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28/09/2021

Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816 (J. J. Machado de Oliveira)

“Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816".

Autor: José Joaquim Machado de Oliveira (Legião de São Paulo)

Datas extremas: 18.3.1816 - 9.3.1820

(Publicado em Revista do Arquivo Municipal, Ano VI, Volume LXXII, Novembro-Dezembro 1940, São Paulo, Departamento de Cultura da Prefeitura, pp. 5-20) [Leia online aqui - abre nova página]

* * *



[Início]

1816. 1.ª Campanha. 

Março 18. Saí de Pôrto Alegre embarcado e com tropa - 23. Cheguei à Vila do Rio Pardo.

Julho, 29. Saí de Rio Pardo com tropa, e acampamos na Picada. 30. Na Cruz Alta. - 31. No Campo de Felipe Carvalho.

Agosto 1. No Arroio Butucaraí. Passo de cima. - 2. No Capão dos Enforcados. 3. No Passo de Jacuí, aonde se esteve o dia. 4. Ocupado na passagem do rio. - 5. A meia légua distante daquele passo. - 6. No Passo da Estiva. – 7. Na Restinga Seca, estância de Antônio Gonçalves Borges. - 8. No Arroio do Sol, aonde se esteve também o dia 9, por chover muito. - 10. No capão de Manuel Paim. - 11. No Arroio de Santa Maria. - 12. No capão da eståncia do Pompeu. - 13. No rodeio velho das éguas do Felipinho ou Felipe Santiago. - 14. Na estância do Serino (Cirino ?), irmão de meu pag. (pagem ?) Domingues. - 15. Na estância do tenente-coronel Carneiro, ou Pau Fincado. — 16. Na estância de Manuel Ferreira, seu genro. - 17. Na estância de São Felipe. - 18. Na margem esquerda do Arroio Cacequi. Morreu afogado o cabo Malaquias. - 19. Ao pé da estância do inglês Daniel Luiz Carlos. - 20. No Passo do Rosário, aonde estivemos até o dia 29. - 30. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 31. No Vacacuá. estância de Antônio Caetano. 

Setembro 1. Na Guarda da Conceição. aonde estivemos os dias 2 e 3. - 4. No Arroio da Porteira (?) ao pé da estância de Inácio Adolfo. -. 5. No Pôrto do Alferes Pinto.- 6. Nas cabeceiras do Ibirapuitã Chico, aonde estivemos o dia 1. - 8. No campo de João da Costa. - 9. Em São Diogo. - 10. ... pontas do Arroio de Valença. - 11. Acampamos no Boqueirão das Lagoas - 12. Na tapera do Leme, ou Capão do Cirurgião. Ali chamando-nos o Abreu (tenente-coronel José de Abreu) a conselho, decidiu-se que deviamos ir à Provincia das Missões, já invadida pelos insurgentes deixando a nossa marcha para Belém. - 13. No Suaraim chico. - Passo das carretas 14. No Arroio Garopá. - 15. No Arroio Camoatim. - 16. No Arroio Caoati.  -- 17. Num dos galhos do Toro-passo. - 18. No Arroio Toro passo, aonde estivemos o dia 19, passando 0 Arroio, que estava de nado. - 20. No Arroio Cochi-passo. Foram vistos alguns bombeiros (espiões) do inimigo. - 21. Na estância do Aferidor. Ali fizemos passar para o outro lado do Uruguai os Insurgentes, que se achavam, tanto na estancia, como no Passo de Santa Maria no Ibicui, aprisionando-se 2 homens e 6 mulheres (?) e alguma cavalhada. Falhamos o dia 22. - 23. No Ibiraocaí - 24. Acampámos no Ibiricui, aonde estivemos passando o dia 25. - 26. Na estância de Joãozinho de Oliveira. Neste dia bateram-se duas partidas inimigas, que andavam em saque. Foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 26 insurgentes. - 28. Na estância do Padre Alexandre, aonde falhámos o dia 29, por chover muito. Foram vistos dois bombeiros (espiões) do inimigo. - 30. No capão de João Machado. 

Outubro 1. Na margem direita do Arroio Butuí, de nado. - 2. Além do Banhado de S. Borja. Ali estivemos até o dia 4. 5. No outro lado do Banhado de S. Borja. - 6. Neste dia fomos. ao Butuí, na sua barra, como não encontramos uma partida inimiga que ali fôra vista, retrogradamos... chovia. - 7. Acampamos no Povo de S. Borja, e ali estive até o dia 23, ocupado numa inquirição - 24. No Ivaí, aonde estava a divisão. - 25. No Capão de Butuí. - 26. No Butuí-chico. - 27. No pôrto da estância de Santa Rosa. - 28. No Ibicuí, Passo de S. Rosa e ali nos demoramos o dia 29 na passagem. -- 30. No capão da estância do tenente Olivério. - Na margem esquerda do Ibirapuită, Passo Guassú.

Novembro 1.º No Pai-passo. 2. Na tapera de Inácio dos Santos Abreu, – 3. Em S. Diogo. Ali se achava o Regimento da Ilha. - 4. No acampamento do Ibirapuitã, aonde estava o exército, Ali estivemos até 20 de dezembro.

Dezembro - 25. Marchou todo o exército e acampamos ao pé da estância do Cláudio. - 26. Saí para o Côrpo da Vanguarda, e acampamos ao pé da tapera do Cláudio, aonde se falhou o dia 27. - 28. Acampamos no campo de Juca Mingote. - 29. No Indahim, onde se falhou o dia 30. - 31. A vanguarda marchou um quarto de légua sobre a frente, aonde se falhou o dia 1.º de janeiro de 1817. 


1817.

Janeiro 2. No Arroio Catalã. A vanguarda marchou às 6 da tarde para o Arapeí, chegou alí a 3, atacou o acampamento inimigo e voltou no mesmo dia para Catalã, aonde chegou às 7 da tarde. No dia 4 houve nesse lugar a batalha de Catalã, e falhou-se o dia 5. - 6. Num dos galhos do Arroio Catalã, aonde se falhou os dias 7. 8. 9 e 10. - 11. Na barra do Catală, aonde se falhou os dias 12, 13, 14 e 15. - 16. No Suaraim, no Passo do Lageado. Dêste lugar saí em diligência para Pôrto Alegre a 29 e fui pernoitar na estância de João dos Santos Abreu. 30. No porto da estância de Joaquim Luiz - 31. Na estância de capitão Brito.

