sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Entrada em Montevidéu, 20 de Janeiro de 1817


Ao romper do dia 20 de Janeiro de 1817, pelas seis horas, toda a Divisão de Voluntários Reais assim como algumas tropas do Exército do Brasil formaram para que os seus comandantes lhes passassem as competentes revistas. 
Desde a tarde do dia anterior que esperavam no Saladero del Seco, 9 km a oeste da praça, logo após o seu general em chefe, Carlos Frederico Lecor, ter acertado os termos de rendição com emissários do Cabildo que se apresentaram em Pando. 

Após quase 6 meses de marchas e acampamentos, desde a ilha de Santa Catarina, a mais de 1000 quilómetros de distância, até este momento, todos usam os melhores uniformes, no maior garbo e asseio, e todos se preparavam para cumprir o maior objetivo de toda a campanha, Montevidéu, aquilo que os trouxe à América.


Cerimonial de entrega da praça

Carlos Frederico Lecor
Às nove horas da manhã, toda a Divisão de Voluntários Reais e demais forças, do exército do Brasil (vide ‘Ordem de Batalha’ em baixo), se perfilam perante as muralhas, junto à Porta Norte, a entrada principal da cidade. Por essa mesma altura, os membros do Cabildo, o conselho municipal, Juan de Medina, Felipe Garcia, Agustin Estrada, Lorenzo J. Perez e Jerónimo Pio Bianqui, e demais corporações da cidade, entre muito povo curioso, encaminham-se para a porta norte da cidade, onde encontram o general português.  O pintor uruguaio Gilberto Bellini captura esse momento, mostrando a pompa e circunstância, pese embora ser obra feita 100 anos depois dos acontecimentos.

Solenemente, Lecor perguntou se o Cabildo tinha algo a expor antes que ele entrasse na praça. Apresentou-se o síndico procurador geral, Jerónimo Pio Bianqui, em nome de todos, defendendo a necessidade de sufocar a “exaltación de las passiones” e acabar com os insultos que foram feitos pelos revolucionários à cidade. De acordo com Francisco Bauzá, Lecor respondeu que “estaba muy bien” e que iria levar essas preocupações a sua Majestade Fidelíssima.
Logo em seguida, Bianqui fez a entrega das chaves da cidade, pedindo que, sendo necessário, as retorne apenas e só ao Cabildo, que é quem as entrega:

El Exmo. Cabildo de esta Ciudad por medio de su Sindico Procurador General hace entrega de las llaves de esta Plaza á S. M. F. (que Dios guarde) depositandolas com satisfacion y placer, en manos de V. E. suplicandole sumisamente tenga la vondad de hacerle el gusto que en qualquier caso ó ebento que se vea en la necessidad de ebaquarla no las entriegue á ninguna otra autoridade ni potencia, que no sea el mismo Cabildo[...]

Bianqui conclui, indicando que o Cabildo espera que “un General que ha mostrada tanta generosidad á todos los Pueblos del tránsito [...] no se negará consederle esta suplica”. Bianqui foi, como veremos, na segunda parte desta postagem, uma figura fundamental na gestão dos acontecimentos. Tendo Barreiro retirado com os 800 homens da guarnição na noite de 18 para Paso del Cuello, a norte de Canelones, é ele que faz o Cabildo agir, na manhã de 19, da única forma que pode, a rendição, pedindo o razoável aos portugueses. Não há tropas, mas a cidade permanece, o comércio e a navegação devem continuar.

Sob o Pálio

Igreja Matriz (hoje Catedral Metropolotina)
Entregues as chaves e feitos os cumprimentos, os maiores da cidade guiaram o general Lecor, “en la forma acostumbrada”, debaixo do pálio, entre vivas e aclamações entusiásticas, à Igreja Matriz onde foi entoado um solene Te Deum. Após a cerimónia religiosa, a comitiva deslocou-se às Casas Capitulares, onde o Cabildo estava sediado, e onde Lecor tomou a posse da cidade.
O memorialista Lobo Barreto, então tenente de caçadores, reflete sobre a natureza dos vivas que eram dados a Lecor e a D. João VI, principalmente por parte dos espanhóis europeus:

[...] um regozijo extraordinario se mostrou em toda a Povoação, e muito principalmente nos Hespanhoes Europêos, que se persuadião que estas tropas de acordo com o gabinete de Madrid ião revendicar os direitos do seo Rei, e livrando-os da perseguição dos filhos do paiz, proteger as vinganças e caprichos dos seos primeiros colonos; do que bem breve se desenganarão [...].

Versão a cores da obra de Gilberto Bellini

Segundo Francisco Bauzá, não houve apenas vivas, tendo as autoridades alguma dificuldade em conter alguns “morram os traidores, os portugueses e os aportuguesados” que se ouviam. Segundo este autor, descendente de Rufino Bauzá, apoiante de Artigas e protagonista oriental dos dias anteriores, houve algumas agressões pessoais e o falatório de outras mais generalizadas para o futuro. De facto, e apesar das derrotas que os orientais sofrem em India Muerta e Catalán, a Banda Oriental está longe de estar controlada e a Liga de los Pueblos Livres, de Artigas, está ainda longe de submetida.

