17/07/2022
Relação Nominal dos Oficiais da Divisão que tem desertado para atraiçoarem a sua pátria, e seguirem a causa do Governo do Rio de Janeiro (Janeiro 1823)
13/02/2022
Memórias e Reflexões sobre o Rio da Prata, extraídas do diário de um oficial da marinha brasileira (Jacinto Roque de Senna Pereira, 1849)
A 16 de Fevereiro de 1850, a quatro meses de falecer aos 66 anos, o chefe de divisão Jacinto Roque de Senna Pereira entregou ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do qual era sócio, quatro folhetos impressos contendo as suas Memórias e Reflexões Sobre o Rio da Prata. Na entrega, o antigo ministro da Guerra (1839) e da Marinha (1840) reflete criticamente sobre a importância da sua obra: "Sei que não tem ella […] valor intrinseco, mas poderá talvez servir de auxiliar ou reportorio aquelle d'entre os nossos sabios que se dedique a escrever detalhadamente a historia do Imperio Brazileiro".
Nascido em Lisboa em 1784, Senna Pereira cursou Matemática na Real Academia de Marinha. Em 1802, embarcou como voluntário no bergantim Real João, servindo na Esquadra do Estreito, no Mediterrâneo. A 18 de março de 1811, foi promovido a segundo-tenente, iniciando assim o seu percurso de oficial da marinha que terminou como chefe de divisão (equivalente sensivelmente a contra-almirante).
Para a compreensão do extrato que apresento, Senna Pereira, como primeiro tenente, foi em 1818 nomeado comandante da escuna Oriental e da esquadrilha naval com que se pretendia entrar no rio Uruguai, com o fim de fazer a tão necessária ligação de Lecor e as forças portuguesas em Montevideu com as forças do Exército do Brasil que efetuavam, desde Março desse ano, uma ofensiva sobre a margem esquerda do rio, sob o comando do tenente general Joaquim Xavier Curado (1746-1830). Os problemas de comunicação eram um dos mais graves problemas das forças portuguesas que invadiam a Banda Oriental, não só pelas vastas distâncias em jogo, mas fundamentalmente pela perturbação que as tropas federais de Artigas causavam neste fluxo de comunicação já de si difícil.
O extrato cobre sensivelmente o período entre a entrada da esquadrilha no rio Uruguai (2.5.1818), sem oposição por parte de Buenos Aires, e a difícil subida do rio, uma área desconhecida para os marinheiros e os oficiais. Descreve o combate do Paso de Vera (3.5.1818), em que a escuna Oriental enfrenta uma bataria de artilharia no lado ocidental do rio. Refere, com algum pormenor, a ligação entre a escuna Oriental e as forças do general Curado, a 13 de Maio, e por último fala das ações tanto terrestres como navais que decorreram entre 15 e 18 de Maio, conhecidas coletivamente como Surpresa do Arroyo de La China, em que Bento Manuel Ribeiro (1783-1855) passou à margem ocidental do rio e destroçou as forças orientais presentes em Perucho Verna, Calera de Barquín e a referida vila do Arroyo de La China (hoje Concepción del Uruguay).
A transcrição foi feita a partir da edição impressa da Revista Militar Brasileira, em 1912, com a modernização da ortografia, assim como a utilização dos nomes originais dos locais em espanhol. Há, no entanto, uma outra edição, um pouco mais completa (tendo uma parte final referente a parte de 1819 e a 1820), publicada em 1931 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, e a partir da qual foi editada uma versão traduzida para castelhano no periódico uruguaio Boletin Histórico, em 1964. O caro leitor que queira ler as versões integrais poderá encontrar algumas ligações ao fim desta postagem.
* * *
MEMÓRIAS E REFLEXÕES SOBRE O RIO DA PRATA, extraídas do diário de um oficial da marinha brasileira (Jacinto Roque de Senna Pereira) e publicadas em 1849. [extrato]
[...]
Duas memoráveis batalhas campais (a de Catalán e a de India Muerta) reduziram o inimigo a deixar o passo franco aos nossos exércitos. A primeira foi ganha gloriosamente pelo exército brasileiro, apesar de surpreendido, em 4 de janeiro de 1817; a segunda dada bizarramente pela vanguarda da divisão de Voluntários Reais no dia 19 de novembro de 1816.
Comandou na ação o exército brasileiro o marquês de Alegrete, capitão-general da província de S. Pedro, que acidentalmente se achava no exército, retirando-se depois para Porto Alegre a 25 de dezembro do mesmo ano, deixando o exército a seu general em chefe Joaquim Xavier Curado, ínclito varão, cujo nome será sempre respeitado e que deu honra e grande credito ao país em que nascera. Era o comandante da vanguarda da divisão de Voluntários Reais de El-Rei o marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia.
O general Curado, enquanto esperava na fronteira a aproximação do exército do general Lecor e as precisas ordens para invadir o território Oriental, aproveitou o tempo para aguerrir seu exército, do que resultaram as vantajosas e assinaladas batalhas de S. Borja, Ibirocaí, Carumbé, Arapeí, Belém e outras, nas quais tanto figuraram os nomes de muitos bravos brasileiros, com especialidade os de José de Abreu, João de Deus Menna Barreto, Joaquim de Oliveira Álvares e Bento Manuel Ribeiro.
