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22/07/2026

Ação de Las Cañas (20 de Julho de 1818)



Conjunto de dois combates acontecidos a 20 de julho de 1818, junto ao Arroyo de Las Cañas, tributário do rio Jaguarão, a cerca de 12 km a leste da atual cidade de Melo), junto à fronteira.

Este é o teatro Norte, mas a Fronteira do Jaguarão, menos afadigada nas campanhas. Foi aqui que os portugueses primeiro entraram na Banda Oriental, em agosto de 1816, e por onde a coluna do Centro, do mando do general Silveira, adentrou o território até se juntar à restante Divisão dos Voluntários Reais em Pan de Azúcar, na estrada de Montevidéu.

Sob ordens do coronel Félix José de Matos Pereira de Castro, um destacamento português (ou divisão, conforme era por vezes usado) sob o comando do capitão Bento Gonçalves da Silva, com 118 guerrilhas, surpreende um acampamento federal comandado pelo capitán Francisco António Delgado.

Mais tarde, nesses mesmo dia, junto ao arroio Cordobés, Tomás Latorre ataca as forças riograndenses com uma força equivalente (c. 100 efetivos), mas é rechaçado pelas guerrilhas portuguesas.


Na historiografia militar brasileira, também se chama esta ação de Surpresa de Las Cañas.

“O comandante de guerrilhas Bento Gonçalves da Silva surpreendeu e desbaratou a força oriental do comte. Francisco Antônio Delgado, o qual foi tomado prisioneiro juntamente com vários oficiais e muitos soldados. Horas depois, Bento repeliu o ataque de outra força, ao mando de Tomas Latorre. Este, incorporando os dispersos do primeiro encontro, tentou libertar os compatriotas apresados. Rechaçado, foi perseguido e perdeu mais gente.”
Hernâni Donato, Dicionário de Batalhas Brasileiras

COMANDANTES, FORÇAS E BAIXAS

Capitania de Rio Grande de São Pedro
(Coronel Félix José de Matos Pereira de Castro)
Capitão Bento Gonçalves da Silva (80 guerrilhas) + Francisco Paulino (38 guerrilhas) (total de 118)
Baixas: 1 guerrilha gravemente ferido e um contuso (contra La Torre).

Liga de los Pueblos Libres
Capitán Francisco António Delgado (7 mortos, 22 prisioneiros; não há informação de efetivos)
+ Tomás Latorre (sobre o Cordobés, na retaguarda de Las Cañas: cerca de 100 efetivos, 5 mortos e 1 prisioneiro)

DOCUMENTOS

N° 985  [Félix José de Mattos ao tenente general Manuel Marques de Sousa, Acampamento de Tupambaé, 24 de Julho de 1818.]

Ill.m° e Ex.m° Sr.

[12.7]  Pelo meu de 12 do corrente tive a honra de informar a V. Ex.ª respeito ao movimento dos inimigos, e da minha marcha com o Batalhão de Frade morto [Fraille Muerto]: as minhas cavalhadas chegaram bastante aniquiladas: estavam porém sofríveis as de Bento Gonçalves: [17.7] Francisco Paulino de Asseguá, se me reuniu a 17 por noite com 38 guerrilhas: adiantei na mesma noite de 17 Bento Gonçalves com os seus 80 guerrilhas, reforçam com os de Paulino a atacar o Acampamento de Las Cañas, e [20.7] avançaram para surpresa na madrugada de 20: perderam os inimigos 22 prisioneiros incluso o capitán comandante Francisco António Delgado, 41 clavinas; 6 pistolas; 11 espadas; 16 cartucheiras; 12 baionetas, 708 cavalos, e 7 homens mortos. 

Bento Gonçalves apenas surpreendeu o acampamento inimigo soube que um corpo de cem homens inimigos ao Comando de Thomaz La Torre estava sobre o Cordobés, já na retaguarda de Las Cañas: pôs-se em marcha para ele com a preza que acabava de fazer, e no mesmo dia 20 os encontrou caminhando para os nossos; Bento Gonçalves fez alto, deu-lhe batalha, e os derrotou completamente, matando-lhe cinco, aprisionando-lhe um, e tomando-lhe muitas armas, sendo que os inimigos quase todos as abandonaram na fuga da nossa parte houve um guerrilha gravemente ferido e hum contuso.

[22.7] No dia 22 recebi em Frade morto a parte destas duas gloriosas ações: pus-me em marcha no mesmo dia para ele, e me reuni a Bento Gonçalves ao anoitecer neste passo de Tupambaé: o Capitão Bento Gonçalves louva, e elogia grandemente a conduta dos seus dois Subalternos o Tenente Albano de Oliveira e Alferes António José de Oliveira o Preformado Inácio de Oliveira, e P de guerrilhas Manuel Antunes; Francisco Paulino; os paisanos Diogo Feijó, e Francisco de Ávila, e era geral todos os guerrilhas pelo seu denodo: eu faltaria ao meu dever se não transmitisse à justa consideração de V Ex.ª Estas dignas recomendações e se a elas não ajuntasse as minhas a favor do Capitão Bento Gonçalves. 

Tenho a honra de pôr nos respeitáveis Mãos de V Ex.ª as pistolas do Comandante Delgado como sinal de nosso respeito e veneração. Ao Comandante de Las Cañas se lhe encontrou a correspondência junta, por onde V Ex.ª saberá as sinistras tenções de Artigas. Paiva chegou a Bagé a 16 e recebi em Frade Morto as comunicações inclusas por onde se verifica não ter sido atacada aguarda de S.Tiago porém sim uma Vacaria feita pelo Comandante da dita guarda. 
Os prisioneiros de Las Cañas informam que Balta Ogueda [Ojeda] se retirou dos Taquarembós para Salsepueda, e que vinha autorizado para entrar em Portugal pela Fronteira de Bagé, assim como Moreira o foi para avançar por esse lado. Amanha á pretendo retirar-me para o Sarandi a pôr o inimigos em alguma calma para lhe seguir dar outro golpe. Os prisioneiros marcham hoje para o Serrito com ordem de seguirem para o Rio Grande, aonde V. Ex.ª poderá ter bons sucessos das Armas de Sua Majestade d° ao Comando de V Ex.ª.

Eu saúdo a V Ex.ª com o maior respeito. D. g. a V. Ex.a m. e felices annos
Acampam. de 'Topambahé', 24 de Julho de 1818.
Ill.mo e Ex.mo Snr. Manoel Marques de Souza=Felis Joze de Mattos

FONTES
- Archivo Artigas, tomo XXXI.

Imagem retirada do Wikicommons ("Paisaje del departamento de Cerro Largo"), em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Paisaje_del_departamento_de_Cerro_Largo.jpg




21/07/2026

Ação de Quegay Chico (4 de julho de 1818)



Conjunto de ações  em torno do arroio Quegay Chico, no departamento de Paysandú, decorridas no dia 4 de julho de 1818, no âmbito da incursão luso-brasileira pela margem oriental do Uruguai a decorrer já desde março.

Entre 500 a 550 militares comandados pelo major graduado de milícias Bento Manuel Ribeiro, destacados do exército do Rio Grande, sob o general Joaquim Xavier Curado, atacaram a aldeia de Purificación, a norte de Paysandú, o acampamento principal de José Artigas. Apesar da notícia dada nos documentos abaixo, o mayor general Andrés Latorre não morreu e foi retirado ferido do campo, não sendo certo se como prisioneiro ou pelos seus. Miguel Barreiro, antigo governador de Montevidéu, foi descoberto em ferros, tendo sido mandado prender por José Artigas em data anterior.

Horas depois, Frutuoso Rivera leva a cabo um contra-ataque seu, com cerca de 500 militares federales, que ele recolheu de entre os dispersos do contacto anterior e que faz Bento Manuel Ribeiro retirar ao exército.

“Horas depois de haver suplantado e dispersado o contingente do próprio Artigas. Bento Manoel Ribeiro foi atacado por Frutuoso Rivera, que reunira 500 dos dispersos do combate anterior. Bento retira-se, fortemente perseguido.” (Hernâni Donato, Dicionário de Batalhas Brasileiras)

ORDEM DE BATALHA

Capitania do Rio Grande: 500-550 homens / 550 homens de infantaria e cavalaria
(Baixas/Lecor): 6 mortos, 16 feridos e número incerto de extraviados
Liga Federal (1.º ataque do dia): 500h (100 mortos no campo, cf. Lecor); Latorre ferido; Miguel Barreiro capturado (em algemas)

DISTINÇÃO
Sargento Mor Bento Manuel Ribeiro
Alferes João Nunes Ramalho (LSP, Cavalaria)

Comandantes Federais
Andrés Latorre (1.º fase)
Frutuoso Rivera (2.ª fase)

Documentos

No 987 [Carta de Rodrigo José Ferreira Lobo ao Conde dos Arcos; a bordo de la Fragata "Thetis" surta no porto de Montevideu, 30 de Julho de 1818.]

