18/06/2019

Diário Militar de Bento Correia de Câmara (14 de Junho a 25 de Julho de 1819)


Num documento no Arquivo Histórico do Itamarati, do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, sob o título de “Documentos de militares contra Artigas (cop.)", encontramos o diário militar do brigadeiro Bento Correia de Câmara. 
O manuscrito de 14 folhas refere-se às movimentações que o brigadeiro Câmara, então comandante da fronteira de Bagé, encetou entre 14 de junho e 25 de julho de 1819, face a um aumento de pressão por parte das forças orientais, sob o comando de José Artigas, e que culminou na Ação de Santana, a 29 de junho, onde uma força oriental foi derrotada junto a Santana do Livramento.

A segunda Invasão Oriental de Missões

Em 25 de Abril desse ano, cerca de um mês e meio antes, o comandante oriental de Missiones, Andrés Guaçurari y Artigas, também conhecido por Andresito ou Artiguinhas, iniciou uma segunda invasão das Missões Ocidentais, transpondo o rio Uruguai a norte de S. Nicolau, que resultou na ocupação deste primeiro povo, assim como os de S. Luís, S. Miguel, S. Lourenço, S. João e inclusive tão a leste quanto Santo Angelo, 100 km já dentro do território das Missões ocidentais.

A acompanhar esta invasão, e como em 1816, José Artigas fez pressionar a fronteira do rio Quaraí, ameaçando Santana e Alegrete, assim como Bagé. Os movimentos e objetivos de Artigas são aliás muito semelhantes aos de 1816.

Mal tem conhecimento, o Conde de Figueira, D. José Maria Vasconcelos e Sousa, capitão general do Rio Grande desde Outubro do ano anterior, substituindo o marquês de Alegrete, parte de Bagé em direção a Missões, fazendo a ligação às forças de José de Abreu, em Alegrete, a 18 de Maio, e às de Francisco de Chagas dos Santos (o governador das missões portuguesas), a 27 de Maio, no rio Camacuã.

Após encontrar S. Nicolau abandonada pelos orientais, o conde da Figueira procede a libertar os restantes povos ocupados, tendo despachado previamente José de Abreu a procurar uma parte do exército oriental que tinha cruzado o rio Piratini para sul. Este contingente, comandando pelo próprio Andresito, é derrotado na Ação de Itacorubi, a 6 de junho, pondo fim à invasão e levando à própria captura de Andrés Artigas a 24 desse mês, quando procurava transpor o Passo de S. Isidro, de volta a Missiones.

Bento Correia de Câmara, Bagé e Santana

É 300 quilómetros a sul que encontramos o teatro a que se refere este manuscrito, entre Bagé e Santana, na fronteira do rio Quaraí. Aliás, é o próprio documento que nos informa que só a 2 de Julho é que o brigadeiro Câmara tem a notícia do fim da invasão a norte.

O manuscrito tem um interesse próprio, permitindo-nos perceber as movimentações do exército da Capitania do Rio Grande nesta área, face à pressão que Artigas desejava complementasse a invasão de Missões a norte.

Posso apenas tentar perceber a razão pela qual o mesmo ficou no Arquivo Histórico do Itamaraty, entre outros diários militares relativos a outros períodos, mas a menção que faz a um desentendimento entre os brigadeiros Bento Correia de Câmara e Félix José de Matos pode ajudar a perceber. Este desentendimento tem o seu zénite a 31 de Junho, dois dias depois da vitória obtida na Ação de Santana.
Terá sido graças a esta disputa e eventuais repercussões de índole política, que temos hoje acesso ao manuscrito e à transcrição que aqui apresento.

O Manuscrito

Ainda que tenha uma importância reduzida face aos eventos que estavam ainda a acontecer 300 km a norte, este tipo de documentos, que se inserem no memorialismo militar, são fundamentais para perceber o funcionamento e dinâmica do exército do Brasil durante o conflito de 1816-1820.

Aqui apresento pois uma transcrição do manuscrito, com ortografia moderna, em complemento de uma outra versão, com a ortografia original, que publiquei no blogue "Corpus de Memorialismo Militar Luso-Brasileiro nos Finais do Antigo Regime" e que pode ser lido aqui.

Tanto quanto possível tentei identificar as pessoas referidas, mas tal não foi possível em todos os casos, nomeadamente os militares de postos subalternos.

A acompanhar esta transcrição, ponho à disposição um pedaço de um mapa da área, de 1868, mas que apesar de ter sido feito meio século depois ainda reflete a realidade do terreno em 1819, com a exceção de muitas terras que não existiam na altura.

* * *

[Transcrição]

Dia 14 de Junho de 1819, Recebi parte do Alferes comandante da Guarda de Guabijú, de se terem recolhido os bombeiros, e participarem que na serra de Lunarejo divisarão uma grosssa coluna inimiga que se encaminhava para Santana [do Livramento] para a nossa Fronteira com abreviadas marchas.
Neste mesmo dia convidei o Brigadeiro Félix [Félix José de Matos Pereira de Castro (1772-1823), comandante do Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande] para com a sua divisão operarmos contra esta força assentando a reforçar a tropa do meu mando com 70 homens de seu comando.
Dirigi parte para proprio a Capela de Alegrete, participando ao Sargento Mor João António [possivelmente o sargento mor reformado João António da Silveira, do Regimento de Dragões]  desta força que se encaminhava para os limites daquela repartição.
Pus-me em marcha com as forças do meu Comando para o ponto proprio da fronteira ameaçada fazendo Pouso no Fazendeiro França.

Dia 15
Me acampei nas vertentes do Arroio Ponche Verde.
Recebi Offício do Brigadeiro Félix comunicando-me de não puder mandar o reforço que tinha tratado pelo motivo de lhe participarem os seus Bombeiros vindos do rincão das Avarias terem ali divisado uma força Inimiga.
Fiz reunir a guarnição da Guarda de Guabijú, e por consulta fiz marchar no mesmo dia a metade das forças do meu Comando em Número de [espaço em branco] com direção a Itaquatiá [arroio Itaquatiá, entre o rio Upamaroti e o arroio Ibicuí da Faxina], com destino de atacar alguas escoltas da força Inimiga, que se dividirão em grossas partidas, a saquear, e queimar as habitações dos moradores situados no rincão de Ibicuí, repartição do Coronel Abreu [José de Abreu (1770-1827)], dobrando os Bombeiros para Santana a fim de descobrir a posição e direção do Inimigo.