O general Curado, atravessando o Estado Oriental, marchou em uma direção quase paralela à do exército do general Lecor, e acampou na margem esquerda do Uruguai.
A divisão de Voluntários Reais entrou em Montevideu no dia 20 de janeiro de 1817, achando a praça abandonada e bloqueada por mar por nossas forças marítimas debaixo do comando do conde de Viana.
E destarte ficaram os dois exércitos separados um do outro por cerca de oitenta léguas.
D. José Artigas e D. Frutuoso Rivera, o primeiro chefe supremo da Republica e patriarca da Federação (2), o segundo seu imediato, tanto em prestígio como em força, puderam entretanto reabilitar-se das perdas ultimamente sofridas nas duas batalhas já indicadas e preparar-se senão para novos, combates decisivos ao menos para uma guerra de recursos; e conhecedores da índole daqueles habitantes, lançaram mão dos mais poderosos meios de os chamar às armas e de os reter com elas, — o da nacionalidade ofendida e o fuzilamento.
Assim conseguiram eles formar fortes guerrilhas e intercetar de tal modo a comunicação entre os dois exércitos que mister foi procurar-se um meio que os pusesse em relação, resultando daí a ideia da organização de uma esquadrilha.
O general Lecor, como capitão-general de mar e terra, havia pedido ao almirante Lobo dois oficiais de marinha e recaiu a escolha em Luís Barroso Pereira [1786 -1826] e Jacinto Roque de Senna Pereira [1784-1850], este natural de Lisboa, aquele de Minas Gerais; Barroso partiu logo para Buenos-Aires como em comissão secreta ao supremo diretor da Republica e Senna Pereira teve a nomeação de comandante da escuna Oriental e da esquadrilha.
Barroso foi distintamente acolhido tanto pelos particulares como pelas pessoas do governo de Buenos-Aires, o que não é para estranhar visto o excelente carácter e instrução daquele oficial e o estado de desordem em que se achava aquela capital.
Nas conferências havidas com Barroso parecia que o governo de Buenos-Aires marchava de acordo com o general Lecor em tudo que dizia respeito à destruição de Artigas e nossa ocupação pacífica ; mas assim mesmo não deixava aquele governo de fixar as bases sobre as quais no futuro poderia levantar-se. firmemente o edifício político que serviria de forte antemural para combater a nossa invasão à mão armada em um território que, apesar de solene declaração de Artigas, Buenos-Aires considerava como parte integrante daquela Republica; neste sentido mandou a Montevideu por vezes os emissários coronel Vedia [Nicolás de Vedia, 1771-1852] e dr. Passos, conservando ali por longo tempo a D. Santiago Vasques [Santiago Vázquez, 1787-1847]; protestando sempre os emissários ao general Lecor, e mesmo o diretor a Barroso, que tal proceder nada tinha de positivo, sendo seu único objeto tranquilizar as províncias do interior, já ciosas por nossa proximidade e pelos continuados triunfos adquiridos por nossas armas.
Pelos mesmos especiosos motivos se dificultou a entrada da esquadrilha no Uruguai pelo Passo da Ilha de Martim Garcia, o que ultimamente se concedeu por se conhecer que de contrário se poderia usar de força.
No dia 2 de maio de 1818 penetrou pela primeira vez no Rio Uruguai a nossa esquadrilha composta da escuna Oriental e das barcas Cossaca, Mameluca e Infante D. Sebastião.
Todos os que iam por práticos dessas embarcações eram tão ignorantes da navegação do rio como qualquer dos comandantes, que pela primeira vez davam vista daquelas paragens de tão agradável perspetiva e tão pitorescas como as que se descobrem na província de S. Pedro do Sul, desde o Itapuã à cidade de Porto Alegre, cujo nome com tanta propriedade lhe foi dado.
A custa de fadigas e perseverantes trabalhos ia-se vencendo a viagem, e pode-se dizer que tal expedição tinha muita semelhança com a empreendida pelos primeiros navegadores que ousaram descobrir os mesmos inóspitos lugares.
Era do dever do comandante da esquadrilha abrir comunicação com o exército do general Curado o mais brevemente possível, e as dificuldades naturais que se iam vencendo e renovando tornavam a viagem de uma morosidade censurável e bem desgostosa.
Como a escuna Oriental e a barca Cossaca encalhavam menos vezes, sem dúvida por nadarem em menos água, deliberou o comandante da esquadrilha subir só com essas duas embarcações, deixando as restantes encalhadas com uma lancha para as auxiliar. Em poucos dias favorecidas do vento avançaram elas sem inconveniente bastantes léguas, e então, tornando-se o vento contrário, foi expedida rio abaixo a Cossaca para que, já mais senhora da navegação, pudesse servia às outras de guia seguro.
Dois dias depois voltou o vento ao sul, e aproveitando-o subiu a Oriental sem mais alguma outra embarcação que a acompanhasse.
