sábado, 2 de dezembro de 2017

Na Estrada de Montevideu


No final de 1814 foi mandada aprontar uma divisão de voluntários, a ser composta de pouco menos de 5000 militares das três armas, com o objetivo de intervir no sul do Brasil. Este blogue é uma humilde contribuição para o conhecimento da história da Divisão de Voluntários Reais do Príncipe, e depois d'El-Rei, entre 1815 e 1824, assim como das tropas da Capitania do Rio Grande.

A campanha de 1816 foi um esforço conjunto de mais unidades do Exército do Brasil e de Portugal num teatro de operações que ia desde a costa atlântica à costa do rio Uruguai, com quatro colunas distintas.

Campo de D. Helena, Praia Grande, 13 de Maio de 1816 (J. B. Debret, PInacoteca S. Paulo)


AS BATALHAS
As ações, sítios e batalhas da campanha, com ligação aos artigos disponíveis sobre elas, com ênfase forte nos memorialistas.
AS BIOGRAFIAS
Em constante atualização, aqui pode encontrar ligações à biografia de alguns dos militares, portugueses e federais.
OS MOMENTOS
Os artigos sobre momentos que não envolvem combate.
OS VOLUNTÁRIOS
Listas e caracterização dos militares da Divisão dos Voluntários Reais.
AS TÁTICAS
Os artigos predominantemente da análise tática militar.






Editor: Jorge Quinta-Nova [mail]

sábado, 11 de novembro de 2017

Entrada em Montevidéu, 20 de Janeiro de 1817


Ao romper do dia 20 de Janeiro de 1817, pelas seis horas, toda a Divisão de Voluntários Reais assim como algumas tropas do Exército do Brasil formaram para que os seus comandantes lhes passassem as competentes revistas. 
Desde a tarde do dia anterior que esperavam no Saladero del Seco, 9 km a oeste da praça, logo após o seu general em chefe, Carlos Frederico Lecor, ter acertado os termos de rendição com emissários do Cabildo que se apresentaram em Pando. 

Após quase 6 meses de marchas e acampamentos, desde a ilha de Santa Catarina, a mais de 1000 quilómetros de distância, até este momento, todos usam os melhores uniformes, no maior garbo e asseio, e todos se preparavam para cumprir o maior objetivo de toda a campanha, Montevidéu, aquilo que os trouxe à América.



Cerimonial de entrega da praça

Carlos Frederico Lecor
Às nove horas da manhã, toda a Divisão de Voluntários Reais e demais forças, do exército do Brasil (vide ‘Ordem de Batalha’ em baixo), se perfilam perante as muralhas, junto à Porta Norte, a entrada principal da cidade. Por essa mesma altura, os membros do Cabildo, o conselho municipal, Juan de Medina, Felipe Garcia, Agustin Estrada, Lorenzo J. Perez e Jerónimo Pio Bianqui, e demais corporações da cidade, entre muito povo curioso, encaminham-se para a porta norte da cidade, onde encontram o general português.  O pintor uruguaio Gilberto Bellini captura esse momento, mostrando a pompa e circunstância, pese embora ser obra feita 100 anos depois dos acontecimentos.

Solenemente, Lecor perguntou se o Cabildo tinha algo a expor antes que ele entrasse na praça. Apresentou-se o síndico procurador geral, Jerónimo Pio Bianqui, em nome de todos, defendendo a necessidade de sufocar a “exaltación de las passiones” e acabar com os insultos que foram feitos pelos revolucionários à cidade. De acordo com Francisco Bauzá, Lecor respondeu que “estaba muy bien” e que iria levar essas preocupações a sua Majestade Fidelíssima.
Logo em seguida, Bianqui fez a entrega das chaves da cidade, pedindo que, sendo necessário, as retorne apenas e só ao Cabildo, que é quem as entrega:

El Exmo. Cabildo de esta Ciudad por medio de su Sindico Procurador General hace entrega de las llaves de esta Plaza á S. M. F. (que Dios guarde) depositandolas com satisfacion y placer, en manos de V. E. suplicandole sumisamente tenga la vondad de hacerle el gusto que en qualquier caso ó ebento que se vea en la necessidad de ebaquarla no las entriegue á ninguna otra autoridade ni potencia, que no sea el mismo Cabildo[...]

