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05/04/2025

Bento Manuel (Gustavo Barroso, A Guerra de Artigas, 1930)


 

““Sái logo ao encontro de Artigas, que vinha em marcha 
com 600 homens de cavalaria, obriga-o a retroceder e persegue-o”.”
(Rio Branco – Efemérides)

Naquela luminosa manhã de maio, em frente ao acampamento do exercito brasileiro do Quaraim, estava formada uma extensa linha de cavalaria: quinhentos e sessenta homens escolhidos das milícias do Rio Grande e da legião de São Paulo. Comandava-os o tenente-coronel Bento Manoel Ribeiro e, lentamente, o general Curado passava-lhes revista.
Era um homem alto, espadaúdo, forte. Nariz aquilino. Queixo proeminente. O alto bicornio a três pancadas. Muito firme na sela, muito espigado, apesar dos seus setenta e um janeiros. Nascido nos sertões goianos de Jaraguá, o conde de S. João das Duas Barras tinha a rijeza peculiar dos vaqueiros do nosso áspero interior. Veterano das campanhas platinas, seus dias de guerra contavam-se por vitorias, e seu nome era o terror dos orientais desde a batalha de Catalán.
Curado examinou os soldados um a um. Seu olhar percorria rápida e agudamente o individuo, as armas, o cavalo, os arreios. Depois, verificou o estado da cavalhada estendida no coice da coluna. A impressão de tudo foi favortavel. Voltou à testa da força e fez um sinal ao comandante. Bento Manuel aproximou-se.
─ Vá, disse o general, passe o Uruguai e encrave todas as baterias dos gringos!

***

Soltando vivas entusiastas, o destacamento partiu rumo à fronteira. Dois dias após, na noite de 14 de maio, atravessava o rio sem ser pressentido pelo inimigo, na Vuelta de San José, e penetrava no território de Entrerrios. Ao alvorecer o dia seguinte, galopando pela margem direita do Uruguai, a cavalaria brasileira avista uma força contraria que se desdobra em escalões pelas coxilhas. Os paulistas espalham-se em atiradores. Os riograndenses preparam as lanças. São os entrerrianos do coronel Gorgonio Aguiar, que defendem a bateria da Calera de Barquin, assestada num teso e destinada a bater o passo do rio. Artigas pretendia com essas baterias impedir a esquadrilha de Sena Pereira de subir o Uruguai.
O clarim brasileiro, ao amortecerem as descargas dos atiradores que vão recolhendo ao grosso devido ao avanço do inimigo superior em numero, dá o sinal de carregar. As duas linhas de cavaleiros enovelam-se, tapesapeando as lanças e sabres. Gritos, uivos, pragas! E o valente Bento Manuel, no meio do entrevero, a dar ordens e a bater-se como um simples soldado. Sem campo de tiro livre, a bateria inútil jaz no alto da Calera. Depois de uma hora de resistência, os artiguenhos afrouxam a luta e dispersam-se, lanceados e tiroteados. Gorgonio de Aguiar entrega a espada ao chefe sorocabano. E os guaranis que guardam a nossa cavalhada preparam uma balsa para levar a artilharia contraria ao território do Rio Grande.

***

Após um descanso de horas, a carneação para o almoço, o tratamento dos feridos e o enterro dos mortos, de novo o destacamento audaz continua a marcha vitoriosa. Entardece quando outra fila de cavalaria corôa as coxilhas ribeirinhas ao Uruguai. São os soldados do tenente-coronel Faustino Tejera que defendem a bateria de Perucho Berna, feita com canhões tomados outrora a Balcarce. Novamente se entestame topam as cavalarias a arma branca. Os entrerrianos são outra vez batidos lamentavelmente. E outras balsas levam as peças artiguistas para a margem brasileira.

***

Á noite, Bento Manuel acampa na bateria abandonada no Passo de Vera, cujos canhões encrava.

***

Mal nasce o dia 16, está a cavalo. O toque de ensilhar foi dado antes do sól. E a força vitoriosa galopa para a villa do Arroyo de la China, que hoje se denomina Concepción del Uruguay, base de operações de Artigas. Por volta de onze horas da manhã, entra por ela adentro. Seus clavineiros apêam-se, correm ao cais e apoderam-se de barcos atracados, cheios de munições de guerra e bôca. Os lanceiros ocupam todas as entradas da povoação. Nisto, vêm dizer-lhe que, a marchas forçadas, Artigas em pessôa corre em socorro da vila. O clarim toca logo chamada ligeira; depois, ensilhar. Já a cavalo, os oficiais  olham espantados para Bento Manuel. E ele, sorrindo:
─ Vou bater Artigas em campo raso!
***
O encontro deu-se a pequena distancia do Arroio da China. Os seiscentos cavaleiros que o ditador trazia não resistiram ao embate dos centauros que Curado escolhera e revistara para aquela feliz expedição. Em meia hora, eram debandados em todas direções, perdendo Artigas até o seu próprio estandarte!
Bento Manuel perseguiu-o umas três leguas.