[…] Tenho a honra, e satisfação de levar à presença de V. Ex.ª, relativas a uma ação, que houve no dia 4 do Corrente, entre uma coluna de 500 homens das Tropas do General Curado, - e as Tropas de Artigas, sendo estas surpreendidas de noite no acampamento, de que lhes resultou a perda de quase toda agente, em mortos, feridos, e prisioneiros; sendo dos primeiros, conforme ofícios do mesmo General Curado, hum denominado La Torre [Andrés Latorre], cujo cargo era como de Major General do dito Artigas, e dos últimos (além de 108 que vieram para este Porto, conduzidos da Colónia no Bergatim Providente) se conta hum tal Barrero [Miguel Barreiro], que foi nesta Praça Governador Delegado por Artigas; este prisioneiro está na Praga entregue ao Cabildo. A ação foi nas imediações do lugar chamado a Purificação. [...]

N° 989 [Do Barão da Laguna a Tomás António de Villanova Portugal. Montevideo, agosto 1° de 1818.]

Ill.mo e Ex.mo Snr
Achando eu que as forças do Excelentíssimo General Curado eram muito superiores numérica, e moralmente às que Artigas podia opor-lhe sobre o Uruguai quando julguei acertado, que ele marchasse do Quaraí sobre o Daimán, e dando maior força aos meus motivos as circunstâncias de não passar Artigas o Uruguai, quando o General Curado entrou na Purificação, pois que neste caso as Tropas daquela Coluna apoiadas pela flotilha impediriam a reunião da gente de Entre Rios, com a da Campanha Oriental; sempre foi minha opinião, que o General Curado seguisse as suas vantagens sobre o Uruguai, e perseguisse Artigas em todas as direções em que ele se retirasse, muito principalmente em quanto ele vagasse pelas imediações daquele Rio, abstendo-se porem de passar à margem direita, exceto quando fosse muito necessário, e proveitoso um golpe de mão para contrariar os projetos do Inimigo; e nesta inteligência enviei ao General Curado as minhas insinuações.

Pelo resultado, que tem tido as suas operações, e pela consideração do influxo transcendente, que delas podem receber as da política, insistindo no meu plano, mais que confirma nele o conteúdo no Oficio de 12 de Julho corrente, que neste momento recebo de Ex.º General Curado a respeito dos sucesso do dia 4 do mês indicado.

Reconhecendo o Ex.º General Curado as débeis forças, que no acampamento do Queguay tinha o Chefe Artigas, e que tratava de as aumentar, dirigindo a todos os Comandantes da sua dependência, tanto deste como de outro lado do Uruguai, as ordens mais assertadas para o recrutamento de quanta gente pudesse tomar as armas; antes que isto se verificasse mandou atacar aquele acampamento por uma força de 550 homens de Infantaria, e Cavalaria às ordens do major Graduado Bento Manuel, a quem ordenou que para não ser pressentido pelo Inimigo fizesse marchas forçadas, e noturnas.

Na madrugada do dia 4 do corrente puseram-se em pratica as ordens do general: foi atacado o acampamento de Artigas, batida, e dispersa a força, que ali havia, e que se supunha de mais de 500 homens: ficaram no campo até 100 mortos, e contava-se entre estes ao Comandante La Torre [Andrés Latorre], que servia de Major General de Artigas, e ao Major Filipe Duarte Comandante da Infantaria de Frutuoso Ribeiro, se bem que eu tinha ultimamente ouvido por noticias da campanha que ambos aqueles Oficiais haviam sido tirados do campo feridos, mas com vida.

Fizeram-se muitos prisioneiros, e destes já chegaram cento e doze a esta Bahia: resgatou-se um Cadete Português, que em outra ocasião tomara o inimigo, e foi livre da prisão em que se achava D. Miguel Barreiro, noutro tempo Delegado de Artigas, e Governador desta Praça.

Foi tomada uma peça de artilharia, que se encravou, e cujos reparos se arruinaram por não poder ser conduzida pela fraqueza da cavalhada: tomaram-se muitos armamentos de várias qualidades, e quebraram-se os que não era fácil transportar, e caiu em nosso poder uma caixa de botica, e muitas munições, que se inutilizaram, havendo-se repartido algumas pela Tropa.

Já depois do combate apareceu Frutuoso Rivera, que tendo o seu campo na distância de uma légua do lugar do conflito, vinha socorrer Artigas com a Cavalaria.
O Major Graduado Bento Manuel sem embargo pôs-se em retirada, e chegou com os prisioneiros ao acampamento do Excelentíssimo General Curado.

A nossa perda consta de 6 mortos, 26 feridos, e alguns extraviados, que seguindo me devem já quase todos se reuniram. 

O Excelentíssimo General Curado reconhecendo o valor, e acerto do major Graduado Bento Manuel, e a conduta do Alferes da Legião de S. Paulo João Nunes Ramalho, que então foram gravemente feridos.

Deus Guarde a V Ex.ª m.[uitos] a.[nos] 
Montevideu, 1 de Agosto de 1818
Illmo e Exmo Snr. Tomás António de Vilanova Portugal
Barão da Laguna

Fontes
- Archivo Artigas
Imagem retirada da Wikicommons, em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:R%C3%ADo_Queguay_Chico_01.JPG

05/04/2025

Bento Manuel (Gustavo Barroso, A Guerra de Artigas, 1930)


 

““Sái logo ao encontro de Artigas, que vinha em marcha 
com 600 homens de cavalaria, obriga-o a retroceder e persegue-o”.”
(Rio Branco – Efemérides)

Naquela luminosa manhã de maio, em frente ao acampamento do exercito brasileiro do Quaraim, estava formada uma extensa linha de cavalaria: quinhentos e sessenta homens escolhidos das milícias do Rio Grande e da legião de São Paulo. Comandava-os o tenente-coronel Bento Manoel Ribeiro e, lentamente, o general Curado passava-lhes revista.
Era um homem alto, espadaúdo, forte. Nariz aquilino. Queixo proeminente. O alto bicornio a três pancadas. Muito firme na sela, muito espigado, apesar dos seus setenta e um janeiros. Nascido nos sertões goianos de Jaraguá, o conde de S. João das Duas Barras tinha a rijeza peculiar dos vaqueiros do nosso áspero interior. Veterano das campanhas platinas, seus dias de guerra contavam-se por vitorias, e seu nome era o terror dos orientais desde a batalha de Catalán.
Curado examinou os soldados um a um. Seu olhar percorria rápida e agudamente o individuo, as armas, o cavalo, os arreios. Depois, verificou o estado da cavalhada estendida no coice da coluna. A impressão de tudo foi favortavel. Voltou à testa da força e fez um sinal ao comandante. Bento Manuel aproximou-se.
─ Vá, disse o general, passe o Uruguai e encrave todas as baterias dos gringos!

***

Soltando vivas entusiastas, o destacamento partiu rumo à fronteira. Dois dias após, na noite de 14 de maio, atravessava o rio sem ser pressentido pelo inimigo, na Vuelta de San José, e penetrava no território de Entrerrios. Ao alvorecer o dia seguinte, galopando pela margem direita do Uruguai, a cavalaria brasileira avista uma força contraria que se desdobra em escalões pelas coxilhas. Os paulistas espalham-se em atiradores. Os riograndenses preparam as lanças. São os entrerrianos do coronel Gorgonio Aguiar, que defendem a bateria da Calera de Barquin, assestada num teso e destinada a bater o passo do rio. Artigas pretendia com essas baterias impedir a esquadrilha de Sena Pereira de subir o Uruguai.
O clarim brasileiro, ao amortecerem as descargas dos atiradores que vão recolhendo ao grosso devido ao avanço do inimigo superior em numero, dá o sinal de carregar. As duas linhas de cavaleiros enovelam-se, tapesapeando as lanças e sabres. Gritos, uivos, pragas! E o valente Bento Manuel, no meio do entrevero, a dar ordens e a bater-se como um simples soldado. Sem campo de tiro livre, a bateria inútil jaz no alto da Calera. Depois de uma hora de resistência, os artiguenhos afrouxam a luta e dispersam-se, lanceados e tiroteados. Gorgonio de Aguiar entrega a espada ao chefe sorocabano. E os guaranis que guardam a nossa cavalhada preparam uma balsa para levar a artilharia contraria ao território do Rio Grande.

***

Após um descanso de horas, a carneação para o almoço, o tratamento dos feridos e o enterro dos mortos, de novo o destacamento audaz continua a marcha vitoriosa. Entardece quando outra fila de cavalaria corôa as coxilhas ribeirinhas ao Uruguai. São os soldados do tenente-coronel Faustino Tejera que defendem a bateria de Perucho Berna, feita com canhões tomados outrora a Balcarce. Novamente se entestame topam as cavalarias a arma branca. Os entrerrianos são outra vez batidos lamentavelmente. E outras balsas levam as peças artiguistas para a margem brasileira.

***

Á noite, Bento Manuel acampa na bateria abandonada no Passo de Vera, cujos canhões encrava.

