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12/11/2022

Reorganização da DVR, Relação de Unidades e Oficiais (2 de maio de 1816)


Com base numa proposta do marechal General Beresford que já vinha de 1815, a Divisão dos Voluntários Reais do Príncipe reorganiza-se, em Julho de 1816, tendo sido enviadas cartas que chegaram apenas (em 2.º via) após a DVR ter embarcado para o Brasil.

Assim, só no Rio de Janeiro, a 2 de maio de 1816, é que as mudanças são efetuadas de facto na Divisão de Voluntários Reais, agora de  d’El-Rei, por D. João VI ter ascendido ao trono por morte de sua mãe, D. Maria.

Principais alterações:

- A partir do 3.º Batalhão de Caçadores (mais as duas últimas companhias do 1.º Batalhão de Caçadores), forma-se o 1.º Regimento de Infantaria, a 10 companhias.

- A partir do 4.º Batalhão de Caçadores (mais as duas últimas companhias do 2.º Batalhão de Caçadores), forma-se o 2.º Regimento de Infantaria, a 10 companhias.

- O 1.º e 2.º Corpo de Cavalaria funde-se no Regimento de Cavalaria, a 12 companhias.

É com esta formação que a Divisão embarcará a 29 de maio, com direção a Santa Catarina. A relação apresentada de seguinte contém quase três centenas de oficiais. A ortografia dos nomes está modernizada.


DIVISÃO DOS VOLUNTARIOS REAIS DE EL-REI

[280 oficiais]


ESTADO MAIOR [25 oficiais]

Comandante em Chefe

TenGen. Carlos Frederico Lecor


Ajudantes de Ordens (CeC)

TenCor. João Pedro Lecor (Gov Pç. Albufeira)

Maj. José Ferreira da Cunha

Maj. António Pinto de Araújo Correia (Caç.11) 

Cap. D. José Miguel de Noronha 

Cap. José Pedro de Faria de Lacerda (Cav. 10)


Ajudante General e Secretário Militar

MarCamp. Sebastião Pinto de Araújo Correia 


Ajudantes de Ordens do Ajudante General)

Cap. António Maria de Lacerda (Castello-Branco) (Cav.1)

Cap. Francisco Pinto de Araújo (Corrêa) (Inf.15)


Deputado do Ajudante General - TenCor. D. Álvaro da Costa (Inf.11)

Deputado do Ajudante General – Maj. Joaquim Cláudio Barbosa Pita

Assistente do Ajudante General - Ten. Frederico Ernesto Krusse (Inf.6)

Assistente do Ajudante General - Cap. António Pedro Lecor (1.º Ten, Veteranos)

Assistente do Ajudante General – 1.º Ten. Francisco Frederico Agorreta (Art. 3)


Oficial Maior da Repartição do Secretario Militar - Amaro José Ferreira


Quartel Mestre General

Brig. Bernardo da Silveira Pinto


Deputado do Quartel Mestre General - Maj. Miguel António Flangini 

Deputado do Quartel Mestre General - Maj. Filipe Neri Vital Gorjão 

Assistente do Quartel Mestre General - Ten. Jacinto (Pinto) d’Araújo Corrêa (Inf.6) 

Assistente do Quartel Mestre General - Ten. Gil Guedes Corrêa 


Auditor Encarregado da Repartição de Víveres – António Gerardo (?) Curado de Meneses (Juiz de Fora de Aldeia Galega)

Auditor Encarregado da Repartição de Transportes – Manuel da Costa Monteiro (Auditor do Depósito Geral de Recrutas de Infantaria)

Oficial Maior da Repartição do Secretariado Militar – Amaro José Pereira (Quartel Mestre, Art. 4)


Engenheiros

TenCor. Joaquim Norberto Xavier de Brito

TenCor. Francisco António Raposo


* * * 


1.ª BRIGADA DE VOLUNTÁRIOS REAIS [95 oficiais]

Comandante - Brig. Jorge de Avilez Zuzarte Ferreira de Sousa (Inf. 5)

Major de Brigada - Ten. José Leonardo Teixeira Homem (Cav. 4)

Cirurgião Mor - honras de Maj. Alexandre Luís Leite (Inf. 16)

Capelão - Fr. Gaspar da Rocha (Inf. 15)


1.º Regimento de Infantaria

Cor. João Carlos de Saldanha de Oliveira e Daun (Inf.13) 

TenCor. António José Claudino de Oliveira Pimentel (Inf. 5)

Maj. José Pedro de Melo (Inf. 24)

Maj. João Joaquim Pereira do Lago (Inf. 6) 

Ajudante - Ten. Claúdio Caldeira Pedroso (Inf. 17) 

Ajudante – Alf. António de Moura Brito (Inf. 17)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) Francisco de Andrade Taborda

Cirurgião-mor (honras de Capitão) José Joaquim Teixeira 


Quartel Mestre - João António Ribeiro Branco (Caç. 7)

Quartel Mestre – José Maria de Azevedo (Caç. ?)


1.ª Companhia - Cap. Ignacio da Cunha (Inf. 3)

2.ª Companhia - Cap. Carlos Hodge

3.ª Companhia - Cap. José Joaquim Pacheco (de Avelar) (Inf. 4) 

4.ª Companhia - Cap. Pedro António Rebocho (Inf. 23)

5.ª Companhia - Cap. José António Freire (Inf. 20)

6.ª Companhia - Cap. Alexandre Machado Paes (Inf. 21?) 

7.ª Companhia - Cap. João Rodarte da Gama Lobo (Inf. 10)

8.ª Companhia - Cap. António Duarte Pimenta (Inf. 18)

9.ª Companhia - Cap. José Cabral de Abreu Lima (Inf. 16) 

10.ª Companhia - Cap. João de Avilez Zuzarte (Inf. 2) 


Tenentes

Sebastião Lobo (de Vasconcelos) (Inf.9)

António Silvestre de Sousa (Inf.2)

António Manoel de Meirelles (Inf.3)

José de Magalhães (da Costa) (Inf.15) 

António Aniceto Cardoso (de Figueiredo) (Inf.3) 

Hipólito Cassiano de Paiva (Inf.7) 

Francisco Xavier da Cunha (Inf.19) 

António Basílio Garcês (Inf.19)

Domingos Ciríaco Avondano (Inf.9)

Caetano Cardoso de Lemos (Inf.6)


Alferes

Luís Leite de Castro (Reg. Mil. Guimarães)

António Bernardino Geraldo (Inf.6) 

Luiz Xavier Valente (Inf.10?)

Rodrigo de Sá Valente (Inf.10)

António José de Araújo (Inf.16)

António de Vale Salazar e Sousa (Inf.4)

António Luiz Ribeiro (Inf.4)

António Felix de Menezes Coelho (Inf.4)

Joaquim José Pereira (Inf.13)

José de Macedo (Inf.15)

Francisco Xavier da Costa

António Mendes Belo (Inf. 15)

Luís António Ribeiro Bonjardim

José Francisco da Maré

Jerónimo Ezequiel da Costa Freire

Carlos Frederico Krusse

João de Sousa (Inf.10)

Joaquim da Fonseca e Castro (Inf.10)

2/5/16: João de Sousa Quevedo Pizarro (2.º Reg Inf, DVR)

José de Amorim de Azevedo (1.º Bat Caç, DVR)


1.º Batalhão de Caçadores

TenCor. Manuel Jorge Rodrigues (Caç. 1) 

Maj. Jerónimo Pereira de Vasconcelos (Caç. 12) 

Maj. Caetano Alberto de Sousa Canavarro (Caç. 4) 

Cirurgião-mor (honras de Capitão) Francisco Bernardo de Santana (Caç. 6)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) Joaquim José Barrão (Caç. 8)

Ajudante - Ten. José Anastácio (Caç. 6)

Quartel Mestre - José António Fernandes (Caç. 6) (Sarg)


1.ª Companhia - Cap. João Teixeira Vieira de Queiroz (Caç. 12) 

2.ª Companhia - Cap. Sebastião da Cunha Ferraz (Caç. 4)

3.ª Companhia - Cap. João Manuel de Almeida (Caç. 11) 

4.ª Companhia - Cap. Sebastião Navarro (Caç. 6) 

5.ª Companhia - Cap. Luís de Vasconcelos Lemos Castelo-Branco (Caç. 4) 

6.ª Companhia - Cap. Lucas da Costa Pimenta (Caç. 4) 


Tenentes

Luiz Manuel de Jesus (Caç.8) 

José dos Santos Pereira (Caç.7) 

João da Cunha Lobo (Barreto) (Caç.4) 

António Maria de Gouveia (Caç.2) 

António Osório de Magalhães (Caç.1)

Filipe Corrêa de Mesquita (Caç.6)


Alferes

João Velez da Gama Lima (RegMil VViçosa)

António Joaquim da Silva Pacheco (Caç.3)

José António Furtado (Caç.5)

