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26/08/2021

Batalha de Catalán por uma Testemunha Ocular, 4 dias após o evento (Inácio José Vicente da Fonseca)


A carta do tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, o mais graduado oficial de artilharia da Legião de Voluntários Reais de São Paulo, ao coronel Vicente Ferrer da Silva Freire, de 8 de Janeiro de 1817, 4 dias após a grande batalha de Catalán, relata o recontro de um forma pessoal, estando ele no centro da posição portuguesa, equidistante da ala esquerda que, apeada, sofreu o assédio dos orientais, e da carga de cavalaria oriental na ala direita que foi rechaçada por  Sebastião Barreto e José de Abreu (carga esta a que Artigas atribui a derrota oriental). Adicionalmente, Vicente de Fonseca, enquanto artilheiro e “official scientifico” por excelência, é bastante pormenorizado na sua descrição.

Conforme escreveu Vicente de Fonseca na epístola, e serve para nós que o lemos 200 anos depois, “aqui tem V. S.ª o rezultado das Acçõis do dia 3 no Quartel General de Artigas, e do dia 4 na margem direita do Arroio Catalan, da qual tenho a felicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas bálas tão poucos palmos distantes do meo Corpo”.

Carta do tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, da Legião de S. Paulo, a Vicente Ferrer da Silva Freire (rio Quaraím, 8 de Janeiro de 1817)

[transcrição com ortografia modernizada retirada do Archivo Artigas, Tomo 33, páginas 14-19]

[...]
Tendo o excelentíssimo senhor marquês de Alegrete chegado ao nosso campo do Ibirapuitã a 15 de Dezembro do passado, e sabendo pelos nossos bombeiros que os insurgentes se reuniam com grande força e que pretendiam ir atacar-nos naquelle lugar, resolveu, que deviamos então encontrá-los, e conseguintemente levantámos  o Campo a 25 dirigindo-nos para o Quaraí. 
Passamos este Arroio no dia 31, e falhámos ao 1.°, e tendo neste dia os nossos bombeiros  agarrado 3 bombeiros do inimigo, soubemos destes, que Artigas tinha o seu quartel general no lugar denominado o Potreiro nas imediações do Arapey, aonde somente existiam 400 e tantos homens, e que tinha feito marchar deste lugar o major general Latorre com perto de quatro mil homens, e duas peças de calibre 4, a este tempo já os nossos espias descobriram bombeiros, e pequenas partidas do inimigo pela nossa retaguarda, mas como julgámos que a força maior estava pela nossa frente, levantamos o campo no dia dois, e avançámos 4 léguas e meia, e acampamos na  margem direita do arroio Catalán. A posição de nosso campo era elevada e própria para poder a artilharia operar por todos os lados tinhamos, o flanco ([esquerdo]) direito apoiado por uma sanga, à frente, e flanco esquerdo por pequenas sangas, e a retaguarda pelo arroio ainda que fraco por ser cortado por várias partes.

Neste mesmo dia fez o senhor marquês marchar a nossa avançada que é comandada pelo tenente coronel de milicias José de Abreu composta de 500 homens (milicianos de Entre Rios, algumas guerrilhas de paisanos, 100 homens de infantaria da Legião de S. Paulo, e 2 peças de calibre 3 comandadas pelo tenente Luz formam os mencionados 500  homens).

Saíram ao pôr do sol com ordem de marchar toda a noite para na madrugada do dia 3 surprenderem a Artigas no mencionado potreiro, mas apesar de terem marchado toda a noite chegaram a esse lugar uma hora depois de amanhecer, e por este motivo foram percebidos pelas guardas avançadas do inimigo, e pode Artigas escapar se precipitadamente deixando a sua carretilha, e até mesmo o seu ponche, escaparam muitas familias, e a maior parte da guarnição, e uma porção que ainda não tinha fugido foram derrotados pelos nossos depois de fazerem uma grande resistência.

Artigas tinha escolhido um lugar para seu quartel general aonde a Cavaleria não podia operar, e por isso somente a artilharia e infantaria de S. Paulo, e poucos de cavalaria a pá decidiram desta acção, (ouvimos os tiros de artilharia, e seriam 8 horas da manhã) a perda do Imimigo consistio em setenta e tantos mortos incluso um ajudante, 6 prisioneiros, ficou em nosso poder a carretilha de Artigas, 1500 mil e quinhentos cavalos, e algumas munições.
A nossa perda consistiu em dois soldados mortos da infantaria de S. Paulo, que foram os primeiros que investiram o mato, e 4 feridos da mesma infantaria sendo 2 gravemente. 

O valente tenente coronel Abreu pretendia perseguir a Artigas, mas sabendo dos prisioneiros, que Latorre tinha avisado a Artigas, que no dia 4 pretendia bater os portugueses, e que nesse mesmo dia estaria com ele vitorioso no potreiro, com esta notícia (apesar de não ter a nossa tropa comido, e nem dormido) picou a marcha o tenente coronel Abreu para reunir-se a nós com a brevidade possível, o que conseguiu no mencionado dia 3 depois de anoitecer; com a chegada do Abreu deram-se as ordens necessárias, e foram, que às três horas da manhã estaria toda a cavalcria montada, e toda a mais tropa debaixo de armas, mas assim não aconteceu por causa das facilidades, estivemos com efeito debaixo de armas às horas determinadas, porém só a cavalaria de S. Paulo estava montada, e Dragões e Milicianos não tinham pegado cavalos. E se não fosse a artilharia, e o valor da nossa tropa, o inimigo teria a conseguido uma completa surpresa.

Eram 4 horas e meia, e naquele momento tinha o nosso clarim acabado de tocar a alvorada, quando um chefe de guerrillas, que guardava uma nossa cavalhada que estava sobre o nosso acampamento no flanco esquerdo, presentiu os charruas avançarem para roubá-la, mandou logo disparar oito tiros, e reuniu-se a nós com a cavalhada que pode, eu estava na bataria do centro que é composta de 4 obúses, conversando com o major Pitta que é o comandante desta divisão de artilharia.

Principiámos logo a ouvir o grande alarido que costumam fazer estes bárbaros, e a descobrir um grande negrume por todas a coxilha que estava pela nossa frente, flanco, esquerdo e retaguarda. A nossa tropa dispos-se imediatamente para entrar em ação, e o inimigo aproximava-se cada vez mais tocando a sua música com grande desafogo.

A este tempo que seriam passados 5 minutos depois que foram percebidos, apareceu logo o senhor marquês na frente da tropa montado a cavalo animando-a com muita coragem, e vendo que o inimigo ja estava pelo nosso flanco esquerdo em distância de fuzil, mandou logo romper o fogo de artilharia, o que se executou prontamente, e tive então o gosto de ver laborar ao mesmo tempo toda a artilharia do meu comando, estava disposta em divisões sendo a do centro comandada pelo major Pitta, e composta de 4 obúses que lancaram granadas que fizeram um efeito terrível, a divisão da esquerda composta de 3 peças de calibre 6 é comandada pelo capitão José Olinto, a da direita composta de 2 peças de calibre 3 pelo tenente António Soares, as duas peças de 3 comandada pelo tenente José Joaquim da Luz estavam postadas num corpo de reserva que guardava a cavalhada, o inimigo respondeu-nos logo com o seu fogo de artilharia, as suas balas passavam muito altas, mas sempre acertaram com uma bala em um reparo de uma peça de 6 que chegou a partir o eixo de ferro. 

A cavalaria inimiga atemorizada pelo nosso fogo amiudado de artilharia e não se animou a avançar, estava formada em 2 linhas em número de mais de dois mil homens, a infantaria inimiga formada na frente da cavalaria em duas fileiras, e com grande intervalo de um a outro soldado desceu a coxilha por baixo do fogo de artilharia, passou uma sanga, e apareceu-nos pela frente em pequena distância de onde nos deu uma descarga cerrada.

