Kabir (1728–1773)]. Um refratário mais do que um sistemático, não se ajusta, não concorda. As negociações com ele seriam frustradas, e o que se poderia esperar de um homem que não pode ser lisonjeado nem pelas virtudes nem pela ambição?

Se a alta e respeitável dignidade de S. A. R. se acha comprometida com a existência de Artigas, eu julgo que ela cessará com um simples aceno de S. A. R. ao excelentíssimo governador e capitão general da capitania do Rio Grande, sem contudo fazer a honra àquele refratário de mover exércitos para o castigar.

Parece que naturalmente se voltam os nossos cuidados políticos ao governo de Espanha. Façamos tudo por arrancar-lhe uma cessão formal da província e praça de Montevideu. Deve-se fazer valer os serviços já feitos à sua causa tanto na Europa como na América, e aqueles que as nossas tropas lhe podem ministrar na ocasião da sua expedição ao Rio da Prata; serviços que decerto serão os decisivos no resultado dos seus esforços.

Não será fora de propósito fazer entender ao governo de Espanha a cordialidade e zelo da nossa coadjuvação no caso da pretendida cessão, e a restrita posição neutral em que permaneceremos quando ela se não verifique. Não esquecerá ao encarregado desta comissão o fazer perceber a possibilidade em que estamos de fomentar a independência das províncias do Rio da Prata quando se não realiza a nossa pretensão (4).

Quando a Espanha responda negativamente julgo que se deverá protestar ao gabinete de Madrid assim como declarar a todos os da Europa, que sempre que a anarquia continue nas províncias do Rio da Prata, que a Espanha não ponha os meios de a evitar, e que os estados de S. A. R. se vejam ameaçados de uma força armada, então todo o território conquistado pelos exércitos portugueses ficará pertencendo de propriedade e direito a S. A. R. e nunca restituídos como em 1812. Não façamos sacrifícios generosos por uma nação que nos dominou injustamente sessenta anos e que cuidou tão pouco na nossa tutela que deixou cair nas mãos dos holandeses as nossas mais ricas possessões da América e Ásia; possessões que ou voltaram à custa de briosos esforços de vassalos como Vieira e Dias, ou se perderam para sempre.

É verdade que no tratado de 1680 garantem-se reciprocamente Portugal e Espanha as suas possessões entre Santos e o Cabo de Horn, estipulando mútuos socorros no caso de rebelião, porém eu julgo ter caducado este artigo logo que se estabeleceu o governo português no Brasil. O motivo daquele ajuste cessou com a emancipação deste país, e com o cabal conhecimento do com caráter dos brasileiros que, como deviam, receberam nos seus braços a S. A. R.. A conservação de tal artigo é certamente ofensiva a eles e bem alheia das pias e generosas intenções do augusto senhor.

Quando porém só por motivos de generosidade quisesse S. A. R. auxiliar os exércitos espanhóis deveria ser com uma pequena força proporcional à capitania do Rio Grande, e nunca empenhar a tropa de Portugal e das outras capitanias.


* * *

Forte de Santa Teresa, Uruguai (wikicommons)

Resolvida por qualquer motivo a ocupação da margem oriental do Rio da Prata deve-se dar princípio às operações militares, precedidas estas por um manifesto concebido nos termos gerais de amnistia, perdão de opiniões políticas, respeito à religião, usos, costumes e propriedades, licença para a retirada de habitantes que queiram, assim para a venda de bens, etc.

A expedição de Portugal deverá vir para Santa Catarina, onde se conservará pronta a dar à vela logo que receba ordem do excelentíssimo governador e capitão general do Rio Grande.

O regimento de Santos virá acampar em Taim, e juntamente com ele duas companhias de artilharia do batalhão do Rio Grande com quatro peças de artilharia de calibre 6. O regimento de cavalaria de Minas, o de Santa Catarina, as outras duas companhias de artilharia do Rio Grande com duas peças de calibre 6 e dois obuses, os esquadrões de cavalaria ligeira do Rio Grande e a companhia de artilharia montada da Corte se postarão no Cerrito.

A legião de São Paulo e o regimento de Dragões em S. Diogo (5). Os milicianos só serão chamados quando finalmente estiver resolvida a marcha e então se unirão à coluna do Rio Pardo (S. Diogo) os regimentos de Porto Alegre e Rio Pardo. Duas companhias do regimento do Rio Grande devem unir-se ao corpo de Taim, e as seis restantes ocuparão o passo do Sarandi no Jaguarão (6).

