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08/04/2026

Memoria Histórica do Regimento de Infantaria de Santa Catharina (Manuel Joaquim de Almeida Coelho, 1850]

«MEMORIA HISTORICA DO EXTINCTO REGIMENTO DE INFANTARIA DE LINHA DA PROVINCIA DE SANTA CATHARINA, OU INFORMAÇÕES DOS SEUS SERVIÇOS MAIS NOTÁVEIS E DOS MOTIVOS E LOGARES ONDE OS PRESTOU, ESCRIPTA NA CIDADE DO DESTERRO EM DIAS DO NATAL DO ANNO DE 1850

[Manuel Joaquim de Almeida Coelho]

PDF: Memoria Histórica do Regimento de Infantaria de Santa Catharina (Manuel Joaquim de Almeida Coelho, 1850]

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[...]

Campanhas de 1816 a 1820

SERVIÇOS E OCCUPAÇÕES DO REGIMENTO

As ideias do gabinete do Rio de Janeiro, de ocupar a praça de Montevidéu e seu território, descortinaram-se com a chegada ao Brasil da divisão de voluntários reais ao mando do general Carlos Frederico; e no detalhe geral dos corpos existentes então no Sul, ou para reforçar aquela divisão, ou para ocupar os diferentes e importantes pontos. da fronteira, foi o regimento de Santa Catarina destinado para fronteira de Missões (190 léguas pouco mais ou menos distante do Rio Grande). Sem se declarar o seu destino, ele teve ordem de marchar para Bagé, donde tomaria a direção conveniente; e foi então que alguns intrigantes espalharam boatos que o regimento repugnava a marcha, afirmando-o ao general Manoel Marques de Souza, comandante cio Rio Grande, e este ao Marquês de Alegrete, governador e capitão-general da capitania, com cores mui feias, como então se disse. Devia-se ao regimento 16 meses de soldo (tanto quanto tempo havia que não recebia) e debaixo deste pretexto a notícia da repugnância se foi propagando, o caso tornando-se sério, e alguns soldados mais simples tomando a peito o negócio, instigados pelos intrigantes. O certo é que, no dia 16 de março de 1816, tocou a chamada, e o regimento seguiu ao seu destino: todavia em abono da verdade devo dizer que uns poucos e mais inocentes soldados demonstraram alguma repugnância, deixando-se ficar firmes (sinal estabelecido pelos intrigantes) à voz de andar à direita; porém à primeira e simples admoestação, no maior silêncio, marcharam. (42)

Na charqueada de Domingos Rodrigues fez alto, e aí apareceu o general Manoel Marques, a titulo de despedir-se mas o fim dessa despedida foi mais politico e observador, que efeitos de amizade e separação; e isso foi bem conhecido por todos aqueles que sabiam que, por causa da intriga, pouco ou nada se ganhara, no Rio Grande, a sua afeição: entretanto que o general estava bem persuadido da desobediência e desordem no regimento, para que tanto trabalhavam os degradados e outros intrigantes, a quem parece que o tenente-coronel prestava ouvidos. No dia o regimento chegou a Bagé e teve ordem de esperar por algum soldo. Aí foi onde o tenente-coronel Terres [António José Torres de Meneses] dirigiu uma participação ao capitão-general, do regimento repugnar a marcha para a fronteira (tanto poder tem a ilusão no espírito do homem fraco!) quando nem uma repugnância havia, e com cores tão feias que o capitão-general mandou reforçar, com praças de outras, a companhia. de granadeiros, desmembrá-la e seguir para a fronteira, debilitando desta maneira o regimento. 

Houve, porque tudo se soube, quem afirmasse que fora tal a participação do tenente-coronel Terres que o capitão-general, no seu primeiro impulso de irritação, resolvera o tremendo castigo de mandar desarmar à viva força o regimento e quintá-lo: tais iam sendo as consequências do medo do tenente-coronel! E nesta parte, se disse, não ser ele tão culpado como um seu mentor, que era o oficial ou o homem mais medroso e intrigante que então havia. Entretanto que o procedimento do regimento foi bem observado. 

A desmembração da companhia de granadeiros quer corno disse, teve um fim político, por um acaso inesperado desmentiu ao comandante do regimento e destruiu todas quantas más ideias ocuparam a mente irritada do capitão-general. A companhia foi com uma marcha forçada de 150 léguas (descrevendo zig-zags, que assim o julgaram alguns necessário para o fim de a acabar) apresentar-se na missão de S. Francisco de Borja, onde a salvação de muitas vidas e a honra de nossas armas dependiam da sua chegada, ou de outro qualquer auxílio de tropa. Saíra ela de Bagé com cento e onze praças, inclusive os seus oficiais, (43) e por seduções de alguns dos corpos do continente, desertaram alguns bons soldados para a cavalaria de dragões ou para a força que reunia o general Joaquim Xavier Curado; e foi assim que, com mil promessas de vantagens, se pôs em prática um plano (fosse ele de quem quer que fosse) de deixar o regimento sem soldados. A companhia chegou a S. Francisco de Borja a 13 de setembro de 1816 com oitenta e cinco baionetas; e oito dias depois de aquartelada, foi posta a povoação em rigoroso e apertado assédio por André Artigas, à testa de dois mil homens, pouco mais ou menos, bem armados, e duas peças de artilharia.

Comandava a fronteira de Missões o brigadeiro Francisco das Chagas Santos; mas não havia tomado bem (ou confiava demasiadamente na sua valentia) as precauções e medidas necessárias para se não expor a um sítio, dentro de uma praça (130 léguas distante da capital mais de 80 do general Curado) sem segurança de auxílio e falto de alguns meios para sustentar-se; porque, afora a artilharia (sem artilheiros) pólvora e bala que tinha bastante, de tudo mais carecia. para acudir a mais de duas mil pessoas de ambos os sexos diferentes idades, das famílias dos índios e outros extranaturais que existiam ou se recolheram á praça, contando com a proteção das nossas armas. A força com que devia sustentar-se o general, pouco excedendo a 120 homens de cavalaria miliciana portuguesa e alguma do regimento de cavalaria miliciana guarani, de necessidade sucumbiria, se não chegara tanto a tempo a companhia de granadeiros.

Com este contingente, Chagas, a quem nunca faltou valor e presença de espírito, contou a seu lado duzentos e tantos combatentes. Foram imediatamente nomeados os comandantes das bocas das ruas ou entradas da praça (44) e assestada urna peça de artilharia em cada uma; e assim foi dividida a companhia, indo a cavalaria guarnecer a quinta. Foi nomeado pelo general, major da praça, o capitão José Maria da Gama, oficial que possuía, além da nobreza da sua pessoa, a valentia e mais predicados necessários para um posto tão importante em ocasião perigosa.

Amanheceu o dia 22 de outubro e com ele o inimigo a tiro de peça e ao som de instrumentos marciais, cercando a Povoação. Não direi que observara tática alguma adotada pelos exércitos sitiadores; mas fanatizado o de André Artigas por um frade apóstata (fr. Pedro) que nos seus discursos persuadira aos índios que morrendo no combate, ressuscitariam além do Uruguai entre suas famílias; e ao mesmo tempo, observando no exército muita disciplina, não podia deixar de ser um inimigo corajoso e temível; além da que os índios das Missões (de que se compunha cio grande parte a força inimiga) são sofredores e valentes, quando os dirige um chefe de sua fé. como então era André Artigas.

Estabelecido o assédio, teve a praça que sofrer vários, mas mal dirigidos ataques do inimigo, que foram sempre rechaçados pelos nossos: contudo, oficial houve da nossa cavalaria que, temendo algum fim desastroso, se atreveu a lembrar ao general Chagas uma escápula, rompendo-se em uma noite a linha dos sitiantes: felizmente essa lembrança não mereceu resposta alguma: e nunca a deve merecer o militar que se atrever a tanto, uma vez que se não tenham envidado todos os esforços e esgotado lodos os recursos da defesa! Ao amanhecer do dia 28 o inimigo carregou com tal furor e animosidade que a nossa cavalaria teve de recuar, cedendo alguns passos do terreno que ocupava, e a infantaria de sustentar um vivo fogo de o rebater muito de perto e quase braço a braço; e por, isso mesmo que o inimigo. preparado de machados, trabalhou por arrombar as portas do exterior (e o conseguiu de uma, apesar de ser muito forte) e algum houve que chegou a pôr pé dentro de casa: contudo, horrorizado e bem sangrado, se retirou às suas linhas, com perdas de muitos.

