segunda-feira, 7 de maio de 2018

A relação entre condecorações e a experiência militar dos voluntários reais (II) : Cruz da Guerra Peninsular n.º 1 e 2


A Condecoração
A Cruz da Guerra Peninsular (adiante CGP) foi criada pelo Rei D. João VI em 28 de Junho de 1816,  para distinguir os oficiais que participaram nas campanhas da Guerra Peninsular de 1809 a 1814, mas apenas foi regulamentada em 1820. Era outorgada a todos os oficiais com pelo menos 2 campanhas cumpridas. Em Prata para quem tivesse participado em até 3 campanhas e em Ouro para quem participasse em 4, 5 ou 6 campanhas.

Desenho
Anverso: Uma cruz pátea, de contornos rectilíneos, de ouro ou prata, assente numa coroa circular de folhas de louro. Ao centro, um emblema nacional (constituído pelo escudo das armas nacionais, assente numa esfera armilar). Circundado por uma bordadura de azul com a legenda «GUERRA PENINSULAR». 
Reverso: no disco central o número de campanhas.

Atribuição
As Campanhas eram contadas em termos de anos:
1.ª Campanha:1809
2.ª Campanha: 1810
3.ª Campanha: 1811
4.ª Campanha: 1812
5.ª Campanha: 1813
6.ª Campanha: 1814

Em cada ano, ou campanha, eram consideradas os seguintes combates e batalhas, sendo que a participação numa delas seria considerada participação na campanha:

1809: TALAVERA
1810: BUSSACO
1811: FUENTES DE HONOR, ALBUHERA
1812: CIUDAD RODRIGO, BADAJOZ, SALAMANCA
1813: VICTORIA, PIRINEOS, S. SEBASTIÃO [SAN SEBASTIAN], NIVELLE, NIVE
1814: ORTHES, TOULOSE

A primeira menção a esta condecoração  já vem de 1816, aquando da criação da Medalha de Distinção de Comando, mas só 4 anos depois é regulada.

Cautelas
A atribuição da CGP n.º 1 e 2 é o equivalente a uma medalha de campanha, refletindo tempo de serviço.  Ao contrário da n.º 3, para sargentos e praças, de que falei aqui, um misto de medalha de campanha mas com elementos de distinção, as dos oficiais era atribuída a todos os oficiais participantes. 
Para o fim de verificar em números concretos a experiência militar dos Voluntarios Reaes nas campanhas da Guerra Peninsular, a média do número de campanhas, no máximo de seis (1808-1814), são um indicativo muito interessante.

A Divisão de Voluntários Reais foi levantada em Maio de 1815 e em Junho já tinha nomeados quase todos os oficiais, de alferes a tenente general. A Cruz da Guerra Peninsular foi apenas criada em 1816 e o processo longo de atribuição fez com que as medalhas só fossem atribuídas em Dezembro de 1820. Houve um esforço bastante acentuado da Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra, com D. Miguel Pereira Forjaz ao leme, de verificar exatamente quais os números de anos de campanha respeitante a todos os oficiais do Exército.

Observações gerais
Os cinco oficiais generais da Divisão contavam entre si uma média de 4 campanhas e meia, todos condecorados com a cruz da guerra peninsular n.º 1, dourada.

Os oficiais superiores do Estado Maior têm uma experiência de quase 5 campanhas (4,7), apresentando 6 cruzes de guerra n.º1 e um oficial apenas sem medalha. São o setor da Divisão que apresenta mais experiência, em termos médios, sendo que entre os seis oficiais superiores que obtiveram a cruz, a média é de cinco campanhas e meia. Isso indica que quase todos eles cumpriram serviço durante todas as campanhas, pelo menos desde 1809 e pelos seis anos seguinte, por Espanha até França.

Um oficial superior da Divisão (todas as armas) tinha em média 4 campanhas, com apenas 3 oficiais sem qualquer campanha ou a cruz. Desta classe, 13 receberam a cruz de guerra peninsular n.º 1, de ouro, e 4 a n.º 2, de prata.

Um capitão comandante de companhia tinha a experiência de entre 3 e 4 campanhas no exército de operações (3,5),. Destes, três não receberam a medalha. 16 receberam a CGP n.º 1, enquanto que 13 receberam a CGP n.º 2.