Dia 16
Não houve novidade

Dia 17
Apresentou-se o Tenente Anacleto Jacinto e o Alferes Francisco José Farinha com 23 praças do seu distrito.

Dia 18
Enviei notícias a Bagé ao Capitão Pedro Fagundes, indo pelo […] do Cabo de Esquadra de Dragões Cândido de Abreu por quem solicitei a remessa de armamentos precisos
Recebi carta do Brigadeiro Félix José participando-me ter tomado a resolução de unir-se a este ponto.
Apresentou-se um soldado guerrilha do Distrito de S. Sebastião.

Dia 19
Apresentou-se um guerrilha da repartição de Guabijú.
Reuniu-se o Brigadeiro Félix, com a Divisão do seu Comando.
Recebi carta do Sargento Mor Antonio  Adolpho [António Adolfo Charão, ou Adolph Schramm (1761-1835)] de ter o Inimigo passado a parte oriental de Santa Maria no Passo do Rosário a supor teriam saqueado as bagagens que por aquelas imediações mandou o Exmo. Senhor Conde [1.º Conde da Figueira, José Maria Rita de Castelo Branco Correia da Cunha Vasconcelos e Sousa (1788-1872), capitão general do Rio Grande].
A esta mesma […] nos juntamos em marcha para a direção de Itaquatiá com o destino de procurar o Inimigo onde quer que apareça.

Dia 20
Pouso na Fazenda do Furriel Inácio Rodrigues.

Dia 21
Pouso na Antiga Guarda de Santiago em cuja marcha cansou muita cavalhada de todos os Corpos.
Recebi notícia pelo espanhol Ignacio Guterres apresado pelo Inimigo de quem pode fugar; notifica ter ouvido aos referidos ter Artigas destinado 200 homens para saquearem Bagé por cujo motivo fiz seguir o Capitão João dos Santos Campello, um dos homens de cavalaria, a ocupar o ponto da Guarda de Guabijú; ponto próprio interessante para ser repelida aquela força na pretendida entrada e retirada daquele destino.
Pela consulta feita com o Brigadeiro Félix em a utilidade do Real Serviço assentamos em deixar o Parque […] oculto a fim de mais aceleradamente ocuparmos a importante posição de Santana em atenção a falta de transportes, e cavalgadura que já experimentámos.
Este Parque por melhor acordo foi conduzido pelo Capitão Santos, para o remeter a Bagé e dali ser concentrado; fizemos Pouso nas vertentes do Uparamoti.

Dia 22
Pouso em outra vertente do Uparamoti, nada ocorreu.

Dia 23
Recolheu-se o Bombeiro Jerónimo Rodrigues e traz a notícia de ter o Furriel Inácio Rodrigues descoberto o rasto de 30 a 40 Inimigos terem se entranhado para as partes do Ibicuí, ficando de emboscada aos mesmos no sítio do Serro das Palomas; e por consulta feita entre mim e o Brigadeiro Félix, Vaquianno, e oficiais práticos do terreno, assentámos mandar 50 homens na Partida mandada pelo Bento Gonçalves [Bento Gonçalves da Silva (1788-1847)] de Proteção ao Bombeiro Jerónimo Rodrigues para explorar afoito onde se acha o Inimigo na direção se supõe ocupam, vertentes de Taquarembó a Santana.
Mandei um Soldado guerrilha ao passo do Rosário no Arroio de Santa Maria, a certificar-me das notícias do saque que tenham feito o Inimigo por aquela parte ficando de voltar ao fim de 5 dias.

Dia 24
Não houve novidade.

Dia 25
Apresentaram-se os guerrilhas Manuel de Vargas e João Franco, mandados pelo alferes Barbosa a dar a notícia de que o furriel Inácio Rodrigues com 19 homens atacou 60 a 70 inimigos, mataram 3 e vários baleados, aprisionaram um com um braço quebrado de uma bala, retomaram os nossos ao inimigo 900, a 1000 animais vacuns cavalares, entre estes trezentos e tantos cavalos mansos, asim como tomarãam 2 armas, uma lança e uma pistola e que o inimigo prisioneiro confessava terem 300 homens acampados na Tapera de Felisberto Goulart nas pontas de Quaraí, assim como o Fructuoso [José Fructuoso Rivera (1784-1854)] se encaminhava com 400 a saquearem Bagé, por cujo motivo reuniu, digo motivo mandou se reunir a partida para atacarem as referidas forças.
Próximo ao Pouso se apresentaram 2 pretos espanhóis, fugidos de seu Ssenhor Maxuca de quem eram escravos.
Fizemos Pouso na Fazenda de Joaquim Pedro.

Dia 26
Recebemos aviso do capitão Bento Gonçalves de depor o prisioneiro que Artigas [José Artigas (1764-1850)] se acha em Santana com as suas forças próximo à mesma Partida por cuja razão seguimos a reunirmos à mesma partida com o desígnio de os atacar; fizemos Pouso na tapera do Ribeiro; ao anoitecer foram descobertos pelos nossos bombeiros sobre a nossa frente 7 a 8 bombeiros inimigos.

Dia 27
Não podendo seguir de dia mandámos bombeiros a partida do alferes Manuel Barbosa a saber notícias do inimigo.
Tem cansado até ao presente dia 96 cavalos.
Ao anoitecer segui com a tropa do meu comando a reunir-me com as partidas do capitão Bento Gonçalves e alferes Manuel Barbosa nas pontas do Ibicuí com o proposito de ir amanhecer atacando o inimigo, para cujo fim prestou o brigadeiro Félix José o reforço de 40 Praças, que, imediatamente as tornou a suplicar ficasem por não poder dispensá-las, com tudo vexado pela ordem que tinha do Exmo. Sr. Conde, cedeu, e marchei na mesma tarde para o Aroio Ibicuí [arroio Ibicuí da Faxina] dando a volta de três léguas, a fim do inimigo não reconhecer as forças do meu comando pelos seus bombeiros, que se achavam postados nas alturas da Serra de Santana, nessa noite me incorporei às duas partidas referidas, e ali soube dos oficiais comandantes das mesmas que era impraticável a mesma marcha por causa do grande peso da cavalhada magra, e cansada, que de necessidade se devia apartar da pouca que havia em melhor estado dar tempo no dia seguinte a carnear, e fazer fiambres, e remeter os presos a outra divisão.

Dia 28
Às doze da manhã tive parte pelos meus bombeiros que da parte dos nossos terrenos se divisava sua coluna de 200 Homens, que mandando-a reconhecer, soube ser o inesperado brigadeiro Félix José, que conferindo comigo, me fez ver o desejo que então teve de me acompanhar, ao qual anuí, e marchando naquela tarde fiz alto, às doze da noite no primeiro acampamento que o Inimigo ocupou.

