sábado, 7 de setembro de 2019

O Filho do Marechal


Sebastião Pinto de Araújo Correia nasceu em Viana do Castelo e era, em Novembro de 1813, aos 28 anos, o coronel do Regimento de Infantaria n.º 18, promovido apenas três meses antes. Estava a sua divisão e o Exército nas margens do Adour, defronte de Bayonne, já bem dentro de França. Pequeno nobre do Minho, o mais velho de sete irmãos, era primo de D. António Araújo de Azevedo, antigo ministro da guerra em Lisboa, o que ajuda a explicar ser coronel a uma idade tão precoce. Ainda assim, Sebastião Pinto havia sido prejudicado na antiguidade, por via de um ferimento na cabeça na batalha de Fuentes de Onoro, no dia 5 de maio desse 1811, no comando de Caçadores 6. Esteve 4 meses e meio com parte de doente. Outros tenentes coronéis promovidos de 1809, alguns que conheceremos mais à frente, obtiveram a patente de coronel em 1812, um ano antes.



A 6 de novembro, o  novel coronel de Infantaria 18 pediu e recebeu uma licença de três meses para recuperação em Portugal de uma moléstia que padece, resultado decerto do ferimento em 1811, mas a mesma é posteriormente alterada para ir ao Rio de Janeiro, para tratar na corte assuntos da sua casa. O coronel Pinto viaja para Portugal e não volta ao exército em operações na França para a campanha de 1814.



Ainda que concebamos que a visita de Pinto à corte fosse simplesmente em busca da devida recompensa de um herói da guerra, ferido no serviço real, por especial deferência do seu mentor e ‘pai’, o marechal Beresford, fica também claro que essa estadia se tornou depois em diligência do real serviço, não só decerto pelo transporte dos decretos e demais correspondência a Lisboa, mas por ter dado o seu conselho profissional ao Principe Regente e ao marquês de Aguiar.



Parece também provável que Sebastião Pinto tenha sido autorizado a ir ao Rio de Janeiro, em vez de voltar à campanha, isto é, já de um forma oficiosa, em diligência de serviço. É estranho que um comandante de regimento, por mais protegido que fosse, seja especialmente autorizado a permanecer em licença por 3 meses mais que o inicialmente, sendo depois autorizado a ir o Rio de Janeiro.



No âmbito da divergência de interesses lusos-britânicos que se processava desde finais de 1813, com o afastamento definitivo de uma ameaça francesa sobre Portugal, Beresford terá enviado Pinto com ofícios, à laia de guarda avançada, de forma a recuperar alguma da autoridade face à regência. Nada melhor que enviar um heroi de guerra, oficial de potencial e ferido até numa grande batalha, além de primo de um dos ministros.



As circunstâncias dão a volta, porém, quando Sebastião Pinto participa na idealização da divisão e traz os ofícios, acaba por minar mais ainda a autoridade do marechal general, ainda que não o desejasse. A vontade do Príncipe Regente supercede todas as outras, e a necessidade de pacificar a Banda Oriental e Artigas era o mais importante agora para Portugal, na nova configuração europeia que se esboçava em Viena.



O coronel Pinto tem feito sempre remarcáveis serviços à sua Pátria,” recomenda António de Lemos Pereira de Lacerda, secretário militar do marechal Bereford, a D. António Araújo de Azevedo em carta de 4 de maio de 1814, que Pinto mesmo transportou. Sebastião Pinto parte para o Rio de Janeiro pouco depois dessa data. Lacerda salienta que o seu recomendado “tem constantemente merecido a amizade, e consideração do Chefe do Exercito, que o ama tanto, que se chega a denominá-lo: o filho do Marechal”. É também em abono de Sebastião Pinto que Lacerda intercede por justiça ao seu recomendado, por este  ter entregue os seis irmãos ao serviço do soberano:



Os seus sentimentos a respeito da boa cauza da Monarquia não se limitarão unicamente a servir elle; mas tinha seis irmãos, e todos seis entregou ao serviço do Exercito, e todos seis tem alcançado pelo seu comportamento os Postos em concequencia do bom conceito que tem merecido. Sebastião Pinto como bom irmão os pôs na estrada da honra, e ali os tem cuidadosamente alimentado á custa de sacreficios, e de grandes despezas; e estas, unidas as que elle com sigo proprio tem feito, não podem deixar de ter muito deteorado os seus fundos. Elle aí vai, tem a V. Ex.ª por Parente, e Amigo, e Protector, e tudo se remediará, e o seu merecimento será premiado, porque o nosso Augusto Soberano se não ha de esquecer de fazer justiça.



Tendo sido ferido na cabeça numa das batalhas mais famosas da Guerra Peninsular, Pinto considerou possivelmente que seria uma oportunidade para se apresentar a sua Alteza Real o Príncipe Regente e pedir que se lhe faça justiça. O coronel Pinto vai obter exatamente o que pretende no Rio de Janeiro, uma espécie de debutância na corte, com a proteção do seu primo D. António, ministro do reino no Brasil. A corte está fora de Portugal há já seis anos e apresentando-se um verdadeiro heroi da Guerra europeia, este é recompensado. No aniversário da rainha D. Maria, a 12 de outubro, Sebastião Pinto é promovido a brigadeiro, obtendo o avanço que pretendia.



Já Sebastião Pinto navegava no mares do Atlântico sul, na sua “estrada da honra”, em direitura ao Brasil, o exército português em operações, fora do país desde maio de 1813, celebra a rendição de Soult, o fim da Guerra Peninsular e o exílio de Napoleão em Elba e começa a percorrer a sua estrada do triunfo de regresso à pátria. 

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