Bianqui conclui, indicando que o Cabildo espera que “un General que ha mostrada tanta generosidad á todos los Pueblos del tránsito [...] no se negará consederle esta suplica”. Bianqui foi, como veremos, na segunda parte desta postagem, uma figura fundamental na gestão dos acontecimentos. Tendo Barreiro retirado com os 800 homens da guarnição na noite de 18 para Paso del Cuello, a norte de Canelones, é ele que faz o Cabildo agir, na manhã de 19, da única forma que pode, a rendição, pedindo o razoável aos portugueses. Não há tropas, mas a cidade permanece, o comércio e a navegação devem continuar.

Sob o Pálio

Igreja Matriz (hoje Catedral Metropolotina)
Entregues as chaves e feitos os cumprimentos, os maiores da cidade guiaram o general Lecor, “en la forma acostumbrada”, debaixo do pálio, entre vivas e aclamações entusiásticas, à Igreja Matriz onde foi entoado um solene Te Deum. Após a cerimónia religiosa, a comitiva deslocou-se às Casas Capitulares, onde o Cabildo estava sediado, e onde Lecor tomou a posse da cidade.
O memorialista Lobo Barreto, então tenente de caçadores, reflete sobre a natureza dos vivas que eram dados a Lecor e a D. João VI, principalmente por parte dos espanhóis europeus:

[...] um regozijo extraordinario se mostrou em toda a Povoação, e muito principalmente nos Hespanhoes Europêos, que se persuadião que estas tropas de acordo com o gabinete de Madrid ião revendicar os direitos do seo Rei, e livrando-os da perseguição dos filhos do paiz, proteger as vinganças e caprichos dos seos primeiros colonos; do que bem breve se desenganarão [...].

Versão a cores da obra de Gilberto Bellini

Segundo Francisco Bauzá, não houve apenas vivas, tendo as autoridades alguma dificuldade em conter alguns “morram os traidores, os portugueses e os aportuguesados” que se ouviam. Segundo este autor, descendente de Rufino Bauzá, apoiante de Artigas e protagonista oriental dos dias anteriores, houve algumas agressões pessoais e o falatório de outras mais generalizadas para o futuro. De facto, e apesar das derrotas que os orientais sofrem em India Muerta e Catalán, a Banda Oriental está longe de estar controlada e a Liga de los Pueblos Livres, de Artigas, está ainda longe de submetida.

O Pavilhão Portuguez

Após todas estas cerimónias, as tropas portuguesas desfilaram ainda pelas ruas principais da cidade, exibindo o seu garbo marcial e os seus uniformes castanhos distintos, que tanto tinham impressionado em Lisboa e no Rio de Janeiro. Como último ato do dia, içou-se a bandeira portuguesa na cidadela, ao que se seguiram salvas e repique de sinos. 
Lobo Barreto informa-nos que, com a exceção da Coluna da Vanguarda que ficou aquartelada na cidadela, todas as forças portuguesas se foram postar a cerca de 5 kms das muralhas, montando postos avançados. Montevidéu pode ter sido tomada, mas a Banda Oriental está longe de ser dominada.

LEIA TAMBÉM:

* * *

Ordem de ‘Batalha’
(de acordo com DUARTE: 1984)

Divisão de Voluntários Reais
1.ª Brigada de Infantaria:
- 1.º Regimento de Infantaria ... 1,040
- 1.º Batalhão de Caçadores ... 712
2.ª Brigada de Infantaria:
- 2.º Regimento de Infantaria ... 1,076
- 2.º Batalhão de Caçadores ... 615
Cavalaria ... 756
Artilharia ... 233
(Total de 4,432 efectivos)

Unidades Brasileiras
Batalhão de Infantaria do Rio Grande ... 220
Esquadrão de Cavalaria do Rio Grande ... 113
2 Esquadrões da Legião de São Paulo ... 54
2 Esquadrões da Milícia do Rio Grande ... 196
Companhia de Artilharia a Cavalo ... 62
Guerrilhas do Rio Grande ... 17
(Total de 662 efectivos)

Grande total de 5,094 efectivos

* * *

Extrato das memórias de João da Cunha Lobo Barreto

[…]