Dia 29 [Ação de Santana]
Ao amanhecer, nada se pode divisar, pela grande cerração que durou até às dez horas, tendo com antecipação pedido-me o referido brigadeiro 20 homens da minhaa divisão, e parte dos meus bombeiros e vaquianos, que montariam a dez homens, e que permitisse deixar passar alám da minha vanguarda, o capitão das suas guerrilhas Bento Gonçalves com aquele reforço, e com mais 30 homens de que se compunha a sua guerrilha, ao que assenti, dissipada a cerração, veio parte dos bombeiros, de que em distância de légua atravessava uma partida Inimiga de mais de 100 homens, e pelo mesmo aviso tinham feito as guerrilhas da vanguarda, imediatamente fiz avançar os guerrilhas de minha vanguarda ao comando do intrépido capitão Anacleto Francisco Goulart, e me pus logo em marcha seguindo na minha retaguarda o brigadeiro Félix, das alturas da cochilha de Santana, avistámos a partida inimiga, na distância de mais de légua e meia ali me pediu o referido brigadeiro para que marchássemos em batalha, ao que não anuí dizendo-lhe [que] era impraticável, e desnecessário em tão longa distancia, que só servia para oprimir a tropa, diminuir a marcha, e que na distância de 40 toesas [cerca de 80 metros] do inimigo se deveria meter em linha, chegando [a]o 2.º acampamento do inimigo tive parte do capitão Anacleto, que o inimigo não mostrava ter mais reforço, que o que se apresentava na sua frente, e que sendo tão desigual em número às nossas forças, achava desnecessário que fossemos acabar de cansar a cavalhada, e que achava justo fazermos alto naquele ponto, para onde mandaria as novidades decorrentes, às 4 da tarde, tive aviso dos meus bombeiros, que ouviam alguns tiros de fuzilaria, pela qual notícia me pus em marcha para aquela direção seguindo-me os passos o dito brigadeiro ao longo da extensa coxilha, e em grande distância me uni à minhaa vanguarda, que se retirava do campo do ataque dando-me parte o capitão Anacleto, de ter ali encontrado a partida do Gonçalves em total derrota, tendo dado costas ao Inimigo, tendo este boleado alguns cavalos da partida, morto a cinco e ferido a outros muitos, a tempo que chegando o capitão Anacleto, os atacou com tal denodo, principiando a matar nos mesmos, e a fazer prisioneiros, na distância de mais de 2 léguas, em que sempre o acompanhou o capitão Gonçalves, e dois [...] da partida do referido, daquela distância retrocedeu, por causa de se achar com todos os cavalos cansados, dali fizemos pouso no acampamento que tinha sido do inimigo, tendo sido o resultado das operações deste dia na perda que sofreu o Inimigo de 20 prisioneiros, mais de 50 mortos, e para mais de 150 cavalos, 20 clavinas, 1 pistola, 3 espadas, 5 cartucheiras, 23 cartuchos, 1 lança, e 1 prisioneiro restaurado =

Dia 30
Tendo deposto os prisioneiros, que a partida destroçada era a única que se conservava naquela[s] imediações, por se ter retirado a mais força do interior de seu acampamento; e que Baltas Ogueda com 400 Homens, era mandado atacar Bagé. por cujo motivo resolvi retrogadar a minha marcha, em auxílio àquele ponto, pernoitei na principal vertente de Ibicuí =

Dia 31
Mandei pelo meu ajudante dizer a brigadeiro Matos [de novo, Félix José de Matos Pereira de Castro (1772-1823), também referido no texto como Felis ou Feliz J.e], que me via na precisa obrigação de acelerar as minhas marchas, para repelir a pretendida invasão da fronteira do meu comando, por cujo motivo marchava naquela manhã.
Este brigadeiro teve a grosseria de responder, quee sem a sua ordem não marchava = isto pelo temor de não atravessar a campanha sem a proteção da minha Cavalaria ao que tornei que a minhaa ordem se regressasse à fronteira de seu comando, da melhor forma que pudesse, e que não podia deixar de estranhar a grosseria com que regia comandâncias, apesar da prevenção do Ex.mo Sr. Conde, tendo determinado por ordem que nos deixou de sermos arimados a socorrer qualquer das fronteiras que necessitem, que não ignorava que ali (…/…) ordenava comandasse a patente mais moderna de cavalaria, ao mais antigo de infantaria em campanha, pelo contrário em praça de Armas, e fortalezas.
Fiz Pouso na Guarda de Itaquatiá, comando do Coronel Abreu.

Dia 1.º de Julho
Na hora de marcha recebi dois coices de um cavalo. Nesta guarda deixei uma patrulha de observação, ao cuidado da mesma 200 Cavalos e um vaquiano para auxílio da marcha da divisão do brigadeiro Félix, fiz Pouso na margem de Uparamoti =

Dia 2
Recebi as agradáveis notícias da derrota do Inimigo em Missões e fiz pouso na segunda vertente do mesmo arroio.

Dia 3
Pernoitei na margem de Ponche Verde; em cuja marcha continuou a ficar muita Cavalhada cansada a deixei ficar o soldado dragão João Cond.a (?) em casa do morador Ângelo de Vargas, por não poder resistir à jornada, por causa de sua ferida de bala que recebeu em uma coxa no ataque do dia 29 =

Dia 4
Pouso no arroio Piraí.

Dia 5
Chegada ao acampamento de Bagé em cuja Guarnição achei pouco mais de 100 homens, destes a maior parte inválidos, e desarmados.

Dia 6
Dirigi as minhas participações aos Ex.mos Senhores Conde Governador, General Marques [Manuel Marques de Sousa (1743-1820)], e Cambra [possivelmente o general Patrício José Correia da Câmara (c. 1737-1827)].

Dia 7
Recebi parte do falecimento do soldado dragão ferido.

Dia 8
Ordenei a Reunião da partida de observação composta de 80 Homens, que se achava postada em Piraí Grande ao mando do capitão Campelo, tendo mandado prestar a companhia de guerrilhas, composta de 46 praças, na margem do Arroio Hospital.

Dia 9
Ordenei a remessa para a prisão da capital de vários criminosos, composta de desertores, prisioneiros, e paisanos facinorosos.

Dia 10
Passou de marcha a divisão do brigadeiro Matos com direção para Aceguá.

