23/07/2026

Na Estrada de Montevideu



No final de 1814 foi mandada aprontar uma divisão de voluntários, a ser composta de pouco menos de 5000 militares das três armas, com o objetivo de intervir no sul do Brasil. Este blogue é uma humilde contribuição para o conhecimento da história da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, e depois d'El-Rei, entre 1815 e 1824, assim como das tropas da Capitania do Rio Grande.
A campanha de 1816 foi um esforço conjunto de mais unidades do Exército do Brasil e de Portugal num teatro de operações que ia desde a costa atlântica à costa do rio Uruguai, com quatro colunas distintas.
Apesar de adotar uma perspetiva portuguesa do conflito, este blogue procura também a perspetiva oriental a fim de traçar a mais fiel possível descrição dos acontecimentos desta guerra.


AS BATALHAS
As ações, sítios e batalhas da campanha, com ligação aos artigos disponíveis sobre elas, com ênfase forte nos memorialistas.
AS BIOGRAPHIAS
Em constante atualização, aqui pode encontrar ligações à biografia de alguns dos militares, portugueses e federais.
OS MOMENTOS
Os artigos sobre momentos que não envolvem combate.
OS VOLUNTARIOS
Listas e caracterização dos militares da Divisão dos Voluntários Reais.
AS TÁCTICAS
Os artigos predominantemente da análise tática militar.
AS MEMORIAS
As vozes dos combatentes e testemunhas dos eventos.
UMA BIBLIOGRAPHIA 

1815 | 1816 | 1817 | 1818 | 1819 | 1821 | ... | 1823

Editor: Jorge Quinta-Nova

Embarque da DVR a 29 de Maio de 1816, na Praia Grande (J. B. Debret)

22/07/2026

Ação de Las Cañas (20 de Julho de 1818)



Conjunto de dois combates acontecidos a 20 de julho de 1818, junto ao Arroyo de Las Cañas, tributário do rio Jaguarão, a cerca de 12 km a leste da atual cidade de Melo), junto à fronteira.

Este é o teatro Norte, mas a Fronteira do Jaguarão, menos afadigada nas campanhas. Foi aqui que os portugueses primeiro entraram na Banda Oriental, em agosto de 1816, e por onde a coluna do Centro, do mando do general Silveira, adentrou o território até se juntar à restante Divisão dos Voluntários Reais em Pan de Azúcar, na estrada de Montevidéu.

Sob ordens do coronel Félix José de Matos Pereira de Castro, um destacamento português (ou divisão, conforme era por vezes usado) sob o comando do capitão Bento Gonçalves da Silva, com 118 guerrilhas, surpreende um acampamento federal comandado pelo capitán Francisco António Delgado.

Mais tarde, nesses mesmo dia, junto ao arroio Cordobés, Tomás Latorre ataca as forças riograndenses com uma força equivalente (c. 100 efetivos), mas é rechaçado pelas guerrilhas portuguesas.


Na historiografia militar brasileira, também se chama esta ação de Surpresa de Las Cañas.

“O comandante de guerrilhas Bento Gonçalves da Silva surpreendeu e desbaratou a força oriental do comte. Francisco Antônio Delgado, o qual foi tomado prisioneiro juntamente com vários oficiais e muitos soldados. Horas depois, Bento repeliu o ataque de outra força, ao mando de Tomas Latorre. Este, incorporando os dispersos do primeiro encontro, tentou libertar os compatriotas apresados. Rechaçado, foi perseguido e perdeu mais gente.”
Hernâni Donato, Dicionário de Batalhas Brasileiras

COMANDANTES, FORÇAS E BAIXAS

Capitania de Rio Grande de São Pedro
(Coronel Félix José de Matos Pereira de Castro)
Capitão Bento Gonçalves da Silva (80 guerrilhas) + Francisco Paulino (38 guerrilhas) (total de 118)
Baixas: 1 guerrilha gravemente ferido e um contuso (contra La Torre).

Liga de los Pueblos Libres
Capitán Francisco António Delgado (7 mortos, 22 prisioneiros; não há informação de efetivos)
+ Tomás Latorre (sobre o Cordobés, na retaguarda de Las Cañas: cerca de 100 efetivos, 5 mortos e 1 prisioneiro)

DOCUMENTOS

N° 985  [Félix José de Mattos ao tenente general Manuel Marques de Sousa, Acampamento de Tupambaé, 24 de Julho de 1818.]

Ill.m° e Ex.m° Sr.

