terça-feira, 29 de setembro de 2020

Na Estrada de Montevideu


No final de 1814 foi mandada aprontar uma divisão de voluntários, a ser composta de pouco menos de 5000 militares das três armas, com o objetivo de intervir no sul do Brasil. Este blogue é uma humilde contribuição para o conhecimento da história da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, e depois d'El-Rei, entre 1815 e 1824, assim como das tropas da Capitania do Rio Grande.
A campanha de 1816 foi um esforço conjunto de mais unidades do Exército do Brasil e de Portugal num teatro de operações que ia desde a costa atlântica à costa do rio Uruguai, com quatro colunas distintas.
Apesar de adotar uma perspetiva portuguesa do conflito, este blogue procura também a perspetiva oriental a fim de traçar a mais fiel possível descrição dos acontecimentos desta guerra.

Embarque da DVR a 29 de Maio de 1816, na Praia Grande (J. B. Debret)
AS BATALHAS
As ações, sítios e batalhas da campanha, com ligação aos artigos disponíveis sobre elas, com ênfase forte nos memorialistas.
AS BIOGRAPHIAS
Em constante atualização, aqui pode encontrar ligações à biografia de alguns dos militares, portugueses e federais.
OS MOMENTOS
Os artigos sobre momentos que não envolvem combate.
OS VOLUNTARIOS
Listas e caracterização dos militares da Divisão dos Voluntários Reais.
AS TÁCTICAS
Os artigos predominantemente da análise tática militar.
AS MEMORIAS
As vozes dos combatentes e testemunhas dos eventos.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Assalto de São Borja (28.9.1816)

A 28 de Setembro de 1816, Andrés Guaçurari y Artigas manda atacar a vila de S. Borja. A vila estava sitiada desde dia 21, mas este terá sido a primeira tentativa de tomar a localidade pela força. Todas as outras seis missões, deficientemente defendidas, foram tomadas, mas S. Borja era a capital e estava bem guarnecida. De acordo com as poucas fontes, nesse dia 10 peças de artilharia com metralha assim como a fuzilaria portuguesa nos muros da horta (Regimento de Infantaria de S. Catarina) foram fundamentais para frustrar a tentativa oriental.

Sítio de São Borja

Quando o sítio teve o seu início a 21 de Setembro, de madrugada, Andresito (Andrés Guaçurari, acima) mandou um ultimatum ao brigadeiro Francisco Chagas dos Santos, comandante militar das Missões. Três dias depois, a 24, o comandante oriental envia um ultimatum ao comandante português para render a praça em três horas. No dia seguinte, a ameaça dos orientais vem renovada com a notícia que apenas S. Borja permanece na mão dos portugueses e apelando ao direito dos povos nativos à unificação de todas as Missões, roubadas, segundo ele, em 1801.

Procederam-se a vários ataques orientais sobre S. Borja durante o sítio, mas limitados, talvez destinados a testar as defesas e encontrar pontos fracos; estes são facilmente rebatidos pela guarnição, bem entrincheirada e com 14 peças de artilharia a apoiar a defesa.

A 26 de setembro, o tenente coronel José de Abreu, que havia impedido Pantaleón Sotelo, a 21 e 22, de passar em Japejú e incorporar-se a Andresito, passa o rio Ibicuí para norte com a sua força. Pelo final do mês já não havia dúvida para Andrés Artigas que os portugueses viriam tentar aliviar o sítio à vila. Tão cedo quanto o dia 23, já Justo Negros, comandante da flotilha oriental no rio Uruguai, havia avisado Andresito do fracasso de Sotelo, que teria a notícia num dia, se tanto.

O Assalto 

Na urgência de tomar S. Borja, e assim ter toda a região, Andrés Artigas ordena um assalto geral que ocorre a 28 de Setembro de 1816. O mesmo falha devido à tenaz resistência portuguesa, nomeadamente a sua artilharia. Andresito terá usado o mesmo dispositivo de 3 de outubro, dias depois, aquando da batalha de S. Borja, destacando metade dos seu milhar e meio de efetivos para o assalto, enquanto a outra metade ficava em reserva, afastada da vila, muito possivelmente na expetativa de um ataque português. Em 3 de Outubro, 700 forças orientais estavam prestes a começar um segundo assalto geral, com 800 um pouco afastadas a oriente, em terreno alto.

