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17/09/2017

Tenente Luiz Faiada, um oficial de Lanceiros Guaranis


O Sentinela, por Breresa

Luís Faiada foi um oficial guarani ao serviço de Portugal, tenente em 1816, aquando do início da guerra contra Artigas. Parte das companhias de Lanceiros 'naturaes' de cavalaria miliciana das missões orientais, o tenente Faiada participa decerto na defesa de S. Borja contra o sítio e na invasão das Missões a ocidente do rio Uruguai. Para lá das menções sobre as quais me debruço em seguida, duas apenas, estas memórias ajudam a compreender a perspetiva de um indígena guarani e a sua ética militar, mas no contexto de uma guerra moderna.


Remexendo vasta documentação, é rara a vez em que um militar guarani  é indicado por nome nos relatórios oficiais por mérito e feitos em campanha. 
Ao esquadrão de Lanceiros Guaranis destacados no comando de José de Abreu, por exemplo, nunca é atribuído um comando a um guarani ou este não é mencionado nunca; só se sabe que era o capitão Chico.


Alguns oficiais das Milícias das Missões são mencionados porém por terem desertado à causa federal e republicana, comandada ali por Andrés Artigas, "Andresito" ou "Artiguinhas", mas apenas encontrei uma menção por mérito e ainda assim numa fase já recrudescente da campanha, com Artigas fraco e na defensiva. 
Ruínas da igreja de S. Miguel, nas Missões orientais (fonte: Wikicommons)

Tenente Luís Faiada
Felizmente, o tenente Domingos legou uma relação dos eventos da Campanha Além do Uruguai, realizada entre Janeiro e Março de 1817, em que os portugueses invadem a província de Corrientes. A relação nomeia este oficial, tenente Luís Faiada, guarani, numa nota final da sua relação, relativamente a um combate decorrido no início da campanha, a 19 de janeiro de 1817, no passo da Cruz, próximo a Yapeyú:
N. B. No encontro da passagem de Luís Carvalho com o Capitão Vicente [Tiraparé] de Naturais este saiu baleado escapando de morrer por negar fogo a pistola do Tenente Luís Faiada dos nossos Guaranis que este o seguiu pelo meio da rusma dos garruchos a fim só de matar o dito Vicente, porém tendo a infelicidade da pistola lhe negar fogo por causa de um papel que tinha no fogão, dando volta ao seu cavalo meio rodou em um cupí e como estava muito longe da nossa gente e muito no centro da garruchada gritou logo o Vicente que o matassem com as lanças o que puseram em obra, porém o dito Faiada se pôs logo imediatamente a pé com a sua espada na mão e se defendeu das lanças até que chegou socorro da nossa gente, não deixando de ficar ferido de uma lançada na coxa a qual chegou a criar bicho(s) sem este dito tenente Faiada nunca querer dar-se por doente, e foi continuando sempre em todas as diligências que fez o tenente Luís Carvalho; nesta ação tomou-se um morteiro o qual traziam montado em um armão fincado em um cepo, o qual no primeiro tiro que fizeram saltou do dito armão pela boa segurança em que vinha pois era um armão feito por eles.
Andres Artigas.
O tenente Domingos (tudo leva a crer ser Domingos José das Neves dos esquadrões de Voluntarios Reaes de Entre Rios, comandados pelo tenente coronel José de Abreu), fala não só dos feitos de coragem e heroísmo pessoal de Luís Faiada, mas que estes são motivados pessoalmente pela vingança sobre um capitão Vicente, desertor. 
Este Vicente é Vicente Tiraparé, conforme é nomeado nas listas de oficiais dos esquadrões guaranis organizados em 1811, como comandante da 1.ª companhia. Tiraparé e toda a sua companhia vêm a desertar e aderem à causa republicana de Artigas.


Oficial Guarani Recomendado
O brigadeiro Francisco Chagas dos Santos, no final da sua vigorosa campanha em Corrientes, saqueando e destruíndo, de forma a completar os sucessos na área de Santana do Livramento e Catalán [leia mais aqui], refere-se a Luís Faiada, não pelo nome, mas pela notícia de um miliciano guarani com um ferimento em todo semelhante. Parece-me claro que é Luís Faiada, a quem Chagas do Santos se refere, mas tendo em vista o que ele fez, possivelmente uma menção ao nome pudesse ser o mínimo...