A este mesmo tempo os lanceiros charruas carregaram sobre o nosso flanco direito, o senhor marquês correu para este flanco pelo meio das balas, e fez avançar uns cento e cinquenta e tantos dragões que já se achavam montados para rebater os charruas, e imediatamente tocar a degola fazendo avançar a brava infantaria de S. Paulo de baioneta calada, foi quando vi com muita satisfação estes meus valentes patrícios correrem por um terreno cheio de pedras que mais parecia voarem do que correr. Levando por diante uma poeira a infantaria inimiga a bala, e ponta de baioneta fazendo-lhes fogo mesmo à queima roupa.

Nesta mesma ocasião avançou o bravo e incomparável tenente coronel José de Abreu com 300 homens pouco mais ou menos que eram milicianos de Entre Rios, cavalaria de S. Paulo, Dragões, Milicianos, e algumas guerrilhas de paisanos, e com este punhado de homens valentes pôs a cavalaria inimiga em vergonhosa fugida perseguindo-os, e fazendo uma grande mortandade até à distância de 3 léguas, tomando muitos cargueiros de munições, e cinco mil e tantos cavalos.

Enquanto o tenente coronel Abreu perseguia a cavalaria, a infantaria de S. Paulo, e os Milicianos do Rio Pardo, e Porto Alegre a pé por não terem tido tempo de pegar cavalos continuaram um vivo fogo contra uma grande porção da infantaria inimiga que se tinha emboscada em um pequeno mato, fizeram uma resistência terrível, mas nada pode vencer ao valor das nossas tropas, e não tiveram remédio senão depôr as armas uns 239 que ainda viviam, entre estes 6 oficiais um dos quais é sobrinho de Artigas, e também há um inglês.

A força inimiga era composta de 3200 homens, sendo mil e tantos de infantaria, tinham duas peças de artilharia, e mais 400, e tantos homens que guardavam a cavalhada. O comandante em chefe era o major general Latorre, o coronel Mondragon o comandante da cavalaria, e o coronel Berdún comandava a infantaria e artilharia. Dizem varios prisioneiros que Berdún morrera, porém esta notícia ainda não se verificou, e por isso não dou como certa.

A nossa força era composta de dois mil duzentos e tantos homens, e 11 bocas de  fogo, mas em rigor entrariam na acção 1300 a 1400 homens, ficando os mais guardando as cavalhadas, boiadas, e bagagens.

Da relação junta verá V. S. qual foi a nossa perda, uma grande parte dos nossos feridos foram gravemente, e já tem morrido muitos: a perda do inimigo foi considerável, contam-se em pequena distancia 468 mortos inclusos muitos oficiais, e não se contaram os que ficaram estivados por esse campo até a distância de 3 léguas.
Ficaram prisioneiros 239 inclusos 6 oficiais, (dos prisioneiros já tem morridos uma grande parte dos feridos) tem-se apresentado até hoje vinte e tantos, tomámos a sua artilharia que eram duas peças de calibre 4, uma carreta com muitas munições de infantaria e artilharia, muitos cargueiros com munições, 5000 e tantos cavalos, um estandarte, caixas de guerra, instrumentos de música, e muito armamento, pode-se avaliar por um cálculo bem aproximado que a perda do inimigo entre mortos, prisioneiros, e aprezentado excede a mil homens.

O fogo durou até às onze horas e três quartos da manhã. O senhor marquês correu depois por todas as fileiras dando mil agradecimentos a toda a tropa, que assim mesmo fatigada, e muitos lavados em sangue das feridas que tinham recebido gritavam com grande corágem, que estavam prontos para principiar já outro combate, então o senhor marquês dava mil vivas a sua Majestade, que eram mutuamente correspondidos por toda a tropa, e todo se finalizou com uma salva real de 21 tiros de artilharia.  

À tarde o senhor marquês assitiu ao funeral dos nossos oficiais mortos, e foram carregados pelo senhor marquês, senhor tenente general Curado, brigadeiros, estado  maior de S. Excelência, etc.  

Demoramo-nos no campo da ação o dia 4, e 5 ocupados em enterrar os nossos mortos, e curar os feridos, a senhora marquesa tem zelado dos doentes com  muita caridade,  desfiando panos com suas própias mãos para se curarem as  feridas. 

No dia 6 avançámos 3 léguas para baixo do mesmo arroio Catalán para fugir da podridão que já infeccionava o campo, e aqui nos conservamos sem por ora saber de nosso destino sobre a marcha.  

Os nossos bombeiros chegaram hoje, e dizem que a reunião dos dispersos é na Purificação, e consta que Artiguinhas  já passou o Uruguay para este lado em Japejú, e que se reuniu a Artigas com 1500  homens. Eu estou persuadido que os homens se reúnem com grande força e que breve teremos outro divertimento, tão bem estou persuadido que Artigas não nos aparece agora com menos de 5000 homens, o que pode conseguir com a junção de Otorgués, e hão de continuar a aparecer-nos em quanto restar a Artigas um único homem.  

Esqueceu-me referir que o inimigo já nos tinha tomado na nossa retaguarda treze carretas de vivandeiros que vinham com uma marcha de diferença da nossa, e eram o mulato Romualdo, e o José Cabeça, mas todas foram restauradas no dia da acção, e felizmente todos os vivandeiros que eles conservavam prisioneiros, e não tiveram tempo de matar um só.

O meu camarada e amigo major Rosário [António José do Rosário, Inf LTL] caiu morto ao meu lado esquerdo logo das primeiras balas do inimigo, ele certamente nem soube de que morreu, que tão repentina foi a sua morte de uma bala que lhe passou ambas as frontes, logo o mandei carregar para baixo de um carro de munições, e o mandei cobrir com um ponche. 

Os capitães Prestes [José de Paula Prestes, RegDrag], e Corte  Real [Francisco de Borja de Almeida Corte Real, RegDrag], e o secretário de Dragões [Eleutério Severiano dos Santos Pereira]; o valente furriel Moura [Mateus José de Moura] da cavalaria de S. Paulo, e o cadete da mesma cavalaria filho do coronel engenheiro de S. Paulo [Manuel Joaquim Carneiro de Fontoura] morreram todos trespassados de lanças dos charruas, e o ajudante Marçal foi ferido de cutiladas na cabeça. O tenente Joaquim Maria baleado em uma coxa, o capitão Gaspar ferido num pé.  

Entre os prisioneiros acham-se 3 portugueses, um dos quais é da infantaria de S. Paulo desertado em Maldonado na campanha passada. Persuado-me que o senhor marquês os mandará arcabuzar.
Pelo balanço que acabo de dar ao parque vejo, que a artilharia deu cento e quarenta e quatro tiros, que talvez fosse a nossa redenção, pois além do estrago que fez, deu tempo para se pegarem os cavalos que deviam estar pegados antes das 3 horas da manhã. No potreiro  deram-se além destes 13 tiros de artilharia. Distribuiram-se onze mil e tantos cartuchos de espingarda, e sete mil e tantos de clavina. 

Aqui tem vossa Senhoria o resultado das ações do dia 3 no quartel General de Artigas, e do dia 4, na margem direita do Arroio Catalán, da qual tenho a felicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas balas tão poucos palmos distantes do meu corpo, tendo assistido já em uma e já em outra divisão de artilharia que fizeram um vivo fogo sobre a frente, flanco esquerdo, e retaguarda.  

Nada sabemos de combinação com os Talaveiras, sabe-se que Santa Teresa foi retomada por Fructuoso Ribeiro, e Serro Lárgo por Otorgués.

(...)

Campo da Margem direita de Arroio Catalan 8 de Janeiro de 1817
Ignacio Jozé Vicente da Fonseca

09/08/2020

Civil/Exército do Brasil: D. Margarida de Almeida Portugal (Marquesa de Alegrete)

A senhora Dona MARGARIDA DE ALMEIDA PORTUGAL , 5.ª marquesa de Alegrete, nasceu em Santa Clara, Lisboa, aos 24 de Agosto de 1791, filha dos marqueses do Lavradio, D. António de Almeida Portugal e D. Ana Teles da Silva, tendo sido batizada, no mesmo dia, no oratório do Palácio dos marqueses no campo de Santa Clara. 

