terça-feira, 16 de agosto de 2016

Tomada do Forte de Santa Teresa (16 de Agosto de 1816)


De forma a preparar a chegada dos Divisão de Voluntários Reais (DVR) ao sul, assim como para estabelecer desde logo pontos de apoio face a qualquer oposição oriental na área da fronteira do rio Jaguarão e Chui, foi considerado fundamental pelo governo do Rio de Janeiro, em acordo com os objetivos da campanha, mandar as forças da capitania do Rio Grande do Sul ocupar a vila de Melo e a fortaleza de Santa Teresa.

Enquanto que Santa Teresa, uma fortaleza originalmente construída pelos portugueses em 1762 (e perdida para os espanhóis no ano seguinte), dominava a estrada real para Montevideu e Colónia, numa zona estreita de terra próxima a Castillos entre a Laguna Negra e o mar, Melo dominava uma estrada secundária que passava pelo interior, a ocidente da Cochilha Grande, a principal cadeia montanhosa da Banda Oriental, e que levava a Minas e depois também à estrada principal, em Pan de Azúcar.

A posse de ambos os pontos era essencial agora em 1816, como em campanhas anteriores (Santa Teresa havia sido ocupada na campanha de 1811/1812, mas logo depois abandonada), não só para garantir a segurança das rota inevitáveis de penetração portuguesa (que não estavam ainda plenamente estabelecidas), como para criar pressão sobre as divisões orientais na zona (Fernando Otorgués no interior, próximo a Melo; e Frutoso Rivera na área costeira de Maldonado, um dos dois portos de águas fundas da província), negando assim também ao inimigo o conhecimento das verdadeiras intenções portuguesas, o número e movimento das suas tropas.

Assim, enquanto a DVR parte do Rio de Janeiro, o Secretário de Estado dos Negócios da Guerra, Fernando José de Portugal e Castro, 1.º marquês de Aguiar [na imagem], no Rio, manda instruções, a 6 de Junho, ao capitão general do Rio Grande, então de S. Pedro, Luís Teles da Silva Caminha e Meneses, marquês de Alegrete para que, entre outra medidas, mande ocupar Melo e Santa Teresa.


A 12 de Julho, o marquês de Alegrete [na imagem à direita] transmite essas mesmas ordens ao tenente general Manuel Marques de Sousa, comandante das forças da capitania na fronteira do rio Jaguarão, logo a sul da Vila do Rio Grande e cuja área de atuação dizia respeito a toda a área oriental da fronteira portuguesa com a banda oriental, estipulando inicialmente que a ocupação dos dois pontos devia ser simultânea no dia 20 de Agosto. Em novas ordens a 17 de Julho, decerto devido a questões diversas na reunião das forças nos dois pontos de partida, o marquês do Alegrete indica que os dois objetivos devem ser tomados antes do dia 20, ainda que em dias diferentes.

Para a ocupação de Melo, que trataremos noutro artigo, foi escolhido o coronel Félix José de Matos, comandante do Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande, assim como um pequeno destacamento de infantaria da DVR, a grande maioria da cavalaria da mesma divisão, assim como mais cavalaria de linha, de Milícias e Guerrilhas. 

Para Santa Teresa, cujo objetivo tinha um maior significado simbólico, pelo facto de ser o forte originariamente uma construção portuguesa, o tenente general escolheu o seu filho, o sargento mor Manuel Marques de Sousa, da Legião de Cavalaria Ligeira do Rio Grande, também eles Voluntários Reais, para comandar uma força constituída por cavalaria da Legião riograndense e da Legião de S. Paulo. A escolha deste oficial foi sugerida pelo marquês de Alegrete logo nas ordens originais de 12 de Julho, destinada decerto a honrar o pai e o bom serviço do filho.
A ambos os comandantes foi entregue o estandarte nacional para que fosse formalmente hasteado nos dois locais, com toda a pompa. Este era o início da invasão portuguesa.

Enquanto que Félix José de Matos entra em Melo pela manhã de 13 de Agosto, Manuel Marques de Sousa conquista o forte de Santa Teresa pelas 7 horas da manhã do dia 16, enviando a parte oficial ao seu pai e comandante, fazendo o relatório que transcrevo em seguida, valendo por si na descrição do que aconteceu nesse dia.