A 3 de Outubro, Andresito (ou Artiguinhas, como era conhecido entre os luso-brasileiros) tentará de novo quebrar o sítio, com a pressão de ser flanqueado pelos portugueses que se aproximam  pelo sul, mas é surpreendido pela coluna de José de Abreu que o apanha dividido, mas essa é outra história.


ORDEM DE BATALHA

Guarnição de S. Borja, Exército do Brasil, Capitania do Rio Grande de S. Pedro

Comandante – brigadeiro Francisco das Chagas Santos

c. 200 efetivos

14 peças (de acordo com Moraes Lara). O brigadeiro Chagas dos Santos fala de 10 peças destas carregas de metralha.

Regimento de Infantaria de Santa Catarina - Companhia de Granadeiros, Capitão José Maria da Gama Lobo (uma companhia de granadeiros num regimento português da época seria em estado completo, composta de cerca de 120)

“Alguns dos 200 guaranis que havia” (Chagas do Santos, 9.10.1816)

Será de admitir que metade dos membros da guarnição de S. Borja eram granadeiros de infantaria de S. Catarina e metade milícias guaranis e brancas.

Baixas Portuguesas

5 soldados gravemente feridos e 4 levemente (Moraes Lara, 1817 e 1845).

“2 granadeiros e 2 guaranis queimados, e 2 soldados e 3 guaranis feridos de bala” (Chagas do Santos, 9.10.1816)

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Divisão de Missiones, Liga Federal (com base nas indicações de 3 de Outubro)

Comandante -  Andrés Guaçurari y Artigas

c. 1500-2000 efetivos

Moraes Lara indica o número de orientais para 2000 homens e 2 peças de artilharia. No entanto, José de Abreu indica no seu relatório que encontrou uma força de cerca de 1500 efetivos, no dia 3, dividida em dois grupos, um de 800 e outro de 700.

Sabemos, no entanto, que Pantaleon Sotelo, que não conseguiu passar o Uruguai em Japejúa, a 21, vai por terra e entra por passos mais a norte, juntando as suas forças a Andresito. Se em 3 de Outubro Andresito teria cerca de 1500 homens, em 28 de Setembro teria menos.

Baixas Orientais

De acordo com o brigadeiro Chagas dos Santos, a 9 de Outubro, os orientais teriam sofrido 200 baixas em diversos ataques.

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Extrato da correspondência do brigadeiro Francisco Chagas dos Santos, em carta ao tenente general Joaquim Xavier Curado, a 9 de Outubro de 1816:

“O inimigo foi derrotado por todas as partes [refere-se ainda à batalha no dia 3 de Outubro e dias seguintes]. No sítio perdeu mais ou menos 200 homens, que matámos e ferimos nos diversos choques  e ataques que nos fez, sendo o principal e mais impetuoso no dia 28 do passado [Setembro], em que dez peças nossas, carregadas á metralha, fizeram grande estrago sobre o inimigo, além da nossa fuzilaria, especialmente nos muros da horta, que com o maior empenho procurou assaltar em grande número; mas sendo reforçada opportunamente, se pôz em fuga o inimigo, horrorisado com a nossa resistência, e pelos seus mortos e feridos; não havendo da nossa parte mais que 2 granadeiros e 2 guaranis queimados, e 2 soldados e 3 guaranis feridos de balas.

A nossa guarnição de este povo, composto de 200 portugueses, inclusa a companhia de Granadeiros e alguns dos 200 guaranis que havia, manifestaram muito valor e prontidão em todos os 13 dias de sítio”.


Fontes

- LARA, Diogo Arouche de Moraes, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista Trimensal de História e Geografia, n.º 26, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Julho de 1845, pp. 125-328.