Fevereiro 1. Na estância do tenente-coronel Antônio Pinto. - 2. Na estància de S. João. - 3. Pernoitei nos Morais. - 4. Na Cachoeira. - 5. Em Rio Pardo. - Embarquei para Porto Alegre. - 8. Em Porto Alegre, aonde estive até o dia 3 de março, e embarcando com tropa para o Rio Pardo, ali cheguei no dia 11.

Março 15. Saimos de Rio Pardo e acampamos no Capão da Vendinha do Arroio das Pedras. -16. No Butucaraí. Passo da Ponte. - 17. No Passo de S. Lourenço no Jacuí, 18. Em Santa Bárbara. - 19. Na estância do Corcundinha. - 20. No Arroio da estância do capitão Freire - 21. No ... de Luiz Machado - 22. Na estância do Padre João de Almeida. - 23. No Vacacaí, estância do coronel Pinto. - 24. No pôrto velho do Batoví. -- 25. No Passo de S. Borja. - 26. No Capão do Severo. - 27. Na Guarda da Conceição, donde se falhou o dia 28, por quebrar-se o eixo do carro. 29. Acampamos no pôrto de Joaquim Luiz. - 30. Na Estância do Tulio. 31. No campo de Juca Mingote.

Abril 1. No acampamento do exército no Suaraim, aonde estivemos até 20 de março de 1818, e a 21, marchando o exército, saí daquele acampamento com a tropa comandada pelo coronel Abreu, e acampamos no Arroio Sarandi.


1818.


Março 22. Nas pontas do Sarandi. - 23. No Arroio do Areal, estância do Guarda-mor. - 24. No Capão do Tigre, estância de Joaquim Pôrto. ---- 25. Nas pontas do Nhanduí, onde se falhou o dia 16, por chover. -- 27. No capão da estância de Gaspar Nunes. - 28. Na capela de Alegrete. Saí dêste lugar para Porto Alegre em diligência no dia 3 de junho e fui pernoitar na estância do Dornellas.

Junho 4. Na estância do major João Machado Bitancourt. - 5. Na estância do Severino. --- 6. Pernoitei na estância do capitão José Machado. - 7 No pôrto da estância de S. João. - 8. Na estância do alferes Machado.- 9. Na freguezia da Cachoeira. – 10. Na vila de Rio Pardo, aonde embarquei no dia 11, e no dia 12 cheguei a Pôrto Alegre.

Saí de Porto Alegre em 6 de novembro, embarcado, e cheguei a Rio Pardo a 12 do dito, de onde saí a 23 e pernoitei na chácara do capitão Bernardo. - 25. No Passo de S. Lourenço.-- 26. Em Santa Bárbara. -27. Na estância de Manuel Rodrigues Penteado. - 28. No Adolfo. 29. Na tapera de Luiz Machado. - - 30. Na estância do padre João de Almeida.

Dezembro. 1. Na capela de S. Gabriel. - 2. Na cochilha de Jubatuim. - 3. Na estância de Antônio Francisco. -- 4. No Passo do Rosário. - 5. Na estância da Côrte Real, no Capão. 6. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 7. Na estância do capitão Florêncio. -- 8. Na estância de José Maria. - 9. Na capela de Alegrete. Primeiro movimento da guarnição para a fronteira. A 25 de dezembro saiu de Alegrete a guarnição e foi acampar no Arroio Pai. Passo. - 26. No mesmo Arroio. No Passo da Marmota. - 27. Na estância da Marmota. -- 28. Numa das pontas do Pai-Passo. - 29. 


[1819]

Em outra ponta do dito, aonde estivemos até o dia 4 de janeiro de 1819, e no dia 5, marchando-se para a fronteira, soube se que o inimigo se retirara, e por conseguinte retrogradou-se, e acampamos no arroio da divisa do Marmota. 6. No lado esquerdo do Ibirapuitã. - Passo guassú. 7 - Na capela do Alegrete.

Segundo movimento. A 1.º de Abril saímos da Capela de Alegrete, em consequência da segunda invasão das Missões, e acampamos a meia légua distante dali, à margem do mesmo Ibirapuitã, e dêsse lugar passamos para o Pôrto das Pedras, ao pé da Capela, a 10 do dito mês. A 17 chegou o sr. Conde da Figueira, e a 20, movendo-se a divisão, acampou do outro lado do Ibirapuità - Passo guassú. 

Maio 21. Num capão do campo do Joaquim Machado. 22. No Ibicuí, Passo de S. Rosa, aonde nos demoramos a passá-lo o dia 23. ---- 24. No Pôrto de .... de S. Rosa. -- 25. Nas pontas do Butui. - 26. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel -- 27. No Camacuã. Ali nos reunimos com a tropa do marechal Chagas. -- 28. No Itaraoquim. 29. No capão do pôrto do Severino. - 30. Piratini, Passo Novo da Figueira. -- 31. Ao anoitecer marchamos, e ao amanhecer paramos em uns capões ao pé da estância de S. Jerónimo. 9.

Junho 1. Ao anoitecer marchamos e fomos amanhecer no dia 2 no Povo de S. Luiz, e acampamos fora - 3. Acampamos dentro do Povo de S. Luiz, aonde estivemos até o dia 9. 10. No Passo de Pirajú. - 11. Nuns capões de S. Jerónimo. -- 12. Estando assentado... no Arroio Guaraçá, marchamos para o Povo de S. Nicolau, por saber que o inimigo o evacuava. - 13. Marchamos com destino para o Passo de S. Isidoro, e por se achar o Arroio Jacatobá de nado, aí acampamos. - 14. Meia légua distante do Passo Geral do Piratini. 15. Apartando-se a Legião da divisão, para unir-se ao Côrpo de Abreu, acampou no capão do Porto do Severino.- 16. Em Itaroaquerim. - 17. Na estância de S. José, do Chagas, - 18. No Passo de S. José do Camacuã. -- 19. No G...iaçai, aonde se achava a tropa do Abreu. - 20. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel... 21. Nas pontas do Butui. - 22. Acampamos no capão da estância do Cunha. -- 28. No Ibirapuitã, Passo guassú.- 29. Na Capela de Alegrete.