***

Mal nasce o dia 16, está a cavalo. O toque de ensilhar foi dado antes do sól. E a força vitoriosa galopa para a villa do Arroyo de la China, que hoje se denomina Concepción del Uruguay, base de operações de Artigas. Por volta de onze horas da manhã, entra por ela adentro. Seus clavineiros apêam-se, correm ao cais e apoderam-se de barcos atracados, cheios de munições de guerra e bôca. Os lanceiros ocupam todas as entradas da povoação. Nisto, vêm dizer-lhe que, a marchas forçadas, Artigas em pessôa corre em socorro da vila. O clarim toca logo chamada ligeira; depois, ensilhar. Já a cavalo, os oficiais  olham espantados para Bento Manuel. E ele, sorrindo:
─ Vou bater Artigas em campo raso!
***
O encontro deu-se a pequena distancia do Arroio da China. Os seiscentos cavaleiros que o ditador trazia não resistiram ao embate dos centauros que Curado escolhera e revistara para aquela feliz expedição. Em meia hora, eram debandados em todas direções, perdendo Artigas até o seu próprio estandarte!
Bento Manuel perseguiu-o umas três leguas.

***

Uma semana mais tarde, em frente ao acampamento do exercito brasileiro, o conde das Duas Barras passava de novo revista aos guerrilheiros que regressavam do audacioso reide. Bento Manuel, acompanhando-o por entre as fileiras perfiladas, dava-lhe conta do seu êxito:
─ Trouxe oito canhões, treze barcos, trezentos e sessenta e seis prisioneiros, quinhentas espingardas, dezoito carretas com munições e despojos, duzentos cavalos, um estandarte e somente faltou…
Deteve-se com um sorriso enigmático nos lábios. O velho Curado, que lhe conhecia de sobra o pendor para a bravata e o exagero, espicaçou-o:
─ É verdade, tenente-coronel, falta uma coisa que você não trouxe e estou adivinhando…
─ Pois diga, general.
─ Foi Artigas…
─ Isso mesmo. Mas eu só não o trouxe, porque…
─ Por que? indagou Curado.
─ Porque ele fugiu…

Fonte
BARROSO, Gustavo, A Guerra de Artigas, s/l, Ed. Getulio M. Costa, [1930]. pp. 109-116

13/02/2022

Memórias e Reflexões sobre o Rio da Prata, extraídas do diário de um oficial da marinha brasileira (Jacinto Roque de Senna Pereira, 1849)


A 16 de Fevereiro de 1850, a quatro meses de falecer aos 66 anos, o chefe de divisão Jacinto Roque de Senna Pereira entregou ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do qual era sócio, quatro folhetos impressos contendo as suas Memórias e Reflexões Sobre o Rio da Prata. Na entrega, o antigo ministro da Guerra (1839) e da Marinha (1840) reflete criticamente sobre a importância da sua obra:  "Sei que não tem ella […] valor intrinseco, mas poderá talvez servir de auxiliar ou reportorio aquelle d'entre os nossos sabios que se dedique a escrever detalhadamente a historia do Imperio Brazileiro".

Nascido em Lisboa em 1784, Senna Pereira cursou Matemática na Real Academia de Marinha. Em 1802, embarcou como voluntário no bergantim Real João, servindo na Esquadra do Estreito, no Mediterrâneo. A 18 de março de 1811, foi promovido a segundo-tenente, iniciando assim o seu percurso de oficial da marinha que terminou como chefe de divisão (equivalente sensivelmente  a contra-almirante). 

Para a compreensão do extrato que apresento, Senna Pereira, como primeiro tenente, foi em 1818 nomeado comandante da escuna Oriental e da esquadrilha naval com que se pretendia entrar no rio Uruguai, com o fim de fazer a tão necessária ligação de Lecor e as forças portuguesas em Montevideu com as forças do Exército do Brasil que efetuavam, desde Março desse ano, uma ofensiva sobre a margem esquerda do rio, sob o comando do tenente general Joaquim Xavier Curado (1746-1830). Os problemas de comunicação eram um dos mais graves problemas das forças portuguesas que invadiam a Banda Oriental, não só pelas vastas distâncias em jogo, mas fundamentalmente pela perturbação que as tropas federais de Artigas causavam neste fluxo de comunicação já de si difícil.

O extrato cobre sensivelmente o período entre a entrada da esquadrilha no rio Uruguai (2.5.1818), sem oposição por parte de Buenos Aires, e a difícil subida do rio, uma área desconhecida para os marinheiros e os oficiais. Descreve o combate do Paso de Vera (3.5.1818), em que a escuna Oriental enfrenta uma bataria de artilharia no lado ocidental do rio. Refere, com algum pormenor, a ligação entre a escuna Oriental e as forças do general Curado, a 13 de Maio, e por último fala das ações tanto terrestres como navais que decorreram entre 15 e 18 de Maio, conhecidas coletivamente como Surpresa do Arroyo de La China, em que Bento Manuel Ribeiro (1783-1855) passou à margem ocidental do rio e destroçou as forças orientais presentes em Perucho Verna, Calera de Barquín e a referida vila do Arroyo de La China (hoje Concepción del Uruguay).

A transcrição foi feita a partir da edição impressa da Revista Militar Brasileira, em 1912, com a modernização da ortografia, assim como a utilização dos nomes originais dos locais em espanhol. Há, no entanto, uma outra edição, um pouco mais completa (tendo uma parte final referente a parte de 1819 e a 1820), publicada em 1931 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, e a partir da qual foi editada uma versão traduzida para castelhano no periódico uruguaio Boletin Histórico, em 1964. O caro leitor que queira ler as versões integrais poderá encontrar algumas ligações ao fim desta postagem.


* * *


MEMÓRIAS E REFLEXÕES SOBRE O RIO DA PRATA, extraídas do diário de um oficial da marinha brasileira (Jacinto Roque de Senna Pereira) e publicadas em 1849. [extrato]

[...]

Duas memoráveis batalhas campais (a de Catalán e a de India Muerta) reduziram o inimigo a deixar o passo franco aos nossos exércitos. A primeira foi ganha gloriosamente pelo exército brasileiro, apesar de surpreendido, em 4 de janeiro de 1817; a segunda dada bizarramente pela vanguarda da divisão de Voluntários Reais no dia 19 de novembro de 1816.

Comandou na ação o exército brasileiro o marquês de Alegrete, capitão-general da província de S. Pedro, que acidentalmente se achava no exército, retirando-se depois para Porto Alegre a 25 de dezembro do mesmo ano, deixando o exército a seu general em chefe Joaquim Xavier Curado, ínclito varão, cujo nome será sempre respeitado e que deu honra e grande credito ao país em que nascera. Era o comandante da vanguarda da divisão de Voluntários Reais de El-Rei o marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia.

O general Curado, enquanto esperava na fronteira a aproximação do exército do general Lecor e as precisas ordens para invadir o território Oriental, aproveitou o tempo para aguerrir seu exército, do que resultaram as vantajosas e assinaladas batalhas de S. Borja, Ibirocaí, Carumbé, Arapeí, Belém e outras, nas quais tanto figuraram os nomes de muitos bravos brasileiros, com especialidade os de José de Abreu, João de Deus Menna Barreto, Joaquim de Oliveira Álvares e Bento Manuel Ribeiro.

O general Curado, atravessando o Estado Oriental, marchou em uma direção quase paralela à do exército do general Lecor, e acampou na margem esquerda do Uruguai.

A divisão de Voluntários Reais entrou em Montevideu no dia 20 de janeiro de 1817, achando a praça abandonada e bloqueada por mar por nossas forças marítimas debaixo do comando do conde de Viana.

E destarte ficaram os dois exércitos separados um do outro por cerca de oitenta léguas.

D. José Artigas e D. Frutuoso Rivera, o primeiro chefe supremo da Republica e patriarca da Federação (2), o segundo seu imediato, tanto em prestígio como em força, puderam entretanto reabilitar-se das perdas ultimamente sofridas nas duas batalhas já indicadas e preparar-se senão para novos, combates decisivos ao menos para uma guerra de recursos; e conhecedores da índole daqueles habitantes, lançaram mão dos mais poderosos meios de os chamar às armas e de os reter com elas, — o da nacionalidade ofendida e o fuzilamento.

Assim conseguiram eles formar fortes guerrilhas e intercetar de tal modo a comunicação entre os dois exércitos que mister foi procurar-se um meio que os pusesse em relação, resultando daí a ideia da organização de uma esquadrilha.

O general Lecor, como capitão-general de mar e terra, havia pedido ao almirante Lobo dois oficiais de marinha e recaiu a escolha em Luís Barroso Pereira [1786 -1826] e Jacinto Roque de Senna Pereira [1784-1850], este natural de Lisboa, aquele de Minas Gerais; Barroso partiu logo para Buenos-Aires como em comissão secreta ao supremo diretor da Republica e Senna Pereira teve a nomeação de comandante da escuna Oriental e da esquadrilha.

Barroso foi distintamente acolhido tanto pelos particulares como pelas pessoas do governo de Buenos-Aires, o que não é para estranhar visto o excelente carácter e instrução daquele oficial e o estado de desordem em que se achava aquela capital.