[12.7]  Pelo meu de 12 do corrente tive a honra de informar a V. Ex.ª respeito ao movimento dos inimigos, e da minha marcha com o Batalhão de Frade morto [Fraille Muerto]: as minhas cavalhadas chegaram bastante aniquiladas: estavam porém sofríveis as de Bento Gonçalves: [17.7] Francisco Paulino de Asseguá, se me reuniu a 17 por noite com 38 guerrilhas: adiantei na mesma noite de 17 Bento Gonçalves com os seus 80 guerrilhas, reforçam com os de Paulino a atacar o Acampamento de Las Cañas, e [20.7] avançaram para surpresa na madrugada de 20: perderam os inimigos 22 prisioneiros incluso o capitán comandante Francisco António Delgado, 41 clavinas; 6 pistolas; 11 espadas; 16 cartucheiras; 12 baionetas, 708 cavalos, e 7 homens mortos. 

Bento Gonçalves apenas surpreendeu o acampamento inimigo soube que um corpo de cem homens inimigos ao Comando de Thomaz La Torre estava sobre o Cordobés, já na retaguarda de Las Cañas: pôs-se em marcha para ele com a preza que acabava de fazer, e no mesmo dia 20 os encontrou caminhando para os nossos; Bento Gonçalves fez alto, deu-lhe batalha, e os derrotou completamente, matando-lhe cinco, aprisionando-lhe um, e tomando-lhe muitas armas, sendo que os inimigos quase todos as abandonaram na fuga da nossa parte houve um guerrilha gravemente ferido e hum contuso.

[22.7] No dia 22 recebi em Frade morto a parte destas duas gloriosas ações: pus-me em marcha no mesmo dia para ele, e me reuni a Bento Gonçalves ao anoitecer neste passo de Tupambaé: o Capitão Bento Gonçalves louva, e elogia grandemente a conduta dos seus dois Subalternos o Tenente Albano de Oliveira e Alferes António José de Oliveira o Preformado Inácio de Oliveira, e P de guerrilhas Manuel Antunes; Francisco Paulino; os paisanos Diogo Feijó, e Francisco de Ávila, e era geral todos os guerrilhas pelo seu denodo: eu faltaria ao meu dever se não transmitisse à justa consideração de V Ex.ª Estas dignas recomendações e se a elas não ajuntasse as minhas a favor do Capitão Bento Gonçalves. 

Tenho a honra de pôr nos respeitáveis Mãos de V Ex.ª as pistolas do Comandante Delgado como sinal de nosso respeito e veneração. Ao Comandante de Las Cañas se lhe encontrou a correspondência junta, por onde V Ex.ª saberá as sinistras tenções de Artigas. Paiva chegou a Bagé a 16 e recebi em Frade Morto as comunicações inclusas por onde se verifica não ter sido atacada aguarda de S.Tiago porém sim uma Vacaria feita pelo Comandante da dita guarda. 
Os prisioneiros de Las Cañas informam que Balta Ogueda [Ojeda] se retirou dos Taquarembós para Salsepueda, e que vinha autorizado para entrar em Portugal pela Fronteira de Bagé, assim como Moreira o foi para avançar por esse lado. Amanha á pretendo retirar-me para o Sarandi a pôr o inimigos em alguma calma para lhe seguir dar outro golpe. Os prisioneiros marcham hoje para o Serrito com ordem de seguirem para o Rio Grande, aonde V. Ex.ª poderá ter bons sucessos das Armas de Sua Majestade d° ao Comando de V Ex.ª.

Eu saúdo a V Ex.ª com o maior respeito. D. g. a V. Ex.a m. e felices annos
Acampam. de 'Topambahé', 24 de Julho de 1818.
Ill.mo e Ex.mo Snr. Manoel Marques de Souza=Felis Joze de Mattos

FONTES
- Archivo Artigas, tomo XXXI.

Imagem retirada do Wikicommons ("Paisaje del departamento de Cerro Largo"), em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Paisaje_del_departamento_de_Cerro_Largo.jpg




21/07/2026

Ação de Quegay Chico (4 de julho de 1818)



Conjunto de ações  em torno do arroio Quegay Chico, no departamento de Paysandú, decorridas no dia 4 de julho de 1818, no âmbito da incursão luso-brasileira pela margem oriental do Uruguai a decorrer já desde março.

