domingo, 6 de novembro de 2016

“De modo que todos enjoaram”: início da invasão da Banda Oriental

Fuerte de San Miguel (Wikicommons)

Enquanto se dava por concluída a primeira parte das operações na zona de Entre Rios, com o sucesso das armas portuguesas da capitania do Rio Grande na supressão temporária da ameaça de Artigas, era agora a vez, finalmente, da Divisão de Voluntários Reais, vinda de Portugal, entrar em jogo.

Leia sobre a campanha na fronteira do Quaraí:


Ainda que a vanguarda, comandanda pelo marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia, já estivesse no forte de Santa Teresa desde meados de Agosto, só nos princípios de Novembro é que o grosso da divisão começa a travessia marítima, pela lagoa Mirim, para território oriental, na ponta de S. Miguel, com vista ao objetivo final: Montevidéu. Por ordem, primeiro a 2.ª Brigada de Voluntários Reais, do Brigadeiro Pizarro, e atrás, a 1.ª, do Brigadeiro Avillez.

Com base nas memórias do coronel Francisco de Paula Azeredo, que comandava o 2.º Regimento de Infantaria (portanto, 2.º Brigada), temos acesso a alguns pormenores interessantes do trajeto específico da divisão.

Leia sobre o coronel Francisco de Paula Azeredo, aqui

Iniciado em Pelotas, onde estivera a 2.º Brigada durante dois meses, navegaram pelo canal natural do Rio S. Gonçalo, entrando na lagoa Mirim e demandando S. Miguel, já na Banda Oriental.


Numa viagem de contrastes e novidades, desde a ilha de Santa Catarina, pelos areais intermináveis da costa de S. Catarina e Rio Grande, contrasta também que nesta viagem, ainda por virtude de uma insuspeita lagoa (3749 km² de água), “todos enjoaram”, mesmo aqueles que não haviam tido tal problema na passagem do Atlântico.

Apenas a 16 de Novembro, a última coluna da 1.ª Brigada (em particular o 1.º regimento) assim como o tenente general Carlos Frederico Lecor chegam ao pontal de S. Miguel, colocando toda a Divisão em território inimigo.

Assim começa, de ernesto, ao início da Primavera de 1816, a Campanha de Montevidéu ou a Segunda Invasión Portuguesa, conforme lhe quisermos chamar.

A batalha de India Muerta, a segunda maior de toda a campanha, neste teatro e mais a oeste na fronteira do rio Quaraí, será combatida daqui a duas semanas, selando o destino da campanha, nestes lados, numa ação geral, uma das mais bem documentadas e decerto com maior número de memórias e que será comemorada devidamente neste blogue.

Aqui fica um pequeno extrato ilustrativo, dizendo respeito à semana de há 200 anos atrás, de 4 a 13 de Novembro, das valiosíssimas memórias do coronel Francisco de Paula Azeredo:


[Outubro e Novembro]
O batalhão passou nas Pelotas os mezes de setembro e outubro, vivendo no seio da abundancia e dos bons commodos. Principalmente o bom vigario, que era irmão d'um Hypolito [José da Costa, vide Wiki], redactor do Correio Braziliense tratou o Coronel com tal carinho e generosidade, que nos seus velhos dias, quando o frio dos annos procurava regelar-lhe a memoria, elle o recordava com saudade. Que todo o homem, em qualquer posição, procure sempre fazer o bem e crear sympathias: por obscuro que elle seja, viverá perennemente na memoria das almas bem formadas, e não será inutil a sua passagem sobre a terra. [...]

[4/11]
Como haviamos dito, nas Pelotas se tinha reunido o regimento todo, o qual embarcou no dia 4 de novembro ás 6 horas da tarde, 

[5/11]
e como não houvesse vento, ficaram no mesmo ancoradouro, largando-o no dia 5, pelas 9 horas da manhã; subindo o rio de S. Gonçalo, e andando nesse dia dezoito legoas, foram pernoitar ao sitio dos Canudos [hoje, Santa Izabel do Sul]. As margens do rio são agradaveis, mas incultas e desertas; e o rio é mais largo e tão caudaloso como o nosso Douro.

[6/11]
No dia 6, pela 1 hora da noite, seguiram viagem, e duas legoas a montante entraram na grande lagoa chamada = Mirim, = d'onde o rio toma a origem. Tem esta lagoa mais de 70 legoas de comprido, e de largo 40, e em partes menos. No sitio onde o regimento a atravessou tem 30 legoas: a sua navegação é perigosa, por causa dos muitos baixios, e por ser muito varejada pelos ventos: pelo que se tomam pilotos práticos para dirigir os hiates.
N'este dia soprava o vento do quadrante de Nordeste, o que deu á lagoa o aspecto d'um mar agitado por uma grande tormenta: de modo que todos enjoaram, mesmo os que não conheceram tal incommodo na travessia para a America. Felizmente a viagem foi sem risco, e ás 6 horas da tarde do mesmo dia deixaram á popa a turbulenta lagoa, e commettiam um rio que n'ella vasa, chamado = Arroyo de S. Miguel =. Foi á entrada do dito Arroyo que os hiates pararam, e passaram a noite.