Julho - Nos dias 4, 5, e 6 de julho marchou a divisão do brigadeiro Abreu, e eu fiquei para me retirar para Pôrto Alegre em consequência do meu emprego. - 31. Saí da Capela de Alegrete e pernoitei na estância de Felipe Carvalho.

Agosto. 1. Em Taperí, chácara de Joaquim Leonel. 2. No banhado de Saicã, meia légua distante do Pôrto da estância de Antônio Franeisco. -- 6. Na estância do major Tomaz 7. Na Capela de S. Gabriel, aonde falhei o dia 8. - 9. Na estância do tenente-coronel Antônio dos Santos - 10. Na estância do Mancio. - 11. Na estância do Quartel Mestre. - 12. Pernoitei na estância do Machado Gordo, ao pé da estância do tenente Ricardo. -13. Na chácara de Manuel Joaquim Teixeira no Capão dos Enforcados. 14. Na Cruz Alta. - 15. Em Rio Pardo, aonde embarquei a 17, e a 19 cheguei a Porto Alegre.


2.ª Campanha, 1820. 

Janeiro. Na noite de 2 saímos de Porto Alegre com & infantaria e a artilharia do meu comando, e chegamos a Rio Pardo a 8, e no mesmo dia acampamos no lado direito do Passo do Rio Pardo. - 9. No capão da Cruz Alta. - 10. No Passo de S. Lourenço no Jacuí. - 11. Nos Morais. - 12. No Arroio do Lageado, divisa de S. Jo... 13. No Passo de Carutaí. - 14. No Arroio do Lageado no campo de S. Fidélis. -- 15. No Passo de S. Borja. - 16. Na estância de Placido Severo. - 17. No Passo de Ibicuí-Chico. - 18. Acampamos duas léguas distantes de Itaquatiá. - 19. Em Itaquatiá, aonde estava o exército. - 20. Na tapera de d. Ramon. --- 21. Chegámos ao Passo do Sutil no Cunhapirú, e aí, esperando a noite, marchámos para o Taquarembó Grande, aonde chegámos na manhã de 22, em que atacamos o inimigo e o derrotamos. Aí estivemos nos dias 23 e 24. - 25. Retrogradamos para o Passo do Sutil. - 26. Acampamos no Cunhapirú. - 27. Nas pontas do Ibicuí. - 28. Nos morros de S. Ana. - 29. No Sarandi, - 30 No Funchal. --- 31. No Pai-Passo, pontas.

Fevereiro. - 1. No Passo do Pai Passo. - Em Alegrete. Aí ficamos até o dia 21. - 22. No Arroio do Lageado. - 23. No Arroio Jaguaquá. - 24. No tenente-coronel João Machado. - Falhamos o dia 25, por chover. - 26. Acampamos no Arroio Cacequí. - 27. Em S. Gabriel. - 28. No Fidélis, aonde estivemos o dia 29.

Março. - 1. No Arroio .... 2. Na tapera de Luiz Machado. 3. No Passo de S. Bárbara. - 4. Na estância do tenente Ricardo.- . No Arapoá. - 6. Na estância do Bibiano. - 7. No Arroio Francisquinho. - 8. No Arroio dos Ratos. – 9. Em Porto Alegre".

[Fim]


* * *


Pequena biografia

O capitão José Joaquim Machado de Oliveira nasceu em São Paulo, a 8 de Julho de 1790, filho do  tenente coronel Francisco José Machado de Vasconcelos e de D. Ana Esmerina (Esméria ou Esmênia) da Silva.

Com um ano e meio de idade, o pai assentou-lhe praça mas só em dezembro de 1807, já com 17 anos, foi reconhecido cadete.  É Alferes em 1809, tenente em 1811 e, finalmente, graduado em capitão em 13 de Maio de 1813, pelos seus serviços na Campanha de 1811-12.

Em 1816, com cerca de 26 anos, é capitão de infantaria da Legião de Voluntários Reais, de S. Paulo, e participa com distinção, nos combates do Passo de Yapeyú e na batalha de S. Borja, e, já em Janeiro, na Surpresa de Arapey, sempre sob o comando direto do tenente coronel José de Abreu.

18/06/2019

Diário Militar de Bento Correia de Câmara (14 de Junho a 25 de Julho de 1819)


Num documento no Arquivo Histórico do Itamarati, do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, sob o título de “Documentos de militares contra Artigas (cop.)", encontramos o diário militar do brigadeiro Bento Correia de Câmara
O manuscrito de 14 folhas refere-se às movimentações que o brigadeiro Câmara, então comandante da fronteira de Bagé, encetou entre 14 de junho e 25 de julho de 1819, face a um aumento de pressão por parte das forças orientais, sob o comando de José Artigas, e que culminou na Ação de Santana, a 29 de junho, onde uma força oriental foi derrotada junto a Santana do Livramento.

A segunda Invasão Oriental de Missões

Em 25 de Abril desse ano, cerca de um mês e meio antes, o comandante oriental de Missiones, Andrés Guaçurari y Artigas, também conhecido por Andresito ou Artiguinhas, iniciou uma segunda invasão das Missões Ocidentais, transpondo o rio Uruguai a norte de S. Nicolau, que resultou na ocupação deste primeiro povo, assim como os de S. Luís, S. Miguel, S. Lourenço, S. João e inclusive tão a leste quanto Santo Angelo, 100 km já dentro do território das Missões ocidentais.

A acompanhar esta invasão, e como em 1816, José Artigas fez pressionar a fronteira do rio Quaraí, ameaçando Santana e Alegrete, assim como Bagé. Os movimentos e objetivos de Artigas são aliás muito semelhantes aos de 1816.

Mal tem conhecimento, o Conde de Figueira, D. José Maria Vasconcelos e Sousa, capitão general do Rio Grande desde Outubro do ano anterior, substituindo o marquês de Alegrete, parte de Bagé em direção a Missões, fazendo a ligação às forças de José de Abreu, em Alegrete, a 18 de Maio, e às de Francisco de Chagas dos Santos (o governador das missões portuguesas), a 27 de Maio, no rio Camacuã.

