quarta-feira, 30 de maio de 2018

Na Estrada de Montevideu



No final de 1814 foi mandada aprontar uma divisão de voluntários, a ser composta de pouco menos de 5000 militares das três armas, com o objetivo de intervir no sul do Brasil. Este blogue é uma humilde contribuição para o conhecimento da história da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, e depois d'El-Rei, entre 1815 e 1824, assim como das tropas da Capitania do Rio Grande.
A campanha de 1816 foi um esforço conjunto de mais unidades do Exército do Brasil e de Portugal num teatro de operações que ia desde a costa atlântica à costa do rio Uruguai, com quatro colunas distintas.
Apesar de adotar uma perspetiva portuguesa do conflito, este blogue procura também a perspetiva oriental a fim de traçar a mais fiel possível descrição dos acontecimentos desta guerra.


AS BATALHAS
As ações, sítios e batalhas da campanha, com ligação aos artigos disponíveis sobre elas, com ênfase forte nos memorialistas.
AS BIOGRAFIAS
Em constante atualização, aqui pode encontrar ligações à biografia de alguns dos militares, portugueses e federais.
OS MOMENTOS
Os artigos sobre momentos que não envolvem combate.
OS VOLUNTÁRIOS
Listas e caracterização dos militares da Divisão dos Voluntários Reais.
AS TÁTICAS
Os artigos predominantemente da análise tática militar.




Editor: Jorge Quinta-Nova [mail]
Historiador Militar e Local, baseado em Queluz, com especial interesse no Exército Português dos finais do Antigo Regime (1790-1830) e com um forte centro gravitacional no trabalho biográfico em torno do Marechal Lecor e dos seus irmãos. 
Formado em Línguas, a linguagem dos relatórios e outros documentos, mesmo familiares é também um fator determinante no gosto pela área. Também trabalha a área da Falerística, ou da disciplina que estuda as ordens, condecorações e medalhas, assim como distintivos ou emblemas de honra, tentando contribuir há alguns anos para a divulgação das condecorações e ordens militares portuguesas, assim como particularmente para a tipificação dos modelos e cunhos da Medalha Militar (1863-1911) monárquica. Adicionalmente, trabalho sobre a Guerra da Sucessão Espanhola e a Campanha do Algarve, entre Junho e Julho de 1833, na Guerra Civil.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Embarque da Divisão na Praia Grande (29 de Maio de 1816)


Jean Baptiste Debret., "Embarque, na Praia Grande, de tropas destinadas ao bloqueio de Montevidéu.", Óleo sobre papel colado na madeira. Assinado. 1826. 0, 640 x 0, 420 m. (Museu Imperial de Petrópolis).



Este óleo terá sido feito com base na mais conhecida gravura de Jean Baptiste Debret, publicada em França na década de 1820, em baixo, retratando o dia 29 de Maio de 1816, em que a Divisão de Voluntários Reais embarcou nos transportes que a 12 de Junho partiriam para a ilha de Santa Catarina. O interessante neste óleo relativamente pouco conhecido é que retrata mais do que a gravura, assim como apresenta grandes diferenças no uniforme dos soldados portugueses.

Para lá da gazeta oficial, também Claudino Pimentel nos elucida acerca do que acontecia na Corte nesta altura. Um conselho de guerra naval no Rio decidia aonde desembarcar as tropas, se em S. Catarina, com as tropas a marchar dái em diante por terra (como aconteceu), se dentro do Rio da Prata, em Maldonado, mais próximo de Montevideu. Ferreira Lobo decidiu-se pela primeira opção, contra a opinião de todos os almirante ouvidos. A principal ameaça era os pamperos meridionais, tão devastadores quanto imprevisíveis.

A gravura, domínio pericial de Debret, apresenta uma melhor qualidade e pormenor, mas o óleo, cuja autoria lhe é dada, é bastante diferente.


O óleo que apresento ao topo deste artigo apresenta mais cenas, nomeadamente a particular cena dos soldados já embarcados numa barcaça de transporte e a caminho dos seus navios que das águas da Guanabara saúdam el-Rei. Esta não aparece de todo nas gravura que Debret publicou, senão apenas o mestre da barcaça.


Também o pelotão que avança de costas, o seu tenente usando uma fita negra no braço esquerdo em luto por D. Maria, perfilando-se perante o rei D. João VI, usa vermelho na gola e canhões num, e amarelo no outro. Amarelos seriam o 3.º Batalhão de Caçadores, apenas recentemente passado a ser o 1.º Regimento de Infantaria, com mais duas companhias do 1.º Batalhão. Vermelho não há, porém, indicação de ter sido usado pelas quatro unidades de infantaria.





Note-se as diferenças entre a gravura e o óleo. As figuras por trás da família real são totalmente diferentes em cada uma das peças.

***

Parece-me pertinente comparar com o óleo que retrata a parada e desfile da divisão no campo de D. Helena, 2 semanas antes, a 13 de Maio:


Mais informações acerca deste último óleo, que está na Pinacoteca de S. Paulo, no blogue Em Busca de Lecor AQUI.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Tomada de Colónia do Sacramento (Maio de 1818)


No início de Maio de 1818, e após quase um ano e meio após a tomada de Montevideu, vários habitantes de origem portuguesa de Colónia, liderados por Salvador Antunes Maciel, levantam-se contra a autoridade oriental e hasteam a bandeira portuguesa, aproveitando o apoio dado pelo chefe de divisão [hoje em dia, comodoro] António Manuel de Noronha (1772-1860) que estava ancorado diante da povoação, com três corvetas e mais alguns barcos armados.

Após os revoltosos aprisionarem o comandante de Colónia e a pequeníssima guarnição, o capitão de fragata Diogo Jorge de Brito desembarcou com artilharia, e montou as suas peças num reduto que foi construído. Hernani Donato, no Dicionário de Batalhas Brasileiras, apresenta o dia 2 de Maio, como o dia da rebelião.

