sábado, 2 de julho de 2016

Memórias do tenente coronel António José Claudino de Oliveira Pimentel - I

Janeiro de 1816 – O dia 20 de janeiro de 1816 foi o dia do embarque da infantaria pertencente á divisão dos voluntarios reaes do principe, tendo já embarcado para o Rio de Janeiro, em setembro de 1815, toda a cavallaria e artilheria da mesma divisão.

Pelas oito horas da manhã d’aquelle dia pozeram-se em marcha as duas brigadas de caçadores para embarcarem no arsenal da marinha. Durante a marcha, desde Belem a Lisboa, notava-se extraordinaria concorrencia de gente de todas as classes, em cujos rostos se manifestava profunda mágua, por verem partir de Portugal uma tão brilhante porção de tropa, que se lhe afigurava não regressaria á patria. Tal é o descostume em que estão os portuguezes de ver partir dos nossos portos expedições marítimas de maior vulto!

As brigadas embarcaram na melhor ordem, assistindo a esta operação o general Lecor, commandante da divisão, e o incansavel chefe de divisão Rodrigo José Ferreira Lobo, que havia dado para este effeito as mais acertadas providencias.
Ás duas horas da tarde estava ultimado o embarque a bordo dos seguintes navios: nau Vasco da Gama e charrua S. João Magnanimo; e nos vasos mercantes: Caridade; Flor do Tejo; S. José, Phenix; Asia Grande; S. Thiago Maior; Commerciante; Russia (sueco); L’Orient (francez) e um bergantim inglez.

Os governadores do reino haviam-se esmerado em dar as mais generosas providencias para que durante a viagem nada faltasse aos officiaes da divisão, e para que os soldados fossem tratados o melhor possivel, não poupando para o conseguir nem desvelos nem despezas.

Estivemos fundeados no Tejo desde 20 de janeiro até 15 de fevereiro, não ocorrendo durante este tempo cousa alguma notavel, senão os ventos contrarios que nos não deixavam levantar ferro.

Finalmente, amanheceu esplendido o dia 15 de fevereiro. Soprava um vento de nordeste que convidava os navegantes a desaferrar do porto de Lisboa. Era dever o partir. Ás sete horas da manhã fez a nau o sinal de suspender. poz-se então todo o comboio em movimento, e do meio dia para a uma hora da tarde todos os navios tinham saido a barra, escondendo-se ás nossas vistas a capital do reino, sem que podessemos agourar quando, ou se a tornariamos a ver.
Ao sair a barra a nau Vasco da Gama abalroou com um pequeno bergantim inglez que bordejava para entrar no Tejo, e que é muito natural que ficasse maltratado, porque a nau pela sua parte teve o beque partido.

No dia 21 avistámos a ponta de oeste da ilha da Madeira e separou-se então de nós o bergantim Balão, que havia acompanhado o comboio até aquela altura para informar os governadores do reino do que até àquele ponto houvesse occorrido. 

Continuámos com a maior felicidade a navegação tão bem encetada; pois não houve durante toda ella um só temporal no mar, nem a mais leve doença a bordo, nem a menor falta; sendo a tropa sustentada, não só com abundância de mantimentos, mas até com profusão de refrescos, havendo à disposição do corpos tudo quanto era necessário para conservar a saúde, asseio e bom estado dos soldados. E na verdade tropa alguma foi jamais bem vestida, equipada e tratada do que a divisão dos voluntarios reaes do principe, sendo tudo isto devido ao desvelos e assiduos cuidados de D. Miguel Pereira Forjaz, secretario d’estado da guerra e marinha.

No fim de quarenta e quatro dias da mais feliz e tranquilla viagem avistámos no dia 29 de março a ponta de Cabo Frio, navegando sempre com vento favorável e fresco. Este porém acalmou de tarde, o que no obrigou a dar fundo à vista da barra do Rio de Janeiro.
Pouco tempo depois de fundearmos, passou um escaler do Rio de Janeiro, dando a notícias do fallecimento de sua majestade a rainha D. Maria I, de saudosa memória. Soubemos também então que o marechal Beresford ainda se achava no Rio de Janeiro, e esta notícia não foi de certo agradavel a muitos dos que íamos...” 

[...] El-rei mostrava no semblante extrema alegria ao ver aqueles seus fieis vassalos que por tantas vezes haviam arriscado as vidas, em defesa dos seus direitos e da nacionalidade portuguesa, nos campos de batalha contra o grande conquistador da Europa, e que agora deixavam outra vez a pátria, famílias, fortuna e amigos para correrem, voluntários, a novo combates em que se achava empenhada a honra nacional.

Retirado de: PIMENTEL, Júlio Machado de Oliveira, Memorial Biographico de um militar ilustre, O General Claudino Pimentel, Lisboa, Imprensa Nacional, 1884, pp.75-77

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