Chagas do Santos, numa carta muito extensa ao comandante de Fronteira marechal de campo (hoje major general ou general de divisão) Joaquim Xavier Curado, refere-se muito brevemente a Faiada:

[...] do tenente Carvalho cuja retirada não deixou de ser assaz demorada, em razão de conduzir 3 carretas com alguma herva mate, 740 cavallos, 130 mulas, e 308 rezes de gado vacuum, havendo deixado recommendado em uma casa conhecida um miliciano guarani, que quebrou uma coxa.
O nome não é referido, mas a 'recomendação' em que foi deixado a recuperar numa casa 'conhecida', possivelmente impossibilitado de viajar, e a natureza do ferimento, que coincide em Domingos e em Chagas Santos, indica-nos que se trata do corajoso tenente de milícias.

Luís Faiada não aparece como oficial na organização inicial das oito companhias de milícias guaranis, seis anos antes em 1811, pelo que é de supor que tenha sido feito oficial posteriormente, mesmo até sabendo que toda a 1.ª companhia, pelo menos, desertou para a causa de Artigas, abrindo decerto vagas para promoção.

Guaranis anónimos
É bem vincada e visível a descriminação (como se diz hoje) pela qual um oficial português, guarani puro, não chega a ser nomeado pelo nome, ainda que seja nomeada a particularidade de o deixar a recuperar de ferimentos, recomendado, em Corrientes. Isto em carta ao comandante das Tropas do Rio Grande em operações.

As milícias guaranis não eram vistas à mesma luz que as restantes milícias brancas e caboclas da zona de Missões e Entre Rios, apesar de de estarem tão comprometidas militar e politicamente com a autoridade real portuguesa e com a segurança da sua terra.
Em 1811, havia em Missões oito companhias de milícias guaranis, 'naturaes', e três companhias de 'brasileiros' residentes em Missões (a primeira delas comandada por um dos heróis de 1801, que conquistaram Missões, Gabriel Ribeiro de Almeida [memórias]).


Lanceiros Originais
As milícias no Exército do Brasil eram divididas por 'raça', desde o século XVII, e a sua posição na hierarquia militar era exatamente a mesma que a que detinham socialmente no mundo civil, mas exclusivamente o meio de promoção social mais eficaz para quem combatesse bem.

Ainda que socialmente na base do Exército do Brasil, os guaranis eram presença assídua na vanguarda das tropas do Rio Grande em 1816 e 1817, pelo seu conhecimento do terreno e adaptação às condições locais. José de Abreu usa-os sempre na sua vanguarda, assumindo funções que modernamente diríamos de reconhecimento. 
São eles o primeiro verdadeiro uso moderno de Lanceiros tanto em Portugal como no Brasil. Oficialmente, apenas em 1832, é que é levantado um regimento de Lanceiros, ainda hoje ativo (Lanceiros 2); quanto no Brasil, são então primeiros inovadores, os guaranis da províncias das Missões orientais, oficialmente em 1811.

A forma tradicional guarani de fazer a guerra mantinha-se, mas no serviço do rei português. Não por acaso, o teatro de operações de Missões foi o mais sanguinolento e feroz, tanto a nível militar como civil, devido à enorme politização das sete Missões Orientais, portuguesas apenas desde 1801.
Quando Andres Artigas monta cerco a S. Borja, a sua primeira proposta de rendição da vila pelo portugueses, a 21 de setembro de 1816, é clara em que todas as Missões, orientais e ocidentais devem ser únicas sob a égide da Liga de Povos Livres, de Artigas.

Reivindicação
Fica então contada, no que se pôde, a história do tenente Luís Faiada, em dois breve traços do tempo. Não descobri mais nada sobre ele, nomeadamente se retornou a Missões orientais e o que fez na vida, inclusive se pereceu eventualmente devido aos seus ferimentos. 

Se o espírito da época diminuía os guaranis, nós agora não podemos senão evidenciar feitos militares, sejam eles de quem for. Hoje em dia, este tenente receberia uma condecoração de coragem, por arrojo face ao inimigo com desprezo da sua própria vida; é justo então que o mérito seja pois honrado.