Imagens

Na imagem, a batalha de São Borja, combatida a 3 de Outubro, quando Andresito se preparava para a segunda e última investida contra a vila & Uma planta aproximada de S. Borja circa 1816.

domingo, 9 de agosto de 2020

Civil/Exército do Brasil: D. Margarida de Almeida Portugal (Marquesa de Alegrete)

A senhora Dona MARGARIDA DE ALMEIDA PORTUGAL , 5.ª marquesa de Alegrete, nasceu em Santa Clara, Lisboa, aos 24 de Agosto de 1791, filha dos marqueses do Lavradio, D. António de Almeida Portugal e D. Ana Teles da Silva, tendo sido batizada, no mesmo dia, no oratório do Palácio dos marqueses no campo de Santa Clara. 

Em 1807, como muita da corte, viaja para o Brasil. A 1 de Outubro de 1808, casa-se com o 5.º marquês de Alegrete, D. Luís Teles da Silva, na Sé do Rio de Janeiro. 

Acompanhou o marido quando este foi capitão general do São Paulo, em 1811, e depois, do Rio Grande de S. Pedro, em 1814. 

Tem 25 anos de idade quando acompanha o marido na batalha de Catalán, a 4 de Janeiro de 1817, onde, de acordo com testemunhos presenciais, ajudou os feridos no campo após a ação:


Demorámo-nos no Campo da ação o dia 4 e 5, ocupados em enterrar os nossos mortos, e curar os feridos, a senhora Marquesa tem zelado dos doentes com muita caridade, desfiando panos com suas próprias mãos para se curarem as feridas.”

(Tenente coronel Inácio José Vicente da Fonseca, Artilharia da Legião de S. Paulo, em carta a Vicente Ferrer da Silva Freire)

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Um exemplo novo de valor, e de heroísmo serviu para aumentar a celebridade da vitória gloriosa de Catalán: ele foi dado pela marquesa de Alegrete, tão ilustre por suas virtudes como por sangue: a presença do espírito varonil que patenteou no meio dos maiores perigos, e debaixo do fogo inimigo, e com que animava a todos, não foi menos admirável que a prática  incansável de piedade, a que se entregou depois da batalha, em socorro dos feridos , sem distinção de amigos ou inimigos. Ela finalmente se fez  naquele dia  por todos os motivos digna de maior estima, respeito, e admiração do exército.

(Capitão Diogo Arouche de Moraes Lara, Infantaria da Legião de S. Paulo, in: “Campanha de 1816”)

 

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Imagem (topo)

- "Batalha de Catalán", óleo do coronel Pedro Paulo Cantalice Estigarríbia (Hospital Militar de Porto Alegre, RS) 

sábado, 14 de março de 2020

Exército do Brasil: Inácio José Vicente da Fonseca


O tenente coronel de artilharia Inácio José Vicente da Fonseca nasceu em S. Paulo, filho natural do coronel de milícias João Vicente da Fonseca, tendo sido batizado a 28 de fevereiro de 1782.

Em 1804 frequentava o curso de Filosofia na Universidade de Coimbra, tendo no ano anterior assentado praça de cadete na artilharia da Legião de Voluntários Reais de São Paulo. Não é certo quando é promovido a 2.º tenente e dessa forma, a oficial de patente, mas em julho de 1805 pede a confirmação da sua promoção a tenente, pelo que terá sido promovido nos meses anteriores.

Em 24 de junho de 1809 é promovido a 1.º tenente da 2.ª companhia de artilharia a cavalo da legião, sendo já 1.º tenente agregado. No mesmo ano, é promovido a saagento mor, quiçá saltando o posto de capitão da artilharia montada.

A 13 de maio de 1815 é graduado em tenente coronel comandante da artilharia da Legião, sendo efetivado no posto a 6 de fevereiro de 1818.

Escreveu uma carta datada de 8 de janeiro de 1817, ao coronel Vicente  Ferrer  da  Silva Freire contendo a sua perspetiva do que aconteceu nos dias 3 e 4 de janeiro, aquando do combate de Arapeí e da batalha de Catalán, esta última onde participa estando na bataria do centro da linha portuguesa. Esta peça de correspondência, pela sua candura, é uma fonte valiosíssima para a compreensão do que aconteceu no campo de Catalán.

