quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Batalha de Catalán: 4 de Janeiro de 1817


Se se lembra da postagem de ontem, sobre o ataque do Potreiro de Arapey, saberá já que o comandante português, marquês de Alegrete, tomando o comando do exército junto ao rio Ibirapuitã a 15 dezembro, decide enviar 600 homens demonstrar na área de Santana do Livramento, esperando que o engodo permitisse por um lado dividir as forças de José Artigas, na área de Arapey, a norte da atual localidade de Tacuarembó, e cobrisse o grosso do exército enquanto cruzava o rio Quaraí para dentro do território inimigo.

Quando, no dia de ano novo, cruza o Quaraí (rio que marca hoje como então a divisa) a sudeste das cidades de Quaraí e Artigas, Alegrete descobre por desertores orientais que Artigas tomou o engodo e que Latorre se havia destacado com 3400 homens para enfrentar a ameaça de Santana, ficando o chefe oriental em Arapey com 400 a 800 homens. Soube também que Latorre, se bem que havia sido enganado, o havia percebido rapidamente e iniciado a procura do exército principal português a oeste, com o propósito de o bater.



Acampado já junto ao rio Catalán, Alegrete envia Abreu e 600 homens para atacar o Potreiro de Arapey, onde Artigas estava, enquanto dispõe uma força de cavalaria de Dragões do Rio Pardo, na estrada entre Arapey e Santana, zona de onde vinha o grosso do exército oriental sob o comando de Andrés Latorre.

A Batalha

O marquês do Alegrete, o comandante português, descreveu a batalha como a “primeira na historia Militar do Brazil”. O jefe de los orientales José Artigas ele mesmo escreveu que os orientais “hemos perdido una acción que debemos llorar eternamente”. 
O capitão Sebastião Barreto Pereira Pinto, que comandou os Dragões do Rio Pardo neste dia, reflete que Catalán foi “sem a menor dúvida, [...] a mais forte e mais gloriosa [acção], que têm tido as nossas Armas contra os Inimigos”.


De facto, Catalán foi a maior batalha da campanha de 1816, envolvendo cerca de 6000 homens nos dois lados e 13 peças de artilharia. Pode parecer pouco, face a outros conflitos, mas toda esta área era desabitada. Quase todas as cidades e vilas que lá existem hoje, não existiam então, e o teatro Oeste, em particular, era uma zona de fronteira numa fase muito precoce de colonização. Para comparação, Carumbé, que foi a segunda maior batalha no Oeste, teve 2000 participantes, apenas um terço de Catalán.


Leia também a II parte:

Batalha de Catalán (II): Ordem de batalha e baixas



Os Testemunhos

Devido à dimensão e importância da batalha de Catalán, encontramos um maior número de memorialistas que nos legaram o seu testemunho. Alguns deles falam ainda da ação do Potreiro de Arapey, pelo que deve ser visto em conjunto com a postagem acerca dessa ação, ocorrida no dia anterior e um seu prólogo.

O 5.º marquês do Alegrete, D. Luís Telles da Silva Caminha e Meneses, capitão general do Rio Grande de S. Pedro, comandante de todas as forças militares na capitania, ficou em Porto Alegre, de cama por causa da gota, e organizando os reforços ao exército comandando por Joaquim Xavier Curado. Contra a expetativa de muitos, mas decerto percebendo a monumentalidade do que estava apara acontecer, Alegrete tomou o comando do exército a 15 de Dezembro, e em pouco tempo tomou a iniciativa... e saiu vencedor. O seu testemunho é retirado da parte oficial ao secretário de estado dos negócios da guerra no Rio de Janeiro, o marquês de Aguiar, que estava já doente e que morreria no dia 24 de janeiro.

O tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca era o mais graduado oficial de artilharia da Legião de Voluntários Reais de São Paulo, e de todo o exército. A sua carta a Vicente Ferrer da Silva Freire relata a batalha de um forma pessoal, estando ele no centro da posição portuguesa, equidistante da ala esquerda que, apeada, sofreu o assédio dos orientais, e da carga de cavalaria oriental na ala direita que foi rechaçada por José de Abreu (carga esta a que Artigas atribui a derrota oriental). Adicionalmente, Vicente de Fonseca, enquanto artilheiro e “official scientifico” por excelência, é bastante pormenorizado na sua descrição.
Conforme escreveu Vicente de Fonseca na epístola, e serve para nós que o lemos 200 anos depois, “aqui tem V. S.ª o rezultado das Acçõis do dia 3 no Quartel General de Artigas, e do dia 4 na margem direita do Arroio Catalan, da qual tenho a felicidade de poder contar tendo ouvido assobiarem tantas bálas tão poucos palmos distantes do meo Corpo”.

