07/08/2019

Resumo das principais operações militares das Tropas de Guarnição de Montevideu (1 de Abril a 22 de Novembro de 1823)



Com a proclamação da independência do Brasil, a 7 de Setembro de 1822, muitos oficiais, sargentos e praças da Divisão de Voluntários Reais escolheram o serviço brasileiro. O próprio comandante em chefe, o tenente general Carlos Frederico Lecor saiu, dois dias depois, a 9 de Setembro, tendo aclamado o novo imperador Pedro I e tomado o comando das forças brasileiras na Cisplatina, passando a sitiar Colónia e Montevideu.

Apesar de se poder afirmar que os acontecimentos revolucionários intestinos à divisão desde 1821 tiveram um papel fundamental em iniciar esta ruptura dentro da unidade, a situação era agora algo diferente e infinitamente mais clara. Apesar disso, muitos dos que escolheram passar a servir o Brasil, eram os mesmos que apoiavam Lecor contra o Conselho Militar e, em grande medida, contra as Cortes Constituintes de Lisboa.

Ainda assim, o remanescente das Divisão dos Voluntários Reais, sob o comando do brigadeiro Álvaro da Costa de Sousa Macedo, manteve a posse da cidade de Montevideu e ficou sujeita a um sítio que durou até finais de 1823, aquando do armistício local, e da evacuação em Março de 1824, no que foi a saída do último contingente português do território brasileiro, no âmbito da guerra da independência.

Em seguida apresento a transcrição, contendo uma memória das várias operações militares portuguesas que ocorreram durante grande parte do ano de 1823.
A transcrição foi retirada da Gazeta de Lisboa, mantendo-se a ortografia original.

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Resumo das principais operações militares das Tropas de Guarnição de Montevideo, commandadas pelo Brigadeiro D. Álvaro da Costa de Sousa de Macedo; extrahido das diferentes Ordens do Dia desde o 1.° de Abril até 22 de Novembro de 1823.

[13.4.1823]
«A 13 de Abril o Commandante das forças passou revista a differentes corpos, os quaes pela sua rigorosa disciplina, asseio, e bella execução das suas manobras, merecerão os mais distinctos elogios. Nesta occasião fez o Commandante o elogio do Mestre Pratico Manoel Joaquim da Costa, que no dia 27 de Março ajudado de seis Marinheiros reprezou huma lancha de que os inimigos em Maldonado se servião para hostilizar a Guarnição de Montevideo.

[14.4.1823]
No dia 14 partindo hum destacamento de 100 homens, ás ordens do Major José Joaquim Pacheco, a proteger hum corte de lenhas, conseguio com 10 Praças desalojar 40 e tantos homens do inimigo, de huma casa, e o obrigou a desamparar o passo do arroyo Miguelete em frente da Ferraria, com a perda de hum soldado morto e 3 feridos, sem que este pequeno destacamento soffresse casualidade alguma.

[19.4.1823]
«No dia 19 teve lugar o combate de Saladeiro de Duran, entre as tropas dissidentes Brasileiras, e as Reais Portuguesas de Montevideo dirigidas pelo Tenente Coronel João Joaquim Pereira do Lago, as quaes constavão de hum Esquadrão do 1.º Regimento de Cavalaria de V. R. d'El-Rei, commandado pelo Major João Nepumeceno de Macedo; de outro do 2.°, commandado pelo Capitão João Baptista de Oliveira; das Companhias de Cavalaria do Comando do Major D. Manoel Oribe e Capitão D. Caetano Rodrigues, do Corpo de Milícias de Canelones, do Commando do Coronel D. Bonifácio Vidal; e apoiadas por 100 homens do 1.º Regimento de Infantaria, commandados peio Major José Joaquim Pacheco; e pela 3.ª Companhia de Cavalaria de linha do Commando do Capitão João Peres.
Huma completa victoria coroou os esforços destas valoriosas tropas, e o inimigo retrocedeo precipitadamente com a perda de 20 mortos, e muitos feridos, deixando algumas armas e cavailos, e seis prizioneiros no poder dos vencedores.

«Merecem particular menção alguns Officiaes que neste combate adquirirão novos títulos á estima dos seus compatriotas; a saber: o Tenente Coronel João Joaquim Pereira do Lago, Commandante da columna que traçou o plano da acção; o Major João Nepumeceno de Macedo, do 1.º de Cavallaria, que se distinguio particularmente; o Major D. Manoel de Oribe, que attrahio com grande destreza o inimigo á cilada preparada; e o Capitão João Baptista de Oliveira, do 2.º Regimento de Cavallaria; o Commandante elogia altamente todos os mais Commandantes dos Corpos, Officiaes, Officiaes Inferiores, e soldados. A nossa perda foi só de hum Anspeçada ferido por hum próprio camarada.

[8.5.1823]
«A 8 de Maio marchou o Tenente Ajudante Leonardo de Sousa Leite á testa de hum destacamento do 2.º Regimento de Infanteria da Divisão de V. R. pela Sanja até em frente da casa da Ferraria, e encontrando huma partida inimiga a poz em completa fuga, ferindo-lhe dois homens.

[11.5.1823]
«No dia 11 a segunda Companhia de Granadeiros do dito Regimento, commandada pelo Tenente Lopo José Corte Real;  parte do 1.º Batalhão dos Libertos d'El-Rei, commandado pelo Capitão Joaquim de Sousa Pinto com 1 peça d'artilharia dirigida pelo 2.º Tenente Joaquim José Ribeiro, conseguio desalojar o inimigo em numero de 140 homens da Chácara do Presumido. Esta força que o Tenente Coronel Lopo José Corte Real, acompanhado pelo Official Superior do dia o Major José de Barros e Abreu, fez marchar para naquelle ponto proteger os forregeadores, desalojou depois huma partida que occupava a Ferraria. 

[12.5.1823]
O Capitão António Silvestre de Sousa, do 2.° Regimento de Infanteria, distinguio-se no dia 12 no piquete do centro de Casavalle, onde na emboscada em que se achava ferio alguma gente ao inimigo, e lhe tomou hum prizioneiro.

[13.5.1823]
«No dia 13 de Maio, por ser o fausto anniversario de S. M. se formarão as tropas da guarnição de Montevideo na Praça do Cabildo em grande Parada, Commandadas pelo Tenente Coronel João Joaquim Pereira do Lago. As três salvas do estilo em todas as fortalezas, e embarcações da Esquadra Nacional, estando tanto as primeiras como as segunda todas embandeiradas, forão além de outros, não equívocos signaes do regozijo com que os bons Portugueses em todos os pontos do globo celebrão este fausto dia.

[18.5.1823]
«A 18 o Coronel do Corpo de Milicias de Canelones, D. Bonifácio Vidal, levando debaixo das suas ordens a 3.ª Companhia de Cavallaria de linha, do Commando do Capitão D. João Peres, 50 homens do corpo de Milicias de Canelones, commandados pelo Capitão D. Santos Casavalle, e parte do Esquadrão das Milicias de Pando debaixo do commando do Capitão D. Joaquim Figueiredo, se dirigio á Estancia denominada de Chocarro, onde se achava huma grande porção de gado protegida por 70 homens ás ordens do Major Felisberto. O inimigo foi atacado nessa occasião com tal denodo por huma diversão que se lhe fez para distrahir a sua attenção daquelle ponto, que soffrendo total destroço, desamparou o campo, e foi perseguido até a Villa das Pedras.
As nossas tropas depois de haverem feito 12 prizioneiros se apoderarão de perto de duas mil cabeças de gado vaccum: a nossa perda foi só de hum Sargento e hum Soldado ferido; e do Alferes das Milicias de Pando, D. Francisco Burgeno que recebeo algumas cutiladas por equivocação de hum Soldado do seu mesmo corpo. Nesta empreza distinguirão-se o Tenente Coronel Jeronymo Pereira de Vasconcellos, commandante do 2.° Regimento de Infanteria da Divisão de V. R. de El Rei, os Majores João Nepumeceno de Macedo, e José de Barros e Abreu, commandantes do 1.º e 2.º de Cavallaria, o 2.º Tenente Joaquim José Ribeiro, Commandante do Parque de Artilharia, o Major Pedro António Rebocho, Commandante do 2.º Batalhão de Libertos, o Major D. Manoel de Oribe, os Capitães D. Caetano Rodrigues, e D. João Peres, Commandantes das 3 Companhias de Cavallaria de Linha , o Coronel D. Bonifácio Vidal do Corpo de Milicias de Canelones, o Capitão D. Simão del Pino, e D. Santos Casavalle que commandavão dois destacamentos deste Corpo, o Capitão D. Joaquim de Figueiredo que commandava parte do Esquadrão de Milicias de Pando, e o Major José Joaquim Pacheco, que com hum Destacamento do 1.º Regimento de Infanteria marchou da Praça para reforçar as posições de Serrito e Casavalle.
O Commandante das forças agradeceo aos Ajudantes de Campo os Tenentes D. Fernando Xavier de Almeida e José de Mendonça David, e ao Capitão do 1.º Regimento de Cavallaria José Maria de Sá Camello o zelo que mostrarão nesta occasiâo.