Em 1807, como muita da corte, viaja para o Brasil. A 1 de Outubro de 1808, casa-se com o 5.º marquês de Alegrete, D. Luís Teles da Silva, na Sé do Rio de Janeiro. 

Acompanhou o marido quando este foi capitão general do São Paulo, em 1811, e depois, do Rio Grande de S. Pedro, em 1814. 

Tem 25 anos de idade quando acompanha o marido na batalha de Catalán, a 4 de Janeiro de 1817, onde, de acordo com testemunhos presenciais, ajudou os feridos no campo após a ação:


Demorámo-nos no Campo da ação o dia 4 e 5, ocupados em enterrar os nossos mortos, e curar os feridos, a senhora Marquesa tem zelado dos doentes com muita caridade, desfiando panos com suas próprias mãos para se curarem as feridas.”

(Tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, Artilharia da Legião de S. Paulo, em carta a Vicente Ferrer da Silva Freire)

*

Um exemplo novo de valor, e de heroísmo serviu para aumentar a celebridade da vitória gloriosa de Catalán: ele foi dado pela marquesa de Alegrete, tão ilustre por suas virtudes como por sangue: a presença do espírito varonil que patenteou no meio dos maiores perigos, e debaixo do fogo inimigo, e com que animava a todos, não foi menos admirável que a prática  incansável de piedade, a que se entregou depois da batalha, em socorro dos feridos , sem distinção de amigos ou inimigos. Ela finalmente se fez  naquele dia  por todos os motivos digna de maior estima, respeito, e admiração do exército.

(Capitão Diogo Arouche de Moraes Lara, Infantaria da Legião de S. Paulo, in: “Campanha de 1816”)

 

* * *


Imagem (topo)

- "Batalha de Catalán", óleo do coronel Pedro Paulo Cantalice Estigarríbia (Hospital Militar de Porto Alegre, RS) 

14/03/2020

Exército do Brasil: Inácio José Vicente da Fonseca


O tenente coronel de artilharia Inácio José Vicente da Fonseca nasceu em S. Paulo, filho natural do coronel de milícias João Vicente da Fonseca, tendo sido batizado a 28 de fevereiro de 1782.

Em 1804 frequentava o curso de Filosofia na Universidade de Coimbra, tendo no ano anterior assentado praça de cadete na artilharia da Legião de Voluntários Reais de São Paulo. Não é certo quando é promovido a 2.º tenente e dessa forma, a oficial de patente, mas em julho de 1805 pede a confirmação da sua promoção a tenente, pelo que terá sido promovido nos meses anteriores.

Em 24 de junho de 1809 é promovido a 1.º tenente da 2.ª companhia de artilharia a cavalo da legião, sendo já 1.º tenente agregado. No mesmo ano, é promovido a saagento mor, quiçá saltando o posto de capitão da artilharia montada.

A 13 de maio de 1815 é graduado em tenente coronel comandante da artilharia da Legião, sendo efetivado no posto a 6 de fevereiro de 1818.

Escreveu uma carta datada de 8 de janeiro de 1817, ao coronel Vicente  Ferrer  da  Silva Freire contendo a sua perspetiva do que aconteceu nos dias 3 e 4 de janeiro, aquando do combate de Arapeí e da batalha de Catalán, esta última onde participa estando na bataria do centro da linha portuguesa. Esta peça de correspondência, pela sua candura, é uma fonte valiosíssima para a compreensão do que aconteceu no campo de Catalán.

LEIA
- Memórias: tenente coronel Vicente da Fonseca (Batalha de Catalán, 1817):

IMAGEM
- Palácio do Governo de S. Paulo, antigo Colégio dos Jesuítas (J. B. Debret)

13/08/2018

Memórias: TenCor Vicente da Fonseca (Catalán, 1817)


A carta do tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, o mais graduado oficial de artilharia da Legião de Voluntários Reais de São Paulo, ao coronel Vicente Ferrer da Silva Freire, de 8 de Janeiro de 1817, 4 dias após a grande batalha de Catalán, relata o recontro de um forma pessoal, estando ele no centro da posição portuguesa, equidistante da ala esquerda que, apeada, sofreu o assédio dos orientais, e da carga de cavalaria oriental na ala direita que foi rechaçada por  Sebastião Barreto e José de Abreu (carga esta a que Artigas atribui a derrota oriental). Adicionalmente, Vicente de Fonseca, enquanto artilheiro e “official scientifico” por excelência, é bastante pormenorizado na sua descrição.

Conforme escreveu Vicente de Fonseca na epístola, e serve para nós que o lemos 200 anos depois, “aqui tem V. S.ª o rezultado das Acçõis do dia 3 no Quartel General de Artigas, e do dia 4 na margem direita do Arroio Catalan, da qual tenho a felicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas bálas tão poucos palmos distantes do meo Corpo”.

Carta do tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, da Legião de S. Paulo, a Vicente Ferrer da Silva Freire (rio Catalán, 8 de Janeiro de 1817)

[transcrição com ortografia modernizada retirada do Archio Artigas, Tomo 33, páginas 14-19]

[Arroyo del Catalán, 8 de enero de 1817.]

[...]
Tendo o excelentíssimo senhor marquês de Alegrete chegado ao nosso campo do Ibirapuitã a 15 de Dezembro do passado, e sabendo pelos nossos bombeiros que os insurgentes se reuniam com grande força e que pretendiam ir atacar-nos naquelle lugar, resolveu, que deviamos então encontrá-los, e conseguintemente levantámos o Campo a 25 dirigindo-nos para o Quaraí.

Passamos este Arroio no dia 31, e falhámos ao 1.°, e tendo neste dia os nossos bombeiros  agarrado 3 bombeiros do inimigo, soubemos destes, que Artigas tinha o seu quartel general no lugar denominado o Potreiro nas imediações do Arapey, aonde somente existiam 400 e tantos homens, e que tinha feito marchar deste lugar o major general Latorre com perto de quatro mil homens, e duas peças de calibre 4, a este tempo já os nossos espias descobriram bombeiros, e pequenas partidas do inimigo pela nossa retaguarda, mas como julgámos que a força maior estava pela nossa frente, levantamos o campo no dia dois, e avançámos 4 léguas e meia, e acampamos na  margem direita do arroio Catalán. A posição de nosso campo era elevada e própria para poder a artilharia operar por todos os lados tinhamos, o flanco ([esquerdo]) direito apoiado por uma sanga, à frente, e flanco esquerdo por pequenas sangas, e a retaguarda pelo arroio ainda que fraco por ser cortado por várias partes.

[SURPRESA DE ARAPEY (3/1)]


Neste mesmo dia fez o senhor marquês marchar a nossa avançada que é comandada pelo tenente coronel de milicias José de Abreu composta de 500 homens (milicianos de Entre Rios, algumas guerrilhas de paisanos, 100 homens de infantaria da Legião de S. Paulo, e 2 peças de calibre 3 comandadas pelo tenente Luz formam os mencionados 500  homens).

Saíram ao pôr do sol com ordem de marchar toda a noite para na madrugada do dia 3 surprenderem a Artigas no mencionado potreiro, mas apesar de terem marchado toda a noite chegaram a esse lugar uma hora depois de amanhecer, e por este motivo foram percebidos pelas guardas avançadas do inimigo, e pode Artigas escapar se precipitadamente deixando a sua carretilha, e até mesmo o seu ponche, escaparam muitas familias, e a maior parte da guarnição, e uma porção que ainda não tinha fugido foram derrotados pelos nossos depois de fazerem uma grande resistência.

Artigas tinha escolhido um lugar para seu quartel general aonde a Cavaleria não podia operar, e por isso somente a artilharia e infantaria de S. Paulo, e poucos de cavalaria a pá decidiram desta acção, (ouvimos os tiros de artilharia, e seriam 8 horas da manhã) a perda do Imimigo consistio em setenta e tantos mortos incluso um ajudante, 6 prisioneiros, ficou em nosso poder a carretilha de Artigas, 1500 mil e quinhentos cavalos, e algumas munições.
A nossa perda consistiu em dois soldados mortos da infantaria de S. Paulo, que foram os primeiros que investiram o mato, e 4 feridos da mesma infantaria sendo 2 gravemente. 

