01/09/2019

Memórias do coronel Francisco de Paula Azeredo - II


Memórias do coronel Francisco de Paula Azeredo: Parte II
Do início da marcha terrestre a 16 de Julho até 4 de Agosto de 1816, em que o coronel e o 2.º Regimento de Infantaria fazem alto em Torres, a entrada no Rio Grande.

Continua da Parte I [LER]

[16 de Julho 1816]
Assim o foi esta tempestade que durou toda' essa noite e se prolongou por todo o dia immediato, deixando o campo alagado. A tropa estava toda ensopada em agua, e o Coronel da mesma forma, porque o misero albergue não era mais agasalhado do que a exposição nua ao ar livre.


Guarda do Embaú, foto de Tolvo [wikicommons]

Aqui rola o Imbaú suas aguas caudalosas, que a pequena distancia fenecem no Oceano.
Este rio foi atravessado pela tropa n'uma jangada, indo os cavallos e as cavalgaduras de bagagem á mão e a nado.
Este rio corre durante alguma extensão parallelamente ao mar, e por isso a marcha do batalhão foi entre o mar e o rio, por um terreno pedregoso e quasi intransitavel, sendo necessario para fazer transportar as bagagens, que os pretos alliviassem as cavalgaduras, e levassem estas á mão, sendo assim mesmo muito laborioso conduzil-as por aquelles desfiladeiros.

Entre o rio e um morro, que existe mais ao sul, ha um pequeno povoado a que se chama Gamboa: ahi fez o batalhão um pequeno alto, e subindo o morro, chamado do Seriú, desceu a encosta para um pequeno rio, que tem a mesma denominação: como era baixa-mar foi facil vadeál-o, e fmalmente chegaram a um sitio denominado = Armação de Garupava, = onde fizeram alto, ficando ahi n'essa noite, depois de uma marcha de quatro legoas, atravez d'um paiz difficil já pelos desfiladeiros, já pela arêa solta, que embaraçava a marcha. Em toda a America meridional chamam= Armação — a qualquer logar, sito á beira-mar, d'onde podem sahir barcos e lanchas para a pesca da balêa. Em taes sitios ha lagares para a distillação do azeite: estas officinas pertencem á fazenda real: e n'este logar havia bons armazens, e uma pequena povoação quasi toda composta de negros.

[19 de Julho]
Levantado o acampamento d'esta armação, seguiram no dia 19 pelo bello paiz que a separa do districto de Barbosa, onde pernoitaram, mas não em povoado pelo não haver, encontrando-se apenas no espaço de quatro legoas d'esta marcha algumas casas isoladas, com o terreno bem cultivado em redor, achando-se o resto inculto, mas coberto de frondoso arvoredo, onde se viam papagaios e aves das cores mais fantásticas.
Os laranjaes são abundantes n'este paiz, e as laranjas excellentes: tambem se cultiva o milho, mas sobre tudo a farinha de pau, que forma a base do sustento dos poucos habitadores d'este paiz, susceptivel d'um grande incremento, como de facto vai tendo e tem tido desde a época, a que nos reportamos, até aquella em que d'ella falfamos. 

[20 de Julho]
No dia 20 a marcha dirigiu-se sobre uma importante villa chamada = Villa-Nova = distante duas legoas do ultimo acampamento; sendo necessario fazer ahi alto o dia seguinte para dar logar á marcha das tropas da vanguarda, que haviam demorado os seus movimentos.

[21 de Julho]
Foi no dia seguinte, 21 de julho, que se poz em marcha para a villa da Laguna, cinco legoas para o sul, seguindo o caminho da beira-mar, que é formado d'uma arêa dura, e tanto que nem as cavalgaduras deitavam pégadas. A villa da Laguna está situada sobre um pequeno rio chamado Tubarão, que forma uma estreita barra no mar, onde apenas podem entrar navios de pequeno lote, a que chamam bagres, pelo que um habitante da mesma villa lhe chamava = sympathica e espinhosa = expressão singular, e sem sentido.

Todavia o commercio e a pesca entretém mais a população do que a cultura das terras, que demais se prestam pouco a isso: d'aqui resulta o que acontece a quasi todas as povoações commerciaes, que as suas ruas são aceadas e as casas elegantes, com rotulos nas janellas, como ainda hoje usam os Bracharenses. Como o caminho desde o pontal da Pinheira, logar do desembarque ao vir de Santa Catharina, até á Laguna era muito escabroso, vieram quasi todas as bagagens por mar até esta villa, d'onde resultou que durante os dias que mediaram desde 15 a 21 de julho, faltaram aos transeuntes todas as commodidades, e em especial ao Coronel, que não teve cama, dormindo sempre vestido, embrulhado no seu capote, sobre a terra; assim como lhe faltaram outros objectos necessarios com que se tinha prevenido no Rio de Janeiro.
Existe grande çreação de cavallos, e aves neste paiz, e os seus preços eram então diminutissimos: um bom cavallo custava 20$000 reis fracos, um peru 480, um pato 1.60 e assim por diante. As laranjas são tantas e tão boas que quasi não tem preço, dando-as sem dinheiro; e até o milho não subia de 200 reis fracos por alqueire de Portugal.