Após encontrar S. Nicolau abandonada pelos orientais, o conde da Figueira procede a libertar os restantes povos ocupados, tendo despachado previamente José de Abreu a procurar uma parte do exército oriental que tinha cruzado o rio Piratini para sul. Este contingente, comandando pelo próprio Andresito, é derrotado na Ação de Itacorubi, a 6 de junho, pondo fim à invasão e levando à própria captura de Andrés Artigas a 24 desse mês, quando procurava transpor o Passo de S. Isidro, de volta a Missiones.

Bento Correia de Câmara, Bagé e Santana

É 300 quilómetros a sul que encontramos o teatro a que se refere este manuscrito, entre Bagé e Santana, na fronteira do rio Quaraí. Aliás, é o próprio documento que nos informa que só a 2 de Julho é que o brigadeiro Câmara tem a notícia do fim da invasão a norte.

O manuscrito tem um interesse próprio, permitindo-nos perceber as movimentações do exército da Capitania do Rio Grande nesta área, face à pressão que Artigas desejava complementasse a invasão de Missões a norte.

Posso apenas tentar perceber a razão pela qual o mesmo ficou no Arquivo Histórico do Itamaraty, entre outros diários militares relativos a outros períodos, mas a menção que faz a um desentendimento entre os brigadeiros Bento Correia de Câmara e Félix José de Matos pode ajudar a perceber. Este desentendimento tem o seu zénite a 31 de Junho, dois dias depois da vitória obtida na Ação de Santana.
Terá sido graças a esta disputa e eventuais repercussões de índole política, que temos hoje acesso ao manuscrito e à transcrição que aqui apresento.

O Manuscrito

Ainda que tenha uma importância reduzida face aos eventos que estavam ainda a acontecer 300 km a norte, este tipo de documentos, que se inserem no memorialismo militar, são fundamentais para perceber o funcionamento e dinâmica do exército do Brasil durante o conflito de 1816-1820.

Aqui apresento pois uma transcrição do manuscrito, com ortografia moderna, em complemento de uma outra versão, com a ortografia original, que publiquei no blogue "Corpus de Memorialismo Militar Luso-Brasileiro nos Finais do Antigo Regime" e que pode ser lido aqui.

Tanto quanto possível tentei identificar as pessoas referidas, mas tal não foi possível em todos os casos, nomeadamente os militares de postos subalternos.

A acompanhar esta transcrição, ponho à disposição um pedaço de um mapa da área, de 1868, mas que apesar de ter sido feito meio século depois ainda reflete a realidade do terreno em 1819, com a exceção de muitas terras que não existiam na altura.

* * *

[Transcrição]

Dia 14 de Junho de 1819, Recebi parte do Alferes comandante da Guarda de Guabijú, de se terem recolhido os bombeiros, e participarem que na serra de Lunarejo divisarão uma grosssa coluna inimiga que se encaminhava para Santana [do Livramento] para a nossa Fronteira com abreviadas marchas.
Neste mesmo dia convidei o Brigadeiro Félix [Félix José de Matos Pereira de Castro (1772-1823), comandante do Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande] para com a sua divisão operarmos contra esta força assentando a reforçar a tropa do meu mando com 70 homens de seu comando.
Dirigi parte para proprio a Capela de Alegrete, participando ao Sargento Mor João António [possivelmente o sargento mor reformado João António da Silveira, do Regimento de Dragões]  desta força que se encaminhava para os limites daquela repartição.
Pus-me em marcha com as forças do meu Comando para o ponto proprio da fronteira ameaçada fazendo Pouso no Fazendeiro França.

Dia 15
Me acampei nas vertentes do Arroio Ponche Verde.
Recebi Offício do Brigadeiro Félix comunicando-me de não puder mandar o reforço que tinha tratado pelo motivo de lhe participarem os seus Bombeiros vindos do rincão das Avarias terem ali divisado uma força Inimiga.
Fiz reunir a guarnição da Guarda de Guabijú, e por consulta fiz marchar no mesmo dia a metade das forças do meu Comando em Número de [espaço em branco] com direção a Itaquatiá [arroio Itaquatiá, entre o rio Upamaroti e o arroio Ibicuí da Faxina], com destino de atacar alguas escoltas da força Inimiga, que se dividirão em grossas partidas, a saquear, e queimar as habitações dos moradores situados no rincão de Ibicuí, repartição do Coronel Abreu [José de Abreu (1770-1827)], dobrando os Bombeiros para Santana a fim de descobrir a posição e direção do Inimigo.

Dia 16
Não houve novidade

Dia 17
Apresentou-se o Tenente Anacleto Jacinto e o Alferes Francisco José Farinha com 23 praças do seu distrito.

Dia 18
Enviei notícias a Bagé ao Capitão Pedro Fagundes, indo pelo […] do Cabo de Esquadra de Dragões Cândido de Abreu por quem solicitei a remessa de armamentos precisos
Recebi carta do Brigadeiro Félix José participando-me ter tomado a resolução de unir-se a este ponto.
Apresentou-se um soldado guerrilha do Distrito de S. Sebastião.

Dia 19
Apresentou-se um guerrilha da repartição de Guabijú.
Reuniu-se o Brigadeiro Félix, com a Divisão do seu Comando.
Recebi carta do Sargento Mor Antonio  Adolpho [António Adolfo Charão, ou Adolph Schramm (1761-1835)] de ter o Inimigo passado a parte oriental de Santa Maria no Passo do Rosário a supor teriam saqueado as bagagens que por aquelas imediações mandou o Exmo. Senhor Conde [1.º Conde da Figueira, José Maria Rita de Castelo Branco Correia da Cunha Vasconcelos e Sousa (1788-1872), capitão general do Rio Grande].
A esta mesma […] nos juntamos em marcha para a direção de Itaquatiá com o destino de procurar o Inimigo onde quer que apareça.

Dia 20
Pouso na Fazenda do Furriel Inácio Rodrigues.

Dia 21
Pouso na Antiga Guarda de Santiago em cuja marcha cansou muita cavalhada de todos os Corpos.
Recebi notícia pelo espanhol Ignacio Guterres apresado pelo Inimigo de quem pode fugar; notifica ter ouvido aos referidos ter Artigas destinado 200 homens para saquearem Bagé por cujo motivo fiz seguir o Capitão João dos Santos Campello, um dos homens de cavalaria, a ocupar o ponto da Guarda de Guabijú; ponto próprio interessante para ser repelida aquela força na pretendida entrada e retirada daquele destino.
Pela consulta feita com o Brigadeiro Félix em a utilidade do Real Serviço assentamos em deixar o Parque […] oculto a fim de mais aceleradamente ocuparmos a importante posição de Santana em atenção a falta de transportes, e cavalgadura que já experimentámos.
Este Parque por melhor acordo foi conduzido pelo Capitão Santos, para o remeter a Bagé e dali ser concentrado; fizemos Pouso nas vertentes do Uparamoti.