Francisco Inocêncio

António Jacinto da Costa Freire

António Mariz Carneiro (Caç.9)

António Ezequiel Cabrita (Caç.8)

José Martins Taveira (Caç.6)

António José Moreira (Caç.7)

José Vieira Dias (Caç.10)

José Maria da Paz (Caç.2)

Joaquim Rodrigues da Costa Simões


* * *


2.ª BRIGADA DE VOLUNTÁRIOS REAIS [94 oficiais]

Comandante - Brig. Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro (Inf. 16)

Major de Brigada - Cap. Pedro Pinto de Araújo Correia (Caç. 3)

Cirurgião Mor - honras de Maj. José Pedro de Oliveira (Caç. 6)

Capelão - Padre José Joaquim Pereira


2.º Regimento de Infantaria 

Cor. Francisco de Paula de Azeredo (Inf.8)

TenCor. João Crisóstomo Calado (Inf. 20) 

Maj. José Maria da Silveira (Inf. 18)

Maj. Guilherme Cotter (Inf. 9)

Ajudante - Ten. Leonardo da Sousa Leite (Inf. 13)

Ajudante – Alf. José Joaquim Antunes (Inf. 18)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) – Manuel Alexandra da Mota (Caç. 11)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) – Bernardo Machado da Cunha (Caç. 12)

Quartel Mestre - Bernardo José Xavier (Caç. 12)

Quartel Mestre – José Maria Picanço


1.ª Companhia – [vago]

2.ª Companhia - Cap. Francisco da Paula Esteves (Inf. 15) 

3.ª Companhia - Cap. José António Franco (Inf. 15)

4.ª Companhia - Cap. Manuel Jeremias Pinto (Inf. 17)

5.ª Companhia - Cap. António Joaquim Henriques Lobinho (Inf. 4) 

6.ª Companhia - Cap. Tristão de Araújo Vasconcelos (Inf. 21) 

7.ª Companhia - Cap. Duarte Cardoso de Sá (Inf. 12) 

8.ª Companhia - Cap. Salustiano Severino

9.ª Companhia - Cap. João Luís Pereira de Castro (Inf. 6) 

10.ª Companhia - Cap. Teotónio Nobre (Inf. 15) 


Tenentes

Francisco de Paula Cabrita (Inf.2) 

Luiz Emidio de Castro (GR Polícia)

João de Mattos (Maia) (Inf.15)

António José de Carvalho (Inf.3)

Henrique Luiz da Fonseca (Inf.2) 

João António de Abranches (Inf.7)

José Caetano Vivas (Inf.8) 

Francisco Zeferino Felgueiras (Inf.6)

João Pedro Xavier Ferrara (Inf.19) 

Joaquim da Sousa Pinto (Cardoso) (Inf.3)


Alferes

José Ignacio Burguete (Inf.13)

Ayres José Seromenho

José Ricardo Aparício (Art Nacionais Lx Ocidental)

Joaquim José Maria Parate 

António Caetano de Sousa Macedo

José Maria de Maré

Caetano José Vianna

João Ignacio Xavier (Art. Ordenanças)

Pedro José Baptista (GR Policia)

Manoel Esperidião da Silva (Inf.19)

Lôpo José Corte-Real (Inf.5)

José Joaquim Antunes (Inf.18)

João de Mattos Coatrim (Inf.8)

Francisco António de Moraes (Inf.12)

Rodrigo José da Silva Vieira

José Augusto de Carvalho

José Joaquim do Amaral (Inf.11)

José Manoel Peres (Inf.22)

José Hermenegildo Pereira de Horta (Inf. 16)

Fernando Homem de Vasconcelos

[2.5.1816:] Sebastião Correia da Costa (1.º Bat Caç., DVR)

Bernardo da Silva Sotomaior (Art, DVR)


2.º Batalhão de Caçadores

TenCor. Francisco de Paula Rosado (Caç. 11?)

Maj. João José de Moraes (Caç. 6) 

Maj. André McGregor (Caç. 4)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) José Miguel Neves (Inf. 14)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) José Rebolido Pinheiro (Caç. 8)

Ajudante - Ten. Francisco Xavier da Cunha (Inf. 19)

Quartel Mestre - António Inácio de Seixas (Caç. 8) (Sarg.)


1.ª Companhia - Cap. José Maria da Rocha (Caç. 12)

2.ª Companhia - Cap. Domingos de Almeida da Costa (Caç. 12)

3.ª Companhia - Cap. Miguel Correia de Freitas (Caç. 12)

4.ª Companhia - Cap. José Maria de Araújo (Caç. 3)

5.ª Companhia - Cap. Vicente José de Almeida (Caç. 7) 

6.ª Companhia - Cap. José de Vasconcelos (Caç. 8)


Tenentes

José Fernandes dos Santos (Caç.8)

João Teixeira de Macedo (Caç.4) 

Manuel de Sousa Pinto de Magalhães (Caç.11) 

Manoel Eleutério (Caç.12)

José Osório de Magalhães (Caç.1) 

Gaspar José de Brito (Caç.5)


Alferes

Sebastião Vaz da Costa

José Joaquim de Magalhães Fontoura

José Joaquim Correia (Artilheiros Nacionais Lx Ocidental)

José Marques Salgueiros (Caç.9)

Manoel Joaquim Maria (Caç.11)

Gregório José dos Santos (Caç.1)

Luiz Pinto (Caç.3)

Manoel António da Fonseca (Caç.12)

Manoel José (Caç.5)

José da Cruz de Freitas (Caç.4)

Francisco Esteves de Figueiredo (Inf.17)

António Inácio (Inf.4)


* * * 


Regimento de Cavalaria [53 oficiais]

Cor. António Feliciano Teles de Castro Aparício (Cav. 1)

TenCor. António Manoel de Almeida Morais Pessanha (Cav. 6)

TenCor. João Vieira Tovar de Albuquerque (Cav.9) 

Maj. Joaquim Claúdio Barbosa Pitta (Cav.3)

Maj. António de Castro Ribeiro (Cav.3)

Maj. João Nepomuceno de Lima (Cav.4) 

Maj. Duarte Joaquim Correia (de Mesquita) (Cav.8)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) João Ferreira de Almeida (Inf. 13)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) Joaquim António Pinto (Inf. 19)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) Julião José de Almeida (Inf. 16)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) José Celestino da Costa (Inf. 1)

Picador (honras de Tenente) José Pedro Lobo (Legião Tropas Ligeiras)

Ajudante – Alf. António de Sousa Florindo (Cav. 12)

Ajudante – Alf. João Tavares (Cav. 4)

Quartel-Mestre - Duarte José da Cruz (Cav.7)

Quartel-Mestre - Francisco Nunes do Amaral (Cav.1)

Capelão - José Pinto dos Santos (Inf.21)

Capelão - Manoel Martins (Caç.4)


1.ª Companhia - Cap. José António Esteves de Mendonça e Sá (Cav.1)

2.ª Companhia - Cap. António de Cerqueira (Cav.9)

3.ª Companhia - Cap. João de Nepomuceno (Isidro) de Macedo (Inf.11) 

4.ª Companhia - Cap. Miguel Pereira de Araújo (Cav.7)

5.ª Companhia - Cap. Lopo de Vasconcelos Pereira (de Abreu) (Cav.12)

6.ª Companhia - Cap. José Maria de Sá Camelo (Cav. 10)

7.ª Companhia - Cap. Francisco Inácio da Silveira (Cav.8)

8.ª Companhia - Cap. Bento José Duarte (Cav.4)

9.ª Companhia - Cap. José de Barros e Abreu (Cav.1)

10.ª Companhia - Cap. José Maria de Cerqueira (Cav.9)

11.ª Companhia - Cap. Joaquim Antonio de Moraes Palmeiro (Cav.4)

12.ª Companhia – Cap. Filipe Neri de Oliveira (Cav. 4)


Tenentes

José de Melo Sousa e Meneses (GRPolicia)

Fortunato de Melo (Cav.11) 

José Francisco Raposo (Cav.8)

António Ferreira da Costa (Cav. 5)

Manuel Joaquim de Lima Bezerro (?) Praça (Cav. 11)

João Batista de Oliveira (Cav.4)

António Maria Xavier (Cav.4)

João Xavier de Morais (Resende) (Cav.3)

Domingos Egídio de Freitas (Cav. 8)

José de Melo (Cav. 9)

Luís Estevão Couceiro (Cav. 11)


Alferes

Vicente Ferreira Brandão Furtado de Mendonça (Reg Mil Viana do Castelo)

João Gomes da Silva (Cav.1)

Anselmo José de Almeida Valejo (Cav.8)

António José da Rocha (Cav.9)

António Pedro da Rocha (Cav.3)

Carlos Schultz

Francisco António da Silva

Sebastião Rodrigues (Cav.1)

José Dias de Carvalho (Cav.5)

António Figueira de Almeida (Cav.8)

José de Mendonça (Cav.7)

Albino Pimenta de Aguiar Mourão


* * *


Corpo de Artilharia [13 oficiais]

Comandante - Maj. Maximiliano Augusto Penedo (Art.2)

Ajudante - Cap. Vicente Antonio Buys (Art.2)

Qartel Mestre – António José da Costa (Art. 2)


1.ª Companhia - Cap. José Ricardo da Costa (Silva Antunes) (Art.2)

2.ª Companhia - Cap. António José da Silva (Art.2) 


Primeiros-Tenentes

João Caetano Rosado (Art.2)

Joaquim Filipe Lampreia (Art.2)


Segundos-Tenentes

João Ignacio Holbech (Art.1)

Roque António de Faria (Art.1)

Faustino António Jovita (Art.1)

José Dias Serrão (Art.3)

Gabriel António Francisco de Castro (Art.4)

António José Peixoto (Art. 2)


Fonte

- Arquivo Histórico Militar, 2.ª Div. -01-03-05

28/09/2021

Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816 (J. J. Machado de Oliveira)

“Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816".