O general Chagas, que presenciou atentamente e a valentia da guarnição. congratulou-se com os granadeiros pelos atos do bravura e intrepidez, que acabavam de praticar; entretanto que iam faltando os mantimentos na povoação e não havia água. Era então dessa distinta companhia o cadete José Joaquim de Almeida Coelho, já bem conhecido por seu génio denodado. Esse moço (sem que alguém lhe encomendasse) encarregou-se de expor a vida, durante o sítio, para suavizar o sofrimento de muitos sitiados. Com seis ou oito granadeiros, de armas suspensas a tiracolo pelas bandoleiras e uma pequena peça de amiudar, puxada a mão, quando mal pensava o inimigo, estava na sua frente, desafiando-o e fazendo-lhe fogo e foscas. Ao abrigo desses granadeiros, muitos índios da praça e outras pessoas corriam a encher potes e barris de água, não tão boa como se desejava, mas como o permitiam as circunstâncias, porque era tirada de uma pequena lagoa, no meio do campo cento e cinquenta braças da povoação, bem remexida de barro vermelho e algumas vezes em quantidade tal que pouco mataria a sede dos sitiados, pela retirada precipitada dos protetores.

O general, logo que lhe constava a temeridade, ousadia e perigo a que se expunham esses granadeiros, mandava imediatamente alguns homens a cavalo protegê-los e cabe aqui dizer que sempre eram destemidos e de sua escolha e confiança.

Um tiro da nossa artilharia, dirigido pelo granadeiro José Dias de Arzão (45) no segundo dia de sítio, desmontou uma peça do inimigo que mais dano causava à guarnição da praça, dando a bala (calibre 4) em um dos munhões, de sorte que lhe deixou a peça inservível e mortos dois artilheiros.

Nesse estado se achavam as cousas, quando começava a raiar o dia 3 de outubro e tão nublado que não se podia divisar objeto algum ao longe: todavia, sentindo-se na praça grande rumor na linha inimiga, a guarnição se dispôs para um novo combate. Poucos minutos depois, o tenente do regimento de cavalaria miliciana guarani, António Eripi, do cume do zimbório da igreja, onde subira para observar melhor o rumor ou movimentos do inimigo, avisa que um corpo volumoso de cavalaria atravessa o extenso banhado ao sul da povoação, demandando o campo do inimigo. Era o tenente-coronel José de Abreu, que tendo aviso (46) do general Chagas, correu com oitocentos homens que comandava, não só em socorro de S. Borja, como a vingar nos sitiadores o arrasamento na nova povoação de Manduhi (cuja ereção fora animada e protegida por Abreu) e com marchas tão ocultas, que só foi pressentido pelos insurgentes quando começavam a ser batidos e derrotados: contudo Abreu não o conseguia impunemente.

Abreu, achava-se na fronteira de Alegrete a 50 ou mais léguas distante de S.. Borja, quando recebeu o aviso e no dia 3 de outubro começou a imortalizar seu nome (que jamais pode-se esquecer nos anais do Brasil) levando de rojo o inimigo e perseguindo-o até pô-lo além do Uruguai, ajudado pela companhia de granadeiros, que, instantaneamente deixando as trincheiras, se lhe reuniu e acompanhou até a barra do rio Butuí. Abreu retirou-se logo depois, ou no mesmo dia, coberto de bênçãos e da bem merecida glória de ter derrotado e enxotado para longe os insurgentes, com perda de muitos, e aberto as portas de S. Borja. A companhia de granadeiros comportou-se, durante os treze dias de sítio, como era de esperar de homens briosos e acostumados aos trabalhos da vida militar.

O seu digno capitão foi remunerado (por informações de Abreu) com a graduação de major. Os mais oficiais e toda a companhia se fez digna dos subidos louvores que com tanta justiça se lhes dirigiu.

Entretanto que o capitão-general, que fizera desmembrar a companhia por motivo, como disse, muito diverso, fazia seguir para Bagé o coronel Pedro da Silva Gomes, a tomar o comando do regimento, para que fora despachado na corte, sendo então tenente-coronel da Legião de S. Paulo. (47)

Empossado do comando, o coronel conheceu quão exagerada fora a participação do tenente-coronel Terres e que nenhuma coisa mais havia que uma pequena murmuração entre alguns soldados, mas simples pela falta de 18 ou 20 meses de soldo: e eles tinham razão! Entravam para uma nova campanha e lembravam-se das misérias que haviam sofrido nas passadas, e desses males não estava alheio o mesmo coronel.

Ratificada a ordem de marcha, o regimento seguiu para Missões em julho; mas as circunstâncias apertadas em que se achava o general Curado (sobre as vertentes do Quaraí em Sant'Anna, ou no lugar denominado Lageado) obrigaram-no a ordenar ao regimento que se lhe reunisse sem perda de tempo. A má estação, muitas chuvas e alguma falta de transporte concorreu para uma marcha assaz lenta: contudo bem a tempo ali se apresentou, e o general Curado teve logo motivo de o experimentar, mandando parte debaixo do comando do seu major Camilo Machado de Bittencourt, sob o comando de um oficial de cavalaria, explorar a campanha até Paipasso e Inhanduí, perto do Uruguai, havendo outra infantaria mais descansada. 

A guerra se desenvolvia por quase todos os pontos da fronteira, ou desafiada pelos insurgentes que, ciosos e ativos, se opunham à reunião das forças do general Curado, ocupação da província de Montevidéu, e a todas e quaisquer intenções hostis da nossa parte; ou por nossas mesmas forças, pela necessidade de atacar e rebater as hostilidades dentro das nossas linhas, que eles invadiam por diferentes pontos em colunas assaz fortes. Sob o comando do brigadeiro João de Deus Menna Barreto teve lugar o combate de Ibirocaí no dia 19 de outubro de 1816, e a infantaria que aí se achou da nossa parte, foi do regimento em número de 150 praças (e os seus oficiais, (48) uns por nomeação do chefe, outros por desejos de distinguir-se, como o ajudante Manuel José de Mello e o alferes Zeferino António de Souza Coutinho) comandadas pelo major Camilo Machado. Essa infantaria demonstrou na frente do inimigo muita presença de espírito, firmeza, destreza nas armas e um comportamento brioso e louvável, como era de esperar: teve, e com muita justiça, elogios do comandante da ação e de todos oficiais dos diferentes corpos que observaram a sua intrepidez.

Findo o combate, no qual o inimigo foi completamente derrotado, mormente pela infantaria, que o investiu pelo centro, dias depois o regimento recebeu ordem de marcha para Missões e em novembro chegou a S. Francisco de Borja. Aí se reuniu à sua digna companhia de granadeiros e se congratularam os amigos com recíprocos contos de suas façanhas.


NOTAS

(42) Desde o ano de 1816 a 1822, no qual foi extinto o regimento, não houve castigo algum corporal e meses se passaram, em algumas companhias, sem que houvera uma só prisão. O regimento, posto que pouco numeroso, tornou-se um corpo muito luzido e longe de ser o que alguém pense. Contendo em bom número oficiais inferiores e soldados de idade robusta ou moços alentados que haviam conhecido a ingratidão com que foram tratados nas campanhas passadas, só com maneiras afáveis poderiam ser conduzidos; pelo contrário ficaria o regimento sem a melhor parte dessas praças.

(43) Capitão José Maria da Gama Lobo Coelho d’Eça, tenente António Francisco Catella, alferes António Agostinho Capistrano.

(44) Tenente António Francisco Catella, dito adido António Máximo Franco, sargentos João da Silva Barralho, Henrique Alves da Cruz, João Pinheiro da Silva, cabo Teodósio Alves, anspeçada Pedro Fernandes (dentro da quinta), cadete José Joaquim de Almeida Coelho; o alferes António Agostinho Capristano, com 30 granadeiros de piquete (na quadra n.) para acudir ao ponto onde ocorresse maior perigo, ou fosse necessário.

(45) Era natural da vila, hoje cidade de S. Francisco, moço alto e bonito, mas tinha as canelas muito finas: contudo uma bala de fuzilaria no combate do dia 28 varou-lhe a barriga da perna direita e no assalto de S. Carlos, ano e meio depois, outra bala varou-lhe a barriga da perna direita. Com efeito! disse-lhe o intrépido cabo Pedro Fernandes, parece que o inimigo te procura as pernas para que não fujas! «Enganas-te, respondeu Arzão, o inimigo procura-me as pernas para que não o procure.

O cabo Pedro Fernandes, sendo alferes, foi morto pelos sublevados na fortaleza da Barra do Sul, em Santa Catarina, em o ano de 1830.

(46) O aviso de Chagas a Abreu foi conduzido pelo paulista miliciano António de Moura, que, numa noite muito escura, pôde romper a linha e sentinelas inimigas.