Colónia do Sacramento
No início de 1815, o sargento mor João Vieira de Carvalho, do estado maior da Capitania do Rio Grande, referia que Colónia tinha “as suas fortificações [...] em terra, e apenas existem uns miseráveis restos de povoação que mal podem servir para acantonamento de tropas”. Isso explica o atraso na tomada de Colónia, que se observa assim ter acontecido devido a um conjunto acidental de eventos. 
No entanto, Vieira de Carvalho refere-se também à sua localização, mesmo em frente a Buenos Aires, e após Montevideu e Maldonado, sem dúvida o terceiro porto atlântico da Banda Oriental.

Alívio de Montevideu
Nos primeiros dias de maio, o tenente general Lecor, agora Barão da Laguna, envia uma força portuguesa, comandada pelo nosso conhecido Sebastião Pinto de Araújo Correia, para ocupar definitivamente Colónia, onde fica até à retirada final das tropas, então brasileiras, em finais de 1828.
Esta força, comandada como já vimos pelo general Pinto, era composta de quatro companhias d0 1.º Batalhão de Caçadores e variada cavalaria da capitania do Rio Grande, assim como uma bataria montada que não consigo identificar se é da Divisão, se do Esquadrão de Artilharia Montada, do Rio de Janeiro, que atuou na Coluna Silveira, em finais de 1816, e esteve em Montevideu a 20 de Janeiro de 1817.  

A 5 de Maio, Lecor envia também uma proclamação aos habitantes de Colónia, anunciando o envio do governador intendente Sebastião Pinto de Araújo Correia e prometendo ouvir as suas petições, aliviar as suas necessidades e assegurar os seus direitos.

A expedição portuguesa de alívio à pressão oriental que ainda se fazia sentir, composta de cerca de 600 homens, chega a Colónia a 11 de Maio mas só a 13  desembarca toda a expedição.
De acordo com Hernani Donato, um dia antes, a 12 de Maio, as forças de cavalaria miliciana formadas por Salvador Antunes e as praças de artilharia do capitão de Fragata Diogo José de Brito repelem um ataque de forças orientais sob o comando do comandante oriental Francisco Encarnacion Benítez.


Memorialismo
O nosso conhecido memorialista João da Cunha Lobo Barreto, com 23 anos e integrado nesta força para ocupar Colónia, era ainda em 1818 tenente do 1.º Batalhão de Caçadores, na 1.ª Brigada de Voluntários Reais. O seu testemunho relativamente aos eventos que ocorreram em Colónia do Sacramento é muito relevante pois ele serviu na cidade de 1818 até pelo menos 1821, quando se vê apanhado como representante da sua unidade no Conselho Militar, em oposição a Claudino Pimentel. Assistiu, pois, em primeira mão ao que aqui tentamos relembrar.  Lobo Barreto escreveu estas memórias muito possivelmente na década de 1850, 32 anos após os eventos.

Das memórias de João da Cunha Lobo Barreto (páginas 17-18):

Neste estado se achavão as nossas manobras na campanha de Montevidéo, quando um acontecimento veio dar lugar a novas operações no já proximo inverno.
Emquanto uma Esquadrilha tinha subido pelo Rio da Prata, entrando pelo Uruguay para abrir communicação com a Columna do General Curado, que alcançando repetidas victorias se dirigia ao Rincão das Galinhas.

O Chefe da Divisão Noronha [António Manuel de Noronha (1772-1860), futuro visconde de Santa Cruz], com tres corvetas e mais alguns barcos de guerra, deitou ancora no porto de Colonia do Sacramento, e buscou abrir communicação com a terra; sua prudencia e affabilidade lhe grangearão a affeição da maior parte dos habitantes deste Povo; o que constando ao sanguinario caudilho Encarnação [Francisco Encarnacion Benítez, comandante oriental], preparou-se este para castigar semelhante rebeldia: então o Brasileiro Vasco Antunes Maciel, (11) um dos mais comprometidos, convocando varios socios prenderão o commandante, e poucos soldados, ali destacados, e arvorando o Estandarte Portuguez, avizou á aquelle desta revolução, que fez, pedindo-lhe soccorro; e o // dito Chefe de Divisão, já antes prevenido, concedeo, mandando-lhe algum armamento, e fazendo desembarcar o Capitão de Fragata Diogo Jorge de Brito com alguns praças de artilharia.

Este fez construir logo um pequeno reducto em que montou alguns canhões; e Vasco Antunes organizou de todos os habitantes de sua confiança uma Companhia de Guerrilhas a cavallo, para guarda da Povoação, e seos suburbios.

Mal que o General em Chefe teve nos 1.ºs dias de Maio aviso desta occurencia, fez immediatamente embarcar para a dita praça ao General pinto com quatro companhias do 1.º Batalhão de Caçadores, commandadas pelo Coronel Manoel Jorge Rodrigues, uma Bateria de artilharia montada; algumas Milicias de São Paulo, um Esquadrão de Voluntarios do Rio Grande, commandando pelo Major Gaspar Pinto Bandeira, e as Guerrilhas do Coronel Alvim: comtudo por mais presteza com que se verificou o mesmo embarque, em razão de ventos contrarios, só começarão a saltar em terra estas tropas á 11 do dito mez, e á 13 é que chegou toda a expedição. 

O General logo organizou um Cabildo, nomeou Administrador da Alfandega, e os Officiaes dentre os mesmo habitantes para um Regimento de Milicias, promoveo Vasco Antunes á Coronel do mesmo: nomeando iguaes officiaes para um Corpo de Civicos a pé; o qual jamais se organisou. O General em Chefe approvou todas estas disposições. 