[22-25 de Julho]
Fez alto o batalhão n'esta bonita posição,- durante quatro dias, ficando o Coronel hospedado em casa d'um rico negociante, Capitão de milicias, chamado Francisco da Silva França, que lhe deu o melhor e mais grato agasalho: ahi comprou uma junta de bois, que lhe custaram 12$800 reis fracos, e com estes atrellados a um carro, que justou com outra junta para lhe conduzir a bagagem, na qual entrava uma boa barraca de campanha, 

[26 de Julho]
seguiu jornada no dia 26 com o batalhão, atravessando o rio, e indo ficar da outra banda em um campo denominado a Barra da Laguna. O rio tem no logar onde foi atravessado perto de meia legoa de largura, mas a bahia que fornia o porto estende-se cousa de cinco legoas pela terra dentro, e seria de certo excellente, se tivera mais profundidade. Sendo o itinerario marcado para = porto Rebello, que está cinco legoas distante da villa da Lugana, a montante do rio, marchou o batalhão por terra para o local indicado, indo o Coronel em um barco, gosando a bella vista das margens d'este rio, que tem muitos pomares de laranjeiras, e se fossem bem cultivados seriam um paiz delicioso: durante o seu trajecto, recebe este rio dois outros, o Madre e o Camaxo, que regam terrenos quasi incultos, mas muito ferteis. De porto Rebello seguiram approximando-se novamente da costa até= Campo-bom = a meia legoa do mar, e a quatro do logar referido acima; aqui apenas existia uma roça no meio do matto, contendo duas casas.

[29 de Julho]
Partindo no dia 29, logo a meia legoa de distancia encontraram um rio d'uma grande profundidade, com 100 palmos apenas de largura, chamado Orotango, mas que retardou a marcha por algumas horas, sendo necessario construir uma jangada para ser transposto; feito o que se dirigiram a um sitio pantanoso e esteril, chamado a =Barra velha = onde pernoitaram, tendo andado quatro legoas.

[30 de Julho]
Na marcha do dia 30, em que deixaram este local ermo e esteril, tiveram de passar um rio formidavel, largo e arrebatado na sua corrente, cujo nome é Araringoa, e tão rapido e impetuoso era, que para atravessal-o foi necessario esperar a subida da maré, pois de outra forma seria facil perder-se a jangada, que se construiu para a passagem da tropa. Feita porém a transposição sem accidente, caminharam para outro sitio distante tres legoas, chamado os Conventos, assim appellidado por existir alli um alto penhasco, que, visto de longe, parece um convento ; n'este local apenas havia uma casa, onde habitava uma velha com alguns escravos, que cultivavam milho, algodão e boas hortalices.

[31 de Julho]
No dia 31 sahiram dos Conventos e seguindo um paiz cheio de lagoas e pantanos habitados por jacarés, foram pernoitar ao cabo de quatro legoas no sitio chamado Lagoinhos, tendo assim avançado para o Sul perto de quarenta legoas.

[1 de Agosto]
Entrou o mez d'agosto, que corresponde n'aquelle paiz ao nosso fevereiro, e no 1.° d'elle sahiu o batalhão de Lagoinhos e marcharam para um campo distante quatro legoas, onde chamam = Agoas Claras, = nome derivado dum pequeno rio, que alli passa, cujas agoas são muito crystallinas. Este sitio é ermo, sem casa alguma, e á direita nota-se uma grande floresta, em cujo centro ha uma lagoa, povoada de jacarés, um dos quaes foi morto pelos soldados, e tinha dez palmos de comprimento e cinco de circumferencia na barriga.

[2 de Agosto]
No dia seguinte lhes appareceu pela frente o profundo rio=Mapituba, que passaram n'uma jangada, que alli mes'mo se construiu, e avançando mais duas legoas foram pernoitar no sitio das Torres, que tomou este nome de dois grandes morros que se avançam sobre o mar, e que de longe parecem como elevadas torres.
N'este sitio havia apenas duas casas com seus moradores, de modo que na distancia de vinte e duas legoas, que tantas havia d'alli á Laguna, apenas encontraram onze casas em quatro locaes, que foram =Porto Rebello, Barra Velha, Conventos e Torres.

A estrada desde a Laguna até ás Torres é quasi sempre pela beira-mar, mas dura e de facil transito; todavia muitas vezes na maré alta é em partes inundada pelas aguas vivas. Nem um passageiro encontraram em tão vasta extensão, e além d'algumas feras e jacarés, só viram os ares toldados de aves de diversas especies, mas principalmente carnivoras; comtudo são tambem frequentes as garças, 0s patos e as cegonhas: todas estas aves se sustentam de marisco, e de peixe, que o mar arroja á praia, o que faz em grande porção, porque sendo estes mares muito bulidos e tempestuosos, é grande a multidão de peixes que as vagas arremessam contra a costa: as mesmas balêas partilham este fado, e não poucas depararam n'esta marcha, que já se achavam mortas e em putrefacção estendidas na arôa. 

Este paiz é tão deserto, que desde Santa Catharina até este sitio das Torres apenas ha cinco freguezias, que são 1.° a de S. José: 2.° Nossa Senhora do Rosario ou Enseada de Brito: 3.° SantAnna ou Villa-Nova: 4.° Santo Antonio da Laguna: e 5.° Araringua, cuja igreja ainda então estava em construcção: havendo pois freguezias com uma área de doze e mais legoas de diametro, é claro que a maior parte dos seus parochianos passam a maior parte do anno sem ouvirem missa, e apenas os que podem se vão desobrigar na quaresma: todavia não são distituidos de moral e de principios religiosos, supprindo estas faltas involuntarias por meio de varias orações: isto prova que não basta haver os meios para se exercer a devoção: o que mais do que tudo se torna necessario é a mesma devoção; nos campos, no meio dos bosques e no centro das occupações agricolas o instincto da religião conserva-se e áperfeiçôa-se: no meio da devassidão das cidades, na presença da desmoralisação dos homens mais elevadamente collocados e da corrupção publica, esse instincto corrompe-se e pollúe-se pela mais asquerosa indifferença. A grande parte do que os contemporaneos chamam civilisação e progresso, só cabe o nome de devassidão e retrocesso: devassidão porque se ferem os principios mais sãos da moral: retrocesso porque o homem em vez d'aperfeiçoar-se e de se approximar do Creador, degrada-se e avisinha-se dos entes inferiores da creação.