ENTRADA NA PRAÇA DE MONTEVIDÉO
No dia 20 de Janeiro ao romper do sol se formarão todos os Corpos no maior asseio possivel afim dos seos respectivos Commandantes lhes passarem as competentes revistas, e depois de reunida toda a columna nos posemos em marcha para a dita Praça, onde entramos ás 9 horas da manhã do mesmo dia; um regozijo extraordinario se mostrou em toda a Povoação, e muito principalmente nos Hespanhoes Europêos, que se persuadião que estas tropas de acordo com o gabinete de Madrid ião revendicar os direitos do seo Rei, e livrando-os da perseguição dos filhos do paiz, proteger as vinganças e caprichos dos seos primeiros colonos; do que bem breve se desenganarão como logo diremos. O General em Chefe foi recebido pelo Cabildo (Senado da Camara) debaixo do Palio, assim conduzido á Matriz, aonde se entoou Te-Deum; depois as tropas percorrerão algumas ruas do centro da cidade; e á excepção da columna da vanguarda que se aquartelou na Cidadella, forão formar uma linha a uma legoa da cidade, cobrindo os seos suburbios todos com postos avançados. O General Pinto foi nomeado Governador da Praça, e o corpo de vanguarda desfeito no outro dia.
No dia seguinte se arvorou na Cidadella, e mais fortes da praça o Pavilhão Portuguez; a cuja vista os Hespabhoes ali residentes murmurarão, e desde logo supposerão que a usurpação daquelle territorio é que ali nos tinha levado; os filhos do paiz, que até então gemião sobre o tirano jugo de José Artigas, uns porque tinhão sido por elle perseguidos, e outros querendo figurar na ordem das cousas, ou tirar vantagem della; o caso é, que se mostravão muito satisfeitos, ou ao menos assim o apparentavão, rendendo seos respeitos ao General em Chefe, que a todos habitantes acolhia com summa consideração e affabilidade, conservando todas as authoridades que se achavão constituidas, e preferindo para os empregos que se hião creando os Americanos, aos Europêos, de cuja politica estes muito se ressentião, porem mais escandalisados dos filhos do paiz, antes querião soffrer semelhante humilhação, do que de novo lhes serem sugeitos, visto que seo desenfreamento, lingoagem, e regozijo, no acto da nossa entrada, mais tinha incitado a aquelles, que de certo lhe tomarião novas e restrictas contas se as nossas tropas de ali levantassem.

* * *

Fontes
- BARRETO, João da Cunha Lobo, “Apontamentos historicos a respeito dos movimentos e ataques das forças do comando do general Carlos Frederico Lecor, quando se ocupou a Banda oriental do Rio da Prata desde 1816 até 1823 (…)”, in:Revista do IHGB, vol. 196, Julho-Setembro 1947, pp.4-68.
- BAUZA, Francisco, História de la Dominación Española en el Uruguay (tomo VI), Col. Clásicos Uruguayos, Ministério de Instrucción Pública: Montevideo, 1965. 444 pp.
- DUARTE, Paulo de Queiroz, Lecor e a Cisplatina 1816-1828 ( 3 v.), Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 1984.
- ARCHIVO ARTIGAS, tomo XXII

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Ordem de Batalha das Forças Portuguesas



DIVISÃO DE VOLUNTÁRIOS REAIS
Tenente General Carlos Frederico Lecor

1.ª Brigada de Voluntários Reais, Infantaria
- 1.º Regimento de Infantaria ... 1,040
- 1.º Batalhão de Caçadores ... 712
2.ª Brigada de Voluntários Reais, Infantaria
- 2.º Regimento de Infantaria ... 1,076
- 2.º Batalhão de Caçadores ... 615

Cavalaria ... 756
Artilharia ... 233
(Total de 4,432 efetivos)

Unidades Brasileiras da Coluna Principal
Batalhão de Infantaria do Rio Grande ... 220
Esquadrão de Cavalaria do Rio Grande ... 113
2 Esquadrões da Legião de São Paulo ... 54
2 Esquadrões da Milícia do Rio Grande ... 196
Companhia de Artilharia a Cavalo da Corte ... 62
Guerrilhas do Rio Grande ... 17
(Total de 662 efetivos)

Grande total de 5,094 efectivos (a 20 de Janeiro de 2017)


COLUNA DA VANGUARDA
(Destacada da Coluna Principal entre Julho e Dezembro de 1816)
Marechal de Campo Sebastião Pinto de Araújo Correia