(47) Foi recebido no regimento com festejo e satisfação, da qual se fez digno, fechando os ouvidos à intriga e negando até a menor atenção aos seus autores, que logo conheceu com bastante perspicácia. Foi o 4.º e último coronel do regimento; faleceu no posto de brigadeiro em Santa Catarina. 

(48) Capitão João Cardoso Vieira, dito Alexandre José dos Campos, ajudante Manuel José de Mello, tenente José de Oliveira Pais Lemos, dito Manuel Lobo Capristano, alferes Zeferino António de Sousa Coutinho, dito António da Costa Fraga.»


FONTE

Manuel Joaquim de Almeida Coelho, “Memoria Historica do extincto regimento de infantaria de linha da provincia de Santa Catharina, ou informações dos seus serviços mais notáveis e dos motivos e logares onde os prestou, escripta na cidade do Desterro em dias do natal do anno de 1850”, in: Almanak Literário e Estatístico do Rio Grande do Sul (Alfredo Ferreira Rodrigues, org.), 21.º Ano, 1909, Ed. Pinto e Cia., Pelotas-Rio Grande-Porto Alegre. pp. 79-85


SOBRE O AUTOR

Manuel Joaquim de Almeida Coelho nasceu em Desterro, hoje Florianópolis, em 9 de novembro de 1792, filho do brigadeiro Manuel Coelho Rodrigues e Lauriana Joaquina de Almeida Correa. Assentou praça no Regimento de Infantaria de S. Catarina a 11 de novembro de 1808, dois dias após cumprir 16 anos de idade. Participou nas campanhas do Sul, entre 1811 e 1812, e na campanhas de 1816 e 1820. Em 1820, passou ao Regimento de Cavalaria miliciana de Missões, onde foi ajudante, a 12 de outubro de 1821, e capitão, a 24 de novembro de 1825. Foi ainda comandante militar da vila de Porto Belo, em 1841, na sua S. Catarina natal e reformou-se no posto de Major, com o soldo de Capitão de 1.ª Linha, a 31 de maio de 1849. Foi secretário da Câmara Municipal do Desterro de 5 de maio de 1850 a 16 de dezembro de 1864, e deputado à Assembleia Legislativa Provincial, entre 1848 e1849.

Entre as várias obras históricas que produziu sobre S. Catarina, no qual se destaca a Memória Histórica sobre a Província de Santa Catarina (1854) e várias biografias de catarinenses ilustres, escreveu a Memória histórica do extinto regimento de infantaria de linha da província de Santa Catarina (escrito em 1850 e publicado em 1853), de que publico aqui uma extrato relativo às campanhas de 1816 a 1820, nomeadamente o sítio de S. Borja, entre 22 de setembro de 1816 e 3 de outubro de 1816, em que Andrés Artigas, tendo todos os povos das missões orientais sob o seu domínio, tentou tomar também a capital, S. Borja, no que foi impedido pela chegada da coluna do tenente coronel José de Abreu que desfez o sítio e destroçou as forças da Liga de Pueblos Libres.

Nesta obra, que tem por objetivo a recuperação da memória dos feitos do regimento a que pertenceu, que considera ignorados e mal compreendidos, Almeida Coelho descreve a história do regimento desde a sua fundação em 1739 à sua extinção em 1832. Para lá do óbvio valor histórico que muito beneficiou do acesso do autor a fontes primárias, a mesma reveste-se também de um investimento pessoal na medida em que o período das campanhas de 1811/12 e de 1816/20 o viram como participante, transparecendo isso num cruzamento de outras fontes e o seu texto, assim como um conjunto de conhecimento que só poderia ter sido adquirido, em boa verdade, se Almeida Coelho tivesse presenciado muitos dos factos.

BIBLIOGRAFIA

Piazza, W. F. (2011). Almeida Coelho e sua contribuição historiográfica. ÁGORA: Arquivologia Em Debate, 5(9), 5–11.

LEIA TAMBÉM

- Ação do Passos de Japejú e de Santa Maria (21 de setembro de 1816): 

https://dvr18151823.blogspot.com/2016/09/acao-do-passo-de-yapeyu-21-de-setembro.html

- Assalto de São Borja (28.9.1816): 

https://dvr18151823.blogspot.com/2020/09/assalto-de-sao-borja-2891816.html

- Batalha de São Borja (3 de Outubro de 1816): 

https://dvr18151823.blogspot.com/2016/10/batalha-de-sao-borja-3-de-outubro-de.html

- Batalha de Ibirocaí (19 de Outubro de 1816):

https://dvr18151823.blogspot.com/2016/10/batalha-de-ibirocai-19-de-outubro-de.html

12/11/2022

Reorganização da DVR, Relação de Unidades e Oficiais (2 de maio de 1816)


Com base numa proposta do marechal General Beresford que já vinha de 1815, a Divisão dos Voluntários Reais do Príncipe reorganiza-se, em Julho de 1816, tendo sido enviadas cartas que chegaram apenas (em 2.º via) após a DVR ter embarcado para o Brasil.

Assim, só no Rio de Janeiro, a 2 de maio de 1816, é que as mudanças são efetuadas de facto na Divisão de Voluntários Reais, agora de  d’El-Rei, por D. João VI ter ascendido ao trono por morte de sua mãe, D. Maria.

Principais alterações:

- A partir do 3.º Batalhão de Caçadores (mais as duas últimas companhias do 1.º Batalhão de Caçadores), forma-se o 1.º Regimento de Infantaria, a 10 companhias.

- A partir do 4.º Batalhão de Caçadores (mais as duas últimas companhias do 2.º Batalhão de Caçadores), forma-se o 2.º Regimento de Infantaria, a 10 companhias.

- O 1.º e 2.º Corpo de Cavalaria funde-se no Regimento de Cavalaria, a 12 companhias.

É com esta formação que a Divisão embarcará a 29 de maio, com direção a Santa Catarina. A relação apresentada de seguinte contém quase três centenas de oficiais. A ortografia dos nomes está modernizada.


DIVISÃO DOS VOLUNTARIOS REAIS DE EL-REI

[280 oficiais]


ESTADO MAIOR [25 oficiais]

Comandante em Chefe

TenGen. Carlos Frederico Lecor


Ajudantes de Ordens (CeC)

TenCor. João Pedro Lecor (Gov Pç. Albufeira)

Maj. José Ferreira da Cunha

Maj. António Pinto de Araújo Correia (Caç.11) 

Cap. D. José Miguel de Noronha 

Cap. José Pedro de Faria de Lacerda (Cav. 10)


Ajudante General e Secretário Militar

MarCamp. Sebastião Pinto de Araújo Correia 


Ajudantes de Ordens do Ajudante General)

Cap. António Maria de Lacerda (Castello-Branco) (Cav.1)

Cap. Francisco Pinto de Araújo (Corrêa) (Inf.15)


Deputado do Ajudante General - TenCor. D. Álvaro da Costa (Inf.11)

Deputado do Ajudante General – Maj. Joaquim Cláudio Barbosa Pita

Assistente do Ajudante General - Ten. Frederico Ernesto Krusse (Inf.6)

Assistente do Ajudante General - Cap. António Pedro Lecor (1.º Ten, Veteranos)

Assistente do Ajudante General – 1.º Ten. Francisco Frederico Agorreta (Art. 3)


Oficial Maior da Repartição do Secretario Militar - Amaro José Ferreira


Quartel Mestre General

Brig. Bernardo da Silveira Pinto


Deputado do Quartel Mestre General - Maj. Miguel António Flangini 

Deputado do Quartel Mestre General - Maj. Filipe Neri Vital Gorjão 

Assistente do Quartel Mestre General - Ten. Jacinto (Pinto) d’Araújo Corrêa (Inf.6) 

Assistente do Quartel Mestre General - Ten. Gil Guedes Corrêa 


Auditor Encarregado da Repartição de Víveres – António Gerardo (?) Curado de Meneses (Juiz de Fora de Aldeia Galega)

Auditor Encarregado da Repartição de Transportes – Manuel da Costa Monteiro (Auditor do Depósito Geral de Recrutas de Infantaria)

Oficial Maior da Repartição do Secretariado Militar – Amaro José Pereira (Quartel Mestre, Art. 4)


Engenheiros

TenCor. Joaquim Norberto Xavier de Brito

TenCor. Francisco António Raposo


* * * 


1.ª BRIGADA DE VOLUNTÁRIOS REAIS [95 oficiais]

Comandante - Brig. Jorge de Avilez Zuzarte Ferreira de Sousa (Inf. 5)

Major de Brigada - Ten. José Leonardo Teixeira Homem (Cav. 4)

Cirurgião Mor - honras de Maj. Alexandre Luís Leite (Inf. 16)

Capelão - Fr. Gaspar da Rocha (Inf. 15)


1.º Regimento de Infantaria

Cor. João Carlos de Saldanha de Oliveira e Daun (Inf.13) 

TenCor. António José Claudino de Oliveira Pimentel (Inf. 5)

Maj. José Pedro de Melo (Inf. 24)

Maj. João Joaquim Pereira do Lago (Inf. 6) 

Ajudante - Ten. Claúdio Caldeira Pedroso (Inf. 17) 

Ajudante – Alf. António de Moura Brito (Inf. 17)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) Francisco de Andrade Taborda

Cirurgião-mor (honras de Capitão) José Joaquim Teixeira 


Quartel Mestre - João António Ribeiro Branco (Caç. 7)

Quartel Mestre – José Maria de Azevedo (Caç. ?)