Imagens
- Ruínas da igreja de S. Miguel, nas Missões orientais.
- "O Sentinela", de Beresa, 1991.

Fontes
- ARQUIVO HISTÓRICO DE ITAMARATY, Ministério das Relações Exteriores: AHI-REE-00944: “Rio da Prata: Documentos sem importância – 16 folhas, 1811-1818”.
- LARA, Diogo Arouche de Moraes, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista Trimensal de História e Geografia, n.º 26, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Julho de 1845, pp. 125-328.
- PORTO, Aurélio, História das Missões Orientais do Uruguai - Segunda Parte (2.º Edição), Porto Alegre, Livraria Selbach, 1954. [Ler]

Biografia: brigadeiro Francisco de Chagas Santos
Biografia: marechal de campo Joaquim Xavier Curado

20/09/2016

Ação do Passos de Japejú e de Santa Maria (21 de setembro de 1816)



Após ter atravessado o rio Uruguai a 12 de setembro, o chefe oriental André Artigas, Andresito, montou sítio à vila de S. Borja, a capital das Missões orientais, no dia 21, ameaçando o flanco direito das forças da capitania do Rio Grande.
Nesse mesmo dia, o tenente coronel José de Abreu impediu a passagem de reforços, um pouco mais a sul, comandados por Pantaleón Sotelo, iniciando uma gesta de cerca de um mês onde liderando cerca de 600 militares, destacados da força principal pelo general Joaquim Xavier Curado, fez prodígios de valor até que finalmente aliviou e quebrou o sítio a S. Borja.



Antecedentes
A 13 de Setembro, o tenente coronel José de Abreu estava ainda no passo do Batista, onde é hoje a cidade de Quaraí, destacado pelo brigadeiro Tomás da Costa Rebelo Correia e Silva, com o fim de atacar as forças orientais na área do Lunaresco, na zona entre os rios Quaraí e Arapey, e tendo por objetivo Belén, na costa do rio Uruguai. Nessa sexta-feira, Abreu recebe a informação que Andrés Artigas tinha já passado o rio na área do Rincão de S. João e ameaçava a vila de S. Borja. José de Abreu decide reunir todos os seus oficiais para determinar se deve continuar a missão que tinha ou se devia deslocar-se para norte e atacar as forças federais em Missões. Por decisão unânime, todos decidem ir defender Missões.

Há uma certa confusão nas comunicações do tenente general Joaquim Xavier Curado relativamente à posição de Abreu, pois, tendo já no dia 14 dado ordens a Abreu para atacar os orientais que passavam o rio Uruguai a norte, supôs em diferentes ocasiões que Abreu estava pronto a atacá-los no dia 15, e depois a 19. Ora, de facto, como vimos, a 13 ainda Abreu estava na costas do rio Quaraí, a 200 quilómetros, em linha reta, de S. Borja, e na dúvida ainda do que fazer, face às inesperadas notícias que vinham de Missões.


Ainda assim, José de Abreu começou a sua marcha. De acordo com os seus planos, a 13, a ideia era levar a sua coluna, de cerca de 670 homens (uma parte, aliás signicativa, de todo o exército da capitania do Rio Grande, que ainda estava a juntar-se junto ao rio Ibirapuitã), pelas costas do Quaraí, como se o seu objetivo fosse ainda o anterior, de atacar as forças orientais na área de Belén, largando bombeiros para ambos os lados, e infletir depois pelo passo da barra do Ibicuí e subir pela costa ocidental do Uruguai.

Passos de Japejú e Santa Maria

Há uma enorme preocupação de Abreu em manter oculta a sua real intenção, resultando isso na surpresa que obteve em Japejú, caíndo sobre as forças orientais no passo, onde os reforços orientais de Pantaleon Sotelo estavam no processo de passar as suas forças para território português, com vista a subir e juntar-se a Andrés Artigas.

Sotelo passou a infantaria no dia anterior, 20, e esperou pelo dia seguinte para começar a passar a cavalaria. É nesta altura que a coluna Abreu chega, cremos já tarde no dia (apesar de não haver uma indicação clara da hora), ganha a beira rio e começa a atacar os orientais já na costa ocidental e os barcos que passavam.