Dia 22
Pouso em outra vertente do Uparamoti, nada ocorreu.

Dia 23
Recolheu-se o Bombeiro Jerónimo Rodrigues e traz a notícia de ter o Furriel Inácio Rodrigues descoberto o rasto de 30 a 40 Inimigos terem se entranhado para as partes do Ibicuí, ficando de emboscada aos mesmos no sítio do Serro das Palomas; e por consulta feita entre mim e o Brigadeiro Félix, Vaquianno, e oficiais práticos do terreno, assentámos mandar 50 homens na Partida mandada pelo Bento Gonçalves [Bento Gonçalves da Silva (1788-1847)] de Proteção ao Bombeiro Jerónimo Rodrigues para explorar afoito onde se acha o Inimigo na direção se supõe ocupam, vertentes de Taquarembó a Santana.
Mandei um Soldado guerrilha ao passo do Rosário no Arroio de Santa Maria, a certificar-me das notícias do saque que tenham feito o Inimigo por aquela parte ficando de voltar ao fim de 5 dias.

Dia 24
Não houve novidade.

Dia 25
Apresentaram-se os guerrilhas Manuel de Vargas e João Franco, mandados pelo alferes Barbosa a dar a notícia de que o furriel Inácio Rodrigues com 19 homens atacou 60 a 70 inimigos, mataram 3 e vários baleados, aprisionaram um com um braço quebrado de uma bala, retomaram os nossos ao inimigo 900, a 1000 animais vacuns cavalares, entre estes trezentos e tantos cavalos mansos, asim como tomarãam 2 armas, uma lança e uma pistola e que o inimigo prisioneiro confessava terem 300 homens acampados na Tapera de Felisberto Goulart nas pontas de Quaraí, assim como o Fructuoso [José Fructuoso Rivera (1784-1854)] se encaminhava com 400 a saquearem Bagé, por cujo motivo reuniu, digo motivo mandou se reunir a partida para atacarem as referidas forças.
Próximo ao Pouso se apresentaram 2 pretos espanhóis, fugidos de seu Ssenhor Maxuca de quem eram escravos.
Fizemos Pouso na Fazenda de Joaquim Pedro.

Dia 26
Recebemos aviso do capitão Bento Gonçalves de depor o prisioneiro que Artigas [José Artigas (1764-1850)] se acha em Santana com as suas forças próximo à mesma Partida por cuja razão seguimos a reunirmos à mesma partida com o desígnio de os atacar; fizemos Pouso na tapera do Ribeiro; ao anoitecer foram descobertos pelos nossos bombeiros sobre a nossa frente 7 a 8 bombeiros inimigos.

Dia 27
Não podendo seguir de dia mandámos bombeiros a partida do alferes Manuel Barbosa a saber notícias do inimigo.
Tem cansado até ao presente dia 96 cavalos.
Ao anoitecer segui com a tropa do meu comando a reunir-me com as partidas do capitão Bento Gonçalves e alferes Manuel Barbosa nas pontas do Ibicuí com o proposito de ir amanhecer atacando o inimigo, para cujo fim prestou o brigadeiro Félix José o reforço de 40 Praças, que, imediatamente as tornou a suplicar ficasem por não poder dispensá-las, com tudo vexado pela ordem que tinha do Exmo. Sr. Conde, cedeu, e marchei na mesma tarde para o Aroio Ibicuí [arroio Ibicuí da Faxina] dando a volta de três léguas, a fim do inimigo não reconhecer as forças do meu comando pelos seus bombeiros, que se achavam postados nas alturas da Serra de Santana, nessa noite me incorporei às duas partidas referidas, e ali soube dos oficiais comandantes das mesmas que era impraticável a mesma marcha por causa do grande peso da cavalhada magra, e cansada, que de necessidade se devia apartar da pouca que havia em melhor estado dar tempo no dia seguinte a carnear, e fazer fiambres, e remeter os presos a outra divisão.

Dia 28
Às doze da manhã tive parte pelos meus bombeiros que da parte dos nossos terrenos se divisava sua coluna de 200 Homens, que mandando-a reconhecer, soube ser o inesperado brigadeiro Félix José, que conferindo comigo, me fez ver o desejo que então teve de me acompanhar, ao qual anuí, e marchando naquela tarde fiz alto, às doze da noite no primeiro acampamento que o Inimigo ocupou.

Dia 29 [Ação de Santana]
Ao amanhecer, nada se pode divisar, pela grande cerração que durou até às dez horas, tendo com antecipação pedido-me o referido brigadeiro 20 homens da minhaa divisão, e parte dos meus bombeiros e vaquianos, que montariam a dez homens, e que permitisse deixar passar alám da minha vanguarda, o capitão das suas guerrilhas Bento Gonçalves com aquele reforço, e com mais 30 homens de que se compunha a sua guerrilha, ao que assenti, dissipada a cerração, veio parte dos bombeiros, de que em distância de légua atravessava uma partida Inimiga de mais de 100 homens, e pelo mesmo aviso tinham feito as guerrilhas da vanguarda, imediatamente fiz avançar os guerrilhas de minha vanguarda ao comando do intrépido capitão Anacleto Francisco Goulart, e me pus logo em marcha seguindo na minha retaguarda o brigadeiro Félix, das alturas da cochilha de Santana, avistámos a partida inimiga, na distância de mais de légua e meia ali me pediu o referido brigadeiro para que marchássemos em batalha, ao que não anuí dizendo-lhe [que] era impraticável, e desnecessário em tão longa distancia, que só servia para oprimir a tropa, diminuir a marcha, e que na distância de 40 toesas [cerca de 80 metros] do inimigo se deveria meter em linha, chegando [a]o 2.º acampamento do inimigo tive parte do capitão Anacleto, que o inimigo não mostrava ter mais reforço, que o que se apresentava na sua frente, e que sendo tão desigual em número às nossas forças, achava desnecessário que fossemos acabar de cansar a cavalhada, e que achava justo fazermos alto naquele ponto, para onde mandaria as novidades decorrentes, às 4 da tarde, tive aviso dos meus bombeiros, que ouviam alguns tiros de fuzilaria, pela qual notícia me pus em marcha para aquela direção seguindo-me os passos o dito brigadeiro ao longo da extensa coxilha, e em grande distância me uni à minhaa vanguarda, que se retirava do campo do ataque dando-me parte o capitão Anacleto, de ter ali encontrado a partida do Gonçalves em total derrota, tendo dado costas ao Inimigo, tendo este boleado alguns cavalos da partida, morto a cinco e ferido a outros muitos, a tempo que chegando o capitão Anacleto, os atacou com tal denodo, principiando a matar nos mesmos, e a fazer prisioneiros, na distância de mais de 2 léguas, em que sempre o acompanhou o capitão Gonçalves, e dois [...] da partida do referido, daquela distância retrocedeu, por causa de se achar com todos os cavalos cansados, dali fizemos pouso no acampamento que tinha sido do inimigo, tendo sido o resultado das operações deste dia na perda que sofreu o Inimigo de 20 prisioneiros, mais de 50 mortos, e para mais de 150 cavalos, 20 clavinas, 1 pistola, 3 espadas, 5 cartucheiras, 23 cartuchos, 1 lança, e 1 prisioneiro restaurado =