Nas conferências havidas com Barroso parecia que o governo de Buenos-Aires marchava de acordo com o general Lecor em tudo que dizia respeito à destruição de Artigas e nossa ocupação pacífica ; mas assim mesmo não deixava aquele governo de fixar as bases sobre as quais no futuro poderia levantar-se. firmemente o edifício político que serviria de forte antemural para combater a nossa invasão à mão armada em um território que, apesar de solene declaração de Artigas, Buenos-Aires considerava como parte integrante daquela Republica; neste sentido mandou a Montevideu por vezes os emissários coronel Vedia [Nicolás de Vedia, 1771-1852] e dr. Passos, conservando ali por longo tempo a D. Santiago Vasques [Santiago Vázquez, 1787-1847]; protestando sempre os emissários ao general Lecor, e mesmo o diretor a Barroso, que tal proceder nada tinha de positivo, sendo seu único objeto tranquilizar as províncias do interior, já ciosas por nossa proximidade e pelos continuados triunfos adquiridos por nossas armas.

Pelos mesmos especiosos motivos se dificultou a entrada da esquadrilha no Uruguai pelo Passo da Ilha de Martim Garcia, o que ultimamente se concedeu por se conhecer que de contrário se poderia usar de força.

No dia 2 de maio de 1818 penetrou pela primeira vez no Rio Uruguai a nossa esquadrilha composta da escuna Oriental e das barcas Cossaca, Mameluca e Infante D. Sebastião.

Todos os que iam por práticos dessas embarcações eram tão ignorantes da navegação do rio como qualquer dos comandantes, que pela primeira vez davam vista daquelas paragens de tão agradável perspetiva e tão pitorescas como as que se descobrem na província de S. Pedro do Sul, desde o Itapuã à cidade de Porto Alegre, cujo nome com tanta propriedade lhe foi dado.

A custa de fadigas e perseverantes trabalhos ia-se vencendo a viagem, e pode-se dizer que tal expedição tinha muita semelhança com a empreendida pelos primeiros navegadores que ousaram descobrir os mesmos inóspitos lugares.

Era do dever do comandante da esquadrilha abrir comunicação com o exército do general Curado o mais brevemente possível, e as dificuldades naturais que se iam vencendo e renovando tornavam a viagem de uma morosidade censurável e bem desgostosa.

Como a escuna Oriental e a barca Cossaca encalhavam menos vezes, sem dúvida por nadarem em menos água, deliberou o comandante da esquadrilha subir só com essas duas embarcações, deixando as restantes encalhadas com uma lancha para as auxiliar. Em poucos dias favorecidas do vento avançaram elas sem inconveniente bastantes léguas, e então, tornando-se o vento contrário, foi expedida rio abaixo a Cossaca para que, já mais senhora da navegação, pudesse servia às outras de guia seguro.

Dois dias depois voltou o vento ao sul, e aproveitando-o subiu a Oriental sem mais alguma outra embarcação que a acompanhasse. 

[5.5.1818] Na manhã do dia seguinte descobriram-se sobre a margem direita do rio (província de Entre Rios, por ser banhada pelos Uruguai e Paraná) dois cavaleiros, os primeiros homens avistados e que rapidamente se ocultaram apenas a Oriental se lhes aproximou; um pouco mais acima foi a Oriental canhoneada repentinamente por uma bateria à barbeta [posição de tiro da artilharia ao descoberto] com três bocas de fogo, situada em uma pequena aba que forma o arvoredo em toda aquela costa, chamando-se a paragem Paso de Vera, por ser lugar estreito e por isso fácil a comunicação de uma a outra costa. Travou-se o combate que duraria por três quartos de hora, havendo intervalos nos quais o fogo da Oriental fez calar o da bateria, desmontando-lhe uma peça com perda de alguns homens, o que visivelmente se conheceu pela proximidade.

Hora e meia depois estava a escuna fundeada próximo à margem esquerda do rio, costa oriental, e ao abrigo de uma ilha; o estrago recebido foi algum pano furado, uma bala cravada no mastro grande, dois rombos no costado e um homem da guarnição levemente ferido.

Para que a escuna Oriental chegasse até onde estava acampado o general Curado era preciso vencer ainda mais de quinze léguas rio acima, bater mais duas baterias colocadas do mesmo lado da costa em frente a Paysandú e no arroio Perucho Verna [c. 16 km a norte de Paysandú, na margem ocidental, imediatamente a norte da atual Villa San José] e atravessar as sinuosidades complicadas do no, que se tornavam difíceis porque a agua ia diminuindo, e portanto a desejada e necessária comunicação ainda tinha dias de demora.

Há sucessos porém que parecem determinados pela providência como presságios de grandes acontecimentos, e tal foi o combate de Passo de Vera.

A aurora do dia 13 despontava risonha e aprazível, o rio corria brando e cristalino e apenas era bafejado pela brisa do norte anunciando um belo dia.

O prazer reinava em toda parte e todos estavam satisfeitos quando se começaram a divisar alguns cavaleiros sobre as colinas vizinhas, cujo numero foi prodigiosamente aumentando e por isso se tornou suspeito. A escuna preparou-se para qualquer eventualidade e arvorou a bandeira nacional; a qual sendo por aquela multidão reconhecida causou uma cena de entusiasmo, que só pode conceber um coração também surpreendido por tanta alegria. Fizeram-se correrias em diversos sentidos como noticiando-se mutuamente; mil cortejos, tiros e vivas repetidos formaram com o retinir das armas um tumulto que só terminou com a chegada ao lugar do embarque.

Fácil é conhecer que tal gente pertencia ao exército brasileiro ao mando do general Curado, exército sempre aguerrido, triunfante sempre, enquanto lhe coube a sorte de ser comandado por general tão hábil e honrado, tão inteligente e integro, tão bravo e perfeito militar.

Na ocasião do combate o vento reinava pelo sul, e correndo o rio ao norte, brevemente chegou ao acampamento daquele exército o troar dos canhões, o que sendo ouvido pelo general fez expedir logo uma forca a descobrir a causa, e foi deste modo extraordinário que se abriu a desejada e necessária comunicação com maior rapidez do que razoavelmente se podia esperar.

Mal pensava o inimigo que por sua ostentação de força havia de ser ele mesmo com seu fogo quem acelerasse sua própria ruína!

Para logo o general resolveu dar movimento ás suas forças afim de distraí-las da inação em que já se achavam, e projetou um plano de ataque sobre a província de Entre-Rios, no lugar da costa onde havia um deposito de Artigas, estavam situadas as três baterias e estacionavam para mais de seiscentos homens de infantaria ao mando do coronel Aguiar.

As restantes embarcações da esquadrilha reuniram-se quatro dias depois de aberta a comunicação, tendo sido oportunamente avisadas da existência da bateria no Passo de Vera, com a qual trocaram sempre alguns tiros em sua passagem, navegando então com vento fresco em popa.

Na tarde do dia 18 intimou-se ao comandante da bateria que se rendesse, e que a vila do Arroyo de la China [atual cidade de Concepción del Uruguay] seria no dia imediato tomada e entregue ao saque, se a bateria não nos fosse entregue dentro de um prazo marcado.

O exército havia no entanto levantado o acampamento, e seguido uma direção que indicava querer aproximar-se à esquadrilha; fez porém alto logo que escureceu e separou-se um pouco da costa, para a qual destacou já noite escura e sem que o inimigo o percebesse uma coluna composta de quinhentos combatentes ao mando do intrépido Bento Manuel Ribeiro, pondo assim em ação a mais hábil estratégia.

E por um desses atrevimentos militares, que só concebe e bem executa o génio e a bravura, a coluna brasileira passou durante a noite ao outro lado do rio, com todo o seu armamento, munições, cavalhada, arreios e mais trem, auxiliada unicamente por uma lancha e duas canoas que cautelosamente se haviam ocultado ao inimigo; servindo de muito, para o bom desempenho de plano tão arriscado, o desembaraço e agilidade do nadar de quase todas as praças rio grandenses, que meteram corpos no rio dirigindo deste modo a cavalhada com destreza tal, que nem um só cavalo se perdeu; e antes do alvorecer a força achava-se em marcha sem ter sido pressentida pelo inimigo.

Proximamente a este intervalo as embarcações da esquadrilha espiavam a tomar posição conveniente para flanquear a bateria de Passo de Vera.

Toda a vigilância do inimigo pois foi chamada sobre a costa, e tão atento se achava que, por vezes, fez fogo sobre os escaleres que adrede se aproximavam.

Tarde, porém, deram os descobridores do inimigo com a nossa força, e hesitando por algum tempo sobre que gente era essa que avistavam, ficaram em inação, até que carregados por nossa vanguarda levaram com pouca diferença de tempo a noticia e o terror ao seu acampamento, que quase surpreendido mal soube se defender, sendo a bateria repentinamente abandonada mal reconheceu a posição de nossas embarcações, e sem que houvesse tempo de dar-se um só tiro.

E destarte, sem prejuízo nosso e em bem pouco tempo, o coronel Aguiar parte de seus oficiaes e mais praças do corpo do seu comando ficaram prisioneiros, excedendo em total ao numero de trezentos.

Todas as baterias foram tomadas e destruídas, sua artilharia e trem embarcados, menos duas bocas de fogo dos calibres 18 e 12 que por velhas e mui pesadas se lançaram ao rio.

Doze embarcações, que Artigas havia tomado em Buenos Aires, uma lancha artilhada e um escaler, foram apresados no arroio Perucho Verna, e nestas embarcações como em algumas da esquadrilha foram recolhidos os prisioneiros e todo o espólio.