Os homens n'este paiz são esbeltos e vigorosos; montam a cavallo com uma firmeza, que se não toma em picadeiro nenhum : assim raras vezes andam a pé, e a sua arma é a faca de ponta ; não que ella lhes seja necessaria para a defesa ou ataque dos seus semelhantes, porque o roubo e o assassinato são crimes, de que apenas se tem noticia: mas sim para o ataque e defesa contra os animaes bravios que infestam o sertão. Um laço tambem pende sempre a seu lado, e em atiral-o são dextrissimos: o seu desembaraço chega a ponto de laçarem um boi ou um cavallo por onde querem. Por este modo se apanhavam os bois que serviam para o mantimento do batalhão, a quem como é facil de presumir, n'este paiz nunca faltou para etape excellente carne fresca.

As mulheres são bem apessoadas e bonitas, vestem d'algodão - e chita, que ellas mesmas fabricam; andam aceadas e penteadas á maneira das europêas. O seu sustento ordinario, além da carne, é a farinha de pau, e as laranjas: não comem pão e até ignoram como seja manipulado: o milho, que cultivam, vendem-no em grão, e dão-no tambem aos porcos, que criam em grande abundancia.

[3-4 de Agosto]
O Coronel deteve-se nas Torres dois dias, 3 e 4 d'agosto, a fim de dar tempo não só para o descanço da tropa, mas para os soldados se poderem lavar, remendar e compor os sapatos. Esse tempo aproveitou-o em observar e estudar o paiz tão novo para um europeu. 
Os dois morros, que pela semelhança dão o nome ao sitio são dum aspecto magnifico. Um d'elles cheio de fendas por um lado é coberto de frondoso arvoredo, ao passo que da outra parte parece uma alta muralha sem saliencia alguma. O outro era um elevado rochedo de mais de trezentas braças de circumferencia, e terminando em ponta aguda, que desafiava as nuvens: á direita estendia-se uma vasta cordilheira de montanhas, delraz das quaes habitavam os povos barbaros ou gentios,' a que os naturaes chamam = Bogres = cujas incursões muitas vezes , incommodavam os pacificos e laboriosos habitantes do littoral. E' o mesmo que succede nas nossas vastas colonias africanas, onde o gentio tem sempre em sobre-salto as prosperas fazendas, que a civilisação e a industria creara com sacrificios enormes: conserval-os em respeito é difficil em tão extensas costas; mas o tempo irá corrigindo estes males, que são a consequencia necessaria da barbarie d'essa raça degenerada, que envergonhada do seu aviltamento, se esconde rios areaes e sertões do velho e novo mundo, para vi„ver entre as feras e as serpentes, reunindo a ferocidade d'aquellas á astucia d'estas, e sendo esclarecida pelo fraco clarão d'uma razão extraviada.

[CONTINUA]


* * *

CONHEÇA A BIOGRAFIA DESTE OFICIAL AQUI

Retirado de: AGUILAR, Francisco D’Azeredo Teixeira D’, Apontamentos Biographicos de Francisco de Paula D’Azeredo, Conde de Samodães, Porto, Tip. Manoel José Pereira, 1866. pp. 82-sg

Memórias do tenente coronel António José Claudino de Oliveira Pimentel - II


Memórias do tenente coronel António José Claudino de Oliveira Pimentel: seleção (Parte II)
Entre a chegada ao Rio da Janeiro, em 30 de Março e partida da Divisão do Rio para o Sul a 12 de Junho de 1816.
Continua da I Parte [ler]

[30-31.3.1816]
[...] Foi logo na chegada ao Rio de Janeiro [...] que tive a desagradavel noticias de que o marechal Beresford havia proposto e obtido de sua magestade uma alteração na primitiva organisação da divisão, em virtude da qual eu era privado do comando do 3.º batalhão que o governo de Portugal me havia confiado e garantido em nome de el.rei, enquanto o meu comportamento me fizesse digno d’elle. O 3.º batalhão que eu commandava, bem como o 4.º, do commando do tenente coronel João Chrysostomo Callado, estavam já designados para com elles se formarem dois regimentos de infanteria, dando o commando do primeiro ao coronel João Carlos de Saldanha,  e o do segundo ao coronel Francisco de Paula Azeredo, que haviam sido despachados em Lisboa coroneis addidos aos estado maior da divisão.

Não é possivel expressar a sensação que me causou esta mudança, que me privava da gloria de commandar em campanha um corpo que eu havia organisado e disciplinado com tanto zêlo, não poupando fadigas nem mesmo despezas, como é bem notorio, para ter o dissabor de o entregar ao coronel Saldanha, que muitos mezes antes tinha vindo para o Rio de Janeiro. Fiz logo tenção de levar os meus queixumes até aos degraus do throno, confiado, como estava, na rectidãoe justiça do monarcha. Communiquei a minha resolução ao tenente coronel Callado; não para que elle imitasse o meu procedimento, mas só para cumprir com os deveres de bom camarada e pela identidade de interesses. O tenente coronel Callado, não só approvou a minha resolução, mas até me protestou, debaixo da sua palavra de honra, que seguiria o meu exemplo n’este negocio; pedindo-me que, para obrarmos de accordo, lhe participasse tudo o que a tal respeito fosse occorrendo; pois que a questão era melindrosa por contrariar, e muito, o marechal general.