[5.5.1818] Na manhã do dia seguinte descobriram-se sobre a margem direita do rio (província de Entre Rios, por ser banhada pelos Uruguai e Paraná) dois cavaleiros, os primeiros homens avistados e que rapidamente se ocultaram apenas a Oriental se lhes aproximou; um pouco mais acima foi a Oriental canhoneada repentinamente por uma bateria à barbeta [posição de tiro da artilharia ao descoberto] com três bocas de fogo, situada em uma pequena aba que forma o arvoredo em toda aquela costa, chamando-se a paragem Paso de Vera, por ser lugar estreito e por isso fácil a comunicação de uma a outra costa. Travou-se o combate que duraria por três quartos de hora, havendo intervalos nos quais o fogo da Oriental fez calar o da bateria, desmontando-lhe uma peça com perda de alguns homens, o que visivelmente se conheceu pela proximidade.
Hora e meia depois estava a escuna fundeada próximo à margem esquerda do rio, costa oriental, e ao abrigo de uma ilha; o estrago recebido foi algum pano furado, uma bala cravada no mastro grande, dois rombos no costado e um homem da guarnição levemente ferido.
Para que a escuna Oriental chegasse até onde estava acampado o general Curado era preciso vencer ainda mais de quinze léguas rio acima, bater mais duas baterias colocadas do mesmo lado da costa em frente a Paysandú e no arroio Perucho Verna [c. 16 km a norte de Paysandú, na margem ocidental, imediatamente a norte da atual Villa San José] e atravessar as sinuosidades complicadas do no, que se tornavam difíceis porque a agua ia diminuindo, e portanto a desejada e necessária comunicação ainda tinha dias de demora.
Há sucessos porém que parecem determinados pela providência como presságios de grandes acontecimentos, e tal foi o combate de Passo de Vera.
A aurora do dia 13 despontava risonha e aprazível, o rio corria brando e cristalino e apenas era bafejado pela brisa do norte anunciando um belo dia.
O prazer reinava em toda parte e todos estavam satisfeitos quando se começaram a divisar alguns cavaleiros sobre as colinas vizinhas, cujo numero foi prodigiosamente aumentando e por isso se tornou suspeito. A escuna preparou-se para qualquer eventualidade e arvorou a bandeira nacional; a qual sendo por aquela multidão reconhecida causou uma cena de entusiasmo, que só pode conceber um coração também surpreendido por tanta alegria. Fizeram-se correrias em diversos sentidos como noticiando-se mutuamente; mil cortejos, tiros e vivas repetidos formaram com o retinir das armas um tumulto que só terminou com a chegada ao lugar do embarque.
Fácil é conhecer que tal gente pertencia ao exército brasileiro ao mando do general Curado, exército sempre aguerrido, triunfante sempre, enquanto lhe coube a sorte de ser comandado por general tão hábil e honrado, tão inteligente e integro, tão bravo e perfeito militar.
Na ocasião do combate o vento reinava pelo sul, e correndo o rio ao norte, brevemente chegou ao acampamento daquele exército o troar dos canhões, o que sendo ouvido pelo general fez expedir logo uma forca a descobrir a causa, e foi deste modo extraordinário que se abriu a desejada e necessária comunicação com maior rapidez do que razoavelmente se podia esperar.
Mal pensava o inimigo que por sua ostentação de força havia de ser ele mesmo com seu fogo quem acelerasse sua própria ruína!
Para logo o general resolveu dar movimento ás suas forças afim de distraí-las da inação em que já se achavam, e projetou um plano de ataque sobre a província de Entre-Rios, no lugar da costa onde havia um deposito de Artigas, estavam situadas as três baterias e estacionavam para mais de seiscentos homens de infantaria ao mando do coronel Aguiar.
As restantes embarcações da esquadrilha reuniram-se quatro dias depois de aberta a comunicação, tendo sido oportunamente avisadas da existência da bateria no Passo de Vera, com a qual trocaram sempre alguns tiros em sua passagem, navegando então com vento fresco em popa.
Na tarde do dia 18 intimou-se ao comandante da bateria que se rendesse, e que a vila do Arroyo de la China [atual cidade de Concepción del Uruguay] seria no dia imediato tomada e entregue ao saque, se a bateria não nos fosse entregue dentro de um prazo marcado.
O exército havia no entanto levantado o acampamento, e seguido uma direção que indicava querer aproximar-se à esquadrilha; fez porém alto logo que escureceu e separou-se um pouco da costa, para a qual destacou já noite escura e sem que o inimigo o percebesse uma coluna composta de quinhentos combatentes ao mando do intrépido Bento Manuel Ribeiro, pondo assim em ação a mais hábil estratégia.
E por um desses atrevimentos militares, que só concebe e bem executa o génio e a bravura, a coluna brasileira passou durante a noite ao outro lado do rio, com todo o seu armamento, munições, cavalhada, arreios e mais trem, auxiliada unicamente por uma lancha e duas canoas que cautelosamente se haviam ocultado ao inimigo; servindo de muito, para o bom desempenho de plano tão arriscado, o desembaraço e agilidade do nadar de quase todas as praças rio grandenses, que meteram corpos no rio dirigindo deste modo a cavalhada com destreza tal, que nem um só cavalo se perdeu; e antes do alvorecer a força achava-se em marcha sem ter sido pressentida pelo inimigo.