[...]

(11) A entrega de Colonia foi devida não só a Vasco Antunes como a m.tos filhos do paiz. [nota do Conde do Rio Branco]

Fonte
BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in: Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, 68pp. pp. 17-18.

* * *

Ordem de Batalha Portuguesa

Comandante: Sebastião Pinto de Araújo Correia

- quatro companhias, 1.º Batalhão de Caçadores, coronel Manuel Jorge Rodrigues, c. 450 efetivos
- uma Bateria de artilharia montada; 
- 'algumas' Milícias de São Paulo;
- um Esquadrão de Voluntários do Rio Grande, major Gaspar Pinto Bandeira, 
- Guerrilhas, Coronel Alvim

- uma Companhia de Guerrilhas a Cavalo,  Vasco Antunes Maciel
- Destacamento de artilharia da Marinha, Capitão de Fragata Diogo José de Brito

* * *

Biografias

segunda-feira, 7 de maio de 2018

A relação entre condecorações e a experiência militar dos voluntários reais (II) : Cruz da Guerra Peninsular n.º 1 e 2


A Condecoração
A Cruz da Guerra Peninsular (adiante CGP) foi criada pelo Rei D. João VI em 28 de Junho de 1816,  para distinguir os oficiais que participaram nas campanhas da Guerra Peninsular de 1809 a 1814, mas apenas foi regulamentada em 1820. Era outorgada a todos os oficiais com pelo menos 2 campanhas cumpridas. Em Prata para quem tivesse participado em até 3 campanhas e em Ouro para quem participasse em 4, 5 ou 6 campanhas.

Desenho
Anverso: Uma cruz pátea, de contornos rectilíneos, de ouro ou prata, assente numa coroa circular de folhas de louro. Ao centro, um emblema nacional (constituído pelo escudo das armas nacionais, assente numa esfera armilar). Circundado por uma bordadura de azul com a legenda «GUERRA PENINSULAR». 
Reverso: no disco central o número de campanhas.

Atribuição
As Campanhas eram contadas em termos de anos:
1.ª Campanha:1809
2.ª Campanha: 1810
3.ª Campanha: 1811
4.ª Campanha: 1812
5.ª Campanha: 1813
6.ª Campanha: 1814

Em cada ano, ou campanha, eram consideradas os seguintes combates e batalhas, sendo que a participação numa delas seria considerada participação na campanha:

1809: TALAVERA
1810: BUSSACO
1811: FUENTES DE HONOR, ALBUHERA
1812: CIUDAD RODRIGO, BADAJOZ, SALAMANCA
1813: VICTORIA, PIRINEOS, S. SEBASTIÃO [SAN SEBASTIAN], NIVELLE, NIVE
1814: ORTHES, TOULOSE

A primeira menção a esta condecoração  já vem de 1816, aquando da criação da Medalha de Distinção de Comando, mas só 4 anos depois é regulada.

Cautelas
A atribuição da CGP n.º 1 e 2 é o equivalente a uma medalha de campanha, refletindo tempo de serviço.  Ao contrário da n.º 3, para sargentos e praças, de que falei aqui, um misto de medalha de campanha mas com elementos de distinção, as dos oficiais era atribuída a todos os oficiais participantes. 
Para o fim de verificar em números concretos a experiência militar dos Voluntarios Reaes nas campanhas da Guerra Peninsular, a média do número de campanhas, no máximo de seis (1808-1814), são um indicativo muito interessante.

A Divisão de Voluntários Reais foi levantada em Maio de 1815 e em Junho já tinha nomeados quase todos os oficiais, de alferes a tenente general. A Cruz da Guerra Peninsular foi apenas criada em 1816 e o processo longo de atribuição fez com que as medalhas só fossem atribuídas em Dezembro de 1820. Houve um esforço bastante acentuado da Secretaria de Estado dos Negócios da Guerra, com D. Miguel Pereira Forjaz ao leme, de verificar exatamente quais os números de anos de campanha respeitante a todos os oficiais do Exército.

Observações gerais
Os cinco oficiais generais da Divisão contavam entre si uma média de 4 campanhas e meia, todos condecorados com a cruz da guerra peninsular n.º 1, dourada.

Os oficiais superiores do Estado Maior têm uma experiência de quase 5 campanhas (4,7), apresentando 6 cruzes de guerra n.º1 e um oficial apenas sem medalha. São o setor da Divisão que apresenta mais experiência, em termos médios, sendo que entre os seis oficiais superiores que obtiveram a cruz, a média é de cinco campanhas e meia. Isso indica que quase todos eles cumpriram serviço durante todas as campanhas, pelo menos desde 1809 e pelos seis anos seguinte, por Espanha até França.

Um oficial superior da Divisão (todas as armas) tinha em média 4 campanhas, com apenas 3 oficiais sem qualquer campanha ou a cruz. Desta classe, 13 receberam a cruz de guerra peninsular n.º 1, de ouro, e 4 a n.º 2, de prata.

Um capitão comandante de companhia tinha a experiência de entre 3 e 4 campanhas no exército de operações (3,5),. Destes, três não receberam a medalha. 16 receberam a CGP n.º 1, enquanto que 13 receberam a CGP n.º 2.

Os oficiais subalternos de infantaria têm, equitativamente entre as brigadas, três campanhas de experiência (2,8). Falamos nomeadamente de tenentes com dez CGP n.º 1 ou douradas, e 17 CGP n.º 2, prateadas. Cinco tenentes não receberam medalha.