Dia 11
Recebi ordens verbais do Ex.mo Sr. Conde pelo capitão Lousada, e apresentaram-se seis desertores do 2.º Regimento de Milícias dos que destacaram para Missões, e se acham de volta com o coronel Abreu no seu acampamento, alegando que a nudez e miséria em que se viam os obrigava a cometer esta infâmia.

Dia 12
Recebi ordem do Ex.mo Snr. Conde Governador para remeter-lhe os cavalos cansados que ficaram nestas imediações.

Dia 13
Foi reforçado o destacamento dos Hospitais com 116 praças, e mandei continuar a reunião dos homens pelos distritos desta repartição.

Dia 14
Recolheu-se a partida do alferes Silva que perseguia os desertores pelos distritos.

Dia 15
Apresentaram-se 5 desertores dos que destacaram para Missões.

Dia 16
Vieram reconduzidos à prisão deste campo 2 soldados desertores dos que destacaram para Missões, apresados pela partida do cabo José Bueno.

Dia 17
Mandei reconduzir pelo alferes Ribeiro o furriel José Inácio por ter dado coito em sua casa ao cabo desertor, Constantino de Oliveira.

Dia 18
Remessa de couros para Rio Grande que devem servir de […] para farinha de munício desta guarnição.

Dia 19
Recebi notícias dadas por um desertor da coluna do general Curado [Joaquim Xavier Curado (1746-1830)], de ter esta ficado 18 léguas aquém da Purificação, e notícias, ter Fructuoso conquistado com guerrilhas a retaguarda daquela coluna, e que retirando-se uma tarde avisaram os nossos bombeiros ao general Curado que Fructuoso se tinha acampado em uma [...] próximo à mesma Coluna, que mandando àquele general o major Bento Manoel [Bento Manoel Ribeiro (1783-1855)], com 500 homens atacá-lo, este o destroçara, retirando-se Fructuoso com mais de 100 homens, e a maior parte da sua cavalaria.

Dia 20
Recebi notícias de Missões dadas pelo marechal Mena [João de Deus Mena Barreto (1769-1849)] de ter o inimigo que repassou o Uruguai atacado-se de parte a parte por causa de preferência do saque que mereceram escapar, e do comandante; visto ter sido prisioneiro Andres Artigas, nesta peleja morreram mais de 100 insurgentes, perdendo a vida um dos pretendidos comandantes.

Dia 21
Negando-se pela 2.ª vez o major graduado de Milícias Ubaldo Pinto [possivelmente, Ubaldo Pinto Bandeira] com o pretexto de fingida moléstia, a fim de não vir tomar o comando do destacamento da frente, ordenei-lhe portanto, que se retirasse a sua casa, o que praticou, visto conhecer que não fazia a menor falta ao Real Serviço, onde só servia de intrigar, tratar mal a toda a guarnição que o detestava, e aborrecia, tendo motivado varias deserções.

Dia 22
Apresentarm-se 4 desertores que há meses tinham fugado deste campo.

Dia 23
Tendo desertado um dos paisanos deste distrito se lhe raiunou 10 bestas mansas que possuia, em observância das ordens.

Dia 24
Ordenou-se a tapagem dos trapos e cercas dos quartéis, destruído[s] pelas praças do Batalhão que ficaram neste campo, quando marchou para Santana esta divisão.

Dia 25
Recolheram-se os bombeiros de Taquarembó e não dão novidade.

* * *

Fonte
- Arquivo Histórico de Itamaraty, AHI-REE-00918, "Documentos de militares contra Artigas" - Manuscrito, 14 folhas.

Imagem
- "CARTA TOPOGRAPHICA DA PROVINCIA DE SÃO PEDRO DO RIO GRANDE DO SUL" (1868), do Arquivo Histórico do Museu Imperial de Petrópolis, Cota 00330-BR.RS-1868 [ver online]

16/04/2019

Rabón (16 de Outubro de 1818)


Também conhecida na historiografia como Retirada del Rabón, a ação ou combate de Rabón tomou lugar a 16 de Outubro, no seguimento da ofensiva iniciada em Fevereiro pelas forças do Rio Grande, sob o tenente general Joaquim Xavier Curado, sobre Purificacion, Paysandú (tomada a 9 de Abril), e a margem oriental do rio Uruguay. O arroyo de Rabón está 20 quilómetros a sul de Paysandú.

O brigadeiro  João de Deus Mena Barreto é destacado por Curado a comandar uma vanguarda do exército da capitania do Rio Grande e defronta em Rabón a divisão de Fructuoso Rivera, única força oriental presente a leste do Uruguay. Os portugueses obrigam os orientais a encetar uma retirada que dura 12 léguas (60km), assediando-os constantemente.

As fontes são conflituantes na data e no número de efectivos, mas lendo-as, é notavelmente fácil perceber o que aconteceu.

Datas
Isidoro de Maria, no seu Compendio de la Historia de la República, refere que a Retirada de Rabón aconteceu a 3 de Outubro de 1818. No entanto, o relatório onde João de Deus Mena Barreto descreve a ação indica o dia de 16 de Outubro.

Maria indica que Frutuoso Rivera, com os seus 600 homens, defrontou 2000 portugueses. O número é exagerado, conforme indicamos na ordem de batalha, até porque a força portuguesa era uma vanguarda do corpo principal (esse sim por volta de 2 a 3 mil homens).

O uso destas vanguardas pelas forças da capitania do Rio Grande, normalmente atribuídas a um dos brigadeiros comandantes de corpos, eram consistentemente de 500-800, e foi com forças deste tamanho que quase todas as batalhas e ações foram combatidas desde meados de 1816, com a exceção da batalha de Catalán que, pela sua dimensão, requereu todo o exército.
Mesmo na DVR, vinda de Portugal, a vanguarda que foi lançada logo desde a ilha de S. Catarina era constituída por cerca de 700 efetivos. 

Ambos os autores coincidem, no entanto, no que aconteceu, o que permite saber que se referem ao mesmo evento. Adoto a data indicada pelo comandante português, fundamentalmente porque é contemporânea (escrita seis dias após o evento), mas também porque é a parte oficial. Não é de excluir que a confusão de datas, faça referência a um encontro anterior, mas é de presumir que a ação tal como é descrita por ambas as fontes, ocorreu a 16 de Outubro.

ORDEM DE BATALHA

Forças da Capitania do Rio Grande
Brigadeiro João de Deus Mena Barreto

Regimento de Dragões do Rio Grande
Regimento de Cavalaria de Milícias do Rio Pardo
650 praças

(Serviço de vanguarda à Divisão.)