Proximamente a este intervalo as embarcações da esquadrilha espiavam a tomar posição conveniente para flanquear a bateria de Passo de Vera.
Toda a vigilância do inimigo pois foi chamada sobre a costa, e tão atento se achava que, por vezes, fez fogo sobre os escaleres que adrede se aproximavam.
Tarde, porém, deram os descobridores do inimigo com a nossa força, e hesitando por algum tempo sobre que gente era essa que avistavam, ficaram em inação, até que carregados por nossa vanguarda levaram com pouca diferença de tempo a noticia e o terror ao seu acampamento, que quase surpreendido mal soube se defender, sendo a bateria repentinamente abandonada mal reconheceu a posição de nossas embarcações, e sem que houvesse tempo de dar-se um só tiro.
E destarte, sem prejuízo nosso e em bem pouco tempo, o coronel Aguiar parte de seus oficiaes e mais praças do corpo do seu comando ficaram prisioneiros, excedendo em total ao numero de trezentos.
Todas as baterias foram tomadas e destruídas, sua artilharia e trem embarcados, menos duas bocas de fogo dos calibres 18 e 12 que por velhas e mui pesadas se lançaram ao rio.
Doze embarcações, que Artigas havia tomado em Buenos Aires, uma lancha artilhada e um escaler, foram apresados no arroio Perucho Verna, e nestas embarcações como em algumas da esquadrilha foram recolhidos os prisioneiros e todo o espólio.
Era então presidente e comandante em chefe das forças militares daquela província D. Francisco Ramirez [1786-1821], gaúcho intrépido e afortunado, e que nessa ocasião se achava a doze léguas de distancia em seu parque com mais de seiscentos homens.
E à primeira noticia por ele recebida da nossa invasão, pôs-se em marcha para socorrer o coronel [Gorgonio] Aguiar, e castigar, como ele dizia, semelhante atrevimento; mas recebendo logo a participação de estar tudo perdido, reservou o prometido castigo para melhor ocasião, e pôs-se em retirada para a costa do Paraná, abandonando mais de cem homens há pouco por ele recrutados, os quais caindo em poder de Bento Manuel foram postos em liberdade, por se julgar que assim se prejudicava ao inimigo.
A distância que desde então ficou mediando entre as duas forças, era de natureza a não permitir a Bento Manuel o manobrar contra seu adversário sem carregar com o peso de uma grande responsabilidade: já porque a sua força constava unicamente de quinhentos homens, e tinha de atravessar toda a província inimiga, sem contar com mais recursos que os que pudesse acharem si; já porque nesse caso a separação do corpo do nosso exército era considerável pela distancia, e não era possível a junção com este em caso urgente e repentino; já finalmente porque as instruções o não permitiam.
A não se darem tão fortes razões estamos persuadidos de que a província de Entre-Rios cairia em nosso poder em poucos dias: tal era o terror e desanimo que, não só o sucesso recente como o das batalhas anteriormente ganhas, tinha impressionado nos espíritos de todos os seus habitantes, sem excetuar mesmo o do seu guerreiro mais denodado!
Oito dias depois estava reunida ao exército a coluna expedicionária, e este com mais mobilidade, melhor cavalhada tomada ao inimigo, e seu credito mais reforçado pelo bom resultado da expedição; e livre a navegação do Uruguai de todo o obstáculo por parte do inimigo por haverem sido tomadas e destruídas as baterias que o vedavam.
No dia imediato àquele em que tudo se tinha embarcado e posto em segurança, entrou na vila do Arroyo de La China o comandante da esquadrilha, antes que Bento Manuel nela tivesse penetrado.
Achavam-se ali, como emigradas, a maior, parte das famílias que Artigas tinha obrigado a evacuar as vilas da Purificación e Paysandú, para deste modo pôr em penúria o exército, que já com grande custo podia conseguir o gado necessário para o consumo diário, pois que o inimigo não havia retirado antecipadamente para grande distancia.
A exceção de algumas famílias pertencentes a indivíduos comprometidos e empregados no exército contrário, e domiciliárias da Purificação, todas as demais rogaram àquele comandante que as restituísse ao seu país e lar doméstico, o que efetivamente ele satisfez empregando-se quatro dias no transporte.
[...]
NOTAS
(2) Dava-se este titulo a Artigas com supersticiosa veneração, como meio poderoso contra a política de Buenos Aires.
Extrato retirado de: Revista Marítima Brazileira, Ano XXXII, n.º 1, Julho de 1912, Rio de Janeiro, Oficina Gráfica da Liga Marítima Brazileira, pp. 67-94.
* * *
Edições das Memórias e Reflexões sobre o Rio da Prata:
- Edição original de 1849;
- Revista Marítima Brazileira, Ano XXXII, n.º 1, Julho de 1912, Rio de Janeiro, Oficina Gráfica da Liga Marítima Brazileira, pp. 67-94.
- Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, Ano XI, 2.º Trimestre, Porto Alegre, Tipografia do Centro, 1931, pp. 217-299 [ler aqui]
- Boletin Historico, n.º~100-103, Estado Mayor General del Ejercito, Montevideo, 1964, pp.177-202
28/09/2021
Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816 (J. J. Machado de Oliveira)
“Itinerário das Campanhas que tiverão princípio no ano de 1816".