O valente tenente coronel Abreu pretendia perseguir a Artigas, mas sabendo dos prisioneiros, que Latorre tinha avisado a Artigas, que no dia 4 pretendia bater os portugueses, e que nesse mesmo dia estaria com ele vitorioso no potreiro, com esta notícia (apesar de não ter a nossa tropa comido, e nem dormido) picou a marcha o tenente coronel Abreu para reunir-se a nós com a brevidade possível, o que conseguiu no mencionado dia 3 depois de anoitecer; com a chegada do Abreu deram-se as ordens necessárias, e foram, que às três horas da manhã estaria toda a cavalcria montada, e toda a mais tropa debaixo de armas, mas assim não aconteceu por causa das facilidades, estivemos com efeito debaixo de armas às horas determinadas, porém só a cavalaria de S. Paulo estava montada, e Dragões e Milicianos não tinham pegado cavalos. E se não fosse a artilharia, e o valor da nossa tropa, o inimigo teria a conseguido uma completa surpresa.

[BATALHA DE CATALÁN (4/1)]

Eram 4 horas e meia, e naquele momento tinha o nosso clarim acabado de tocar a alvorada, quando um chefe de guerrillas, que guardava uma nossa cavalhada que estava sobre o nosso acampamento no flanco esquerdo, presentiu os charruas avançarem para roubá-la, mandou logo disparar oito tiros, e reuniu-se a nós com a cavalhada que pode, eu estava na bataria do centro que é composta de 4 obúses, conversando com o major Pitta que é o comandante desta divisão de artilharia.

Principiámos logo a ouvir o grande alarido que costumam fazer estes bárbaros, e a descobrir um grande negrume por todas a coxilha que estava pela nossa frente, flanco, esquerdo e retaguarda. A nossa tropa dispos-se imediatamente para entrar em ação, e o inimigo aproximava-se cada vez mais tocando a sua música com grande desafogo.

A este tempo que seriam passados 5 minutos depois que foram percebidos, apareceu logo o senhor marquês na frente da tropa montado a cavalo animando-a com muita coragem, e vendo que o inimigo ja estava pelo nosso flanco esquerdo em distância de fuzil, mandou logo romper o fogo de artilharia, o que se executou prontamente, e tive então o gosto de ver laborar ao mesmo tempo toda a artilharia do meu comando, estava disposta em divisões sendo a do centro comandada pelo major Pitta, e composta de 4 obúses que lancaram granadas que fizeram um efeito terrível, a divisão da esquerda composta de 3 peças de calibre 6 é comandada pelo capitão José Olinto, a da direita composta de 2 peças de calibre 3 pelo tenente António Soares, as duas peças de 3 comandada pelo tenente José Joaquim da Luz estavam postadas num corpo de reserva que guardava a cavalhada, o inimigo respondeu-nos logo com o seu fogo de artilharia, as suas balas passavam muito altas, mas sempre acertaram com uma bala em um reparo de uma peça de 6 que chegou a partir o eixo de ferro. 

A cavalaria inimiga atemorizada pelo nosso fogo amiudado de artilharia e não se animou a avançar, estava formada em 2 linhas em número de mais de dois mil homens, a infantaria inimiga formada na frente da cavalaria em duas fileiras, e com grande intervalo de um a outro soldado desceu a coxilha por baixo do fogo de artilharia, passou uma sanga, e apareceu-nos pela frente em pequena distância de onde nos deu uma descarga cerrada.

A este mesmo tempo os lanceiros charruas carregaram sobre o nosso flanco direito, o senhor marquês correu para este flanco pelo meio das balas, e fez avançar uns cento e cinquenta e tantos dragões que já se achavam montados para rebater os charruas, e imediatamente tocar a degola fazendo avançar a brava infantaria de S. Paulo de baioneta calada, foi quando vi com muita satisfação estes meus valentes patrícios correrem por um terreno cheio de pedras que mais parecia voarem do que correr. Levando por diante uma poeira a infantaria inimiga a bala, e ponta de baioneta fazendo-lhes fogo mesmo à queima roupa.

Nesta mesma ocasião avançou o bravo e incomparável tenente coronel José de Abreu com 300 homens pouco mais ou menos que eram milicianos de Entre Rios, cavalaria de S. Paulo, Dragões, Milicianos, e algumas guerrilhas de paisanos, e com este punhado de homens valentes pôs a cavalaria inimiga em vergonhosa fugida perseguindo-os, e fazendo uma grande mortandade até à distância de 3 léguas, tomando muitos cargueiros de munições, e cinco mil e tantos cavalos.

Enquanto o tenente coronel Abreu perseguia a cavalaria, a infantaria de S. Paulo, e os Milicianos do Rio Pardo, e Porto Alegre a pé por não terem tido tempo de pegar cavalos continuaram um vivo fogo contra uma grande porção da infantaria inimiga que se tinha emboscada em um pequeno mato, fizeram uma resistência terrível, mas nada pode vencer ao valor das nossas tropas, e não tiveram remédio senão depôr as armas uns 239 que ainda viviam, entre estes 6 oficiais um dos quais é sobrinho de Artigas, e também há um inglês.

A força inimiga era composta de 3200 homens, sendo mil e tantos de infantaria, tinham duas peças de artilharia, e mais 400, e tantos homens que guardavam a cavalhada. O comandante em chefe era o major general Latorre, o coronel Mondragon o comandante da cavalaria, e o coronel Berdún comandava a infantaria e artilharia. Dizem varios prisioneiros que Berdún morrera, porém esta notícia ainda não se verificou, e por isso não dou como certa.

A nossa força era composta de dois mil duzentos e tantos homens, e 11 bocas de  fogo, mas em rigor entrariam na acção 1300 a 1400 homens, ficando os mais guardando as cavalhadas, boiadas, e bagagens.

Da relação junta verá V. S. qual foi a nossa perda, uma grande parte dos nossos feridos foram gravemente, e já tem morrido muitos: a perda do inimigo foi considerável, contam-se em pequena distancia 468 mortos inclusos muitos oficiais, e não se contaram os que ficaram estivados por esse campo até a distância de 3 léguas.
Ficaram prisioneiros 239 inclusos 6 oficiais, (dos prisioneiros já tem morridos uma grande parte dos feridos) tem-se apresentado até hoje vinte e tantos, tomámos a sua artilharia que eram duas peças de calibre 4, uma carreta com muitas munições de infantaria e artilharia, muitos cargueiros com munições, 5000 e tantos cavalos, um estandarte, caixas de guerra, instrumentos de música, e muito armamento, pode-se avaliar por um cálculo bem aproximado que a perda do inimigo entre mortos, prisioneiros, e aprezentado excede a mil homens.

O fogo durou até às onze horas e três quartos da manhã. O senhor marquês correu depois por todas as fileiras dando mil agradecimentos a toda a tropa, que assim mesmo fatigada, e muitos lavados em sangue das feridas que tinham recebido gritavam com grande corágem, que estavam prontos para principiar já outro combate, então o senhor marquês dava mil vivas a sua Majestade, que eram mutuamente correspondidos por toda a tropa, e todo se finalizou com uma salva real de 21 tiros de artilharia.  

À tarde o senhor marquês assitiu ao funeral dos nossos oficiais mortos, e foram carregados pelo senhor marquês, senhor tenente general Curado, brigadeiros, estado  maior de S. Excelência, etc.  



Demoramo-nos no campo da ação o dia 4, e 5 ocupados em enterrar os nossos mortos, e curar os feridos, a senhora marquesa tem zelado dos doentes com  muita caridade,  desfiando panos com suas própias mãos para se curarem as  feridas. 

No dia 6 avançámos 3 léguas para baixo do mesmo arroio Catalán para fugir da podridão que já infeccionava o campo, e aqui nos conservamos sem por ora saber de nosso destino sobre a marcha.  