No mesmo dia marcharão estas tropas a entrar no território espanhol, e oito dias depois dará à vela a expedição de Portugal de Santa Catarina para o sul. A coluna do Rio Pardo marchará ao Uruguai a ocupar o Salto, entrincheirando-se (sendo necessário) e procurando manter-se a todo o custo entre os rios Arapey e Daymán. A partida de voluntários do tenente coronel Manuel dos Santos Pedroso [falece de bexigas em Março de 1816], que se deve ter antes juntado nas cabeceiras do Quaraí, contornará as abas da serra de Santana para conter em respeito os índios charruas e minuanos, ou se colocará em Belém se eles se tiverem unido ao inimigo (X). O corpo do passo do Sarandi marchará à vila do Cerro Largo [Melo], e depois de bater a guarnição que lá houver (7), tomará a margem esquerda do rio Negro e a seguirá até à confluência do rio Yi, permanecendo entre os passos del Costa [?] e Durazno, ou ocupando um deles como se julgar mais seguro. Este corpo é destinado não só a cortar na parte possível a comunicação de Artigas com Montevideu, como também juntar cavaladas e boiadas para auxílio da coluna do Rio Grande que depois deve vir a este ponto (8). A coluna do Rio Grande marchará deixando a lagoa Mirim a leste pelo caminho que julgar melhor atendendo aos recursos de transporte e estação a buscar o arroio de Alferes nas cabeceiras do rio Cebollati, próximo ao povo de Rocha. O corpo de Taim tomando o forte de S. Teresa e deixando-lhe uma pequena guarnição chegará a Castillos. A expedição reconhecerá a terra na latitude 34º 6', e depois de sinais feitos e reconhecidos pelo corpo de Taim, mandará uma lancha a entrar em Castillos para tomar notícias exatas dos movimentos do exército. Não havendo motivos de dificuldade navegará a expedição a tomar porto em Maldonado, e o corpo de Taim reunido à coluna do Rio Grande marcharão para o mesmo ponto. Feito o desembarque, se juntará o regimento de cavalaria de linha do Rio Grande à tropa de Portugal e irão fazer a guarnição de Montevideu (9).

As embarcações de guerra que comboiarem a expedição, e as mais que se poderem juntar farão a guarda costa, podendo as mais pequenas subir pelo Uruguai.

A coluna do Rio Grande se dirigirá ao passo de Durazno no Rio Negro e de lá a Sandú.

O estado das forças do inimigo, a sua posição, e os movimentos decidirão os nossos, podendo dizer-se em geral que se o inimigo tiver uma força considerável e que ameace poderão as colunas de Sandú e Salto darem-se as mãos e derrotá-lo; ou vendo-se obrigadas a largar as margens do Uruguai (o que não é de presumir), volver esta para as margens do Quaraí fazer respeitar a nossa fronteira, e aquela para as do rio Negro, e hão-de sustentar-se ou voltar a reunir-se com a guarnição de Montevideu (10). Não havendo que recear se desenvolverão as colunas pelo Uruguai guarnecendo a nova fronteira, e deixando o interior em pacífica e boa ordem para a sua organização política e para abrigo de uma prodigiosa população que pode manter.

Pode ser ela de habitantes de Portugal, das ilhas dos Açores, e mesmo estrangeiros. Uma ajuizada partilha de terras daria património e todos, e as produções de gado e trigo matérias para a sua indústria e comércio.

J[oão]. V[ieira de]. C[arvalho].


* * *

[Notas] 

(1) Não falo do recrutamento feito na capitania de S. Paulo no ano de 1812, que pela sábia maneira por que foi feita não arrastou aquelas desordens. [o interlocutor, marquês de Alegrete, havia sido o capitão general de S. Paulo, desde Novembro de 1811, antes de passar ao Rio Grande]

(2) Talvez passo um pouco além do que me é prescrito, porém perdoe-se pelo verdadeiro zelo e interesse que tenho pela glória de S. A. R. e da nação. 


(3) Eu julgo o Brasil em um certo estado médio entre a pobreza dos povos para quem a guerra é sempre vantajosa, porque todos os habitantes tomam parte nela para tirar partido, e a riqueza de outros que pela sua população e recursos sustentam com uma mão a guerra e com a outra as fábricas, agricultura e comércio. Estado aquele que se ressente facilmente com os males da guerra, e que se atrasa em breve no que ganhou a custo. 