Forças da Liga dos Povos Livres
Frutuoso Rivera

600+ homens

BAIXAS
Portugueses: 1 morto e 5 feridos (2 gravemente) + 650 efetivos (ou +)

Federais: 20 mortos, 2 deles oficiais (40 feridos) (60?) +  600 ou + efetivos
100, entre mortos feridos e extraviados (calculo prudente)


* * *


Carta de João de Deus Mena Barreto ao Ten Gen Joaquim Xavier Curado, 22 de Outubro de 1818

Ill.mo e Ex.mo Snr.

Eu não vou narrar a V. Ex.ª os sucessos de uma ação em que os inimigos tivessem de perder a flor das suas Tropas e todas as coisas que os fazem formidáveis. 

A justa observância que dei as Ordens de V. Ex.ª a maneira por que pus em prática também concebidos detalhes, que tocou a meta da maior prudencial resolução, e militar acerto de um sábio general o valor das nossas tropas; e a retirada dos inimigos resoluto a embaraçar a marcha desta Coluna, é o que eu participo a V. Ex.ª como se ganhasse a mais completa Vitória. 

V Ex.ª tinha confiado às minhas ordens os Regimentos de Dragões e Milícias do Rio Pardo do meu comando estes dois corpos que faziam o todo de seiscentas e cinquenta praças foram por V. Ex.ª destinados a fazer a vanguarda da Divisão, 

[16.10.1818, madrugada]
/ e eles o desempenharam ainda mais na madrugada do dia 16 do corrente em que as nossas avançadas deram sinal do inimigo em tão pequena distância que me não deu lugar mais que a montar, cobrir o campo a toda a rédea e obrar conforme as Ordens de V. Ex.ª anterior recebidas, 

/neste tempo o inimigo ocupava as maiores alturas que nos dominavam: principiava a tirar proibindo as recolhidas de algumas das nossas cavalhadas; e toda a sua força não se podia observar pela desigualdade do Terreno que oferecia proporções para consecutivas emboscadas. 

Nestas circunstancias resolvi destacar o meu regimento, sobre a minha frente, e com Ordem, que dividindo-se aos flancos fizesse as funções de uma forte guerrilha enquanto eu marchava a pequena distância no centro com o Regimento de Dragões prometo a atacar quando o Inimigo oferecesse a frente e desse ocasião oportuna. 

A esta disposição seguiu-se logo o descobrimento do inimigo em número de seiscentos ou mais homens: ele destacou corpos a proteger as suas guerrilhas também aos lados: travou-se um continuado fogo de ambas as partes; e o inimigo não podia resistir bravura dos nossos soldados flanqueadores.

Eu corri ao centro onde o inimigo tinha a sua maior força em ordem de colunas: era forçoso que perdessem o terreno; e não tardou a sua retirada, único meio de escapar ao furor destes dois corpos, que sobejamente têm provado, o maior apego a S. Majestade e reconhecida superioridade às tropas Inimigas. 

O inimigo começou a retirar-se protegido de uma forte retaguarda, que parecia abraçar-se ao fogo dos nossos atiradores: ele tentou verificá-la a passo ou ainda a grande trote sóm.'° Eu não lhe consenti esta Ordem. 

Determinei então que os Corpos atiradores forçassem a sua marcha obrigando a fuga desordenadamente: Eu Ordenei aos Dragões as Linhas de Coluna p.' menear melhor os seus Esquadrões, e a retirar a Batalha q.°° me des embolveçe con a Espada na mão: isto se executou sem haver hum engano: a distancia estava marcada, e a Tropa manobrava como num Campo de Paz onde o Exército não sofre a mais pequena tribulação.

Nesta Ordem, nesta resolução, e a grande galope piquei a retirada do Inimigo pelo espaço de quatro léguas: ele fugiu precipitadamente mas não consegui debandá-lo de todo apesar, que pequenas Partidas se vissem dispersas p. ambos os flancos receosa sem dúvida da Destruição geral que ameaçava a todos os momentos; 

Eu fiz alto quando a maior parte dos nossos Cavalos cansaram inteiramente e o Inimigo ainda fugia como até ali em que viam a sua total ruína. 

Fortuozo fugádo desta maneira perdendo Soldados, deixando os nossos Prisioneiros, e desprezando mais de trezentos Cavalos, nunca tive Vitoria em que ganhasse tanto, escapando com a maior parte, p. Superioridade dos seus Cavalos aos nossos q' V. Ex.ª conhece o estado de fraqueza. 

[Baixas do inimigo]
Do Inimigo pôde-se contar vinte mortos inclusive um Capitão e um Ajudante: Eu calculo a mais porém a distância não deu lugar a um miúdo exame para numerá-los exatamente, Feridos levaram o dobro; pois de três apresentados nos primeiros encontros soube que mais de vinte marcharam nesta qualidade.

[Baixas]
Retomamos os nossos três Prisioneiros e finalmente a perda total do Inimigo, em mortos feridos, e extraviados chegará a cem homens p.' um calculo prudente, a perda da nossa parte limitou-se a um morto e quatro feridos; digo cinco feridos, destes dois gravemente por este motivo Eu rendo as graças ao Senhor dos Exércitos que tanto protege as Armas de S. Magestade.

Eu devo fazer público e para conhecimento de V. Ex.ª a bizarria dos Oficiais, dos Oficiais Inferiores e Soldados dos Regimentos de Dragões e Milícias do Rio Pardo que tive a honra de Comandar naquela ocasião estes Corpos, parecem ter direito a um pequeno sinal em que os deve ter a pessoa de Sua Majestade: p. esta recompensa Eu serei o primeiro a pagar com a mais generosa acção que os Portugueses avaliam sobre todas as beneficiências. 

Eu recomendo a V. Ex.ª com particular distinção ao Ten. Cor. de Dragões Sebastião Barreto Pereira Pinto, o Capitão do mesmo Corpo que serve de Mandante Gaspar Francisco Mena, e em Milícias do Rio Pardo o Ten. Cor. Agregado Francisco Barreto Pereira Pinto, e o Sarg. Mor Graduado Bento Manoel Ribeiro. Todos estes Oficiais são dignos da maior atenção, e portanto merecedores das recomendações de V. Ex.ª a Augusta Pessoa de S. Majestade.