O Pavilhão Portuguez

Após todas estas cerimónias, as tropas portuguesas desfilaram ainda pelas ruas principais da cidade, exibindo o seu garbo marcial e os seus uniformes castanhos distintos, que tanto tinham impressionado em Lisboa e no Rio de Janeiro. Como último ato do dia, içou-se a bandeira portuguesa na cidadela, ao que se seguiram salvas e repique de sinos. 
Lobo Barreto informa-nos que, com a exceção da Coluna da Vanguarda que ficou aquartelada na cidadela, todas as forças portuguesas se foram postar a cerca de 5 kms das muralhas, montando postos avançados. Montevidéu pode ter sido tomada, mas a Banda Oriental está longe de ser dominada.

Continua (em breve):
- Parte II – Antecedentes: Aproximação da Divisão à cidade e negociação, a 19 de janeiro; retirada de MiguelBarreiro, Joaquin Suárez e guarnição a 18 de janeiro. Marcha de Lecor desde Pan de Azúcar, de onde parte no dia 15 de janeiro.

* * *

Ordem de ‘Batalha’
(de acordo com DUARTE: 1984)

Divisão de Voluntários Reais
1.ª Brigada de Infantaria:
- 1.º Regimento de Infantaria ... 1,040
- 1.º Batalhão de Caçadores ... 712
2.ª Brigada de Infantaria:
- 2.º Regimento de Infantaria ... 1,076
- 2.º Batalhão de Caçadores ... 615
Cavalaria ... 756
Artilharia ... 233
(Total de 4,432 efectivos)

Unidades Brasileiras
Batalhão de Infantaria do Rio Grande ... 220
Esquadrão de Cavalaria do Rio Grande ... 113
2 Esquadrões da Legião de São Paulo ... 54
2 Esquadrões da Milícia do Rio Grande ... 196
Companhia de Artilharia a Cavalo ... 62
Guerrilhas do Rio Grande ... 17
(Total de 662 efectivos)

Grande total de 5,094 efectivos

* * *

Extrato das memórias de João da Cunha Lobo Barreto

[…]

ENTRADA NA PRAÇA DE MONTEVIDÉO
No dia 20 de Janeiro ao romper do sol se formarão todos os Corpos no maior asseio possivel afim dos seos respectivos Commandantes lhes passarem as competentes revistas, e depois de reunida toda a columna nos posemos em marcha para a dita Praça, onde entramos ás 9 horas da manhã do mesmo dia; um regozijo extraordinario se mostrou em toda a Povoação, e muito principalmente nos Hespanhoes Europêos, que se persuadião que estas tropas de acordo com o gabinete de Madrid ião revendicar os direitos do seo Rei, e livrando-os da perseguição dos filhos do paiz, proteger as vinganças e caprichos dos seos primeiros colonos; do que bem breve se desenganarão como logo diremos. O General em Chefe foi recebido pelo Cabildo (Senado da Camara) debaixo do Palio, assim conduzido á Matriz, aonde se entoou Te-Deum; depois as tropas percorrerão algumas ruas do centro da cidade; e á excepção da columna da vanguarda que se aquartelou na Cidadella, forão formar uma linha a uma legoa da cidade, cobrindo os seos suburbios todos com postos avançados. O General Pinto foi nomeado Governador da Praça, e o corpo de vanguarda desfeito no outro dia.
No dia seguinte se arvorou na Cidadella, e mais fortes da praça o Pavilhão Portuguez; a cuja vista os Hespabhoes ali residentes murmurarão, e desde logo supposerão que a usurpação daquelle territorio é que ali nos tinha levado; os filhos do paiz, que até então gemião sobre o tirano jugo de José Artigas, uns porque tinhão sido por elle perseguidos, e outros querendo figurar na ordem das cousas, ou tirar vantagem della; o caso é, que se mostravão muito satisfeitos, ou ao menos assim o apparentavão, rendendo seos respeitos ao General em Chefe, que a todos habitantes acolhia com summa consideração e affabilidade, conservando todas as authoridades que se achavão constituidas, e preferindo para os empregos que se hião creando os Americanos, aos Europêos, de cuja politica estes muito se ressentião, porem mais escandalisados dos filhos do paiz, antes querião soffrer semelhante humilhação, do que de novo lhes serem sugeitos, visto que seo desenfreamento, lingoagem, e regozijo, no acto da nossa entrada, mais tinha incitado a aquelles, que de certo lhe tomarião novas e restrictas contas se as nossas tropas de ali levantassem.

* * *

Fontes
- BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in:Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.
- BAUZA, Francisco, História de la Dominación Española en el Uruguay (tomo VI), Col. Clásicos Uruguayos, Ministério de Instrucción Pública: Montevideo, 1965. 444 pp.
- DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 ( 3 v.), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.
- ARCHIVO ARTIGAS, tomo XXII

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