Com base nas informações dadas pelos índios que são capturados no mato junto à barra do rio Ibicuí, de que a cavalaria oriental se estaria a dirigir em barcas para o interior do rio, Abreu destaca o esquadrão de Dragões do Rio Grande, sob o comando do capitão José de Paula Prestes, para se adiantar ao passo de Santa Maria, onde estes encontram de facto umas duas centenas de tropas orientais a passar para a margem norte, no que é já território de Missões.
Envia também meio esquadrão de Entre Rios, sob o comando do capitão Floriano dos Santos, para rechaçar passagens no passo abaixo, que julgo ser o de S. Marcos

Após lidar com a passagem de tropas no Japejú, Abreu decide levar o grosso da sua força para o passo de Santa Maria, de onde o capitão José de Paula Prestes o informa que estavam 200 homens e duas canhoneiras, a passar homens para a margem norte do Ibicuí.

Quando chega a noite, Abreu retira para a área onde havia deixado a bagagem, continuando o tiroteio das canhoneiras no rio. Acaba assim a primeira semana das operações da Coluna Abreu.

Demorarão 2 dias a passar o rio Ibicuí, que estava muito cheio, e seguem a 26 para norte combatendo e destroçando, em duas ações separadas, os elementos da divisão de Sotelo que haviam atravessado os passos, e no dia 27, no arroio Ituparaí, face a 200 cavaleiros orientais que Abreu supunha ser a vanguarda de Sotelo.

A Visão Portuguesa

Nas “Correspondências de José de Abreu”, arquivadas no Arquivo Público do Rio Grande do Sul, encontramos uma carta de Abreu a Curado, data da meia noite do dia 22, em que o tenente coronel descreve o que aconteceu durante o dia 21. 
É uma versão diferente da parte oficial, menos polida, escrita logo após a ação. Adiciono-a, antes da Parte Oficial, com ortografia modernizada. Há algumas falhas na decifração do texto, mas não muito relevantes à compreensão.

Illmo. e Exmo. Snr. 

Depois de ter escrito ao Sr. brigadeiro Tomás da Costa [Rebelo Correia e Silva] participando-lhe o sucesso do dia 21, recebo agora o ofício de V. Ex.ª pelas oito horas da noite, ao que respondo dando parte a V. Ex.ª que ontem tive a fortuna de chegar ao passo de Japejú sem ser pressentido dos insurgentes; e atacando o acampamento que estava sobre o mesmo passo.

Não tiveram mais tempo (apesar das muitas canoas) de levarem mais que a primeira barca de gente, e os mais ganharem os matos da barra do Ibicuí, e de toda a beira saiam aos cavalos, passando no Uruguai aos 10, e aos 20, e como os ditos matos são muito grandes lhe não pude fazer dano algum.

Mandei entrar a infantaria, e alguma gente de milícias do Rio Pardo, e como o rio estava muito cheio, e os sangradouros de nado apenas puderam tirar dos matos dois índios com algumas chinas e crianças e alguns cavalos dos que passaram o rio, e assim mais deixaram em nosso poder 1500 reses que as tinham metido num potreiro defronte ao povo; as que estavam passando o Uruguai, mandei-as largar por pertencerem ao Sr. brigadeiro Tomás da Costa, ao capitão Francisco Soares, e a outros moradores vizinhos.

Tive parte da gente que entrou no mato que pelo Ibicuí acima subiam algumas canoas grandes, e se avistava um grande corpo de insurgentes na mesma margem.

Mandei o esquadrão de Dragões [capitão José de Paula Prestes] correr a costa do dito Ibicuí, e este avistou no passo de Santa Maria grande número de tropa composta de brancos, negros, e índios fazendo passagem para a província de Missões. E como tivesse eu ordenado ao capitão do dito esquadrão de não arriscar gente, este me mandou parte que lhe faziam frente na beira do mato 200 homens, e duas barcas canhoneiras em meio rio e lhe fazia fogo.

