terça-feira, 8 de maio de 2018

Tomada de Colónia do Sacramento (Maio de 1818)


No início de Maio de 1818, e após quase um ano e meio após a tomada de Montevideu, vários habitantes de origem portuguesa de Colónia, liderados por Salvador Antunes Maciel, levantam-se contra a autoridade oriental e hasteam a bandeira portuguesa, aproveitando o apoio dado pelo chefe de divisão [hoje em dia, comodoro] António Manuel de Noronha (1772-1860) que estava ancorado diante da povoação, com três corvetas e mais alguns barcos armados.

Após os revoltosos aprisionarem o comandante de Colónia e a pequeníssima guarnição, o capitão de fragata Diogo Jorge de Brito desembarcou com artilharia, e montou as suas peças num reduto que foi construído. Hernani Donato, no Dicionário de Batalhas Brasileiras, apresenta o dia 2 de Maio, como o dia da rebelião.

Colónia do Sacramento
No início de 1815, o sargento mor João Vieira de Carvalho, do estado maior da Capitania do Rio Grande, referia que Colónia tinha “as suas fortificações [...] em terra, e apenas existem uns miseráveis restos de povoação que mal podem servir para acantonamento de tropas”. Isso explica o atraso na tomada de Colónia, que se observa assim ter acontecido devido a um conjunto acidental de eventos. 
No entanto, Vieira de Carvalho refere-se também à sua localização, mesmo em frente a Buenos Aires, e após Montevideu e Maldonado, sem dúvida o terceiro porto atlântico da Banda Oriental.

Alívio de Montevideu
Nos primeiros dias de maio, o tenente general Lecor, agora Barão da Laguna, envia uma força portuguesa, comandada pelo nosso conhecido Sebastião Pinto de Araújo Correia, para ocupar definitivamente Colónia, onde fica até à retirada final das tropas, então brasileiras, em finais de 1828.
Esta força, comandada como já vimos pelo general Pinto, era composta de quatro companhias d0 1.º Batalhão de Caçadores e variada cavalaria da capitania do Rio Grande, assim como uma bataria montada que não consigo identificar se é da Divisão, se do Esquadrão de Artilharia Montada, do Rio de Janeiro, que atuou na Coluna Silveira, em finais de 1816, e esteve em Montevideu a 20 de Janeiro de 1817.  

A 5 de Maio, Lecor envia também uma proclamação aos habitantes de Colónia, anunciando o envio do governador intendente Sebastião Pinto de Araújo Correia e prometendo ouvir as suas petições, aliviar as suas necessidades e assegurar os seus direitos.

A expedição portuguesa de alívio à pressão oriental que ainda se fazia sentir, composta de cerca de 600 homens, chega a Colónia a 11 de Maio mas só a 13  desembarca toda a expedição.
De acordo com Hernani Donato, um dia antes, a 12 de Maio, as forças de cavalaria miliciana formadas por Salvador Antunes e as praças de artilharia do capitão de Fragata Diogo José de Brito repelem um ataque de forças orientais sob o comando do comandante oriental Francisco Encarnacion Benítez.


Memorialismo
O nosso conhecido memorialista João da Cunha Lobo Barreto, com 23 anos e integrado nesta força para ocupar Colónia, era ainda em 1818 tenente do 1.º Batalhão de Caçadores, na 1.ª Brigada de Voluntários Reais. O seu testemunho relativamente aos eventos que ocorreram em Colónia do Sacramento é muito relevante pois ele serviu na cidade de 1818 até pelo menos 1821, quando se vê apanhado como representante da sua unidade no Conselho Militar, em oposição a Claudino Pimentel. Assistiu, pois, em primeira mão ao que aqui tentamos relembrar.  Lobo Barreto escreveu estas memórias muito possivelmente na década de 1850, 32 anos após os eventos.

Das memórias de João da Cunha Lobo Barreto (páginas 17-18):

Neste estado se achavão as nossas manobras na campanha de Montevidéo, quando um acontecimento veio dar lugar a novas operações no já proximo inverno.
Emquanto uma Esquadrilha tinha subido pelo Rio da Prata, entrando pelo Uruguay para abrir communicação com a Columna do General Curado, que alcançando repetidas victorias se dirigia ao Rincão das Galinhas.

O Chefe da Divisão Noronha [António Manuel de Noronha (1772-1860), futuro visconde de Santa Cruz], com tres corvetas e mais alguns barcos de guerra, deitou ancora no porto de Colonia do Sacramento, e buscou abrir communicação com a terra; sua prudencia e affabilidade lhe grangearão a affeição da maior parte dos habitantes deste Povo; o que constando ao sanguinario caudilho Encarnação [Francisco Encarnacion Benítez, comandante oriental], preparou-se este para castigar semelhante rebeldia: então o Brasileiro Vasco Antunes Maciel, (11) um dos mais comprometidos, convocando varios socios prenderão o commandante, e poucos soldados, ali destacados, e arvorando o Estandarte Portuguez, avizou á aquelle desta revolução, que fez, pedindo-lhe soccorro; e o // dito Chefe de Divisão, já antes prevenido, concedeo, mandando-lhe algum armamento, e fazendo desembarcar o Capitão de Fragata Diogo Jorge de Brito com alguns praças de artilharia.

Este fez construir logo um pequeno reducto em que montou alguns canhões; e Vasco Antunes organizou de todos os habitantes de sua confiança uma Companhia de Guerrilhas a cavallo, para guarda da Povoação, e seos suburbios.

Mal que o General em Chefe teve nos 1.ºs dias de Maio aviso desta occurencia, fez immediatamente embarcar para a dita praça ao General pinto com quatro companhias do 1.º Batalhão de Caçadores, commandadas pelo Coronel Manoel Jorge Rodrigues, uma Bateria de artilharia montada; algumas Milicias de São Paulo, um Esquadrão de Voluntarios do Rio Grande, commandando pelo Major Gaspar Pinto Bandeira, e as Guerrilhas do Coronel Alvim: comtudo por mais presteza com que se verificou o mesmo embarque, em razão de ventos contrarios, só começarão a saltar em terra estas tropas á 11 do dito mez, e á 13 é que chegou toda a expedição. 

O General logo organizou um Cabildo, nomeou Administrador da Alfandega, e os Officiaes dentre os mesmo habitantes para um Regimento de Milicias, promoveo Vasco Antunes á Coronel do mesmo: nomeando iguaes officiaes para um Corpo de Civicos a pé; o qual jamais se organisou. O General em Chefe approvou todas estas disposições. 

[...]

(11) A entrega de Colonia foi devida não só a Vasco Antunes como a m.tos filhos do paiz. [nota do Conde do Rio Branco]

Fonte
BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in: Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, 68pp. pp. 17-18.

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Ordem de Batalha Portuguesa

Comandante: Sebastião Pinto de Araújo Correia

- quatro companhias, 1.º Batalhão de Caçadores, coronel Manuel Jorge Rodrigues, c. 450 efetivos
- uma Bateria de artilharia montada; 
- 'algumas' Milícias de São Paulo;
- um Esquadrão de Voluntários do Rio Grande, major Gaspar Pinto Bandeira, 
- Guerrilhas, Coronel Alvim

- uma Companhia de Guerrilhas a Cavalo,  Vasco Antunes Maciel
- Destacamento de artilharia da Marinha, Capitão de Fragata Diogo José de Brito

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Biografias

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