sexta-feira, 13 de abril de 2018

Na Estrada de Montevideu



No final de 1814 foi mandada aprontar uma divisão de voluntários, a ser composta de pouco menos de 5000 militares das três armas, com o objetivo de intervir no sul do Brasil. Este blogue é uma humilde contribuição para o conhecimento da história da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, e depois d'El-Rei, entre 1815 e 1824, assim como das tropas da Capitania do Rio Grande.
A campanha de 1816 foi um esforço conjunto de mais unidades do Exército do Brasil e de Portugal num teatro de operações que ia desde a costa atlântica à costa do rio Uruguai, com quatro colunas distintas.
Apesar de adotar uma perspetiva portuguesa do conflito, este blogue procura também a perspetiva oriental a fim de traçar a mais fiel possível descrição dos acontecimentos desta guerra.


AS BATALHAS
As ações, sítios e batalhas da campanha, com ligação aos artigos disponíveis sobre elas, com ênfase forte nos memorialistas.
AS BIOGRAFIAS
Em constante atualização, aqui pode encontrar ligações à biografia de alguns dos militares, portugueses e federais.
OS MOMENTOS
Os artigos sobre momentos que não envolvem combate.
OS VOLUNTÁRIOS
Listas e caracterização dos militares da Divisão dos Voluntários Reais.
AS TÁTICAS
Os artigos predominantemente da análise tática militar.




Editor: Jorge Quinta-Nova [mail]
Historiador Militar e Local, baseado em Queluz, com especial interesse no Exército Português dos finais do Antigo Regime (1790-1830) e com um forte centro gravitacional no trabalho biográfico em torno do Marechal Lecor e dos seus irmãos. 
Formado em Línguas, a linguagem dos relatórios e outros documentos, mesmo familiares é também um fator determinante no gosto pela área. Também trabalha a área da Falerística, ou da disciplina que estuda as ordens, condecorações e medalhas, assim como distintivos ou emblemas de honra, tentando contribuir há alguns anos para a divulgação das condecorações e ordens militares portuguesas, assim como particularmente para a tipificação dos modelos e cunhos da Medalha Militar (1863-1911) monárquica. Adicionalmente, trabalho sobre a Guerra da Sucessão Espanhola e a Campanha do Algarve, entre Junho e Julho de 1833, na Guerra Civil.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Ofensiva Portuguesa do Outono de 1818 nas costas do rio Uruguai


Nos finais de Março de 1818, de forma a capturar Artigas ou a expulsá-lo para o lado ocidental do rio Uruguai, o tenente general Joaquim Xavier Curado fez marchar o seu exército sobre a área de Daimán e Paysandú, no noroeste do atual Uruguai. O tamanho aproximado do exército seria entre os 2,500 e 3,000 homens.

A 3 de Abril, a força portuguesa captura Juan Antonio Lavalleja, um dos mais afamados militares orientais, e, a 9, entra em Paysandu, onde a bandeira portuguesa é arvorada, embora a abandonem depois. A 7, um destacamento de 1,030 efetivos derrotam 500 orientais no combate de Guaviyu.

A transcrição que apresento, é uma adaptação mínima do que existe publicado no Archivo Artigas, sem modernização e apenas anotações temporais ou outras.
O documento não tem autor, sendo provável que seja um relatório escrito por alguém do estado maior deste exército, ou alguem que com ele estava.

Só nos leva a 13 de Abril, embora não dure muito até que o exército volte a uma postura mais defensiva, próxima da fronteira a norte.

NOTICIA DA COLUNA DA DIREITA

[23.3.1818] 
Desde 23 do passado temos marchado offensivam.te excepto no dia 31 e 1 ° deste, que falhamos em Ararimgua: depois de Arapei Chico principiamos a avistar os Espias do Inimigo, e algumas Guardas de 20, 30, e 40 Homens, q.e logo se retirarão apenas avistarão a nossa Guarda avançada, em Arapei grande foi perseguida hu~a destas Guardas até Sopas, aonde perderão hum morro, pelas Guerrilhas do Ten.te Cor.l Jeronimo [Gomes] Jardim, os mais fugirão precipitadamente, e assim não podemos ter noticias. 