Autor: José Joaquim Machado de Oliveira (Legião de São Paulo)

Datas extremas: 18.3.1816 - 9.3.1820

(Publicado em Revista do Arquivo Municipal, Ano VI, Volume LXXII, Novembro-Dezembro 1940, São Paulo, Departamento de Cultura da Prefeitura, pp. 5-20) [Leia online aqui - abre nova página]

* * *



[Início]

1816. 1.ª Campanha. 

Março 18. Saí de Pôrto Alegre embarcado e com tropa - 23. Cheguei à Vila do Rio Pardo.

Julho, 29. Saí de Rio Pardo com tropa, e acampamos na Picada. 30. Na Cruz Alta. - 31. No Campo de Felipe Carvalho.

Agosto 1. No Arroio Butucaraí. Passo de cima. - 2. No Capão dos Enforcados. 3. No Passo de Jacuí, aonde se esteve o dia. 4. Ocupado na passagem do rio. - 5. A meia légua distante daquele passo. - 6. No Passo da Estiva. – 7. Na Restinga Seca, estância de Antônio Gonçalves Borges. - 8. No Arroio do Sol, aonde se esteve também o dia 9, por chover muito. - 10. No capão de Manuel Paim. - 11. No Arroio de Santa Maria. - 12. No capão da eståncia do Pompeu. - 13. No rodeio velho das éguas do Felipinho ou Felipe Santiago. - 14. Na estância do Serino (Cirino ?), irmão de meu pag. (pagem ?) Domingues. - 15. Na estância do tenente-coronel Carneiro, ou Pau Fincado. — 16. Na estância de Manuel Ferreira, seu genro. - 17. Na estância de São Felipe. - 18. Na margem esquerda do Arroio Cacequi. Morreu afogado o cabo Malaquias. - 19. Ao pé da estância do inglês Daniel Luiz Carlos. - 20. No Passo do Rosário, aonde estivemos até o dia 29. - 30. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 31. No Vacacuá. estância de Antônio Caetano. 

Setembro 1. Na Guarda da Conceição. aonde estivemos os dias 2 e 3. - 4. No Arroio da Porteira (?) ao pé da estância de Inácio Adolfo. -. 5. No Pôrto do Alferes Pinto.- 6. Nas cabeceiras do Ibirapuitã Chico, aonde estivemos o dia 1. - 8. No campo de João da Costa. - 9. Em São Diogo. - 10. ... pontas do Arroio de Valença. - 11. Acampamos no Boqueirão das Lagoas - 12. Na tapera do Leme, ou Capão do Cirurgião. Ali chamando-nos o Abreu (tenente-coronel José de Abreu) a conselho, decidiu-se que deviamos ir à Provincia das Missões, já invadida pelos insurgentes deixando a nossa marcha para Belém. - 13. No Suaraim chico. - Passo das carretas 14. No Arroio Garopá. - 15. No Arroio Camoatim. - 16. No Arroio Caoati.  -- 17. Num dos galhos do Toro-passo. - 18. No Arroio Toro passo, aonde estivemos o dia 19, passando 0 Arroio, que estava de nado. - 20. No Arroio Cochi-passo. Foram vistos alguns bombeiros (espiões) do inimigo. - 21. Na estância do Aferidor. Ali fizemos passar para o outro lado do Uruguai os Insurgentes, que se achavam, tanto na estancia, como no Passo de Santa Maria no Ibicui, aprisionando-se 2 homens e 6 mulheres (?) e alguma cavalhada. Falhamos o dia 22. - 23. No Ibiraocaí - 24. Acampámos no Ibiricui, aonde estivemos passando o dia 25. - 26. Na estância de Joãozinho de Oliveira. Neste dia bateram-se duas partidas inimigas, que andavam em saque. Foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 26 insurgentes. - 28. Na estância do Padre Alexandre, aonde falhámos o dia 29, por chover muito. Foram vistos dois bombeiros (espiões) do inimigo. - 30. No capão de João Machado. 

Outubro 1. Na margem direita do Arroio Butuí, de nado. - 2. Além do Banhado de S. Borja. Ali estivemos até o dia 4. 5. No outro lado do Banhado de S. Borja. - 6. Neste dia fomos. ao Butuí, na sua barra, como não encontramos uma partida inimiga que ali fôra vista, retrogradamos... chovia. - 7. Acampamos no Povo de S. Borja, e ali estive até o dia 23, ocupado numa inquirição - 24. No Ivaí, aonde estava a divisão. - 25. No Capão de Butuí. - 26. No Butuí-chico. - 27. No pôrto da estância de Santa Rosa. - 28. No Ibicuí, Passo de S. Rosa e ali nos demoramos o dia 29 na passagem. -- 30. No capão da estância do tenente Olivério. - Na margem esquerda do Ibirapuită, Passo Guassú.

Novembro 1.º No Pai-passo. 2. Na tapera de Inácio dos Santos Abreu, – 3. Em S. Diogo. Ali se achava o Regimento da Ilha. - 4. No acampamento do Ibirapuitã, aonde estava o exército, Ali estivemos até 20 de dezembro.

Dezembro - 25. Marchou todo o exército e acampamos ao pé da estância do Cláudio. - 26. Saí para o Côrpo da Vanguarda, e acampamos ao pé da tapera do Cláudio, aonde se falhou o dia 27. - 28. Acampamos no campo de Juca Mingote. - 29. No Indahim, onde se falhou o dia 30. - 31. A vanguarda marchou um quarto de légua sobre a frente, aonde se falhou o dia 1.º de janeiro de 1817. 


1817.

Janeiro 2. No Arroio Catalã. A vanguarda marchou às 6 da tarde para o Arapeí, chegou alí a 3, atacou o acampamento inimigo e voltou no mesmo dia para Catalã, aonde chegou às 7 da tarde. No dia 4 houve nesse lugar a batalha de Catalã, e falhou-se o dia 5. - 6. Num dos galhos do Arroio Catalã, aonde se falhou os dias 7. 8. 9 e 10. - 11. Na barra do Catală, aonde se falhou os dias 12, 13, 14 e 15. - 16. No Suaraim, no Passo do Lageado. Dêste lugar saí em diligência para Pôrto Alegre a 29 e fui pernoitar na estância de João dos Santos Abreu. 30. No porto da estância de Joaquim Luiz - 31. Na estância de capitão Brito.

Fevereiro 1. Na estância do tenente-coronel Antônio Pinto. - 2. Na estància de S. João. - 3. Pernoitei nos Morais. - 4. Na Cachoeira. - 5. Em Rio Pardo. - Embarquei para Porto Alegre. - 8. Em Porto Alegre, aonde estive até o dia 3 de março, e embarcando com tropa para o Rio Pardo, ali cheguei no dia 11.

Março 15. Saimos de Rio Pardo e acampamos no Capão da Vendinha do Arroio das Pedras. -16. No Butucaraí. Passo da Ponte. - 17. No Passo de S. Lourenço no Jacuí, 18. Em Santa Bárbara. - 19. Na estância do Corcundinha. - 20. No Arroio da estância do capitão Freire - 21. No ... de Luiz Machado - 22. Na estância do Padre João de Almeida. - 23. No Vacacaí, estância do coronel Pinto. - 24. No pôrto velho do Batoví. -- 25. No Passo de S. Borja. - 26. No Capão do Severo. - 27. Na Guarda da Conceição, donde se falhou o dia 28, por quebrar-se o eixo do carro. 29. Acampamos no pôrto de Joaquim Luiz. - 30. Na Estância do Tulio. 31. No campo de Juca Mingote.

Abril 1. No acampamento do exército no Suaraim, aonde estivemos até 20 de março de 1818, e a 21, marchando o exército, saí daquele acampamento com a tropa comandada pelo coronel Abreu, e acampamos no Arroio Sarandi.


1818.