Os nossos bombeiros chegaram hoje, e dizem que a reunião dos dispersos é na Purificação, e consta que Artiguinhas  já passou o Uruguay para este lado em Japejú, e que se reuniu a Artigas com 1500  homens. Eu estou persuadido que os homens se reúnem com grande força e que breve teremos outro divertimento, tão bem estou persuadido que Artigas não nos aparece agora com menos de 5000 homens, o que pode conseguir com a junção de Otorgués, e hão de continuar a aparecer-nos em quanto restar a Artigas um único homem.  

Esqueceu-me referir que o inimigo já nos tinha tomado na nossa retaguarda treze carretas de vivandeiros que vinham com uma marcha de diferença da nossa, e eram o mulato Romualdo, e o José Cabeça, mas todas foram restauradas no dia da acção, e felizmente todos os vivandeiros que eles conservavam prisioneiros, e não tiveram tempo de matar um só.

O meu camarada e amigo major Rosário [António José do Rosário, Inf LTL] caiu morto ao meu lado esquerdo logo das primeiras balas do inimigo, ele certamente nem soube de que morreu, que tão repentina foi a sua morte de uma bala que lhe passou ambas as frontes, logo o mandei carregar para baixo de um carro de munições, e o mandei cobrir com um ponche. 

Os capitães Prestes [José de Paula Prestes, RegDrag], e Corte  Real [Francisco de Borja de Almeida Corte Real, RegDrag], e o secretário de Dragões [Eleutério Severiano dos Santos Pereira]; o valente furriel Moura [Mateus José de Moura] da cavalaria de S. Paulo, e o cadete da mesma cavalaria filho do coronel engenheiro de S. Paulo [Manuel Joaquim Carneiro de Fontoura] morreram todos trespassados de lanças dos charruas, e o ajudante Marçal foi ferido de cutiladas na cabeça. O tenente Joaquim Maria baleado em uma coxa, o capitão Gaspar ferido num pé.  

Entre os prisioneiros acham-se 3 portugueses, um dos quais é da infantaria de S. Paulo desertado em Maldonado na campanha passada. Persuado-me que o senhor marquês os mandará arcabuzar.
Pelo balanço que acabo de dar ao parque vejo, que a artilharia deu cento e quarenta e quatro tiros, que talvez fosse a nossa redenção, pois além do estrago que fez, deu tempo para se pegarem os cavalos que deviam estar pegados antes das 3 horas da manhã. No potreiro  deram-se além destes 13 tiros de artilharia. Distribuiram-se onze mil e tantos cartuchos de espingarda, e sete mil e tantos de clavina. 

Aqui tem vossa Senhoria o resultado das ações do dia 3 no quartel General de Artigas, e do dia 4, na margem direita do Arroio Catalán, da qual tenho a felicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas balas tão poucos palmos distantes do meu corpo, tendo assistido já em uma e já em outra divisão de artilharia que fizeram um vivo fogo sobre a frente, flanco esquerdo, e retaguarda.  

Nada sabemos de combinação com os Talaveiras, sabe-se que Santa Teresa foi retomada por Fructuoso Ribeiro, e Serro Lárgo por Otorgués.

[...]

Campo da Margem direita de Arroio Catalan 8 de Janeiro de 1817
Ignacio Jozé Vicente da Fonseca

* * *

Conheça as biografias:
Marquês de Alegrete [ler]
José de Abreu [ler]

Transcrição e modernização de ortografia de:
- Archivo Artigas, volume 33: pp.14-19

04/01/2017

Batalha de Catalán: 4 de Janeiro de 1817


O capitão general da província do Rio Grande de S. Pedro, o marquês de Alegrete, tomando o comando do exército junto ao rio Ibirapuitã a 15 dezembro, decide enviar 600 homens demonstrar na área de Santana do Livramento, esperando que o engodo permitisse por um lado dividir as forças de José Artigas, na área de Arapey, a norte da atual localidade de Tacuarembó, e, ao mesmo tempo, cobrir o grosso do exército enquanto cruzava o rio Quaraí para dentro do território inimigo.

Quando cruza o Quaraí (rio que marca hoje como então a divisa), a sudeste das cidades de Quaraí e Artigas, a 31 de Dezembro, Alegrete descobre por desertores orientais que Artigas tomou o engodo e que Latorre se havia destacado com 3400 homens para enfrentar a ameaça de Santana, ficando o chefe oriental em Arapey com 400 a 800 homens. Soube também que Latorre, se bem que havia sido enganado, o havia percebido rapidamente e havia já iniciado a procura do exército principal português a oeste, com o propósito de o bater.



Acampado já junto ao rio Catalán, desde o dia 2 de janeiro, Alegrete envia Abreu e 600 homens para atacar o Potreiro de Arapey, onde Artigas estava, enquanto dispõe uma força de cavalaria de Dragões do Rio Pardo, na estrada entre Arapey e Santana, zona de onde vinha o grosso do exército oriental sob o comando de Andrés Latorre. 

[Leia mais sobre o ataque do Potreiro de Arapey, a 3 de janeiro de 1817]

A Batalha

O marquês do Alegrete, o comandante português, descreveu a batalha como a “primeira na historia Militar do Brazil”. O jefe de los orientales José Artigas ele mesmo escreveu que os orientais “hemos perdido una acción que debemos llorar eternamente”.
O capitão Sebastião Barreto Pereira Pinto, que comandou os Dragões do Rio Pardo neste dia, reflete que Catalán foi “sem a menor dúvida, [...] a mais forte e mais gloriosa [acção], que têm tido as nossas Armas contra os Inimigos”.


De facto, Catalán foi a maior batalha da campanha de 1816, envolvendo cerca de 6000 homens nos dois lados e 13 peças de artilharia. 
Pode parecer pouco, face a outros conflitos, mas toda esta área era desabitada. Toda a capitania do Rio Grande tinha apenas cerca de 40 mil habitantes. Quase todas as cidades e vilas que lá existem hoje, não existiam então, e o teatro Oeste, em particular, era uma zona de fronteira numa fase muito precoce de colonização. Para comparação, Carumbé, que foi a segunda maior batalha no Oeste, teve 2000 participantes, apenas um terço de Catalán.


Leia também a II parte:

Batalha de Catalán (II): Ordem de batalha e baixas



Os Testemunhos

Devido à dimensão e importância da batalha de Catalán, encontramos um maior número de memorialistas que nos legaram o seu testemunho. Alguns deles falam ainda da ação do Potreiro de Arapey, pelo que deve ser visto em conjunto com a postagem acerca dessa ação, ocorrida no dia anterior e um seu prólogo.

O 5.º marquês do Alegrete, D. Luís Telles da Silva Caminha e Meneses, capitão general do Rio Grande de S. Pedro, comandante de todas as forças militares na capitania, ficou em Porto Alegre, de cama por causa da gota, uma doença que o afligia frequentemente, e organizando os reforços ao exército comandando por Joaquim Xavier Curado. Contra a expetativa de muitos, mas decerto percebendo a monumentalidade do que estava apara acontecer, Alegrete tomou o comando do exército a 15 de Dezembro, e em pouco tempo tomou a iniciativa... e saiu vencedor. 
O seu testemunho é retirado da parte oficial ao secretário de estado dos negócios da guerra no Rio de Janeiro, o marquês de Aguiar. Este ministro, o grande ideológo da campanha e com uma vasta experiência política no Brasil, estava já doente e morreria no dia 24 de janeiro, sem saber desta vitória e da posterior conquista de Montevideu, a sul.

O tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca era o mais graduado oficial de artilharia da Legião de Voluntários Reais de São Paulo, e, dessa forma, de toda a artilharia do exército. 
A sua carta a Vicente Ferrer da Silva Freire relata a batalha de um forma pessoal, estando ele no centro da posição portuguesa, equidistante da ala esquerda que, apeada, sofreu o assédio dos orientais, e da carga de cavalaria oriental na ala direita que foi rechaçada por  Sebastião Barreto e José de Abreu (carga esta a que Artigas atribui a derrota oriental). Adicionalmente, Vicente de Fonseca, enquanto artilheiro e “official scientifico” por excelência, é bastante pormenorizado na sua descrição.
Conforme escreveu Vicente de Fonseca na epístola, e serve para nós que o lemos 200 anos depois, “aqui tem V. S.ª o rezultado das Acçõis do dia 3 no Quartel General de Artigas, e do dia 4 na margem direita do Arroio Catalan, da qual tenho a felicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas bálas tão poucos palmos distantes do meo Corpo”.