O Capitão Graduado do Regimento de Dragões José Luís Mena Barreto, empregado às minhas Ordens é do conhecimento de V. Ex.ª pela sua aptitude. e reconhecido Valor, que tem provado na presente Guerra: digne-se V. Ex.ª também levá-lo à Presença de S. Majestade. Em relação separada recomendo a V. Ex.ª os Oficiais nela constantes. Eu aproveito esta ocasião de congratular-me com V. Ex.ª por motivo de uma acção que não deixa dúvida dos nossos esforços e lealdade.

Campamento da Real Bragança, 22 de Outubro de 1818
Ill.mº e Ex.mº Sñr Ten. Gen. Com. Joaquim Xavier Curado 
João de Deus Menna Barreto

Archivo Artigas, Tomo XXXIII, pp. 298-300


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Apuntes de Frutoso Rivera

El General Rivera mando en persona las cavallerias orientales en la retirada celebre del Rabón en 1818 suceso que há sido el mas notable en toda la Guerra contra los portugueses españoles e ynperriales por cuanto el Gen.l Rivera llevava un personal de 1700 hombres contra 3800 de las mejores Cavallerias del Continente mandadas por el Te.Te General Juan de Dios Mena Barreto es de notar que las cavallerias unas y otras estavan perfetamente bien montadas; y conbatieron desde las 6 de la mañana hasta las 4 de la tarde, sin que se hubiese podido notar una dispersión por ninguna. por cuanto conbatian en un terreno escaso lo que obligava a los conbatientes a irse a las manos con las espadas y las lansas a cada momento. 
("Apuntes del General Rivera", AGR, in: Apolant, p. 228)

A principios de Octubre el General Curado reuniendo todas sus fuerzas, se puso en marcha al Rincón de las Gallinas, el general Rivera le hostilizó com poco más de 500 hombres; durante la marcha dispuso una atrevida empresa, más no fue completamente feliz por haberse apercibido los-enemigos y preparádose de antemano; el general Rivera acometió las líneas da aquellas com aquel denuedo que le es familiar; más fue vigorosamente rechazado por 2000 hombres de caballería, y se vio precisado a una peligrosa retirada que éterñámente hará honor a les orientales: es claro que toda la división de Rivera debió ser envuelta y destrozada a presencia de una tan enorme masa de caballería; pero la pericia, el valor y el orden la salvaron sin que experimentara más pérdida que 12 soldados muertos, con 2 oficiales íntimos amigos del general Rivera. 
("Memoria de los sucesos de armas...", Versión del MUSEO MITRE. (1811-1820), MMM in: Apolant, p. 274)

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ISIDORO DE MARIA, Compendio de la Historia de la República O. del Uruguay:

«El 29 de Setiembre se movió Curado con la columna por la costa del Uruguay, y el 3 de Octubre se hallaba en la barra del Rabón, confluente con Rio Negro. Allí les apareció Rivera con 600 hombres y no habiendo podido penetrar la columna por estar con mucho cuidado, tuvo que sufrirla carga de 2,000 hombres de caballería sosteniendo una retirada por mas de doce leguas (la famosa retirada del Rabón) que se anduvieron desde la salida del Sol hasta las 4 de la tarde.
En esa retirada mandada personalmente por Rivera, se hallaron el comandante Pablo Castro, los capitanes Julián Laguna, Ramón Mansilla, Tiburcio Oroño, Gregorio Mas, Bonifacio Isas, y ayudantes Manuel Antonio Iglesias y José Palomeque, que se comportaron perfectamente.»

HISTORIA PATRIA

1818 (octubre 4). Famosa retirada del Rabón.
Después de la acción del Queguay Chico, Curado se había dirigido hacia el sur, hallándose el 3 de octubre en la barra del Rabón. Rivera resolvió sorprenderle allí, y marchó contra él al frente de 600 hombres.
Malograda esa operación por la extrema vigilancia de los portugueses, tuvo que emprender una difícil retirada, dirigida com tanto acierto, que logró poner a salvo su ejército, perseguido por Bentos Manuel con 2.000 soldados de la renombrada caballería
riograndense. Batiéndose en Retirada durante diez horas, sólo perdió 12 hombres en un trayecto de 60 kilómetros.


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BIBLIOGRAFIA

- ARCHIVO ARTIGAS, Tomo XXXIII.

- APOLANT, Juan Alejandro, “Apuntes, memorias y notas biográficas del GENERAL RIVERA" in: Boletin Historico, n.º 104-105, Janeiro-Julho de 1965, Estado Mayor General de lo Ejercito, Montevideu. pp. 215-283
- DAMASCENO, Hermano, Ensayo De Historia Patria (Tomo I), 10.ª edição, Barreiro e Ramos, Montevideu, 1955, pp. 409-410
- MARIA, Isidoro de, Compendio de la Historia de la República O. del Uruguay, Tomo IV (1.ª edição), Imprenta de El Siglo, Montevideu, 1900. p. 72

14/03/2019

Batalha de S. Borja: A primeira notícia


Junto apresento a transcrição de um excerto de correspondência onde é apresentada a primeiríssima notícia da batalha de S. Borja, dada por Hipólito Francisco de Paula ao tenente general Joaquim Xavier Curado, que a comunica desde logo ao marquês de Alegrete, em Porto Alegre.

Apenas 6 dias após a batalha ela mesma (ocorrida a 3 de Outubro, leia mais), verifica-se pela narração de Hipólito Francisco de Paula que este se terá apartado da coluna de José de Abreu por volta desse mesmo dia ou no dia seguinte, de forma a cumprir os cerca de 175 km de distância entre S. Borja e o acampamento do rio Ibirapuitã, onde o grosso do exército da Capitania do Rio Grande estava. Os eventos descritos referem-se exclusivamente ao dia 3 de Outubro, parecendo claro que este primeiro mensageiro não assistiu aos eventos que ainda decorreram nos dois dias seguintes à batalha.