Março 22. Nas pontas do Sarandi. - 23. No Arroio do Areal, estância do Guarda-mor. - 24. No Capão do Tigre, estância de Joaquim Pôrto. ---- 25. Nas pontas do Nhanduí, onde se falhou o dia 16, por chover. -- 27. No capão da estância de Gaspar Nunes. - 28. Na capela de Alegrete. Saí dêste lugar para Porto Alegre em diligência no dia 3 de junho e fui pernoitar na estância do Dornellas.

Junho 4. Na estância do major João Machado Bitancourt. - 5. Na estância do Severino. --- 6. Pernoitei na estância do capitão José Machado. - 7 No pôrto da estância de S. João. - 8. Na estância do alferes Machado.- 9. Na freguezia da Cachoeira. – 10. Na vila de Rio Pardo, aonde embarquei no dia 11, e no dia 12 cheguei a Pôrto Alegre.

Saí de Porto Alegre em 6 de novembro, embarcado, e cheguei a Rio Pardo a 12 do dito, de onde saí a 23 e pernoitei na chácara do capitão Bernardo. - 25. No Passo de S. Lourenço.-- 26. Em Santa Bárbara. -27. Na estância de Manuel Rodrigues Penteado. - 28. No Adolfo. 29. Na tapera de Luiz Machado. - - 30. Na estância do padre João de Almeida.

Dezembro. 1. Na capela de S. Gabriel. - 2. Na cochilha de Jubatuim. - 3. Na estância de Antônio Francisco. -- 4. No Passo do Rosário. - 5. Na estância da Côrte Real, no Capão. 6. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 7. Na estância do capitão Florêncio. -- 8. Na estância de José Maria. - 9. Na capela de Alegrete. Primeiro movimento da guarnição para a fronteira. A 25 de dezembro saiu de Alegrete a guarnição e foi acampar no Arroio Pai. Passo. - 26. No mesmo Arroio. No Passo da Marmota. - 27. Na estância da Marmota. -- 28. Numa das pontas do Pai-Passo. - 29. 


[1819]

Em outra ponta do dito, aonde estivemos até o dia 4 de janeiro de 1819, e no dia 5, marchando-se para a fronteira, soube se que o inimigo se retirara, e por conseguinte retrogradou-se, e acampamos no arroio da divisa do Marmota. 6. No lado esquerdo do Ibirapuitã. - Passo guassú. 7 - Na capela do Alegrete.

Segundo movimento. A 1.º de Abril saímos da Capela de Alegrete, em consequência da segunda invasão das Missões, e acampamos a meia légua distante dali, à margem do mesmo Ibirapuitã, e dêsse lugar passamos para o Pôrto das Pedras, ao pé da Capela, a 10 do dito mês. A 17 chegou o sr. Conde da Figueira, e a 20, movendo-se a divisão, acampou do outro lado do Ibirapuità - Passo guassú. 

Maio 21. Num capão do campo do Joaquim Machado. 22. No Ibicuí, Passo de S. Rosa, aonde nos demoramos a passá-lo o dia 23. ---- 24. No Pôrto de .... de S. Rosa. -- 25. Nas pontas do Butui. - 26. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel -- 27. No Camacuã. Ali nos reunimos com a tropa do marechal Chagas. -- 28. No Itaraoquim. 29. No capão do pôrto do Severino. - 30. Piratini, Passo Novo da Figueira. -- 31. Ao anoitecer marchamos, e ao amanhecer paramos em uns capões ao pé da estância de S. Jerónimo. 9.

Junho 1. Ao anoitecer marchamos e fomos amanhecer no dia 2 no Povo de S. Luiz, e acampamos fora - 3. Acampamos dentro do Povo de S. Luiz, aonde estivemos até o dia 9. 10. No Passo de Pirajú. - 11. Nuns capões de S. Jerónimo. -- 12. Estando assentado... no Arroio Guaraçá, marchamos para o Povo de S. Nicolau, por saber que o inimigo o evacuava. - 13. Marchamos com destino para o Passo de S. Isidoro, e por se achar o Arroio Jacatobá de nado, aí acampamos. - 14. Meia légua distante do Passo Geral do Piratini. 15. Apartando-se a Legião da divisão, para unir-se ao Côrpo de Abreu, acampou no capão do Porto do Severino.- 16. Em Itaroaquerim. - 17. Na estância de S. José, do Chagas, - 18. No Passo de S. José do Camacuã. -- 19. No G...iaçai, aonde se achava a tropa do Abreu. - 20. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel... 21. Nas pontas do Butui. - 22. Acampamos no capão da estância do Cunha. -- 28. No Ibirapuitã, Passo guassú.- 29. Na Capela de Alegrete.

Julho - Nos dias 4, 5, e 6 de julho marchou a divisão do brigadeiro Abreu, e eu fiquei para me retirar para Pôrto Alegre em consequência do meu emprego. - 31. Saí da Capela de Alegrete e pernoitei na estância de Felipe Carvalho.

Agosto. 1. Em Taperí, chácara de Joaquim Leonel. 2. No banhado de Saicã, meia légua distante do Pôrto da estância de Antônio Franeisco. -- 6. Na estância do major Tomaz 7. Na Capela de S. Gabriel, aonde falhei o dia 8. - 9. Na estância do tenente-coronel Antônio dos Santos - 10. Na estância do Mancio. - 11. Na estância do Quartel Mestre. - 12. Pernoitei na estância do Machado Gordo, ao pé da estância do tenente Ricardo. -13. Na chácara de Manuel Joaquim Teixeira no Capão dos Enforcados. 14. Na Cruz Alta. - 15. Em Rio Pardo, aonde embarquei a 17, e a 19 cheguei a Porto Alegre.


2.ª Campanha, 1820. 

Janeiro. Na noite de 2 saímos de Porto Alegre com & infantaria e a artilharia do meu comando, e chegamos a Rio Pardo a 8, e no mesmo dia acampamos no lado direito do Passo do Rio Pardo. - 9. No capão da Cruz Alta. - 10. No Passo de S. Lourenço no Jacuí. - 11. Nos Morais. - 12. No Arroio do Lageado, divisa de S. Jo... 13. No Passo de Carutaí. - 14. No Arroio do Lageado no campo de S. Fidélis. -- 15. No Passo de S. Borja. - 16. Na estância de Placido Severo. - 17. No Passo de Ibicuí-Chico. - 18. Acampamos duas léguas distantes de Itaquatiá. - 19. Em Itaquatiá, aonde estava o exército. - 20. Na tapera de d. Ramon. --- 21. Chegámos ao Passo do Sutil no Cunhapirú, e aí, esperando a noite, marchámos para o Taquarembó Grande, aonde chegámos na manhã de 22, em que atacamos o inimigo e o derrotamos. Aí estivemos nos dias 23 e 24. - 25. Retrogradamos para o Passo do Sutil. - 26. Acampamos no Cunhapirú. - 27. Nas pontas do Ibicuí. - 28. Nos morros de S. Ana. - 29. No Sarandi, - 30 No Funchal. --- 31. No Pai-Passo, pontas.

Fevereiro. - 1. No Passo do Pai Passo. - Em Alegrete. Aí ficamos até o dia 21. - 22. No Arroio do Lageado. - 23. No Arroio Jaguaquá. - 24. No tenente-coronel João Machado. - Falhamos o dia 25, por chover. - 26. Acampamos no Arroio Cacequí. - 27. Em S. Gabriel. - 28. No Fidélis, aonde estivemos o dia 29.

Março. - 1. No Arroio .... 2. Na tapera de Luiz Machado. 3. No Passo de S. Bárbara. - 4. Na estância do tenente Ricardo.- . No Arapoá. - 6. Na estância do Bibiano. - 7. No Arroio Francisquinho. - 8. No Arroio dos Ratos. – 9. Em Porto Alegre".

[Fim]


* * *


Pequena biografia

O capitão José Joaquim Machado de Oliveira nasceu em São Paulo, a 8 de Julho de 1790, filho do  tenente coronel Francisco José Machado de Vasconcelos e de D. Ana Esmerina (Esméria ou Esmênia) da Silva.

Com um ano e meio de idade, o pai assentou-lhe praça mas só em dezembro de 1807, já com 17 anos, foi reconhecido cadete.  É Alferes em 1809, tenente em 1811 e, finalmente, graduado em capitão em 13 de Maio de 1813, pelos seus serviços na Campanha de 1811-12.

Em 1816, com cerca de 26 anos, é capitão de infantaria da Legião de Voluntários Reais, de S. Paulo, e participa com distinção, nos combates do Passo de Yapeyú e na batalha de S. Borja, e, já em Janeiro, na Surpresa de Arapey, sempre sob o comando direto do tenente coronel José de Abreu.