[31.3.1818]
A 31 Bento Manoel agarrou hum Bombeiro do Inimigo, q.e deo-nos algumas noticias, e informamo-nos q.e Lavalhegas Ten.te Cor.l [Juan Antonio Lavalleja], e substituto de Mondragou [Mondragon], se achava de observação no Arroio Valentim com 200 e tantos Homens; 

[3.4.1818] 
E 3 os nosos Bombeiros agarrarão ao romper do dia no Arroio Valentim dois Chasques com Officios p.a Lavalhegas, Ordenava-lhe Artigas q.e se retirasse, avisando-lhe, q.e ja tinha mandado Ordem a Artiguinhas p.a passar na Barra de Arapey, e incommodar-nos pela retaguarda: O Officio de Artigas era de data do 1 ° deste mez. 
No mesmo dia chegamos ao Arroio Valentim, e sahindo os nossos Bombeiros a explorar a Campanha, encontrarão de repente na quebrada de huma Cuxilha com 6 Ginetes, q.e sendo corridos pelos nossos felizmente agarrarão Lavalhega por ter-lhe rodado Cavallo na carreira, pegarão tambem a Ordenança deste, os outros escaparão, e erão hum Ajudante e tres Bombeiros; Huma Guerrilha do Jardim foi quem fez (esta) boa preza, Lavalhega tinha sahido a bombear-nos p.a ver se conhecia a nossa força e confessou q.e andava nesta diligencia desde q.° chegamos ao Araringua, e nunca pode conseguir até cahir em nosso poder.
Este Prizioneiro deu-nos varias noticias, q.e Artigas estava persuadido, q.° esta Coluna não entrava, e q.e suposto fomos observados desde Arapey-Chico, com todo só quando chegamos a Araringua he q.e puderão descobrir toda a Coluna q.e tinha poca gente en Purificação, e se tivesse tempo de reunir todas as suas Guardas, poderia reunir 1.500 homens, mas q.e já tinha dado as providencias para com marchas forçadas retirarse p.a a Purificação 1.500 Homens do Commando de Ramires, q.e a 25 do passado tinha conseguido huma completa Victoria contra as tropas de Buenos Ayres no Parana: 

[4.4.1818]
No dia 4 em marcha avistou-se a Partida de Lavalhega, sahio Bento Manoel a perseguilo, tiverão tempo de fugirem mas sempre se agarrarão 14, e tomarão-se-lhe oitenta e tantos Cavallos: 

[6.4.1818]
No dia 6 passamos a Daiman, e hum Corpo de 400 homens, e hu~a Peça de 2 do Commando de hum F. Castro [possivelmente Pablo Castro, que vem a ser derrotado em Guaveyu, no dia a seguir] había-se retirado deste lugar no dia 4.
Este Corpo conservou-se em Laurelles d'onde se retirou no dia 3. no dia 6 acampamos era hum galho de Daiman, e sobre a tarde Bento Manoel agarrou 11 Espias do Inimigo, os quaes informarão-nos q.° Artigas tinha deixado a Purificação, deixando do outro lado duas Peças de 18 para hostilizar a Villa, e q.e se achava era Guaveju com 1000 homens, q.e pertendia reunir-se com a Tropa d'outro lado a qual havia passado em Sandu, as Familias tinhão passado p.a o outro lado, e q.e a intenção de Artigas era, depois de reunido tão bem com Fructuozo, atacar-nos na Purificação. 

[6.4.1818, noite] 
O Marechal João de Deos ha dias andava anciado por adiantar-se com 1000 Homens, mas infelizmente não podia conseguir do Ten.te Gen.l, com as ultimas noticias sempre pode vencelo, e pez-se em marcha na noite do dia 6 com 1000 homens de todos os Corpos, incluido 200 de Infantaria de S.Paulo, e todo o seu Regimento de Milicia do Rio Pardo p.a dar hum golpe na Tropa Inimiga, que ja contava estar reunida, 

[7.4.1818] 
E ao romper do dia 7 atacou em Guavejú a 400 e tantos homens pertencentes a Divisão de Lavalhega, o Inimigo ficou completamente derrotado, perto de 300 Prizioneiros cento e tanto mortos, avalia-se terem escapado 30 ou 40, tomou-se huma Peça de 2 unica q.e tinhão, huma Bandeira, muito Armamento, Cavallos &. só perdimos hum Soldado Miliciano de Porto Alegre morto, e tivemos 2 feridos levemente. 