«O Commandandante das forças faz menção honrosa das excellentes disposições que tomou o Tenente Coronel João Joaquim Pereira do Lago, Commandante do 1.º Regimento de lnfanteria e da columna em Casavalle para proteger, em 20 de Junho o corte de lenha além dos pontos avançados do inimigo; assim como do valor com que o Major do dito Regimento no dia 24 do mesmo mez surprehendeo o inimigo no Saladeiro de Duran, e lhe fez dois prisioneiros, distinguindo-se nesta occasião o Alferes Rodrigo de Sá Valente.

[15.7.1823]
«No dia 15 de Julho pela madrugada tendo o Commandante das forças ordenado hum movimento contra as avançadas do inimigo, este que marchava á descoberta foi atacado e cortado por 70 homens do 2.º Regimento de Cavallaria da Divisão de V. R. de El-Rei ás ordens do Major Commandante deste Regimento José de Barros e Abreu, em cujo seguimento marchava o Coronel D. Bonifacio Vidal com parte das Milicias de Canelones, apoiado por duas companhias de infanteria e pequenos destacamentos de Cavallaria.
A intrepidez destas tropas cujos movimentos forão dispostos pelo Tenente Coronel Jeronymo Pereira de Vasconcellos Commandante do 2.º  Regimento de Infanteria e da Columna em Casavalle, deixou por longo tempo duvidoso o resultado da empreza: o inimigo soffreo notável perda de mortos e feridos além de 16 prizioneiros. A carga e a retirada foi muito habil e corajosamente executada á vista de 200 homens do inimigo que em vão tentarão tolher a passagem.
O Major José Barros de Abreu, e o Coronel Vidal se fiarão acredores de particular elogio pelo seu brioso comportamento.

[20.8.1823]
«A 20 de Agosto o Tenente Coronel João Joaquim Pereira de Lago, Commandante do 1.º Regimento de Infanteria e da columna em Casavalle, marchou com o intento de bater as partidas inimigas que costumavão fazer a descoberta, empreza esta da qual lhe resultou grande credito pela habilidade com que a desempenhou com bastante damno para o inimigo em feridos e tres prisioneiros que se lhe fizerão.

[24.8.1823]
«Na noite de 24 do mesmo mez o Capitão do Corpo de Milicias do Pando D. Thomas Burgueño bateo denodadamente no passo do Carrasco huma partida inimiga, aprisionando-lhe o Official Commandante e 3 Soldados, e protegendo ao mesmo tempo huma porção de gado a que se oppunha o inimigo.

[6.9/17.9/27.9.1823]
«Nos 6, 17, e 27 de Setembro o Tenente Coronel Jeronymo Pereira de Vasconcellos, Commandante do 2.º Regimento de Infanteria e da columna em Casavalle, verificou differentes movimentos sobre o inimigo, fazendolhes nos mesmos dias vários prisioneiros, sem perda alguma da nossa parte.

São elogiados por estas operações o Capitão Manoel Jeronymo Pinto, do 2.º Regimento de Infanteria, o Tenente D. José Vidal, do Corpo de Milicias de Canelones, e D. Santiago Aleman (?) ào mesmo Corpo. He digno de louvor o intrépido procedimento dos Commandantes dos navios de guerra denominados a Restauradora, (Corveta) e D. Maria Thereza (Escuna), isto he, do 1.° Tenente de Marinha José Maria de Sousa Soares, e do 2.º Tenente Procopio Lourenço d'Andrade, os quaes avistando a 10 de Setembro a Corveta Liberal, com bandeira do Governo do Rio de Janeiro (superior em forças aos dois mencionados vasos), fundeada na ponta de Carretas, á vista de Montam, a acommeterão com tal valor que só lhe derão trapo para picar a amarra, e fugir vergonhosamente.
O Commandante das forças louva com muita particularidade o comportamento do 1.º Tenente José Maria Soares, que commandava em geral, e que aproveitando-se do andar da sua embarcação logo deo caça á dita Corveta inimiga até ao Pão de Assucar, onde, apezar de se achar a mui larga distancia da Escuna D. Maria Thereza, a corveta inimiga não se atreveo a offerecer-lhe acção. Os Officiaes e equipagens destas duas embarcações mostrarão nesta ocasião o maior zelo e enthusiasmo por sustentar a honra da Bandeira Portugueza , ea sua lealdade a El-Rei. Esta vantagem briosamente adquirida pelo Primeiro Tenente da Armada, José Maria de Sousa Soares, foi precursora de outra de maior importância e maior renome. Tendo-lhe ordenado o Commandante das Forças, que com os Navios de guerra debaixo do seu commando se fizésse de vela, e atacasse os Navios inimigos que fazião o bloqueio de Montevideo, verificou-se o ataque no dia 21 de Outubro á vista dos habitantes da Cidade, e de grande número de estrangeiros nella residentes. Não obstante os vasos inimigos serem 6, e os nossos só 4, tendo os primeiros a seu favor o barlavento, travou-se o combate com denodo e crédito das nossas armas: os vasos inimigos perdendo grande parte das amarras, fizerão-se de vela com a maior precipitação.

«Não deixaremos em ingrato silencio os nomes de muitos Officiaes que nesta acção se fizerão distinctos. Além do Commandante Geral assignalárão-se pelo seu valor os commandantes da Corveta Restauradora , do Brigue Fausto, e Escuna D. Maria Thereza; os segundos Tenentes João Caetano de Bulhões Leotte, Procopio Lourenço de Andrade, e Pedro António da Silva os Pilotos das differentes embarcações também se distinguirão pela sua actividade no desempenho dos seus deveres. Desempenharão perfeitamente o conceito adquirido os destacamentos que levavão o seu bordo da Divisão de V. R. El-Rei, Brigada Real da Marinha, e dos Batalhões de Libertos.
O Commandante geral das embarcações de Guerra o 1.º Tenente da Armada Real José Maria de Sousa Soares, faz particular menção do serviço que fes nesta occasião o 2.° Tenente Procopio Lourenço de Andrade, Commandante do Brigue Fausto, que por falta do Alferes António Lourenço Marques Silva, cuja morte foi muito sentida, e pelos inconvenientes que tiverão o Piloto e Escrivão, ficou só attendendo a tudo, è mostrou pela sua conducta que era mui digno do posto que occupava. Merecerão igualmente distincta menção o Major José Joaquim Pacheco , o Alferes Luiz Xavier Valente, ambos do 1.º Regimento de Infanteria, o Tenente Ajudante do 2.º José Joaquim do Amaral, Officiaes a bordo do navio Conde dos Arcos, e o Alferes Francisco António de Carvalho do 2.º Batalhão de Libertos, Commandante de Infanteria abordo da Escuna D. Maria Thereza.

[22.11.1823]
«A 22 de Novembro o Commandante das forças lhes annunciou a conclusão de huma convenção conciliatória, terminando-se deste modo as hostilidades entre as forças mencionadas, e as do Brazil.

«Em fim a excellente disciplina, a lealdade e o valor destas tropas he o thema geral dos louvores de todas as ordens do dia. Ellas mostrarão-se fieis ao seu Rei e á Pátria, e superiores á seducção e a todas as necessidades. Seus Concidadãos os esperão com os braços abertos, e durável será a lembrança da honra com que se portou a pequena mas briosa Divisão Portuguesa de Montevideo em circunstancias de particular apuro.»

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Fonte
- Gazeta de Lisboa, n.º 144, 19.6.1824 - pp. 679-681

29/07/2019

Memória sobre a dificuldade de fazer guerra em país cortado de rios e canais como no Rio da Prata (Francisco Maximiliano de Sousa, 1816)


Entre os papeis da coleção da família Araújo de Azevedo, que se encontram no Arquivo Distrital de Braga, encontra-se uma interessante memória do então capitão de mar e guerra  Francisco Maximiliano de Sousa. Enviada decerto ao secretário de Estado D. António de Araújo de Azevedo (1.º conde da Barca, 1754-1817), o oficial apresenta algumas sugestões acerca da melhor forma da Divisão de Voluntários Reais atuar no teatro do Rio da Prata, “em hum paiz cortado de rios”, sem o auxílio da marinha e um tipo específico de embarcação para o efeito.