O capitão Sebastião Barreto Pereira Pinto comandou o Regimento de Dragões do Rio Pardo nesta batalha, como na de Carumbé. As suas memórias sobre a a batalha estão numa carta ao comandante do seu regimento, o brigadeiro Tomás da Costa Correia Rebelo e Silva e apesar de se cingirem mais à atuação dos Dragões, dão uma perspetiva de quem combateu, algo sempre tão ausente na historiografia militar portuguesa desta altura.
Este oficial comanda parte da repulsa da carga de cavalaria oriental na sua ala esquerda, destinada a quebrar a linha portuguesa, que ditou a derrota oriental.

De José Artigas, chefe oriental, que creio não ter estado em Catalán, embora não o tenha por certo, ficaram algumas observações numa carta a Miguel Barreiro, então governador de Montevidéu. Dá-nos pormenores sobre a constituição das forças orientais e a sua visão sobre o seu próprio exército.

Porque as memórias são tantas e não obedecem às mesmas formas de contar a história, decidi colocar excertos de cada testemunho, sequencialmente e dessa forma intercalando as vozes, de maneira a permitir uma leitura mais fluída destas fontes e perceber melhor como decorreu esta batalha e os seus muitos pormenores. Espero honrar assim as memórias destas bravos homens e facilitar a vida ao caríssimo leitor.
Assim, cada extrato estará identificado com um dos seguintes consoante seja ao início ou fim de cada extrato extrato:

[A] ou [Alegrete] – [P] ou [Pereira Pinto] – [V] ou [Vicente da Fonseca] – [ARTIGAS] ou [Artigas] 
[Há apenas um extrato de Artigas, no fim]



A BATALHA DE CATALÁN EM TESTEMUNHOS

nota: uma légua portuguesa antiga são cerca de 6600 metros.


Antecedentes

[15/12]
[A] Foi em o dia 15 de Dezembro que o estado da minha saúde me permitiu reunir-me ao Exército que se achava na margem direita do Rio Ibirapuitã, e o inimigo na distância de 16 léguas ocupava uma posição extremamente forte na margem do rio Arapey. 
[Alegrete] 

[V] Tendo o Ex.º Snr. Marquês de Alegrete chegado ao nosso campo do Ibirapuitã a 15 de Dezembro do passado, e sabendo pelos nossos Bombeiros que os Insurgentes se reuniam com grande força e que ([....]) pretendiam ir atacar-nos  naquele lugar,  
[Vicente da Fonseca]



Diversão do brigadeiro Rebelo e Silva

[16-20  de dezembro]
[A] Informaram-me porém os meus espias que havendo recebido reforços projectava atacar-me, nada convinha tanto como trazê-lo a uma acção geral, e separá-lo da posição que ocupava. Para o conseguir  tentei-o com forças inferiores fazendo marchar 500 homens de cavalaria comandados pelo Brigadeiro Tomás da Costa Correia  Rebelo e Silva para os serros de Santa Anna ordenando-lhe que depois de se fazer ver dos espias, e partidas do inimigo se reunisse no Exército ocultando a direção da sua marcha. 
[Alegrete]

[25/12]
Andres Latorre


A Coluna principal portuguesa

[A] Enquanto se executava este movimento eu marchava com o Exército para o Passo do Faria no Rio Quaraí, 8  léguas abaixo dos serros de Santa Anna para o qual ponto acreditando o inimigo a nossa marcha se dirigiu com força de 3400 homens debaixo do comando do Major General [Andrés] La Torre. Artigas porém ficou na sua posição de Arapey com uma escolta de 400 homens,  reserva de  munições, cavalos e bagagens.  
[Alegrete]

[V] [O marquês de Alegrete] resolveu, que deviamos encontrá-los, e consiguintemente levantámos o Campo a 25 dirigindo-nos para o Quaraí;  
[Vicente da Fonseca]



Descobertas as posições orientais

[(28/12) - 1/1]
[A] Imediatamente à minha chegada a Quaraí fui completamente informado das disposições do inimigo, e procurei adiantar-me para cortar a comunicação de Artigas com o seu Exército o que consegui sendo esta posição vantajosa assim para esperar o inimigo como para tentar um golpe de mão sobre Artigas, 
[Alegrete]

[31/12] [V] passámos este Arroio [Quaraí] no dia 31, [1/1] / e falhámos ao 1.°, e tendo neste dia os nossos Bombeiros agarrado 3 Bombeiros do Inimigo, soubémos destes que Artigas tinha o seu Quartel General no Lugár denominado o Potreiro nas Imediaçoes do Arapey, aonde somente existião 400 e tantos homens, e que tinha feito marchar ([daqui]) deste  lugar o Major General Latorre com perto de quatro mil homens, e duas Pesas de  Calibre 4, a este tempo já os nossos Espias descobriram Bombeiros, e pequenas partidas do Inimigo pela nossa retaguarda, mas como julgámos que a força maior estava pela nossa frente, [2/1] levantamos o Campo no dia 2, e avançámos 4 legoas e meia, e acampámos na  Margem direita do Arroio Catalan; a posição de nosso Campo era elevada e propria para poder a Artilharia operar por todos os lados tinhamos, o Flanco ([esquerdo]) direito apoiádo por huma Sanga, a frente, e flanco esquerdo por pequenas sangas, e a retaguarda pelo Arroio ainda que fraco por ser cortado por varias partes;  
[Vicente da Fonseca]




José de Abreu ataca o Potrero de Arapey

[2/1 - NOITE]
[A] / com este fim puz em marcha na noite do dia 2 o Tenente Coronel José de Abreu com 600 homens, a infantaria, cavalaria, e 2 peças de artilharia, 
 [Alegrete]

[V] / neste mesmo dia fez o Snr. Marquês marchar a nossa avançada que é comandada pelo Tenente Coronel de Milicias José de Abreu composta de 500 homens (Milicianos de Entre Rios, algumas Guerrilhas de  Paisanos, 100 homens  de Infantaria da Legião de S. Paulo, e 2 Peças de Calibre 3 Comandadas pelo Tenente Luz formam os mencionados 500 homens); sahiram  ao pór do sól com ordem de marchar toda a noite para  na madrugada do dia 3 surprenderem a Artigas no mencionado Potreiro, 
[Vicente da Fonseca]

[A] [...] e fiz marchar o Regimento de Dragoens a postarse na estrada de Arapey para Santa Anna observando os movimentos do inimigo por este lado, ou reforçando o Tenente Coronel Abreu se o necessitasse.  
[Alegrete]



Batalha de Arapey

[ARAPEY]
[3/1 - AMANHECER]
[A] Ao amanhecer do dia 3 atacou este Tenente Coronel [José de Abreu] com o seu costumado valor a posição de Artigas, e depois de algum fogo carregou com a baioneta e Espada, e foi levada a posição escapando-se porém Artigas, a perda do inimigo consistiu em 80 mortos, alguns prisioneiros, grande quantidade de apetrechos de guerra, inutilizando-se os que não se podiam  transportar, 1400 cavalos. 
[Alegrete]