Artigas esteve distante Legoa a meia com a mais força commandada por Latorre, o Marechal João de Deos não sabendo a gente (que) encontraria, e occupado com os Prizioneiros, deixou de avançar para bater Artigas: eu estou persuadido que conseguiria seguramente outra Victoria: e q.e entramos na Purificação, q.e achamos dezerta;  Arvorou-se a Bandeira Portugueza; salvou-se com 21 Tiros, e derão-se os competentes Vivas; do outro lado conserva-se alguma gente Inimiga, e tem huma Canhoneira. 
O Ten.te Gen.l não quiz occupar a Villa, e acampamos hua legoa era frente no Arroio Japegui. 

[11.4.1818] 
Na noite do dia onze avançou o Oliveira com 1000 Homens e 2 Peças de 3 p.a bater Artigas, q.e se acha 16 legoas distante em Japuramopi, mas ja officiou hontem [12.4.1818], q.e seguia p.a Sandu, rumo q.e se (afasta) do Inimigo, elle saberá a razão porque assim obrou. A intenção de Artigas, he reunir todas as suas forças, q.e podem chegar a 4000 homens, o ponto de reunião he no Rincão das Galinhas, e depois fazer-nos a Guerra, e embaraçar a nossa subsistencia. 

Não ha Gado senão na distancia de 16 a 18 legoas, veremos como hade ser a nossa conservação sendo só esta Coluna a que se hade opor a todas as forças do Inimigo.

Em Araringua [31.3-1.4] receberão-se Officios de Lecor, no qual partecipa q.e a Coluna de Pinto estava a pé, e reunida com a de Vellez em Minas, q.° fazia retirar-se p.a Monte Video, e q.e achava impossivel marcharem a pé as Tropas tão grande distancia de cento e tanto leguas, e que mandaria Canhoneiras com Tropas, e aqui tem a maneira porque rezolve o General Lecor.

Campo do Arroio Itapegui, 13 de Abril de 1818.

Fontes
- Archivo Artigas
- Imagem da Wikicommons: interior da Catedral de PAysandú, no Uruguai.

Combate de Guaviyu (ou Guabiju), 7 de Abril de 1818



O Combate de Guaviyu teve lugar a 7 de Abril de 1818, junto ao arroio de Guavyiu, a cerca de 50 quilómetros a norte de Paysandú. 
Teve lugar no âmbito de uma ofensiva levada a cabo pelo tenente general Joaquim Xavier Curado e as suas forças da capitania do Rio Grande, desde finais de Março, sobre a costa oriental do Uruguai, que penetrou até Paysandú, onde entrou e arvorou a bandeira portuguesa no dia 9.

A 6 de Abril, o marechal de campo João de Deus Mena Barreto, coronel do Regimento de Milícias do Rio Pardo, é destacado do exército com 1,030 homens, quase exclusivamente de cavalaria, e 180 infantes da Legião de S. Paulo, correspondendo a um quinto da força (e sem artilharia, uma situação pouco comum), com ordens de atacar uma força que se presumia fosse comandada em pessoa por José Artigas. Artigas esteve de facto em Guaviyu, a 4 de Abril, pelo menos, mas já não estava lá a 7.

A divisão portuguesa perde-se durante a noite tempestuosa de 6 para 7, mas ao recuperar a orientação deparam-se com a proximidade da força oriental. Na verdade era uma vanguarda de Artigas, comandada pelo capitán Pablo Castro, constituída por entre 400 e 500 homens, incluindo uma peça de calibre 2.
Não há uma informação clara de quanto tempo demorou a ação, mas o comandante português informa que terá sido rápido, o que não é difícil de aceitar tendo em vista a desproporção de forças a favor dos lusitanos.