***

Uma semana mais tarde, em frente ao acampamento do exercito brasileiro, o conde das Duas Barras passava de novo revista aos guerrilheiros que regressavam do audacioso reide. Bento Manuel, acompanhando-o por entre as fileiras perfiladas, dava-lhe conta do seu êxito:
─ Trouxe oito canhões, treze barcos, trezentos e sessenta e seis prisioneiros, quinhentas espingardas, dezoito carretas com munições e despojos, duzentos cavalos, um estandarte e somente faltou…
Deteve-se com um sorriso enigmático nos lábios. O velho Curado, que lhe conhecia de sobra o pendor para a bravata e o exagero, espicaçou-o:
─ É verdade, tenente-coronel, falta uma coisa que você não trouxe e estou adivinhando…
─ Pois diga, general.
─ Foi Artigas…
─ Isso mesmo. Mas eu só não o trouxe, porque…
─ Por que? indagou Curado.
─ Porque ele fugiu…

Fonte
BARROSO, Gustavo, A Guerra de Artigas, s/l, Ed. Getulio M. Costa, [1930]. pp. 109-116

27/10/2018

O Vencido de Carumbé (Gustavo Barroso, A Guerra de Artigas, 1930)




“Artigas há sido completamente derrotado y se há refugiado en los bosques...”
(Carta de Puerreydon a San Martin)

Um turbilhão de cavalos rolava sobre as coxilhas verdes à luz quente do sol de outubro. Os oficiais à frente, as esporas enterradas no vasio dos zainos e dos malacaras. Os lanceiros milicianos, de lanças em riste, quasi de pé, apoiados nos pesados estribos de bronze. Os dragões, com as clavinas curtas a tiracolo e nas mãos, altas no ar, os curvos sabres refulgindo. E a bandeira real agitada ao vento nas palpitações convulsas da carga.
Eram uns quatrocentos homens – dragões de Lunarejo de Sebastião Barreto, lanceiros do Rio Pardo de Francisco Pereira Pinto e legionários paulistas de Silva Brandão. À ordem de carregar, os esquadrões se tinham movido como em uma parada. Depois, a voz dos oficiais ordenara:
- A trote!
Os animais aceleraram a marcha. E, logo, a segunda ordem dominou, forte, o tropear da cavalhada:
- A galope!
Então, mal os baguais espumantes tomavam o impulso da corrida, sobre eles ecoou o mandado terrível:
- Por esquadrões, carregar!
O turbilhão rolou pelas coxilhas verdes, esmagando a macega meio ressequida, e foi bater cegamente a infantaria de Artigas abandonada no meio da planicie. Recebeu-o uma descarga estralejante. Alguns cavalos e alguns cavaleiros caíram. O turbilhão passou por cima deles. Um baque surdo. Uivos de dôr. Barbaros gritos de raiva. Detonações isoladas. E o rumor sinistro dos ferro mordendo as carnes e os ossos: baionetas que entravam no pescoço dos cavalos, lanças que varavam peitos e costas, sabres que fendiam ombros e craneos.
A infantaria artiguista fraquejou. Desfizeram-se os liames da formatura. Os soldados dispersaram-se em grupos, defendendo caramente a vida do ataque dos cavaleiros. A cavalaria brasileira caracolou à direita e à esquerda. Ouviam-se brados roucos. Os dragões abriam caminho pela pampa a talho e ponta de espada. Os lanceiros paravam de combater, cansados de matar. E o vento brincava nas bandeirolas de suas lanças empurpuradas de sangue.
Assim, fôram derrotados os últimos soldados de José Gervazio Artigas, chefe da confederação do uruguai, Corrientes e Entrerrios, nos campos dos serros de Sant'Ana, que os orientais denominam Carumbé, pelo brigadeiro Joaquim de Oliveira Alvares.