[Passo de Santa Maria]
Caminhei com toda a tropa, deixando unicamente de guarda às carretas o esquadrão de Milícias do Rio Pardo, as quais deixei dentro de um valado que tem na estância do capitão Soares.

Logo que cheguei àquele lugar fiz uma grande picada por onde entrei, com a infantaria e artilharia até ganhar a beira do rio, aonde os descobri na barranca da outra parte, tendo já passado por terem muitas canoas, e as mesmas barcas as quais levavam pelo menos 100 homens de cada vez entre as duas. Logo que nos sentiram na beira do Rio em sua frente me fizeram muito fogo de artilharia de bala e metralha, e felizmente nos não ofenderam porque estávamos cobertos com os barrancos. A largura do rio proibia o fazer-lhes fogo de mosquete. 

Mandei dar o primeiro tiro de peça o qual caído fez efeito porque a gente que estava na praia ganhou o mato e ao segundo a barca maior ladeou toda uma banda que quase meteu a borda debaixo de água. Tocaram imediatamente a sargentos, juntaram a cavalhada, e chegaram as barcas e canoas para terra as quais encheram de negros e [...] pelo rio abaixo, e a cavalaria [...] com a direção à barra do Ibicuí. 

Mandei sem perda de tempo o tenente Floriano dos Santos com a metade do esquadrão de entre Rios apresá-los ao outro passo mais abaixo para ver se lhe fazia algum dano às embarcações. Deram-lhe com efeito duas descargas de mosquete que a pôs em grande confusão, por lhe darem com muitas balas nas embarcações. Embicaram as duas canhoneiras em terra, e fizeram muito fogo de artilharia enquanto acabavam de passar para baixo.
E como o sol ia a entrar, e não tinha canoas para poder-lhes fazer o que eu queria e [...], retirei-me contudo para onde estavam as carretas, e cuido que toda a noite passaram o Uruguai porque não cessaram até ao amanhecer os tiros de peça. 

Ainda que os índios que se pegaram dizem que Andres Artigas passou o Uruguai no passo de Santo Antonio para Missões (cujo passo é defronte o Atanásio) com 800 homens e uma peça, e pediu a José Artigas que o reforçasse pelo Ibicuí, cujo reforço era este que aqui [...], o qual constava de 450 homens brancos e índios, 200 negros e 7 peças de artilharia, porém estas já troceram o caminho [?].
Com este transtorno não esperado, segundo o dizem os mesmos índios. E mais, que um oficial dos índios de São Borja fizera um chasque ao dito Andres Artigas, que passasse que em S. Borja havia pouca gente, e que deles não tivessem receio nem dos portugueses por que os não havia senão no Ibirapuitã em uma paragem chamada S. Diogo aonde eles se ajuntavam, e parece que esta declaração dada por este feitio deve estar certa. 

Tudo isto fiz ver hoje mesmo por uma parada ao comandante daquela Provincia, e pretendia decidir-me com a resposta dele; porém em consequência do ofício de V. Ex.ª pretendo estar no dia 24 dentro daquela província  o que não me era possivel fazer antes por me ser forçoso vir a este lugar destruir os inimigos que ocupavam o território entre Ibicuí e Quaraí, pois que se eu não tomasse esta deliberação poderiam com facilidade e sem impedimento entranhar-se mais pelos domínios de sua majestade, cuja deliberação foi tomada por mim depois me achar a passar o Quaraí em direitura a Belém segundo as ordens de recebi do Sr. brigadeiro quando tomei conta da partida que comando. 

E como é possível Ex.mo S.r que eu encontrasse o inimigo no dia 13 quando neste mesmo dia foi que deixei o caminho que seguia para Belém, conforme aquelas ordens? E para chegar a este lugar me tem sido preciso fazer ainda novas marchas umas forçadas, e outras mais curtas por causa dos pousos e marchas ocultas, e sobretudo sem poder obrar conforme os meus desejos, e da gente que me acompanha.
Porém certifico a V. Ex.ª que de agora por diante farei tudo quanto V. Ex.ª me ordena, já que até agora as mesmas ordens tem sido contrárias às minhas tentativas, e  sobretudo não se me haver dado crédito quando a seu tempo fiz ver o que presentemente acontece, o que ainda se pode remediar deixando-me obrar com liberdade e fazer uso da prática que tenho do inimigo e do país. Sendo assim estou certo que não perderei o conceito que V. Ex.ª até agora tem feitos dos meus serviços.