Nesta fase do conflito, as forças orientais de José Artigas já não tinham a mesma facilidade em recrutar, até porque estavam em guerra também com os centralistas de Buenos Aires. A Banda Oriental continuava a ser pacificada durante o ano, com as forças portuguesas a assumir uma postura de contra-insurgência, com a captura de muitos líderes militares orientais. Juan Antonio Lavalleja, por exemplo, é capturado a 3 de Abril, na área.

ORDEM DE BATALHA

~ Forças da Capitania do Rio Grande de S. Pedro
Comandante - MarCamp João de Deus Mena Barreto

Regimento de Milícias do Rio Pardo, Cavalaria (regimento todo) 
(tenente coronel graduado Francisco Barreto Pereira Pinto)
150 efetivos, Lanceiros de Entre Rios (Regimento de Voluntários Reais de Entre Rios, tornado regimento a DATA)
1 esquadrão, Regimento de Dragões do Rio Grande
(tenente José Luís Mena Barreto)
1 esquadrão, Regimento de Milícias de Porto Alegre
(capitão graduado Manuel Inácio Salazar)
180 efetivos, Infantaria da Legião de Voluntários Reais (S. Paulo)
(sargento mor graduado Joaquim da Silveira Leite)
Total de 1,030 efetivos

Baixas Portuguesas
1 soldado morto (RMRP), e 2 feridos ligeiros

~ Forças da Liga dos Povos Livres (Orientais)
Comandante - Cap Cav Pablo Castro

400-500 efetivos
1 peça de calibre 2

Não há referências, nas fontes portuguesas, à estrutura das forças orientais, mas será de supor que fosse a regular predominância de cavalaria, com pouca infantaria.

Efetivos:
“sendo as suas forças seis centos homens” (Mena Barreto) ; “400 e tantos homens pertencentes a Divisão de Lavalhega” ('Noticia')
Joaquim Xavier Curado refere 500 homens em carta a Lecor.

Mena Barreto parece exagerar ligeiramente, quando fala de 600, mas parece-me certo que fossem entre 400 a 500, entre tropas e eventuais acompanhantes.

Baixas Orientais
266 prisioneiros, incluindo 12 oficiais
133 mortos (contados no campo de batalha)



Memória do marechal de campo João de Deus Mena Barreto, o comandante português da ação


[Puntas del Guaviyú, abril 7 - 8 de 1818.]

Ill.m° eEx.m° S.°r 


[6.4.1818, Noite] Eu marchei em consequencia das determinações de V Ex.a na noite do dia 6 a atacar Artigas, todas suas forças no arroio Guavejú. O meu destacamento compunha-se de todo o meo Regimento de Melicias do Rio Párdo; cento e cencuenta Lanceiros d Entre Rios; hum Esquadrão de Draçoens; outro de Melicias de Porto Alegre, e cento e oitenta de Infantaria da Legião de S Paulo, que fazia o todo; mil e trinta homens bem capazes de rectificar a gloria de que se tem coberto; a coluna do comando de V Ex.a o meo primeiro passo foi montar a Infanteria para acelerar a minha marcha: eu tinha de caminhar sete a oito legoas que as devia conseguir antes do dia sete; e o projecto hera surprender o inimigo no seo proprio acampamento. 

Com estas entençoens eu marchava com todo o silencio, mas a noite se fez tormentoza com groças pancadas d'agoa acauzionou a perdida do prático que me guiava, e por tal successo mandei fazer alto, tendo já marchado seis legoas sobre o arroio Guavejú, ou suas pontas, nesta posição eu esperava o dia para o acerto do guia, e então descobertamente atacar o inimigo, que não devia estar muito destante, [7.4.1818] o dia principiáva a zair, e logo accidentalmente me surprenderão os meos espias com a noticia dos insurgentes tão proximos que pude ouvir o seo toque d alvorada, sem que me tivessem percebido. 