22/06/2021

Fiel, natural e circunstanciada exposição dos acontecimentos da noite de 23 de Junho de 1821 (João Crisóstomo Calado)


Resultado da revolução liberal do ano anterior, 1821 foi um ano de grandes perturbações políticas em todo o império e especialmente no Brasil, que albergou a corte portuguesa até Abril desse ano, após 13 anos de permanência. Ainda que integrado no Exército do Brasil, a Divisão de Voluntários Reais, que ocupava Montevideu (e Colónia do Sacramento) há já 4 anos, era ainda um vasto corpo militar que até o ano anterior estava destacado do Exército de Portugal, com vagas asseguradas no seus respetivos corpos de origem; isso já não acontecia em 1821, apesar das promessas prévias. 

Essa situação incerta, em conjunto com a propagação dos ideais constitucionalistas vindos da metrópole portuguesa, levou a um período de instabilidade e revolta política que afetou fortemente a disciplina e coesão militar da Divisão. 
Com o levantamento de alguns oficiais em 20 de Maio, liderados pelo coronel Claudino Pimentel, que entre outras coisas obrigou o tenente general Carlos Frederico Lecor a jurar previamente a constituição, iniciou-se um período revolucionário, com grande ação dos membros do Conselho Militar e a geral politização de todas as classes. As divisões que resultaram viriam a ter grande influência posteriormente na independência do Brasil, com este processo na recém-criada Província Cisplatina (será declarada formalmente a 31 de Julho de 1821) a assemelhar-se mais a uma guerra civil que propriamente uma independência modelo.

O texto memorialista que transcrevo é um pequeno exemplo das muitas situações que ocorreram neste autêntico período revolucionário em curso e centra-se no levantamento do 2.º Regimento de Infantaria da Divisão na noite de 23 de Junho de 1821. De sua própria volição, o regimento, aquartelado fora da praça de Montevideu, no Seco, um pouco a norte da praia do Buceu, pegou em armas com a inabalável intenção de se dirigir em massa a Montevideu a reclamar direitos.
O texto resulta da versão dos factos pelo coronel João Crisóstomo Calado, comandante do regimento, que tentou controlar a situação, articulando com o capitão general Lecor a melhor forma de resolver a delicada situação. A transcrição foi feita a partir de um manifesto impresso publicado no Rio de Janeiro e que pode ser encontrado no arquivo online Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo aqui.

A ortografia foi modernizada, com pequenas notas explicativas, assim como conversão de medidas antigas portuguesas, nomeadamente a toesa, que converti para o sistema métrico em 1,98 m. A acompanhar o texto, publico ainda uma parte do mapa "Planta dos Subúrbios de Monte-Video", referente a Maio de 1826, desenhado por Adolfo António Frederico de Seweloh e com base em levantamento feito pelo coronel Jacinto Desidério Cony, da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e que pode ser visto aqui. Neste mapa, que pode ser visto em cima, destaquei as localizações que são referidas no texto, para melhor ilustração da geografia.

* * *

Fiel, natural e circunstanciada exposição dos acontecimentos da noite de 23 de Junho de 1821, pela irregular e indiscreta reunião do 2.º Regimento de Infantaria da Divisão de Voluntários Reaes d' El-Rei em seu próprio acantonamento do Seco.

O coronel João Crisóstomo Calado, chefe deste regimento, aliás tão benemérito pelos seus serviços, e a quem ele não deixou um só instante de prestar todo o desvelo, e cuidados, que lhe prescreviam os seus deveres, e amor de seus próprios soldados, sem dúvida estimaria sepultar no silêncio tal acontecimento, sufocando a perene mágoa que lhe assiste, se este, além de ser tão público, não fosse objeto de transcendência quanto à sua honra , e quanto à disciplina do mesmo regimento, só levado a tal excesso por espírito de vertigem imprevisto, fruto das circunstâncias azedadas por quotidianos sofrimentos: eis a razão porque aparece à luz pública a presente exposição, que desfazendo ilusórios boatos, fará brilhar a verdade , mostrará com clara luz o erro, e falta; porém porá em seguro a honra do mesmo coronel, e removendo calúnias, que se possam atribuir ao seu Regimento, ou por ignorância do facto, ou por má tenção, não deixará em menos preço o conceito militar, de que é digno tal corpo.
    Não sendo por tanto o seu fim senão narrar a verdade, se limitará ao acontecimento, sem levantar o véu, que poderia sendo rasgado, descobrir estranhos motivos, e dar margem a dissensões sempre perniciosas, e de que he alheio o seu caráter, e sistema; assim, só apontará as reflexões devidas, e que se achem implícitas na sua exposição, protestando, do modo o mais sagrado, não ser da sua mente querer ofender a pessoa alguma, mas sim só pugnar por si, e pelo seu regimento, como lhe cumpre.