Datas extremas: 18.3.1816 - 9.3.1820
(Publicado em Revista do Arquivo Municipal, Ano VI, Volume LXXII, Novembro-Dezembro 1940, São Paulo, Departamento de Cultura da Prefeitura, pp. 5-20) [Leia online aqui - abre nova página]
* * *
[Início]
1816. 1.ª Campanha.
Março 18. Saí de Pôrto Alegre embarcado e com tropa - 23. Cheguei à Vila do Rio Pardo.
Julho, 29. Saí de Rio Pardo com tropa, e acampamos na Picada. 30. Na Cruz Alta. - 31. No Campo de Felipe Carvalho.
Agosto 1. No Arroio Butucaraí. Passo de cima. - 2. No Capão dos Enforcados. 3. No Passo de Jacuí, aonde se esteve o dia. 4. Ocupado na passagem do rio. - 5. A meia légua distante daquele passo. - 6. No Passo da Estiva. – 7. Na Restinga Seca, estância de Antônio Gonçalves Borges. - 8. No Arroio do Sol, aonde se esteve também o dia 9, por chover muito. - 10. No capão de Manuel Paim. - 11. No Arroio de Santa Maria. - 12. No capão da eståncia do Pompeu. - 13. No rodeio velho das éguas do Felipinho ou Felipe Santiago. - 14. Na estância do Serino (Cirino ?), irmão de meu pag. (pagem ?) Domingues. - 15. Na estância do tenente-coronel Carneiro, ou Pau Fincado. — 16. Na estância de Manuel Ferreira, seu genro. - 17. Na estância de São Felipe. - 18. Na margem esquerda do Arroio Cacequi. Morreu afogado o cabo Malaquias. - 19. Ao pé da estância do inglês Daniel Luiz Carlos. - 20. No Passo do Rosário, aonde estivemos até o dia 29. - 30. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 31. No Vacacuá. estância de Antônio Caetano.
Setembro 1. Na Guarda da Conceição. aonde estivemos os dias 2 e 3. - 4. No Arroio da Porteira (?) ao pé da estância de Inácio Adolfo. -. 5. No Pôrto do Alferes Pinto.- 6. Nas cabeceiras do Ibirapuitã Chico, aonde estivemos o dia 1. - 8. No campo de João da Costa. - 9. Em São Diogo. - 10. ... pontas do Arroio de Valença. - 11. Acampamos no Boqueirão das Lagoas - 12. Na tapera do Leme, ou Capão do Cirurgião. Ali chamando-nos o Abreu (tenente-coronel José de Abreu) a conselho, decidiu-se que deviamos ir à Provincia das Missões, já invadida pelos insurgentes deixando a nossa marcha para Belém. - 13. No Suaraim chico. - Passo das carretas 14. No Arroio Garopá. - 15. No Arroio Camoatim. - 16. No Arroio Caoati. -- 17. Num dos galhos do Toro-passo. - 18. No Arroio Toro passo, aonde estivemos o dia 19, passando 0 Arroio, que estava de nado. - 20. No Arroio Cochi-passo. Foram vistos alguns bombeiros (espiões) do inimigo. - 21. Na estância do Aferidor. Ali fizemos passar para o outro lado do Uruguai os Insurgentes, que se achavam, tanto na estancia, como no Passo de Santa Maria no Ibicui, aprisionando-se 2 homens e 6 mulheres (?) e alguma cavalhada. Falhamos o dia 22. - 23. No Ibiraocaí - 24. Acampámos no Ibiricui, aonde estivemos passando o dia 25. - 26. Na estância de Joãozinho de Oliveira. Neste dia bateram-se duas partidas inimigas, que andavam em saque. Foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 16 insurgentes e 10 mais prisioneiros. - 27. No Tuparaí. Neste dia bateu-se uma partida inimiga e foram mortos 26 insurgentes. - 28. Na estância do Padre Alexandre, aonde falhámos o dia 29, por chover muito. Foram vistos dois bombeiros (espiões) do inimigo. - 30. No capão de João Machado.
Outubro 1. Na margem direita do Arroio Butuí, de nado. - 2. Além do Banhado de S. Borja. Ali estivemos até o dia 4. 5. No outro lado do Banhado de S. Borja. - 6. Neste dia fomos. ao Butuí, na sua barra, como não encontramos uma partida inimiga que ali fôra vista, retrogradamos... chovia. - 7. Acampamos no Povo de S. Borja, e ali estive até o dia 23, ocupado numa inquirição - 24. No Ivaí, aonde estava a divisão. - 25. No Capão de Butuí. - 26. No Butuí-chico. - 27. No pôrto da estância de Santa Rosa. - 28. No Ibicuí, Passo de S. Rosa e ali nos demoramos o dia 29 na passagem. -- 30. No capão da estância do tenente Olivério. - Na margem esquerda do Ibirapuită, Passo Guassú.