Os oficiais subalternos de infantaria têm, equitativamente entre as brigadas, três campanhas de experiência (2,8). Falamos nomeadamente de tenentes com dez CGP n.º 1 ou douradas, e 17 CGP n.º 2, prateadas. Cinco tenentes não receberam medalha.


NUMEROS
([0] representa não ter recebido a Cruz da Guerra Peninsular)

Estado Maior
Oficiais Generais: 6+3+4 = média de 4,3 campanhas
Oficiais Superiores:  6+5+6+5+5+6  (+ um sem medalha) = média de 4,7 campanhas (5 campanhas e meia entre os que obtiveram a cruz)
Capitães e Oficiais Subalternos: 3+2+2+2+2 (+ dois sem medalha) = média de 1,6 campanhas

1.ª Brigada de Voluntários Reais
Oficiais Generais e Estado Maior: 5+2+4+6 =  média de 4,3 campanhas
Oficiais Superiores: 6+4+5+3+0+5 = média de 3,8 campanhas (4,6 entre os que obtiveram a cruz)
Capitães: 4+4+4+2+4+2+5+5    5+2+2+5+3+5+5+2 = média de 3,7 campanhas
Oficiais Subalternos: 3+2+2+2+2+2+3+4     2+5+0+2+5+4+3+4 = média de 2,8 campanhas

2.ª Brigada de Voluntários Reais
Oficiais Generais: 4+2+5+0 (capelão) = média de 2,8 campanhas (3,7 entre os que obtiveram a cruz)
Oficiais Superiores: 6+5+3+3+5+3 = média de 4,2 campanhas
Capitães : 3+0+5+5+4+2+4+2   0+2+6+3+5+4+2+4 = média de 3,2 campanhas
Oficiais Subalternos: 0+2+2+0+2+0+2+3     4+0+5+4+5+4+3+3 = média de 2,8 campanhas

Infantaria (em pormenor)
1.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,8) Tenente (2,5)
3.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,6) Tenente (3,1)
4.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,3) Tenente (3,5)
2.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,1) Tenente (1,4)
(2 cap. + 5 ten. sem medalha)

Cavalaria
Oficiais Superiores: 5+0+0+4+4 = média de 2 campanhas (4 entre os que obtiveram a cruz)
Capitães: 5+6+4+4+2+3 (25) 4+2+0+0+2 (8) = média de 2,8 campanhas (3,3 entre os que obtiveram a cruz)
Oficiais Subalternos: n/d

Artilharia
Oficiais Superiores: 5
Capitães: 4+0+5 = média de 3 campanhas (4,5 entre os que obtiveram a cruz)
Oficiais Subalternos: 6+6

Conclusão
De tenente para cima, a DVR era uma unidade cujos oficiais tinham em média 3 campanhas na Guerra Peninsular, principalmente, supomos, nos seus dois últimos anos 1813 e 1814 em que o exército de operações anglo-português leva a cabo as suas mais importantes manobras sobre o sul de França.

Um oficial superior não tem menos de 4 campanhas, e deste só três não receberam cruz. Especificamente os oficiais superiores do Estado Maior, têm quase 5 campanhas, com apenas um destes sem direito à cruz, no caso o sargento mor (major) João Pedro Lecor, irmão do comandante em chefe e seu 1.º Ajudante de Ordens. João Pedro foi governador de Albufeira durante a guerra e não participou em operações.

Os capitães comandantes de companhia, elementos chave da estrutura da DVR, apresentam em média entre 3 e 4 campanhas da Guerra Peninsular. Dos 32 capitães que analisei, apenas três não receberam cruz. Exatamente metade desses 32 receberam a CGP n.º 1 de ouro, por terem pelo menos 4 campanhas. 
Um tenente de infantaria tinha em média 2,6 campanhas, um ano menos que os capitães, sendo que apenas cinco (entre 32) não tiveram direito a cruz. Dez tenentes receberam a CGP n.º 1, por pelo menos 4 campanhas.

É claro então que a DVR tinha um quadro de oficiais extremamente experimentado em termos de operações de guerra europeia, o que já tínhamos verificado com o quadro de sargentos e praças e a CGP3.

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