Revista e parada no largo do Paço, no Rio de Janeiro, circa 1790.

[4.4]
No dia 4 de abril desembarcou a divisão no Rio de Janeiro e teve logar uma revista no largo do Paço, em presença de suas magestades e altezas.
O 3.º batalhão, que eu ainda commandava, não só mereceu os elogios de todos os militares que o viram n’aquella revista, mas até eu tive a venturade que el-rei lhe achasse diferença dos outros corpos pelo seu garbo, bella apparencia e uniformidade.

Acabada a revista suas magestades e altezas dignaram-se receber os cumprimentos de toda a officialidade, e finda esta recepção os corpos embarcaram para bordo dos seus respectivos navios. Eu fiquei em terra para á noite ir fallar a el-rei á quinta de S. Christovão, para onde elle tinha ido depois do beijamão.

Cheguei áquella residencia em favoravel occasião, por ter a fortuna de encontrar el-rei, quando se recolhia a pé da quinta para o palacio. Ia commigo o major do meu batalhão, José Pedro de Melo, que foi testemunha da exposição que fiz a sua magestade e das respostas benevolas e lisonjeiras d’aqeulle senhor. Depois de eu lhe haver beijado a mão, sua magestade teve a bondade de me perguntar se eu era o commandante do 3.º batalhão; ao que respondi: sim, meu senhor, sou o tenente coronel que organisou e disciplinou o 3.º batalhão,e, que quando esperava que teria a ventura de que vossa magestade approvaria os meus desvelos e assiduos cuidados na organisação e commando de um corpo que me foi confiado em nome de vossa magestade, vou ter o dissabor de deixar este commando, sem que a consciencia me accuse de haver commetido a menor falta. Eu não peço a vossa magestade que me faça coronel do 1.º regimento, mas espero da justiça de vossa magestade me conserve o commando de um corpo, cuja disciplina é filha dos meus cuidados e fadigas e do qual não me tenho tornado indigno. No exercito de Portugal, durante a ultima guerra, muitos regimentos foram commandados por tenentes coroneis, e não seria extraordinario que eu agora commandasse um novo regimento composto do batalhão que até aqui tenho commandado, com o pequeno aumento de duas companhias que se lhe vão annexar. Estou tão certo da recta justiça de vossa magestade, que ouso esperar esta graça de vossa magestade.

El-rei, cujas benevolas intenções são de todos conhecidas, respondeu-se: “Tem rasão, eu hei de satisfazel-o, e vá certo de que hei de contentar, porque tenho muito boas informações a seu respeito”.
Tive depois a honra de acompanhar el-rei até ao palacio, fazendo-me elle durante o caminho muitas perguntas relativas ao estado em que se achava Portugal. Entre as que me eram particularmente relativas perguntou-me, em que regimento havia servido, e como lhe dissesse que antes da invasão havia servido no regimento 24 de infanteria, ou infanteria de Bragança; parando e voltando-se para mim disse-me: “Não era coronel d’esse regimento um velho gordo chamado Manuel Leite? – Sim, meu senhor, era o mesmo”, respondi eu. Então el-rei voltando-se para os camaristas disse-lhes: “Lembro-me que o coronel Leite tinha farda com bandas amarellas, e que passava por ser um homem honradissimo”. Isto confirma a opinião geral de que os senhores da casa de Bragança sõ dotados de singular memoria.

Quando saía do palacio de S. Christovão encontrei na escada o marquez de Bellas e o coronel Luiz Paulino, que haviam presenceado o que eu dissera a el-rei na quinta. O marquez, depois de me comprimentar, disse-me que não devia abandonar a minha pretensão, porque sua magestade estava muito propenso a reparar a injustiça que me tinha sido feita; que el-rei gostára muito do modo por que lhe fallára; que havia perguntado por mim ao marechal general, e que este, sem ainda saber o motivo por que el-rei lhe fallára de mim, o havia informado muito favoravelmente. Acrescentou o marquez que eu devia fallar todos os dias a el-rei, e que para vir a S. Christovão me offerecia a sua carruagem, o que muito agradeci, sem o acceitar.

[5/4]
No seguinte dia de manhã communiquei ao tenente coronel Callado o que havia passado com el-rei, e elle de novo me protestou a sua cooperação de acordo commigo n’ete negocio. 
No mesmo dia desembarcou a primeira brigada para a armação da Praia Grande, e sendo-me forçoso ir com o meu batalhão, fiquei privado de poder ir ao paço todos os dias.

[9.4]
No dia 9 tive ordem para entregar o batalhão ao coronel Saldanha, o que fiz no mesmo dia, tendo já de prevenção preparado todos os papeis mecessarios para a entrega legal.
Sobre o estado em que entreguei o batalhão, tanto no que respeita á disciplina, como no que se refere á escripturação, contabilidade e arranjo, appello para o testemunho do mesmo coronel Saldanha. É elle por extremo honrado e um dos mais habeis officiaes da divisão, e não deixará em duvida a veracidade da minha exposição a esse respeito. Portanto posso dizer e escrever com franqueza que o estado em que lhe entreguei o 3.º batalhão mostra bem a injustiça que se me fez, tirando-me o commando de um corpo, em cuja disciplina e arranjo puz todo o cabedal das minhas diligencias, dos meus cuidados e até o meu dinheiro, como todos sabem.