(4) Só toca aos governos despóticos e desalinhados o receio de avizinharem com governos livres e independentes. Um príncipe amável, as leis e o exército farão o Brasil respeitável. 


(5) É da primeira necessidade levar os corpos de cavalaria desta capitania à força de regimentos de cavalaria de linha. A grande despesa dos estados-maiores está feita, e a organização destes corpos, principalmente dos esquadrões do Rio Grande, é sumamente defeituosa. O regimento de S. Catarina que apenas tem quinhentas praças deverá ser porto no pé de seiscentos ao menos. Um resto da legião de S. Paulo que existe naquela capitania deverá vir a reunir-se-lhe. 


(6) Sem contar acréscimo de força que podem ter estes corpos além da que eu lhe importo, e avaliando a expedição de Portugal em dois mil homens, creio que será o estado efectivo do exército de 6800 homens. Forças mais que suficiente para chegarmos aos rios da Prata e Uruguai; porém, não a julgo sobeja quando considero a diferença que há em conquistar um país, ou conservá-lo depois em respeito para uma pacífica posse. De mais, será necessário depois licenciar os milicianos. 


(X) A defesa do Uruguai contra os rios Quaraí e Ibicuí será feita pelos milicianos do tenente coronel José de Abreu, e as de Missões pela sua força respectiva; advertindo que todas estas tropas ficarão debaixo das ordens do general da coluna do Rio Pardo. 


(7) Se no Cerro Largo [Melo] houver uma força superior à do Sarandi, então este corpo se unirá à coluna do Rio Grande e a ocupação será feita por este coluna. 


(8) O comandante do corpo de Sarandi deve ter não só as qualidades de um hábil partidário, mas até muita manha para juntar os recursos de que trato, convidando os moradores com suavidade e distribuindo proclamações que deve levar prontas para esse fim. 


(9) É necessário unir alguma tropa do país à de Portugal. Este detalhe contudo parece-me secundário e deve ficar à deliberação do excelentíssimo general em chefe, assim como uma boa parte do plano de campanha. Os movimentos de mapa e compasso não têm lugar neste país que estando de mais revolucionado podem ser vários os acidentes de campanha. 


(10) Nada digo da célebre colónia de Sacramento por ter desaparecido o motivo da sua notabilidade. As suas fortificações estão em terra, e apenas existem uns miseráveis restos de povoação que mal podem servir para acantonamento de tropas. Contudo, pelo seu local deverá entrar no plano geral de  fortificação se um dia nos pertencer a margem oriental do Rio da Prata.
* * *

Nota biográfica de João Vieira de Carvalho
João Vieira de Carvalho nasceu em Olivença, em 16.11.1781, filho do coronel João Vieira de Carvalho e de D. Vicencia da Silva Nogueira de Carvalho. Estudou no Real Colégio dos Nobres. Assentou praça na 3.ª companhia do 2.º Regimento de Infantaria de Olivença como soldado a 10 de Janeiro de 1786, tendo 5 anos, e foi reconhecido cadete dez anos depois, a 10 de Dezembro de 1796. 
Foi promovido a alferes em 18 de Fevereiro de 1801 (2.ª companhia), e, depois, a tenente ajudante, em 15 de Agosto de 1805. A 13 de Março de 1806, é promovido a capitão da 3.ª companhia, e é durante esta altura que frequenta Estudos Mathematicos em Lisboa, que tudo indica ser o Real Colégio dos Nobres, mas que poderá ser a Academia Real de Marinha.
Num livro mestre do seu regimento, é referido que ele “foi pela desorganização do exército para o Brasil”. Não é certo quando, mas decerto faz referência aos inícios de 1808 quando o exército português foi licenciado por Junot. De acordo com as informações acerca dos oficiais engenheiros que serviram nas campanhas de 1809 a 1814, João Vieira de Carvalho não é listado, pelo que é de entender que terá partido para o Brasil em 1808.
Em 1809, é promovido a sargento mor do Real Corpo de Engenheiros. Como Sargento Mor faz as campanhas de 1811-1812 e as de 1816-1817, Rio Grande do Sul, sendo promovido a tenente coronel nesse último ano.

Foi barão, conde e finalmente marquês das Lages. Foi ministro da Guerra por quatro vezes.