1.ª Companhia - Cap. Ignacio da Cunha (Inf. 3)

2.ª Companhia - Cap. Carlos Hodge

3.ª Companhia - Cap. José Joaquim Pacheco (de Avelar) (Inf. 4) 

4.ª Companhia - Cap. Pedro António Rebocho (Inf. 23)

5.ª Companhia - Cap. José António Freire (Inf. 20)

6.ª Companhia - Cap. Alexandre Machado Paes (Inf. 21?) 

7.ª Companhia - Cap. João Rodarte da Gama Lobo (Inf. 10)

8.ª Companhia - Cap. António Duarte Pimenta (Inf. 18)

9.ª Companhia - Cap. José Cabral de Abreu Lima (Inf. 16) 

10.ª Companhia - Cap. João de Avilez Zuzarte (Inf. 2) 


Tenentes

Sebastião Lobo (de Vasconcelos) (Inf.9)

António Silvestre de Sousa (Inf.2)

António Manoel de Meirelles (Inf.3)

José de Magalhães (da Costa) (Inf.15) 

António Aniceto Cardoso (de Figueiredo) (Inf.3) 

Hipólito Cassiano de Paiva (Inf.7) 

Francisco Xavier da Cunha (Inf.19) 

António Basílio Garcês (Inf.19)

Domingos Ciríaco Avondano (Inf.9)

Caetano Cardoso de Lemos (Inf.6)


Alferes

Luís Leite de Castro (Reg. Mil. Guimarães)

António Bernardino Geraldo (Inf.6) 

Luiz Xavier Valente (Inf.10?)

Rodrigo de Sá Valente (Inf.10)

António José de Araújo (Inf.16)

António de Vale Salazar e Sousa (Inf.4)

António Luiz Ribeiro (Inf.4)

António Felix de Menezes Coelho (Inf.4)

Joaquim José Pereira (Inf.13)

José de Macedo (Inf.15)

Francisco Xavier da Costa

António Mendes Belo (Inf. 15)

Luís António Ribeiro Bonjardim

José Francisco da Maré

Jerónimo Ezequiel da Costa Freire

Carlos Frederico Krusse

João de Sousa (Inf.10)

Joaquim da Fonseca e Castro (Inf.10)

2/5/16: João de Sousa Quevedo Pizarro (2.º Reg Inf, DVR)

José de Amorim de Azevedo (1.º Bat Caç, DVR)


1.º Batalhão de Caçadores

TenCor. Manuel Jorge Rodrigues (Caç. 1) 

Maj. Jerónimo Pereira de Vasconcelos (Caç. 12) 

Maj. Caetano Alberto de Sousa Canavarro (Caç. 4) 

Cirurgião-mor (honras de Capitão) Francisco Bernardo de Santana (Caç. 6)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) Joaquim José Barrão (Caç. 8)

Ajudante - Ten. José Anastácio (Caç. 6)

Quartel Mestre - José António Fernandes (Caç. 6) (Sarg)


1.ª Companhia - Cap. João Teixeira Vieira de Queiroz (Caç. 12) 

2.ª Companhia - Cap. Sebastião da Cunha Ferraz (Caç. 4)

3.ª Companhia - Cap. João Manuel de Almeida (Caç. 11) 

4.ª Companhia - Cap. Sebastião Navarro (Caç. 6) 

5.ª Companhia - Cap. Luís de Vasconcelos Lemos Castelo-Branco (Caç. 4) 

6.ª Companhia - Cap. Lucas da Costa Pimenta (Caç. 4) 


Tenentes

Luiz Manuel de Jesus (Caç.8) 

José dos Santos Pereira (Caç.7) 

João da Cunha Lobo (Barreto) (Caç.4) 

António Maria de Gouveia (Caç.2) 

António Osório de Magalhães (Caç.1)

Filipe Corrêa de Mesquita (Caç.6)


Alferes

João Velez da Gama Lima (RegMil VViçosa)

António Joaquim da Silva Pacheco (Caç.3)

José António Furtado (Caç.5)

Francisco Inocêncio

António Jacinto da Costa Freire

António Mariz Carneiro (Caç.9)

António Ezequiel Cabrita (Caç.8)

José Martins Taveira (Caç.6)

António José Moreira (Caç.7)

José Vieira Dias (Caç.10)

José Maria da Paz (Caç.2)

Joaquim Rodrigues da Costa Simões


* * *


2.ª BRIGADA DE VOLUNTÁRIOS REAIS [94 oficiais]

Comandante - Brig. Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro (Inf. 16)

Major de Brigada - Cap. Pedro Pinto de Araújo Correia (Caç. 3)

Cirurgião Mor - honras de Maj. José Pedro de Oliveira (Caç. 6)

Capelão - Padre José Joaquim Pereira


2.º Regimento de Infantaria 

Cor. Francisco de Paula de Azeredo (Inf.8)

TenCor. João Crisóstomo Calado (Inf. 20) 

Maj. José Maria da Silveira (Inf. 18)

Maj. Guilherme Cotter (Inf. 9)

Ajudante - Ten. Leonardo da Sousa Leite (Inf. 13)

Ajudante – Alf. José Joaquim Antunes (Inf. 18)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) – Manuel Alexandra da Mota (Caç. 11)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) – Bernardo Machado da Cunha (Caç. 12)

Quartel Mestre - Bernardo José Xavier (Caç. 12)

Quartel Mestre – José Maria Picanço


1.ª Companhia – [vago]

2.ª Companhia - Cap. Francisco da Paula Esteves (Inf. 15) 

3.ª Companhia - Cap. José António Franco (Inf. 15)

4.ª Companhia - Cap. Manuel Jeremias Pinto (Inf. 17)

5.ª Companhia - Cap. António Joaquim Henriques Lobinho (Inf. 4) 

6.ª Companhia - Cap. Tristão de Araújo Vasconcelos (Inf. 21) 

7.ª Companhia - Cap. Duarte Cardoso de Sá (Inf. 12) 

8.ª Companhia - Cap. Salustiano Severino

9.ª Companhia - Cap. João Luís Pereira de Castro (Inf. 6) 

10.ª Companhia - Cap. Teotónio Nobre (Inf. 15) 


Tenentes

Francisco de Paula Cabrita (Inf.2) 

Luiz Emidio de Castro (GR Polícia)

João de Mattos (Maia) (Inf.15)

António José de Carvalho (Inf.3)

Henrique Luiz da Fonseca (Inf.2) 

João António de Abranches (Inf.7)

José Caetano Vivas (Inf.8) 

Francisco Zeferino Felgueiras (Inf.6)

João Pedro Xavier Ferrara (Inf.19) 

Joaquim da Sousa Pinto (Cardoso) (Inf.3)


Alferes

José Ignacio Burguete (Inf.13)

Ayres José Seromenho

José Ricardo Aparício (Art Nacionais Lx Ocidental)

Joaquim José Maria Parate 

António Caetano de Sousa Macedo

José Maria de Maré

Caetano José Vianna

João Ignacio Xavier (Art. Ordenanças)

Pedro José Baptista (GR Policia)

Manoel Esperidião da Silva (Inf.19)

Lôpo José Corte-Real (Inf.5)

José Joaquim Antunes (Inf.18)

João de Mattos Coatrim (Inf.8)

Francisco António de Moraes (Inf.12)

Rodrigo José da Silva Vieira

José Augusto de Carvalho

José Joaquim do Amaral (Inf.11)

José Manoel Peres (Inf.22)

José Hermenegildo Pereira de Horta (Inf. 16)

Fernando Homem de Vasconcelos

[2.5.1816:] Sebastião Correia da Costa (1.º Bat Caç., DVR)

Bernardo da Silva Sotomaior (Art, DVR)


2.º Batalhão de Caçadores

TenCor. Francisco de Paula Rosado (Caç. 11?)