Tendo feito a entrega do 3.º Batalhão ao coronel Saldanha, obteve imediatamente do general Lecor quinze dias de licença para se ocupar exclusivamente da sua pretensão, e n’esse mesmo dia voltou a S. Christovão, tendo por companheiro Rodrigo Pinto Pizarro, que também, diz ele, era uma das victimas das prepotencias do marechal.

Sendo Claudino recebido por el-rei, deu-lhe parte de que acabava de fazer a entrega do batalhão, cujo comando esperava conservar, depois das benevolas promessas que sua majestade, havia quatro dias, lhe fizera, e pedia agora por muita mercê houvesse sua Majestade por bem informar-se do modo como ele havia cumprido as ordens para a entrega, e do estado em que a todos os respeitos se achava a administração e disciplina d’aquele corpo. Respondeu-lhe el-rei que já estava muito bem informado de tudo, e que ficasse certo de que o havia de contentar e satisfazer muito, mas que estava pensando no modo porque o havia de fazer; terminando por dizer-lhe “hei de contental-o muito, vá descansado”.
[...]
O marechal Beresford havia sido informado das queixas que os tenentes coroneis tinham levado á presença de el-rei; o seu demasiado orgulho não podia suportar nem a sombra de uma resistencia, por justa que ela fosse, da parte dos seus subordinados, maiormente vindo ela dos oficiais portugueses, que estava habituado a tratar com sobranceria e dos quais, por esse motivo, era geralmente odiado. (...)

[11.4]
Em uma recepção do paço, que teve lugar na quinta feira de Endoenças depois da cerimónia religiosa do lava-pedes, encontrou Claudino Pimentel o general Lecor, o qual, falando-lhe da questão que tanto o interessava, lhe disse que el-rei havia encarregado o conde da Barca de propor um meio de satisfazer os tenentes coroneis a quem se havia tirado o comando dos batalhões; mas que o marechal estava muito irritado, e que determinará reunir no proximo sabado, em cada d’ele Lecor, os generais e oficiais superiores da divisão, talvez com o fim de repreender os queixosos, por haverem representado a el-rei contra a suas deliberações. Claudino fez logo tenção de não comparecer n’esse reunião, escusando-se com a licença de quinze dias que o general Lecor lhe havia concedido; porém este general, cujo prudente egoismo o aconselhava a que se não comprometesse com o prepotente marechal, não consentiu n’aquela escusa e cassou a licença que havia concedido. Profundamente contrariado por este facto, não teve Claudino Pimentel outro remédio senão partir no mesmo dia para a Praia Grande.
O tempo estava ameaçador e sombrio, grossas e escuras nuvens encobriam o céu; o mar tenebroso e denegrido apresentava um torvo aspecto; mas, sem se preocupar com estes anuncios de uma proxima tormenta, Claudino embarcou em um pequeno batel, conduzido por dois remadores negros, cuja pericia nautica, por duvidosa, lhe não inspirava grande confiança. Ainda nãio chegára o fragil batel a meio da baia, quando uma daquelas trovoadas, tão subitas quanto impetuosas, que entre os tropicos são frequentes, se desencadeou com expressa serração em temporal desfeito, levantando as aguas em vagas curtas e amiudadas; soprando o vento com tal violencia qur por duas vezes esteve a ponto de sossobrar o mesquinho barco, em que Claudino ia, não como Cesar com a sua fortuna, mas, como ele próprio o dia, com as suas amarguras e desgostos.
Só pelas onze horas da noite, depois de aturada lucta com as ondas irritadas da baia, mais cego que alumiado pelo fulgor dos relampagos, pode chegar á Praia Grande, mas literalmente encharcado, e por tal sorte que d’ali lhe resultou um ataque reumático, incómodo, mas providencial; pois legitimava uma salvadora parte de doente. 
[...]

[13.4]
A reunião dos generais e oficiais superiores da divisão teve efetivamente lugar no sábado dia 13 de Abril, como havia sido ordenado pelo marechal. Este, logo que entrou na sala, não vendo presente o tenente coronel do 1.º regimento, perguntou ao coronel Saldanha o motivo daquela ausencia, e ao ouvir, em resposta, que o tenente coronel estava com parte de doente, exclamou muito excitado. “é necessario perdel-o; hei de perdel-o.”. Voltando-se então para o tenente coronel Calado, severamente o repreendeu por se haver queixado a el-rei de se lhe ter tirado o comando do 4.º batalhão. Este pobre oficial, faltando ao que expressamente havia prometido ao seu colega, humilhou-se diante do prepotente e arrogante marechal, pedindo-lhe perdão, e prometendo cessar com o requerimento que fizera, traindo assim a amizade e camaradagem e os seus proprios interesses, na persuasão de que esta indigna baixeza lhe valeria a protecção do marechal

[16.4]
Logo para o dia 16 ordenou Beresford um exercicio no campo de S. Bento. Não vendo ainda ali comparecer o tenente coronel Claudino, deu ordem ao comandante da brigada, que era o brigadeiro Jorge de Avilez, para que fosse inspeccionado aquele oficial pelo cirurgião mor de brigada Alexandre Luiz Leite. Fez este facultativo a inspeção nesse mesmo dia ás onze da noite, e em resultado dela atestou a doença do inpeccionado. 