Novembro 1.º No Pai-passo. 2. Na tapera de Inácio dos Santos Abreu, – 3. Em S. Diogo. Ali se achava o Regimento da Ilha. - 4. No acampamento do Ibirapuitã, aonde estava o exército, Ali estivemos até 20 de dezembro.
Dezembro - 25. Marchou todo o exército e acampamos ao pé da estância do Cláudio. - 26. Saí para o Côrpo da Vanguarda, e acampamos ao pé da tapera do Cláudio, aonde se falhou o dia 27. - 28. Acampamos no campo de Juca Mingote. - 29. No Indahim, onde se falhou o dia 30. - 31. A vanguarda marchou um quarto de légua sobre a frente, aonde se falhou o dia 1.º de janeiro de 1817.
1817.
Janeiro 2. No Arroio Catalã. A vanguarda marchou às 6 da tarde para o Arapeí, chegou alí a 3, atacou o acampamento inimigo e voltou no mesmo dia para Catalã, aonde chegou às 7 da tarde. No dia 4 houve nesse lugar a batalha de Catalã, e falhou-se o dia 5. - 6. Num dos galhos do Arroio Catalã, aonde se falhou os dias 7. 8. 9 e 10. - 11. Na barra do Catală, aonde se falhou os dias 12, 13, 14 e 15. - 16. No Suaraim, no Passo do Lageado. Dêste lugar saí em diligência para Pôrto Alegre a 29 e fui pernoitar na estância de João dos Santos Abreu. 30. No porto da estância de Joaquim Luiz - 31. Na estância de capitão Brito.
Fevereiro 1. Na estância do tenente-coronel Antônio Pinto. - 2. Na estància de S. João. - 3. Pernoitei nos Morais. - 4. Na Cachoeira. - 5. Em Rio Pardo. - Embarquei para Porto Alegre. - 8. Em Porto Alegre, aonde estive até o dia 3 de março, e embarcando com tropa para o Rio Pardo, ali cheguei no dia 11.
Março 15. Saimos de Rio Pardo e acampamos no Capão da Vendinha do Arroio das Pedras. -16. No Butucaraí. Passo da Ponte. - 17. No Passo de S. Lourenço no Jacuí, 18. Em Santa Bárbara. - 19. Na estância do Corcundinha. - 20. No Arroio da estância do capitão Freire - 21. No ... de Luiz Machado - 22. Na estância do Padre João de Almeida. - 23. No Vacacaí, estância do coronel Pinto. - 24. No pôrto velho do Batoví. -- 25. No Passo de S. Borja. - 26. No Capão do Severo. - 27. Na Guarda da Conceição, donde se falhou o dia 28, por quebrar-se o eixo do carro. 29. Acampamos no pôrto de Joaquim Luiz. - 30. Na Estância do Tulio. 31. No campo de Juca Mingote.
Abril 1. No acampamento do exército no Suaraim, aonde estivemos até 20 de março de 1818, e a 21, marchando o exército, saí daquele acampamento com a tropa comandada pelo coronel Abreu, e acampamos no Arroio Sarandi.
1818.
Março 22. Nas pontas do Sarandi. - 23. No Arroio do Areal, estância do Guarda-mor. - 24. No Capão do Tigre, estância de Joaquim Pôrto. ---- 25. Nas pontas do Nhanduí, onde se falhou o dia 16, por chover. -- 27. No capão da estância de Gaspar Nunes. - 28. Na capela de Alegrete. Saí dêste lugar para Porto Alegre em diligência no dia 3 de junho e fui pernoitar na estância do Dornellas.
Junho 4. Na estância do major João Machado Bitancourt. - 5. Na estância do Severino. --- 6. Pernoitei na estância do capitão José Machado. - 7 No pôrto da estância de S. João. - 8. Na estância do alferes Machado.- 9. Na freguezia da Cachoeira. – 10. Na vila de Rio Pardo, aonde embarquei no dia 11, e no dia 12 cheguei a Pôrto Alegre.
Saí de Porto Alegre em 6 de novembro, embarcado, e cheguei a Rio Pardo a 12 do dito, de onde saí a 23 e pernoitei na chácara do capitão Bernardo. - 25. No Passo de S. Lourenço.-- 26. Em Santa Bárbara. -27. Na estância de Manuel Rodrigues Penteado. - 28. No Adolfo. 29. Na tapera de Luiz Machado. - - 30. Na estância do padre João de Almeida.
Dezembro. 1. Na capela de S. Gabriel. - 2. Na cochilha de Jubatuim. - 3. Na estância de Antônio Francisco. -- 4. No Passo do Rosário. - 5. Na estância da Côrte Real, no Capão. 6. Ao pé da estância de Pacheco de Lima. - 7. Na estância do capitão Florêncio. -- 8. Na estância de José Maria. - 9. Na capela de Alegrete. Primeiro movimento da guarnição para a fronteira. A 25 de dezembro saiu de Alegrete a guarnição e foi acampar no Arroio Pai. Passo. - 26. No mesmo Arroio. No Passo da Marmota. - 27. Na estância da Marmota. -- 28. Numa das pontas do Pai-Passo. - 29.