Com este successo dispús a minha Devisão para o combate; examinei o campo do inimigo, e igualmente no mesmo arroio Guavejú coberto pela sua retaguarda com hum bosque, e grande lago que os tornáva bem fortes para huma Obstinada resestencia, e sem dilonga fiz avançar hum Esquadrão de Melicias do Rio Pardo ás disposiçoens do Capitão Antonio de Medeiros da Costa, asegurarme de huma posicão vantajoza que pude Observar e por onde o inimigo se podia retirár quando eu força se toda a extenção da sua frente:

depoes desta providencia determinei que o Esquadrão de Dragoens seguise a ocupar a frente do inimigo, e chamando o a atenção me desse lugar a introduccão da Infanteria no mato, e por onde atacassem vigorozamente: 

Estas tropas marcharão, então adiantei mais hum Esquadrão de Melicias tomando a esquerda de Dragoens, em cuja ponto eu deveria de rouvolver o resto da Cavalaria tendo ja dente mão prevenido a minha reserva, e feito destacar o corpo de Lanceiros para humas alturas bem capaz de perseguir os desbandados: 

Nesta Ordem caminhei para o inimigo, e bem perto da nova linha que havia determinado, mandei fazer alto, e conservei-me em Coluna em quanta determinava as ultimas Ordens para o combate: 

O inimigo disparou seos tiros de pessa sobre o Esquadrão de Dragoens, toda a sua linha estava formada sobre o bosque que cobria a retaguarda. Nestas circunstancias julguei conveniente não retardar a victoria as armas de S Mag.e e logo então determinei que aos primeiros tiros da nossa Infanteria que tinha entrado no mato pelo flanco direito se carregase o Inimigo tão universal, como intrepidamente. 

A Infanteria conseguio o que me tinha disposto, e detalhado: romper o fogo que os insurgentes não esperavão, e ao seo estrondo desembrulhei toda a Cavalaria, ataquei, e en  hum momento tive a gloria de aununciar os vivas a S. Mag.e que forão repetidos ainda com os tenidos das Espadas da nossa Cavalaria, e o fogo vivissimo da Infantaria que aquecendo os inimigos pela retaguarda entregarão-se aos exforçados golpes dos Esquadroens. 

O Nome de S. Mag.e retumbava, e por todas as Tropas inda no calor da acção, e a proporção que se repetia com aquele entusiasmo que sempre se observou nos Vassalos do mais querido dos Soberanos do mundo, as nossas forças se multiplicavão, e o inimigo sobre aterra despedaçados formavão o espetaculo mais vivo da nossa fedelidade, e coragem, e o crime de tão indignos contendores, que sendo as suas forças seis centos homens só se escaparão tres de Cavalaria. A destruhição total desta vanguarda d Artigas, ao comando de D Paulo Castro Capitão de Cavalaria deveria certamente, tanto pelo estrondo dos tiros, como pelos vigiadores por-se em fuga aquele Chefe dos insurgentes. 

O n.° dos mortos que forão contados no campo do combate chegarão a cento, e trenta e tres, alem de muitos que se virão cahir carregados pelos Lanceiros, e os enfenitos que se lançávão no grande lágo conde se affogarão, e aonde lançavão armas, espadas, e seis mil cartuxos com confessão os prizioneiros que sao duzentos e sessenta, e seis, inclusive doze Officiaes e de toda a clase; huma Pessa de Calibre dois; duzentas e trinta e cinco armas; cento e quatorse espadas, cincoenta e duas pistolas, oito caixas de Guerra; hum Clarim; huma Corneta; huma bandeira com emblema de liberdade, seis centos cavalos; e muitas cartoxeiras. 