[17.4]
No dia seguinte houve outro exercicio, e o marechal, parecendo ainda duvidar da realidade da doença, chamou o cirurgião mor, e com a sua altivez habitual o ameaçou para que lhe declarasse se aquela doença era real ou simulada. O facultativo não hesitou um momento em confirmar o que havia atestado. Pareceu então convencer-se da verdade; mas não se lhe aplacaram as iras, estimuladas ainda por intrigantes, a que a mamoria alude, um pouco enigmaticamente, ocultando-lhes os nomes. A irritação do marechal contra Claudino era tão patente, que todos os oficiais da divisão estavam persuadidos que ele seria infalivelmente victima do seu pundonoroso procedimento.

[18.4]
Recebendo Claudino no dia 18 uma visita do marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia, ajudante general da divisão, imaginou, ao recebel-a, que teria por fim convencel-o a abandonar a sua pretensão; porém, a visita não passou alem de um mero cumprimento de civilidade sem que, nem de leve, se falasse na questão.

[20.4]
Não aconteceu o mesmo com outra visita que, dois dias depois, lhe fez o tenente general Lecor. Esta tinha por objeto propor-lhe uma transação, que consistia em trocar com D. Alvaro da Costa, que era tenente coronel deputado do ajudante general, passando este para tenente coronel do 1.º regimento. Aqui andavam já os expedientes imaginados superiormente, pelo desejo de satisfazer Claduno, sem contrariar o marechal. Aquele, agradecendo a proposta, recusou-a a principio, por considerar que ela não satisfazia completamente as exigencias da sua honra ofendida; porém, tais foram as instancias do general Lecor, movidas unicamente pelo desejo de obstar a maiores dissabores, que, finalmente, Claudino consentiu na troca, mas declarou logo que estava profundamente convencido de que ela se não realizaria pela obstinada oposição do marechal. Não se enganava ele neste conceito.
Sabia-se que el-rei viria dentro de poucos dias à Praia Grande, e Claudino Pimentel desejava ter já a certeza da troca projetada, quando aquela vinda se realizasse, porque, a não ser assim, queria seguir resolutamente o intento de recorrer a el-rei por meio de requerimento.

[22.4]
Escreveu neste intuito, no dia 22 de abril, ao general Lecor, pedindo-lhe pronta resposta.

[30.4]
Não a tinha recebido ainda no dia 30, e então, desenganado de que o marechal o queria perder, resolveu apresentar a el-rei, pelas vias competentes, um requerimento em forma, e nesse mesmo dia o remeteu ao coronel Saldanha, pedindo-lhe o fizesse seguir oficialmente.
(...) [pede transferencia para o ExBRasil]
Depois de enviar este requerimento pelas vias competentes, escreveu novamente ao general Lecor, prevenindo-o do que havia feito e solicitando o andamento do negócio. Continuou, apesar disso, o obstinado silêncio daquele general, porque este não tinha alcançado a troca com D. Alvaro, na qual tinha tão grande empenho.

[3.5 – Pimentel escreve ao conde de Paraty.]
[4.5 – Paraty deu conhecimento da carta ao rei. Requerimento ainda não entregue.]

[5.5]
“escreveu novamente ao general Lecor, prevenindo-o de que, em vista da demora que tinha havido na apresentação do requerimento, enviaria outro diretamente ao marechal Beresford. Lecor resolveu-se então a responder que o negocio da troca projetada ainda não estava resolvido; mas se Claudino instava pela apresentação do requerimento o iria logo remeter.

[6.5]
Ainda assim, apesar das novas instancias, o requerimento não tinha saido das mãos do general Lecor no dia 6 de maio, porque este general receiava o efeito que iria aquele papel produzir no animo, já sobejamente irritado, do marechal. Resolveu então Claudino ir pessoalmente procurar o general Lecor ao seu quartel. Este general recebeu-o com extrema amabilidade, e declarou-lhe que o marechal se havia oposto com todas as suas forças à troca projetada com D. Alvaro, apesar do consentimento e até desejo manifestado por el-rei, e que, visto não se poder alcançar aquela solução, iria no dia imediato entregar o requerimento, o que efectivamente realizou.

[p.90-92] [...]

[11.5]
Confesso ingenuamente que a carta do marechal não me fez impressão alguma, porque a considerei como desabafo do seu rancor; porém, o ultimo artigo [“um official que não commandou nunca em acção o menor corpo de tropa”] era summamente melindroso para ser indifferente a um militar honrado e brioso, e por isso formei desde logo projecto de acompanhar a divisão, uma vez que ella ia entrar em campanha, para mostrar a el-rei que o marechal general era, sem conhecimento de causa, injusto para commigo. Eu espero ter a fortuna de me encontrar em presença dos inimigos da minha patria e de el-rei, e então mostrarei se sou na America o mesmo homem que fui na Europa, nos combates de Amarante, de quem tive a honra de ser ajudante de ordens, e em cuja situação não podia commandar corpo algum de tropa. Como ajudante de ordens cumpri sempre os meus deveres com dignidade e honra, sem receio que ninguem desminta esta minha asserção.