Para lá do interesse técnico e táctico que o texto suscita sobre o momento histórico de 1816 e a iminente campanha portuguesa sobre a Banda Oriental, Maximiliano de Sousa refere também expressamente uma apresentação que o almirante Sidney Smith (1764-1840) fez no Rio de Janeiro em 1809 e num exercício que decorreu a 5 de Junho de 1809 na baía de Botafogo, com a presença do príncipe regente D. João, demonstando o uso e benefício das embarcações sugeridas.

Apesar do documento estar datado de 1810 (por causa de uma marca de água desse ano), é óbvio que o mesmo é de 1816, nomeadamente pela nomeação expressa da “Divizão de Voluntarios Reais de El Rey”, no primeiro parágrafo, nome pelo qual a grande unidade só passou a ter a 13 de Maio de 1816. Antes era “do Príncipe”, e ainda assim apenas desde Maio de 1815.

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Memória sobre a dificuldade de fazer guerra em país cortado de rios e canais sem auxílio de forças marítimas como nas margens do Rio da Prata, por Francisco Maximiliano de Sousa

A extrema dificuldade, ou para melhor dizer, a impossibilidade de fazer a guerra com vantagens em hum paiz cortado de rios, ou canais, sem hum auxilio de forças maritimas; me fiz lembrar algumas observaçoens aplicaveis á Divizão de Voluntarios Reais de El Rey no cazo de obrar activamente nas margens do Rio da Prata.

O pouco fundo do rio da Prata de Monte Vidéo para cima não premitindo ser navegavel a Navios de grande pórte; tórna se extremamente arriscado e dificil, pella sua largura, a passagem nos braços do Paraguai, sem hum poderosos auxilio maritimo: e como pellas razoens assima elle não pode sêr senão de embarcaçoens que não demandem mais de 3 athé 4 brassas, aprezenta-se logo a dificuldade de embarcaçoens miudas tanto para o embarque na margem Oriental, como para o dezembarque na Occidental, pois navios d'aquelle lote não podem conter Barcas chatas, ou grandes lanchas.

Para remediar este embaraço, e a despeza que cauzaria a construcção de embarcaçoens proprias para hum transporte, em huma estenção de nove a 10 legoas largura do paraguai entre Colonia do Sacramento e Barragan, lugar mui proprio para o desembarque na margem Occidental, me lembrei das canôas com Plataformas como aqui aprezentou o Almirante Britanico Sir Sidney Smith em 1809, e cujo serviço e rapidêz de movimentos prezenciou S. Mag. El-Rey Nosso Senhor a 5 de Junho do ditto anno na Bahia do Botafogo.

Hé esta maquina ou jangada (fig. 1.ª) composta de duas canôas de mediana grandeza, sôbre as quais se situa hum estrado ou platafórma segura as Canôas, por meio de cabos passados em arganéos dados no fundo d'estas, e olhais dados nos extremos dos barrotes, em que assentão as táboas, que formão a Plataforma (fig. 2).

Em hum e outro extremo d'esta Plataforma á hum estrado unido a ella por gonzos (fig. 3) para o embarque, e dezembarque, de Artilharia, Carros de Campanha, e cavalos. As Canôas se lhe poem hũa sobre-quilha, em que se dão os argonéos (fig. 2) e são bancadas para remadores; havendo vento poem-se mastros na Canôa de barlavento, sendo á bolina, e sendo largo ou á poupa em ambas (fig. 4) as Plataformas podem ser entrincheiradas pellos lados com os bailéos dos Navios; em ambos os extremos as canôas tem ferrage para lémes, cujas canas são unidas nas extremidades por hũa barra para o uniforme movimento d'ambos. Estas embarcaçoens compostas são de hu~a conhecida vantagem na passagem de Rios, mormente de pouco fundo, e em dezembarque de tropas, pois a si mesmas se protegem, d'ellas se fáz fôgo com muita facilidade e certeza pois tem immensa estabilidade e mesmo á vella nenhuma // inclinação por cauza do apoio da Canôa de sotavento. Sendo por qualquer cazo neseçaria a retirada, não precizão virár pois são proas ambos os lados. Eu vi, no exercicio em que assima falei, as Canôas fazerem mui rapidamente diversos attaques, e retiradas, embarcarem, e desembarcarem com muita facilidade duas pessas de ferro de calibre 6, pessas e reparos de marinha muito mais pezados que os de Campanha; a estas conhecidas vantagens junta-se a facilidade do transporte, hũa Corvêta do lóte do Voador, ou Calypso, navios muito proprios para o serviço do Rio da Prata, pode sem embaraço levar 8 ou 10 Canôas, os estrados, ou Plataformas, sendo feitos de cavilhas com pórcas, se desarmão, e armão em hũ momento, e ocupão muito pouco lugar: temos por tanto cada corveta, ou navio semilhante com 4 ou 5 embarcaçoens que cada hũa leva bem 40 homens e 2 pessas de Artilharia com hua das quais protege o seu desembarque e com a outra cobre a sua retaguarda: // Quais são as embarcaçoens miudas que apprezentão estas vantagens? A não serem barcas chatas construidas expressamente para este serviço. A grande facilidade de ter as Canôas em hum Paiz de que ellas são as embarcaçoens ordinarias, a pouca despêza, e facilidade de fazêr os estrados, a comodidade do transporte, e a defêza que aprezentão tanto em attaque como em retirada, me fáz parecêr este methodo muito digno de ser empregado no serviço do Rio da Prata.

Ainda que o serviço mais proprio destas jangadas seja para lugares de pouco fundo, pois que embarcação alguma demanda mênos agoa; não posso deichar de as julgar mui adquadas para as praias em que houvér ressáca, ellas não podem ser envolvidas, e embarcádas pellas vágas, o que muitas vezes succede as embarcaçoens de quilha.

Este methodo pode com muita facilidade ser aperfeiçoado a hum ponto extraordinario // Por exemplo pondo cobertas nas Canôas; então seria nececario que o modo de segurar os barrotes dos estrados ás canôas fosse alterado, isto hé que os olhais fossem sobre a coberta mas sempre seguros para o fundo da canôa; couza muito facil e que as tornava de huma segurança tal que már algum por mais grôço que fosse as poderia  submergir: Augmentando o numero das canôas isto hé 3 em lugar de 2.

Sou com tudo obrigado a dizêr, que nem este methodo, nem algum outro, deverá ser posto em pratica no Rio da Prata, a não ser nos mezes que decorrem do fim de Setembro ao principio de Fevereiro, sem com tudo afirmar sér impossivel fazêlo nos outros mezes bastante tempestuozos n'aquelle Paiz: mas para isso serião neseçarias medidas que o nosso estado de marinha não possue, e que tomalas levaria mais tempo que o comprehendido entre o prezente, e a epocha que aponto.

Francisco Maximiliano de Sousa

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Fonte
PT/UM-ADB/FAM/FAA-AAA/E/004445
Memória sobre a dificuldade de fazer guerra em país cortado de rios e canais sem auxílio de forças marítimas como nas margens do Rio da Prata, por Francisco Maximiano de Sousa. Possui uma prancha com a sugestão dos diferentes tipos de embarcações a utilizar. Data 1810 [datado incorretamente; parece ser de 1816]. 10 pp. não num. [7 pp. + 3 pp. em branco]; 202 x 250 mm.

A transcrição obedece à ortografia original do documento. O documento pode ser visto no sítio do ADB em http://pesquisa.adb.uminho.pt/details?id=1415768 

Imagem
- PT/UM-ADB/FAM/FAA-AAA/E/004445, Arquivo Distrital de Braga

Breves dados biográficos acerca do autor
Francisco Maximiliano de Sousa era guarda marinha em 1790, tendo sido promovido a 1.º tenente em 1795 e, presumivelmente, a capitão tenente no ano seguinte.
Em 1806 era promovido a capitão de fragata, tendo comandando, em finais de 1807, a corveta Voador na transferência da Corte para o Brasil. Não é certo quando obteve a promoção a capitão de Mar e Guerra, mas é graduado em chefe de divisão em finais de 1817.
Posteriormente, serve como secretário de estado da Marinha no governo nomeado pelas Cortes Constituintes em janeiro de 1821 e comanda uma esquadra portuguesa em 1822-23 no âmbito da guerra da independência brasileira.
O seu nome aparece por vezes, e erradamente, como Francisco Maximiano de Sousa.