D. G. a V. Ex.ª M. A.
Passo de Japejú à meia-noite de 22 de Setembro de 1816. 

Ill.mo e Ex.mo Sr. Joaquim Xavier Curado

Joze de Abreu

[Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825. Cota: 466 E]

* * *

Parte Oficial do Tenente-Coronel José de Abreu, sobre o ataque do Passo de Japejú, ao Tenente-General Commandante das Tropas Portuguezas na Fronteira.

José de Abreu
Illmo. e Exm Sr. — Dou parte a V. Exc. que hontem, 21 do corrente [setembro de 1816],tive a fortuna de chegar ao Passo do Iapejú sem ser sentido do inimigo; e atacando o Acampamento que estava sobre o mesmo Passo, não teve o inimigo mais tempo (apezar de ter muitas canôas) que de passar a primeira barcada de tropas. O resto entranhou-se pelo mato contra a barranca do Ibicuhy [rio Ibicuí]; e por toda a margem do Rio se atiravam a nado aos 10 e aos 20, para passarem ao outro lado. Como o mato é alli muito espesso, não lhe pude fazer maior damno, apezar de ter mandado entrar a perseguil-o a Infantaria e alguns Milicianos, os quaes trouxeram prisioneiros 2 homens e algumas mulheres, e os cavallos dos que se lançaram ao Rio; e assim mais 1.500 rezes, e 25 cavallos que tinham no potreiro, defronte a Iapejú, d’onde os estavam passando. 

Como a tropa que entrou no mato participasse que navegava pelo Ibicuhy acima uma frota de canôas, conduzindo tropas inimigas em numero de 200 homens, mais ou menos, mandei o Capitão de Dragões José de Paula Prestes que com o seu Esquadrão examinasse a costa d’este Rio: este Oficial avistou o inimigo no Passo de Sancta Maria, junto á Barra do Ibicuhy, com grande numero de tropas, fazendo a passagem para a Província de Missões; e como lhe houvesse eu ordenado que não arriscasse o seu Esquadrão, ele me participou o que observava, e de que 200 homens do inimigo lhe faziam frente na barranca do Rio, e duas barcas canhoneiras lhe faziam fogo do meio do mesmo Rio. 

Marchei então para aquelle logar com ligeireza, deixando unicamente de guarda á bagagem um Esquadrão de Milicianos do Rio Pardo. Chegando alli, conheci a precisão de fazer uma picada no mato, para metter a Artilharia até á margem do Rio, e logo puz em pratica esta operação, que consegui com brevidade; e mettendo a Infantaria e Artilharia pela picada, cheguei á borda do dito Rio, d’onde avistei o inimigo quasi todo já do outro lado, tendo passado com o auxilio das suas grandes Barcas. 

Estas, logo que nos avitaram n'aquele ponto, começaram a fazer-nos vivo fogo de bala e metralha, que felizmente para nós foi sem efeito. Como a extensão e grande largura do Rio inutilisasse o meu fogo de mosquetaria, mandei fazer fogo de Artilharia sobre o inimigo, o qual produziu algum efeito, arruinando uma das Barcas, e fazendo fugir da praia o inimigo que estava da parte d’além. 

Paso de Yapeyú, no rio Uruguai
Tendo depois d'isto observado que a Cavallaria inimiga se movia por aquella margem, buscando a Barra, e que as Barcas recebiam tropas, e com ellas navegavam pela mesma direcção, ordenei ao Tenente Floriano dos Sanctos, do Esquadrão de Entre Rios, que marchasse com a metade do dito Esquadrão a occupar outro Passo abaixo, para d’alli fazer fogo ao inimigo. Com efeito chegou lá este Corpo a tempo de fazer algumas descargas sobre as Barcas que passavam; mas logo as canhoneiras se apresentaram, e com o seu fogo protegeram a retirada e passagem do resto. Não tendo eu canôas para com ellas levar adiante as minhas operações n’este dia, retirei-me para o logar da bagagem, e o inimigo pôde repassar o Uruguay.

