quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Combate de Santana (22 de setembro de 1816) - Parte I



O tenente general Joaquim Xavier Curado, comandante da fronteira do rio Quaraí, com quartel general junto ao rio Ibiripuitá Chico, a norte da atual cidade de Santana do Livramento, destaca, a 20 de setembro de 1816, dois esquadrões dos Regimentos de Dragões do Rio Pardo (150)  e de Milicianos (180), sob o comando do capitão Alexandre Luís de Queiroz, para observar e bater uma partida da orientais que “hostilizava o paiz em proximidade da guarda de Sant’Anna.” (Lara)

O resultado deste reconhecimento foi um embate com a vanguarda do exército oriental de Artigas e a descoberta do seu acampamento na área. 

Os oficiais portugueses decidiram combater enquanto tal fosse possível e retiraram depois para norte a informar o general Curado do que descobriram.

Este é o relatório do capitão Alexandre Luís de Queiroz, que comandou a força geral.

Arroio de Ibirapuitá, 22 de setembro de 1816.

Santana do Livramento
Illmo. e Ex.mo Snr - Devo participar a V.Ex. que era cumprimento das Ordens que por V. Exª me foram intimadas passei a explorar as imediações do Ibirapuitá, e mandando espias à Cochilha que se avizinha ao Morro de Santa Ana d'ali voltaram a participar-me que se avistava não só diferentes espias dos Insurgentes, senão que haveria acampamento imediato.

Com esta noticia que a comuniquei ao Capitão Sebastião António de Bulhões Liote assim como ao Tenente Anacleto Francisco Gularte,  aquele Comandante do Esquadrão de Dragões, e este do de Milícias; entre todos combinamos o meio de atacar os Inimigos na esperança de os derrotar totalmente, ao que nos animava o geral desejo que para isto manifestava até o último Soldado.  

No dia 22 do corrente nos pusemos em marcha para aquele lugar fazendo então a frente avançada o Tenente Anacleto com os milicianos que comandava.  Eu com minha Partida seguia a sua retaguarda, e o esquadrão de Dragões em alguma distância passa a reserva.

O Tenente Anacleto pode avistar alguns Bombeiros do Inimigo, os quais pondo-se logo em fuga parece chamava ao encontro das suas forças; e com efeito perseguindo o mesmo Tenente aqueles Espias das quais pode apanhar dois se apresentaram na Cochila que não distava o número de 200 homens, que sendo por mim vistos me adiantei com a minha Partida; e do dito Tenente, e sem mais consulta dirigimos  a marcha ao Inimigo que dando a primeira descarga se puseram em vergonhosa retirada que sendo por mim picada foram mortos na distância de meia légua trinta e tantos homens, sem o menor prejuízo da nossa parte;  

Quando porém do mesmo acampamento dos Inimigos digo dos insurgentes que se achavam na distância de uma quadra, saiu o reforço de Infantaria e Cavalaria que empenhando as suas forças para nos flanquearem a direita e esquerda nunca lhes foi possível conseguirem apesar do vivo fogo que pela frente nos fazia a bem ordenada Infantaria, a este tempo se reuniu o Esquadrão de Dragões comandado pelo Capitão Sebastião António de Bulhões Liote que tomando o flanco direito formou-se em Batalha apesar do mau terreno. Então o Inimigo empenhou as suas forças sobre este Esquadrão, e forcejando a ganhar-lhe o flanco direito sempre foi repelido pelo vivo fogo que os Dragões em linha constantemente fizeram.  

Deste empenho que o Inimigo mostrou em cortar aquele   corpo com todas as suas forças, resultou o maior número de mortos e feridos que o Tenente Gaspar Francisco Mena participara a V. Ex.ª se bem que o Inimigo experimentou grande  perda. Este Oficial bem longe de lhe fazer terror o grande número dos inimigos, e a melhor situação para a vantagem, se entusiasmou furioso, cujo exemplo seguiu o Tenente José Rodrigues Barbosa, e o Alferes José Luiz Mena Barreto ordenado o ataque até que finalizemos as munições, neste tempo crescia o socorro do Inimigo, e nos achávamos com os  cavalos em estado de não poderem avançar  com a Espada na mão, portanto tomámos a deliberação fazer-mo-nos em retirada continuando a fazer-lhe fogo defendendo assim a Cavalhada sobre que o Inimigo se empenhava.  

Pouca distância nos seguiram, e tenho a honra certificar a V.Ex.ª que no Campo do combate ficaram mortos da parte inimiga o numero de 100 homens pouco mais ou menos, e da nossa parte alguns ficaram feridos, e um morto da minha Partida.  

O Inimigo está acampado, e é de esperar que ou mude de posição, ou reúna ali todas as forças; mas sejam elas quais forem não atemorizaram os Valerosos Dragões, e os fortes Milicianos.  

Não posso menos que louvar o valor com que se portou em toda a acção o Sargento da Legião de São Paulo António  Luiz Pizarro, e seria faltar a justiça ao merecimento deste combatente que tanto operou. Fico por toda a Margem do Ibirapuitá dando o preciso descanso e alimento aos Camaradas, e Cavalos, e aqui espero as Ordens de V. Ex.ª a quem Deus Guarde. 


Campo 22 de Setembro de 1816 = III.mo e Ex.mo
Snr Tenente General Joaquim Xavier Curado= 

Alexandre Luiz de Queirós



Relação dos Mortos e feridos de Milícias neste Ataque

3 Soldados Mortos

Feridos
O Tenente Anacleto Francisco Gularte
Os Alferes Francisco das Chagas Rocha
Antonio Garcez de Moraes
1 Furriel, e 14 Soldados; entre estes 3 de perigo


SANTANA (22/9)

MORTOS FERIDOS
Ação OFICIAIS PRAÇAS OFICIAIS PRAÇAS
Reg Dragões Rio Grande 3 6 2 10
Reg Mil Rio Pardo 0 5 3 13
TOTAL 5 11 5 23



Fontes

Comisión Nacional Archivo Artigas, Archivo Artigas, Montevideo, Monteverde, 1992, t. 31, pp. 353-367.
- Diogo Arouche de Moraes Lara, “Memória da Campanha de 1816”, in: Revista trimensal de historia e Geographia, ou, Jornal do Instituto Historico e Geographico Brazileiro, n.º 27, Outubro de 1845

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