LEIA
- Memórias: tenente coronel Vicente da Fonseca (Batalha de Catalán, 1817):

IMAGEM
- Palácio do Governo de S. Paulo, antigo Colégio dos Jesuítas (J. B. Debret)

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Exército do Brasil: José Maria Rita de Castelo Branco, conde da Figueira


O capitão general JOSÉ MARIA RITA DE CASTELO BRANCO CORREIA DA CUNHA VASCONCELOS E SOUSA, 1º Conde da Figueira, nasceu em Salvaterra de Magos, a 5 de Fevereiro de 1788, filho de José Luís de Vasconcelos e Sousa, marquês de Belas, e de D. Maria Rita de Castelo Branco Correia e Cunha.

Tendo assentado praça como cadete a 10 de Março de 1806, com 18 anos, é promovido no ano seguinte, a 24 de Junho, a alferes agregado ao Regimento de Cavalaria n.º4 (ou de Mecklemburgo, aquartelado em Lisboa). Nos finais de 1807 embarca na Corte com destino ao Rio de Janeiro.

A 13 de Maio de 1808, aniversário do regente, é promovido a tenente, muito provavelmente no 1.º Regimento de Cavalaria do Rio, unidade que é levantada nesse mesmo dia, para empregar vários oficiais vndos de Portugal com a Corte.  Dois anos depois, a 24 de Junho, é promovido a capitão. No mês anterior é titulado conde da Figueira (13 de Maio de 1810).

A 7 de Março de 1812, é graduado em major (ou sargento mor), ajudante de ordens do Governador das Armas do Rio de Janeiro, marechal de campo Ricardo Xavier Cabral.

Em 1817, é tenente coronel. Fez parte da expedição portuguesa que foi à cidade de Pernambuco em 1817. Serve, na aclamação de D. João VI, em inícios de 1818, como reposteiro mor, vindo oito anos depois a servir na mesma capacidade do funeral do monarca.

A 19 de Outubro de 1818, com 30 anos de idade, toma posse como capitão general do Rio Grande de São Pedro, assumindo o comando das tropas do Rio Grande, em plena atividade operacional desde meados de 1816. Substitui o Marquês de Alegrete.

Herdou um dispositivo bastante espalhado no terreno, desde a fronteira oeste da província na área entre Missões e Santana do Livramento, e no território oriental, na margem esquerda (ocidental) do rio Uruguai, até Paysandu, resultado na ofensiva do tenente general Joaquim Xavier Curado em 1818.

É o comandante das forças portuguesas  na batalha de Tacuarembó, a 22 de Janeiro de 1820, que coloca um fim à guerra de 1816-1820 entre Portugal, Brasil e Algarves e a Liga Federal, ou dos Povos Livres.

A 14 de Abril de 1820, pelos seus sucessos na campanha, é promovido a coronel de cavalaria, mantendo como capitão general da província até Setembro desse ano.

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Imagem
- Capela do Antigo Paço Real - Salvaterra de Magos
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Capela_do_Antigo_Pa%C3%A7o_Real_-_Salvaterra_de_Magos_-_Portugal_(2624895948).jpg

sábado, 7 de setembro de 2019

O Filho do Marechal


Sebastião Pinto de Araújo Correia nasceu em Viana do Castelo e era, em Novembro de 1813, aos 28 anos, o coronel do Regimento de Infantaria n.º 18, promovido apenas três meses antes. Estava a sua divisão e o Exército nas margens do Adour, defronte de Bayonne, já bem dentro de França. Pequeno nobre do Minho, o mais velho de sete irmãos, era primo de D. António Araújo de Azevedo, antigo ministro da guerra em Lisboa, o que ajuda a explicar ser coronel a uma idade tão precoce. Ainda assim, Sebastião Pinto havia sido prejudicado na antiguidade, por via de um ferimento na cabeça na batalha de Fuentes de Onoro, no dia 5 de maio desse 1811, no comando de Caçadores 6. Esteve 4 meses e meio com parte de doente. Outros tenentes coronéis promovidos de 1809, alguns que conheceremos mais à frente, obtiveram a patente de coronel em 1812, um ano antes.