Fonte
Diogo Arouche de Moraes Lara, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista trimensal de historia e Geographia, ou, Jornal do Instituto Historico e Geographico Brazileiro, n.º 27, Outubro de 1845 pp. 275-276


* * * 


A Visão Oriental

Carta de Justo Yegros a Andrés Artigas. Le entera de un encuentro que ha tenido  con el enemigo en momentos en que se aprestaba a pasar el IBICUY en los corsarios con la tropa del Comandante Pantaleón Sotelo.

[Pueblo de la Cruz, setiembre 23 de 1816.]


Con esta fecha noticio a VS. q.e en el momento q.e me reuní con el comandante D. Pantaleon Sotelo para pasar su tropa delotro lado lo verificamos con los corsarios por el arroyo del vicuy el día veinte del q. gira y en virtud de no haver concluido deparar un corto trozo de Cavallada, tubimos q.e aguardar el día Siguiente, 
/ luego q.e se concluyo dicho trabajo y q.e nos pusimos en franquia se nos presentaron los Enemigos en el mismo paso con dos piezas de Tren del Calibre de a 4, luego q.e estos tomaron el monte principiaron a dirijir sus fuegos de cañon a los Buques y tropa q.e sehallaban destelado; 
/ inmediatamente determiné se hiciera safarrancho abordo y rompi el fuego con los corsarios asta tirarles noche cañonasos contestandome ellos con seis deBala raza; en nuestra Gente no se esperimento ninguna desgracia y al ber el  fuego de los Enemigos no sehoia mas voz q. era el de mueran los tiranos q. nos intentan oprimir.
/ Seguidamente determiné salieran los Buques fuera del arroyo del Bicuy para lo qual nos habian preparado nuebamente una Embozcada de Cavalleria a esperar nos aproximaramos a la Costa para lograrnos, esta intencion nunca les surtió Efecto alguno pues con motivo de hir siempre una canoa armada con un cañon a labanguardia fueron descubiertos pues rompieron un fuego vivo afucileria y la canoa les correspondió con un cañonazo ametralla; 
/bisto esto trate de entrar por un pequeño arroyo q. está cituado enla misma arroyo delaBicuy por donde pude conseguir el salir con los Buques ybolber a reunirme con D. Pantaleon Sotelo.Yo he llegado ayer veinte y dos al Pueblo dela Cruz a las tres menos quarto a la mañana en donde mehallo componiendo el falucho q.e enteramente esta haciendo agua luego q.° se componga q.° sera muy brebe Sigo mi precipitado Biage a Donde VS. se halla.
Saludo a VS. con todo mi afecto Pueblo dela Cruz 23, de Sepbre de 1816.
Justo Yegros

Fontes
- Archivo Artigas
- Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825. Cota: 466 E

Biografia
- Tenente Coronel José de Abreu


Foto no topo
- Rio Ibicui - Cheia Setembro 2012.JPG, Wikicommons, fotografia de Odacir Branco [visitar].

* * * 

Forças Portuguesas (Capitania do Rio Grande)
Tenente Coronel José de Abreu (EntreRios), 670 homens (soma)

Cavalaria (530):
- 1 esq, Cav, LSP: Ten José de Castro do Canto e Mello
- 1 esq, Reg Dragões RG, Cap José de Paula Prestes
- 1 esq, Reg Mil Rio Pardo, (Ten Olivério José Ortiz)
- 1 esq, Reg. Entre Rios: 1 esq, Tenente Romão da Souza: 1 esq, (Tenente Floriano dos Santos)
- 1 esq, Mil Guarani (lanceiros) (capitão "Chico")

Inf, LSP (117): Capitães Joaquim da Silveira Leite & José Joaquim Machado de Oliveira
Art, LSP: 2.º Ten José Joaquim da Luz (23), 2 peças c.3