Aconteceu que, pelas sete horas e meia da tarde [1930h] do mesmo dia 23, tratando o referido coronel de diferentes objetos de policia para o seu regimento com o ajudante José Joaquim do Amaral, em virtude de certas participações, e reflexões, fez o coronel chamar o capitão do estado maior, a quem recomendou nova, e expressa exação nas revistas ordenadas no regimento. Pouco depois das oito horas, voltou o mesmo capitão do estado maior, e deu parte que tudo se tinha cumprido, e sem novidade. Após disso se retirou, e havendo-se despedido o ajudante, ficou só o coronel no seu próprio quartel.
    Às nove horas [2100h] pouco mais ou menos, comparece o sargento da 6.ª Companhia Manuel José Lopes, e dá parte que as companhias 3.ª 4.ª 5.ª e 6.ª se achavam armadas, e fora dos quartéis; pouco depois, chega o capitão do estado maior dá a confirmação oficial à mesma parte. O coronel se veste arrebatadamente, e vai apresentar-se ás companhias, alheio inteiramente do que pretendessem por tal desatino; chama os sargentos para avisarem aos senhores oficiais a comparecerem imediatamente; a intimação desta ordem não era precisa em geral, pois já alguns se achavam presentes, clamando pela boa ordem.
    Apenas o coronel é visto, e reconhecido dos soldados, rompem estes gritos: “Meu coronel V[ossa]. S[enhoria]. perdoe, porém nós queremos ir a Montevideu para que se paguem nossos soldos segundo o prometimento, que se nos fez na madrugada do dia 20 de Março: a estas vozes, tendo o coronel respondido que estavam loucos, segundam: “Não estamos, meu coronel, V. S. e os senhores oficiais que queiram, hão de acompanhar-nos: nós não demos parte deste acontecimento a V. S., porque o não queríamos ver em Conselho de Guerra, e a nos todos não nos hão de meter; e os senhores oficiais, assim como nos convidarão na noite de 20 de março, nós os convidamos agora”. Apesar de ser crítico o momento de interpor com firmeza a voz de autoridade, o coronel, fiado na disciplina do seu corpo, e respeito dos soldados, que mostravam amá-lo quer fazer-se obedecer, e dissolver uma reunião, filha do delírio, chama os sargentos, e intima a ordem para que os senhores oficiais sem demora fizessem entrar as companhias no seu dever, e as recolhessem nos quartéis: a 3.ª companhia, dócil à ordem, se encaminha a cumpri-la, porém as outras desgraçadamente se conservam firmes, e não obedecem, Passa então o coronel a tentar os meios da persuasão, e conciliação. Determina aos sargentos que formem as companhias para ele ir falar-lhe a cada uma de por si, o que executa, procurando com razões fazê-los capacitar, que deviam sossegar, obedecer, e entrar nos quartéis, que ele coronel se fazia cargo das suas queixas, e representações, que não era aquela a maneira cordata de as fazerem, anti militar, imprópria, e indigna de tão bons soldados, com todas outras reflexões próprias do assunto: neste momento, de uma das companhias rompem os gritos: “Vamos aos Granadeiros”; de outra: “Meu coronel, V. S. não tem que recear o sucesso, esta deliberação é de toda a Divisão, quando nós chegarmos a Montevideu, teremos as portas abertas, e os nossos camaradas da guarnição á nossa espera, e nós ternos que ir pela artilharia, e cavalaria”. Declarada à geral inteligência, e mostrando-se ser este ato tão premeditado, e serio, reflexiona o coronel que é preciso variar de expediente, sendo inúteis, e infrutíferos os meios já aplicados, e que é forçoso ceder por hum momento à torrente, para depois regular a sua direção; assim grita: “Senhores, iremos onde queiram, porem primeiro quero saber se me obedecem”. Respondem por aclamação: “Sim, senhor, faremos quanto V. S. mandar, porém queremos ir a Montevideu”. Aproveita o coronel esta pausa, e manda ao Ajudante José Joaquim do Amaral que apresentando-se no quartel das duas companhias de Granadeiros que distará 72 Toesas do Seco [c. 143 metros], contivesse a ordem e precaucionasse maior desatino, caso ali já lavrasse o alvoroço; e ordena ao major José António Franco passe rapidamente a Montevideu, e inteire de tudo ao ilustríssimo e excelentíssimo senhor capitão general barão da Laguna [Carlos Frederico Lecor, 1765-1836], o que não tinha antes praticado, por não remeter uma participação de tanto dissabor, em quanto julgava estar ao seu alcance remediar o mal, não sendo tão pouco, a seu ver, acertado que se alvoroçasse Montevideu àquela hora da noite, sem absoluta precisão; pois eram já 11 horas [2300h]; e é certo que o referido major falou a S. excelência às 11 e três quartos [2345h].
    Passa depois o coronel a ponderar aos soldados, que deviam ir em ordem, e levar as bandeiras do regimento: nisto é obedecido de bom grado. Encaminha-se pois ao quartel com duas companhias a executar o que havia proposto, e bem que ali com motivos prolixos e frívolas razões se demorasse meia hora, se conservam era silencio e sossego os soldados. Enfim, dois oficiais tomam as bandeiras, e marchando para a Cidadela se reúnem ali às duas companhias. Postas em formatura, tenta outra vez o coronel persuadir aos soldados quanto era melhor entrarem nos quartéis, e ali esperar que S. excelência o senhor capitão general fosse ouvir as suas representações, que ele como seu Chefe lho prometia, e obrigava a consegui-lo do seu general. Bem entendido o coronel que ainda não era o momento da saudável crise, mas não quis omitir a menor coisa, para descargo do seu dever: assim não lhe foi estranha a resposta do seguinte grito: Não, senhor, queremos ir a Montevideu por nossas pagas”; faz-lhes entender que era impraticável serem pagos daquela maneira, como pensavam, que nem havia dinheiro, nem estava á disposição de S. excelência: resposta: “A Divisão está paga em dia pelo Estado, e o dinheiro deve estar em Montevideu”. E é nesta ocasião que novamente remete outra parte a s. excelência o senhor barão da Laguna pelo ajudante José Joaquim do Amaral rogando-lhe encarecidamente se apressasse a ir encontrar o Regimento: assegurando-lhe ao mesmo tempo que ele Coronel se faria forte a detê-lo em ordem. Outrossim, que sua excelência devia persuadir-se que só a sua presença poderia evitar que o regimento entrasse em Montevideu; onde achando-se de acordo com os outros corpos, poderia promover funestos desacertos, em menos cabo de todo o respeito ás autoridades, em menos preço da honra nacional: que sim sua excelência tomasse na praça as medidas que julgasse a propósito, porém sem demora, ou falência fosse encontrar, e falar ao Regimento. Contudo, podia assegurar a sua excelência que os outros corpos não seriam tocados pelo do seu comando, que este se prestaria respeitoso a receber a pessoa do senhor capitão general; e que finalmente a marcha se fazia pelo caminho do cordão, visto ele a não poder estorvar. Isto era uma hora da noite, e é certo ter o ajudante faltado a sua excelência à uma e meia.
    Tenta depois o coronel mostrar aos soldados o absurdo da sua opinião, e persuasão, porfiam em marchar adiante. Como faltasse a 1.ª companhia, lembra-se este incidente para os fazer demorar; debalde foi, porque respondem: “Já está avisada”. Assim, sem poder evitar, o coronel marcha com as seis companhias para o ponto onde costumava reunir o regimento, quando era mandado vir a Montevideu [1] [Este lugar distará da Cidadella 139 toesas [cerca de 275 metros]. Aí procura entreter o tempo que pode em prolixidades de formaturas, até que se reuniu a l.ª companhia: lembra então que faltam a 2.ª e 8.ª, e que as ia fazer avisar, o que executa pelo capitão da l.ª de Granadeiros Salustiano Severino dos Reis com expressa recomendação para que o major Francisco de Paula Esteves conservando-as formadas o esperasse, fazendo observar toda a possível ordem. Tendo decorrido alguns minutos, se põe o coronel à frente das sete Companhias, e procurando o caminho o mais extenso, se dirige ao quartel da 2.ª e 8.ª companhias, que distará 130 Toesas do lugar aqui citado [c. 257 metros], e com tudo, seria já uma hora e meia, quando se efetuou a incorporação das duas Companhias com o major Esteves, que ali o esperava, conforme a ordem comunicada: a este determina que forme o regimento (*) [Existia este só com nove companhias, porque a 7.ª ainda se achava a bordo da fragata Tétis, tendo só desembarcado duas das 3 que já estavam a bordo para seguirem com o regimento para o Rio de Janeiro.] por ordem de companhias em um largo que fica entre o Campo do Silva; e o Seco (**) [Este sitio distará de Montevideu 2822 toesas. [cerca de 5588 metros] segue pois a marcha em razão dos repetidos clamores dos soldados, que já não era possível rebater: o coronel a efetua por um desfiladeiro, caminho só de escolha para ganhar tempo; e vem colocar o regimento junto do Saladeiro do Pereira, da outra parte do caminho, onde é o quartel de uma companhia do 1.º Regimento de Cavalaria, que felizmente não foi inquietada. Foram tantas as delongas, que só ás duas horas e meia aproximadamente, é que o regimento se formou no citado sítio, que pouco mais ou menos distará 264 toesas do Silva [c. 523 metros].
    Não tinha já o coronel oficial algum, que pudesse dispensar para dirigir a sua excelência o Sr. Barão; e como instava a necessidade, manda o seu próprio criado para pessoalmente vir ter com sua excelência, e instar quisesse apressar-se, pois haviam ultimado os esforços para conter, e demorar a marcha, e resolução do regimento; que ele coronel tinha esgotado todos os recursos para sossegar os Soldados, que ainda ia a tempo de o escutarem com decoro, que a não aproveitar os momentos, era inevitável a entrada em Montevideu o que seria o pior dos males, e a maior desgraça. Chega depois de poucos momentos o ajudante Amaral, tendo já falado com sua excelência em Montevideu, a quem de novo faz marchar na mesma diligencia. Progredia a marcha para os subúrbios da Praça. Porém graças ao delineado estratagema, só às três horas e três quartos [0345h] formou no sitio denominado Tres Cruces, junto á Panadaria de Morales, aquartelamento da artilharia da Divisão, que distará 497 toesas [c. 984 metros] do quartel da 1.ª companhia de cavalaria acima referida, e fica a meio caminho de Montevideu ao Seco.
    Dada a voz de alto, e preenchidas as formalidades usadas, pensa o coronel fazer o último esforço para se opor à aproximação da Praça, que era já o mal eminente. Reverte-se da energia de chefe e lança mão do encanto, que embeleza os corpos filhos da disciplina, quando o chefe é amado e respeitado: “Soldados! Quero e ordeno que aqui se a guarde o senhor capitão general: eu castigarei o primeiro que me desobedeça. A junção com outros corpos não é agradável neste caso um obre como queira, e vós como julga o vosso coronel, que é vosso verdadeiro amigo”. Ficam firmes em coluna, e não replicam. Dá-se ordem para fumarem, e conservarem-se sem rumor, e assim se conservam até depois das quatro horas [0400h] em perfeita docilidade. Era muito para delicadas circunstâncias, e o mais que podia conseguir qualquer Chefe depois dos primeiros sucessos.
    Seriam quatro e um quarto [0415h], quando chega o secretário militar, o coronel Miguel António Flangini. Em razão da névoa e escuro, é equivocado com o senhor barão da Laguna, e o coronel dá a voz de sentido que é obedecida como voz de comando em parada. Conhecida porém dos soldados a equivocação rompem de novo os gritos: “Vamos a Montevideu; sua excelência não vem aqui”. Dá-se a voz de silêncio, e então o coronel Flangini declara aos soldados, que o senhor capitão general tinha já sabido da Praça pelo portão novo, que estava em caminho, e que necessariamente se tinha desencontrado. Esta fala é escutada com respeito, e decoro; porém clamam logo adiante. Toma então o coronel a frente do regimento, e com firmeza, e inteira resolução faz entender que castigaria o primeiro que falasse, e em segunda manda ao capitão da 2.ª companhia, António José de Carvalho, que se adiantasse da coluna a esperar a sua excelência, para o acompanhar, e dirigir ao lugar, onde o Regimento tinha feito alto. Chega finalmente sua excelência o senhor capitão general. Tudo se conserva firme em coluna como estavam, e guardam silêncio.
    Determina sua excelência, que saiam os primeiros sargentos, e 1 soldado por companhia a falar-lhe. Os Soldados trepidam, receiam sair fora da formatura: nenhum quer fazer cabeça na representação. Em virtude disto, o coronel dá a voz, que saiam os soldados da direita das companhias. É obedecido, e vem apresentar-se a sua excelência que lhes faz a interrogação acerca do que querem os seus camaradas: respondem que querem os seus pagamentos. Um dos sargentos se excede em menos preço do respeito devido a sua excelência, referindo com aspereza, e sem comedimento injustiças sofridas em promoções, falta de soldos, e outras queixas, que sendo proferidas de modo indevido, o coronel toma o arbítrio de o mandar calar, o que não tinha praticado imediatamente, em atenção a estar perante o Sr. capitão general, que o escutava, e a quem se dirigia; mas não era lícito tolerar desatinos a infinito sem os estorvar.
    Em circunstâncias tais, julga o coronel dever satisfazer a todo o o corpo, e pede a sua Ex.ª queira entrar na coluna, a fim de que todos os Soldados pudessem ouvir, o que tivesse a dizer-lhes. Manda abrir intervalos, e pôr as armas ao ombro, o que é executado, como se fora em parada regular. Passa sua excelência ao centro da coluna, e pergunta aos Soldados de que se queixavam, e convida-os a que falem. Repetem as queixas de faltas de soldos, e acrescentam que em outras capitanias se havia dado uma gratificação à Tropa, e que nesta pelo contrário, tendo-se-lhe prometido pagar, nem isso tinham obtido. Que tinham muito frio, que estavam sem mantas, e vivendo em um quartel sem tarimbas, e deitados pelos chão muito húmido, o que era mui penoso e prejudicial à saúde, que não podiam resistir ao desarranjo, em que viviam com metade de um pão (*) [Como recebiam um dia pão, e outro farinha, por isso contam meio pão por dia.] por dia, e péssima ração de carne, por ser tão magra, se apegava ás paredes, que os trapos com que se cobriam, e esteiras em que dormiam, as tinham destruído em que consequência de embarcarem para o Rio de Janeiro, como se tinha feito publico por ordem, não se tendo efectuado, por sua Ex.ª o estorvar, apesar de já estarem embarcadas três companhias; que eles estavam prontos a servir em qualquer parte que os mandassem, porém queriam a sua paga.
    Tendo-os sua Ex.ª escutado urbanamente, passa a animá-los, e persuadi-los, que o não terem ido para o Rio, fora em razão de terem chegado novas disposições, e contra ordem para assim o executar, que se lhe havia de pagar, que estivessem contentes, que àqueles, que aqui quisessem continuar o serviço, se lhe dariam hortas aos casados e por fim procura sua excelência fazer-lhes ver, que em alguns pontos das suas queixas havia dificuldades, que ele não podia remover, e que era absurda a desconfiança, em que estavam a seu respeito; que ele contava, como era de esperar, fossem sempre dignos soldados, e que merecessem o agradecimento da nação, como tinham merecido até ao presente. Replicam que queriam ser pagos por letras bem como os oficiais. Segue sua excelência dizendo-lhes, que os oficiais se sujeitavam a um alto rebate, que eles o não podiam sofrer, nem ele general passar letras de pequenas quantias. Estando a romper a alva (**) [Seriam aproximadamente cinco horas e um quarto [0515h].] e havendo já concorrência de povo na estrada, roga o coronel a sua excelência queira retirar-se, ao que anui, e seguindo para a Praça, marcha o coronel, com regimento para o seu acantonamento, acompanhando-o o coronel Flangini, no maior sossego, e na melhor ordem, chega às 6 horas, e recolhem-se as companhias nos seus respetivos quartéis sem a menor novidade.
Á vista deste relatório tão verdadeiro, como exato, seria escusado nada adicionar, mas o coronel julga de justiça ajuntar algumas reflexões, que o mesmo objeto parece apontar. É bem certa, e clara a falta, que este Regimento cometeu, mas que moral, disciplina militar não é preciso haver em seu corpo para retrogradar do seu delirante desacerto, e parar depois dos primeiros passos! É mais fácil conservar sucessiva e pacífica ordem, do que fazer reviver a ordem quebrantada. Lisonjeia ver triunfar o respeito, e a subordinação mesmo a par do erro, e mostrar-se este corpo digno mesmo na sua falta. É nas circunstâncias difíceis que se prova o verdadeiro espírito, e conceito de um corpo. O perigo apura o merecimento; nisto se prova quanto pode a boa educação militar com bons soldados; e é de esperar que este acontecimento não seja mais que ligeira nuvem nos belos dias da sua existência militar.
    Cumpre igualmente não deixar em silencio que o seu coronel tinha já repetidas vezes dirigido representações tocantes aos sofrimentos dos soldados, e bem que algumas não pudessem ter pronta solução, ignora a fatalidade porque outras não foram escutadas em tempo oportuno, como o foram imediatamente depois deste triste facto. Longe da sua ideia querer por tais reflexões disfarçar a gravidade em si de tal procedimento no seu regimento; mas é justo que a verdade apareça e que se pese o bem e o mal. Desta maneira julga ter praticado e satisfeito ao que se tinha proposto. Montevideu, o l.° de Novembro do ano de 1821.