Sou obrigado a fazer justiça geralmente ao valor, bizarria e constancia dos Offeciaes, e Offeciaes inferiores, e Soldados que formão esta Devizão, devo com tudo recomendar a V Ex.a com especialidade para que apareção na Augusta prezença de S Mag.e O Tenente Coronel Francisco Barreto Pereira Pinto; o Capitão Bento Manoel Ribeiro; o Tenente Oliverio Joze Ortiz; todos estes do meo Regimento: de Dragoens o bravo Tenente Joze Luis Mena Barreto, e o Alferes Joze Joaquim da Cruz; estes Officeaes merecerão elogios de toda a Tropa e tudo meo dever não omitir nesta ocazião a bravura com que atacarão, eaboa ordem com que marcharão os seos Soldados, e por se fazerem muito dignos tenho a satisfação de derigir a V Ex.a a rellação dos Offeciaes e Offeciaes inferiores que mais se destinguiarão, com esta são tres vezes que tenho recomendado nos minhas partes d'ataques, e combates o Capitão Bento Manoel Ribeiro, e o Reverendo Capellão Feliciano Joze Rodrigues Prates, e prezente insto a V Ex.a que bem conhece os seos merecimentos para os levar com destinção a prezença de S Mag.e.

Tenho a Gloria de partecipar a V Ex.a que hum só soldado de Melicias de Porto Alegre perdi [por] hum tiro de mosquete, e que dois do meo Regemento, e hum d' Infanteria forão levemente feridos. 

O felis rezultado desta acção com tão piquena perda da nossa parte, he devido a V Ex.a que tão sabia como prudente me tem guiado com instruçoens tão melitares para o dezempenho dos meos mais sagrados deveres, e huma prova incontestavel que o grande Deos Senhor dos Exercitos cobre com a sua mão direita as armas dos Fieis Portuguezes para gloria do mais justo dos Soberanos. 

Deos guarde a V Ex.a
Pontas de Guavejú sete d'Abril de 1818
Ill.m° e Ex.m" S.°,Tenente General Comandante Joaquim Xavier Curado = João de Deos Menna Barreto

Rellacão dos Offeciaes, e Offeciaes Inferiores que cheios de Valor, e constancia se distinguirão na acção do dia sete do Corrente que tive a honra de os comandar e que os recomendo a protecção de V Ex.a

Regimento de Dragoens, o Tenente Joze Luis Menna Barreto. Alferes Joze Joaquim da Crus. Furriel Vasco Joze Ignacio .

Infantaria de S Paulo, Sargento mor graduado Joaquim da Silveira Leite. Capitão Joze Joaquim de S Anna. Alferes Manoel Soares.

Melicias do Rio Pardo, Tenente Coronel graduado Francisco Barreto Pereira Pinto. - Sargento mór graduado Francisco Alves da Cunha. Capitães Bento Manoel Ribeiro, Antonio de Medeiros da Costa. Tenente Oliverio Joze Ortiz. Ditos agregados - Paulo Ribeiro de Souto maior. Joze Cardozo de Souza. Alferes Antonio Pinto d Azambuja. Furriel Bento Joze Bragança. Porte Estandarte. Joze Xavier d Azambuja R.°° Capelão Felicianno Joze Roiz Prates este Padre fez as Campanhas de 1811, e de 1812, a de 1817, e continúa na de 1818, tem asestido a batalha de Catalan, combate de Ibiroucay, e de guaveju, com valor, he o primeiro que aparece nos fileiras entre o fogo, animando a tropa o mais que he possivel.

Regimento de Porto Alegre - Capitão graduado Manoel Ignacio Salazar. Tenente Demetrio Ribeiro de Sa. Alferes Jeronimo Joze de Vargas. Furriel Henrique Joze da Silveira. 

Acampamento em Guaveju oito d'Abril de 1818
O Marechal João de Deos Menna Barreto

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Liga dos Povos Livres: Andrés Guaçurari y Artigas


O comandante ANDRES GUAÇURARÍ Y ARTIGAS, Guarani, nasceu em S. Tomé, a 30 de Novembro de 1778, embora alguns historiadores indicam S. Borja, do outro lado do rio. 

Ingressou nas fileiras revolucionárias de Manuel Belgrano que, em 1811, marcharam contra os realistas no Paraguay. Com Belgrano, marchou depois para a Banda Oriental, onde acaba por aderir à causa de José Artigas, sendo inclusive adotado por ele. Era um forte advogado de que todas as Missões eram o mesmo povo e deveriam ser unidas, como antes de 1801.

Em 1812 é já capitão dos Blandengues, encarregado do comando militar de Missiones. Em 1815, é governador da província de Corrientes. 