[1819]
Em outra ponta do dito, aonde estivemos até o dia 4 de janeiro de 1819, e no dia 5, marchando-se para a fronteira, soube se que o inimigo se retirara, e por conseguinte retrogradou-se, e acampamos no arroio da divisa do Marmota. 6. No lado esquerdo do Ibirapuitã. - Passo guassú. 7 - Na capela do Alegrete.
Segundo movimento. A 1.º de Abril saímos da Capela de Alegrete, em consequência da segunda invasão das Missões, e acampamos a meia légua distante dali, à margem do mesmo Ibirapuitã, e dêsse lugar passamos para o Pôrto das Pedras, ao pé da Capela, a 10 do dito mês. A 17 chegou o sr. Conde da Figueira, e a 20, movendo-se a divisão, acampou do outro lado do Ibirapuità - Passo guassú.
Maio 21. Num capão do campo do Joaquim Machado. 22. No Ibicuí, Passo de S. Rosa, aonde nos demoramos a passá-lo o dia 23. ---- 24. No Pôrto de .... de S. Rosa. -- 25. Nas pontas do Butui. - 26. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel -- 27. No Camacuã. Ali nos reunimos com a tropa do marechal Chagas. -- 28. No Itaraoquim. 29. No capão do pôrto do Severino. - 30. Piratini, Passo Novo da Figueira. -- 31. Ao anoitecer marchamos, e ao amanhecer paramos em uns capões ao pé da estância de S. Jerónimo. 9.
Junho 1. Ao anoitecer marchamos e fomos amanhecer no dia 2 no Povo de S. Luiz, e acampamos fora - 3. Acampamos dentro do Povo de S. Luiz, aonde estivemos até o dia 9. 10. No Passo de Pirajú. - 11. Nuns capões de S. Jerónimo. -- 12. Estando assentado... no Arroio Guaraçá, marchamos para o Povo de S. Nicolau, por saber que o inimigo o evacuava. - 13. Marchamos com destino para o Passo de S. Isidoro, e por se achar o Arroio Jacatobá de nado, aí acampamos. - 14. Meia légua distante do Passo Geral do Piratini. 15. Apartando-se a Legião da divisão, para unir-se ao Côrpo de Abreu, acampou no capão do Porto do Severino.- 16. Em Itaroaquerim. - 17. Na estância de S. José, do Chagas, - 18. No Passo de S. José do Camacuã. -- 19. No G...iaçai, aonde se achava a tropa do Abreu. - 20. Nos capões ao pé da estância de S. Gabriel... 21. Nas pontas do Butui. - 22. Acampamos no capão da estância do Cunha. -- 28. No Ibirapuitã, Passo guassú.- 29. Na Capela de Alegrete.
Julho - Nos dias 4, 5, e 6 de julho marchou a divisão do brigadeiro Abreu, e eu fiquei para me retirar para Pôrto Alegre em consequência do meu emprego. - 31. Saí da Capela de Alegrete e pernoitei na estância de Felipe Carvalho.
Agosto. 1. Em Taperí, chácara de Joaquim Leonel. 2. No banhado de Saicã, meia légua distante do Pôrto da estância de Antônio Franeisco. -- 6. Na estância do major Tomaz 7. Na Capela de S. Gabriel, aonde falhei o dia 8. - 9. Na estância do tenente-coronel Antônio dos Santos - 10. Na estância do Mancio. - 11. Na estância do Quartel Mestre. - 12. Pernoitei na estância do Machado Gordo, ao pé da estância do tenente Ricardo. -13. Na chácara de Manuel Joaquim Teixeira no Capão dos Enforcados. 14. Na Cruz Alta. - 15. Em Rio Pardo, aonde embarquei a 17, e a 19 cheguei a Porto Alegre.
2.ª Campanha, 1820.
Janeiro. Na noite de 2 saímos de Porto Alegre com & infantaria e a artilharia do meu comando, e chegamos a Rio Pardo a 8, e no mesmo dia acampamos no lado direito do Passo do Rio Pardo. - 9. No capão da Cruz Alta. - 10. No Passo de S. Lourenço no Jacuí. - 11. Nos Morais. - 12. No Arroio do Lageado, divisa de S. Jo... 13. No Passo de Carutaí. - 14. No Arroio do Lageado no campo de S. Fidélis. -- 15. No Passo de S. Borja. - 16. Na estância de Placido Severo. - 17. No Passo de Ibicuí-Chico. - 18. Acampamos duas léguas distantes de Itaquatiá. - 19. Em Itaquatiá, aonde estava o exército. - 20. Na tapera de d. Ramon. --- 21. Chegámos ao Passo do Sutil no Cunhapirú, e aí, esperando a noite, marchámos para o Taquarembó Grande, aonde chegámos na manhã de 22, em que atacamos o inimigo e o derrotamos. Aí estivemos nos dias 23 e 24. - 25. Retrogradamos para o Passo do Sutil. - 26. Acampamos no Cunhapirú. - 27. Nas pontas do Ibicuí. - 28. Nos morros de S. Ana. - 29. No Sarandi, - 30 No Funchal. --- 31. No Pai-Passo, pontas.