Era então presidente e comandante em chefe das forças militares daquela província D. Francisco Ramirez [1786-1821], gaúcho  intrépido e afortunado, e que nessa ocasião se achava a doze léguas de distancia em seu parque com mais de seiscentos homens.

E à primeira noticia por ele recebida da nossa invasão, pôs-se em marcha para socorrer o coronel [Gorgonio] Aguiar, e castigar, como ele dizia, semelhante atrevimento; mas recebendo logo a participação de estar tudo perdido, reservou o prometido castigo para melhor ocasião, e pôs-se em retirada para a costa do Paraná, abandonando mais de cem homens há pouco por ele recrutados, os quais caindo em poder de Bento Manuel foram postos em liberdade, por se julgar que assim se prejudicava ao inimigo.

A distância que desde então ficou mediando entre as duas forças, era de natureza a não permitir a Bento Manuel o manobrar contra seu adversário sem carregar com o peso de uma grande responsabilidade: já porque a sua força constava unicamente de quinhentos homens, e tinha de atravessar toda a província inimiga, sem contar com mais recursos que os que pudesse acharem si; já porque nesse caso a separação do corpo do nosso exército era considerável pela distancia, e não era possível a junção com este em caso urgente e repentino; já finalmente porque as instruções o não permitiam.

A não se darem tão fortes razões estamos persuadidos de que a província de Entre-Rios cairia em nosso poder em poucos dias: tal era o terror e desanimo que, não só o sucesso recente como o das batalhas anteriormente ganhas, tinha impressionado nos espíritos de todos os seus habitantes, sem excetuar mesmo o do seu guerreiro mais denodado!

Oito dias depois estava reunida ao exército a coluna expedicionária, e este com mais mobilidade, melhor cavalhada tomada ao inimigo, e seu credito mais reforçado pelo bom resultado da expedição; e livre a navegação do Uruguai de todo o obstáculo por parte do inimigo por haverem sido tomadas e destruídas as baterias que o vedavam.

No dia imediato àquele em que tudo se tinha embarcado e posto em segurança, entrou na vila do Arroyo de La China o comandante da esquadrilha, antes que Bento Manuel nela tivesse penetrado.

Achavam-se ali, como emigradas, a maior, parte das famílias que Artigas tinha obrigado a evacuar as vilas da Purificación e Paysandú, para deste modo pôr em penúria o exército, que já com grande custo podia conseguir o gado necessário para o consumo diário, pois que o inimigo não havia retirado antecipadamente para grande distancia.

A exceção de algumas famílias pertencentes a indivíduos comprometidos e empregados no exército contrário, e domiciliárias da Purificação, todas as demais rogaram àquele comandante que as restituísse ao seu país e lar doméstico, o que efetivamente ele satisfez empregando-se quatro dias no transporte.

[...]

NOTAS

(2) Dava-se este titulo a Artigas com supersticiosa veneração, como meio poderoso contra a política de Buenos Aires.

Extrato retirado de: Revista Marítima Brazileira, Ano XXXII, n.º 1, Julho de 1912, Rio de Janeiro, Oficina Gráfica da Liga Marítima Brazileira, pp. 67-94. 


* * *

Edições das Memórias e Reflexões sobre o Rio da Prata:

- Edição original de 1849;

Revista Marítima Brazileira, Ano XXXII, n.º 1, Julho de 1912, Rio de Janeiro, Oficina Gráfica da Liga Marítima Brazileira, pp. 67-94. 

- Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, Ano XI, 2.º Trimestre, Porto Alegre, Tipografia do Centro, 1931, pp. 217-299 [ler aqui]

- Boletin Historico, n.º~100-103, Estado Mayor General del Ejercito, Montevideo, 1964, pp.177-202




28/09/2021

Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816 (J. J. Machado de Oliveira)

“Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816".

Autor: José Joaquim Machado de Oliveira (Legião de São Paulo)

Datas extremas: 18.3.1816 - 9.3.1820

(Publicado em Revista do Arquivo Municipal, Ano VI, Volume LXXII, Novembro-Dezembro 1940, São Paulo, Departamento de Cultura da Prefeitura, pp. 5-20) [Leia online aqui - abre nova página]

* * *



[Início]

1816. 1.ª Campanha. 

Março 18. Saí de Pôrto Alegre embarcado e com tropa - 23. Cheguei à Vila do Rio Pardo.

Julho, 29. Saí de Rio Pardo com tropa, e acampamos na Picada. 30. Na Cruz Alta. - 31. No Campo de Felipe Carvalho.

Agosto 1. No Arroio Butucaraí. Passo de cima. - 2. No Capão dos Enforcados. 3. No Passo de Jacuí, aonde se esteve o dia. 4. Ocupado na passagem do rio. - 5. A meia légua distante daquele passo. - 6. No Passo da Estiva. – 7. Na Restinga Seca, estância de Antônio Gonçalves Borges. - 8. No Arroio do Sol, aonde se esteve também o dia 9, por chover muito. - 10. No capão de Manuel Paim. - 11. No Arroio de Santa Maria. - 12. No capão da eståncia do Pompeu. - 13. No rodeio velho das éguas do Felipinho ou Felipe Santiago. - 14. Na estância do Serino (Cirino ?), irmão de meu pag. (pagem ?) Domingues. - 15. Na estância do tenente-coronel Carneiro, ou Pau Fincado. — 16. Na estância de Manuel Ferreira, seu genro. - 17. Na estância de São Felipe. - 18. Na margem esquerda do Arroio Cacequi. Morreu afogado o cabo Malaquias. - 19. Ao pé da estância do inglês Daniel Luiz Carlos. - 20. No Passo do Rosário, aonde estivemos até o dia 29. - 30. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 31. No Vacacuá. estância de Antônio Caetano. 

Setembro 1. Na Guarda da Conceição. aonde estivemos os dias 2 e 3. - 4. No Arroio da Porteira (?) ao pé da estância de Inácio Adolfo. -. 5. No Pôrto do Alferes Pinto.- 6. Nas cabeceiras do Ibirapuitã Chico, aonde estivemos o dia 1. - 8. No campo de João da Costa. - 9. Em São Diogo. - 10. ... pontas do Arroio de Valença. - 11. Acampamos no Boqueirão das Lagoas - 12. Na tapera do Leme, ou Capão do Cirurgião. Ali chamando-nos o Abreu (tenente-coronel José de Abreu) a conselho, decidiu-se que deviamos ir à Provincia das Missões, já invadida pelos insurgentes deixando a nossa marcha para Belém. - 13. No Suaraim chico. - Passo das carretas 14. No Arroio Garopá. - 15. No Arroio Camoatim. - 16. No Arroio Caoati.  -- 17. Num dos galhos do Toro-passo. - 18. No Arroio Toro passo, aonde estivemos o dia 19, passando 0 Arroio, que estava de nado. - 20. No Arroio Cochi-passo. Foram vistos alguns bombeiros (espiões) do inimigo. - 21. Na estância do Aferidor. Ali fizemos passar para o outro lado do Uruguai os Insurgentes, que se achavam, tanto na estancia, como no Passo de Santa Maria no Ibicui, aprisionando-se 2 homens e 6 mulheres (?) e alguma cavalhada. Falhamos o dia 22. - 23. No Ibiraocaí - 24. Acampámos no Ibiricui, aonde estivemos passando o dia 25. - 26. Na estância de Joãozinho de Oliveira. Neste dia bateram-se duas partidas inimigas, que andavam em saque. Foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 26 insurgentes. - 28. Na estância do Padre Alexandre, aonde falhámos o dia 29, por chover muito. Foram vistos dois bombeiros (espiões) do inimigo. - 30. No capão de João Machado. 

Outubro 1. Na margem direita do Arroio Butuí, de nado. - 2. Além do Banhado de S. Borja. Ali estivemos até o dia 4. 5. No outro lado do Banhado de S. Borja. - 6. Neste dia fomos. ao Butuí, na sua barra, como não encontramos uma partida inimiga que ali fôra vista, retrogradamos... chovia. - 7. Acampamos no Povo de S. Borja, e ali estive até o dia 23, ocupado numa inquirição - 24. No Ivaí, aonde estava a divisão. - 25. No Capão de Butuí. - 26. No Butuí-chico. - 27. No pôrto da estância de Santa Rosa. - 28. No Ibicuí, Passo de S. Rosa e ali nos demoramos o dia 29 na passagem. -- 30. No capão da estância do tenente Olivério. - Na margem esquerda do Ibirapuită, Passo Guassú.

Novembro 1.º No Pai-passo. 2. Na tapera de Inácio dos Santos Abreu, – 3. Em S. Diogo. Ali se achava o Regimento da Ilha. - 4. No acampamento do Ibirapuitã, aonde estava o exército, Ali estivemos até 20 de dezembro.

Dezembro - 25. Marchou todo o exército e acampamos ao pé da estância do Cláudio. - 26. Saí para o Côrpo da Vanguarda, e acampamos ao pé da tapera do Cláudio, aonde se falhou o dia 27. - 28. Acampamos no campo de Juca Mingote. - 29. No Indahim, onde se falhou o dia 30. - 31. A vanguarda marchou um quarto de légua sobre a frente, aonde se falhou o dia 1.º de janeiro de 1817. 


1817.