20/07/2019

Tomada de Melo (9 a 13 de Agosto de 1816)



De forma a preparar a chegada dos Divisão de Voluntários Reais (DVR) ao sul, assim como para estabelecer desde logo pontos de apoio face a qualquer oposição oriental na área da fronteira do rio Jaguarão e Chui, foi considerado fundamental pelo governo do Rio de Janeiro, em acordo com os objetivos da campanha, mandar as forças da capitania do Rio Grande do Sul ocupar a vila de Melo e a fortaleza de Santa Teresa.

Enquanto que Santa Teresa, uma fortaleza originalmente construída pelos portugueses em 1762 (e perdida para os espanhóis no ano seguinte), dominava a estrada real para Montevideu e Colónia, numa zona estreita de terra próxima a Castillos entre a Laguna Negra e o mar, Melo dominava uma estrada secundária que passava pelo interior, a ocidente da Cochilha Grande, a principal cadeia montanhosa da Banda Oriental, e que levava a Minas e depois também à estrada principal, em Pan de Azúcar.

A posse de ambos os pontos era essencial agora em 1816, como em campanhas anteriores (Santa Teresa havia sido ocupada na campanha de 1811/1812, mas logo depois abandonada), não só para garantir a segurança das rotas inevitáveis de penetração portuguesa (que não estavam ainda plenamente estabelecidas), como para criar pressão sobre as divisões orientais na zona (Fernando Otorgués no interior, próximo a Melo; e Frutoso Rivera na área costeira de Maldonado, um dos dois portos de águas fundas da província), negando assim também ao inimigo o conhecimento das verdadeiras intenções portuguesas, o número e movimento das suas tropas.

Começa...
Assim, enquanto a DVR parte do Rio de Janeiro, o Secretário de Estado dos Negócios da Guerra, Fernando José de Portugal e Castro, 1.º marquês de Aguiar, no Rio, manda instruções, a 6 de Junho, ao capitão general do Rio Grande, então de S. Pedro, Luís Teles da Silva Caminha e Meneses, marquês de Alegrete para que, entre outra medidas, mande ocupar Melo e Santa Teresa.

A 12 de Julho, o marquês de Alegrete transmite essas mesmas ordens ao tenente general Manuel Marques de Sousa, comandante das forças da capitania na fronteira do rio Jaguarão, logo a sul da Vila do Rio Grande e cuja área de atuação dizia respeito a toda a área oriental da fronteira portuguesa com a banda oriental, estipulando inicialmente que a ocupação dos dois pontos devia ser simultânea no dia 20 de Agosto. 

Em novas ordens a 17 de Julho, decerto devido a questões diversas na reunião das forças nos dois pontos de partida, o marquês do Alegrete indica que os dois objetivos devem ser tomados antes do dia 20, ainda que em dias diferentes.

Vila de Melo
Para a ocupação de Melo foi escolhido o coronel Félix José de Matos, comandante do Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande, assim como um pequeno destacamento de infantaria da DVR, a grande maioria da cavalaria da mesma divisão, assim como mais cavalaria de linha, de Milícias e Guerrilhas. 

Para Santa Teresa, que tratamos noutro artigo, cujo objetivo tinha um maior significado simbólico, pelo facto de ser o forte originariamente uma construção portuguesa, o tenente general escolheu o seu filho, o sargento mor Manuel Marques de Sousa, da Legião de Cavalaria Ligeira do Rio Grande (também eles Voluntários Reais de nome), para comandar uma força constituída por cavalaria da Legião riograndense e da Legião de S. Paulo. A escolha deste oficial foi sugerida pelo marquês de Alegrete logo nas ordens originais de 12 de Julho, destinada decerto a honrar o pai e o bom serviço do filho.

A ambos os comandantes foi entregue o estandarte nacional para que fosse formalmente hasteado nos dois locais, com toda a pompa. Este era o início da invasão portuguesa.

Enquanto que Félix José de Matos entra em Melo pela manhã de 13 de Agosto, Manuel Marques de Sousa conquista o forte de Santa Teresa pelas 7 horas da manhã do dia 16, enviando a parte oficial, fazendo o relatório que transcrevo em seguida, valendo por si na descrição do que aconteceu nesse dia.

Melo hoje em dia, com a catedral ao fundo (Wikicommons)

Copia do Oficio que escreveu o Coronel Feliz José de Matos, Comandante da Coluna, e da Vila de Melo ao Tenente General Manoel Marques de Souza.


«[…] Tenho a distincta onra de participar aV.Ex.ª que ontem pela uma ora da tarde entrei com as Tropas que V.Ex. me confiou nesta Vila de Melo, e estamos Acampados junto ao Rio Taquary a o Noroeste da Povoação: Este é na verdade um lugar esteril, sem lenha, nem fiado; o primeiro artigo por que a natureza o negou; o segundo por que os insurgentes tem pasado todo para o outro lado.

Partimos do Serrito a 9; mas neste día apenas pude fazer atravesar Jaguarão a Tropa, e Cavalhadas pernoitando na Guarda do Arredondo: a 10 acampamos no paro do Damazio no Arroyo Sarandy: a 11 fizemos alto em Arroyo Malo: a 12 viemos parar a Chuy, e a 13 acampamos aqui felismente: durante a nosa marcha e ainda oje parece que a natureza tem caprixado em dezenrolar chuvas, e trovoens: a 11 quando ja montados para marchar caio hum raio e matou hum Soldado Miliciano Francisco de Quevedo da 8.ª Companhia, e outro ja nesa noite tinha asombrado uma Sentinela do Batalhão do meo Comando: por tanto era imposivel que a 11 como tencionava entrase : a Tropa asim mesmo venceu deficuldades só filhas de maior entuziasmo.

Bernabé Saens Comandante desta Vila apenas teve noticia do ataque do Arrendondo, fez reunir así todos os vezinhos, e Familias destes circuitos, e por tanto achamos o Campo inteiramente despovoado.

Saens veio com 7 omens a bombear a marcha desta Divizão no dia 12, e quando tinha atravesado Chuy encontrou ao lado da nosa marcha um Pião da cavalhada Miliciana matou-o vilmente, e repasou Chuy com tanta precipitação que perdeo o ponxe e chegando a esta Vila ajuntou os vizinhos e muitas Familias, e pasou ao outro lado de Taquary: foi á meia noite de 12 para 13 que Albano de Oliveira e Bento Gonzalves se me aprezentarão no Paso de Chuy fugidos do Comando de Saens, e me deraõ a noticia da morte do Peão, e da sua retirada, e de que alguns armamentos encarretados tinhão havia 24 oras pasado Taquary em direrão ao Acampamento de Otorguez que tenho por noticia está acampado em Sapalhar [Zapallar] 12 leguas desta Vila com forra de mais de 600 ómens entrando os vizinhos que tem reunidos, e Fructuoso Ribeiro que de Monte Video lhe veio em socorro com 100 ómens: dizem que o seu destino é atacar-nos outros que atravessar o Rio Negro, e conseguir ajustar-se com Artigas nos Taquarembós: seja o que fór, devo recorrer o participar a V.Ex.ª que para fixar este ponto é precizo que sejamos rapidamente reforzados com gente, e munição, e eu espero de V.Ex.ª tiro tão necesario socorro: os Milicianos não tem armas, nem munição.

O Capitão Manoel Joaquim que com 15 ómens da sua Partida se me reunio tia madrugada de 12 do corrente no Paço de Chuy, saio oje d'aqui com 81 omens de todos os Corpos a pasar Taquary no Paro da Cruz, e ir observar os movimentos dos insurgentes, e ver se obstava a junção de Otorguez com Artigas, mais objectos recomendados na Copia do Oficio junto. Devo acrescentar que do Paro de Chuy fis adiantar a Legião reforzada até cem omens de Batalhão Comandados pelo Tenente Coronel Paiva, a huma ora da noite, e vindo amanhecer á margem de Taquary defronte desta Vila ja não achou os insurgentes que Saens levava, nem tão pouco a Carreta de armas, que para este citio tinhão vindo de Monte Video em numero de 300 parte das 50 que os Americanos lhe todas boas, e com seu respectivo Correame.