João Crisóstomo Calado

RIO DE JANEIRO NA TYPOGRAPHIA NACIONAL.

***

Pouco menos de um mês depois, o general Carlos Frederico Lecor publica uma ordem do dia em que se refere expressamente aos acontecimentos de 23 de Junho:


Quartel General de Montevideu, 20 de Julho de 1821

Ordem do Dia

O capitão general, comandante em chefe, ao mesmo tempo que desaprova a conduta que mostrou inconsideradamente o 2.º Regimento de Infantaria da Divisão dos Voluntário Reais d'El-Rei, na noite do dia 23 do mês próximo passado, escolhendo o modo menos militar, e mais incompetente, para lhe fazer as suas representações quando, sem ordem, saiu dos seus quartéis e resolveu assim causar-lhe o sentimento mais estranhável, tem a satisfação que é possível no meio de um sucesso tão fatal, considerando que a deliberação dos soldados em pedirem naquela ocasião os seus oficiais, e as suas bandeiras, a atenção ao que se lhes disse, e o sossego e harmonia com que voltaram para o seu acantonamento, parece provar que o seu momentâneo desvio da primeira lei dos exércitos não foi ação voluntária deles, mas sim obra de um alento sedutor que se agitou para os alucinar.

O comandante em chefe quer persuadir-se de que os filhos de um povo constante e generoso, e eles os mesmos que deram às nações admiradas, no abandono das suas casas, dos seus haveres, e de tudo o que mais anima os homens na vida, para cumprirem as ordens do seu governo, o maior exemplo de patriotismo, de obediência, e de resignação, que os anais do mundo apresentaram e que a história cuidadosamente recomendará à posteridade mais remota, para que lá mesmo seja famoso; as tropas que no espaço de seis campanhas combateram na Europa com vantagem, porque o fizeram com honra e subordinação; os soldados a quem a vitória acompanha desde os campos da Roliça, até às margens do Garona, onde a paz desejada mandou fazer alto aos seus brios, aqueles finalmente que na América sustentaram  em quatro campanha o crédito merecido porque foram valentes, humanos e disciplinados, não podiam aventurar-se a um passo que é contrário aos seus deveres, à sua reputação e aos seus interesses, e que seus veneráveis pais, encanecidos na prática da virtude, hão de saber com a dor mais intensa, por ser diametralmente oposto à boa educação que lhes deram, sem que a eles enganosamente os arrastasse mão insidiosa, malévola e estranha, invejosa da glória deles, adversa ao bom nome português e declarada inimiga da felicidade desta província, e dos seus dignos e beneméritos habitantes.

Ainda assim sendo, o proceder do 2.º Regimento, naquele repente vertiginoso, não é escusável, porque mal se parece a debilidade e ligeireza com que os soldados então faltaram à sua obrigação, com a fortaleza e reflexão de quem tantas vezes viu inalteradamente a morte no meios dos combates.

O comandante em chefe, na impossibilidade de que os acontecimentos passados deixem de ter existido, deseja ao menos que o poder eterno apague na memória das gentes a recordação da parte da noite de 23, e lavar, à força de bom comportamento, a nódoa que tanto o afronta, para que não vá escurecer com uma nuvem negra e ominosa os claros e gloriosos dias da pátria, e para que modere, ou inteiramente satisfaça, e desarme a justa indignação, com que ela há de castigar os ultrajes que fazem ao seu decoro e dignidade os que violam o respeito e obediência das leis.

Barão da Laguna


31/12/2018

Exército do Brasil: Diogo Arouche de Moraes Lara


Diogo Arouche de Moraes Lara foi um dos mais distintos infantes brasileiros, militar e literariamente, que nunca chegou a ver a independência do Brasil. A sua Memória da Campanha de 1816, escrita no acampamento do Quaraí em 1817 logo após os eventos, só seria publicada em 1844, por iniciativa do seu camarada Machado de Oliveira. Foi à estampa 25 anos após o seu autor cair em combate, tentando libertar S. Nicolau, à frente do regimento que comandava.

O tenente coronel Diogo Arouche de Moraes Lara nasceu em S. Paulo em 1789, filho do tenente general José Arouche de Toledo Rendon [na foto] e de D. Maria Thereza Rodrigues de Moraes. 

José Arouche de Toledo Rendon (pai)
Vinha de uma família paulista com grande tradição castrense, sendo o seu avô o mestre de campo (ou coronel) Agostinho Delgado Arouche e seu bisavô o sargento mor Francisco Nabo Freire, nascido em Lagos. Muito pouco é conhecido acerca da fase inicial da sua carreira militar, mas terá estudado matemáticas e, em 1802, com cerca de 13 anos, é nomeado tenente da companhia de caçadores do 2.º Regimento de Milícias de S. Paulo, pelo capitão general da província, António Manuel de Melo e Castro de Mendonça. 