Dia 30
Tendo deposto os prisioneiros, que a partida destroçada era a única que se conservava naquela[s] imediações, por se ter retirado a mais força do interior de seu acampamento; e que Baltas Ogueda com 400 Homens, era mandado atacar Bagé. por cujo motivo resolvi retrogadar a minha marcha, em auxílio àquele ponto, pernoitei na principal vertente de Ibicuí =

Dia 31
Mandei pelo meu ajudante dizer a brigadeiro Matos [de novo, Félix José de Matos Pereira de Castro (1772-1823), também referido no texto como Felis ou Feliz J.e], que me via na precisa obrigação de acelerar as minhas marchas, para repelir a pretendida invasão da fronteira do meu comando, por cujo motivo marchava naquela manhã.
Este brigadeiro teve a grosseria de responder, quee sem a sua ordem não marchava = isto pelo temor de não atravessar a campanha sem a proteção da minha Cavalaria ao que tornei que a minhaa ordem se regressasse à fronteira de seu comando, da melhor forma que pudesse, e que não podia deixar de estranhar a grosseria com que regia comandâncias, apesar da prevenção do Ex.mo Sr. Conde, tendo determinado por ordem que nos deixou de sermos arimados a socorrer qualquer das fronteiras que necessitem, que não ignorava que ali (…/…) ordenava comandasse a patente mais moderna de cavalaria, ao mais antigo de infantaria em campanha, pelo contrário em praça de Armas, e fortalezas.
Fiz Pouso na Guarda de Itaquatiá, comando do Coronel Abreu.

Dia 1.º de Julho
Na hora de marcha recebi dois coices de um cavalo. Nesta guarda deixei uma patrulha de observação, ao cuidado da mesma 200 Cavalos e um vaquiano para auxílio da marcha da divisão do brigadeiro Félix, fiz Pouso na margem de Uparamoti =

Dia 2
Recebi as agradáveis notícias da derrota do Inimigo em Missões e fiz pouso na segunda vertente do mesmo arroio.

Dia 3
Pernoitei na margem de Ponche Verde; em cuja marcha continuou a ficar muita Cavalhada cansada a deixei ficar o soldado dragão João Cond.a (?) em casa do morador Ângelo de Vargas, por não poder resistir à jornada, por causa de sua ferida de bala que recebeu em uma coxa no ataque do dia 29 =

Dia 4
Pouso no arroio Piraí.

Dia 5
Chegada ao acampamento de Bagé em cuja Guarnição achei pouco mais de 100 homens, destes a maior parte inválidos, e desarmados.

Dia 6
Dirigi as minhas participações aos Ex.mos Senhores Conde Governador, General Marques [Manuel Marques de Sousa (1743-1820)], e Cambra [possivelmente o general Patrício José Correia da Câmara (c. 1737-1827)].

Dia 7
Recebi parte do falecimento do soldado dragão ferido.

Dia 8
Ordenei a Reunião da partida de observação composta de 80 Homens, que se achava postada em Piraí Grande ao mando do capitão Campelo, tendo mandado prestar a companhia de guerrilhas, composta de 46 praças, na margem do Arroio Hospital.

Dia 9
Ordenei a remessa para a prisão da capital de vários criminosos, composta de desertores, prisioneiros, e paisanos facinorosos.

Dia 10
Passou de marcha a divisão do brigadeiro Matos com direção para Aceguá.

Dia 11
Recebi ordens verbais do Ex.mo Sr. Conde pelo capitão Lousada, e apresentaram-se seis desertores do 2.º Regimento de Milícias dos que destacaram para Missões, e se acham de volta com o coronel Abreu no seu acampamento, alegando que a nudez e miséria em que se viam os obrigava a cometer esta infâmia.

Dia 12
Recebi ordem do Ex.mo Snr. Conde Governador para remeter-lhe os cavalos cansados que ficaram nestas imediações.

Dia 13
Foi reforçado o destacamento dos Hospitais com 116 praças, e mandei continuar a reunião dos homens pelos distritos desta repartição.

Dia 14
Recolheu-se a partida do alferes Silva que perseguia os desertores pelos distritos.

Dia 15
Apresentaram-se 5 desertores dos que destacaram para Missões.

Dia 16
Vieram reconduzidos à prisão deste campo 2 soldados desertores dos que destacaram para Missões, apresados pela partida do cabo José Bueno.

Dia 17
Mandei reconduzir pelo alferes Ribeiro o furriel José Inácio por ter dado coito em sua casa ao cabo desertor, Constantino de Oliveira.

Dia 18
Remessa de couros para Rio Grande que devem servir de […] para farinha de munício desta guarnição.