NUMEROS
([0] representa não ter recebido a Cruz da Guerra Peninsular)

Estado Maior
Oficiais Generais: 6+3+4 = média de 4,3 campanhas
Oficiais Superiores:  6+5+6+5+5+6  (+ um sem medalha) = média de 4,7 campanhas (5 campanhas e meia entre os que obtiveram a cruz)
Capitães e Oficiais Subalternos: 3+2+2+2+2 (+ dois sem medalha) = média de 1,6 campanhas

1.ª Brigada de Voluntários Reais
Oficiais Generais e Estado Maior: 5+2+4+6 =  média de 4,3 campanhas
Oficiais Superiores: 6+4+5+3+0+5 = média de 3,8 campanhas (4,6 entre os que obtiveram a cruz)
Capitães: 4+4+4+2+4+2+5+5    5+2+2+5+3+5+5+2 = média de 3,7 campanhas
Oficiais Subalternos: 3+2+2+2+2+2+3+4     2+5+0+2+5+4+3+4 = média de 2,8 campanhas

2.ª Brigada de Voluntários Reais
Oficiais Generais: 4+2+5+0 (capelão) = média de 2,8 campanhas (3,7 entre os que obtiveram a cruz)
Oficiais Superiores: 6+5+3+3+5+3 = média de 4,2 campanhas
Capitães : 3+0+5+5+4+2+4+2   0+2+6+3+5+4+2+4 = média de 3,2 campanhas
Oficiais Subalternos: 0+2+2+0+2+0+2+3     4+0+5+4+5+4+3+3 = média de 2,8 campanhas

Infantaria (em pormenor)
1.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,8) Tenente (2,5)
3.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,6) Tenente (3,1)
4.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,3) Tenente (3,5)
2.º Batalhão (8 comp.): Capitão (3,1) Tenente (1,4)
(2 cap. + 5 ten. sem medalha)

Cavalaria
Oficiais Superiores: 5+0+0+4+4 = média de 2 campanhas (4 entre os que obtiveram a cruz)
Capitães: 5+6+4+4+2+3 (25) 4+2+0+0+2 (8) = média de 2,8 campanhas (3,3 entre os que obtiveram a cruz)
Oficiais Subalternos: n/d

Artilharia
Oficiais Superiores: 5
Capitães: 4+0+5 = média de 3 campanhas (4,5 entre os que obtiveram a cruz)
Oficiais Subalternos: 6+6

Conclusão
De tenente para cima, a DVR era uma unidade cujos oficiais tinham em média 3 campanhas na Guerra Peninsular, principalmente, supomos, nos seus dois últimos anos 1813 e 1814 em que o exército de operações anglo-português leva a cabo as suas mais importantes manobras sobre o sul de França.

Um oficial superior não tem menos de 4 campanhas, e deste só três não receberam cruz. Especificamente os oficiais superiores do Estado Maior, têm quase 5 campanhas, com apenas um destes sem direito à cruz, no caso o sargento mor (major) João Pedro Lecor, irmão do comandante em chefe e seu 1.º Ajudante de Ordens. João Pedro foi governador de Albufeira durante a guerra e não participou em operações.

Os capitães comandantes de companhia, elementos chave da estrutura da DVR, apresentam em média entre 3 e 4 campanhas da Guerra Peninsular. Dos 32 capitães que analisei, apenas três não receberam cruz. Exatamente metade desses 32 receberam a CGP n.º 1 de ouro, por terem pelo menos 4 campanhas. 
Um tenente de infantaria tinha em média 2,6 campanhas, um ano menos que os capitães, sendo que apenas cinco (entre 32) não tiveram direito a cruz. Dez tenentes receberam a CGP n.º 1, por pelo menos 4 campanhas.

É claro então que a DVR tinha um quadro de oficiais extremamente experimentado em termos de operações de guerra europeia, o que já tínhamos verificado com o quadro de sargentos e praças e a CGP3.

sábado, 5 de maio de 2018

Estado Maior: José Ferreira da Cunha


O sargento mor José Ferreira da Cunha nasceu em Almeida por volta de 1786, filho de José Ferreira da Cunha.

Assentou praça e jurou bandeiras no Regimento de Infantaria de Almeida em 9 de Setembro de 1801, aos 15 anos de idade, tendo por fiador o seu tio, Simão José da Cunha. De acordo com os livros mestre do regimento, tinha olhos e cabelos castanhos e media 58 polegadas, cerca de 1,60 metros. Foi promovido a furriel em 16 de Fevereiro de 1805, na 5.ª companhia.  

Após a restauração, apresentou-se no regimento a 21 de Julho de 1808, e foi promovido a primeiro-sargento dias depois, a 1 de Agosto, passando a servir na 4.ª companhia do regimento. 

A 14 de Janeiro de 1809 é promovido a alferes, passando a servir por essa altura como ajudante de ordens do coronel Carlos Frederico Lecor, quando este assumiu o comando militar da Beira Baixa. 

A 16 de Maio de 1810, é promovido a tenente. Apesar de ser ajudante de ordens de Lecor desde o início de 1809, só a 2 de Maio de 1812 é confirmado no lugar, ficando desligado do Regimento de Infantaria n.º 23. A 3 de Janeiro de 1814, é promovido a Capitão, no mesmo exercício. 

A 22 de Junho de 1815, com 29 anos, é promovido a Sargento Mor Ajudante de Ordens do Comandante em Chefe da Divisão de Voluntários Reais.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Correspondência militar no teatro do Uruguai (13 a 23 Setembro de 1816)


Apresento a transcrição de 5 cartas escritas no período entre 13 e 23 de Setembro de 1816, ao início da hostilidades no distrito de Entre Rios, fronteira de Santana, Quaraí e em Missões. Não as conheço transcritas na variada literatura que já consultei, pelo que pensei ser interessante aqui as divulgar.