Fontes
- Arquivo Histórico de Itamaraty, "Informação sobre a situação político-militar das províncias do Rio da Prata enviada ao marquês de Alegrete", AHI-REE-00931 [leia aqui a digitalização]
- Arquivo Histórico Militar

27/04/2017

Relação das munições de guerra,e mais apetrechos, que são necessários para as duas Brigadas de Artilharia a Cavalo


Relação das munições de guerra,e mais apetrechos, que são necessários para as duas Brigadas de Artilharia a Cavalo da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, além das que estão já prontas no Arsenal, como consta da Relação de S. Ex.ª o Senhor Tenente General José António da Rosa.


Carros de nova construção para Obuses de 5 ½ polegadas ... 4
Carros de nova construção para as Peças de calibre 6 ... 11
Archivos ...2
Barris de Polvora de sobrecelentes ... 2
Martellos de orelhas ... 7
Facas flamengas ... 12
Níveis d’água ...2
Balanços de pesar pólvora com pesos até 3 (?)
Facões para desbastar espoletas das granadas ... 2
Máquina de tirar espoletas ... 1
Baldes de folha ... 13
Tranças enxofradas ...288
Madexas de fio de guita ... 12
Cartuxos vazios de calibre 6 ... 200
Lanternas de furta fogo ... 12
Archotes ... 120
Machados ... 20
Machadinhas ... 12
Podões ... 12
Picaretas ... 12
Alviões ... 12
Enxadas ... 12
Pas de ferro ... 12
Galleras ... 2
Paus de bolêa de sobrecelentes ... 46
Pés de galo ... 4
Cornetas ... 4
Espadas de cavalaria com cinturões ... 284
Manoplas ... 180
Parelhas d’arreios de tronco ... 14
Parelhas d’arreios de sota, ou dianteiras ... 30
Selins arreados para montarem os artilheiros ... 156
Selins arreados para montarem os oficiais ... 13
Mantas para baixo dos selins ... 435
Peitoraes com tirantes de coiro para os cavallos dos artilheiros ... 136
Cabeçadas com prizões de ferro ... 435
Bornaes para grão ... 435
Aparelhos de limpeza ... 300
Tesoiras para tosquear cavallos ... 30
Franceletes com fivellas ... 300
Piquetes de corda com seus pertences ... 2
Mallas de coiro para garupa ... 284
Tirantes de corda de sobrecelentes ... 60
Manjedoiras  para 435 cavalos
Barracas de capitão ... 4
Barracas para subalternos ... 5
Barraquins ... 50
Caldeiras para rancho ... 50
Mações para soquetes de calibre 6 ... 40
Fiminellas para os ditos ... 40
Maças de soquete de calibre 9 ... 20
Fiminellas para as ditas ... 20
Maças de soquetes de calibre 18 ... 10
Fiminellas para as ditas ... 10
Resmas de papel cartucinho ... 20
Portavellas de coiro ... 12
Pares de pistolas com os seus coldres ... 284
Cartucheiras de cavalaria com 20 cartuchos embalados para cada uma ... 284
Carteiras de cavalaria ... 284
Esporas (pares) ... 284