A 6 de novembro, o  novel coronel de Infantaria 18 pediu e recebeu uma licença de três meses para recuperação em Portugal de uma moléstia que padece, resultado decerto do ferimento em 1811, mas a mesma é posteriormente alterada para ir ao Rio de Janeiro, para tratar na corte assuntos da sua casa. O coronel Pinto viaja para Portugal e não volta ao exército em operações na França para a campanha de 1814.

Ainda que concebamos que a visita de Pinto à corte fosse simplesmente em busca da devida recompensa de um herói da guerra, ferido no serviço real, por especial deferência do seu mentor e ‘pai’, o marechal Beresford, fica também claro que essa estadia se tornou depois em diligência do real serviço, não só decerto pelo transporte dos decretos e demais correspondência a Lisboa, mas por ter dado o seu conselho profissional ao Principe Regente e ao marquês de Aguiar.

Parece também provável que Sebastião Pinto tenha sido autorizado a ir ao Rio de Janeiro, em vez de voltar à campanha, isto é, já de um forma oficiosa, em diligência de serviço. É estranho que um comandante de regimento, por mais protegido que fosse, seja especialmente autorizado a permanecer em licença por 3 meses mais que o inicialmente, sendo depois autorizado a ir o Rio de Janeiro.

No âmbito da divergência de interesses lusos-britânicos que se processava desde finais de 1813, com o afastamento definitivo de uma ameaça francesa sobre Portugal, Beresford terá enviado Pinto com ofícios, à laia de guarda avançada, de forma a recuperar alguma da autoridade face à regência. Nada melhor que enviar um heroi de guerra, oficial de potencial e ferido até numa grande batalha, além de primo de um dos ministros.

As circunstâncias dão a volta, porém, quando Sebastião Pinto participa na idealização da divisão e traz os ofícios, acaba por minar mais ainda a autoridade do marechal general, ainda que não o desejasse. A vontade do Príncipe Regente supercede todas as outras, e a necessidade de pacificar a Banda Oriental e Artigas era o mais importante agora para Portugal, na nova configuração europeia que se esboçava em Viena.

O coronel Pinto tem feito sempre remarcáveis serviços à sua Pátria,” recomenda António de Lemos Pereira de Lacerda, secretário militar do marechal Bereford, a D. António Araújo de Azevedo em carta de 4 de maio de 1814, que Pinto mesmo transportou. Sebastião Pinto parte para o Rio de Janeiro pouco depois dessa data. Lacerda salienta que o seu recomendado “tem constantemente merecido a amizade, e consideração do Chefe do Exercito, que o ama tanto, que se chega a denominá-lo: o filho do Marechal”. É também em abono de Sebastião Pinto que Lacerda intercede por justiça ao seu recomendado, por este  ter entregue os seis irmãos ao serviço do soberano:

Os seus sentimentos a respeito da boa cauza da Monarquia não se limitarão unicamente a servir elle; mas tinha seis irmãos, e todos seis entregou ao serviço do Exercito, e todos seis tem alcançado pelo seu comportamento os Postos em concequencia do bom conceito que tem merecido. Sebastião Pinto como bom irmão os pôs na estrada da honra, e ali os tem cuidadosamente alimentado á custa de sacreficios, e de grandes despezas; e estas, unidas as que elle com sigo proprio tem feito, não podem deixar de ter muito deteorado os seus fundos. Elle aí vai, tem a V. Ex.ª por Parente, e Amigo, e Protector, e tudo se remediará, e o seu merecimento será premiado, porque o nosso Augusto Soberano se não ha de esquecer de fazer justiça.

Tendo sido ferido na cabeça numa das batalhas mais famosas da Guerra Peninsular, Pinto considerou possivelmente que seria uma oportunidade para se apresentar a sua Alteza Real o Príncipe Regente e pedir que se lhe faça justiça. O coronel Pinto vai obter exatamente o que pretende no Rio de Janeiro, uma espécie de debutância na corte, com a proteção do seu primo D. António, ministro do reino no Brasil. A corte está fora de Portugal há já seis anos e apresentando-se um verdadeiro heroi da Guerra europeia, este é recompensado. No aniversário da rainha D. Maria, a 12 de outubro, Sebastião Pinto é promovido a brigadeiro, obtendo o avanço que pretendia.