As cartas, escritas por vários comandantes na área, o principal, o tenente general Joaquim Xavier Curado, comunicando com o marquês de Alegrete (que só assume o comando no terreno no dia de Natal, daí por 2 meses), José de Abreu, destacado com cerca de 700 homens para o rio Uruguai em apoio, ou o brigadeiro Francisco das Chagas Santos, comandante militar das Missões, em S. Borja.

É de destacar, para contexto, que Andrés Guaçurari y Artigas (Andresito) começa a invasão da província de Missões a 12 de Setembro, quando força a guarda portuguesa de S. João Velho, no rio Uruguai, com a sua divisão, dirigindo-se depois ao Povo de S. Borja que sitia a partir do dia 21.

As transcrições foram feitas a partir de registros fotográficos que me foram disponibilizados, e infelizmente com alguns corte que não permitem um trabalho melhor.

Esta correspondência tem no entanto um grande valor pois nos dá a perspetiva daqueles primeiros momentos da guerra que se desenrolará por mais 3 anos, e a incógnita que representava ao comando português do Rio Grande as primeiras movimentações das forças de José Artigas não só nesta fronteira, mas a Leste, na costa atlântica.
Têm ainda valor estas transcrições por revelar os pensamentos do general Xavier Curado em termos táticos, com uma especial atenção aos vitais elementos logísticos, sem os quais como ele próprio refere n~ºao há possibilidade de bom sucesso. Apesar dos reforços estarem, por esta altura, já na estrada para o passo do Rosário, as tropas da capitania do Rio Grande são ainda diminutas para fazer face aos orientais, principalmente pela dispersão por uma enorme fronteira, extremamente falha de população ou aldeias.

Nota-se, em pormenor, que na perspetiva do oficialato português uma forte distinção entre os indios e os 'insurgentes' federais, quando na verdade o exército de Artigas era bem mais coeso em termos revolucionários, com um grande apoio de todas as classes sociais. No entanto, a questão federal era, em bastantes aspetos, algo diferente da questão missionária, o que o percurso histórico desde 1680 pode ajudar a perceber melhor, nomeadamente as tonalidades raciais que são norma nesta altura.

Para concluir o que já vai longo, indico que no final deste artigo poderá encontrar a ligação para as biografias dos mencionados nas cartas, assim como outras que sejam relevantes a uma melhor compreensão do momento histórico desta segunda quinzena de Setembro em que tudo aquece.



I.
[464 A] [TenCor. José de Abreu a Brig. Tomás da Costa Rebelo e Silva, Passo do Baptista (hoje, cidade de Quaraí), 13 de Setembro de 1816 ]

Ilustrissimo Senhor Brigadeiro Commandante

Neste mesmo instante ao amanhecer recebo as Partes de que seguem copias e estando com tudo pronto para passar o Quarahim me resolvi a chamar todos os Officiaes que me acompanhão para que à vista das ditas partes desse cada hum seu parecer se devemos passar para os Dominios Espanhoes, ou acudir aos terrenos de Sua Majestade invadidos pelos insurgentes que entrão pelo Rincão da Cruz na Provincias de Missoens, a qual se acha com muito pouca guarnição; e sitiados no Capão de Atanazio como consta das mesmas partes; asentamos unanimemente em indireitar pelo Jaráo dereito a Coxilha grande mandando bombeiros por toda a parte para no cazo deque os ditos Insurgentes se retirem logo que nos precintão endireitarmos a passar no Paço da Barra do Quarahim, e seguir as mesmas Ordens que V. S.ª me deu, e quando não acudir aquella Provincia que não pode ter brevemente soccorro de parte alguma, antes pelo contrario temo que os Indios fação algum desatino.
Como os inimigos carregão para esta parte com mais força, parecia-me muito acertado que V. S.ª sendo do seu agrado se encaminhase direito a Jaráo, ou mandasse algum corpo a este mesmo ponto por lhes não mdê na cabeça entrarem por aqui, porque já se conhece que elles não querem alargarse muito das costas, e dali está V. S.ª abel [ábil?] a sahir por donde lhe parecer, ou dar as providencias com mais brevidade as que se precizão na estação prezente.
Julgo V. S.ª não me levará a mal esta deliberação de não passar para os terrenos do inimigo, deixando os nossos occupado por elles; espero que V. S.ª delibere com brevidade; entretanto Deus Nosso Senhor Guarde a V. S.ª por muitos annos.

Passo do Baptista, treze de Setembro de mil oitocentos e dezeseis
Illustrissimo Senhor Brigadeiro Thomaz da Costa Correia Rebelo e Silva = Jose de Abreu

Fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

* * *

II.
[464] [TenGen Joaquim Xavier Curado a CapGen Marquês de Alegrete, em Marcha (a caminho do rio Ibirapuitã), 14 de Setembro de 1816]

Illmo. E Exmo. Sor.