[V] / mas apesar de terem marchado toda a noite chegaram a esse lugar uma hora depois de amanhecer, e por este motivo foram percebidos pelas Guardas avançadas do Inimigo, e pode Artigas escapar-se precipitadamente deixando a sua Carretilha, e até mesmo o seu Ponche, escaparam muitas famílias, e a maior parte da Guarnição, e uma porção que ainda não tinha fugido foram derrotados pelos nossos depois de fazerem uma grande resistência; Artigas tinha escolhido um lugar para seu Quartel General aonde a Cavalaria não podia operar, e por isso somente a Artilharia e Infantaria de S. Paulo, e poucos de Cavalaria a pé decidiram desta Acção, (ouvimos os tiros de Artilharia, e seriam 8 horas da manhã.  A perda do Inimigo consistiu em setenta e tantos mortos incluso um Ajudante, 6 Prisioneiros, ficou em nosso poder a Carretilha de Artigas, 1500 Cavalos, e algumas munições; a nossa perda consistiu em dois Soldados mortos da Infantaria de S. Paulo, que foram os primeiros que investiram o mato, e 4 feridos da mesma Infantaria sendo 2 gravemente. 
[Vicente da Fonseca]



Retorno de Abreu ao acampamento

[A] Em o mesmo dia executando o que lhe tinha ordenado reuniu-se ao Exército o Tenente Coronel Abreu, e juntamente o Regimento de Dragões. 
[Alegrete]

[V] O valente Tenente Coronel Abreu pretendia perseguir a Artigas, mas sabendo dos Prisioneiros, que Latorre tinha avisado a Artigas, que no dia 4 pretendia bater os Portuguezes, e que nesse mesmo dia estaria com ele vitorioso no Potreiro, com esta noticia (apesar de não ter a nossa Tropa comido, e nem dormido) picou a marcha o Tenente Coronel Abreu para reunir-se a nós com a brevidade possível, o que conseguiu no mencionado dia 3 depois de anoitecer; com a chegada do Abreu deram-se as Ordens necessárias, e foram, 
[Vicente da Fonseca]



Reação de Latorre à diversão portuguesa

[A] Conhecendo o inimigo o movimento falso que tinha feito sobre o Serro de Santa Anna, passou para a margem direita do Quaraí para seguir-nos, e cumprir com a ordem positiva de atacar-nos, em o dia 3 tornou a passar para a esquerda do Quaraí, tomou uma posição na distância de 3 léguas da nossa.
[4/1 - AMANHECER]
Em o dia 4 ao amanhecer deram parte os postos avançados da proximidade do inimigo que não tardou em apresentar-se apoiando os flancos com artilharia, e cobrindo os seus movimentos com grandes número de lanceiros de Índios Charruas, Minuanos e Baicurús, e em esta ordem atacou impetuosamente toda a linha.  
[Alegrete]




Movimentações e ataque oriental

[4/1 – 0300H]
[V] / que às três horas de manhã estaria toda a Cavalaria montada, e toda a mais Tropa debaixo de Armas, mas assim não aconteceu por causa das facilidades, estivemos com efeito debaixo d'Armas ás horas determinadas, porém só a Cavalaria de S. Paulo estava montada, e Dragões, e Milicianos não tinham pegado Cavalos; e se não fosse a Artilharia, e o valor da nossa Tropa, o Inimigo teria conseguido uma completa surpresa. 
[4/1 – 0430H] Eram  4 horas e meia, e naquele momento tinha o nosso clarim acabado de tocar a Alvorada, quando um chefe de Guerrilhas, que guardava uma nossa Cavalhada, que estava sobre o nosso acampamento no flanco esquerdo, pressentiu os charruas avançarem para roubá-la, mandou logo disparar oito tiros, e reuniu-se a nós com a Cavalhada que pode, eu estava na Bataria do centro que é composta de 4 Obuses, conversando com o major Pitta que é o  comandante desta divisão de Artilharia, principiámos logo a ouvir o grande alarido que costumam fazer estes bárbaros, e a descobrir um grande negrume por toda a Coxilha que estava pela nossa frente, flanco esquerdo e retaguarda. A nossa Tropa dispôs-se imediatamente para entrar em acção, e o Inimigo aproximava-se cada vez mais tocando a sua música com  grande desafogo, [4/1 – c. 0435H] a este tempo que seriam passados 5 minutos depois que foram percebidos, apareceu logo o Snr. Marquês na frente da Tropa montado  a Cavalo animando-a com muita coragem, e vendo que o Inimigo já estava pelo nosso flanco esquerdo em distância de fuzil, mandou logo romper o fogo de Artilharia, o que se executou prontamente, 
[Vicente da Fonseca]

[A] / Pretendia o inimigo pela superioridade numérica das suas forças desenvolver-se para voltear-nos, julguei por isso necessário que a esquerda da linha se limitasse por alguns momentos à defensiva, 
[Alegrete]



Papel da Artilharia e linha oriental

[V] / e tive então o gosto de ver laborar ao mesmo tempo toda a Artilharia do meu comando, estava disposta em divisões sendo a do centro comandada pelo Major Pitta, e composta de 4 Obuses que lançaram Granadas que fizeram um efeito terrível, a divisão da esquerda composta de 3 peças de calibre 6 é comandada pelo capitão José Olinto, a da direita composta de 2 peças de calibre 3 pelo tenente  António Soares, as duas peças de 3 comandada pelo tenente José Joaquim da Luz estavam postadas em um Corpo de Reserva que guardava a cavalhada, o Inimigo respondeu-nos logo com o seu fogo de Artilharia, as suas balas passavam muito altas, mas sempre acertaram com uma bala em hum reparo de uma peça de 6 que chegou a partir o eixo de ferro.
A cavalaria inimiga atemorizada pelo nosso fogo amiudado de artilharia não se animou a avançar, estava formada em 2 linhas em numero de mais de dois mil homens, a infantaria inimiga formada na frente da cavalaria em duas fileiras, e com grande intervalo de um a outro soldado desceu a coxilha por baixo do fogo de artilharia, passou uma sanga, e apareceu-nos pela frente em pequena distância de onde nos deu uma descarga cerrada, 
[Vicente da Fonseca]




Contracarga de cavalaria na ala direita portuguesa

[A] / e dirigindo-me do centro à direita mandei atacar o flanco esquerdo do inimigo, a carga pelo Regimento de Dragões, um esquadrão de cavalaria da Legião de São Paulo, e o ataque de baioneta da mesma infantaria da Legião são dignos de maiores elogios, atrevendo-me a dizer que nem uma Tropa do mundo pode exceder à intrepidez com que foi executada esta manobra, [...] 
[Alegrete]

[P] Os esquadrões de Dragões de meu comando, para onde carregou a cavalaria intervalada com minuanos, teve de ter muita constância, para poder resistir-lhe, o primeiro quarto do primeiro esquadrão foi repelido, pela grossa força do inimigo que sobre ele carregou; porém num momento, se reuniu, e atacando com o valor de costume, deu princípio à derrota do inimigo. 
[Pereira Pinto]




Carga de Infantaria de São Paulo

[V] / a este mesmo tempo os Lanceiros Charruas carregaram sobre o nosso flanco direito, o Snr. Marquês correu para este flanco pelo meio das balas, e fez avançar uns cento e cinquenta e tantos dragões que já se achavam montados para rebater os Charruas, mandou imediatamente tocar a degola fazendo avançar a brava infantaria de S. Paulo de Baioneta Calada, foi quando vi com muita satisfação estes meus valentes patrícios correrem por um terreno cheio de  pedras que mais parecia voarem do que correr; levando por diante uma poeira a infantaria Inimiga a bala, e ponta de baioneta fazendo-lhes fogo mesmo a queima roupa
[Vicente da Fonseca]




Fracasso da carga oriental de cavalaria

[ARTIGAS] [...] Se presentó la acción sin necesidad, pero executada ya estabamos triunfantes habiendo penetrado su Campam.to roto su linea, tomado la Artilleria y todo en confusión, la Cavallería del costado izquierdo q.e era Correntina y gente del Entre Ríos q.e eran en números de 800 homb.s desampararon la línea de avance de solo 60 Portug.s q.e parece increible. 
[Artigas]




O comando de Alegrete

[P] É mais que tudo memorável, a Bravura com que o nosso Exmo. Marquês, exposto ao forte fogo se põem a frente do Exercito, mandado operar os corpos conforme as circunstâncias. Ele foi quem deu a Dragões a voz d'Avançar, e é finalmente achado onde  porque é preciso. Em suma nada tem que invejar dos grandes generais.  
[Pereira Pinto]