Já Sebastião Pinto navegava no mares do Atlântico sul, na sua “estrada da honra”, em direitura ao Brasil, o exército português em operações, fora do país desde maio de 1813, celebra a rendição de Soult, o fim da Guerra Peninsular e o exílio de Napoleão em Elba e começa a percorrer a sua estrada do triunfo de regresso à pátria. 

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Estado Maior: Álvaro da Costa de Sousa de Macedo


O tenente coronel ÁLVARO DA COSTA DE SOUSA DE MACEDO nasceu no Palácio dos Viscondes de Mesquitela, na Calçada do Combro, em Lisboa, a 22 de Agosto de 1789. Era filho de D. José Francisco da Costa de Sousa e Albuquerque, 2.° visconde de Mesquitela, Armador Mor do Reino, e de Maria José de Sousa Macedo, 2.ª viscondessa de Mesquitela.

Alista-se a 5 de Agosto de 1809 no Regimento de Artilharia n.º 4, no Porto, passando, dois meses depois, a 24 de Outubro, ao Regimento de Infantaria n.º 6, na mesma cidade, como Alferes da 5.ª Companhia. No final do ano, a 29 de Dezembro, passa à 2.ª Companhia de Granadeiros do regimento.

A 29 de Novembro de 1810, é promovido a tenente e nomeado ajudante de ordens do coronel Wiliam Moundy Harvey. Este oficial, do mesmo regimento de Álvaro, comandava a brigada portuguesa constituída dos regimentos de infantaria n.º 11 e 23.

Participa na batalha de Albuhera, em Maio de 1811, onde a sua brigada trava brilhantemente cavalaria francesa em linha. Recebe posteriormente a Cruz de Distinção da batalha, outorgada por Espanha.

Em 1812, é ferido na tomada de Badajoz, juntamente com o seu general e o major da Brigada Thomas Peacocke. Um mês depois, a 5 de Maio, é promovido a capitão.

Em 17 de Agosto de 1813, após a morte do seu general, passa a capitão da 2.ª Companhia de Granadeiros, do Regimento de Infantaria n.º 23.

A 27 de Abril de 1814 é promovido a sargento mor do Regimento de Infantaria n.º 11, com antiguidade de 17 de Fevereiro, após ter sido “encarregado de appresentar a Suas Excellencias os Senhores Governadores do Reino os despachos do lllustríssimo e Excellentíssimo Senhor Marechal General Duque da Victoria, relativo ás acções que houverão desde 14 do referido mez de Fevereiro até 1 de Março". Pelo seu serviço durante a guerra, recebe a Cruz da Guerra Peninsular, 1.ª classe, por 5 campanhas.

A 24 de Junho de 1815, com 25 anos de idade, é promovido a tenente coronel e nomeado deputado do Ajudante General da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, embarcando para o Brasil, em Setembro desse ano, onde serve durante a campanha. A 4 de Julho de 1817 é promovido a coronel.

Após a campanhas do sul do Brasil, é promovido a brigadeiro a 26 de Março de 1821, recebendo o grau de cavaleiro da Ordem da Torre e Espada dois meses antes, a 22 de Janeiro. É o último comandante da Divisão dos Voluntários Reais, assim como Capitão General da Província Cisplatina, quando Carlos Frederico Lecor toma o serviço brasileiro, em Setembro de 1822.
A 18 de Novembro de 1823, após um conflito de um ano entre as forças portuguesas e brasileiras, assina um compromisso com Lecor e as forças portuguesas abandonam Montevideu em Março do ano seguinte. Pelos seus serviços, recebe a Cruz de Ouro de Montevideu.

Já em Portugal, torna-se o governador da Praça de Setúbal em 1824, sendo, em 1828, o encarregado interino do Governo de Armas da província do Minho. 
Em 1830, torna-se o Capitão General e governador da Ilha da Madeira até ao fim da Guerra Civil, sendo promovido a marechal de campo a 2 de Janeiro de 1832. A 26 de Outubro de 1833, é feito conde da Ilha da Madeira e promovido no mês seguinte a tenente general (21 de Novembro).

Após o final da guerra civil, exila-se em França, onde falece em 1835.