terça-feira, 3 de setembro de 2019

Memórias do coronel Francisco de Paula Azeredo: V (Final)


Memórias do coronel Francisco de Paula Azeredo: Parte V
Desde a Batalha de India Muerta, a 19 de Novembro, até à tomada de Montevideu e início da ocupação portuguesa.

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Com a chegada ao campo inimigo restabeleceu-se a disciplina nas tropas, que estavam bastante faltas d'ella pela sua longa demora nas Pelotas, o que é sempre muito prejudicial aos exercitos, que marcham em paiz estrangeiro. Não foi dos mais atacados da febre d'indisciplina o regimento que commandava o Coronel Azeredo.

Em pequeno numero foram as deserções, e insignificantes as faltas commettidas. Para isto concorreu essencialmente o exemplo e firmeza do Coronel. Para poder punir os soldados apresentou para modêlo a sua propria conducta, e começou castigando as faltas dos officiaes mais graduados do seu regimento. ".

O Tenente-coronel João Chrysostomo Calado, sem solicitar licença, ausentou-se por tres dias, indo á villa do RioGrande. No seu regresso, o Coronel mandou-o immediatamente prender, e deu parte ao Commandante da brigada o Brigadeiro Francisco Homem de Magalhães Quevedo Pizarro: esta falta foi publicada em ordem do regimento, e d'ella aproveitou o reprehendido, que tendo sido sempre um official valente, se tornou depois irreprehensivel.

Ainda então estavam presentes na memoria de todos os officiaes, que faziam esta campanha, as ordens do dia do exercito do Marechal-general Lord Beresford, que nas de 23 d'outubro e 2 do dezembro de 1810 manda lançar a nota de desertor ao official que se conservar ausente do acampamento mais de vinte e quatro horas. Tão sevéro era em punir como indulgente em perdoar, quando a voz da clemencia se podia escutar sem prejuizo da disciplina.'Tambem não soffria a menor quebra na sua dignidade como commandante do regimento, não consentindo que se executasse ordem superior, que lhe não fosse communicada directamente, e tambem intercedia sempre pelos seus subordinados, quando via que os superiores os vexavam sem razão. Isto o tornou amado de officiaes e soldados, que o acompanhavam alegres e cheios de confiança.

Depois dos acontecimentos que acima se referem, teve logar o combate da India-Morta, em que o regimento d'infanteria n.° 2 não tomou parte. Westa acção commandou o General Manoel Sebastião Pinto d'Araujo, e combateu n'ella com grande denodo, como costumava, o Major Jeronymo Pereira de Vasconcellos, estando gravissimamente enfermo quando entrou em fogo : depois d'esta acção passou este official para o regimento do commando do Coronel Azeredo.

A marcha da brigada foi demorada, estacionando por muitos dias nos diversos acampamentos em Roxa e em S. Carlos. A estação era magnifica, pois a marcha se fez desde e mez de novembro até ao fim de Janeiro de 1817, em que as tropas deram entrada na praça de Montevideu ; comtudo este paiz é por tal forma açoitado pelos ventos do poente, chamados pamperos, que mesmo n'esta estação a permanencia nos acampamentos se tornava muito incommoda.

N'essas solidões immensas, regadas pelo Uruguay e pelos seus confluentes, sob o ceo do Cruzeiro, a vida dos expedicionarios se passava na monotonia dos campos, varados pelos ventos, batidos pelas trovoadas, ensopados pelas chuvas meridionaes.

Ahi as saudades da patria, augmentadas pela immensa distancia que a separava, eram exacerbadas pela falta de conforto, pelo máo sustento, pela pequena e demorada paga. O pão era de péssima qualidade, e ainda assim diminuido de seis onças de pêzo sobre o que determinava a ordenança; o serviço do commissariado era feito só com a mira no ganho immoral; e a carne mesma, não obstante a abundancia do paiz, era por vezes tão ruim, que os soldados a recusavam, e não tinham que comer. No meio d'estas inclemencias e contrariedades, o regimento do commando do Coronel Azeredo não leve um unico desertor desde a sua marcha das Pelotas pelo pontal de S. Miguel, onde os dois paizes s'extremam, até á praça de Montevideu, sobre o rio da Prata: por este motivo, o Capitão-general commandante em chefe elogiou, em ordem de divisão de 7 de março de 1817, o excellente comportamento do Coronel e do regimento que commandara n'esta longa e penosa marcha.