Janeiro 2. No Arroio Catalã. A vanguarda marchou às 6 da tarde para o Arapeí, chegou alí a 3, atacou o acampamento inimigo e voltou no mesmo dia para Catalã, aonde chegou às 7 da tarde. No dia 4 houve nesse lugar a batalha de Catalã, e falhou-se o dia 5. - 6. Num dos galhos do Arroio Catalã, aonde se falhou os dias 7. 8. 9 e 10. - 11. Na barra do Catală, aonde se falhou os dias 12, 13, 14 e 15. - 16. No Suaraim, no Passo do Lageado. Dêste lugar saí em diligência para Pôrto Alegre a 29 e fui pernoitar na estância de João dos Santos Abreu. 30. No porto da estância de Joaquim Luiz - 31. Na estância de capitão Brito.

Fevereiro 1. Na estância do tenente-coronel Antônio Pinto. - 2. Na estància de S. João. - 3. Pernoitei nos Morais. - 4. Na Cachoeira. - 5. Em Rio Pardo. - Embarquei para Porto Alegre. - 8. Em Porto Alegre, aonde estive até o dia 3 de março, e embarcando com tropa para o Rio Pardo, ali cheguei no dia 11.

Março 15. Saimos de Rio Pardo e acampamos no Capão da Vendinha do Arroio das Pedras. -16. No Butucaraí. Passo da Ponte. - 17. No Passo de S. Lourenço no Jacuí, 18. Em Santa Bárbara. - 19. Na estância do Corcundinha. - 20. No Arroio da estância do capitão Freire - 21. No ... de Luiz Machado - 22. Na estância do Padre João de Almeida. - 23. No Vacacaí, estância do coronel Pinto. - 24. No pôrto velho do Batoví. -- 25. No Passo de S. Borja. - 26. No Capão do Severo. - 27. Na Guarda da Conceição, donde se falhou o dia 28, por quebrar-se o eixo do carro. 29. Acampamos no pôrto de Joaquim Luiz. - 30. Na Estância do Tulio. 31. No campo de Juca Mingote.

Abril 1. No acampamento do exército no Suaraim, aonde estivemos até 20 de março de 1818, e a 21, marchando o exército, saí daquele acampamento com a tropa comandada pelo coronel Abreu, e acampamos no Arroio Sarandi.


1818.


Março 22. Nas pontas do Sarandi. - 23. No Arroio do Areal, estância do Guarda-mor. - 24. No Capão do Tigre, estância de Joaquim Pôrto. ---- 25. Nas pontas do Nhanduí, onde se falhou o dia 16, por chover. -- 27. No capão da estância de Gaspar Nunes. - 28. Na capela de Alegrete. Saí dêste lugar para Porto Alegre em diligência no dia 3 de junho e fui pernoitar na estância do Dornellas.

Junho 4. Na estância do major João Machado Bitancourt. - 5. Na estância do Severino. --- 6. Pernoitei na estância do capitão José Machado. - 7 No pôrto da estância de S. João. - 8. Na estância do alferes Machado.- 9. Na freguezia da Cachoeira. – 10. Na vila de Rio Pardo, aonde embarquei no dia 11, e no dia 12 cheguei a Pôrto Alegre.

Saí de Porto Alegre em 6 de novembro, embarcado, e cheguei a Rio Pardo a 12 do dito, de onde saí a 23 e pernoitei na chácara do capitão Bernardo. - 25. No Passo de S. Lourenço.-- 26. Em Santa Bárbara. -27. Na estância de Manuel Rodrigues Penteado. - 28. No Adolfo. 29. Na tapera de Luiz Machado. - - 30. Na estância do padre João de Almeida.

Dezembro. 1. Na capela de S. Gabriel. - 2. Na cochilha de Jubatuim. - 3. Na estância de Antônio Francisco. -- 4. No Passo do Rosário. - 5. Na estância da Côrte Real, no Capão. 6. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 7. Na estância do capitão Florêncio. -- 8. Na estância de José Maria. - 9. Na capela de Alegrete. Primeiro movimento da guarnição para a fronteira. A 25 de dezembro saiu de Alegrete a guarnição e foi acampar no Arroio Pai. Passo. - 26. No mesmo Arroio. No Passo da Marmota. - 27. Na estância da Marmota. -- 28. Numa das pontas do Pai-Passo. - 29. 


[1819]

Em outra ponta do dito, aonde estivemos até o dia 4 de janeiro de 1819, e no dia 5, marchando-se para a fronteira, soube se que o inimigo se retirara, e por conseguinte retrogradou-se, e acampamos no arroio da divisa do Marmota. 6. No lado esquerdo do Ibirapuitã. - Passo guassú. 7 - Na capela do Alegrete.

Segundo movimento. A 1.º de Abril saímos da Capela de Alegrete, em consequência da segunda invasão das Missões, e acampamos a meia légua distante dali, à margem do mesmo Ibirapuitã, e dêsse lugar passamos para o Pôrto das Pedras, ao pé da Capela, a 10 do dito mês. A 17 chegou o sr. Conde da Figueira, e a 20, movendo-se a divisão, acampou do outro lado do Ibirapuità - Passo guassú. 

Maio 21. Num capão do campo do Joaquim Machado. 22. No Ibicuí, Passo de S. Rosa, aonde nos demoramos a passá-lo o dia 23. ---- 24. No Pôrto de .... de S. Rosa. -- 25. Nas pontas do Butui. - 26. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel -- 27. No Camacuã. Ali nos reunimos com a tropa do marechal Chagas. -- 28. No Itaraoquim. 29. No capão do pôrto do Severino. - 30. Piratini, Passo Novo da Figueira. -- 31. Ao anoitecer marchamos, e ao amanhecer paramos em uns capões ao pé da estância de S. Jerónimo. 9.

Junho 1. Ao anoitecer marchamos e fomos amanhecer no dia 2 no Povo de S. Luiz, e acampamos fora - 3. Acampamos dentro do Povo de S. Luiz, aonde estivemos até o dia 9. 10. No Passo de Pirajú. - 11. Nuns capões de S. Jerónimo. -- 12. Estando assentado... no Arroio Guaraçá, marchamos para o Povo de S. Nicolau, por saber que o inimigo o evacuava. - 13. Marchamos com destino para o Passo de S. Isidoro, e por se achar o Arroio Jacatobá de nado, aí acampamos. - 14. Meia légua distante do Passo Geral do Piratini. 15. Apartando-se a Legião da divisão, para unir-se ao Côrpo de Abreu, acampou no capão do Porto do Severino.- 16. Em Itaroaquerim. - 17. Na estância de S. José, do Chagas, - 18. No Passo de S. José do Camacuã. -- 19. No G...iaçai, aonde se achava a tropa do Abreu. - 20. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel... 21. Nas pontas do Butui. - 22. Acampamos no capão da estância do Cunha. -- 28. No Ibirapuitã, Passo guassú.- 29. Na Capela de Alegrete.

Julho - Nos dias 4, 5, e 6 de julho marchou a divisão do brigadeiro Abreu, e eu fiquei para me retirar para Pôrto Alegre em consequência do meu emprego. - 31. Saí da Capela de Alegrete e pernoitei na estância de Felipe Carvalho.

Agosto. 1. Em Taperí, chácara de Joaquim Leonel. 2. No banhado de Saicã, meia légua distante do Pôrto da estância de Antônio Franeisco. -- 6. Na estância do major Tomaz 7. Na Capela de S. Gabriel, aonde falhei o dia 8. - 9. Na estância do tenente-coronel Antônio dos Santos - 10. Na estância do Mancio. - 11. Na estância do Quartel Mestre. - 12. Pernoitei na estância do Machado Gordo, ao pé da estância do tenente Ricardo. -13. Na chácara de Manuel Joaquim Teixeira no Capão dos Enforcados. 14. Na Cruz Alta. - 15. Em Rio Pardo, aonde embarquei a 17, e a 19 cheguei a Porto Alegre.


2.ª Campanha, 1820. 

Janeiro. Na noite de 2 saímos de Porto Alegre com & infantaria e a artilharia do meu comando, e chegamos a Rio Pardo a 8, e no mesmo dia acampamos no lado direito do Passo do Rio Pardo. - 9. No capão da Cruz Alta. - 10. No Passo de S. Lourenço no Jacuí. - 11. Nos Morais. - 12. No Arroio do Lageado, divisa de S. Jo... 13. No Passo de Carutaí. - 14. No Arroio do Lageado no campo de S. Fidélis. -- 15. No Passo de S. Borja. - 16. Na estância de Placido Severo. - 17. No Passo de Ibicuí-Chico. - 18. Acampamos duas léguas distantes de Itaquatiá. - 19. Em Itaquatiá, aonde estava o exército. - 20. Na tapera de d. Ramon. --- 21. Chegámos ao Passo do Sutil no Cunhapirú, e aí, esperando a noite, marchámos para o Taquarembó Grande, aonde chegámos na manhã de 22, em que atacamos o inimigo e o derrotamos. Aí estivemos nos dias 23 e 24. - 25. Retrogradamos para o Passo do Sutil. - 26. Acampamos no Cunhapirú. - 27. Nas pontas do Ibicuí. - 28. Nos morros de S. Ana. - 29. No Sarandi, - 30 No Funchal. --- 31. No Pai-Passo, pontas.