- 2 esquadrões de cavalaria, DVR 
(tenente coronel José Tovar Albuquerque e sargento mor Duarte Mesquita Correia)
- 4 companhias de granadeiros, DVR
(tenente coronel António José Caludino Pimentel)
- 1 obús de 5,5 polegadas, DVR
(1.º tenente Gabriel António Francisco de Castro)
- 4 companhias de caçadores (três do 2.º batalhão e uma do 1.º), DVR 
(sargento mor Jerónimo Pereira de Vasconcelos e sargento mor Andrew McGregor) (2 delas emprestadas no dia 17/11 pelo 2.º Batalhão de Caçadores, a adicionar às duas já na Vanguarda)
- 2 esquadrões de cavalaria da Legião de Voluntários Reais do Rio Grande & 2 esquadrões de cavalaria da Legião de Tropas Ligeiras (ou de São Paulo)
(sargento mor Manoel Marques de Sousa).


COLUNA DO CENTRO
(Destacada da Coluna Principal entre Outubro e Dezembro de 1816)
Brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto

- 2 esquadrões, Legião de Voluntários do Rio Grande
- Destacamento, Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande
- 2 companhias de infantaria (DVR) (maj José Pedro de Mello)
- Cavalaria (DVR) (ten cor António Manuel de Almeida Morais Pessanha)
coronel Antonio Feliciano Telles de Castro e Aparicio
- Companhia de Guerrilhas
- Alguns Milicianos da  Fronteira do Rio Grande;
uma Bataria de quatro Peças de Calibre 6. de Artilharia da Corte


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EXÉRCITO DA CAPITANIA DO RIO GRANDE DE SÃO PEDRO
Marquês do Alegrete
Tenente General Joaquim Xavier Curado

- Regimento de Dragões do Rio Grande (Cap. Sebastião Barreto Pinto)
- 2 Esquadrões de Cavalaria, Legião de Voluntários Reais (S. Paulo) (Cap José da Silva Brandão)
- 2 Esquadrões de Cavalaria, Regimento de Milícias de Porto Alegre  (Cor. Bento Correia da Câmara)
- Regimento de Cavalaria de Milícias do Rio Pardo  (Brig. João de Deus Mena Barreto)
- Cavalaria, Esquadrões de Milícias de Entre Rios  (TenCor José de Abreu)
- 1.º Batalhão de Infantaria, Legião de Voluntários Reais (S. Paulo)
- 2.º Batalhão de Infantaria, Legião de Voluntários Reais (S. Paulo)
- 3 Batarias, Artilharia, Legião de Voluntários Reais (S. Paulo), 4 obuses (SargMor. Francisco Castro Matutino Pitta), 3 peças de calibre 6 (Cap. José Pinto de Carvalho), 2 peças de calibre 3  (Ten. António Soares) & 2 peças de calibre 3 (2.º Ten. José Joaquim da Luz)


GUARNIÇÃO DE S. BORJA
Brigadeiro Francisco das Chagas Santos

- Companhia de Granadeiros, Regimento de Infantaria de S. Catarina (Capitão José Maria da Gama Lobo);
- Esquadrões de Cavalaria de Milícias Brancas;
- Esquadrões de Cavalaria de Milícias Guarani.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Exército do Brasil: José de Abreu


O tenente coronel JOSÉ DE ABREU nasceu em 1770 em Maldonado (Banda Oriental), filho de João de Abreu e de Ana Maria de Souza, colonos riograndenses deslocados para lá em razão da invasão espanhola do Rio Grande.

A 28 de Dezembro de 1784, retornando à província dos seus pais, assenta praça como soldado no Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande, sendo promovido a cabo de esquadra em 1794. 

Quatro anos depois, em 1798, é cadete porta estandarte no Regimento de Dragões do Rio Grande. A 25 de julho de 1808 é promovido a tenente. Ao início da campanha de 1811/1812, era tenente da 7.ª companhia do seu regimento e esteve inicialmente em Missões e depois na fronteira do rio Quaraí. 

Após o fim desta campanha, foi promovido a capitão, com antiguidade de 11 de junho de 1811. É promovido a tenente coronel a 20 de janeiro de 1813 e nomeado comandante dos Esquadrões de Cavalaria Miliciana de Entre Rios (distrito entre os rios Quaraí e Ibicuí).

Em 1816, com 45 anos, comanda, com grande distinção, as forças portuguesas nas batalhas de São Borja e Arapey, repelindo na primeira uma invasão oriental por Andrès Guaçurary y Artigas e derrotando na segunda o próprio José Artigas no seu quartel general de campanha. Teve ainda um papel importante nos instantes finais da batalha de Catalán, um dia depois de Arapey.