A cidade de Montevideu, edificada n'uma peninsula, tem um aspecto risonho pela sua construcção em amphitheatro: suas ruas não são calçadas, e as casas tem apenas um andar com terrassos servindo de telhados. A falta d'aguas a que está sujeita, obriga os habitantes a aproveitar aquellas que provém das chuvas, que recolhem em cisternas. No tempo em que a expedição portugueza chegou ao Rio da Prata estava Montevideu n'um estado florescente: mais tarde as guerras continuas, os bombardeamentos e as devastações não interrompidas tem enfraquecido o seu primitivo esplendor. Não obstante todos estes desastres e calamidades, as republicas argentinas tem progredido, e segundo a descripção de mr. Martin de Moussy, a civilisação e os fructos da liberdade mesmo incompleta apparecem por cima das ruinas e dos massacres.

Ao contemplar o vasto golfo do Rio da Prata, o Coronel Azeredo não pôde deixar de sentir a impressão d'enthusiasmo que transparece nos cantos inspirados de Cooper, Echeverria e Gongol, poetas que de diversas regiões do globo vieram celebrar as grandezas do vasto imporio das aguas do Uruguay e do Paraná, e prestar a sua admiração ás interminaveis planicies, e aos pampas, de que se compõe este paiz na sua magestosa uniformidade, cujos limites são só o horisonte. Um porto de mar com uma abertura de cincoenta legoas e com a extensão de sessenta, deve ser o mais admiravel panorama. Assim elle serve de ponto de reunião ás esquadras de todas as nações da terra, e pelos rios que n'elle desaguam são levados e conduzidos os productos d'importação e exportação d'esta vasta e esplendida região, a que Martin de Moussy déra o nome de Mesopotamia argentina.

Esta bella região tem sido o theatro de guerras devastadoras. Na época em que os portuguezes foram ao Rio da Prata, a historia das suas luctas estava apenas em começo. Artigas assolava as ricas provincias argentinas, declarando-se o defensor da liberdade e dos povos. O exercito portuguez veio tomar parte nesta lucta, e apesar de manter inalteraveis os seus creditos grangeados noutras campanhãs, não concorreu senão para aggravar as desgraças da mãe patria, pelas despezas que lhe causou sem proveito algum, e com prejuizo, porque da oceupação de Montevideu tirou a Hespanha pretexto para não restituir Olivença depois da paz geral, como se estipulou no tratado de Vienna.

Os louros ceifados nos campos de batalha na longa lucta da peninsula pelo exercito portugues, não murcharam nas planicies do Rio da Prata, e o estandarte da cruz quinqnipartida manteve-se glorioso; mas dos sacrifícios e fadigas dos portuguezes só tirou proveito a ingrata colonia brazileira, que rasgou as entranhas da mãe, que a concebêra. Mais tarde ella mesma teve de perder a conquista que lhe grangearam as armas portuguezas, porque o seu funesto exemplo foi seguido pela antiga colonia hespanhola; teve ella de amargar durante quatro annos de anarquia sanguinaria a sua emancipação, para depois se entregar durante vinte annos ao despotismo furioso de Rosas, até que vencido por Urquizà, se fez a constituição de Santa Fé, que hoje prepara melhojes destinos ás vastas provincias argentinas.

Apenas entrada a expedição em Montevideu foi o regimento commandado pelo Coronel Azeredo, e que fazia parte da brigada capitaneada pelo Rrigadeiro Pizarro, destinado para a guarnição da praça, fazendo destacamentos sobre o forte do Serro e varias ilhotas, que ha na bahia. O tempo se passou no serviço de guarnição, adoçado por.não interrompida serie de divertimentos e bailes, em que os habitantes da cidade muito se deleitavam, como é habitual em todos os povos que participam do sangue hespanhol.
O serviço do exterior da praça era feito pela primeira brigada. Pertencia-lhe vigiar o inimigo, que se abrigava nas circumvisinhanças do recinto, e cobrir a praça. Faziam-se sortidas de tempos a tempos, e estas traziam o proveito de se fazerem prezas no campo inimigo.


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Retirado de: AGUILAR, Francisco D’Azeredo Teixeira D’, Apontamentos Biographicos de Francisco de Paula D’Azeredo, Conde de Samodães, Porto, Tip. Manoel José Pereira, 1866. pp. 82-sg

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