Fevereiro. - 1. No Passo do Pai Passo. - Em Alegrete. Aí ficamos até o dia 21. - 22. No Arroio do Lageado. - 23. No Arroio Jaguaquá. - 24. No tenente-coronel João Machado. - Falhamos o dia 25, por chover. - 26. Acampamos no Arroio Cacequí. - 27. Em S. Gabriel. - 28. No Fidélis, aonde estivemos o dia 29.

Março. - 1. No Arroio .... 2. Na tapera de Luiz Machado. 3. No Passo de S. Bárbara. - 4. Na estância do tenente Ricardo.- . No Arapoá. - 6. Na estância do Bibiano. - 7. No Arroio Francisquinho. - 8. No Arroio dos Ratos. – 9. Em Porto Alegre".

[Fim]


* * *


Pequena biografia

O capitão José Joaquim Machado de Oliveira nasceu em São Paulo, a 8 de Julho de 1790, filho do  tenente coronel Francisco José Machado de Vasconcelos e de D. Ana Esmerina (Esméria ou Esmênia) da Silva.

Com um ano e meio de idade, o pai assentou-lhe praça mas só em dezembro de 1807, já com 17 anos, foi reconhecido cadete.  É Alferes em 1809, tenente em 1811 e, finalmente, graduado em capitão em 13 de Maio de 1813, pelos seus serviços na Campanha de 1811-12.

Em 1816, com cerca de 26 anos, é capitão de infantaria da Legião de Voluntários Reais, de S. Paulo, e participa com distinção, nos combates do Passo de Yapeyú e na batalha de S. Borja, e, já em Janeiro, na Surpresa de Arapey, sempre sob o comando direto do tenente coronel José de Abreu.

29/11/2019

Exército do Brasil: José Maria Rita de Castelo Branco, conde da Figueira


O capitão general JOSÉ MARIA RITA DE CASTELO BRANCO CORREIA DA CUNHA VASCONCELOS E SOUSA, 1º Conde da Figueira, nasceu em Salvaterra de Magos, a 5 de Fevereiro de 1788, filho de José Luís de Vasconcelos e Sousa, marquês de Belas, e de D. Maria Rita de Castelo Branco Correia e Cunha.

Tendo assentado praça como cadete a 10 de Março de 1806, com 18 anos, é promovido no ano seguinte, a 24 de Junho, a alferes agregado ao Regimento de Cavalaria n.º4 (ou de Mecklemburgo, aquartelado em Lisboa). Nos finais de 1807 embarca na Corte com destino ao Rio de Janeiro.

A 13 de Maio de 1808, aniversário do regente, é promovido a tenente, muito provavelmente no 1.º Regimento de Cavalaria do Rio, unidade que é levantada nesse mesmo dia, para empregar vários oficiais vndos de Portugal com a Corte.  Dois anos depois, a 24 de Junho, é promovido a capitão. No mês anterior é titulado conde da Figueira (13 de Maio de 1810).

A 7 de Março de 1812, é graduado em major (ou sargento mor), ajudante de ordens do Governador das Armas do Rio de Janeiro, marechal de campo Ricardo Xavier Cabral.

Em 1817, é tenente coronel. Fez parte da expedição portuguesa que foi à cidade de Pernambuco em 1817. Serve, na aclamação de D. João VI, em inícios de 1818, como reposteiro mor, vindo oito anos depois a servir na mesma capacidade do funeral do monarca.

A 19 de Outubro de 1818, com 30 anos de idade, toma posse como capitão general do Rio Grande de São Pedro, assumindo o comando das tropas do Rio Grande, em plena atividade operacional desde meados de 1816. Substitui o Marquês de Alegrete.

Herdou um dispositivo bastante espalhado no terreno, desde a fronteira oeste da província na área entre Missões e Santana do Livramento, e no território oriental, na margem esquerda (ocidental) do rio Uruguai, até Paysandu, resultado na ofensiva do tenente general Joaquim Xavier Curado em 1818.

É o comandante das forças portuguesas  na batalha de Tacuarembó, a 22 de Janeiro de 1820, que coloca um fim à guerra de 1816-1820 entre Portugal, Brasil e Algarves e a Liga Federal, ou dos Povos Livres.

A 14 de Abril de 1820, pelos seus sucessos na campanha, é promovido a coronel de cavalaria, mantendo como capitão general da província até Setembro desse ano.

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Imagem
- Capela do Antigo Paço Real - Salvaterra de Magos
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Capela_do_Antigo_Pa%C3%A7o_Real_-_Salvaterra_de_Magos_-_Portugal_(2624895948).jpg

16/04/2019

Rabón (16 de Outubro de 1818)


Também conhecida na historiografia como Retirada del Rabón, a ação ou combate de Rabón tomou lugar a 16 de Outubro, no seguimento da ofensiva iniciada em Fevereiro pelas forças do Rio Grande, sob o tenente general Joaquim Xavier Curado, sobre Purificacion, Paysandú (tomada a 9 de Abril), e a margem oriental do rio Uruguay. O arroyo de Rabón está 20 quilómetros a sul de Paysandú.

O brigadeiro  João de Deus Mena Barreto é destacado por Curado a comandar uma vanguarda do exército da capitania do Rio Grande e defronta em Rabón a divisão de Fructuoso Rivera, única força oriental presente a leste do Uruguay. Os portugueses obrigam os orientais a encetar uma retirada que dura 12 léguas (60km), assediando-os constantemente.

As fontes são conflituantes na data e no número de efectivos, mas lendo-as, é notavelmente fácil perceber o que aconteceu.

Datas
Isidoro de Maria, no seu Compendio de la Historia de la República, refere que a Retirada de Rabón aconteceu a 3 de Outubro de 1818. No entanto, o relatório onde João de Deus Mena Barreto descreve a ação indica o dia de 16 de Outubro.

Maria indica que Frutuoso Rivera, com os seus 600 homens, defrontou 2000 portugueses. O número é exagerado, conforme indicamos na ordem de batalha, até porque a força portuguesa era uma vanguarda do corpo principal (esse sim por volta de 2 a 3 mil homens).

O uso destas vanguardas pelas forças da capitania do Rio Grande, normalmente atribuídas a um dos brigadeiros comandantes de corpos, eram consistentemente de 500-800, e foi com forças deste tamanho que quase todas as batalhas e ações foram combatidas desde meados de 1816, com a exceção da batalha de Catalán que, pela sua dimensão, requereu todo o exército.
Mesmo na DVR, vinda de Portugal, a vanguarda que foi lançada logo desde a ilha de S. Catarina era constituída por cerca de 700 efetivos. 

Ambos os autores coincidem, no entanto, no que aconteceu, o que permite saber que se referem ao mesmo evento. Adoto a data indicada pelo comandante português, fundamentalmente porque é contemporânea (escrita seis dias após o evento), mas também porque é a parte oficial. Não é de excluir que a confusão de datas, faça referência a um encontro anterior, mas é de presumir que a ação tal como é descrita por ambas as fontes, ocorreu a 16 de Outubro.

ORDEM DE BATALHA

Forças da Capitania do Rio Grande
Brigadeiro João de Deus Mena Barreto

Regimento de Dragões do Rio Grande
Regimento de Cavalaria de Milícias do Rio Pardo
650 praças

(Serviço de vanguarda à Divisão.)

Forças da Liga dos Povos Livres
Frutuoso Rivera

600+ homens

BAIXAS
Portugueses: 1 morto e 5 feridos (2 gravemente) + 650 efetivos (ou +)

Federais: 20 mortos, 2 deles oficiais (40 feridos) (60?) +  600 ou + efetivos
100, entre mortos feridos e extraviados (calculo prudente)


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Carta de João de Deus Mena Barreto ao Ten Gen Joaquim Xavier Curado, 22 de Outubro de 1818

Ill.mo e Ex.mo Snr.

Eu não vou narrar a V. Ex.ª os sucessos de uma ação em que os inimigos tivessem de perder a flor das suas Tropas e todas as coisas que os fazem formidáveis. 

A justa observância que dei as Ordens de V. Ex.ª a maneira por que pus em prática também concebidos detalhes, que tocou a meta da maior prudencial resolução, e militar acerto de um sábio general o valor das nossas tropas; e a retirada dos inimigos resoluto a embaraçar a marcha desta Coluna, é o que eu participo a V. Ex.ª como se ganhasse a mais completa Vitória. 

V Ex.ª tinha confiado às minhas ordens os Regimentos de Dragões e Milícias do Rio Pardo do meu comando estes dois corpos que faziam o todo de seiscentas e cinquenta praças foram por V. Ex.ª destinados a fazer a vanguarda da Divisão, 

[16.10.1818, madrugada]
/ e eles o desempenharam ainda mais na madrugada do dia 16 do corrente em que as nossas avançadas deram sinal do inimigo em tão pequena distância que me não deu lugar mais que a montar, cobrir o campo a toda a rédea e obrar conforme as Ordens de V. Ex.ª anterior recebidas, 

/neste tempo o inimigo ocupava as maiores alturas que nos dominavam: principiava a tirar proibindo as recolhidas de algumas das nossas cavalhadas; e toda a sua força não se podia observar pela desigualdade do Terreno que oferecia proporções para consecutivas emboscadas. 