Dia 19
Recebi notícias dadas por um desertor da coluna do general Curado [Joaquim Xavier Curado (1746-1830)], de ter esta ficado 18 léguas aquém da Purificação, e notícias, ter Fructuoso conquistado com guerrilhas a retaguarda daquela coluna, e que retirando-se uma tarde avisaram os nossos bombeiros ao general Curado que Fructuoso se tinha acampado em uma [...] próximo à mesma Coluna, que mandando àquele general o major Bento Manoel [Bento Manoel Ribeiro (1783-1855)], com 500 homens atacá-lo, este o destroçara, retirando-se Fructuoso com mais de 100 homens, e a maior parte da sua cavalaria.

Dia 20
Recebi notícias de Missões dadas pelo marechal Mena [João de Deus Mena Barreto (1769-1849)] de ter o inimigo que repassou o Uruguai atacado-se de parte a parte por causa de preferência do saque que mereceram escapar, e do comandante; visto ter sido prisioneiro Andres Artigas, nesta peleja morreram mais de 100 insurgentes, perdendo a vida um dos pretendidos comandantes.

Dia 21
Negando-se pela 2.ª vez o major graduado de Milícias Ubaldo Pinto [possivelmente, Ubaldo Pinto Bandeira] com o pretexto de fingida moléstia, a fim de não vir tomar o comando do destacamento da frente, ordenei-lhe portanto, que se retirasse a sua casa, o que praticou, visto conhecer que não fazia a menor falta ao Real Serviço, onde só servia de intrigar, tratar mal a toda a guarnição que o detestava, e aborrecia, tendo motivado varias deserções.

Dia 22
Apresentarm-se 4 desertores que há meses tinham fugado deste campo.

Dia 23
Tendo desertado um dos paisanos deste distrito se lhe raiunou 10 bestas mansas que possuia, em observância das ordens.

Dia 24
Ordenou-se a tapagem dos trapos e cercas dos quartéis, destruído[s] pelas praças do Batalhão que ficaram neste campo, quando marchou para Santana esta divisão.

Dia 25
Recolheram-se os bombeiros de Taquarembó e não dão novidade.

* * *

Fonte
- Arquivo Histórico de Itamaraty, AHI-REE-00918, "Documentos de militares contra Artigas" - Manuscrito, 14 folhas.

Imagem
- "CARTA TOPOGRAPHICA DA PROVINCIA DE SÃO PEDRO DO RIO GRANDE DO SUL" (1868), do Arquivo Histórico do Museu Imperial de Petrópolis, Cota 00330-BR.RS-1868 [ver online]

31/12/2018

Exército do Brasil: Diogo Arouche de Moraes Lara


Diogo Arouche de Moraes Lara foi um dos mais distintos infantes brasileiros, militar e literariamente, que nunca chegou a ver a independência do Brasil. A sua Memória da Campanha de 1816, escrita no acampamento do Quaraí em 1817 logo após os eventos, só seria publicada em 1844, por iniciativa do seu camarada Machado de Oliveira. Foi à estampa 25 anos após o seu autor cair em combate, tentando libertar S. Nicolau, à frente do regimento que comandava.

O tenente coronel Diogo Arouche de Moraes Lara nasceu em S. Paulo em 1789, filho do tenente general José Arouche de Toledo Rendon [na foto] e de D. Maria Thereza Rodrigues de Moraes. 

José Arouche de Toledo Rendon (pai)
Vinha de uma família paulista com grande tradição castrense, sendo o seu avô o mestre de campo (ou coronel) Agostinho Delgado Arouche e seu bisavô o sargento mor Francisco Nabo Freire, nascido em Lagos. Muito pouco é conhecido acerca da fase inicial da sua carreira militar, mas terá estudado matemáticas e, em 1802, com cerca de 13 anos, é nomeado tenente da companhia de caçadores do 2.º Regimento de Milícias de S. Paulo, pelo capitão general da província, António Manuel de Melo e Castro de Mendonça. 

O capitão general seguinte (António José Correia da Franca e Horta, 1753-1823) ainda não havia confirmado a promoção por volta de 1803, mas notou que o tenente servia “sem nota”.  Em Maio de 1803, é inclusive indicado numa nota o oficial que Diogo Arouche vai substituir, Joaquim Pedro Salgado que havia sido agregado em capitão para fora da província.

Legião de S. Paulo

Não é certo quando integra a Legião de Voluntários Reais (também conhecida por Legião de S. Paulo), mas tê-lo-á feito na artilharia, conforme sugere o seu camarada Machado de Oliveira (Oliveira era também capitão graduado na infantaria, mas mais moderno que Diogo Arouche), provavelmente entre 1804 e 1808, tendo-se deslocado para o Rio Grande. Terá passado, previamente a 1809, à infantaria; na Legião, a arma era constituída de 8 companhias em 2 batalhões. 



Certo é que, a 27 de Junho de 1809, é promovido a alferes de 4.ª Companhia do 1.º Batalhão de Infantaria da  Legião de Voluntários Reais, de sargento (não indica mais nada, pelo que poderemos aferir que era também de infantaria).

Não é certo de que forma se relaciona o facto de Diogo Arouche Moraes Lara ter sido tenente de milícias e depois, passado a uma unidade de linha, ou como sargento ou até assentado praça. Pode ter sido que a promoção não foi confirmada pelo novo capitão general, ou uma muito incomum despromoção de oficial, ainda que passando da 2.ª à 1.ª linha. A primeira possibilidade é a mais certa, pois não tenho conhecimento de nenhum caso semelhante na segunda senão por punição disciplinar (e ainda assim, para um jovem cavalheiro, a demissão era preferível).

Participa na campanha de 1811-1812. Machado de Oliveira indica que Moraes Lara, então ou alferes ou tenente serviu como parlamentário com grande distinção

A 13 de Maio de 1813, na promoção geral após a campanha, é promovido a ajudante do 1.º Batalhão de Infantaria da sua unidade. Ajudante era o assistente do sargento mor, em matéria administrativas e logísticas e estaria ao nível de tenente.

A Campanha de 1816

A 25 de Julho de 1814, é graduado em capitão de infantaria na Legião. Serviu como diretor do Arsenal de Porto Alegre, mas em 1816 retorna à Legião na área do Rio Pardo para servir na campanha iminente. 
Os dois cargos em que serve neste período são indicativos de uma forte competência em termos administrativos, seja como ajudante do major do seu batalhão, seja gerindo o arsenal da capital da província.