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João Simões Lopes Neto (1865-1916), escritor brasileiro, dá-lhe o epíteto de 'Anjo da Vitória', nos seus Contos Gauchescos, de 1912.

Saiba mais sobre José de Abreu no excelente blogue "Eu, tu, eles: passado, presente, futuro":
- José de Abreu (i) : Repositório [aqui]

domingo, 17 de setembro de 2017

Tenente Luiz Faiada, um oficial de Lanceiros Guaranis


Remexendo vasta documentação, é rara a vez em que um militar guarani  é indicado por nome nos relatórios oficiais por mérito e feitos em campanha. 
Ao esquadrão de Lanceiros Guaranis destacados no comando de José de Abreu, por exemplo, nunca é atribuído um comando a um guarani ou este não é mencionado nunca.

O Sentinela, por Breresa
Alguns oficiais das Milícias das Missões são mencionados porém por terem desertado à causa federal e republicana, comandada ali por Andrés Artigas, "Andresito" ou "Artiguinhas", mas apenas encontrei uma menção por mérito e ainda assim numa fase já recrudescente da campanha, com Artigas fraco e na defensiva. 



Tenente Luís Faiada
Felizmente, o tenente Domingos legou uma relação dos eventos da Campanha Além do Uruguai, realizada entre Janeiro e Março de 1817, em que os portugueses invadem a província de Corrientes. A relação nomeia este oficial, tenente Luís Faiada, guarani, numa nota final da sua relação, relativamente a um combate decorrido no início da campanha, a 19 de janeiro de 1817, no passo da Cruz, próximo a Yapeyú:
N. B. No encontro da passagem de Luís Carvalho com o Capitão Vicente [Tiraparé] de Naturais este saiu baleado escapando de morrer por negar fogo a pistola do Tenente Luís Faiada dos nossos Guaranis que este o seguiu pelo meio da rusma dos garruchos a fim só de matar o dito Vicente, porém tendo a infelicidade da pistola lhe negar fogo por causa de um papel que tinha no fogão, dando volta ao seu cavalo meio rodou em um cupí e como estava muito longe da nossa gente e muito no centro da garruchada gritou logo o Vicente que o matassem com as lanças o que puseram em obra, porém o dito Faiada se pôs logo imediatamente a pé com a sua espada na mão e se defendeu das lanças até que chegou socorro da nossa gente, não deixando de ficar ferido de uma lançada na coxa a qual chegou a criar bicho(s) sem este dito tenente Faiada nunca querer dar-se por doente, e foi continuando sempre em todas as diligências que fez o tenente Luís Carvalho; nesta ação tomou-se um morteiro o qual traziam montado em um armão fincado em um cepo, o qual no primeiro tiro que fizeram saltou do dito armão pela boa segurança em que vinha pois era um armão feito por eles.
Andres Artigas.
O tenente Domingos (tudo leva a crer ser Domingos José das Neves dos esquadrões de Voluntarios Reaes de Entre Rios, comandados pelo tenente coronel José de Abreu), fala não só dos feitos de coragem e heroísmo pessoal de Luís Faiada, mas que estes são motivados pessoalmente pela vingança sobre um capitão Vicente, desertor. 
Este Vicente é Vicente Tiraparé, conforme é nomeado nas listas de oficiais dos esquadrões guaranis organizados em 1811, como comandante da 1.ª companhia. Tiraparé e toda a sua companhia vêm a desertar e aderem à causa republicana de Artigas.


Oficial Guarani Recomendado
O brigadeiro Francisco Chagas dos Santos, no final da sua vigorosa campanha em Corrientes, saqueando e destruíndo, de forma a completar os sucessos na área de Santana do Livramento e Catalán [leia mais aqui], refere-se a Luís Faiada, não pelo nome, mas pela notícia de um miliciano guarani com um ferimento em todo semelhante. Parece-me claro que é Luís Faiada, a quem Chagas do Santos se refere, mas tendo em vista o que ele fez, possivelmente uma menção ao nome pudesse ser o mínimo...