Entre 500 a 550 militares comandados pelo major graduado de milícias Bento Manuel Ribeiro, destacados do exército do Rio Grande, sob o general Joaquim Xavier Curado, atacaram a aldeia de Purificación, a norte de Paysandú, o acampamento principal de José Artigas. Apesar da notícia dada nos documentos abaixo, o mayor general Andrés Latorre não morreu e foi retirado ferido do campo, não sendo certo se como prisioneiro ou pelos seus. Miguel Barreiro, antigo governador de Montevidéu, foi descoberto em ferros, tendo sido mandado prender por José Artigas em data anterior.

Horas depois, Frutuoso Rivera leva a cabo um contra-ataque seu, com cerca de 500 militares federales, que ele recolheu de entre os dispersos do contacto anterior e que faz Bento Manuel Ribeiro retirar ao exército.

“Horas depois de haver suplantado e dispersado o contingente do próprio Artigas. Bento Manoel Ribeiro foi atacado por Frutuoso Rivera, que reunira 500 dos dispersos do combate anterior. Bento retira-se, fortemente perseguido.” (Hernâni Donato, Dicionário de Batalhas Brasileiras)

ORDEM DE BATALHA

Capitania do Rio Grande: 500-550 homens / 550 homens de infantaria e cavalaria
(Baixas/Lecor): 6 mortos, 16 feridos e número incerto de extraviados
Liga Federal (1.º ataque do dia): 500h (100 mortos no campo, cf. Lecor); Latorre ferido; Miguel Barreiro capturado (em algemas)

DISTINÇÃO
Sargento Mor Bento Manuel Ribeiro
Alferes João Nunes Ramalho (LSP, Cavalaria)

Comandantes Federais
Andrés Latorre (1.º fase)
Frutuoso Rivera (2.ª fase)

Documentos

No 987 [Carta de Rodrigo José Ferreira Lobo ao Conde dos Arcos; a bordo de la Fragata "Thetis" surta no porto de Montevideu, 30 de Julho de 1818.]

[…] Tenho a honra, e satisfação de levar à presença de V. Ex.ª, relativas a uma ação, que houve no dia 4 do Corrente, entre uma coluna de 500 homens das Tropas do General Curado, - e as Tropas de Artigas, sendo estas surpreendidas de noite no acampamento, de que lhes resultou a perda de quase toda agente, em mortos, feridos, e prisioneiros; sendo dos primeiros, conforme ofícios do mesmo General Curado, hum denominado La Torre [Andrés Latorre], cujo cargo era como de Major General do dito Artigas, e dos últimos (além de 108 que vieram para este Porto, conduzidos da Colónia no Bergatim Providente) se conta hum tal Barrero [Miguel Barreiro], que foi nesta Praça Governador Delegado por Artigas; este prisioneiro está na Praga entregue ao Cabildo. A ação foi nas imediações do lugar chamado a Purificação. [...]

N° 989 [Do Barão da Laguna a Tomás António de Villanova Portugal. Montevideo, agosto 1° de 1818.]

Ill.mo e Ex.mo Snr
Achando eu que as forças do Excelentíssimo General Curado eram muito superiores numérica, e moralmente às que Artigas podia opor-lhe sobre o Uruguai quando julguei acertado, que ele marchasse do Quaraí sobre o Daimán, e dando maior força aos meus motivos as circunstâncias de não passar Artigas o Uruguai, quando o General Curado entrou na Purificação, pois que neste caso as Tropas daquela Coluna apoiadas pela flotilha impediriam a reunião da gente de Entre Rios, com a da Campanha Oriental; sempre foi minha opinião, que o General Curado seguisse as suas vantagens sobre o Uruguai, e perseguisse Artigas em todas as direções em que ele se retirasse, muito principalmente em quanto ele vagasse pelas imediações daquele Rio, abstendo-se porem de passar à margem direita, exceto quando fosse muito necessário, e proveitoso um golpe de mão para contrariar os projetos do Inimigo; e nesta inteligência enviei ao General Curado as minhas insinuações.

Pelo resultado, que tem tido as suas operações, e pela consideração do influxo transcendente, que delas podem receber as da política, insistindo no meu plano, mais que confirma nele o conteúdo no Oficio de 12 de Julho corrente, que neste momento recebo de Ex.º General Curado a respeito dos sucesso do dia 4 do mês indicado.

Reconhecendo o Ex.º General Curado as débeis forças, que no acampamento do Queguay tinha o Chefe Artigas, e que tratava de as aumentar, dirigindo a todos os Comandantes da sua dependência, tanto deste como de outro lado do Uruguai, as ordens mais assertadas para o recrutamento de quanta gente pudesse tomar as armas; antes que isto se verificasse mandou atacar aquele acampamento por uma força de 550 homens de Infantaria, e Cavalaria às ordens do major Graduado Bento Manuel, a quem ordenou que para não ser pressentido pelo Inimigo fizesse marchas forçadas, e noturnas.