O capitão Sebastião Barreto Pereira Pinto comandou o Regimento de Dragões do Rio Pardo nesta batalha, como na de Carumbé. As suas memórias sobre a a batalha estão numa carta ao comandante do seu regimento, o brigadeiro Tomás da Costa Correia Rebelo e Silva e apesar de se cingirem mais à atuação dos Dragões, dão uma perspetiva de quem combateu, algo sempre tão ausente na historiografia militar portuguesa desta altura.

De José Artigas, chefe oriental, que creio não ter estado em Catalán, embora não o tenha por certo, ficaram algumas observações numa carta a Miguel Barreiro, então governador de Montevidéu. Dá-nos pormenores sobre a constituição das forças orientais e a sua visão sobre o seu próprio exército.

Porque as memórias são tantas e não obedecem às mesmas formas de contar a história, decidi colocar excertos de cada testemunho, sequencialmente e dessa forma intercalando as vozes, de maneira a permitir uma leitura mais fluída destas fontes e perceber melhor como decorreu esta batalha e os seus muitos pormenores. Espero honrar assim as memórias destas bravos homens e facilitar a vida ao caríssimo leitor.
Assim, cada extrato estará identificado com um dos seguintes consoante seja ao início ou fim de cada extrato extrato:

[A] ou [Alegrete, 8 de janeiro] – [P] ou [Pereira Pinto, 6 de janeiro] – [V] ou [Vicente da Fonseca, 8 de janeiro] – [ARTIGAS] ou [Artigas, 13 de janeiro] 
[Há apenas um extrato de Artigas, no fim]



A BATALHA DE CATALÁN EM TESTEMUNHOS

nota: uma légua portuguesa antiga são cerca de 6600 metros.

[15/12]
[A] Foi em o dia 15 de Dezembro que o estado da minha saúde me permitiu reunir-me ao Exército que se achava na margem direita do Rio Ibirapuitã, e o inimigo na distância de 16 léguas ocupava uma posição extremamente forte na margem do rio Arapey. 
[Alegrete, 8 de janeiro] 

[V] Tendo o Ex.º Snr. Marquês de Alegrete chegado ao nosso campo do Ibirapuitã a 15 de Dezembro do passado, e sabendo pelos nossos Bombeiros que os Insurgentes se reuniam com grande força e que ([....]) pretendiam ir atacar-nos  naquele lugar,  
[Vicente da Fonseca, 8 de janeiro]

[16-20  de dezembro]
[A] Informaram-me porém os meus espias que havendo recebido reforços projectava atacar-me, nada convinha tanto como trazê-lo a uma acção geral, e separá-lo da posição que ocupava. Para o conseguir  tentei-o com forças inferiores fazendo marchar 500 homens de cavalaria comandados pelo Brigadeiro Tomás da Costa Correia  Rebelo e Silva para os serros de Santa Anna ordenando-lhe que depois de se fazer ver dos espias, e partidas do inimigo se reunisse no Exército ocultando a direção da sua marcha. 
[Alegrete, 8 de janeiro]

[25/12]
Andres Latorre

[A] Enquanto se executava este movimento eu marchava com o Exército para o Passo do Faria no Rio Quaraí, 8  léguas abaixo dos serros de Santa Anna para o qual ponto acreditando o inimigo a nossa marcha se dirigiu com força de 3400 homens debaixo do comando do Major General [Andrés] La Torre. Artigas porém ficou na sua posição de Arapey com uma escolta de 400 homens,  reserva de  munições, cavalos e bagagens.  
[Alegrete, 8 de janeiro]

[V] [O marquês de Alegrete] resolveu, que deviamos encontrá-los, e consiguintemente levantámos o Campo a 25 dirigindo-nos para o Quaraí;  
[Vicente da Fonseca, 8 de janeiro]