Chagas do Santos, numa carta muito extensa ao comandante de Fronteira marechal de campo (hoje major general ou general de divisão) Joaquim Xavier Curado, refere-se muito brevemente a Faiada:

[...] do tenente Carvalho cuja retirada não deixou de ser assaz demorada, em razão de conduzir 3 carretas com alguma herva mate, 740 cavallos, 130 mulas, e 308 rezes de gado vacuum, havendo deixado recommendado em uma casa conhecida um miliciano guarani, que quebrou uma coxa.
O nome não é referido, mas a 'recomendação' em que foi deixado a recuperar numa casa 'conhecida', possivelmente impossibilitado de viajar, e a natureza do ferimento, que coincide em Domingos e em Chagas Santos, indica-nos que se trata do corajoso tenente de milícias.

Luís Faiada não aparece como oficial na organização inicial das oito companhias de milícias guaranis, seis anos antes em 1811, pelo que é de supor que tenha sido feito oficial posteriormente, mesmo até sabendo que toda uma companhia (pelo menos) desertou para a causa de Artigas, abrindo decerto vagas para promoção.

Guaranis anónimos
É bem vincada e visível a descriminação (como se diz hoje) pela qual um oficial português, guarani puro, não chega a ser nomeado pelo nome, ainda que seja nomeada a particularidade de o deixar a recuperar de ferimentos, recomendado, em Corrientes. Isto em carta ao comandante das Tropas do Rio Grande em operações.

As milícias guaranis não eram vistas à mesma luz que as restantes milícias brancas e caboclas da zona de Missões e Entre Rios, apesar de de estarem tão comprometidas militar e politicamente com a autoridade real portuguesa e com a segurança da sua terra.
Em 1811, havia em Missões oito companhias de milícias guaranis, 'naturaes', e três companhias de 'brasileiros' residentes em Missões (a primeira delas comandada por um dos heróis de 1801, que conquistaram Missões, Gabriel Ribeiro de Almeida [memórias]).


Lanceiros Originais
As milícias no Exército do Brasil eram divididas por 'raça', desde o século XVII, e a sua posição na hierarquia militar era exatamente a mesma que a que detinham socialmente no mundo civil, mas exclusivamente o meio de promoção social mais eficaz para quem combatesse bem.

Ainda que socialmente na base do Exército do Brasil, os guaranis eram presença assídua na vanguarda das tropas do Rio Grande em 1816 e 1817, pelo seu conhecimento do terreno e adaptação às condições locais. José de Abreu usa-os sempre na sua vanguarda, assumindo funções que modernamente diríamos de reconhecimento. 
São eles o primeiro verdadeiro uso moderno de Lanceiros tanto em Portugal como no Brasil. Oficialmente, apenas em 1832, é que é levantado um regimento de Lanceiros, ainda hoje ativo (Lanceiros 2); quanto no Brasil, são então primeiros inovadores, os guaranis da províncias das Missões orientais, oficialmente em 1811.

A forma tradicional guarani de fazer a guerra mantinha-se, mas no serviço do rei português. Não por acaso, o teatro de operações de Missões foi o mais sanguinolento e feroz, tanto a nível militar como civil, devido à enorme politização das sete Missões Orientais, portuguesas apenas desde 1801.
Quando Andres Artigas monta cerco a S. Borja, a sua primeira proposta de rendição da vila pelo portugueses, a 21 de setembro de 1816, é clara em que todas as Missões, orientais e ocidentais devem ser únicas sob a égide da Liga de Povos Livres, de Artigas.

Reivindicação
Fica então contada, no que se pôde, a história do tenente Luís Faiada, em dois breve traços do tempo. Não descobri mais nada sobre ele, nomeadamente se retornou a Missões orientais e o que fez na vida, inclusive se pereceu eventualmente devido aos seus ferimentos. 

Se o espírito da época diminuía os guaranis, nós agora não podemos senão evidenciar feitos militares, sejam eles de quem for. Hoje em dia, este tenente receberia uma condecoração de coragem, por arrojo face ao inimigo com desprezo da sua própria vida; é justo então que o mérito seja pois honrado.

Imagens
- Ruínas da igreja de S. Miguel, nas Missões orientais.
- "O Sentinela", de Beresa, 1991.