[27.5] 
Carta de Lecor a Pimentel:
“O il.mo e ex.mo sr. Marquez de Campo Maior me encarrega de dizer a v. s.ª que o silencio que v. s.ª tem guardado sobre a ultima carta que s. ex.ª lhe escreveu, o faz persuadir que v. s.ª dá por acabada a questão, e que se acha contente, como um oficial que conhece em perfeição o serviço, o que me dá o maior prazer a s. ex.ª, desejando que v. s.ª me faça constar se são positivas (sic) as ideias de s. ex.ª ao mesmo respeito, para assim s. ex.ª poder mostrar a v. s.ªo quanto // o deseja contemplar, fazendo retirar qualquer proposta, que poderia dar um outro destino a v. S.ª para fora da divisão. Deus guarde a v. S.ª Quartel da Praia Grande, 27 de maio0 de 1816 = Carlos Frederico Lecor.” (apud PIMENTEL, 78)

Resposta de Pimentel:
Illmo. e Ex.mo Sr. – Tenho a honra de receber o officio que v exª me dirigiu com data de hoje, e em resposta cumpre-me dizer a v exª para conhecimento do illmo e exmo marchela general marquez de Campo Maior, que o silencio que guardei a respeito od officio, que o mesmo senhor houve por bem dirigir-me em data de 10 deste mez, foi pela convicção, em que sempre estive, de que um subdito jamais deve entrar em discussão com os seus superiores, e esperando que a minha conducta mostrará em todo o tempo a pureza dos meus sentimentos e caracter; e seja qual for o destino que sua majestade haja por bem dar-me, eu o seguirei com a mais completa satisfação. S. exª honra-me sobremaneira com o conceito que presentemente faz de mim, e espero não lhe dar motivo de arrepender-se em tempo algum. Deus guarde a v exª, Quartel na Praia Grande, 27 de Maio de 1816

Embarque da DVR na Praia Grande, 29 de Março de 1816. J. B. Debret.
[29/5]
Foi o dia 29 de maio destinado para o embarque da divisão dos voluntarios reais, que devia em poucos dias partir para a ilha de Santa Catarina. EL-rei e os principes assistiram ao embarque, que se efectuou na praia de S. Domingos, e regressaram logo para o Rio de Janeiro.
Claudino Pimentel embarcou com quatro companhias a bordo da fragata Fénix, que era comandada pelo CMG Francisco Antonio da Silva Pacheco. Embarcaram tambem com ele os oficiais das companhias 4.ª, 5.ª, 6.ª e 8.ª, e o ajudante Claudio Caldeira. Iam ainda na mesma fragata o marechal de campo Sebastião Pinto de Araújo Correia, com os oficiais do departamento de ajudante general D. Alvaro da Costa, o major Pitta com a sua familia, o brigadeiro Francisco Homem de Magalhães Pizarro e o medico Antonio do Rego.

[29/5 a 12/6]
De 29 de maio a 12 de junho conservou-se a expedição no porto do Rio de Janeiro, e durante este tempo Claudino foi frequentes vezes ao paço. Em uma das noites, em que havia recepção em S. Cristovão, encontrou ali o marechal general, que, cumprimentando-o com amabilidade, o chamou de parte e lhe disse – formaes palavras – “Tenho muita satisfação de dizer a v sª que sua majestade está muito contente com a sua pessoa; e eu estou convencido de que a sua questão está acabada”. Ao que ele respondeu: “Agradeço infinitamente a v exª tão lisongeira noticias; mas se v exª me fala no requerimento que fiz a el-rei, sua majestade é soberano e pode decidil-o como for do seu real agrado, porque me submeterei a tudo como subdito obediente”. O marechal tornou com ar muito risonho: “Oh! Eestimo muito que a sua historia tenha acabado, e que sua majestade esteja muito contente com v sª”; e com isto se retirou


Retirado de: PIMENTEL, Júlio Machado de Oliveira, Memorial Biographico de um militar ilustre, O General Claudino Pimentel, Lisboa, Imprensa Nacional, 1884, pp.75-77

LEIA A BIOGRAFIA DESTE OFICIAL AQUI
PARTE I [LER]


28/08/2019

Armada Real: Conde de Viana


O capitão de mar e guerra D. João Manuel de Meneses, 1.º conde de Viana, nasceu no palácio dos Marqueses de Tancos, em Lisboa, a 27 de abril de 1783, filho dos marqueses de Tancos, António Luís de Meneses e D. Domingas Manuel de Noronha.

Assentou praça de aspirante a guarda marinha por aviso de 13 de Abril de 1793, a duas semanas de cumprir dez anos de idade, por proposta do tenente general conde de S. Vicente, com exercício na Marinha, então comandante da Companhia de Guardas Marinhas. 

Em 16 de Maio de 1796, é nomeado guarda marinha, por portaria do Conselho do Almirantado.  A 5 de Novembro desse mesmo ano, é promovido a segundo tenente, ficando a patente dependente da conclusão dos seus estudos na Real Academia da Marinha, sem os quais não poderia progredir na carreira.

A 19 de Outubro de 1798, é promovido a primeiro tenente, em virtude da promoção geral efetuada pelo vice almirante António Januário do Vale, comandante da esquadra do Brasil.
É promovido a Capitão Tenente a 12 de Março de 1801.

A 17 de Dezembro de 1806, é promovido a Capitão de Fragata. Comanda a fragata Urânia na passagem da Corte ao Brasil, em 1807 e 1808, sendo promovido a capitão de mar e guerra a 8 de março de 1808. É feito conde de Viana erm 1810.

Com 33 anos de idade, o conde de Viana comanda a esquadra ligeira do Rio da Prata, a bordo da fragata Calipso, e está presente na tomada de Montevideu. 