Carga de José de Abreu

[A] [...] habil, e valerosamente secundada por uma carga feita pelo Tenente Coronel Abreu à testa de um esquadrão de milícias d'Entre Rios.  
[Alegrete]

[V] Nesta mesma ocasião avançou o bravo, e incomparável Tenente Coronel José de Abreu com 300 homens pouco mais ou menos que eram Milicianos de Entre  Rios, cavalaria de S. Paulo, Dragões, Milicianos, e algumas Guerrilhas de paisanos, e com este punhado de homens valentes por a Cavalaria Inimiga em  vergonhosa fugida perseguindo-os, e fazendo uma  grande mortandade até a distância de 3 léguas, tomando muitos cargueiros de munições, e cinco mil e tantos Cavalos: 
[Vicente da Fonseca]

[A] Consegui voltear o inimigo ainda empenhado contra a nossa esquerda, e fazendo um fogo o mais vivo de artilharia, e mosquetaria continuava na teima de voltear-nos por este lado; o segundo batalhão de infantaria da Legião de São Paulo, e artilharia do mesmo corpo, o Regimento de Milícias do Rio Pardo, e um esquadrão de Milícias de Porto Alegre sustentaram valerosamente a posição.
O tenente coronel Joaquim Mariano [Galvão de Moura] com 100 homens de Infanteria ocupou um pequeno bosque que cobria a retaguarda da nossa esquerda, elevando eu ali uma do esquadrão da minha guarda, e um esquadrão da cavalaria de São Paulo, ordenei que esta cavalaria  atacasse protegida pela infantaria, foi este ataque simultâneo com todas as tropas da esquerda pôs em fuga o inimigo em todas as direções.
Mandei imediatamente o tenente coronel Abreu a perseguir o inimigo o que executou na distância de 3 léguas. 
[Alegrete]




Ala esquerda portuguesa e vitória

[V] / enquanto o tenente coronel Abreu perseguia a cavalaria, a infantaria de S. Paulo, e os  Milicianos do Rio Pardo, e Porto Alegre a pé por não terem tido tempo de pegar Cavalos continuaram um vivo fogo contra uma grande porção da infantaria Inimiga que se tinha emboscada em um pequeno mato, fizeram uma resistência terrível, mas nada pode vencer ao valor das nossas tropas, e não tiveram remédio senão depor as armas uns 239 que ainda viviam, entre estes 6 oficiais um dos quais é sobrinho de Artigas, e também há um inglês.  
[4/1 – 1145H]
O fogo durou até às onze horas e três quartos da manhã. O Snr. Marquês correu depois por todas as fileiras dando mil agradecimentos a toda a tropa, que assim mesmo fatigada, e muitos lavados em sangue das feridas que tinham recebido gritavam com grande coragem, que estavam prontos para principiar já outro combate, então o Snr. Marquês dava mil vivas a Sua Majestade, que eram mutuamente correspondidos por toda a Tropa, e todo se finalizou com uma salva real de 21 tiros de artilharia.  




Os vivos e os mortos

[4/1 – TARDE] À tarde o Snr. Marquês assistiu ao funeral dos nossos oficiais mortos, e foram carregados pelo Snr. Marquês, Snr. Tenente General Curado, Brigadeiros, Estado maior de S. Ex.ª  &.  &.  
[4-5/1] Demorámo-nos no Campo da Acção o dia 4 e 5, ocupados em enterrar os nossos mortos, e curar os feridos, a senhora Marquesa [D. Margarida de Almeida] tem zelado dos doentes com muita caridade, desfiando panos com suas própias mãos para se curarem as feridas. 
[6/1] No dia 6 avançamos 3 léguas para baixo do mesmo Arroio Catalan para fugir da podridão que já infeccionava o Campo, e aqui nos conservámos sem por ora saber de nosso destino sobre a marcha. 
[Vicente da Fonseca]

* * *

PLANO DA BATALHA DE CATALÃ

Ganhada no dia 4 de Janeiro de 1817
Mapa original que se encontra no masnuscrito da Memória da Campanha de 1816, do capitão Diogo Arouche de Moraes Lara.


1. Regimento de Dragões
2. Cavalaria da Legião de S. Paulo
3. Peças de Artilharia calibre de 3
4.  1.º Batalhão da Legião
5. Obuses de 6 polegadas
6. 2.º Batalhão da Legião
7. Peças de Artilharia calibre de 6
8. Esquadrões de Porto Alegre
9. Regimento de Milícias do Rio Pardo
10. Dito de Entre Rios
11.  Infantaria da Legião destacada na vanguarda do Exército
12. Peças de Artilharia calibre 3 também destacadas na vanguarda.
13. Partida avançada de Cavalaria da Legião de S. Paulo
14. Guarda de Cavalaria da pessoa do General em Chefe
15. Ala esquerda do inimigo
16. Ala direita do inimigo
17. Infantaria do inimigo
18. Peças de Artilharia Calibre de 4 do inimigo
19. Cavalaria e infantaria inimiga em reserva

AB Linha de frente do acampamento português
CD Ultima posição tomada pelo inimigo é uma escavação da vertente em que ele apoiou-se na infantaria em ordem singela de batalha de onde continuou a fazer fogo.
EF Linha primitiva do inimigo
GHD Linha de Batalha do Exército português
IL Movimento da ala esquerda inimiga para(?) o ataque da ala direita do exército português
MN Movimento de cavalaria e infantaria inimiga para o ataque da retaguarda
P Guarda avanaçada de cavalaria da Legião de S. Paulo
Q Quartel general
R Posição da reserva inimiga
S Posição atacada pela infantaria portuguesa depois de rota a linha do inimigo estando por este ocupada com grande força de infantaria.
IT Direção da fuga da reserva e ala esquerda inimiga
U Direção da fuga da cavalaria inimiga destinada ao ataque da retaguarda
x Direção da fuga da Infantaria inimiga
zz Ultimos movimentos da artilharia portuguesa para proteger o ataque dos corpos 6, 13, 14 pelo ponto b
Y Direção da fuga da cavalaria inimiga 16, carregada pela Cavalaria 8, 9
abcd Pontos mais praticáveis do rio Catalã
ef Primeiro ataque feito pelo inimigo, repelido pela ala direita portuguesa
hi Primeiro movimento da parte da linha EF, e posição onde fez a primeira descarga antes de ocupar CD

g Vertente do Catalan.

* * *

Todas as memórias anteriores estão publicadas no Archivo Artigas, de acesso gratuito na internet, mas facilitamos aqui a sua localização, se desejar aprofundar as questões.

- Marquês do Alegrete, D. Luís Telles da Silva Caminha e Meneses: Archivo Artigas, volume 33, pp. 20-23, Documento n.º 809
- Tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca: Archivo Artigas, volume 33, pp. 14-19, Documento n.º 808
- Capitão Sebastião Barreto Pereira Pinto: Archivo Artigas, volume 33, pp. 9-12, Documento n.º 805
- José Artigas: Archivo Artigas, volume 33, pp. 26-27, Documento n.º 812

MAPAS E CRÓQUIS DA BATALHA
(I) “Plano de la batalla dada en 4 de Enero de 1817 en el sitio llamado Catalán”
(II)  Cap. J. de O. Paes Lemos, “Plano da Batalha de Catalán em 1817”, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. cart259249
(III) Baseada na anterior, cróquis da batalha in: DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 (volume 1), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984
(IV)  “Batalha de Catalán” (croquis), in: LARA, Diogo Arouche de Moraes, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista Trimensal de História e Geografia, n.º 26, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Julho de 1845 (GoogleLivros)

BIBLIOGRAFIA
- LARA, Diogo Arouche de Moraes, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista Trimensal de História e Geografia, n.º 26, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Julho de 1845, pp. 125-328. (GoogleLivros)
- DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 (3 vv), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.
- Comisión Nacional Archivo Artigas, Archivo Artigas, Montevideo, Monteverde, tomo 34.

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