O rigorozo inverno que continua não nos tem dado um pequeno espaço para com solemnidade arvorar-mos a Bandeira Portugueza, o que amanhã tenciono fazer seja qual for a Estação.
No mesmo momento da minha chegada a esta Vila, fiz vir a frente da Tropa o Cura da Freguezia, e todos os poucos vezinhos que deixarão aqui, e lhe li a Proclamação do Ex.º S. Marquez; mas não aprezentarão semblantes de contentes, porque o espirito de revolução é geral; ja lhe fiz ver a ordem que tenho para comprar Cavalos que não tem produzido efeito algum pois que os Fazendeiros que os podião vender pasarão com eles ao outro lado de Taquary voluntarios ou obrigados.
A nosa Cavalhada chegou muito aniquilada pelos grandes invernos que tem sofrido durante a marcha ; o gado para municio é precizo correlo em Partidas, e encontra-se muito pouco: finalmente se Manoel Joaquim nos não descobre o Campo ficaremos sugeitos a muitas privazoens: Eu no entretanto aqui fico neste ponto que conservarei até a ultima gota de sangre, se tanto for precizo para gloria e proveito de Sua Magestade.

Hoje pelas cinco óras da tarde se recolheu o Capitão Gaspar Pinto Bandeira com 45 omens da sua Partida que não atacou as Guardas no dia 9 por que não pode atravesar Jaguarão: O Major Albano chegará aqui a manhaá, e sei que tambem teve o mesmo suceso: não foi util esta falta de acontecimento. O tranzito, e comunicação deste Campo com o Serrito creio está seguro: em quanto á comunicação da Fronteira de Rio Pardo na direção da nosa direita não o poso segurar até que não receba partes do Capitão Manoel Joaquim.

Incluzos aprezento a V.ª Ex.ª, o Mapa da forra disponivel que V. Ex.ª me fez a onra de entregar, por onde se ve que ao total 662 omens é muito diminuta.

A Tropa preciza farinha, e Abarracamento por que desde o dia 9 que está exposta, e nem aqui temor ao menos mato conde se cortem humas varas para fazer ranxos.
Remeto a Portaria asignada por Manoel Joaquim como V.Ex.° ordenou; asim como a Carta do Comandante Saens me deixou nesta Povoação, e que me foi entregue pelo Cura.- Tambem remeto tudos os papeis que se encontrarão no Comandante da Guarda do Arredondo, e relação dos petrechos de guerra que se encontrarão nesta Vila.

Digne-se V. Ex.ª aceitar os nosos reverentes cortejos de toda esta Tropa em geral que suspira por V. Ex.ª e eu mais que todos.
= Deos Guarde aV.Ex.ª muitos annos.
Acampamento da Vila de Melo a 14 de agosto de 1816 = Illº e Ex.º S.r Manoel Marques deSouza = Sou de V Ex.ª O mais fiel Subdito, e reverente criado - Felis Jozé de Matos.»


* * *

O Memorável dia 9 de Agosto proximo passado
Entretanto, o coronel Félix José de Matos, como já vimos, teve o prazer de ser o primeiro comandante português a entrar em ação logo a 9 de Agosto, destroçando a guarda de Arredondo, entrando dias depois, a 13, em Mello (ou vila do Cerro Largo, como era então conhecida). 
A 10 de Setembro, há quase um mês ocupando aquela vila, publica uma ordem de dia dando nota dos louvores públicos do capitão general da província, o marquês de Alegrete, o tenente general Manoel Marques de Sousa e do sargento mor João Vieira de Carvalho. 
O coronel Félix já sabia que iria render o seu comando interino e cumpria deixar em memória o que a coluna fez até então.

«Copia
Ordem do dia 10 de Settembro de 1816.
Divisão da Vanguarda

“O incadeamento das nossas bravas operaçõens desde o memorável dia 9 de Agosto proximo passado me tem ocupado effectivamente nas Partecipaçoens oficiaes que tenho feito subir à Prezença dos nosso Exmos. E sabios Generaes, e hé este obstaculo que me tem demorado a fazer prezente aos meus valorozos Companheiros e amigos os elogios que temos merecido daquelles Exmos. Senhores. 

Em oficio de 7 de Agosto ultimo, expressa-se o Exmo Snr. Tenente Gen.al Manoel Marquez de Souza da seguinte maneira = Tive justo prazer ao ler a carta oficioza de V. S. escrita a 4, noticiando-me a feliz viagem que V. S. fez, e o Bam. Do seu Mando, chegando ao Serrito no dia 3 por noite, o que assaz estimei... Fico esperando por alegres noticias de V. S. e dos mais Camaradas; a quem no fundo do meu coração correspondo com iguaes  (…...)”.
Continua o mesmo Exmo. Sr. Em Despacho de 21 do dito de Agosto= “Confesso a V. S. que me enxi de tal contentamento quando vi as letras suas, que eu mesmo não tenho termos próprios para explicar qual foi a minha alegria considerando os trabalhos, e árduos embaraços do transito com aquelle rigorozo temporal, vencidos com o favor do Ceo. Justos parabens dou a V. S. de achar-se ocupando essa Povoação do Sero Largo, desejada pelo nosso Exmo. Capitão General Marquêz de Alegrete.”
A 30 do mesmo Agosto o Exmo. Snr. Tenente General Manoel Marques de Souza continua assim nas expreções = “Aqui incluo por Copia o oficio que ontem recibi do Exmo. Senhor Marquêz Gov.or e Capitão General firmada a 23 de Agosto, para V. S. fazer ler na frete dos nossos Camaradas sofredôres que tão provados estão nisso, mostrando a firmeza e amor que tem a seu me-// melhor dos Soberanos, e honrados oficiaes que os regem: igualmente dous capitulos da carta particular do Sarg. Mor João Vieira de Carvalho para V. S. impôr-se no relatado delles: Saúdo o Illmo. Snr. Tenente Coronel José Maria de Almeida, todos os mais oficiaes, assim como aos Camaradas soldados da maneira mais afectuoza, e saudoza”.

A Copia do oficio incluído do Exmo. Snr. Marquez de Alegrete hé dactado a 23 de Agosto proximo passado; e seu conteudo hé assim = “ Illmos e Exmo. Snr. = o oficio de V. Exc.ª de  17 do prezente merece huma ceparada resposta. Dous soldados desta Capitania tiverão a onra de derramar o seu sangue no Serviço de Sua Majestade; e as Tropas aprezentando-se pela primeira vez ao inimigo mostrarão-se dignos da honra que S. Mag.e lhes destina, mandando-as servir promiscuamente com Heróes aclamados por taes pelo Mundo inteiro: demo-nos pois reciprocamente os parabens, e encarregue-se V. Exc.ª de fazer os devidos elogios, os quaes não me atrevo a inividuar em quanto não sou informado circunstanciadamente”.
Os dois capitulos do Major [João] Vieira [de Carvalho] são os que transcrevo = “O Senhor Marquêz dice-me que prevenisse a V. Exc.ª que depois de ter feito o seu oficio hé que percebeu melhor, que os feridos na acção de Arredondo são Hespanhoes; e não nossos: neste cazo não regula o que elle dizia àquelle respeito. Depois desta fezada[?] disse-me o senhor Marquêz que dexejava e lhe parecia muito bem, se a Divizão do Cor.el Felix oferecesse ao General Silveira o par de pistolas do Commandante do Arredondo.”

Ultimamente recebi com dacta de 2 do corrente expressoens mui lizongeiras de S. Ex.ª que fielmente copio = “Eu vou cheio de satisfação enviar a V. S. a Copia dos oficio que me expedio em 26 de Agosto o Exmo. Senhor Marquêz Governador e Capitão General em resposta à minha partecipação, incluindo a que V. S. deu depois q // que ocupou com as Tropas do seu mando a Povoação do Serro Largo, e nella arvorou a Bandeira Real de Sua Mag.e. Eu tenho huma grande parte nas demonstraçoens aplauziveis com que S. Exc.ª se mostra satisfeito das operaçoens trabalhozas com que V. S. e seus valentes companheiros abriram a nova Campanha; por tal motivo, com extraordinaria alegria dou justos parabens pelo conceito que faz S. Exc.ª tanto de V. S., como da sofredôra Tropa em tão rigoroza estação. V. S. satisfará ás determinaçoens, ou dezejos de S. Exc.ª na frente da Tropa. Oh, com que magoa, e saudade eu não tenho a fortuna de ser Companheiro neste dia de prazer, em que V. S. há de publicar, a satisfação com que o Exmo. Snr. Marquez leu os sobreditos oficios, e o faz publicar.”