[(28/12) - 1/1]
[A] Imediatamente à minha chegada a Quaraí fui completamente informado das disposições do inimigo, e procurei adiantar-me para cortar a comunicação de Artigas com o seu Exército o que consegui sendo esta posição vantajosa assim para esperar o inimigo como para tentar um golpe de mão sobre Artigas, 
[Alegrete, 8 de janeiro]

[31/12] [V] passámos este Arroio [Quaraí] no dia 31, [1/1] / e falhámos ao 1.°, e tendo neste dia os nossos Bombeiros agarrado 3 Bombeiros do Inimigo, soubémos destes que Artigas tinha o seu Quartel General no Lugár denominado o Potreiro nas Imediaçoes do Arapey, aonde somente existião 400 e tantos homens, e que tinha feito marchar ([daqui]) deste  lugar o Major General Latorre com perto de quatro mil homens, e duas Pesas de  Calibre 4, a este tempo já os nossos Espias descobriram Bombeiros, e pequenas partidas do Inimigo pela nossa retaguarda, mas como julgámos que a força maior estava pela nossa frente, [2/1] levantamos o Campo no dia 2, e avançámos 4 legoas e meia, e acampámos na  Margem direita do Arroio Catalan; a posição de nosso Campo era elevada e propria para poder a Artilharia operar por todos os lados tinhamos, o Flanco ([esquerdo]) direito apoiádo por huma Sanga, a frente, e flanco esquerdo por pequenas sangas, e a retaguarda pelo Arroio ainda que fraco por ser cortado por varias partes;  
[Vicente da Fonseca, 8 de janeiro]

[2/1 - NOITE]
[A] / com este fim puz em marcha na noite do dia 2 o Tenente Coronel José de Abreu com 600 homens, a infantaria, cavalaria, e 2 peças de artilharia, 
 [Alegrete, 8 de janeiro]

[V] / neste mesmo dia fez o Snr. Marquês marchar a nossa avançada que é comandada pelo Tenente Coronel de Milicias José de Abreu composta de 500 homens (Milicianos de Entre Rios, algumas Guerrilhas de  Paisanos, 100 homens  de Infantaria da Legião de S. Paulo, e 2 Peças de Calibre 3 Comandadas pelo Tenente Luz formam os mencionados 500 homens); sahiram  ao pór do sól com ordem de marchar toda a noite para  na madrugada do dia 3 surprenderem a Artigas no mencionado Potreiro, 
[Vicente da Fonseca, 8 de janeiro]

[A] [...] e fiz marchar o Regimento de Dragoens a postarse na estrada de Arapey para Santa Anna observando os movimentos do inimigo por este lado, ou reforçando o Tenente Coronel Abreu se o necessitasse.  
[Alegrete, 8 de janeiro]

[ARAPEY]
[3/1 - AMANHECER]
[A] Ao amanhecer do dia 3 atacou este Tenente Coronel [José de Abreu] com o seu costumado valor a posição de Artigas, e depois de algum fogo carregou com a baioneta e Espada, e foi levada a posição escapando-se porém Artigas, a perda do inimigo consistiu em 80 mortos, alguns prisioneiros, grande quantidade de apetrechos de guerra, inutilizando-se os que não se podiam  transportar, 1400 cavalos. 
[Alegrete, 8 de janeiro]

[V] / mas apesar de terem marchado toda a noite chegaram a esse lugar uma hora depois de amanhecer, e por este motivo foram percebidos pelas Guardas avançadas do Inimigo, e pode Artigas escapar-se precipitadamente deixando a sua Carretilha, e até mesmo o seu Ponche, escaparam muitas famílias, e a maior parte da Guarnição, e uma porção que ainda não tinha fugido foram derrotados pelos nossos depois de fazerem uma grande resistência; Artigas tinha escolhido um lugar para seu Quartel General aonde a Cavalaria não podia operar, e por isso somente a Artilharia e Infantaria de S. Paulo, e poucos de Cavalaria a pé decidiram desta Acção, (ouvimos os tiros de Artilharia, e seriam 8 horas da manhã.  A perda do Inimigo consistiu em setenta e tantos mortos incluso um Ajudante, 6 Prisioneiros, ficou em nosso poder a Carretilha de Artigas, 1500 Cavalos, e algumas munições; a nossa perda consistiu em dois Soldados mortos da Infantaria de S. Paulo, que foram os primeiros que investiram o mato, e 4 feridos da mesma Infantaria sendo 2 gravemente. 
[Vicente da Fonseca, 8 de janeiro]