Para o laboratório fulminante

Atacadores de latão vazados para espoletas de papel ... 20
Cabos para os ditos ... 20
Atacadores de ferro calçados de cobre com as cabeças chumbadas para velas .. 8
Atacadores de ferro sortidos para espoletas de pau ... 20
Macetas de pau sortidas ... 12
Formas de pau com anéis de ferro para carregar velas ... 12
Funis de folha de Flandres para carregar espoletas de papel ... 30
Ditos para carregar velas ... 12
Ditos para carregar bombas, ou granadas ... 4
Jogo de medidas de onça até arratel ... 1
Marco de pesos ... 1
Balanças (par) ... 1
Compasso de pontas curvas ... 1
Dito – direito pequeno ... 1
Régua graduada ... 1
Facas flamengas ... 25
Tesoiras grandes ... 2
Ditas pequenas ... 4
Peneiros finos ... 6
Ditos de crina ... 2
Crivos ... 1
Imprimidor de ferro para cabeças d’espoletas de papel ... 1
Vazador de ferro para cortar as cabeças das ditas ... 1
Torno de ferro pequeno ... 1
Torno de mão ... 1
Ditos de madeira para bancos ... 2
Martelo de cobre com orelhas ... 2
Ditos de ferro ... 2
Dito pequeno ... 1
Limas sortidas com cabos ... 10
Goiras sortidas ... 4
Formões ... 2
Caldeiras de arame para massa ... 2
Dito pequena para massa de polvora ... 1
Serra pequena ... 1
Verrumas(?) sortidas ... 8
Ferros sortidos para brocas ... 8
Chumbadas de brocas ... 1
Broca de peito ... 1
Alicates sortidos de ponta aguda ... 2
Ditos de ditas chatas ... 2
Arame para (cabeças?) de espoletas de papel (...) ... 4
Picas (?) feitas ... 12
Arame delgado (...) ... 4
Pranchada de chumbo pesada ... 1
Formas de pau para ballas de iluminação ... 12
Réguas de 4 palmos de comprimento e meio de largo ... 2
Ditas de 2 palmos ... 1
Esquadro ... 1
Calcadores de pau para vellas ... 2
Cocharras (?) de cobre para carregar as ditas ... 12
Ditas de ferro para espoletas de papel ... 2
Mactas/Maetas sortidas ... 6
Celhas para fazer composições ... 6
Peles de pergaminho ... 100
Ditas de lixa ... 3
Resmas de papel para espoletas ... 8
Ditas de dito cartão para vellas ... 16
Folhas de papelão para cabeças d’espoletas ... 50
Regoa com passadeira de todos os adarmes ... 1
Formas de pau sortidas de todos os adarmes ... 100
Fio de vella (...) ... 6
Passadeiras para todos os calibres de Artilharia
Goma Arabia (...) ... 16
Cocharrinhas de 2 e 3 oitavas para cargas de espolletas de pau ... 8
Broxas partidas ... 6
Maquina de tirar espoletas de bombas e granadas ... 1
Banco para carregar espoletas de pau ... 1
Repuchos de pau sortidos para calcar as espoletas de bombas ... 12
Serrotes sortidos ... 4
Berbequim com quatro ferros sortidos para brocar ... 1
Caixas de folha de flandres de 12 polegadas de comprimento, 4 de largura, e 4 de altura ... 12


Lisboa, 12 de Agosto de 1815
Maximiliano Augusto
Major Comandante


Fonte
Arquivo Histórico Militar, cota AHM-DIV-1-16-045-6, imagens 56 a 62

12/10/2016

Os Voluntários: Contributos para uma caracterização do oficialato


Em finais de 1814, na ressaca da Guerra Peninsular, o príncipe regente D. João mandou aprontar um corpo de tropas ligeiras do Exército Português para servir no Brasil.  A Divisão de Voluntários Reais (DVR), que tenho vindo a tratar aqui, no âmbito do bicentenário sobre a campanha de Montevidéu, serviu como válvula de escape para centenas de oficiais que procuravam avanço e promoção num exército completo, saído ‘vítima’ da eficiência de Miguel Pereira Forjaz e do marechal general W. C. Beresford e do total comprometimento português nas campanhas da Guerra Peninsular.

Quando a divisão foi anunciada formalmente através da publicação do decreto da sua criação no Diário do Governo a 15 de maio de 1815, eram nele pedidos voluntários entre o oficialato do Exército Português, com a promessa de acesso ao posto superior e que se manteriam agregados ao seu regimento de origem, no número dos destacados.

Nesta postagem vou analisar o número de voluntários que se responderam ao apelo e retratar o espírito de aventura e promoção profissional que a DVR proporcionou àquela altura.

O Exército Português

2.º Corpo de Cavalaria (Divisão dos Voluntários Reais): Oficial e Soldado (1815-1823) - trajavam a azul ferrete


Antes de mais, é preciso perceber que apesar de estar a fazer um ano sobre o fim da Guerra Peninsular, o Exército Português manteve-se em números de guerra até meados de novembro; altura em que passou a efectivos de paz, totalizando 40,840. Refletindo o número sem precedentes de oficiais que se haviam incorporado, em cerca de 48 batalhões de infantaria (2 batalhões por cada um dos 24 regimentos), só para nos referir à mais significativa das armas.

Uma expedição ao Brasil, em defesa do império e da Santa religião, já de si promessa de aventuras e de avanço e promoção, quem sabe por distinção no campo da honra, era ainda mais adocicado pelo acesso ao posto seguinte e a manutenção no Exército de Portugal, e não, como era habitual passar aos quadros do Exército do Brasil.