Eis aqui, meus Camaradas, o oficio do Exmo. Senhor Marquez – “Illmo. e Exmo. Senhor = Avalie V. Ex.ª a minha satisfação pela sua, façamo-nos assim reciprocamente justiça. Em dia de ontem ás duas horas da tarde recebi o oficio de V. Ex.ª de 20 prezente mez, acompanhado das participaçõens q da Villa de Mello dirijio a V. Exc.ª o Cor.el Felix Jozé de Mattos, e do Forte de Santa Thereza, o Sargento Mor Manoel Marques de Souza: eu vou apreçar-me em fazer chegar à Prezença de S. Magestade a distincta conducta destes dois oficiaes, queira V. Ex.ª entretanto dar-lhes em meu nome os merecidos agradecimentos que elles estimárão repartir pelas Tropas que comandão, e que como sempre esperei, começão a mostrar-se signos do nome Portuguêz, e dos Camaradas com quem vão ter a onra de misturarem-se.”

Sem duvida que o Exmo. Senhor Marquêz Capitão General, e o Exmo. Senhor Tenente General Manoel Marques de Sousa, estão satisfeitos completamente dos nosso Serviços, e Fadigas, e eu tenho hoje a honra de // de agradecer aos Illmos. Senhores Chefes dos Corpos; a todos os Senhores oficiais, e oficiaes Inferiores, e Soldados o caprixo, e muito entuziasmo com que se tem desvelado nos seus deveres, e boa armonia: o Illmo. Sr. Ten Cor.el Jozé Maria de Almeida hé inegavel o valor, e energia e descernimento que mostrou na acção de Aredondo, e no reconhecimento das partidas avançadas do inimigo: o Tenente de Milicias Antonio Ruiz Barbosa merece os elogios pelo ataque da Guarda do Salço: o Illmo. Senhor Capitão Porteli da Legião, patrulhou o Campo de Chui, e fez precepitar no mesmo Arroio o insurgente Sáes abandonando a espada e ponxe, e apenas com muito custo salva a vida. O Alferes de Milicias Ignacio Feliz Feijó mostrou-se muito valorozo no avance do porto do Triguito. O Capitão João marques de Souza Prates foi rezoluto no Arredondo. O Tenente do Batalhão Ignacio José da Roxa comportou-se no mesmo lugar guapamente. Finalmente todos os Senhores Oficiaes tem direito soa meus elogios, e agradecimentos pelas suas particulares obrigaçõens: Com todos distribúo cordealmente a boa opinião que tenho merecido dos meus Superiores; os seus auxilios, e o seus acertados Conselhos me tem servido em todas as occazioens.
Saudemos pois ao nosso Augusto Soberano: Saudemos aos nossos estimaveis, e sabios Generaes, e entoemos/entoamos em onra de todos o Himno Nacional desta primeira valente Divizão.

Acampamento do Serro Largo[,] 10 de Settembro de 1816

Feliz Jozé de Mattos Pereira de Castro, Cor.el Com.e Interino»

18/06/2019

Diário Militar de Bento Correia de Câmara (14 de Junho a 25 de Julho de 1819)


Num documento no Arquivo Histórico do Itamarati, do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, sob o título de “Documentos de militares contra Artigas (cop.)", encontramos o diário militar do brigadeiro Bento Correia de Câmara. 
O manuscrito de 14 folhas refere-se às movimentações que o brigadeiro Câmara, então comandante da fronteira de Bagé, encetou entre 14 de junho e 25 de julho de 1819, face a um aumento de pressão por parte das forças orientais, sob o comando de José Artigas, e que culminou na Ação de Santana, a 29 de junho, onde uma força oriental foi derrotada junto a Santana do Livramento.

A segunda Invasão Oriental de Missões

Em 25 de Abril desse ano, cerca de um mês e meio antes, o comandante oriental de Missiones, Andrés Guaçurari y Artigas, também conhecido por Andresito ou Artiguinhas, iniciou uma segunda invasão das Missões Ocidentais, transpondo o rio Uruguai a norte de S. Nicolau, que resultou na ocupação deste primeiro povo, assim como os de S. Luís, S. Miguel, S. Lourenço, S. João e inclusive tão a leste quanto Santo Angelo, 100 km já dentro do território das Missões ocidentais.

A acompanhar esta invasão, e como em 1816, José Artigas fez pressionar a fronteira do rio Quaraí, ameaçando Santana e Alegrete, assim como Bagé. Os movimentos e objetivos de Artigas são aliás muito semelhantes aos de 1816.

Mal tem conhecimento, o Conde de Figueira, D. José Maria Vasconcelos e Sousa, capitão general do Rio Grande desde Outubro do ano anterior, substituindo o marquês de Alegrete, parte de Bagé em direção a Missões, fazendo a ligação às forças de José de Abreu, em Alegrete, a 18 de Maio, e às de Francisco de Chagas dos Santos (o governador das missões portuguesas), a 27 de Maio, no rio Camacuã.

Após encontrar S. Nicolau abandonada pelos orientais, o conde da Figueira procede a libertar os restantes povos ocupados, tendo despachado previamente José de Abreu a procurar uma parte do exército oriental que tinha cruzado o rio Piratini para sul. Este contingente, comandando pelo próprio Andresito, é derrotado na Ação de Itacorubi, a 6 de junho, pondo fim à invasão e levando à própria captura de Andrés Artigas a 24 desse mês, quando procurava transpor o Passo de S. Isidro, de volta a Missiones.

Bento Correia de Câmara, Bagé e Santana

É 300 quilómetros a sul que encontramos o teatro a que se refere este manuscrito, entre Bagé e Santana, na fronteira do rio Quaraí. Aliás, é o próprio documento que nos informa que só a 2 de Julho é que o brigadeiro Câmara tem a notícia do fim da invasão a norte.

O manuscrito tem um interesse próprio, permitindo-nos perceber as movimentações do exército da Capitania do Rio Grande nesta área, face à pressão que Artigas desejava complementasse a invasão de Missões a norte.

Posso apenas tentar perceber a razão pela qual o mesmo ficou no Arquivo Histórico do Itamaraty, entre outros diários militares relativos a outros períodos, mas a menção que faz a um desentendimento entre os brigadeiros Bento Correia de Câmara e Félix José de Matos pode ajudar a perceber. Este desentendimento tem o seu zénite a 31 de Junho, dois dias depois da vitória obtida na Ação de Santana.
Terá sido graças a esta disputa e eventuais repercussões de índole política, que temos hoje acesso ao manuscrito e à transcrição que aqui apresento.

O Manuscrito

Ainda que tenha uma importância reduzida face aos eventos que estavam ainda a acontecer 300 km a norte, este tipo de documentos, que se inserem no memorialismo militar, são fundamentais para perceber o funcionamento e dinâmica do exército do Brasil durante o conflito de 1816-1820.

Aqui apresento pois uma transcrição do manuscrito, com ortografia moderna, em complemento de uma outra versão, com a ortografia original, que publiquei no blogue "Corpus de Memorialismo Militar Luso-Brasileiro nos Finais do Antigo Regime" e que pode ser lido aqui.

Tanto quanto possível tentei identificar as pessoas referidas, mas tal não foi possível em todos os casos, nomeadamente os militares de postos subalternos.

A acompanhar esta transcrição, ponho à disposição um pedaço de um mapa da área, de 1868, mas que apesar de ter sido feito meio século depois ainda reflete a realidade do terreno em 1819, com a exceção de muitas terras que não existiam na altura.

* * *

[Transcrição]

Dia 14 de Junho de 1819, Recebi parte do Alferes comandante da Guarda de Guabijú, de se terem recolhido os bombeiros, e participarem que na serra de Lunarejo divisarão uma grosssa coluna inimiga que se encaminhava para Santana [do Livramento] para a nossa Fronteira com abreviadas marchas.
Neste mesmo dia convidei o Brigadeiro Félix [Félix José de Matos Pereira de Castro (1772-1823), comandante do Batalhão de Infantaria e Artilharia do Rio Grande] para com a sua divisão operarmos contra esta força assentando a reforçar a tropa do meu mando com 70 homens de seu comando.
Dirigi parte para proprio a Capela de Alegrete, participando ao Sargento Mor João António [possivelmente o sargento mor reformado João António da Silveira, do Regimento de Dragões]  desta força que se encaminhava para os limites daquela repartição.
Pus-me em marcha com as forças do meu Comando para o ponto proprio da fronteira ameaçada fazendo Pouso no Fazendeiro França.

Dia 15
Me acampei nas vertentes do Arroio Ponche Verde.
Recebi Offício do Brigadeiro Félix comunicando-me de não puder mandar o reforço que tinha tratado pelo motivo de lhe participarem os seus Bombeiros vindos do rincão das Avarias terem ali divisado uma força Inimiga.
Fiz reunir a guarnição da Guarda de Guabijú, e por consulta fiz marchar no mesmo dia a metade das forças do meu Comando em Número de [espaço em branco] com direção a Itaquatiá [arroio Itaquatiá, entre o rio Upamaroti e o arroio Ibicuí da Faxina], com destino de atacar alguas escoltas da força Inimiga, que se dividirão em grossas partidas, a saquear, e queimar as habitações dos moradores situados no rincão de Ibicuí, repartição do Coronel Abreu [José de Abreu (1770-1827)], dobrando os Bombeiros para Santana a fim de descobrir a posição e direção do Inimigo.