[A] Em o mesmo dia executando o que lhe tinha ordenado reuniu-se ao Exército o Tenente Coronel Abreu, e juntamente o Regimento de Dragões. 
[Alegrete, 8 de janeiro]

[V] O valente Tenente Coronel Abreu pretendia perseguir a Artigas, mas sabendo dos Prisioneiros, que Latorre tinha avisado a Artigas, que no dia 4 pretendia bater os Portuguezes, e que nesse mesmo dia estaria com ele vitorioso no Potreiro, com esta noticia (apesar de não ter a nossa Tropa comido, e nem dormido) picou a marcha o Tenente Coronel Abreu para reunir-se a nós com a brevidade possível, o que conseguiu no mencionado dia 3 depois de anoitecer; com a chegada do Abreu deram-se as Ordens necessárias, e foram, 
[Vicente da Fonseca, 8 de janeiro]

[A] Conhecendo o inimigo o movimento falso que tinha feito sobre o Serro de Santa Anna, passou para a margem direita do Quaraí para seguir-nos, e cumprir com a ordem positiva de atacar-nos, em o dia 3 tornou a passar para a esquerda do Quaraí, tomou uma posição na distância de 3 léguas da nossa.
[4/1 - AMANHECER]
Em o dia 4 ao amanhecer deram parte os postos avançados da proximidade do inimigo que não tardou em apresentar-se apoiando os flancos com artilharia, e cobrindo os seus movimentos com grandes número de lanceiros de Índios Charruas, Minuanos e Baicurús, e em esta ordem atacou impetuosamente toda a linha.  
[Alegrete, 8 de janeiro]

[4/1 – 0300H]
[V] / que às três horas de manhã estaria toda a Cavalaria montada, e toda a mais Tropa debaixo de Armas, mas assim não aconteceu por causa das facilidades, estivemos com efeito debaixo d'Armas ás horas determinadas, porém só a Cavalaria de S. Paulo estava montada, e Dragões, e Milicianos não tinham pegado Cavalos; e se não fosse a Artilharia, e o valor da nossa Tropa, o Inimigo teria conseguido uma completa surpresa. 
[4/1 – 0430H] Eram  4 horas e meia, e naquele momento tinha o nosso clarim acabado de tocar a Alvorada, quando um chefe de Guerrilhas, que guardava uma nossa Cavalhada, que estava sobre o nosso acampamento no flanco esquerdo, pressentiu os charruas avançarem para roubá-la, mandou logo disparar oito tiros, e reuniu-se a nós com a Cavalhada que pode, eu estava na Bataria do centro que é composta de 4 Obuses, conversando com o major Pitta que é o  comandante desta divisão de Artilharia, principiámos logo a ouvir o grande alarido que costumam fazer estes bárbaros, e a descobrir um grande negrume por toda a Coxilha que estava pela nossa frente, flanco esquerdo e retaguarda. A nossa Tropa dispôs-se imediatamente para entrar em acção, e o Inimigo aproximava-se cada vez mais tocando a sua música com  grande desafogo, [4/1 – c. 0435H] a este tempo que seriam passados 5 minutos depois que foram percebidos, apareceu logo o Snr. Marquês na frente da Tropa montado  a Cavalo animando-a com muita coragem, e vendo que o Inimigo já estava pelo nosso flanco esquerdo em distância de fuzil, mandou logo romper o fogo de Artilharia, o que se executou prontamente, 
[Vicente da Fonseca, 8 de janeiro]

[A] / Pretendia o inimigo pela superioridade numérica das suas forças desenvolver-se para voltear-nos, julguei por isso necessário que a esquerda da linha se limitasse por alguns momentos à defensiva, 
[Alegrete, 8 de janeiro]