É natural que muitos oficiais tenham respondido sem grande hesitação. João da Cunha Lobo Barreto, que entra na DVR como tenente do 1.º Batalhão de Caçadores, vindo de Caçadores n.º 4, exprime bem o sentimento em presença:

Tão depressa se publicou este Decreto, se ofereceram para servir na mesma Divisão um sem numero de oficiais, inferiores e soldados; sendo tal o entusiasmo que podemos asseverar [...]  que se o governo naquela ocasião mandasse prontificar um corpo de 12 ou 15 mil homens aguerridos, os encontraria prontos para semelhante expedição.


Nas suas memórias, editadas pelo filho, o coronel Francisco de Paula Azeredo, que vem a comandar o 2.º Regimento de Infantaria, apresenta-nos o élan que a DVR inspirava num exército que esteve em guerra, de 1807 a 1814, e que se sujeitava agora à paz:

[...] 45 anos, com constituição robusta e ânimo ousado. A vida sedentária incomodava-o; o serviço ordinários das guarnições era uma ocupação modesta para quem via uma nova carreira de combates e glória. O trabalho era o seu deleite, e a actividade o maior prazer da existência. Não quis portanto deixar escapar esta oportunidade favorável de ir ao novo mundo aumentar os seus créditos e melhorar a sua posição, pois é sabido que além da sua espada não tinha outro património.

A questão da composição da infantaria da DVR: Caçadores todos?

William Carr Beresford
(Sir William Beechey)
Apesar de comummente se pensar que a DVR era constituída por 4 batalhões de caçadores, a 8 companhias cada, a mesma foi pensada para ser constituída por 12 companhias de caçadores e 20 companhias de infantaria ligeira (na verdade infantaria de linha regular, mas fardada como caçadores), mais não seja porque esvaziaria os 12 batalhões de caçadores que ficariam em Portugal (basta notar desde já que 38 dos 60 tenentes de todos os batalhões se apresentaram como voluntários).

Silvino da Cruz Curado refere que foi Beresford, no conflito com os governadores do Reino, que forçou um limite de 12 companhias de caçadores, pois como o marechal general Beresford coloca de forma clara, “[...] ponhamos-lhe nós o fardamento que quisermos, nem por isso os faremos caçadores... podendo, talvez tirar-lhes as qualidade de boa infantaria”. 


Oficiais generais e soldado e oficial da DVR
(José Wasth Rodrigues)

Apesar do conflito entre Beresford e os governadores do reino ser algo que foi mais ou menos constante desde 1809, a situação em paz era pior no sentido em que os interesses do maior aliado, D. Miguel Pereira Forjaz, começavam a divergir fortemente do dos ingleses desde o final da Guerra em 1814.

É de crer que Beresford terá estabelecido a divisão de efetivos entre infantaria de linha e caçadores da forma que veio a tomar, interpretando ao mesmo tempo os desejos do governo do Rio de Janeiro e as necessidades do Exército. 12 companhias de caçadores já implicaria que se retirasse cerca de um quinto de todos os oficiais de caçadores; imagine-se então se todas as 32 fossem recrutadas  nesta arma.

Os números

Embarque das tropas em Praia Grande (J. B. Debret)

Assim sendo, a DVR deveria ser constituída por 20 companhias de infantaria, 12 de caçadores, 12 de cavalaria e 2 de artilharia, tirando o efetivo do estado maior ao nível divisão, brigada e batalhão/corpo. 
Os efetivos seriam recrutados para cada um destas companhias a partir da arma correspondente.

Em termos da classe de oficiais, a DVR apresentava as seguintes vagas:

Infantaria:
2 tenente coronéis, 4 majores, 20 capitães, 20 tenentes, 40 alferes

Caçadores
2 tenente coronéis, 4 majores, 12 capitães, 12 tenentes, 24 alferes

Cavalaria
2 tenente coronéis, 4 majores, 12 capitães, tenentes e alferes

Artilharia
2 capitães, 2 primeiro tenentes e 6 segundo tenentes


Artilharia a Cavalo, da2.ª Brigada)  (Divisão dos Voluntários Reais): Oficial e Soldado (1815-1823) - trajavam a azul ferrete

A partir de 15 de maio, muitos oficiais voluntariaram-se para a expedição no Brasil. 
Estes são os números, por arma e por posto, de quantos se apresentaram:

Infantaria
3 coronéis, 7 tenentes coronéis, 14 majores, 55 capitães, 88 tenentes, 147 alferes
(Incluem-se nestes os coronéis Luís do Rego Barreto e Carlos Sutton e o tenente coronel John Prior, sendo que nenhum entrou)