19/09/2016

Um mau início: Xavier Curado a José de Abreu, Setembro de 1816


Quando publico Correspondência militar no teatro do Uruguai (13 a 23 Setembro de 1816), onde transcrevo 5 cartas escritas entre comandantes portugueses na área de Entre Rios (Quaraí e Ibicuí) e Missões, a norte, não senti necessidade de apresentar a transcrição desta que aqui faço. Faço-o por duas razões:
Primeiro, só tive acesso à primeira página do que talvez sejam mais uma ou duas. Se dá para compreender inclusive a data aproximada, dá para perceber o sentido, ao mesmo tempo, uma forte admoestação e um ultimatum a José de Abreu para fazer acontecer por parte do general em chefe.
Segundo, o assunto desta carta torna-se obsoleto em cerca de três dias, quando Abreu bate Sotelo no Passo de Yapeyú, e ainda por acontecer daí por uma semana a batalha de S. Borja, onde a lenda de Abreu se cimenta. Joaquim Xavier Curado é forte nas palavras e impõe-se a Abreu naquilo que coloquialmente poderemos inclusive nomear como 'piçada', ou 'mijada'.

Apesar de achar que não coube na postagem das cinco cartas, é de interesse divulgar esta sexta carta noutra postagem, mas fazendo a ligação. 

Fora de contexto e sem as outras cartas, um leitor não teria José de Abreu senão como um mau comandante, quando de facto vai ascender à fama e heroísmo nos dois meses seguintes, em Arapey, derrotando José Artigas ele mesmo, e fechando a batalha de Catalán (no dia a seguir) com uma carga de cavalaria na ala direita. 

[463-A] [Data desconhecida (c. 18/19.9.1816), possivelmente em Marcha, TenGen. Joaquim Xavier Curado a TenCor. José de Abreu]

Sr. Tenente Coronel Jozé de Abreu

Tive muita satisfação quando me participou o Brigadeiro Tomaz da Costa de ter tomado o expediente de nomear a V. S.ª para Comandante da Partida que devia atacar e destruir os Indios que de mistura com os Insurgentes se propunhão a invadir Missoens certificando-me em Oficio de 14 que era muito natural que V. S.ª os encontra-se no dia 13: e consultando a idea que sempre formei do seu zelo, e actividade no Serviço, facilmente me persuadi que o projecto de atacar prontamente se teria executado.

Em Oficio de 15 me participou o mesmo Brigadeiro que V. S.ª pedindo-lhe maior numero de Cavalaria proguntava se devia separar as forças para atacar em dous pontos, ou o que devia fazer. 

Esta duvida, e esta progunta alem de serem ociozas fazem patentes não só que a actividade de V. S.ª mancou na melhor occazião, como tambem que os Enemigos não tinhão sido atacados no dia em que se esperava: porque sendo a Comissão de V. S.ª atacar o Enemigos pouco emportava que fossem destruidos em massa ou em detalhe. Neste instante recebo o Oficio do Brigadeiro Francisco das Chagas com data de 15 exegindo, e clamando pelo socorro que me deprecou anteriormente: signal evidente de que V. S.ª ainda não deu um só passo para adiantar a deligencia de que se acha encarregado.

Sobre este asumpto já escrevi de oficio ao Brigadeiro Tomaz da Costa extranhando o vagar e frouxidão que se observava nos movimentos de V. S.ª na data de 17 que me foi remetido por Copia. 

Este procedimento não só tardio, como perigozo pelas funestas consequencias que podem rezultar deixão muito em duvida o merecimento de V., S.ª adquirido no decurso de muitos annos, e para que não seja destruido deve V. S.ª remediar a falta que tem cometido atacando e destruindo os Enimigos que invadirão Missoens estabelecendo o socego e tranquilidade publica àquela Provincia. Deixo de lembrar a V. S.ª a responsabilidade em que V. S.ª se acha na prezença do Illmo. E Ex.mo Sr. Marquez Capitão General desta Capitania aquem já dei parte de que V. S.ª na frente de um Corpo de 700 homens composto de Cavalaria, Infantaria e Artilharia foi in- [...] [capaz?]

[infelizmente, só tive acesso à primeira página]

Fonte
Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

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Biografias
- Ten Gen Joaquim Xavier Curado (comandante da Fronteira do Quaraí) [LER]
Brig Francisco das Chagas Santos, governo militar das missões orientais, em São Borja [LER]

- TenCor José de Abreu (Esquadrões de Cavalaria de Milícias de Entre Rios) [LER]