O capitão general seguinte (António José Correia da Franca e Horta, 1753-1823) ainda não havia confirmado a promoção por volta de 1803, mas notou que o tenente servia “sem nota”.  Em Maio de 1803, é inclusive indicado numa nota o oficial que Diogo Arouche vai substituir, Joaquim Pedro Salgado que havia sido agregado em capitão para fora da província.

Legião de S. Paulo

Não é certo quando integra a Legião de Voluntários Reais (também conhecida por Legião de S. Paulo), mas tê-lo-á feito na artilharia, conforme sugere o seu camarada Machado de Oliveira (Oliveira era também capitão graduado na infantaria, mas mais moderno que Diogo Arouche), provavelmente entre 1804 e 1808, tendo-se deslocado para o Rio Grande. Terá passado, previamente a 1809, à infantaria; na Legião, a arma era constituída de 8 companhias em 2 batalhões. 



Certo é que, a 27 de Junho de 1809, é promovido a alferes de 4.ª Companhia do 1.º Batalhão de Infantaria da  Legião de Voluntários Reais, de sargento (não indica mais nada, pelo que poderemos aferir que era também de infantaria).

Não é certo de que forma se relaciona o facto de Diogo Arouche Moraes Lara ter sido tenente de milícias e depois, passado a uma unidade de linha, ou como sargento ou até assentado praça. Pode ter sido que a promoção não foi confirmada pelo novo capitão general, ou uma muito incomum despromoção de oficial, ainda que passando da 2.ª à 1.ª linha. A primeira possibilidade é a mais certa, pois não tenho conhecimento de nenhum caso semelhante na segunda senão por punição disciplinar (e ainda assim, para um jovem cavalheiro, a demissão era preferível).

Participa na campanha de 1811-1812. Machado de Oliveira indica que Moraes Lara, então ou alferes ou tenente serviu como parlamentário com grande distinção

A 13 de Maio de 1813, na promoção geral após a campanha, é promovido a ajudante do 1.º Batalhão de Infantaria da sua unidade. Ajudante era o assistente do sargento mor, em matéria administrativas e logísticas e estaria ao nível de tenente.

A Campanha de 1816

A 25 de Julho de 1814, é graduado em capitão de infantaria na Legião. Serviu como diretor do Arsenal de Porto Alegre, mas em 1816 retorna à Legião na área do Rio Pardo para servir na campanha iminente. 
Os dois cargos em que serve neste período são indicativos de uma forte competência em termos administrativos, seja como ajudante do major do seu batalhão, seja gerindo o arsenal da capital da província.

Com 27 anos, é capitão graduado de infantaria da Legião e participa da batalha de Catalán [saiba mais], onde segundo Machado de Oliveira, Moraes Lara comanda uma das partes da carga de infantaria na parte final da batalha que ajudou a derrotar o ataque principal oriental: 

[...] e posto enfim à frente de uma massa de infantaria penetrou o bosque, em que se entrincheirara uma grande parte da infantaria inimiga, e donde sustentava um fogo mortífero contra a espalda do acampamento, bateu denodamente esta força, e obrigou-a a aceder depois de vigorosa resistência, rendendo-se mais de 200 prisioneiros.”

Já no acampamento do Quaraí, em 1817, Diogo Arouche Moraes Lara escreve uma das mais importantes fontes dessa primeira fase do conflito, especialmente em Entre Rios e Missões. 
Os mapas que lhe vem anexos são preciosos croquis das batalhas de S. Borja, Arapéi e Catalán. 

Ainda que escrito em 1817, o manuscrito só em 1844 reemerge pelas mãos de José Joaquim Machado de Oliveira, que o transcreve e faz publicar na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (RIHGB), em 1845, assim como uma biografia de Diogo Arouche, a qual, pela sua proximidade ao oficial, dou mais valor, ainda que a mesma esteja longe de exata ou precisa.

A 22 de Janeiro de 1818, é promovido a Capitão efetivo, no comando da 1.ª Companhia do 1.º Batalhão da sua legião, o lugar de maior prestígio para um oficial da graduação dele. Já agora, o seu camarada e biógrafo Machado de Oliveira era o comandante da 1.ª Companhia do 2.º Batalhão.

Já próximo do final da guerra, por volta de 1818-1819, é promovido a tenente coronel, no comando do recém-criado Regimento de Milícias Guarani a Cavalo, de Missões, formado a partir das companhias de milícias a cavalo de Missões (8 de guaranis e 3 de brancos, originalmente), que vinham já de 1811.

Morre em combate, a 9 de Maio de 1819, com cerca de 30 anos. em S. Nicolau, no comando do seu regimento, ao tentar reocupar o aldeamento às forças orientais. Algumas fontes dão-no como não tendo ainda cumprido o seu 30.º aniversário, sendo que assim terá nascido entre Junho e Dezembro de 1789.

Memória(s) da Campanha de 1816

No manuscrito da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro [conheça aqui, abre nova janela], está ao início uma Advertência que, quando da publicação em 1845, foi omitido ou não existia no manuscrito usado por Machado de Oliveira. Seja como for, aqui a transcrevo, convidando também  ler a versão publicada na RIHGB, em 1845, que pode ser lida aqui:


Advertencia.
O Amor da Patria, e do meu Soberano me faz tomar o maior interesse por tudo quanto he util, e gloriozo para ambos. A Campanha d' 1816 feita pelas Tropas da Capitania do Rio Grande de S. Pedro do Sul, he pelas brilhantes acçoens militares nella havidas hũa das muitas que fundamentam a digna reputação das Armas Portuguesas, a Gloria Nacional, e a de El Rey D. João 6.º. E dezejando conservar a memoria de tão brilhantes acçoens, assim como os respeitaveis nomes de tantos heróes, q nella fizerão-se remarcaveis, me propuz a escrevêla; e puz em pratica o meu dezejo, prevalecendo o Patriotismo às dificuldades, que me apresentavão as faltas de talentos, e dos conhecimentos precizos de todas as particularidades, que as partes officiaes das mesmas acçoens militares não mencionão, e que exigião pennoza investigação para alcansallas, muito principalmente em meio dos tumultos de hũa guerra activa. Escrevi pois como pude, e expuz os factos taes, e quaes conheci, sem me poupar ao trabalho de investigar a verdade; ficando-me sempre o pezar de o não poder fazer com aquela elegancia, que meresse tão grave assumpto: estimarei porem, que hũa pena digna delle, podendo-se aproveitar da noticia que dou daquelles acontecimentos, os descreva de maneira, que se eternizem os nomes dos meos honrados Patriotas, que trabalhárão com distinção naquella memoravel Campanha, e chegue ao conhecimento das geraçoens vindouras a prezente gloria do meu Rey, e da minha Patria. 
O Autor

Não existe, tanto quanto sei, um retrato de Moraes Lara, o que muito completaria a ideia de quem foi o militar, sempre muito baça pelas lentes do tempo.

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Imagem de topo
- Várzea do Carmo (Arnaud Pallière). fonte: Wikicommons. São Paulo, 1821.

Fontes
- Gazeta do Rio de Janeiro
LARA, Diogo Arouche de Moraes – Memória da Campanha de 1816, in Revista do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Tomo VII, n.º 26 – Julho de 1845, p.: 123 a 170, terceira edição, Rio de Janeiro ; imprensa Nacional, 1931, p.: 123 a 170.
- ------------ - Apêndice à Memória da Campanha de 1816, in: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo VII, n.º 27 – outubro de 1845, p.: 263 a 317, terceira edição, Rio de Janeiro ; imprensa Nacional, 1931, p.: 363 a 317.
- OLIVEIRA, José Joaquim Machado de, Breve Noticia Biographica sobre o Auctor da Memoria da Campanha de Artigas, in: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo VII, n.º 27 – outubro de 1845, terceira edição, Rio de Janeiro ; imprensa Nacional, 1931, pp. 256-262.

- BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento, Dicionario Bibliographico Brazileiro, v. 2,Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1883. pp. 175-176
- BOEIRA, Luciana Fernandes, Como Salvar do Esquecimento os Atos Bravos do Passado Rio-Grandense: A Província de São Pedro Como um Problema Político-Historiográfico no Brasil Imperial (Tese de doutoramento), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2013pp. 162-163
- CEZAR, Adilson, "Elogio de Adilson Cezar a seu patrono Ten Cel Diogo Arouche de Morais Lara". in: O Guararapes, Órgão de Divulgação das Atividades da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, Aditamento ao N.º 42, Julho e Setembro 2004, http://www.ahimtb.org.br/guarara42a.htm. página de internet [31.1.2018]
SILVA, João Manuel Pereira da , Os varões illustres do Brazil durante os tempos coloniaes. 2 tom. [t. 1], (3.ª Edição),  Rio de Janeiro: B. L. Garnier. 1868