Em 1816 comanda a invasão inicial das Missões Orientais, montando cerco a S. Borja, de 21 de Setembro até inícios de Outubro. É derrotado na batalha de S. Borja, a 3 de Outubro. Mantém-se ativo em Missiones e Corrientes, defendendo contra uma invasão de Francisco das Chagas dos Santos entre Janeiro e Março de 1817. 

Em 1818, fez operações em Corrientes, não participando nas ações a oriente do Uruguai. Em 1819, retorna a Missiones e confronta-se de novo com Chagas dos Santos, onde após uma sucesso parcial . Foi capturado a 24 de Junho de 1819, no Paso de San Isidro e enviado para o Rio de Janeiro onde ficou na prisão da Ilha das Cobras.

Leia também

Batalha de São Borja (3 de Outubro de 1816) [LER]

Liga dos Povos Livres: José Antonio Berdún


O coronel JOSE ANTONIO BERDÚN nasceu em 1778, em Montevideu. 
De acordo com testemunhos de camaradas seus, iniciou o seu serviço militar em 1801 como soldado do Regimiento de Milicias Orientales, sob o comando do capitán Manuel Calleros, e participou nas operações contra os portugueses em 1801, na fronteira do Cerro Largo e do Jaguarão, próximo do Atlântico.

Após a revolução de Maio de 1811, Berdún aderiu à causa revolucionária, prestando serviço na 2.ª Divisão Oriental, comandada pelo coronel Manuel Francisco Artigas. Participa na batalha de Las Piedras, a 18 de Maio de 1811.

Desde 1814, comanda um regimento de Cavalaria da Divisão de Blas Basualdo. Em 1815, comanda uma divisão sua na zona de Arroyo de la China. Tinha então 37 anos de idade e 14 de serviço e era então coronel, não se sabendo mais sobre a sua progressão até aí.

No comando de uma força oriental de 800 homens, destinada a pressionar o flanco português assim como apoiar os esforços da divisão de Andresito nas missões, Berdún é derrotado por João de Deus Menna Barreto, na batalha de Ibirocaí, a 19 de Outubro de 1816. 
Reagrupando algum do seu comando, junta-se às força de Andrés Felipe Latorre, que estão na fronteira de Santana. COmanda a infantaria e artilharia de Latorre em batalha de Catalán, onde é ferido.

A 15 de Setembro de 1817, é capturado por Bento Manuel Ribeiro em Belén e remetido a Porto Alegre e depois o Rio de Janeiro.

Fontes
- SALDAÑA, Jose M. Fernandez, Diccionario Uruguayo de Biografias 1810-1940, Ed. Amerindia, Montevideu, 1945.

Leia também
- Batalha de Ibirocaí (19 de Outubro de 1816):

terça-feira, 10 de abril de 2018

Medalha de Distinção do Exército do Sul, ou Medalha do Barão da Laguna


A Medalha de Distinção do Exército do Sul, também conhecida como Medalha do Barão da Laguna, dada por serviço em campanhas no sul do Brasil entre 1811 e 1824, foi criada a 31 de Janeiro de 1823 e regulada a 18 de Fevereiro do mesmo ano. Era conferida ao general em chefe e demais oficiais generais, oficiais, sargentos e praças que compõem o exército e esquadra, assim com aos empregados civis com graduação militar.

Desenho
Uma cruz de quatro braços iguais encimada pelo timbre da Casa de Bragança (um dragão alado); no centro da cruz, um círculo. Ouro para os oficiais generais; prata para os demais oficiais e metal branco ou estanho fino para as praças e empregados civis assemelhados.


Anverso: Em campo azul, um ramo de oliveira sobre o cerro de Montevidéu; na orla do círculo central, a palavra “MONTEVIDEO” e dois ramos; nos braços da cruz, a inscrição dos anos que cada agraciado estivesse em serviço na Cisplatina desde 1817. Um ano é só marcado no braço superior; dois vão nos braços laterais; 3 no superior e laterais; 4 em todos os braços; 5 nos quatros de um lado e no superior do outro e por aí adiante, sendo os braços vagos ocupados por rosáceas.
Reverso: Em campo verde, a legenda “PETRUS I.B.I.D.”, significando Petrus, Primus Brasiliae Imperator, Dedit (Pedro Primeiro Imperador do Brasil deu); na orla, uma coroa de louros.