As noticias adquiridas pelos bombeiros de que se acha […] nos serros brancos hua Partida de trezentos Insurgentes comandados pelo Ramires; e junto ao Serro de Cunhapirú outras mais pequenas, guardando uma porção de cavalos; e finalmente que em Lunaresco avião Tropas, que fazião a vanguarda do corpo principal comandado por Artigas, tomei o expediente mandar o Sargento Mór Sebastião Barreto [Pereira Pinto, Dragões do Rio Grande] atacar com quatrocentos ómens o Corpo que se dizia existir em serros brancos: este Major inda não voltou, nem a Tropa do seu Comando, e nada sei do rezultado da sua diligência. 
O Capitão de Dragoens Jozé de Paula Prestes foi mandado tirar a Cavalhada, e bater a Tropa que aguardava em Cunhapirú. Estes oficial voltou logo dando parte de não encontrar couza algua, e de ter observado vestigios da retirada de muita Tropa para a parte do Uruguay.
O Tenente Coronel Jozé d'Abreu com quinhentos ómens, e duas Peças de Artilheria foi mandado atacar as Tropas do Lunaresco; e o Brigadeiro Tomaz da Costa foi encarregado da deligencia de marchar com mais de trezentos homens, e duas Peças de Artilharia a ocupar um lugar destinado nas pontas de Arapey, com o projecto de se corresponder com o Tenente Coronel José de Abreu, e prestarem entre si mutuo soccorro.
Já tinhão estes dous Comandantes dado principio á sua marcha quando recebi esta manhã as incluzas participaçoens, de que um numerozo Corpo de Indios, e e Espanhoes tinhão atacado a quem, e alem do Ibicuy, e desolado alguas Estancias nas margens do Uruguay: na mesma occaszião recebi juntamente o Oficio do Brigadeiro Francisco das Chagas, que sobem igualmente à Prezença de V. Ex.ª.
Em consequencia pois destas novidades mandei sustar a marcha do Brigadeiro Tomaz da Costa, incumbindo ao Tenente Coronel Jozé de Abreu a obrigação de marchar prontamente com a Tropa confiada ao seu Comando, e se apreçasse a chegar a tempo de atacar o Corpo, que se achava deste lado do Ibicuy, e prezumo que amanhãa ao manhecer se encontrará com ele: e que depois conforme as notícias que adquirisse, pasasse o Rio e fose socorrer Missoens.
He de prezumir que esta deliberação dos Insurgentes he dirigida a divertir as forças desta Fronteira para facilitar os seus projectos. A tropa existente é muito pouca para defender perto de cem léguas de Fronteira. A cessão Comandada pelo Tenente Coronel Ignacio Jozé Vicente, que conduz a Artilheria de seis ainda não chegou ao Rozario: o mesmo sucede a Tropa de Santa Catarina, que partio de Bagé no dia 19 do mez passado, apezar das deligencias, e auxilios de Boyada que tenho mandado a ambos os Comandantes: talvez a cauza da demora seja o mau estado da Cavalhada e Boiyada, que suposto não falte em numero, tem com tudo falta de forças, e vão ficando cançadas ainda em hua marcha ordinaria: da Legião de S. Paulo nada sei nem ainda por noticia: e só conto com as Praças deste Corpo que precederam a minha marcha de Rio Pardo.
O Regimento de Milicias tem falta de muitas praças para o seu estado efectivo.
O Brigadeiro Tomaz da Costa com mais de trezentos ómens, e duas peças dÁrtilheria vai a ocupar o Paço do Lageado em Quaraim com o destino de auxiliar o Tenente Coronel José de Abreu, ou obstar qualquer tentativa dos Insurgentes de Artigas: eu marcho para as imediaçoens de Ibarapuitam com cem omens de Infanteria da Legião, e secenta Milicianos do Rio Pardo, e sem a Artilheria por não terem ainda chegado, com o projecto de embaraçar qualquer pretenção do Artigas, que tendo a sua Cavalhada em descanço pode projectar com vantagem algua surpreza contra a nossa, que se acha efectivamente em movimento ou girando pela Fronteira, ou conduzindo Tropas do Rio Pardo na distancia de mais de oitenta leguas, até á Linha divizoria, e na estação mais critica para estes animaes, que alem de magros estão fracos com os novos pastos.
Agora depois de ter concluido este Oficio recebo a Carta do Brigadeiro Chagas com data de doze, que sobe à Presença de V. Ex.ª.

A Excellentissima Pessoas de Vossa excellência guarde Deus muitos annos.
Em marcha 14 de Setembro de 1816

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Alegrete = Joaquim Xavier Curado

Fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

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III.
[…]5A] [Brig. Francisco das Chagas Santos a TenGen. Joaquim Xavier Curado, São Borja, 15 de Setembro de 1816]

Illustrissimo e Excelentissimo Senhor

A 10, e 12 do corrente mez dei parte a V. Ex.ª da cituação critica em que me acho neste Povo onde espero de V. Ex.ª o mais vigorozo soccorro de gente; acabo de receber noticia que são 900, ou 1000 Indios Hespanhóes que se achão no Campo de São João de Atanazio e que se estão intrincheirando junto a Caza da estancia do mesmo Atanazio emquanto lhe chegão 1000 homens de Artigas: os quaes dizem que vem por este lado do Uruguay a passarem no Passo de São Felipe afim de me atacarem neste Povo aonde pertendo defenderme: com a pouca gente que tenho serão 300 homens, e alguma Artilharia por tanto rogo a V. Ex.ª a brevidade do dito soccorro. O inimigo tem aparecido em São Nicoláo dando alguns tiros aos nossos Milicianos que tambem lhe tem correspondido: finalmente as minhas esperanças se fundão na conhecida actividade de Vossa Excellencia que Deus guarde muitos annos.

São Borja, quinze de Setembro de mil oito centos e dezesseis. 

Illustrissimo e Excelentissimo Senhor Joaquim Xavier Curado
P.D. = Não me tem chegado ainda a gente que tenho mandado avizar = Francisco das Chagas Santos

Fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825

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IV.
[465]  [TenGen Joaquim Xavier Curado a CapGen Marquês de Alegrete, em Marcha (a caminho do rio Ibirapuitã), 20 de Setembro de 1816]



Illmo. e Exmo. Sr.

Tenho a honra de levar à prezença de V. Ex.ª o oficio que dirigio o Brigadeiro Francisco das Chagas Santos na data de 15 acompanhado da primeira resposta, e do oficio que dirigio ao Tenente Coronel Jozé de Abreu, oficial encarregado de atacar aos Indios, que unidos aos Insurgentes procurarão invadir a Provincia de Missoens, como fiz a V. Ex.ª participante no meu oficio na data de 14.
Este Tenente Coronel Abreu tem cometido u~a grande falta em demorar o auxilio destinado para Missoens: por cujo motivo já lhe foi extranhada a sua conduta, e segunda vez referindo o seu comportamento, como V. Ex.ª se dignará ver na Copia incluza. Espero da ónra daquele oficial, cujo merecimento o fazia recomendavel, que desempenhará a comissaõ de que se acha encarregado.