Caçadores
5 tenente coronéis, 6 majores, 30 capitães, 38 tenentes e 41 alferes



Cavalaria
4 tenente coronéis, 3 majores, 10 capitães, 14 tenentes e 11 alferes


Artilharia
1 coronel, 1 tenente coronel, 7 capitães, 9 primeiros tenentes e 17 segundos tenentes


Se voltarmos atrás e relembrarmos as palavras do memorialista Lobo Barreto, que se o governo “mandasse prontificar um corpo de 12 ou 15 mil homens aguerridos”, não teria problema em o fazer. Pois os números demonstram-no de forma clara, e pouco faltaria (excetuo a cavalaria) para formar uma segunda DVR, se tal fosse necessário.

Aqui temos o rácio entre oficiais voluntários face às vagas no posto imediatamente superior na DVR e percebemos melhor a oportunidade que esta DVR representou para o oficialato português, sem perspetiva de promoção e muito jovem.




A classe dos capitães é a que mais se candidata, até porque era tradicionalmente o ponto de engarrafamento na carreira militar e o término desta para muitos. As pouquíssimas vagas de major (12 em toda a DVR, no que respeita aos batalhões) refletem um rácio que chega a ser de 14 capitães de infantaria de linha para 4 vagas de major, seguida de perto por 30 capitães de caçadores (mais de metade de todos os comandantes de companhias de caçadores do Exército) para 4 vagas de major. A arma que parece menos afetada é a de cavalaria, mas ainda assim apresenta 3 capitães por cada cada uma das 4 vagas de major nos dois corpos da arma. Apesar das outras classes não apresentarem rácios tão altos, mostram claramente que a oferta excedeu a procura em cinco vezes (se excluirmos as vagas de estado maior de brigada e divisão, que influem muito pouco nos resultados).

O caso dos Caçadores

2.º e 4.º Batalhões de Caçadores (Divisão dos Voluntários Reais, 1815-1823) - trajavam a castanho ou Saragoça


Ainda que Beresford tenha reduzido a 12 companhias o número de caçadores a retirar do Exército, ainda assim os 12 batalhões de caçadores ficaram sem muitos dos seus efetivos. 19,3% de todos os oficiais dos batalhões de caçadores foram para a DVR, abrindo promoção aos que ficaram. 

1 em cada 5 oficiais de caçadores em 1815 entrou na DVR.

Se verificarmos o número de oficiais de caçadores que se voluntariaram, por posto, é impressionante, tendo em vista as percentagens face aos efetivos dos 12 batalhões metropolitanos:

5 tenente coronéis (41.6% de todos os tenentes coronéis de caçadores)
6 majores (50%)
30 capitães (41.6%)
38 tenentes (63%)
41 alferes (34,2%)

Por exemplo, 63% de todos os tenentes de caçadores do Exército à altura, 38 num total de 60, ofereceram-se como voluntários, tendo 12 deles obtido o comando de uma das companhias.

***


Ainda que hoje tenuemente lembrada pela história militar portuguesa, a Divisão de Voluntários Reais foi naquela altura um imenso acontecimento para todos os militares do seu tempo e que se repercutiu de forma extraordinária na vida de muitos homens, mesmo entre os que estiveram em combate na Espanha e na França em 1813 e 1814.

Próximo: que medalhas usavam estes militares e como nos indicam elas a experiência militar que eles levaram à Campanha de 1816?

Conheça mais sobre o Exército Português nos Finais do Antigo Regime, de Manuel Amaral 

Fontes

- Arquivo Histórico Militar, 2/1/8/4 & 2/1/8/10

- AGUILAR, Francisco D’Azeredo Teixeira D’, Apontamentos Biographicos de Francisco de Paula D’Azeredo, Conde de Samodães, Porto, Tip. Manoel José Pereira, 1866.

- BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in: Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.

- CURADO, Silvino da Cruz, Campanha de Montevideu, A Ocupação Portuguesa do Uruguai, 1816-1823 (Col. Batalhas da História de Portugal, n.º 14), Matosinhos, QuidNovi, 2006.

- LIMA, Cor. Henrique de Campos Ferreira, O Exército Português: Enciclopédia pela Imagem ; dir. artística Alberto de Sousa. - Porto : Livraria Lello, Limitada Editora, 1930. pp 54-55.