Fita
Verde, com as bordas amarelas; sobre a fita, um passador de metal com o ano MDCCCXXII (1822).

João Crisóstomo Calado, com a medalha ao pescoço.

Uso
Deveria ser usada no lado esquerdo do peito. Os oficiais generais podiam, nos dias de grande gala, usá-la ao pescoço.
De forma a ter direito ao uso, era requerido que o Barão de Laguna, Carlos Frederico Lecor (1764-1836) lhe houvesse expedido o título competente, por ele firmado e selado com o selo imperial do exército, indicando o nome da pessoa, a qualidade de metal de que deve ser feita e o ano ou anos em que foi merecida.

Sebastião Barreto Pinto usando a medalha no peito.


Fontes
- Regulação para a distribuição da Medalha de distincção (...), 18/2/1823, Conselho Supremo Militar.
- CMG Léo Fonseca e Silva (redator), Marinha do Brasil: Medalhas e Condecorações, Serviço de Documentação Geral da Marinha, Rio de Janeiro, 1983

Esta é a republicação de uma outra postagem no blogue Clio & Marte, que pode ver aqui.

Liga dos Povos Livres: Juan Antonio Lavalleja


O capitán JUAN ANTONIO LAVALLEJA nasceu a 26 (ou 24) de Junho de 1784, em Santa Lucia (Minas), filho de Manuel Esteban Pérez de la Valleja Gómez, espanhol de Huesca, no norte de Aragão, e de Ramona Justina de la Torre, também espanhola.

"Robusto mozo. aunque de estatura no muy aventajada", ofereceu-se voluntário a soldado desde o pronunciamento de Maio de 1810, combateu em Las Piedras, em 18 de Maio de 1811, e em 1813 era já oficial na Divisão de Manuel Francisco Artigas (1769-1862). É promovido a capitán a 1 de Abril no ano seguinte, servindo na 1.ª companhia do Regimiento de Infantería N.º 1.
A 10 de Janeiro de 1815 participou na batalha de Los Guayabos, sob a ordens de Frutuoso Rivera, em que os federalistas derrotam os centralistas, estes sob o coronel Manuel Dorrego. Esta batalha leva ao fim (temporário) do conflito  entre Artigas e Buenos Aires.

Durante a Segunda Invasión Portuguesa, com 32 anos de idade, manteve-se como o segundo no comando de Rivera na División de la Derecha, que atuou principalmente na área do leste do Uruguai, sendo-lhe dado o comando da vanguarda dessa división sempre que necessário.

Esteve na Ação de Paso de Cuello, a 19 de Março de 1817, e dias depois, comandando a vanguarda da División bate, com grande sucesso, uma força portuguesa combinada de cavalaria e caçadores em Pintado, poucas milhas a norte do passo. 
Repete uma ação semelhante (com menos sucesso) sobre a retaguarda da coluna portuguesa, na Ação de Toledo, a 5 de Maio, às vistas do próprio José Artigas que visitava então a División de la Derecha.

A 3 de Abril de 1818, é capturado por forças portuguesas do tenente Olivério Ortiz, nas margens do arroio Valentin, no que é hoje o departamento de Salto, no âmbito de uma ofensiva das forças do Rio Grande sob o tenente general Joaquim Xavier Curado.

É remetido para o Rio de Janeiro, onde fica confinado à ilhas das Cobras. Em 1821, já depois dos eventos relatados neste blogue, retorna à agora Cisplatina, servindo de novo sob Frutuoso Rivera, no Regimento dos Dragões da União, como tenente coronel.

Fontes
- SALDAÑA, Jose M. Fernandez, Diccionario Uruguayo de Biografias 1810-1940, Ed. Amerindia, Montevideu, 1945.
- Imagem de Lavalleja, no topo, possivelmente de 1810, in: Wikicommons

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