Dia 16
Não houve novidade

Dia 17
Apresentou-se o Tenente Anacleto Jacinto e o Alferes Francisco José Farinha com 23 praças do seu distrito.

Dia 18
Enviei notícias a Bagé ao Capitão Pedro Fagundes, indo pelo […] do Cabo de Esquadra de Dragões Cândido de Abreu por quem solicitei a remessa de armamentos precisos
Recebi carta do Brigadeiro Félix José participando-me ter tomado a resolução de unir-se a este ponto.
Apresentou-se um soldado guerrilha do Distrito de S. Sebastião.

Dia 19
Apresentou-se um guerrilha da repartição de Guabijú.
Reuniu-se o Brigadeiro Félix, com a Divisão do seu Comando.
Recebi carta do Sargento Mor Antonio  Adolpho [António Adolfo Charão, ou Adolph Schramm (1761-1835)] de ter o Inimigo passado a parte oriental de Santa Maria no Passo do Rosário a supor teriam saqueado as bagagens que por aquelas imediações mandou o Exmo. Senhor Conde [1.º Conde da Figueira, José Maria Rita de Castelo Branco Correia da Cunha Vasconcelos e Sousa (1788-1872), capitão general do Rio Grande].
A esta mesma […] nos juntamos em marcha para a direção de Itaquatiá com o destino de procurar o Inimigo onde quer que apareça.

Dia 20
Pouso na Fazenda do Furriel Inácio Rodrigues.

Dia 21
Pouso na Antiga Guarda de Santiago em cuja marcha cansou muita cavalhada de todos os Corpos.
Recebi notícia pelo espanhol Ignacio Guterres apresado pelo Inimigo de quem pode fugar; notifica ter ouvido aos referidos ter Artigas destinado 200 homens para saquearem Bagé por cujo motivo fiz seguir o Capitão João dos Santos Campello, um dos homens de cavalaria, a ocupar o ponto da Guarda de Guabijú; ponto próprio interessante para ser repelida aquela força na pretendida entrada e retirada daquele destino.
Pela consulta feita com o Brigadeiro Félix em a utilidade do Real Serviço assentamos em deixar o Parque […] oculto a fim de mais aceleradamente ocuparmos a importante posição de Santana em atenção a falta de transportes, e cavalgadura que já experimentámos.
Este Parque por melhor acordo foi conduzido pelo Capitão Santos, para o remeter a Bagé e dali ser concentrado; fizemos Pouso nas vertentes do Uparamoti.

Dia 22
Pouso em outra vertente do Uparamoti, nada ocorreu.

Dia 23
Recolheu-se o Bombeiro Jerónimo Rodrigues e traz a notícia de ter o Furriel Inácio Rodrigues descoberto o rasto de 30 a 40 Inimigos terem se entranhado para as partes do Ibicuí, ficando de emboscada aos mesmos no sítio do Serro das Palomas; e por consulta feita entre mim e o Brigadeiro Félix, Vaquianno, e oficiais práticos do terreno, assentámos mandar 50 homens na Partida mandada pelo Bento Gonçalves [Bento Gonçalves da Silva (1788-1847)] de Proteção ao Bombeiro Jerónimo Rodrigues para explorar afoito onde se acha o Inimigo na direção se supõe ocupam, vertentes de Taquarembó a Santana.
Mandei um Soldado guerrilha ao passo do Rosário no Arroio de Santa Maria, a certificar-me das notícias do saque que tenham feito o Inimigo por aquela parte ficando de voltar ao fim de 5 dias.

Dia 24
Não houve novidade.

Dia 25
Apresentaram-se os guerrilhas Manuel de Vargas e João Franco, mandados pelo alferes Barbosa a dar a notícia de que o furriel Inácio Rodrigues com 19 homens atacou 60 a 70 inimigos, mataram 3 e vários baleados, aprisionaram um com um braço quebrado de uma bala, retomaram os nossos ao inimigo 900, a 1000 animais vacuns cavalares, entre estes trezentos e tantos cavalos mansos, asim como tomarãam 2 armas, uma lança e uma pistola e que o inimigo prisioneiro confessava terem 300 homens acampados na Tapera de Felisberto Goulart nas pontas de Quaraí, assim como o Fructuoso [José Fructuoso Rivera (1784-1854)] se encaminhava com 400 a saquearem Bagé, por cujo motivo reuniu, digo motivo mandou se reunir a partida para atacarem as referidas forças.
Próximo ao Pouso se apresentaram 2 pretos espanhóis, fugidos de seu Ssenhor Maxuca de quem eram escravos.
Fizemos Pouso na Fazenda de Joaquim Pedro.

Dia 26
Recebemos aviso do capitão Bento Gonçalves de depor o prisioneiro que Artigas [José Artigas (1764-1850)] se acha em Santana com as suas forças próximo à mesma Partida por cuja razão seguimos a reunirmos à mesma partida com o desígnio de os atacar; fizemos Pouso na tapera do Ribeiro; ao anoitecer foram descobertos pelos nossos bombeiros sobre a nossa frente 7 a 8 bombeiros inimigos.

Dia 27
Não podendo seguir de dia mandámos bombeiros a partida do alferes Manuel Barbosa a saber notícias do inimigo.
Tem cansado até ao presente dia 96 cavalos.
Ao anoitecer segui com a tropa do meu comando a reunir-me com as partidas do capitão Bento Gonçalves e alferes Manuel Barbosa nas pontas do Ibicuí com o proposito de ir amanhecer atacando o inimigo, para cujo fim prestou o brigadeiro Félix José o reforço de 40 Praças, que, imediatamente as tornou a suplicar ficasem por não poder dispensá-las, com tudo vexado pela ordem que tinha do Exmo. Sr. Conde, cedeu, e marchei na mesma tarde para o Aroio Ibicuí [arroio Ibicuí da Faxina] dando a volta de três léguas, a fim do inimigo não reconhecer as forças do meu comando pelos seus bombeiros, que se achavam postados nas alturas da Serra de Santana, nessa noite me incorporei às duas partidas referidas, e ali soube dos oficiais comandantes das mesmas que era impraticável a mesma marcha por causa do grande peso da cavalhada magra, e cansada, que de necessidade se devia apartar da pouca que havia em melhor estado dar tempo no dia seguinte a carnear, e fazer fiambres, e remeter os presos a outra divisão.

Dia 28
Às doze da manhã tive parte pelos meus bombeiros que da parte dos nossos terrenos se divisava sua coluna de 200 Homens, que mandando-a reconhecer, soube ser o inesperado brigadeiro Félix José, que conferindo comigo, me fez ver o desejo que então teve de me acompanhar, ao qual anuí, e marchando naquela tarde fiz alto, às doze da noite no primeiro acampamento que o Inimigo ocupou.