Na madrugada do dia 4 do corrente puseram-se em pratica as ordens do general: foi atacado o acampamento de Artigas, batida, e dispersa a força, que ali havia, e que se supunha de mais de 500 homens: ficaram no campo até 100 mortos, e contava-se entre estes ao Comandante La Torre [Andrés Latorre], que servia de Major General de Artigas, e ao Major Filipe Duarte Comandante da Infantaria de Frutuoso Ribeiro, se bem que eu tinha ultimamente ouvido por noticias da campanha que ambos aqueles Oficiais haviam sido tirados do campo feridos, mas com vida.

Fizeram-se muitos prisioneiros, e destes já chegaram cento e doze a esta Bahia: resgatou-se um Cadete Português, que em outra ocasião tomara o inimigo, e foi livre da prisão em que se achava D. Miguel Barreiro, noutro tempo Delegado de Artigas, e Governador desta Praça.

Foi tomada uma peça de artilharia, que se encravou, e cujos reparos se arruinaram por não poder ser conduzida pela fraqueza da cavalhada: tomaram-se muitos armamentos de várias qualidades, e quebraram-se os que não era fácil transportar, e caiu em nosso poder uma caixa de botica, e muitas munições, que se inutilizaram, havendo-se repartido algumas pela Tropa.

Já depois do combate apareceu Frutuoso Rivera, que tendo o seu campo na distância de uma légua do lugar do conflito, vinha socorrer Artigas com a Cavalaria.
O Major Graduado Bento Manuel sem embargo pôs-se em retirada, e chegou com os prisioneiros ao acampamento do Excelentíssimo General Curado.

A nossa perda consta de 6 mortos, 26 feridos, e alguns extraviados, que seguindo me devem já quase todos se reuniram. 

O Excelentíssimo General Curado reconhecendo o valor, e acerto do major Graduado Bento Manuel, e a conduta do Alferes da Legião de S. Paulo João Nunes Ramalho, que então foram gravemente feridos.

Deus Guarde a V Ex.ª m.[uitos] a.[nos] 
Montevideu, 1 de Agosto de 1818
Illmo e Exmo Snr. Tomás António de Vilanova Portugal
Barão da Laguna

Fontes
- Archivo Artigas
Imagem retirada da Wikicommons, em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:R%C3%ADo_Queguay_Chico_01.JPG

15/07/2026

Liga dos Povos Livres: Ramon de Cáceres

Ramón Erasmo de Cáceres nasceu em Montevidéu, a 26 de Novembro de 1798, filho de Ramón de Cáceres, alguacil mor.

Ingressou como cadete no Real Cuerpo de Artillería, na precoce idade de 14 anos, no início do segundo sítio de Montevideu, 1812. No entanto só em 1814 inicia de facto a sua carreira, sendo promovido a teniente segundo do 1.er  Regimiento de Milicias Orientales, mais especificamente da Compañia de Las Piedras. Participou na batalha de India Muerta, como ajudante do comandante da cavalaria da ala esquerda, capitán Venancio Gutiérrez.

No inverno meridional de 1817, em Junho ou Julho, é nomeado Ayudante Mor do Regimento de Blandengues, na vanguarda sob o comando de Mondragon, junto ao arroyo Areranguá.

Participa na última campanha da guerra, nos combates de Ibirapuitã e Passo do Rosário e na batalha de Tacuarembó, onde é ferido ligeiramente.

Emigra posteriormente para Entre Rios onde serve Ramirez. Teve posteriormente à campanha, uma bem sucedida e honra carreira militar ao serviço do Uruguai.

Escreveu a “Memória Postuma del Coronel Ramon de Caceres”, in: Revista Histórica, tomo XXIX, n.º 85-87, Montevideo, Museu Historico Nacional, em Julho de 1959 (pp. 377-566).


Bibliografia

J. M. Fernández Saldaña, Diccionario Uruguayo de Biografías 1810-1940, Montevideo, Editorial Amerindia, 1945, págs. 264-267; “Domingo González El Licenciado Peralta. Crónicas de un Montevideo lejano, Pacheco versus Cáceres. En los altos del Cabildo”, en Cuadernos de Marcha (Montevideo, Uruguay), n.º 11 (marzo de 1968), págs. 91-93.