Maj. João José de Moraes (Caç. 6) 

Maj. André McGregor (Caç. 4)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) José Miguel Neves (Inf. 14)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) José Rebolido Pinheiro (Caç. 8)

Ajudante - Ten. Francisco Xavier da Cunha (Inf. 19)

Quartel Mestre - António Inácio de Seixas (Caç. 8) (Sarg.)


1.ª Companhia - Cap. José Maria da Rocha (Caç. 12)

2.ª Companhia - Cap. Domingos de Almeida da Costa (Caç. 12)

3.ª Companhia - Cap. Miguel Correia de Freitas (Caç. 12)

4.ª Companhia - Cap. José Maria de Araújo (Caç. 3)

5.ª Companhia - Cap. Vicente José de Almeida (Caç. 7) 

6.ª Companhia - Cap. José de Vasconcelos (Caç. 8)


Tenentes

José Fernandes dos Santos (Caç.8)

João Teixeira de Macedo (Caç.4) 

Manuel de Sousa Pinto de Magalhães (Caç.11) 

Manoel Eleutério (Caç.12)

José Osório de Magalhães (Caç.1) 

Gaspar José de Brito (Caç.5)


Alferes

Sebastião Vaz da Costa

José Joaquim de Magalhães Fontoura

José Joaquim Correia (Artilheiros Nacionais Lx Ocidental)

José Marques Salgueiros (Caç.9)

Manoel Joaquim Maria (Caç.11)

Gregório José dos Santos (Caç.1)

Luiz Pinto (Caç.3)

Manoel António da Fonseca (Caç.12)

Manoel José (Caç.5)

José da Cruz de Freitas (Caç.4)

Francisco Esteves de Figueiredo (Inf.17)

António Inácio (Inf.4)


* * * 


Regimento de Cavalaria [53 oficiais]

Cor. António Feliciano Teles de Castro Aparício (Cav. 1)

TenCor. António Manoel de Almeida Morais Pessanha (Cav. 6)

TenCor. João Vieira Tovar de Albuquerque (Cav.9) 

Maj. Joaquim Claúdio Barbosa Pitta (Cav.3)

Maj. António de Castro Ribeiro (Cav.3)

Maj. João Nepomuceno de Lima (Cav.4) 

Maj. Duarte Joaquim Correia (de Mesquita) (Cav.8)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) João Ferreira de Almeida (Inf. 13)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) Joaquim António Pinto (Inf. 19)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) Julião José de Almeida (Inf. 16)

Cirurgião-mor (honras de Capitão) José Celestino da Costa (Inf. 1)

Picador (honras de Tenente) José Pedro Lobo (Legião Tropas Ligeiras)

Ajudante – Alf. António de Sousa Florindo (Cav. 12)

Ajudante – Alf. João Tavares (Cav. 4)

Quartel-Mestre - Duarte José da Cruz (Cav.7)

Quartel-Mestre - Francisco Nunes do Amaral (Cav.1)

Capelão - José Pinto dos Santos (Inf.21)

Capelão - Manoel Martins (Caç.4)


1.ª Companhia - Cap. José António Esteves de Mendonça e Sá (Cav.1)

2.ª Companhia - Cap. António de Cerqueira (Cav.9)

3.ª Companhia - Cap. João de Nepomuceno (Isidro) de Macedo (Inf.11) 

4.ª Companhia - Cap. Miguel Pereira de Araújo (Cav.7)

5.ª Companhia - Cap. Lopo de Vasconcelos Pereira (de Abreu) (Cav.12)

6.ª Companhia - Cap. José Maria de Sá Camelo (Cav. 10)

7.ª Companhia - Cap. Francisco Inácio da Silveira (Cav.8)

8.ª Companhia - Cap. Bento José Duarte (Cav.4)

9.ª Companhia - Cap. José de Barros e Abreu (Cav.1)

10.ª Companhia - Cap. José Maria de Cerqueira (Cav.9)

11.ª Companhia - Cap. Joaquim Antonio de Moraes Palmeiro (Cav.4)

12.ª Companhia – Cap. Filipe Neri de Oliveira (Cav. 4)


Tenentes

José de Melo Sousa e Meneses (GRPolicia)

Fortunato de Melo (Cav.11) 

José Francisco Raposo (Cav.8)

António Ferreira da Costa (Cav. 5)

Manuel Joaquim de Lima Bezerro (?) Praça (Cav. 11)

João Batista de Oliveira (Cav.4)

António Maria Xavier (Cav.4)

João Xavier de Morais (Resende) (Cav.3)

Domingos Egídio de Freitas (Cav. 8)

José de Melo (Cav. 9)

Luís Estevão Couceiro (Cav. 11)


Alferes

Vicente Ferreira Brandão Furtado de Mendonça (Reg Mil Viana do Castelo)

João Gomes da Silva (Cav.1)

Anselmo José de Almeida Valejo (Cav.8)

António José da Rocha (Cav.9)

António Pedro da Rocha (Cav.3)

Carlos Schultz

Francisco António da Silva

Sebastião Rodrigues (Cav.1)

José Dias de Carvalho (Cav.5)

António Figueira de Almeida (Cav.8)

José de Mendonça (Cav.7)

Albino Pimenta de Aguiar Mourão


* * *


Corpo de Artilharia [13 oficiais]

Comandante - Maj. Maximiliano Augusto Penedo (Art.2)

Ajudante - Cap. Vicente Antonio Buys (Art.2)

Qartel Mestre – António José da Costa (Art. 2)


1.ª Companhia - Cap. José Ricardo da Costa (Silva Antunes) (Art.2)

2.ª Companhia - Cap. António José da Silva (Art.2) 


Primeiros-Tenentes

João Caetano Rosado (Art.2)

Joaquim Filipe Lampreia (Art.2)


Segundos-Tenentes

João Ignacio Holbech (Art.1)

Roque António de Faria (Art.1)

Faustino António Jovita (Art.1)

José Dias Serrão (Art.3)

Gabriel António Francisco de Castro (Art.4)

António José Peixoto (Art. 2)


Fonte

- Arquivo Histórico Militar, 2.ª Div. -01-03-05

28/09/2020

Assalto de São Borja (28.9.1816)



A 28 de Setembro de 1816, Andrés Guaçurari y Artigas manda atacar a vila de S. Borja. A vila estava sitiada desde dia 21, mas este terá sido a primeira tentativa de tomar a localidade pela força. Todas as outras seis missões, deficientemente defendidas, foram tomadas, mas S. Borja era a capital e estava bem guarnecida. De acordo com as poucas fontes, nesse dia 10 peças de artilharia com metralha assim como a fuzilaria portuguesa nos muros da horta (Regimento de Infantaria de S. Catarina) foram fundamentais para frustrar a tentativa oriental.

Sítio de São Borja

Quando o sítio teve o seu início a 21 de Setembro, de madrugada, Andresito (Andrés Guaçurari, acima) mandou um ultimatum ao brigadeiro Francisco Chagas dos Santos, comandante militar das Missões. Três dias depois, a 24, o comandante oriental envia um ultimatum ao comandante português para render a praça em três horas. No dia seguinte, a ameaça dos orientais vem renovada com a notícia que apenas S. Borja permanece na mão dos portugueses e apelando ao direito dos povos nativos à unificação de todas as Missões, roubadas, segundo ele, em 1801.

Procederam-se a vários ataques orientais sobre S. Borja durante o sítio, mas limitados, talvez destinados a testar as defesas e encontrar pontos fracos; estes são facilmente rebatidos pela guarnição, bem entrincheirada e com 14 peças de artilharia a apoiar a defesa.

A 26 de setembro, o tenente coronel José de Abreu, que havia impedido Pantaleón Sotelo, a 21 e 22, de passar em Japejú e incorporar-se a Andresito, passa o rio Ibicuí para norte com a sua força. Pelo final do mês já não havia dúvida para Andrés Artigas que os portugueses viriam tentar aliviar o sítio à vila. Tão cedo quanto o dia 23, já Justo Negros, comandante da flotilha oriental no rio Uruguai, havia avisado Andresito do fracasso de Sotelo, que teria a notícia num dia, se tanto.

O Assalto 

Na urgência de tomar S. Borja, e assim ter toda a região, Andrés Artigas ordena um assalto geral que ocorre a 28 de Setembro de 1816. O mesmo falha devido à tenaz resistência portuguesa, nomeadamente a sua artilharia. Andresito terá usado o mesmo dispositivo de 3 de outubro, dias depois, aquando da batalha de S. Borja, destacando metade dos seu milhar e meio de efetivos para o assalto, enquanto a outra metade ficava em reserva, afastada da vila, muito possivelmente na expetativa de um ataque português. Em 3 de Outubro, 700 forças orientais estavam prestes a começar um segundo assalto geral, com 800 um pouco afastadas a oriente, em terreno alto.