A vanguarda da DVR, sob o comando do marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia, prenunciando os 4000 portugueses expedicionários, chega depois ao forte duas semanas depois, a 1 de Setembro, passando as forças que ocuparam o forte a fazer parte dessa mesma vanguarda até Montevideu cumprindo as ordens do Capitão General. 


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Fortaleza de Santa Teresa, vista aérea (Wikicommons)

Ofício que escreveu o Sargento Mor Manuel Marques de Souza ao seu pai e comandante da fronteira do Jaguarão e Taim, tenente general Manuel Marques de Souza, sobre a tomada do forte de Santa Teresa ao início da manhã do dia 16 de Agosto de 1816.

Illmo. E Exmo. Senhor 
Odepois de passados cincoenta e trez annos voltou a ser arvorada nesta Fortaleza, ontem pelas sete horas da manham a Bandeira Portugueza, e firmada com trez descargas de fogo de alegria, e os competentes vivas de Sua Magestade. 
Para conseguir pois encontrar nella alguma parte da sua guarnição, foi me percizo marchar debaixo do mais rigorozo tempo, e fazer a ultima marcha de doze leguas entre tarde e noite, q' foi sertamente mais tempestuoza, e escura, a ponto de assunar-se a guarnição a ficar dentro do Forte, posto que com os Cavallos Sellados, apezar de já têr tido noticia da minha chegada a Geribatuba, e só me esperavaõ ontem por noite: porem ao manifestar se a Aurora, estava eu junto ao portaõ com quarenta homens, tendo ja deixado dois Esquadroens sercando o Arrayal, afim de que no Cazo que estivese fora do Forte a guarniçaõ se não escapava, e logo fiz forçar o portaõ e a hum brado que dei de Viva El Rey de Portugal renderaõ as Armas e entregaraõ-se prizioneiros o Cap.m de Dragoens da Liberdade e Coman.de do Forte D.m Cypriano Martins, o Ten.e Natario Molina, hum Cabo de Esquadra e oito Soldados, tendose escapado onze que na ocaziaõ do ataque se precipitaraõ das muralhas abaixo. 
No Arrayal foi prezioneiro o Tenente Coronel Coman.de dos Civicos e da Companhia de Maldonado D.m Angelo Nunes, o qual andava alistando gente para o seu Corpo, e assim mais dezanove Milicianos deste Destricto.  
Como os tivessem de levante já tinhão marchado hum Ten.e com 14 Soldados e hum Tambor, arreunir-se ao Destacamento da Cavalhada que tinhaõ em as mediaçoens de Castilhos com o fim de a porem em marcha. 
Comtudo eu ainda assim me esperanço muito de que a Partida q' ontem mesmo fiz seguir de baixo do mando do Sarg.to Mor gr.do de Cav.a de Milicias Joaquim Gomes de Melo os vá alcançar, e lhes tome a cavalhada, que me consta ser de duzentos, sobre o pouco mais ou menos. 
Os que se acháraõ se acharaõ dentro desta Fortaleza foraõ trinta e dois os quais fiz reiúnar, e foraõ intregues ao Sargento Mor Joze Pedro Galvaõ, para o serviço dos Esquadroens do seu mando. 
Amanham pertendo remeter para o Rio Grande os prezioneiros feitos dentro desta Fortaleza, e juntam.e o Ten.e Cor.el Angelo Nunes (filho de Portuguezes e acerrimo Portenho) e hoje mando para suas Cazas os Milicianos, que foraõ prezioneiros no Arrayal. 
Finalm.e Ex.mo Senhor já ninguem pode negar a V Ex.a de terem cido tropas do Comando de V. Ex.a as primeiras q' nesta Campanha trouceraõ a esta Provincia a Bandeira Portugueza, nem a mim, e aos meus Camaradas a de termos cido os que a Arvoramos nesta Fortaleza. 
D.e g.e a V. Ex.a por m. ann.
Fortaleza de Santa Thereza, 17 de Agosto de 1816
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Fontes
- Arquivo Histórico de Itamaraty, AHI-REE-00553 

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