Dia 29 [Ação de Santana]
Ao amanhecer, nada se pode divisar, pela grande cerração que durou até às dez horas, tendo com antecipação pedido-me o referido brigadeiro 20 homens da minhaa divisão, e parte dos meus bombeiros e vaquianos, que montariam a dez homens, e que permitisse deixar passar alám da minha vanguarda, o capitão das suas guerrilhas Bento Gonçalves com aquele reforço, e com mais 30 homens de que se compunha a sua guerrilha, ao que assenti, dissipada a cerração, veio parte dos bombeiros, de que em distância de légua atravessava uma partida Inimiga de mais de 100 homens, e pelo mesmo aviso tinham feito as guerrilhas da vanguarda, imediatamente fiz avançar os guerrilhas de minha vanguarda ao comando do intrépido capitão Anacleto Francisco Goulart, e me pus logo em marcha seguindo na minha retaguarda o brigadeiro Félix, das alturas da cochilha de Santana, avistámos a partida inimiga, na distância de mais de légua e meia ali me pediu o referido brigadeiro para que marchássemos em batalha, ao que não anuí dizendo-lhe [que] era impraticável, e desnecessário em tão longa distancia, que só servia para oprimir a tropa, diminuir a marcha, e que na distância de 40 toesas [cerca de 80 metros] do inimigo se deveria meter em linha, chegando [a]o 2.º acampamento do inimigo tive parte do capitão Anacleto, que o inimigo não mostrava ter mais reforço, que o que se apresentava na sua frente, e que sendo tão desigual em número às nossas forças, achava desnecessário que fossemos acabar de cansar a cavalhada, e que achava justo fazermos alto naquele ponto, para onde mandaria as novidades decorrentes, às 4 da tarde, tive aviso dos meus bombeiros, que ouviam alguns tiros de fuzilaria, pela qual notícia me pus em marcha para aquela direção seguindo-me os passos o dito brigadeiro ao longo da extensa coxilha, e em grande distância me uni à minhaa vanguarda, que se retirava do campo do ataque dando-me parte o capitão Anacleto, de ter ali encontrado a partida do Gonçalves em total derrota, tendo dado costas ao Inimigo, tendo este boleado alguns cavalos da partida, morto a cinco e ferido a outros muitos, a tempo que chegando o capitão Anacleto, os atacou com tal denodo, principiando a matar nos mesmos, e a fazer prisioneiros, na distância de mais de 2 léguas, em que sempre o acompanhou o capitão Gonçalves, e dois [...] da partida do referido, daquela distância retrocedeu, por causa de se achar com todos os cavalos cansados, dali fizemos pouso no acampamento que tinha sido do inimigo, tendo sido o resultado das operações deste dia na perda que sofreu o Inimigo de 20 prisioneiros, mais de 50 mortos, e para mais de 150 cavalos, 20 clavinas, 1 pistola, 3 espadas, 5 cartucheiras, 23 cartuchos, 1 lança, e 1 prisioneiro restaurado =

Dia 30
Tendo deposto os prisioneiros, que a partida destroçada era a única que se conservava naquela[s] imediações, por se ter retirado a mais força do interior de seu acampamento; e que Baltas Ogueda com 400 Homens, era mandado atacar Bagé. por cujo motivo resolvi retrogadar a minha marcha, em auxílio àquele ponto, pernoitei na principal vertente de Ibicuí =

Dia 31
Mandei pelo meu ajudante dizer a brigadeiro Matos [de novo, Félix José de Matos Pereira de Castro (1772-1823), também referido no texto como Felis ou Feliz J.e], que me via na precisa obrigação de acelerar as minhas marchas, para repelir a pretendida invasão da fronteira do meu comando, por cujo motivo marchava naquela manhã.
Este brigadeiro teve a grosseria de responder, quee sem a sua ordem não marchava = isto pelo temor de não atravessar a campanha sem a proteção da minha Cavalaria ao que tornei que a minhaa ordem se regressasse à fronteira de seu comando, da melhor forma que pudesse, e que não podia deixar de estranhar a grosseria com que regia comandâncias, apesar da prevenção do Ex.mo Sr. Conde, tendo determinado por ordem que nos deixou de sermos arimados a socorrer qualquer das fronteiras que necessitem, que não ignorava que ali (…/…) ordenava comandasse a patente mais moderna de cavalaria, ao mais antigo de infantaria em campanha, pelo contrário em praça de Armas, e fortalezas.
Fiz Pouso na Guarda de Itaquatiá, comando do Coronel Abreu.

Dia 1.º de Julho
Na hora de marcha recebi dois coices de um cavalo. Nesta guarda deixei uma patrulha de observação, ao cuidado da mesma 200 Cavalos e um vaquiano para auxílio da marcha da divisão do brigadeiro Félix, fiz Pouso na margem de Uparamoti =

Dia 2
Recebi as agradáveis notícias da derrota do Inimigo em Missões e fiz pouso na segunda vertente do mesmo arroio.

Dia 3
Pernoitei na margem de Ponche Verde; em cuja marcha continuou a ficar muita Cavalhada cansada a deixei ficar o soldado dragão João Cond.a (?) em casa do morador Ângelo de Vargas, por não poder resistir à jornada, por causa de sua ferida de bala que recebeu em uma coxa no ataque do dia 29 =

Dia 4
Pouso no arroio Piraí.

Dia 5
Chegada ao acampamento de Bagé em cuja Guarnição achei pouco mais de 100 homens, destes a maior parte inválidos, e desarmados.

Dia 6
Dirigi as minhas participações aos Ex.mos Senhores Conde Governador, General Marques [Manuel Marques de Sousa (1743-1820)], e Cambra [possivelmente o general Patrício José Correia da Câmara (c. 1737-1827)].

Dia 7
Recebi parte do falecimento do soldado dragão ferido.

Dia 8
Ordenei a Reunião da partida de observação composta de 80 Homens, que se achava postada em Piraí Grande ao mando do capitão Campelo, tendo mandado prestar a companhia de guerrilhas, composta de 46 praças, na margem do Arroio Hospital.

Dia 9
Ordenei a remessa para a prisão da capital de vários criminosos, composta de desertores, prisioneiros, e paisanos facinorosos.

Dia 10
Passou de marcha a divisão do brigadeiro Matos com direção para Aceguá.

Dia 11
Recebi ordens verbais do Ex.mo Sr. Conde pelo capitão Lousada, e apresentaram-se seis desertores do 2.º Regimento de Milícias dos que destacaram para Missões, e se acham de volta com o coronel Abreu no seu acampamento, alegando que a nudez e miséria em que se viam os obrigava a cometer esta infâmia.

Dia 12
Recebi ordem do Ex.mo Snr. Conde Governador para remeter-lhe os cavalos cansados que ficaram nestas imediações.

Dia 13
Foi reforçado o destacamento dos Hospitais com 116 praças, e mandei continuar a reunião dos homens pelos distritos desta repartição.

Dia 14
Recolheu-se a partida do alferes Silva que perseguia os desertores pelos distritos.

Dia 15
Apresentaram-se 5 desertores dos que destacaram para Missões.

Dia 16
Vieram reconduzidos à prisão deste campo 2 soldados desertores dos que destacaram para Missões, apresados pela partida do cabo José Bueno.

Dia 17
Mandei reconduzir pelo alferes Ribeiro o furriel José Inácio por ter dado coito em sua casa ao cabo desertor, Constantino de Oliveira.

Dia 18
Remessa de couros para Rio Grande que devem servir de […] para farinha de munício desta guarnição.

Dia 19
Recebi notícias dadas por um desertor da coluna do general Curado [Joaquim Xavier Curado (1746-1830)], de ter esta ficado 18 léguas aquém da Purificação, e notícias, ter Fructuoso conquistado com guerrilhas a retaguarda daquela coluna, e que retirando-se uma tarde avisaram os nossos bombeiros ao general Curado que Fructuoso se tinha acampado em uma [...] próximo à mesma Coluna, que mandando àquele general o major Bento Manoel [Bento Manoel Ribeiro (1783-1855)], com 500 homens atacá-lo, este o destroçara, retirando-se Fructuoso com mais de 100 homens, e a maior parte da sua cavalaria.

Dia 20
Recebi notícias de Missões dadas pelo marechal Mena [João de Deus Mena Barreto (1769-1849)] de ter o inimigo que repassou o Uruguai atacado-se de parte a parte por causa de preferência do saque que mereceram escapar, e do comandante; visto ter sido prisioneiro Andres Artigas, nesta peleja morreram mais de 100 insurgentes, perdendo a vida um dos pretendidos comandantes.

Dia 21
Negando-se pela 2.ª vez o major graduado de Milícias Ubaldo Pinto [possivelmente, Ubaldo Pinto Bandeira] com o pretexto de fingida moléstia, a fim de não vir tomar o comando do destacamento da frente, ordenei-lhe portanto, que se retirasse a sua casa, o que praticou, visto conhecer que não fazia a menor falta ao Real Serviço, onde só servia de intrigar, tratar mal a toda a guarnição que o detestava, e aborrecia, tendo motivado varias deserções.

Dia 22
Apresentarm-se 4 desertores que há meses tinham fugado deste campo.

Dia 23
Tendo desertado um dos paisanos deste distrito se lhe raiunou 10 bestas mansas que possuia, em observância das ordens.

Dia 24
Ordenou-se a tapagem dos trapos e cercas dos quartéis, destruído[s] pelas praças do Batalhão que ficaram neste campo, quando marchou para Santana esta divisão.

Dia 25
Recolheram-se os bombeiros de Taquarembó e não dão novidade.

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Fonte
- Arquivo Histórico de Itamaraty, AHI-REE-00918, "Documentos de militares contra Artigas" - Manuscrito, 14 folhas.

Imagem
- "CARTA TOPOGRAPHICA DA PROVINCIA DE SÃO PEDRO DO RIO GRANDE DO SUL" (1868), do Arquivo Histórico do Museu Imperial de Petrópolis, Cota 00330-BR.RS-1868 [ver online]