A 3 de Outubro, Andresito (ou Artiguinhas, como era conhecido entre os luso-brasileiros) tentará de novo quebrar o sítio, com a pressão de ser flanqueado pelos portugueses que se aproximam  pelo sul, mas é surpreendido pela coluna de José de Abreu que o apanha dividido, mas essa é outra história.


MEMÓRIA

Cadete Porta-bandeira Manuel Fonseca de Almeida Coelho
(Regimento de Infantaria de S. Catarina)
[adicionado ao blogue a 10 de maio de 2026]

«Estabelecido o assédio, teve a praça que sofrer vários, mas mal dirigidos ataques do inimigo, que foram sempre rechaçados pelos nossos: contudo, oficial houve da nossa cavalaria que, temendo algum fim desastroso, se atreveu a lembrar ao general Chagas uma escápula, rompendo-se em uma noite a linha dos sitiantes: felizmente essa lembrança não mereceu resposta alguma: e nunca a deve merecer o militar que se atrever a tanto, uma vez que se não tenham envidado todos os esforços e esgotado lodos os recursos da defesa! Ao amanhecer do dia 28 o inimigo carregou com tal furor e animosidade que a nossa cavalaria teve de recuar, cedendo alguns passos do terreno que ocupava, e a infantaria de sustentar um vivo fogo de o rebater muito de perto e quase braço a braço; e por, isso mesmo que o inimigo. preparado de machados, trabalhou por arrombar as portas do exterior (e o conseguiu de uma, apesar de ser muito forte) e algum houve que chegou a pôr pé dentro de casa: contudo, horrorizado e bem sangrado, se retirou às suas linhas, com perdas de muitos.

O general Chagas, que presenciou atentamente e a valentia da guarnição. congratulou-se com os granadeiros pelos atos do bravura e intrepidez, que acabavam de praticar; entretanto que iam faltando os mantimentos na povoação e não havia água. Era então dessa distinta companhia o cadete José Joaquim de Almeida Coelho, já bem conhecido por seu génio denodado. Esse moço (sem que alguém lhe encomendasse) encarregou-se de expor a vida, durante o sítio, para suavizar o sofrimento de muitos sitiados. Com seis ou oito granadeiros, de armas suspensas a tiracolo pelas bandoleiras e uma pequena peça de amiudar, puxada a mão, quando mal pensava o inimigo, estava na sua frente, desafiando-o e fazendo-lhe fogo e foscas. Ao abrigo desses granadeiros, muitos índios da praça e outras pessoas corriam a encher potes e barris de água, não tão boa como se desejava, mas como o permitiam as circunstâncias, porque era tirada de uma pequena lagoa, no meio do campo cento e cinquenta braças da povoação, bem remexida de barro vermelho e algumas vezes em quantidade tal que pouco mataria a sede dos sitiados, pela retirada precipitada dos protetores.

O general, logo que lhe constava a temeridade, ousadia e perigo a que se expunham esses granadeiros, mandava imediatamente alguns homens a cavalo protegê-los e cabe aqui dizer que sempre eram destemidos e de sua escolha e confiança.

Um tiro da nossa artilharia, dirigido pelo granadeiro José Dias de Arzão (45) no segundo dia de sítio [22.9.1816], desmontou uma peça do inimigo que mais dano causava à guarnição da praça, dando a bala (calibre 4) em um dos munhões, de sorte que lhe deixou a peça inservível e mortos dois artilheiros.»

ORDEM DE BATALHA

Guarnição de S. Borja, Exército do Brasil, Capitania do Rio Grande de S. Pedro

Comandante – brigadeiro Francisco das Chagas Santos

c. 200 efetivos

14 peças (de acordo com Moraes Lara). O brigadeiro Chagas dos Santos fala de 10 peças destas carregas de metralha.

Regimento de Infantaria de Santa Catarina - Companhia de Granadeiros, Capitão José Maria da Gama Lobo (uma companhia de granadeiros num regimento português da época seria em estado completo, composta de cerca de 120)

“Alguns dos 200 guaranis que havia” (Chagas do Santos, 9.10.1816)

Será de admitir que metade dos membros da guarnição de S. Borja eram granadeiros de infantaria de S. Catarina e metade milícias guaranis e brancas.

Baixas Portuguesas

5 soldados gravemente feridos e 4 levemente (Moraes Lara, 1817 e 1845).

“2 granadeiros e 2 guaranis queimados, e 2 soldados e 3 guaranis feridos de bala” (Chagas do Santos, 9.10.1816)

* * *

Divisão de Missiones, Liga Federal (com base nas indicações de 3 de Outubro)

Comandante -  Andrés Guaçurari y Artigas

c. 1500-2000 efetivos

Moraes Lara indica o número de orientais para 2000 homens e 2 peças de artilharia. No entanto, José de Abreu indica no seu relatório que encontrou uma força de cerca de 1500 efetivos, no dia 3, dividida em dois grupos, um de 800 e outro de 700.

Sabemos, no entanto, que Pantaleon Sotelo, que não conseguiu passar o Uruguai em Japejúa, a 21, vai por terra e entra por passos mais a norte, juntando as suas forças a Andresito. Se em 3 de Outubro Andresito teria cerca de 1500 homens, em 28 de Setembro teria menos.

Baixas Orientais

De acordo com o brigadeiro Chagas dos Santos, a 9 de Outubro, os orientais teriam sofrido 200 baixas em diversos ataques.

* * *

Extrato da correspondência do brigadeiro Francisco Chagas dos Santos, em carta ao tenente general Joaquim Xavier Curado, a 9 de Outubro de 1816:

“O inimigo foi derrotado por todas as partes [refere-se ainda à batalha no dia 3 de Outubro e dias seguintes]. No sítio perdeu mais ou menos 200 homens, que matámos e ferimos nos diversos choques  e ataques que nos fez, sendo o principal e mais impetuoso no dia 28 do passado [Setembro], em que dez peças nossas, carregadas á metralha, fizeram grande estrago sobre o inimigo, além da nossa fuzilaria, especialmente nos muros da horta, que com o maior empenho procurou assaltar em grande número; mas sendo reforçada opportunamente, se pôz em fuga o inimigo, horrorisado com a nossa resistência, e pelos seus mortos e feridos; não havendo da nossa parte mais que 2 granadeiros e 2 guaranis queimados, e 2 soldados e 3 guaranis feridos de balas.

A nossa guarnição de este povo, composto de 200 portugueses, inclusa a companhia de Granadeiros e alguns dos 200 guaranis que havia, manifestaram muito valor e prontidão em todos os 13 dias de sítio”.

* * *

Excerto da "Memoria Histórica do Regimento de Infantaria de Santa Catharina" (Manuel Joaquim de Almeida Coelho, 1850] - LEIA

Fontes

- ALMEIDA COELHO, Manuel J., “Memoria Historica do extincto regimento de infantaria de linha da provincia de Santa Catharina, ou informações dos seus serviços mais notáveis e dos motivos e logares onde os prestou, escripta na cidade do Desterro em dias do natal do anno de 1850”, in: Almanak Literário e Estatístico do Rio Grande do Sul (Alfredo Ferreira Rodrigues, org.), 21.º Ano, 1909, Ed. Pinto e Cia., Pelotas-Rio Grande-Porto Alegre. pp. 79-85

- LARA, Diogo Arouche de Moraes, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista Trimensal de História e Geografia, n.º 26, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Julho de 1845, pp. 125-328.

Imagens

Na imagem, a batalha de São Borja, combatida a 3 de Outubro, quando Andresito se preparava para a segunda e última investida contra a vila & Uma planta aproximada de S. Borja circa 1816.

03/09/2019

Memórias do coronel Francisco de Paula Azeredo: V (Final)


Memórias do coronel Francisco de Paula Azeredo: Parte V
Desde a Batalha de India Muerta, a 19 de Novembro, até à tomada de Montevideu e início da ocupação portuguesa.

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Com a chegada ao campo inimigo restabeleceu-se a disciplina nas tropas, que estavam bastante faltas d'ella pela sua longa demora nas Pelotas, o que é sempre muito prejudicial aos exercitos, que marcham em paiz estrangeiro. Não foi dos mais atacados da febre d'indisciplina o regimento que commandava o Coronel Azeredo.