Fontes
- ARQUIVO HISTÓRICO DE ITAMARATY, Ministério das Relações Exteriores: AHI-REE-00944: “Rio da Prata: Documentos sem importância – 16 folhas, 1811-1818”.
- LARA, Diogo Arouche de Moraes, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista Trimensal de História e Geografia, n.º 26, Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Julho de 1845, pp. 125-328.
- PORTO, Aurélio, História das Missões Orientais do Uruguai - Segunda Parte (2.º Edição), Porto Alegre, Livraria Selbach, 1954. [Ler]

Biografia: brigadeiro Francisco de Chagas Santos
Biografia: marechal de campo Joaquim Xavier Curado

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Saldanha, o alferes de veteranos e o combate de Toledo (5 de Maio de 1817)


A história seguinte refere-se a um episódio descrito na História do Marechal Saldanha, de D. António da Costa, publicada em 1879, em que o autor descreve um encontro em 1837 entre o alferes de veteranos José Pires e o marechal, então, marquês de Saldanha, D. João Carlos, levando à lembrança de eventos em 1817 onde as suas vidas se cruzaram de forma dramática, de uma maneira que apenas o combate permite. 

Esta narração, em conjunto com as fontes primárias, permite-nos um pequeno vislumbre sobre o que aconteceu a 5 de Maio, quando a retaguarda portuguesa foi atacada, durante a segunda Sortida Portuguesa, que decorreu entre 3 a 6 de Maio de 1817. Nessa altura. José Pires era 2.º sargento da cavalaria, e Saldanha era Coronel comandante do 1.º regimento de infantaria, ambos da Divisão de Voluntários Reais.

Mais especificamente, o combate de Toledo, onde estas duas vidas se entrelaçaram para a eternidade, ocorreu a 5 de Maio, quando as forças portuguesas iniciavam o retorno já a Montevideu, após forragearem na área, com um comboio de trigo.
A retaguarda deste comboio foi atacada pela vanguarda oriental, comandanda muito provavelmente por Juan Lavalleja, subordinado a Frutuoso Rivera. 
A retaguarda portuguesa era constituída por tropas do regimento de Saldanha, o 1.º de Infantaria, e estava comandado sargento mor João Joaquim Pereira do Lago. Eram por volta de 150 homens de infantaria e cavalaria.

Em reação, Silveira Pinto envia um reforço das duas armas à retaguarda atacada. Sendo o seu regimento sobre ataque, Saldanha, estando no grosso, com o brigadeiro Bernardo da Silveira Pinto (o comandante de toda a sortida), acaba por ir  também apoiar os seus homens, aos primeiro sinais.


Toledo, Uruguai, na saída oeste, próximo de onde ocorreu o ataque oriental sobre a retaguarda portuguesa.


A história relatada por D. António da Costa é, porém, mais necessária nesta altura, começando em 1837 e retrocedendo depois 20 anos, às coxilhas do Uruguai.

Certa manhã de 1837, por occasião da revolta denominada dos Marechaes, almoçava em Penamacor o marechal Saldanha com os officiaes do seu estado maior, quando lhe anunciaram que um alferes de veteranos lhe pedia licença para o comprimentar.
- Entre o alferes de veteranos.
O alferes entrou. Vinha com o braço direito amputado.
- O senhor marechal já não me conhece?
O marechal fitou n'elle os olhos por momentos, crescendo-lhe successivamente a curiosidade.
- Não me lembro.
Por sua vez cravou n'elle os olhos o alferes.
- Pois não se lembra o sr. Marechal, d'aquella carga em Montevideu, em que lhe mataram o cavallo, e em que um dos seus sargentos ficou sem um braço? Sou eu aquelle sargento.
Os bravos e as palmas do estado maior do marechal não deixaram continuar a narativa do veterano. Que sucedêra? N'essa propria manhã, durante a marcha de Castello Branco para Penamacor, viera Saldanha contando aos seus ajudantes aquella mesma carga e o facto do sargento mutilado. Imagine-se o que ali não foi entre aquelles rapazes, à notável coincidencia. O alferes repetiu então nos pontos capitaes a narrativa de Saldanha, mal sabendo que publicava a segunda edição. 