[V] / e tive então o gosto de ver laborar ao mesmo tempo toda a Artilharia do meu comando, estava disposta em divisões sendo a do centro comandada pelo Major Pitta, e composta de 4 Obuses que lançaram Granadas que fizeram um efeito terrível, a divisão da esquerda composta de 3 peças de calibre 6 é comandada pelo capitão José Olinto, a da direita composta de 2 peças de calibre 3 pelo tenente  António Soares, as duas peças de 3 comandada pelo tenente José Joaquim da Luz estavam postadas em um Corpo de Reserva que guardava a cavalhada, o Inimigo respondeu-nos logo com o seu fogo de Artilharia, as suas balas passavam muito altas, mas sempre acertaram com uma bala em hum reparo de uma peça de 6 que chegou a partir o eixo de ferro.
A cavalaria inimiga atemorizada pelo nosso fogo amiudado de artilharia não se animou a avançar, estava formada em 2 linhas em numero de mais de dois mil homens, a infantaria inimiga formada na frente da cavalaria em duas fileiras, e com grande intervalo de um a outro soldado desceu a coxilha por baixo do fogo de artilharia, passou uma sanga, e apareceu-nos pela frente em pequena distância de onde nos deu uma descarga cerrada, 
[Vicente da Fonseca, 8 de janeiro]

[A] / e dirigindo-me do centro à direita mandei atacar o flanco esquerdo do inimigo, a carga pelo Regimento de Dragões, um esquadrão de cavalaria da Legião de São Paulo, e o ataque de baioneta da mesma infantaria da Legião são dignos de maiores elogios, atrevendo-me a dizer que nem uma Tropa do mundo pode exceder à intrepidez com que foi executada esta manobra, [...] 
[Alegrete, 8 de janeiro]

[P] Os esquadrões de Dragões de meu comando, para onde carregou a cavalaria intervalada com minuanos, teve de ter muita constância, para poder resistir-lhe, o primeiro quarto do primeiro esquadrão foi repelido, pela grossa força do inimigo que sobre ele carregou; porém num momento, se reuniu, e atacando com o valor de costume, deu princípio à derrota do inimigo. 
[Pereira Pinto, 6 de janeiro]

[V] / a este mesmo tempo os Lanceiros Charruas carregaram sobre o nosso flanco direito, o Snr. Marquês correu para este flanco pelo meio das balas, e fez avançar uns cento e cinquenta e tantos dragões que já se achavam montados para rebater os Charruas, mandou imediatamente tocar a degola fazendo avançar a brava infantaria de S. Paulo de Baioneta Calada, foi quando vi com muita satisfação estes meus valentes patrícios correrem por um terreno cheio de  pedras que mais parecia voarem do que correr; levando por diante uma poeira a infantaria Inimiga a bala, e ponta de baioneta fazendo-lhes fogo mesmo a queima roupa
[Vicente da Fonseca, 8 de janeiro]

[ARTIGAS] [...] Se presentó la acción sin necesidad, pero executada ya estabamos triunfantes habiendo penetrado su Campam.to roto su linea, tomado la Artilleria y todo en confusión, la Cavallería del costado izquierdo q.e era Correntina y gente del Entre Ríos q.e eran en números de 800 homb.s desampararon la línea de avance de solo 60 Portug.s q.e parece increible. 
[Artigas, 13 de janeiro]

[P] É mais que tudo memorável, a Bravura com que o nosso Exmo. Marquês, exposto ao forte fogo se põem a frente do Exercito, mandado operar os corpos conforme as circunstâncias. Ele foi quem deu a Dragões a voz d'Avançar, e é finalmente achado onde  porque é preciso. Em suma nada tem que invejar dos grandes generais.  
[Pereira Pinto, 6 de janeiro]

[A] [...] habil, e valerosamente secundada por uma carga feita pelo Tenente Coronel Abreu à testa de um esquadrão de milícias d'Entre Rios.  
[Alegrete, 8 de janeiro]

[V] Nesta mesma ocasião avançou o bravo, e incomparável Tenente Coronel José de Abreu com 300 homens pouco mais ou menos que eram Milicianos de Entre  Rios, cavalaria de S. Paulo, Dragões, Milicianos, e algumas Guerrilhas de paisanos, e com este punhado de homens valentes por a Cavalaria Inimiga em  vergonhosa fugida perseguindo-os, e fazendo uma  grande mortandade até a distância de 3 léguas, tomando muitos cargueiros de munições, e cinco mil e tantos Cavalos: 
[Vicente da Fonseca, 8 de janeiro]