Com 27 anos, é capitão graduado de infantaria da Legião e participa da batalha de Catalán [saiba mais], onde segundo Machado de Oliveira, Moraes Lara comanda uma das partes da carga de infantaria na parte final da batalha que ajudou a derrotar o ataque principal oriental: 

[...] e posto enfim à frente de uma massa de infantaria penetrou o bosque, em que se entrincheirara uma grande parte da infantaria inimiga, e donde sustentava um fogo mortífero contra a espalda do acampamento, bateu denodamente esta força, e obrigou-a a aceder depois de vigorosa resistência, rendendo-se mais de 200 prisioneiros.”

Já no acampamento do Quaraí, em 1817, Diogo Arouche Moraes Lara escreve uma das mais importantes fontes dessa primeira fase do conflito, especialmente em Entre Rios e Missões. 
Os mapas que lhe vem anexos são preciosos croquis das batalhas de S. Borja, Arapéi e Catalán. 

Ainda que escrito em 1817, o manuscrito só em 1844 reemerge pelas mãos de José Joaquim Machado de Oliveira, que o transcreve e faz publicar na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (RIHGB), em 1845, assim como uma biografia de Diogo Arouche, a qual, pela sua proximidade ao oficial, dou mais valor, ainda que a mesma esteja longe de exata ou precisa.

A 22 de Janeiro de 1818, é promovido a Capitão efetivo, no comando da 1.ª Companhia do 1.º Batalhão da sua legião, o lugar de maior prestígio para um oficial da graduação dele. Já agora, o seu camarada e biógrafo Machado de Oliveira era o comandante da 1.ª Companhia do 2.º Batalhão.

Já próximo do final da guerra, por volta de 1818-1819, é promovido a tenente coronel, no comando do recém-criado Regimento de Milícias Guarani a Cavalo, de Missões, formado a partir das companhias de milícias a cavalo de Missões (8 de guaranis e 3 de brancos, originalmente), que vinham já de 1811.

Morre em combate, a 9 de Maio de 1819, com cerca de 30 anos. em S. Nicolau, no comando do seu regimento, ao tentar reocupar o aldeamento às forças orientais. Algumas fontes dão-no como não tendo ainda cumprido o seu 30.º aniversário, sendo que assim terá nascido entre Junho e Dezembro de 1789.

Memória(s) da Campanha de 1816

No manuscrito da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro [conheça aqui, abre nova janela], está ao início uma Advertência que, quando da publicação em 1845, foi omitido ou não existia no manuscrito usado por Machado de Oliveira. Seja como for, aqui a transcrevo, convidando também  ler a versão publicada na RIHGB, em 1845, que pode ser lida aqui:


Advertencia.
O Amor da Patria, e do meu Soberano me faz tomar o maior interesse por tudo quanto he util, e gloriozo para ambos. A Campanha d' 1816 feita pelas Tropas da Capitania do Rio Grande de S. Pedro do Sul, he pelas brilhantes acçoens militares nella havidas hũa das muitas que fundamentam a digna reputação das Armas Portuguesas, a Gloria Nacional, e a de El Rey D. João 6.º. E dezejando conservar a memoria de tão brilhantes acçoens, assim como os respeitaveis nomes de tantos heróes, q nella fizerão-se remarcaveis, me propuz a escrevêla; e puz em pratica o meu dezejo, prevalecendo o Patriotismo às dificuldades, que me apresentavão as faltas de talentos, e dos conhecimentos precizos de todas as particularidades, que as partes officiaes das mesmas acçoens militares não mencionão, e que exigião pennoza investigação para alcansallas, muito principalmente em meio dos tumultos de hũa guerra activa. Escrevi pois como pude, e expuz os factos taes, e quaes conheci, sem me poupar ao trabalho de investigar a verdade; ficando-me sempre o pezar de o não poder fazer com aquela elegancia, que meresse tão grave assumpto: estimarei porem, que hũa pena digna delle, podendo-se aproveitar da noticia que dou daquelles acontecimentos, os descreva de maneira, que se eternizem os nomes dos meos honrados Patriotas, que trabalhárão com distinção naquella memoravel Campanha, e chegue ao conhecimento das geraçoens vindouras a prezente gloria do meu Rey, e da minha Patria. 
O Autor

Não existe, tanto quanto sei, um retrato de Moraes Lara, o que muito completaria a ideia de quem foi o militar, sempre muito baça pelas lentes do tempo.

*

Imagem de topo
- Várzea do Carmo (Arnaud Pallière). fonte: Wikicommons. São Paulo, 1821.

Fontes
- Gazeta do Rio de Janeiro
LARA, Diogo Arouche de Moraes – Memória da Campanha de 1816, in Revista do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Tomo VII, n.º 26 – Julho de 1845, p.: 123 a 170, terceira edição, Rio de Janeiro ; imprensa Nacional, 1931, p.: 123 a 170.
- ------------ - Apêndice à Memória da Campanha de 1816, in: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo VII, n.º 27 – outubro de 1845, p.: 263 a 317, terceira edição, Rio de Janeiro ; imprensa Nacional, 1931, p.: 363 a 317.
- OLIVEIRA, José Joaquim Machado de, Breve Noticia Biographica sobre o Auctor da Memoria da Campanha de Artigas, in: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo VII, n.º 27 – outubro de 1845, terceira edição, Rio de Janeiro ; imprensa Nacional, 1931, pp. 256-262.

- BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento, Dicionario Bibliographico Brazileiro, v. 2,Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1883. pp. 175-176
- BOEIRA, Luciana Fernandes, Como Salvar do Esquecimento os Atos Bravos do Passado Rio-Grandense: A Província de São Pedro Como um Problema Político-Historiográfico no Brasil Imperial (Tese de doutoramento), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2013pp. 162-163
- CEZAR, Adilson, "Elogio de Adilson Cezar a seu patrono Ten Cel Diogo Arouche de Morais Lara". in: O Guararapes, Órgão de Divulgação das Atividades da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, Aditamento ao N.º 42, Julho e Setembro 2004, http://www.ahimtb.org.br/guarara42a.htm. página de internet [31.1.2018]
SILVA, João Manuel Pereira da , Os varões illustres do Brazil durante os tempos coloniaes. 2 tom. [t. 1], (3.ª Edição),  Rio de Janeiro: B. L. Garnier. 1868