* * *

O general Curado, que defendia nossas fronteiras do sul, mandara-o reconhecer as posições de Artigas com menos de oitocentos homens e duas peças ligeiras. EM frente aos serros, a coluna expedicionária viu-se de repente em presença de grande força inimiga. Comandava-a Artigas em pessôa. Eram mil e seiscentos homens, dos quais quinhentos de infantaria mandados por Toríbio Fernandez e mil e cem cavaleiros guiados por André Latorre, Baltazar Ojeda, Inácio Gatelli e Domingos Manduré.
Surpreendido em ordem de marcha, Alvares foi forçado a aceitar combate. Ocupou rapidamente pequenas lombas, colocou bem a artilharia e, quando a numerosa cavalaria adversa o atacou, metralhou-a à vontade. Campo de tiro excelente. Artilheiros habeis. Canhões pequenos com bôas parelhas de machos atrelados aos armões, podendo ter grande mobilidade, fizeram perder muita gente à gauchada entrerriana e corrientina, enquanto parte de sua infantaria de apoio, os legionarios paulistas de Galvão Lacerda, dificultavam aos chefes artiguenhos reconduzir as cavalarias ao combate.
Esgotadas as reservas, brechados os esquadrões pelas granadas de Bento José de Morais, afeito a metralhar corrientinos e que os dizimara havia uma semana no Ibiroacaí, perdido o impulso primitivo pelo cansaço das cargas improfícuas, dispersos e espingardeados pelotões inteiros pelas guerrilhas de João Pais e Alexandre Luiz de Queiroz, Artigas sentiu-se  escarpar-se-lhe das mãos a sorte da peleja e apelou, como derradeiro recurso, para a infantaria.
O regimento de Toribio Fernandez avançou a marche-marche. Foi aí que o brigadeiro Alvares atirou sobre ele o turbilhão de dragões e lanceiros. Os esquadrões descoseram as companhias corrientinas de amplas gandolas escarlates. Os sabres e as lanças embebedaram-se fartamente no sangue dos defensores do caudilho. A derrota desgrenhada assoprou o panico nas filas desorganizadas e nos grupos dispersos, açoitando pelos agrestes caminhos dos serros de Sant'Ana, na mesma confusão, peões e cavaleiros.

* * *

“Graças á velocidade de seu cavallo” - afirma conciencioso escritor – Artigas pôde escapar. Os cavalarianos vencedores viram-no ao longe, galopando entre um oficial e um frade, - o indio Manduré, comandante de seus lanceiros negros, e frei Monterroro, seu secretario.
Enquanto, entre centenas de mortos e feridos, os guerrilheiros de Jacinto Guedes recolhiam troféus: armas de preço, tambores, estandartes; contavam os prisioneiros, e reconheciam no meio dos cadaveres o do comandante Inacio Gateli, sobrinho do ditador, este fugia, como fugiria no Arapeí, como fugiria no Arroio da China, como fugiria no Taquarembô...
Escurecia quando meteu o fatigado cavalo num vau do Arapei. O oficial indio seguia-o em silencio, o rosto carregado de odio. O frade gemia e se lamentava sacudido pelos passos incertos do animal dentro dagua, o habito arregaçado, as pernas nuas beijadas pela correnteza fria. Fôram ter a uma pequena ilha deserta. O guarani acendeu uma fogueira debaixo das arvores. O frade gemeu e acabou enrodilhando-se no chão e ressonando. O caudilho derrotado, de pé, braços cruzados ao peito, cravava o olhar nas chamas. E as labaredas agitavam sua sombra desmesurada na alta barrança do rio...
Ao longe, os quero-quero gritavam. Nos capões de mato, estridulavam corujas. O vôo rapido dos curiangos cortava a clareira. O indio encostou-se a uma pedra musgosa, cerrou os olhos e adormeceu...
Quando a luz do sol acordou a campanha verde, o rio cinzento e o ceu azul, Artigas ainda estava na mesma posição. A fogueira extinguira-se sob o orvalho da madrugada. Seu olhar fixo mergulhava filosoficamente nas cinzas humedecidas.

Fonte
BARROSO, Gustavo, A Guerra de Artigas, s/l, Ed. Getulio M. Costa, [1930]. pp. 27-34

05/08/2018

India Muerta (Gustavo Barroso, A Guerra de Artigas, 1930)




“... Artigas, na fronteira, de onde dirigia as suas ordens, e onde recebia tais recursos, projetava, além da resistência à divisão do general Lecor, pelas fronteiras de Serro Largo e Santa Teresa, também uma diversão com suas maiores forças ... “(Diogo Arouche – Memoria da campanha de 1816).