[7/11]
No dia 7 seguiram o curso do rio para montante, e tendo andado cinco legoas, desembarcaram na ponta de S. Miguel, assim chamada de uma fortaleza que os hespanhoes ahi tiveram, e que os portuguezes arrazaram em 1801. O regimento desembarcou numa planicie immensa, sendo já terra hespanhola a que pizavam, e objecto das contendas.

[8-12/11]
Acampou junto ao rio n'este pontal, e ahi se demorou, seguindo as ordens recebidas, os dias 8, 9, 10, 11 e 12. Os cavallos que tinham vindo adiante, estavam magnificos, tendo engordado espantosamente nas bellissimas pastagens d'estas campinas. Era consideravel o numero de cobras, que havia neste campo; os soldados mataram muitas, e houve a fortuna de não haver desgraças. Aqui se reuniu o resto da tropa que formava a brigada, 

[13/11]
e assim reforçados marcharam no dia 13 sobre o forte de Santa Thereza, que se rendeu á discripção, sendo a guarnição diminuta, e privada dos me os de defeza.
Dista este forte do de S. Miguel sete legoas, e á sua direita, marchando n'esta direcção, se prolonga uma serra, que cerca uma formidavel lagoa, onde nasce o mesmo rio S. Miguel.

[...]

***

Fontes
AGUILAR, Francisco D’Azeredo Teixeira D’, Apontamentos Biographicos de Francisco de Paula D’Azeredo, Conde de Samodães, Porto, Tip. Manoel José Pereira, 1866.

Leia a edição digitalizada pelo Google Livros, aqui


Ordem de Batalha

1.ª BRIGADA DE VOLUNTÁRIOS REAIS
Comandante
Brigadeiro Jorge de Avilez Zuzarte Ferreira de Sousa

1.º Batalhão de Caçadores
(5 companhias, uma na Vanguarda)
Tenente Coronel Manuel Jorge Rodrigues 
Major Jerónimo Pereira de Vasconcelos 
Major Caetano Alberto de Sousa Canavarro

1.º Regimento de Infantaria
(8 companhias, as duas de granadeiros destacadas na Vanguarda)
Coronel João Carlos de Saldanha de Oliveira e Daun
Major José Pedro de Melo 
Major João Joaquim Pereira do Lago

1.º Corpo de Cavalaria
(3 esquadrões, 6 companhias)
Tenente Coronel António Manuel de Almeida Moraes Pessanha
Major Joaquim Claudio Barbosa Pitta
Major Antonio de Castro Ribeiro

2.ª BRIGADA DE VOLUNTÁRIOS REAIS
Comandante
Brigadeiro Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro 

2.º Batalhão de Caçadores
(5 companhias, uma na Vanguarda)
Tenente Coronel Francisco de Paula Rosado
Major João José de Moraes
Major André McGregor 

2.º Regimento de Infantaria
(8 companhias, as duas de granadeiros destacadas na Vanguarda)
Coronel Francisco de Paula de Azeredo
Tenente Coronel João Crisóstomo Calado
Major José Maria da Silveira
Major William Cotter

2.º Corpo de Cavalaria
(3 esquadrões, 6 companhias)
Tenente Coronel João Vieira Tovar de Albuquerque
Major João Nepomuceno de Lima
Major Duarte Joaquim Correia de Mesquita


VANGUARDA

[Em operações a partir de 4 de julho.]

Comandante
Marechal de Campo Sebastião Pinto de Araújo Correia
(Ajudante General da Divisão de Voluntários Reais)

Destacamento de Cavalaria de Voluntários Reais
(129 efectivos)
Tenente Coronel João Vieira Tovar (2.º CCav)
Major Duarte Joaquim Correia de Mesquita (2.º CCav)
Cap João Nepomuceno Isidro de Macedo (3.ª comp/1.º CCav)
Cap Miguel Pereira de Araújo (4.ª comp/1.º CCav)
- 2 esquadrões (4 companhias) da DVR

Destacamento de Cavalaria da Capitania do Rio Grande
(106 efectivos)
- 1 esquadrão de Milícias do Rio Grande:
Sargento Mor Manoel Marques de Sousa
- 2.º e 4.º esquadrões de Cav da Legião de Tropas Ligeiras (c. 90 ef.):
Sargento Mor José Pedro Galvão de Moura e Lacerda

Destacamento de Infantaria de Voluntários Reais
Tenente Coronel António Claudino Pimentel (1.º RInf)
- 4 companhias de Granadeiros (1.º e 2.º RInf) 

Destacamento de Caçadores de Voluntários Reais
Sarg Mor Jerónimo Pereira de Vasconcelos (1.º BatCaç)
Sarg Mor Andrew MacGregor (2.º BatCaç)
- 2 companhias de Caçadores (uma de cada batalhão)
- 2 companhias do 2.º BatCaç (emprestadas pela 2.ª BVR, de 16 a 21 de novembro)

1 obus  Calibre 3 + Guarnição de Artilharia (Voluntários Reais)
2.º Tenente Gabriel António Francisco de Castro

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