Nestas circunstancias resolvi destacar o meu regimento, sobre a minha frente, e com Ordem, que dividindo-se aos flancos fizesse as funções de uma forte guerrilha enquanto eu marchava a pequena distância no centro com o Regimento de Dragões prometo a atacar quando o Inimigo oferecesse a frente e desse ocasião oportuna. 

A esta disposição seguiu-se logo o descobrimento do inimigo em número de seiscentos ou mais homens: ele destacou corpos a proteger as suas guerrilhas também aos lados: travou-se um continuado fogo de ambas as partes; e o inimigo não podia resistir bravura dos nossos soldados flanqueadores.

Eu corri ao centro onde o inimigo tinha a sua maior força em ordem de colunas: era forçoso que perdessem o terreno; e não tardou a sua retirada, único meio de escapar ao furor destes dois corpos, que sobejamente têm provado, o maior apego a S. Majestade e reconhecida superioridade às tropas Inimigas. 

O inimigo começou a retirar-se protegido de uma forte retaguarda, que parecia abraçar-se ao fogo dos nossos atiradores: ele tentou verificá-la a passo ou ainda a grande trote sóm.'° Eu não lhe consenti esta Ordem. 

Determinei então que os Corpos atiradores forçassem a sua marcha obrigando a fuga desordenadamente: Eu Ordenei aos Dragões as Linhas de Coluna p.' menear melhor os seus Esquadrões, e a retirar a Batalha q.°° me des embolveçe con a Espada na mão: isto se executou sem haver hum engano: a distancia estava marcada, e a Tropa manobrava como num Campo de Paz onde o Exército não sofre a mais pequena tribulação.

Nesta Ordem, nesta resolução, e a grande galope piquei a retirada do Inimigo pelo espaço de quatro léguas: ele fugiu precipitadamente mas não consegui debandá-lo de todo apesar, que pequenas Partidas se vissem dispersas p. ambos os flancos receosa sem dúvida da Destruição geral que ameaçava a todos os momentos; 

Eu fiz alto quando a maior parte dos nossos Cavalos cansaram inteiramente e o Inimigo ainda fugia como até ali em que viam a sua total ruína. 

Fortuozo fugádo desta maneira perdendo Soldados, deixando os nossos Prisioneiros, e desprezando mais de trezentos Cavalos, nunca tive Vitoria em que ganhasse tanto, escapando com a maior parte, p. Superioridade dos seus Cavalos aos nossos q' V. Ex.ª conhece o estado de fraqueza. 

[Baixas do inimigo]
Do Inimigo pôde-se contar vinte mortos inclusive um Capitão e um Ajudante: Eu calculo a mais porém a distância não deu lugar a um miúdo exame para numerá-los exatamente, Feridos levaram o dobro; pois de três apresentados nos primeiros encontros soube que mais de vinte marcharam nesta qualidade.

[Baixas]
Retomamos os nossos três Prisioneiros e finalmente a perda total do Inimigo, em mortos feridos, e extraviados chegará a cem homens p.' um calculo prudente, a perda da nossa parte limitou-se a um morto e quatro feridos; digo cinco feridos, destes dois gravemente por este motivo Eu rendo as graças ao Senhor dos Exércitos que tanto protege as Armas de S. Magestade.

Eu devo fazer público e para conhecimento de V. Ex.ª a bizarria dos Oficiais, dos Oficiais Inferiores e Soldados dos Regimentos de Dragões e Milícias do Rio Pardo que tive a honra de Comandar naquela ocasião estes Corpos, parecem ter direito a um pequeno sinal em que os deve ter a pessoa de Sua Majestade: p. esta recompensa Eu serei o primeiro a pagar com a mais generosa acção que os Portugueses avaliam sobre todas as beneficiências. 

Eu recomendo a V. Ex.ª com particular distinção ao Ten. Cor. de Dragões Sebastião Barreto Pereira Pinto, o Capitão do mesmo Corpo que serve de Mandante Gaspar Francisco Mena, e em Milícias do Rio Pardo o Ten. Cor. Agregado Francisco Barreto Pereira Pinto, e o Sarg. Mor Graduado Bento Manoel Ribeiro. Todos estes Oficiais são dignos da maior atenção, e portanto merecedores das recomendações de V. Ex.ª a Augusta Pessoa de S. Majestade.

O Capitão Graduado do Regimento de Dragões José Luís Mena Barreto, empregado às minhas Ordens é do conhecimento de V. Ex.ª pela sua aptitude. e reconhecido Valor, que tem provado na presente Guerra: digne-se V. Ex.ª também levá-lo à Presença de S. Majestade. Em relação separada recomendo a V. Ex.ª os Oficiais nela constantes. Eu aproveito esta ocasião de congratular-me com V. Ex.ª por motivo de uma acção que não deixa dúvida dos nossos esforços e lealdade.

Campamento da Real Bragança, 22 de Outubro de 1818
Ill.mº e Ex.mº Sñr Ten. Gen. Com. Joaquim Xavier Curado 
João de Deus Menna Barreto

Archivo Artigas, Tomo XXXIII, pp. 298-300


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Apuntes de Frutoso Rivera

El General Rivera mando en persona las cavallerias orientales en la retirada celebre del Rabón en 1818 suceso que há sido el mas notable en toda la Guerra contra los portugueses españoles e ynperriales por cuanto el Gen.l Rivera llevava un personal de 1700 hombres contra 3800 de las mejores Cavallerias del Continente mandadas por el Te.Te General Juan de Dios Mena Barreto es de notar que las cavallerias unas y otras estavan perfetamente bien montadas; y conbatieron desde las 6 de la mañana hasta las 4 de la tarde, sin que se hubiese podido notar una dispersión por ninguna. por cuanto conbatian en un terreno escaso lo que obligava a los conbatientes a irse a las manos con las espadas y las lansas a cada momento. 
("Apuntes del General Rivera", AGR, in: Apolant, p. 228)

A principios de Octubre el General Curado reuniendo todas sus fuerzas, se puso en marcha al Rincón de las Gallinas, el general Rivera le hostilizó com poco más de 500 hombres; durante la marcha dispuso una atrevida empresa, más no fue completamente feliz por haberse apercibido los-enemigos y preparádose de antemano; el general Rivera acometió las líneas da aquellas com aquel denuedo que le es familiar; más fue vigorosamente rechazado por 2000 hombres de caballería, y se vio precisado a una peligrosa retirada que éterñámente hará honor a les orientales: es claro que toda la división de Rivera debió ser envuelta y destrozada a presencia de una tan enorme masa de caballería; pero la pericia, el valor y el orden la salvaron sin que experimentara más pérdida que 12 soldados muertos, con 2 oficiales íntimos amigos del general Rivera. 
("Memoria de los sucesos de armas...", Versión del MUSEO MITRE. (1811-1820), MMM in: Apolant, p. 274)

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ISIDORO DE MARIA, Compendio de la Historia de la República O. del Uruguay:

«El 29 de Setiembre se movió Curado con la columna por la costa del Uruguay, y el 3 de Octubre se hallaba en la barra del Rabón, confluente con Rio Negro. Allí les apareció Rivera con 600 hombres y no habiendo podido penetrar la columna por estar con mucho cuidado, tuvo que sufrirla carga de 2,000 hombres de caballería sosteniendo una retirada por mas de doce leguas (la famosa retirada del Rabón) que se anduvieron desde la salida del Sol hasta las 4 de la tarde.
En esa retirada mandada personalmente por Rivera, se hallaron el comandante Pablo Castro, los capitanes Julián Laguna, Ramón Mansilla, Tiburcio Oroño, Gregorio Mas, Bonifacio Isas, y ayudantes Manuel Antonio Iglesias y José Palomeque, que se comportaron perfectamente.»

HISTORIA PATRIA

1818 (octubre 4). Famosa retirada del Rabón.
Después de la acción del Queguay Chico, Curado se había dirigido hacia el sur, hallándose el 3 de octubre en la barra del Rabón. Rivera resolvió sorprenderle allí, y marchó contra él al frente de 600 hombres.
Malograda esa operación por la extrema vigilancia de los portugueses, tuvo que emprender una difícil retirada, dirigida com tanto acierto, que logró poner a salvo su ejército, perseguido por Bentos Manuel con 2.000 soldados de la renombrada caballería
riograndense. Batiéndose en Retirada durante diez horas, sólo perdió 12 hombres en un trayecto de 60 kilómetros.


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BIBLIOGRAFIA

- ARCHIVO ARTIGAS, Tomo XXXIII.

- APOLANT, Juan Alejandro, “Apuntes, memorias y notas biográficas del GENERAL RIVERA" in: Boletin Historico, n.º 104-105, Janeiro-Julho de 1965, Estado Mayor General de lo Ejercito, Montevideu. pp. 215-283
- DAMASCENO, Hermano, Ensayo De Historia Patria (Tomo I), 10.ª edição, Barreiro e Ramos, Montevideu, 1955, pp. 409-410
- MARIA, Isidoro de, Compendio de la Historia de la República O. del Uruguay, Tomo IV (1.ª edição), Imprenta de El Siglo, Montevideu, 1900. p. 72