[LEIA TAMBÉM: Um mau início: Xavier Curado a José de Abreu, Setembro de 1816]

O sargento mór Sebastiaõ Barreto [Pereira Pinto, Dragões do Rio Grande] de quem fiz mençaõ no meu citado Oficio de 15 ontem se recolheu, dando parte de não ter encontrado inimigos té as imediaçoens de Santa Anna. Era muito natural que assim sucedesse por que o Chefe dos Rebeldes tem congregado todas as suas forças em Quaraim, e vezinhanças de Arapey aproximando-se ao uruguay, não só para favorecer a pertendida invazão de Missoens, como para ficar ambidestro para os roubos, e destruiçoens das Cazas, das familias, dos gados, e das cavalgaduras. Para este fim destaca partidas de duzentos trezentos e mais ómens que unidos aos Indios Charruas tem aparecido em diversas partes do interior da Linha desde Santa Anna the as vizinhanças do Uruguay; adoptando o metodo da Guerra que costumaõ fazer os mencionados Indios, que atacão com vigor aos poucos que se lhes (…), e dispersaõ-se em debandada quando reconhecem forças superiores […] logo depois reunidos na distancia d'oito ou dêz leguas continuaõ os insultos, e repetem as ostilidades. Na noite do dia 14 tive parte de […] os Indios Charruas, e alguns Insurgentes tinhaõ queimado trêz Cazas […] matado alguas pessoas, e roubado tudo quanto lhes foi possivel.
No […] momento mandei marchar u~a partida para os atacar: forão encontrados, porem longe de querer experar pelo Combate, dispersaraõ-se e procuráraõ reunir-se em outro lugar onde tem dado exercicio […] vil pervercidade. Oje mandei marchar trez Partidas para o […] rem sobre si, ou unidas, conforme as circunstancias, fazendo o total de quatro centas Praças de Cavalaria, com o projecto de os obrigar a combate, ou seguilos por diversas partes como parecer conveniente. Espero o rezultado deste deligencia.

As actuais despoziçoens do Chefe dos Rebeldes dao idéa de que o seu intento hé a conquista de Missoens, ónde protegido dos Indios do outro lado dos quaes a maior parte já se acha difundida pelos Terrenos pertencentes à Provincia de Missoens possa impunemente invadir, a solar e roubar, naõ só os Destrictos de Sima da Serra pertencentes a Saõ Paulo, como às imediaçoens pertencentes a esta Capitania descendo pela Serra de São Martinho, e Boca do Monte dilatar as suas ostilidades até ao Rio Pardo. Pode bem sêr que seja quimerico este modo de pençar: porem é certissimo que estes piratas não querem combater, mas sim subsistir por meio de roubo cuja ambiçaõ lizongea o interesse de seus sequazes. 
Seja qual fôr o seu intento o certo é que este metodo de fazer a Guerra é o mais ruinozo, e destruidôr porque não se pode guardar nem defender a vasta extençaõ de terreno compreendido entre Santa Anna, e Uruguay onde existem as forças que da Fronteira do Rio Grande se retiraraõ. As tropas que existiaõ nesta Fronteira sempre foraõ muito deminutas relativamente à dilatada extençaõ do terreno que devem proteger.
Actualmente que se achaõ desmembrados sete centos ómens para a defeza de Missoens resta muito pouca Tropa: a Cavalaria é muito diminuta, e sem esta qualidade de arma nada se pode empreender com probabilidade de bom sucesso.

Agora que os Rebeldes aparecem em diversos pontos vejo-me obrigado a reunir a um só ponto toda a Cavalhada, e Boyada, e estabelecer u~a guarda numeroza para defender estes animaes, que fazem o primeiro objecto, e de maior interesse para felicitar as operaçoens militares nestas Campanhas. Isto feito apenas restará Cavalaria para agenciar o municio da Tropas.
O Regimento de Dragoens alem das praças legitimamente empregadas fora do Exercito faltaõ-lhe vinte sete para o seu estado completo: actualmente existem duzentas Praças: o Regimento de Milicias de Rio Pardo alem das duas Companhias ocupadas em Missoens, e outra do Camaquam que inda se não apresentou, acha se muito diminuto; apenas duzentos e setenta e cinco omens se podem conciderar neste Campamento. A Partida dos Guerrilhas d'Queirós que foi do falecido Manoel dos Santos consta por ora de quarente praças. A Cavalaria de S. Paulo aprezenta cincoenta praças. Destes corpos extraidos trezentos ómens para guardar e defender efectivamente a Cavalhada, e Boyada e cuidar na subsistencia da Tropa, pouco ou nada restará. Amanhãa pretendo marchar para a vezinhanças de Ibirapuitam. Afim de procurar um ponto mais proximo ao foco principal das Forças dos Rebeldes, para objetar as suas tentativas, e de onde nos seja mais facil auxiliar Missoens, porque concidero importantissima a sua conservaçaõ; e ao mesmo tempo proteger parte da Fronteira mais vezinha, que por sêr muito extença tarde poderaõ chegar os auxilios nos pontos mais distantes, que me forem possiveis mandar.
A falta de proporçoens na marcha me impossibilita de levar à Prezença de V. Ex.ª o Mapa da Tropa existente.

Em poucos dias pertendo campar no ponto que julgar mais conveniente, para as minhas futuras operaçoens: atentas as circunstancias já referidas: então cumprirei com este dever.