Em pequeno numero foram as deserções, e insignificantes as faltas commettidas. Para isto concorreu essencialmente o exemplo e firmeza do Coronel. Para poder punir os soldados apresentou para modêlo a sua propria conducta, e começou castigando as faltas dos officiaes mais graduados do seu regimento. ".

O Tenente-coronel João Chrysostomo Calado, sem solicitar licença, ausentou-se por tres dias, indo á villa do RioGrande. No seu regresso, o Coronel mandou-o immediatamente prender, e deu parte ao Commandante da brigada o Brigadeiro Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro: esta falta foi publicada em ordem do regimento, e d'ella aproveitou o reprehendido, que tendo sido sempre um official valente, se tornou depois irreprehensivel.

Ainda então estavam presentes na memoria de todos os officiaes, que faziam esta campanha, as ordens do dia do exercito do Marechal-general Lord Beresford, que nas de 23 d'outubro e 2 do dezembro de 1810 manda lançar a nota de desertor ao official que se conservar ausente do acampamento mais de vinte e quatro horas. Tão sevéro era em punir como indulgente em perdoar, quando a voz da clemencia se podia escutar sem prejuizo da disciplina.'Tambem não soffria a menor quebra na sua dignidade como commandante do regimento, não consentindo que se executasse ordem superior, que lhe não fosse communicada directamente, e tambem intercedia sempre pelos seus subordinados, quando via que os superiores os vexavam sem razão. Isto o tornou amado de officiaes e soldados, que o acompanhavam alegres e cheios de confiança.

Depois dos acontecimentos que acima se referem, teve logar o combate da India-Morta, em que o regimento d'infanteria n.° 2 não tomou parte. Westa acção commandou o General Manoel Sebastião Pinto d'Araujo, e combateu n'ella com grande denodo, como costumava, o Major Jeronymo Pereira de Vasconcellos, estando gravissimamente enfermo quando entrou em fogo : depois d'esta acção passou este official para o regimento do commando do Coronel Azeredo.

A marcha da brigada foi demorada, estacionando por muitos dias nos diversos acampamentos em Roxa e em S. Carlos. A estação era magnifica, pois a marcha se fez desde e mez de novembro até ao fim de Janeiro de 1817, em que as tropas deram entrada na praça de Montevideu ; comtudo este paiz é por tal forma açoitado pelos ventos do poente, chamados pamperos, que mesmo n'esta estação a permanencia nos acampamentos se tornava muito incommoda.

N'essas solidões immensas, regadas pelo Uruguay e pelos seus confluentes, sob o ceo do Cruzeiro, a vida dos expedicionarios se passava na monotonia dos campos, varados pelos ventos, batidos pelas trovoadas, ensopados pelas chuvas meridionaes.

Ahi as saudades da patria, augmentadas pela immensa distancia que a separava, eram exacerbadas pela falta de conforto, pelo máo sustento, pela pequena e demorada paga. O pão era de péssima qualidade, e ainda assim diminuido de seis onças de pêzo sobre o que determinava a ordenança; o serviço do commissariado era feito só com a mira no ganho immoral; e a carne mesma, não obstante a abundancia do paiz, era por vezes tão ruim, que os soldados a recusavam, e não tinham que comer. No meio d'estas inclemencias e contrariedades, o regimento do commando do Coronel Azeredo não leve um unico desertor desde a sua marcha das Pelotas pelo pontal de S. Miguel, onde os dois paizes s'extremam, até á praça de Montevideu, sobre o rio da Prata: por este motivo, o Capitão-general commandante em chefe elogiou, em ordem de divisão de 7 de março de 1817, o excellente comportamento do Coronel e do regimento que commandara n'esta longa e penosa marcha.

A cidade de Montevideu, edificada n'uma peninsula, tem um aspecto risonho pela sua construcção em amphitheatro: suas ruas não são calçadas, e as casas tem apenas um andar com terrassos servindo de telhados. A falta d'aguas a que está sujeita, obriga os habitantes a aproveitar aquellas que provém das chuvas, que recolhem em cisternas. No tempo em que a expedição portugueza chegou ao Rio da Prata estava Montevideu n'um estado florescente: mais tarde as guerras continuas, os bombardeamentos e as devastações não interrompidas tem enfraquecido o seu primitivo esplendor. Não obstante todos estes desastres e calamidades, as republicas argentinas tem progredido, e segundo a descripção de mr. Martin de Moussy, a civilisação e os fructos da liberdade mesmo incompleta apparecem por cima das ruinas e dos massacres.

Ao contemplar o vasto golfo do Rio da Prata, o Coronel Azeredo não pôde deixar de sentir a impressão d'enthusiasmo que transparece nos cantos inspirados de Cooper, Echeverria e Gongol, poetas que de diversas regiões do globo vieram celebrar as grandezas do vasto imporio das aguas do Uruguay e do Paraná, e prestar a sua admiração ás interminaveis planicies, e aos pampas, de que se compõe este paiz na sua magestosa uniformidade, cujos limites são só o horisonte. Um porto de mar com uma abertura de cincoenta legoas e com a extensão de sessenta, deve ser o mais admiravel panorama. Assim elle serve de ponto de reunião ás esquadras de todas as nações da terra, e pelos rios que n'elle desaguam são levados e conduzidos os productos d'importação e exportação d'esta vasta e esplendida região, a que Martin de Moussy déra o nome de Mesopotamia argentina.

Esta bella região tem sido o theatro de guerras devastadoras. Na época em que os portuguezes foram ao Rio da Prata, a historia das suas luctas estava apenas em começo. Artigas assolava as ricas provincias argentinas, declarando-se o defensor da liberdade e dos povos. O exercito portuguez veio tomar parte nesta lucta, e apesar de manter inalteraveis os seus creditos grangeados noutras campanhãs, não concorreu senão para aggravar as desgraças da mãe patria, pelas despezas que lhe causou sem proveito algum, e com prejuizo, porque da oceupação de Montevideu tirou a Hespanha pretexto para não restituir Olivença depois da paz geral, como se estipulou no tratado de Vienna.

Os louros ceifados nos campos de batalha na longa lucta da peninsula pelo exercito portugues, não murcharam nas planicies do Rio da Prata, e o estandarte da cruz quinqnipartida manteve-se glorioso; mas dos sacrifícios e fadigas dos portuguezes só tirou proveito a ingrata colonia brazileira, que rasgou as entranhas da mãe, que a concebêra. Mais tarde ella mesma teve de perder a conquista que lhe grangearam as armas portuguezas, porque o seu funesto exemplo foi seguido pela antiga colonia hespanhola; teve ella de amargar durante quatro annos de anarquia sanguinaria a sua emancipação, para depois se entregar durante vinte annos ao despotismo furioso de Rosas, até que vencido por Urquizà, se fez a constituição de Santa Fé, que hoje prepara melhojes destinos ás vastas provincias argentinas.

Apenas entrada a expedição em Montevideu foi o regimento commandado pelo Coronel Azeredo, e que fazia parte da brigada capitaneada pelo Rrigadeiro Pizarro, destinado para a guarnição da praça, fazendo destacamentos sobre o forte do Serro e varias ilhotas, que ha na bahia. O tempo se passou no serviço de guarnição, adoçado por.não interrompida serie de divertimentos e bailes, em que os habitantes da cidade muito se deleitavam, como é habitual em todos os povos que participam do sangue hespanhol.
O serviço do exterior da praça era feito pela primeira brigada. Pertencia-lhe vigiar o inimigo, que se abrigava nas circumvisinhanças do recinto, e cobrir a praça. Faziam-se sortidas de tempos a tempos, e estas traziam o proveito de se fazerem prezas no campo inimigo.


* * *

CONHEÇA A BIOGRAFIA DESTE OFICIAL AQUI

Retirado de: AGUILAR, Francisco D’Azeredo Teixeira D’, Apontamentos Biographicos de Francisco de Paula D’Azeredo, Conde de Samodães, Porto, Tip. Manoel José Pereira, 1866. pp. 82-sg

Memórias do coronel Francisco de Paula Azeredo - IV


Memórias do coronel Francisco de Paula Azeredo: Parte IV
Desde que marcha de Torres, a 31 de Agosto de 1816 até à Batalha de India Muerta, a 19 de Novembro.

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[28/8/1816]
'No dia 28 porém, tiveram noticias de Portugal, e o Coronel Azeredo teve a satisfação de receber cartas das pessoas que mais amava, e cuja saudade acerba lhe não deixava gozar um só momento, nem dos passatempos que a boa hospitalidade d'estes povos lhe proporcionava, nem do vasto e admiravel espectaculo d'este paiz magestoso.