«Suposto que não tive parte oficioza do Tenente Coronel Jozé de Abreo sobre o rezultado da diligencia de Missoens, com tudo chega agora Hipolito Francisco de Paula, paizano que se offereceu voluntario para o ataque dos Insurgentes no Distrito de Missoens, dizendo me, que o referido Tenente Coronel Abreo o mandava incumbido da obrigação de dar-me parte vocal do rezultado do ataque, prencipiando no dia trez, the o dia cinco do Corrente, por não lhe ser possivel escrever-me no barulho da acção, remetendo-me com antecipação todos os papeis que forão achados a André Artigas, Comandante da acção, que se escapou.
Este homem enviado narra o seguinte:

= Que no dia tres do Corrente chegou a Coluna comandada pelo Tenente Coronel José de Abreo ás dés Óras da manhãa em frente ao Passo de São Borja, que se achava com quatorze dias de Citio apertado: que logo que o Enemigo avistou a nossa coluna, sahio a encontrar-la, e emboscando-se em hum laranjal atacou-a furiozamente; porem sem efeito por que a nossa Tropa depois de huma Óra de fogo atacou com a espada na mão e destrosando inteiramente // os Enemigos, lhes tomou duas Pessas de Artelharia, e grande quantidades de armamentos: que aquelles que escaparão deste primeiro encontro correrão precipitadamente ao Passo do Uruguay, onde forão novamente atacados, e mortos quase todos, e alguns passarão o banhado de Santa Luzia, e ficarão com a retirada cortada; por que o Butuy, e o Uruguay estando muito cheios lhes prohibe a passagem: e que o tenente coronel comandante hia atacalos; para acabar com o resto dos insurgentes: que se avalia o numero dos mortos dos enemigos em mil homens, quaze todos indios, e mestiços, dous negros, e hum branco, e muitos prizioneiros; e entres estes alguns dos nossos indios, que se tinhão revoltado, sendo o chefe destes o indio João da Cruz; e que outro indio Chará se distinguio muito a favor da nossa cauza: que a nossa perda concistio em sete homens mortos, destes cinco milicianos, e dous da Legião de São Paulo, e doze ou quatorze feridos: que os enemigos tinhão já proximo o reforço pelo o Uruguay, distinado pelo o Artigas, e que já se achava no Passo pronto a desembarcar; porem que o destrosso geral dos Citiantes o brigou a // a retirar-se precepitadamente, sendo perseguido pelos nossos, que meterão a pique huma canoa carregada de tropa; e que os outros Barcos se retirarão pelo o Uruguay abaixo.

Logo que receba a partecipação oficioza do Tenente Coronel Jozé d'Abreo, terei a onra de levar á prezença de V. Ex.ª.»


Fonte
Carta do tenente general Joaquim Xavier Curado ao capitão general Marquês de Alegrete, 9 de Outubro de 1816, in: Arquivo Público do Rio Grande do Sul: Correspondências de José de Abreu, 1810-1825.

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Nota Biográfica
Hipolito Francisco de Paula – Natural do Paraná, e referido em algumas fontes como tenente, terá sido em 1814 o primeiro povoador do Rincão de São Miguel, obtendo a Sesmaria de São Jerônimo, local onde foi criada a fazenda do Pinhal.

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Saiba mais sobre a Batalha de S. Borja e as ações da coluna do tenente coronel José de Abreu em:

Batalha de São Borja (3 de Outubro de 1816)

Ação do Passo de Yapeyú (21 de setembro de 1816)



31/12/2018

Exército do Brasil: Diogo Arouche de Moraes Lara


Diogo Arouche de Moraes Lara foi um dos mais distintos infantes brasileiros, militar e literariamente, que nunca chegou a ver a independência do Brasil. A sua Memória da Campanha de 1816, escrita no acampamento do Quaraí em 1817 logo após os eventos, só seria publicada em 1844, por iniciativa do seu camarada Machado de Oliveira. Foi à estampa 25 anos após o seu autor cair em combate, tentando libertar S. Nicolau, à frente do regimento que comandava.

O tenente coronel Diogo Arouche de Moraes Lara nasceu em S. Paulo em 1789, filho do tenente general José Arouche de Toledo Rendon [na foto] e de D. Maria Thereza Rodrigues de Moraes. 

José Arouche de Toledo Rendon (pai)
Vinha de uma família paulista com grande tradição castrense, sendo o seu avô o mestre de campo (ou coronel) Agostinho Delgado Arouche e seu bisavô o sargento mor Francisco Nabo Freire, nascido em Lagos. Muito pouco é conhecido acerca da fase inicial da sua carreira militar, mas terá estudado matemáticas e, em 1802, com cerca de 13 anos, é nomeado tenente da companhia de caçadores do 2.º Regimento de Milícias de S. Paulo, pelo capitão general da província, António Manuel de Melo e Castro de Mendonça. 

O capitão general seguinte (António José Correia da Franca e Horta, 1753-1823) ainda não havia confirmado a promoção por volta de 1803, mas notou que o tenente servia “sem nota”.  Em Maio de 1803, é inclusive indicado numa nota o oficial que Diogo Arouche vai substituir, Joaquim Pedro Salgado que havia sido agregado em capitão para fora da província.

Legião de S. Paulo

Não é certo quando integra a Legião de Voluntários Reais (também conhecida por Legião de S. Paulo), mas tê-lo-á feito na artilharia, conforme sugere o seu camarada Machado de Oliveira (Oliveira era também capitão graduado na infantaria, mas mais moderno que Diogo Arouche), provavelmente entre 1804 e 1808, tendo-se deslocado para o Rio Grande. Terá passado, previamente a 1809, à infantaria; na Legião, a arma era constituída de 8 companhias em 2 batalhões. 



Certo é que, a 27 de Junho de 1809, é promovido a alferes de 4.ª Companhia do 1.º Batalhão de Infantaria da  Legião de Voluntários Reais, de sargento (não indica mais nada, pelo que poderemos aferir que era também de infantaria).

Não é certo de que forma se relaciona o facto de Diogo Arouche Moraes Lara ter sido tenente de milícias e depois, passado a uma unidade de linha, ou como sargento ou até assentado praça. Pode ter sido que a promoção não foi confirmada pelo novo capitão general, ou uma muito incomum despromoção de oficial, ainda que passando da 2.ª à 1.ª linha. A primeira possibilidade é a mais certa, pois não tenho conhecimento de nenhum caso semelhante na segunda senão por punição disciplinar (e ainda assim, para um jovem cavalheiro, a demissão era preferível).

Participa na campanha de 1811-1812. Machado de Oliveira indica que Moraes Lara, então ou alferes ou tenente serviu como parlamentário com grande distinção. 

A 13 de Maio de 1813, na promoção geral após a campanha, é promovido a ajudante do 1.º Batalhão de Infantaria da sua unidade. Ajudante era o assistente do sargento mor, em matéria administrativas e logísticas e estaria ao nível de tenente.

A Campanha de 1816

A 25 de Julho de 1814, é graduado em capitão de infantaria na Legião. Serviu como diretor do Arsenal de Porto Alegre, mas em 1816 retorna à Legião na área do Rio Pardo para servir na campanha iminente. 
Os dois cargos em que serve neste período são indicativos de uma forte competência em termos administrativos, seja como ajudante do major do seu batalhão, seja gerindo o arsenal da capital da província.