Fevereiro. - 1. No Passo do Pai Passo. - Em Alegrete. Aí ficamos até o dia 21. - 22. No Arroio do Lageado. - 23. No Arroio Jaguaquá. - 24. No tenente-coronel João Machado. - Falhamos o dia 25, por chover. - 26. Acampamos no Arroio Cacequí. - 27. Em S. Gabriel. - 28. No Fidélis, aonde estivemos o dia 29.
Março. - 1. No Arroio .... 2. Na tapera de Luiz Machado. 3. No Passo de S. Bárbara. - 4. Na estância do tenente Ricardo.- . No Arapoá. - 6. Na estância do Bibiano. - 7. No Arroio Francisquinho. - 8. No Arroio dos Ratos. – 9. Em Porto Alegre".
[Fim]
* * *
Pequena biografia
O capitão José Joaquim Machado de Oliveira nasceu em São Paulo, a 8 de Julho de 1790, filho do tenente coronel Francisco José Machado de Vasconcelos e de D. Ana Esmerina (Esméria ou Esmênia) da Silva.
Com um ano e meio de idade, o pai assentou-lhe praça mas só em dezembro de 1807, já com 17 anos, foi reconhecido cadete. É Alferes em 1809, tenente em 1811 e, finalmente, graduado em capitão em 13 de Maio de 1813, pelos seus serviços na Campanha de 1811-12.
Em 1816, com cerca de 26 anos, é capitão de infantaria da Legião de Voluntários Reais, de S. Paulo, e participa com distinção, nos combates do Passo de Yapeyú e na batalha de S. Borja, e, já em Janeiro, na Surpresa de Arapey, sempre sob o comando direto do tenente coronel José de Abreu.
26/08/2021
Batalha de Catalán por uma Testemunha Ocular, 4 dias após o evento (Inácio José Vicente da Fonseca)
22/06/2021
Fiel, natural e circunstanciada exposição dos acontecimentos da noite de 23 de Junho de 1821 (João Crisóstomo Calado)
Pouco menos de um mês depois, o general Carlos Frederico Lecor publica uma ordem do dia em que se refere expressamente aos acontecimentos de 23 de Junho:
Quartel General de Montevideu, 20 de Julho de 1821
Ordem do Dia
O capitão general, comandante em chefe, ao mesmo tempo que desaprova a conduta que mostrou inconsideradamente o 2.º Regimento de Infantaria da Divisão dos Voluntário Reais d'El-Rei, na noite do dia 23 do mês próximo passado, escolhendo o modo menos militar, e mais incompetente, para lhe fazer as suas representações quando, sem ordem, saiu dos seus quartéis e resolveu assim causar-lhe o sentimento mais estranhável, tem a satisfação que é possível no meio de um sucesso tão fatal, considerando que a deliberação dos soldados em pedirem naquela ocasião os seus oficiais, e as suas bandeiras, a atenção ao que se lhes disse, e o sossego e harmonia com que voltaram para o seu acantonamento, parece provar que o seu momentâneo desvio da primeira lei dos exércitos não foi ação voluntária deles, mas sim obra de um alento sedutor que se agitou para os alucinar.
O comandante em chefe quer persuadir-se de que os filhos de um povo constante e generoso, e eles os mesmos que deram às nações admiradas, no abandono das suas casas, dos seus haveres, e de tudo o que mais anima os homens na vida, para cumprirem as ordens do seu governo, o maior exemplo de patriotismo, de obediência, e de resignação, que os anais do mundo apresentaram e que a história cuidadosamente recomendará à posteridade mais remota, para que lá mesmo seja famoso; as tropas que no espaço de seis campanhas combateram na Europa com vantagem, porque o fizeram com honra e subordinação; os soldados a quem a vitória acompanha desde os campos da Roliça, até às margens do Garona, onde a paz desejada mandou fazer alto aos seus brios, aqueles finalmente que na América sustentaram em quatro campanha o crédito merecido porque foram valentes, humanos e disciplinados, não podiam aventurar-se a um passo que é contrário aos seus deveres, à sua reputação e aos seus interesses, e que seus veneráveis pais, encanecidos na prática da virtude, hão de saber com a dor mais intensa, por ser diametralmente oposto à boa educação que lhes deram, sem que a eles enganosamente os arrastasse mão insidiosa, malévola e estranha, invejosa da glória deles, adversa ao bom nome português e declarada inimiga da felicidade desta província, e dos seus dignos e beneméritos habitantes.
Ainda assim sendo, o proceder do 2.º Regimento, naquele repente vertiginoso, não é escusável, porque mal se parece a debilidade e ligeireza com que os soldados então faltaram à sua obrigação, com a fortaleza e reflexão de quem tantas vezes viu inalteradamente a morte no meios dos combates.
O comandante em chefe, na impossibilidade de que os acontecimentos passados deixem de ter existido, deseja ao menos que o poder eterno apague na memória das gentes a recordação da parte da noite de 23, e lavar, à força de bom comportamento, a nódoa que tanto o afronta, para que não vá escurecer com uma nuvem negra e ominosa os claros e gloriosos dias da pátria, e para que modere, ou inteiramente satisfaça, e desarme a justa indignação, com que ela há de castigar os ultrajes que fazem ao seu decoro e dignidade os que violam o respeito e obediência das leis.
Barão da Laguna