Agora acabo de receber a parte que me dirigio o Brigadeiro Tomaz da Costa, que levo à Prezença de V. Ex.ª na qual se faz patente o motivo da demora que tem tido o Tenente Coronel Jozé de Abreu em atacar os rebeldes que pertendem invadir Missoens certificando-me que no dia 19 seriaõ atacados.
Espero que o dito Tenente Coronel Abreu dezempenhe com muita onra os deveres da sua comissão, como tem feito por muitas vezes.

A Exma. Pessoa de V. Ex.ª Guarde Deus muitos annos.

Em marcha[,] 20 de Setembro de 1816
Illmo. e Exmo. Sr. Marquêz d'Alegrete = Joaquim Xavier Curado

Fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

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V.
[466] [TenGen Joaquim Xavier Curado a CapGen Marquês de Alegrete, Campamento junto ao rio Ibirapuitã), 23 de Setembro de 1816] (Combate de Santana, 22/9)



Illustrissimo e Excellentissimo Senhor

No meu ultimo Officio de 20 do corrente tive a honra participar a V. Ex.ª que tinha mandado marchar trez Partidas para operarem sobre si, ou unidas, conforme as circunstancias; com o projecto de obrigar aos Insurgentes a entrar em Combate, ou a seguilos por diversas partes, como parecesse conveniente.

No dia 22 forão encontrados os Inimigos que retirandose procurarão o apóio d'hum Corpo numerozo, que augmentado depois com mais Cavalaria, e Infantaria travarão hum combate de quatro óras, no qual forão mortos doze, e feridos trinta e hum, cujos nomes constão da relação incluza: e suposto que fosse muito maior o numero dos mortos entre os Enemigos, com tudo a nossa perda foi muito sencivel, não tanto pela quantidade, como pela qualidade de valentes que perecerão no Combate.
Consta-me que a tropa combateu com muito valor, e que muito particularmente se distinguirão o tenente Joze Rodrigues Barbosa, o tenente Gaspar Francisco Menna Barreto, o alferes Joze Luiz Menna Barreto, o porta estandarte Patricio Joze Correia da Camara, o cadete Belxior da Roza e Brito, o cadete Joze Maria Correa Marques; todos do Regimento de Dragoens: e do Regimento de Melicias o tenente Anacleto Francisco Gulart, o tenente Joze Cardoso de Souza, o tenente Antonio de Medeiros da Costa, o tenente Bento Manuel Ribeiro, o Alferes Antonio Gracez de Moraes, o alferes Antonio Pinto de Azambuja, o Alferes Francisco das Chagas, o Capitão Alexandre Luiz; e da Legião de São Paulo o sargento Antonio Luiz de Moraes Pissarro.
Sobre as particularidades do Combate eu me refiro as participações que me forão dirigidas pelos Commandantes, que tenho a honra de levar à Prezença de V. Ex.ª:

Pelo Mappa incluzo se dignará V. Ex.ª ver o Estado actual da tropa existente neste Campamento, desmembrada aquella que marchou a soccorrer Missoens: com ellas nada se pode empreender, nem deliberar: a Cavallaria é muito pouca; os Insurgentes tem reunido as suas forças nas vizinhanças de Santa Anna, em frente a este Campamento.

No combate do dia 22 forão vistos e reconhecidos todos os Comandantes de Corpos, e ainda o mesmo Otorguez: a sua Infantaria he boa bem armada, e opera em boa ordem: a sua Cavallaria não paresse digna de attenção.

Estes revolucionarios não poderão ser destruidos sem forças combinadas, que atacando ao mesmo tempo por duas ou trez partes os obriguem a perder a vantagem do lugar escolhido com antecipação.

A Partida de Queirós [Alexandre Luís de Queiroz, Guerrilhas do Rio Grande] que foi […] do falecido Tenente Coronel Manoel dos Santos [Manoel dos Santos Pedroso, ou Maneco, falecido no início do ano], alem de muito pouco numeroza dá poucas esperanças: os mais Partidarios que se offerecerão, quando cheguei a Rio Pardo, não tem realizado as suas promessas, nem deles tenho noticia.
Da Provincias de Missoens não tenho tido participação alguma.

Continuo a esperar pelo Regimento de Santa Catharina, e pela Tropa que acompanha o Tenente Coronel Ignacio Joze Vicente [Inácio José Vicente da Fonseca, Artilharia da Legião de Voluntários Reais de S. Paulo].

No instante em que estive a fexar este Officio recebo a parte do Tenente Coronel Joze de Abreu que sóbe a Prezença de V. Ex.ª e julgo poder afirmar a V. Ex.ª que está livre a Provincia de Missoens; e que o Tenente Coronel Abreu continua a fazer valer o seu merecimento. [Refere-se aqui ao combate de Yapeyú, onde Abreu frustrou a passagem do Uruguai a Pantaleon Sotelo, que queria unir-se a Andresito]

A Excellentissima Pessoas de Vossa Excellência guarde Deus muitos annos.
Campamento em Ibirapuitan vinte trez de Setembro de mil oitocentos e dezesseis

Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Alegrete = Joaquim Xavier Curado

Fonte: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

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José de Abreu

Biografias
- CapGen Luís Teles da Silva Caminha e Meneses, Marquês de Alegrete (capitão general do Rio Grande) [LER]
- Ten Gen Joaquim Xavier Curado (comandante da Fronteira do Quaraí) [LER]
Brig Francisco das Chagas Santos, governo militar das missões orientais, em São Borja [LER]
- TenCor José de Abreu (Esquadrões de Cavalaria de Milícias de Entre Rios) [LER]
Sarg Mor Sebastião Barreto Pereira Pinto ("Regimento de Dragões do Rio Pardo") [LER]

Comandante Andrés Guaçurari y Artigas  (Blandengues da Fronteira de Montevidéu) [LER]

Batalhas