[A] Consegui voltear o inimigo ainda empenhado contra a nossa esquerda, e fazendo um fogo o mais vivo de artilharia, e mosquetaria continuava na teima de voltear-nos por este lado; o segundo batalhão de infantaria da Legião de São Paulo, e artilharia do mesmo corpo, o Regimento de Milícias do Rio Pardo, e um esquadrão de Milícias de Porto Alegre sustentaram valerosamente a posição.
O tenente coronel Joaquim Mariano [Galvão de Moura] com 100 homens de Infanteria ocupou um pequeno bosque que cobria a retaguarda da nossa esquerda, elevando eu ali uma do esquadrão da minha guarda, e um esquadrão da cavalaria de São Paulo, ordenei que esta cavalaria  atacasse protegida pela infantaria, foi este ataque simultâneo com todas as tropas da esquerda pôs em fuga o inimigo em todas as direções.
Mandei imediatamente o tenente coronel Abreu a perseguir o inimigo o que executou na distância de 3 léguas. 
[Alegrete, 8 de janeiro]

[V] / enquanto o tenente coronel Abreu perseguia a cavalaria, a infantaria de S. Paulo, e os  Milicianos do Rio Pardo, e Porto Alegre a pé por não terem tido tempo de pegar Cavalos continuaram um vivo fogo contra uma grande porção da infantaria Inimiga que se tinha emboscada em um pequeno mato, fizeram uma resistência terrível, mas nada pode vencer ao valor das nossas tropas, e não tiveram remédio senão depor as armas uns 239 que ainda viviam, entre estes 6 oficiais um dos quais é sobrinho de Artigas, e também há um inglês.  
[4/1 – 1145H]
O fogo durou até às onze horas e três quartos da manhã. O Snr. Marquês correu depois por todas as fileiras dando mil agradecimentos a toda a tropa, que assim mesmo fatigada, e muitos lavados em sangue das feridas que tinham recebido gritavam com grande coragem, que estavam prontos para principiar já outro combate, então o Snr. Marquês dava mil vivas a Sua Majestade, que eram mutuamente correspondidos por toda a Tropa, e todo se finalizou com uma salva real de 21 tiros de artilharia.  

[4/1 – TARDE] À tarde o Snr. Marquês assistiu ao funeral dos nossos oficiais mortos, e foram carregados pelo Snr. Marquês, Snr. Tenente General Curado, Brigadeiros, Estado maior de S. Ex.ª  &.  &.  
[4-5/1] Demorámo-nos no Campo da Acção o dia 4 e 5, ocupados em enterrar os nossos mortos, e curar os feridos, a senhora Marquesa [D. Margarida de Almeida] tem zelado dos doentes com muita caridade, desfiando panos com suas própias mãos para se curarem as feridas. 
[6/1] No dia 6 avançamos 3 léguas para baixo do mesmo Arroio Catalan para fugir da podridão que já infeccionava o Campo, e aqui nos conservámos sem por ora saber de nosso destino sobre a marcha. 
[Vicente da Fonseca, 8 de janeiro]

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Todas as memórias anteriores estão publicadas no Archivo Artigas, de acesso gratuito na internet, mas facilitamos aqui a sua localização, se desejar aprofundar as questões.

- Marquês do Alegrete, D. Luís Telles da Silva Caminha e Meneses: Archivo Artigas, volume 33, pp. 20-23, Documento n.º 809
- Tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca: Archivo Artigas, volume 33, pp. 14-19, Documento n.º 808
- Capitão Sebastião Barreto Pereira Pinto: Archivo Artigas, volume 33, pp. 9-12, Documento n.º 805
- José Artigas: Archivo Artigas, volume 33, pp. 26-27, Documento n.º 812

MAPAS E CRÓQUIS DA BATALHA
(I) “Plano de la batalla dada en 4 de Enero de 1817 en el sitio llamado Catalán”
(II)  Cap. J. de O. Paes Lemos, “Plano da Batalha de Catalán em 1817”, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. cart259249
(III) Baseada na anterior, cróquis da batalha in: DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 (volume 1), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984
(IV)  “Batalha de Catalán” (croquis), in: LARA, Diogo Arouche de Moraes, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista Trimensal de História e Geografia, n.º 26, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Julho de 1845 (GoogleLivros)

BIBLIOGRAFIA
- LARA, Diogo Arouche de Moraes, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista Trimensal de História e Geografia, n.º 26, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Julho de 1845, pp. 125-328. (GoogleLivros)
- DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 (3 vv), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.
- Comisión Nacional Archivo Artigas, Archivo Artigas, Montevideo, Monteverde, tomo 34.

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CONTINUA EM:


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