Fôra o caso: marchavam um dia por aquellas planicies sem termo. A alguma distancia um piquete cobria a retaguarda. Saldanha olha para trás e vê relampejarem as espadas que o piquete desembainhára. Suspende-se. Espadas que relampejam, signal é do inimigo. Volta para a retaguarda apressado e chega até o piquete. É a cavallaria de Artigas que lhes vem na pista. Saldanha não espera por mais nada. Na fórma do costume lança logo o cavallo a galope, a toda a brida. Segue-o a sua cavallaria. Sendo o primeiro que chegou, arremessa-se contra a cavallaria contraria. Cae-lhe morto o finissimo cavallo que montava. Está a pé, elle só, cercado de cavallaria inimiga; a investida é furiosa, rodeiam-no, arremettem, mas Saldanha defende-se de uns, ataca outros, fere outros também, a sua valentia, coroada com a felicidade da sua estrella, de todos zomba, parece invulnerável, quasi prodigio parece. Chegam os mais velozes dos seus, Vêem-no a pé, luctando contra todos, um sargento se apeia logo, offerece-lhe o cavallo, monta Saldanha repentinamente, uma espadeirada arremettida contra ele, decepa o braço do sargento; a carga chega ao auge, vacillam os orientaes ao impeto incessante dos portuguezes, retrocedem, debandam, pertence o campo aos nossos, e, com tal exemplo de commandante, que militar dos seus não venceria também? Era aquelle sargento mutilado, que ao almoço do marechal em Penamacor, vinha saudar o guerreiro de Montevideu. 

António da Costa, História do Marechal Saldanha (tomo I), Lisboa, Imprensa Nacional, 1879. p.93-94

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LEIA:
A Segunda Sortida Portuguesa e a Ação de Toledo (3 a 6 de Maio de 1817)

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O Encontro de Irmãos de Armas e a Realidade
O alferes de veteranos referido no texto parece ser o então 2.º sargento José Pires, conforme se pode ver numa carta de Carlos Frederico Lecor ao marquês de Aguiar (transcrita no artigo cuja ligação indico atrás), com base nas informações do brigadeiro Silveira Pinto, comandante da sortida.

"O brigadeiro Silveira recomenda o 2.° Sargento José Pires do mesmo Regimento de Cavalaria, o qual portando-se muito valerosamente no dia 5 foi gravemente ferido, e sofreu a amputação de uma mão, e tendo a bem disto muita boa conduta, o recomendo a Sua Majestade para ser promovido a Alferes, podendo passar à Infantaria, onde pode fazer o serviço.   
O coronel do 1.° Regimento d'Infantaria João Carlos de Saldanha faz os maiores elogios ao brigadeiro Silveira, pois achando-se junto ao mesmo Brigadeiro, quando o esquadrão do capitão Abreu carregou o inimigo, correu à rectaguarda, envolveu-se com aquele esquadrão, e teve o seu cavalo morto."

Imagem (topo)
- S. Ex.ª Marquez de Saldanha, Marechal do Exercito (1835), in Biblioteca Nacional Digital [aqui]

Bibliografia
COSTA, António da, História do Marechal Saldanha (tomo I), Lisboa, Imprensa Nacional, 1879;

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Memórias: Aquela Montevideu, o que ali se fez! (duque de Saldanha)



"Quando, já ancião e no remanso do lar, lhe fallava algum parente ou amigo nos seus feitos da guerra liberal de 1833, Saldanha escutava modesto as façanhas que lhe recordavam, sorria-se, esfregava as mãos, e ouvia-se-lhe murmurar, como simples echo do seu pensamento: «Mas aquella Montevideu! O que alli se fez!» E calava-se, tornava-se-lhe serio o rosto, e logo despertando do seu entresonho, como que tendo saído das planícies montevideanas onde o pensamento o transportára por momentos aos seus verdes anos, aos seus companheiros de armas jovens como elle e n'aquelle instante mortos já todos, levava as mãos aos cabellos e dizia então a valer, para os que o rodeavam, como se involuntariamente o não houvera já dito: “Aquella Montevideu!”

António da Costa, História do Marechal Saldanha (tomo I), Lisboa, Imprensa Nacional, 1879. página 89.

Imagem (ao topo)
- A Baía de Maldonado


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“[...] diz o seu principal biógrafo [D. António da Costa], que esse período da sua vida militar deixou fundos sulcos na memória do futuro Marechal; na velhice, recordava com mais interesse os episódios de Montevidéu do qualquer outra campanha. Quando falava deles “toda a fisionomia se lhe iluminava...” contou depois Bulhão Pato."

Belisário Pimenta, O Marechal Saldanha: sua Vida Militar, suas Ideias e Métodos (separata da “Revista da Universidade de Coimbra”, vol. XVIII), Coimbra, s/ed, 1957.