Com 27 anos, é capitão graduado de infantaria da Legião e participa da batalha de Catalán [saiba mais], onde segundo Machado de Oliveira, Moraes Lara comanda uma das partes da carga de infantaria na parte final da batalha que ajudou a derrotar o ataque principal oriental: 

“[...] e posto enfim à frente de uma massa de infantaria penetrou o bosque, em que se entrincheirara uma grande parte da infantaria inimiga, e donde sustentava um fogo mortífero contra a espalda do acampamento, bateu denodamente esta força, e obrigou-a a aceder depois de vigorosa resistência, rendendo-se mais de 200 prisioneiros.”

Já no acampamento do Quaraí, em 1817, Diogo Arouche Moraes Lara escreve uma das mais importantes fontes dessa primeira fase do conflito, especialmente em Entre Rios e Missões. 
Os mapas que lhe vem anexos são preciosos croquis das batalhas de S. Borja, Arapéi e Catalán. 

Ainda que escrito em 1817, o manuscrito só em 1844 reemerge pelas mãos de José Joaquim Machado de Oliveira, que o transcreve e faz publicar na revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (RIHGB), em 1845, assim como uma biografia de Diogo Arouche, a qual, pela sua proximidade ao oficial, dou mais valor, ainda que a mesma esteja longe de exata ou precisa.

A 22 de Janeiro de 1818, é promovido a Capitão efetivo, no comando da 1.ª Companhia do 1.º Batalhão da sua legião, o lugar de maior prestígio para um oficial da graduação dele. Já agora, o seu camarada e biógrafo Machado de Oliveira era o comandante da 1.ª Companhia do 2.º Batalhão.

Já próximo do final da guerra, por volta de 1818-1819, é promovido a tenente coronel, no comando do recém-criado Regimento de Milícias Guarani a Cavalo, de Missões, formado a partir das companhias de milícias a cavalo de Missões (8 de guaranis e 3 de brancos, originalmente), que vinham já de 1811.

Morre em combate, a 9 de Maio de 1819, com cerca de 30 anos. em S. Nicolau, no comando do seu regimento, ao tentar reocupar o aldeamento às forças orientais. Algumas fontes dão-no como não tendo ainda cumprido o seu 30.º aniversário, sendo que assim terá nascido entre Junho e Dezembro de 1789.

Memória(s) da Campanha de 1816

No manuscrito da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro [conheça aqui, abre nova janela], está ao início uma Advertência que, quando da publicação em 1845, foi omitido ou não existia no manuscrito usado por Machado de Oliveira. Seja como for, aqui a transcrevo, convidando também  ler a versão publicada na RIHGB, em 1845, que pode ser lida aqui:


Advertencia.
O Amor da Patria, e do meu Soberano me faz tomar o maior interesse por tudo quanto he util, e gloriozo para ambos. A Campanha d' 1816 feita pelas Tropas da Capitania do Rio Grande de S. Pedro do Sul, he pelas brilhantes acçoens militares nella havidas hũa das muitas que fundamentam a digna reputação das Armas Portuguesas, a Gloria Nacional, e a de El Rey D. João 6.º. E dezejando conservar a memoria de tão brilhantes acçoens, assim como os respeitaveis nomes de tantos heróes, q nella fizerão-se remarcaveis, me propuz a escrevêla; e puz em pratica o meu dezejo, prevalecendo o Patriotismo às dificuldades, que me apresentavão as faltas de talentos, e dos conhecimentos precizos de todas as particularidades, que as partes officiaes das mesmas acçoens militares não mencionão, e que exigião pennoza investigação para alcansallas, muito principalmente em meio dos tumultos de hũa guerra activa. Escrevi pois como pude, e expuz os factos taes, e quaes conheci, sem me poupar ao trabalho de investigar a verdade; ficando-me sempre o pezar de o não poder fazer com aquela elegancia, que meresse tão grave assumpto: estimarei porem, que hũa pena digna delle, podendo-se aproveitar da noticia que dou daquelles acontecimentos, os descreva de maneira, que se eternizem os nomes dos meos honrados Patriotas, que trabalhárão com distinção naquella memoravel Campanha, e chegue ao conhecimento das geraçoens vindouras a prezente gloria do meu Rey, e da minha Patria. 
O Autor

Não existe, tanto quanto sei, um retrato de Moraes Lara, o que muito completaria a ideia de quem foi o militar, sempre muito baça pelas lentes do tempo.

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Imagem de topo
- Várzea do Carmo (Arnaud Pallière). fonte: Wikicommons. São Paulo, 1821.

Fontes
- Gazeta do Rio de Janeiro
- LARA, Diogo Arouche de Moraes – Memória da Campanha de 1816, in Revista do Instituto Histórico e Geographico Brasileiro, Tomo VII, n.º 26 – Julho de 1845, p.: 123 a 170, terceira edição, Rio de Janeiro ; imprensa Nacional, 1931, p.: 123 a 170.
- ------------ - Apêndice à Memória da Campanha de 1816, in: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo VII, n.º 27 – outubro de 1845, p.: 263 a 317, terceira edição, Rio de Janeiro ; imprensa Nacional, 1931, p.: 363 a 317.
- OLIVEIRA, José Joaquim Machado de, Breve Noticia Biographica sobre o Auctor da Memoria da Campanha de Artigas, in: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo VII, n.º 27 – outubro de 1845, terceira edição, Rio de Janeiro ; imprensa Nacional, 1931, pp. 256-262.

- BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento, Dicionario Bibliographico Brazileiro, v. 2,Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1883. pp. 175-176
- BOEIRA, Luciana Fernandes, Como Salvar do Esquecimento os Atos Bravos do Passado Rio-Grandense: A Província de São Pedro Como um Problema Político-Historiográfico no Brasil Imperial (Tese de doutoramento), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2013pp. 162-163
- CEZAR, Adilson, "Elogio de Adilson Cezar a seu patrono Ten Cel Diogo Arouche de Morais Lara". in: O Guararapes, Órgão de Divulgação das Atividades da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, Aditamento ao N.º 42, Julho e Setembro 2004, http://www.ahimtb.org.br/guarara42a.htm. página de internet [31.1.2018]
- SILVA, João Manuel Pereira da , Os varões illustres do Brazil durante os tempos coloniaes. 2 tom. [t. 1], (3.ª Edição),  Rio de Janeiro: B. L. Garnier. 1868