NOVEMBRO de 1816. O exercito brasileiro de Lecor invade o Uruguai pelas fronteiras de Santa Teresa e Serro Largo. “Invasão rápida e pujante”. Artigas, ditador da Banda Oriental, pretende tolher-lhe o passo no caminho de Montevidéo.
Vanguardeava o grosso dos invasores o general Sebastião Pinto com pouco mais de mil homens das tres armas e um obús. Eram 722 granadeiros, caçadores e artilheiros da divisão de Voluntários Reais e 106 milicianos gauchos de cavalaria.

* * *

Fructuoso Rivera, à frente de 1700 uruguaios a cavalo e a pé, com uma peça, obedecendo aos designios do ditador, espera a vanguarda brasileira entre o Puerto de la Paloma e o Passo e Coronilla, à margem do arroio India Muerta. 

Ao avista-lo, no dia 14 de pela manhã, Sebastião Pinto desenvolve a sua linha de batalha: granadeiros, caçadores e o obuseiro ao centro; os dois pequenos esquadrões de Manoel Marques de Sousa e João Vieira Tovar nas alas. Os nossos atiradores abrigam-se por trás das touceiras de pita, cujos penachos ondêam ao vento, e começam a hostilizar o inimigo. No alto da coxilha forma a cavalaria de Rivera e carrega como uma tromba. As guerrilhas incorporam-se ao grosso. Os infantes, em quadrado, recebem na ponta das baionetas os orientais. Alvoroço. Gritaria. Tiros. Alguns cavaleiros trazem à garupa voltigeiros armados de pistola e sabre, que pulam dentro do quadrado e logo são esfuracados a arma branca. Rivera em pessoa, agitando o rebenque no ar, comanda seus centauros que revolutêam, coroados de lanças, de laços e boleadeiras ameaçadoras.

A formidavel infantaria resiste ao ariete. Os esquadrões das alas acometem furiosamente os contrarios, para alivia-las.

Recua a cavalaria oriental no preparo de nova carga. Porém abre com esse movimento à frente do quadrado o campo de tiro. Granadeiros e caçadores fuzilam-na. O obús consegue falar e uma granada rebenta no meio dos cavaleiros, desmoralizando-lhes a formatura e causando muitas baixas. Um tiro de mestre! Vagam cavalos à solta pelo pampa, as selas ensanguentadas. De novo as linhas de atiradores se estendeme os homens, emboscados nas piteiras, caçam o inimigo.
A infantaria de Lasalle vem a marche-marche afim de sustentar a cavalaria batida. Jeronimo Pereira de Vasconcelos, irmão do grande Bernardo de Vasconcelos, manda rufar os tambores e leva seus caçadores a baioneta contra ela. Trava-se terrivel corpo a corpo. Os infantes engalfinham-se a arma branca. Distante, o canhão oriental é inutil, porque a confusão dos lutadores não lhe permite atirar. O nosso também está calado.  Os milicianos enovelam-se aos cavalarianos de Rivera. Na luta, Tovar perde um braço, cortado à espada, Marques de Sousa recebe um talho na cabeça. Então, avançam cerrados, solidos, com seus sargentos de chilfarotes e piques em punho, os granadeiros de Moura Lacerda.

- A baioneta! Grita-lhes estentoreamente o comandante. E eles varrem, literalmente os infantes uruguaios. É o tempo que a nossa cavalaria reflúe, deixando livre a frente de batalha, onde se reformam os esquadrões de Rivera.
- Granadeiros, fogo!
- Caçadores, fogo!

As duas descargas ceifam a gauchada oriental. Pronuncia-se a derrota, depois de mais de quatro horas de peleja. Os restos da infantaria inimiga, dispersos, são aprisionados. A única peça de Rivera e todas as suas bagagens caem em nosso poder. O vanguardeiro destroçado de Artigas escapa a casco de cavalo e chega ao acampamento do seu chefe à teste unicamente de cem homens, miseraveis remanescentes de mil e setecentos que levara...

* * *

Sebastião Pinto, vitorioso, à margem da India Muerta. A soldadesca arma tendas e ranchos. Ao cair da noite acendem-se as fogueiras. E, à sua luz e calor, os violeiros descantam as saudades das querencias e dos pagos.

De repente, um deles dedilha o pinho e solta estes primeiros versos duma copia uruguais popular sobre o ditador:

Viva o general Artigas,
Su tropa bien arreglada...

Um silencio. E o soldado brasileiro repete:

Viva o general Artigas,
Su tropa bien arreglada...

Aí sonora gargalhada sacode todo o acampamento.

Fonte
BARROSO, Gustavo, A Guerra de Artigas, s/l, Ed. Getulio M. Costa, [1930]