[31/8]
No dia 31, como acima dissemos, terminou o doce ocio d'esta Capua-americana, e o Coronel fez embarcar os seus cavallos e os dos seus officiaes, e deu ordem para elles o esperarem no pontal de S. Miguel, a setenta legoas de distancia; para este pontal se dirigiu o batalhão, primeiramente embarcando em hiates na lagoa dos Patos, e depois pelo rio de S. Gonçalo, que é navegavel: mas os cavallos apenas embarcaram para atravessar a lagoa, que tem aqui cinco legoas de largura, seguindo depois por terra, até ao dito pontal.

Tendo o Coronel atravessado tambem a lagoa dos Patos, subiu pelo rio de S. Gonçalo duas legoas, e ahi desembarcou, indo acampar o batalhão no logar das Pelotas, que já então era uma bonita povoação,, banhada pelo rio do mesmo nome, o qual vem vazar suas aguas no rio de S. Gonçalo. Chegado ás Pelotas encontrou parte das forças que tinham vindo adiante, e ahi deliberou esperar pelo resto do regimento, que vinha á rectaguarda.

Foi hospedar-se para casa do vigario, que o recebeu com a mesma cordialidade, com que os outros seus hospedes o tinham regalado n'esta longa jornada.

Esta povoação das Pelotas está n'uma situação vantajosissima para' o commercio, sobre o rio do mesmo nome, que é navegavel mais de nove legoas, e desagua no rio de S. Gonçalo, que vem da lagoa Mirim, navegavel mais de setenta legoas. A' famosa lagoa dos Patos pagam o tributo de suas aguas outros muitos rios, que levam a navegação até logares collocados a grandes distancias da costa.

São as casas aqui construidas de tijolo, cobertas de telha, e de um só andar, por causa da força dos ventos, caiadas e muito aceadas. O paiz produz todos os fructos do nosso clima de Portugal: e a não ser o viço da vegetação d'uma terra virgem, e a immensidade dos horisontes, que não offerecem repouso algum á vista, não se acharia differença entre um e outro paiz.

E' aqui o centro e coração da importante e rica provincia do=Rio Grande do Sul. Tudo n'este paiz é grande e maravilhoso, mas muito tem que desbravar a industria humana: os habitantes cultivam apenas uma parte de seus campos, e o resto fica para pastagens de gados. O seu principal negocio consiste nos couros dos bois, e carne sêcca: aquelles são exportados em quantidade enorme para o nosso paiz: a carne sêcca é consummida embarricada nas differentes provincias do Brazil.

Aos grandes proprietarios chamam-se=scharqueadores, por isso que á operação de matar os bois se dá o nome de charquear. Ha proprietario que mata annualmente mais de trinta mil bois; e esta carnificina tem principalmente lugar em dezembro e janeiro, porque sendo os mezes mais ardentes, é quando a carne se sêcca melhor.

A não ser a salubridade do clima, e a pureza dos ares, as epidemias seriam frequentes, porque a podridão do sangue e dos intestinos, de que os campos estão juncados bestes mezes, damnificariam o ar, e produziriam as pestes: pois não são só os bois que os charqueadores matam em quantidade consideravel, mas fazem igual carnificina das egoas e mullas, cujas pelles só aproveitam para as venderem por um preço insignificante. 0 numero de cabeças e ossos de bois é tal, que construem com elles paredes; e nos fornos de telha e tijolo, em vez de lenha, empregam os mesmos ossos. Como a vida se torna facil n'este magnifico paiz, a ociosidade é partilhada por todos os brancos, e só os escravos trabalham nas industrias que deixamos indicadas, que dão comtudo lugar a um trafico immenso, facilitado pelos grandes rios e vias aquaticas, onde se movem centenares de hiates, carregados dos productos do paiz, que vem trazer a abundancia á Europa e á America, e dando a esta provinda uma importancia imponente, que ella tem sabido conservar e augmentar, tornando-a uma das mais opuleutas e magnificas d'este formidavel imperio. 

[Outubro e Novembro]
O batalhão passou nas Pelotas os mezes de setembro é outubro, vivendo no seio da abundancia e dos bons commodos. Principalmente o bom vigario, que era irmão d'um Hypolito, redactor do Correio Braziliense tratou o Coronel com tal carinho e generosidade, que nos seus velhos dias, quando o frio dos annos procurava regelar-lhe a memoria, elle o recordava com saudade. Que todo o homem, em qualquer posição, procure sempre fazer o bem e crear sympathias: por obscuro que elle seja, viverá perennemente na memoria das almas bem formadas, e não será inutil a sua passagem sobre a terra.

[...]

[4/11]
Como haviamos dito, nas Pelotas se tinha reunido o regimento todo, o qual embarcou no dia 4 de novembro ás 6 horas da tarde, 

[5/11]
e como não houvesse vento, ficaram no mesmo ancoradouro, largando-o no dia 5, pelas 9 horas da manhã; subindo o rio de S. Gonçalo, e andando nesse dia dezoito legoas, foram pernoitar ao sitio dos Canudos. As margens do rio são agradaveis, mas incultas e desertas; e o rio' é mais largo e tão caudaloso como o nosso Douro.

[6/11]
No dia 6, pela 1 hora da noite, seguiram viagem, e duas legoas a montante entraram na grande lagoa chamada = Mirim, = d'onde o rio toma a origem. Tem esta lagoa mais de 70 legoas de comprido, e de largo 40, e em partes menos. No sitio onde o regimento a atravessou tem 30 legoas: a sua navegação é perigosa, por causa dos muitos baixios, e por ser muito varejada pelos ventos: pelo que se tomam pilotos práticos para dirigir os hiates.
N'este dia soprava o vento do quadrante de Nordeste, o que deu á lagoa o aspecto d'um mar agitado por uma grande tormenta: de modo que todos enjoaram, mesmo os que não conheceram tal incommodo na travessia para a America. Felizmente a viagem foi sem risco, e ás 6 horas da tarde do mesmo dia deixaram á popa a turbulenta lagoa, e commettiam um rio que n'ella vasa, chamado = Arroyo de S. Miguel =. Foi á entrada- do dito Arroyo que os hiates pararam, e passaram a noite.

[7/11]
No dia 7 seguiram o curso do rio para montante, e tendo andado cinco legoas, desembarcaram na ponta de S. Miguel, assim chamada de uma fortaleza que os hespanhoes ahi tiveram, e que os portuguezes arrazaram em 1801. O regimento desembarcou numa planicie immensa, sendo já terra hespanhola a que pizavam, e objecto das contendas.

[8-12/11]
Acampou junto ao rio n'este pontal, e ahi se demorou, seguindo as ordens recebidas, os dias 8, 9, 10, 11 e 12. Os cavallos que tinham vindo adiante, estavam magnificos, tendo engordado espantosamente nas bellissimas pastagens d'estas campinas. Era consideravel o numero de cobras, que havia neste campo; os soldados mataram muitas, e houve a fortuna de não haver desgraças. Aqui se reuniu o resto da tropa que formava a brigada, 

[13/11]
e assim reforçados marcharam no dia 13 sobre o forte de Santa Thereza, que se rendeu á discripção, sendo a guarnição diminuta, e privada dos me os de defeza.
Dista este forte do de S. Miguel sete legoas, e á sua direita, marchando n'esta direcção, se prolonga uma serra, que cerca uma formidavel lagoa, onde nasce o mesmo rio S. Miguel.

[14/11]
No dia seguinte a brigada permaneceu no seu acampamento; 

[15/11]
e no dia 15 continuaram a marcha para Angustura, nome derivado de ser ahi a terra muito estreita, entre o mar e a lagoa, a que acima nos referimos, e que tem seis legoas de comprido sobre uma de largo. 

[16/11]
Tambem dista este campo seis legoas do antecedente e cinco de Talayes, para onde se dirigiram no dia 16: ahi encontraram as tropas da vanguarda, que foram reforçadas como se tornava mister, por haver probabilidade de no dia seguinte encontrar o inimigo: e como as direcções em que elle podia achar-se eram diversas, 

[17/11]
no dia 17 marcharam em sentidos oppostos, indo o 2." regimento pernoitar a Paso de Canullos, a duas e meia legoas: 

[18/11]
e no dia 18 avançou outra tanta distancia sobre Chafalote: 

[19/11]
comtudo no dia 19 a vanguarda encontrou-se com o inimigo, com quem se bateu denodadamente.

[CONTINUA]


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Retirado de: AGUILAR, Francisco D’Azeredo Teixeira D’, Apontamentos Biographicos de Francisco de Paula D’Azeredo, Conde de Samodães, Porto, Tip. Manoel José Pereira, 1866. pp. 82-sg