Sendo promovido a chefe de divisão (mais ou menos equivalente a contra almirante ou comodoro), a 4 de julho de 1817, penetra, no ano seguinte, com a sua esquadra ligeira o rio Uruguai e começa operações paralelas à ofensiva terrestre do general Joaquim Xavier Curado na costa ocidental do rio, até Paysandú.

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LEIA
- Carta do Conde de Viana acerca dos eventos navais entre os dias 18 e 20 de Janeiro de 1817:

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Conheça mais acerca do conde de Viana no "Portugal Dicionário Histórico" aqui

07/08/2019

Resumo das principais operações militares das Tropas de Guarnição de Montevideu (1 de Abril a 22 de Novembro de 1823)



Com a proclamação da independência do Brasil, a 7 de Setembro de 1822, muitos oficiais, sargentos e praças da Divisão de Voluntários Reais escolheram o serviço brasileiro. O próprio comandante em chefe, o tenente general Carlos Frederico Lecor saiu, dois dias depois, a 9 de Setembro, tendo aclamado o novo imperador Pedro I e tomado o comando das forças brasileiras na Cisplatina, passando a sitiar Colónia e Montevideu.

Apesar de se poder afirmar que os acontecimentos revolucionários intestinos à divisão desde 1821 tiveram um papel fundamental em iniciar esta ruptura dentro da unidade, a situação era agora algo diferente e infinitamente mais clara. Apesar disso, muitos dos que escolheram passar a servir o Brasil, eram os mesmos que apoiavam Lecor contra o Conselho Militar e, em grande medida, contra as Cortes Constituintes de Lisboa.

Ainda assim, o remanescente das Divisão dos Voluntários Reais, sob o comando do brigadeiro Álvaro da Costa de Sousa Macedo, manteve a posse da cidade de Montevideu e ficou sujeita a um sítio que durou até finais de 1823, aquando do armistício local, e da evacuação em Março de 1824, no que foi a saída do último contingente português do território brasileiro, no âmbito da guerra da independência.

Em seguida apresento a transcrição, contendo uma memória das várias operações militares portuguesas que ocorreram durante grande parte do ano de 1823.
A transcrição foi retirada da Gazeta de Lisboa, mantendo-se a ortografia original.

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Resumo das principais operações militares das Tropas de Guarnição de Montevideo, commandadas pelo Brigadeiro D. Álvaro da Costa de Sousa de Macedo; extrahido das diferentes Ordens do Dia desde o 1.° de Abril até 22 de Novembro de 1823.

[13.4.1823]
«A 13 de Abril o Commandante das forças passou revista a differentes corpos, os quaes pela sua rigorosa disciplina, asseio, e bella execução das suas manobras, merecerão os mais distinctos elogios. Nesta occasião fez o Commandante o elogio do Mestre Pratico Manoel Joaquim da Costa, que no dia 27 de Março ajudado de seis Marinheiros reprezou huma lancha de que os inimigos em Maldonado se servião para hostilizar a Guarnição de Montevideo.

[14.4.1823]
No dia 14 partindo hum destacamento de 100 homens, ás ordens do Major José Joaquim Pacheco, a proteger hum corte de lenhas, conseguio com 10 Praças desalojar 40 e tantos homens do inimigo, de huma casa, e o obrigou a desamparar o passo do arroyo Miguelete em frente da Ferraria, com a perda de hum soldado morto e 3 feridos, sem que este pequeno destacamento soffresse casualidade alguma.

[19.4.1823]
«No dia 19 teve lugar o combate de Saladeiro de Duran, entre as tropas dissidentes Brasileiras, e as Reais Portuguesas de Montevideo dirigidas pelo Tenente Coronel João Joaquim Pereira do Lago, as quaes constavão de hum Esquadrão do 1.º Regimento de Cavalaria de V. R. d'El-Rei, commandado pelo Major João Nepumeceno de Macedo; de outro do 2.°, commandado pelo Capitão João Baptista de Oliveira; das Companhias de Cavalaria do Comando do Major D. Manoel Oribe e Capitão D. Caetano Rodrigues, do Corpo de Milícias de Canelones, do Commando do Coronel D. Bonifácio Vidal; e apoiadas por 100 homens do 1.º Regimento de Infantaria, commandados peio Major José Joaquim Pacheco; e pela 3.ª Companhia de Cavalaria de linha do Commando do Capitão João Peres.
Huma completa victoria coroou os esforços destas valoriosas tropas, e o inimigo retrocedeo precipitadamente com a perda de 20 mortos, e muitos feridos, deixando algumas armas e cavailos, e seis prizioneiros no poder dos vencedores.

«Merecem particular menção alguns Officiaes que neste combate adquirirão novos títulos á estima dos seus compatriotas; a saber: o Tenente Coronel João Joaquim Pereira do Lago, Commandante da columna que traçou o plano da acção; o Major João Nepumeceno de Macedo, do 1.º de Cavallaria, que se distinguio particularmente; o Major D. Manoel de Oribe, que attrahio com grande destreza o inimigo á cilada preparada; e o Capitão João Baptista de Oliveira, do 2.º Regimento de Cavallaria; o Commandante elogia altamente todos os mais Commandantes dos Corpos, Officiaes, Officiaes Inferiores, e soldados. A nossa perda foi só de hum Anspeçada ferido por hum próprio camarada.

[8.5.1823]
«A 8 de Maio marchou o Tenente Ajudante Leonardo de Sousa Leite á testa de hum destacamento do 2.º Regimento de Infanteria da Divisão de V. R. pela Sanja até em frente da casa da Ferraria, e encontrando huma partida inimiga a poz em completa fuga, ferindo-lhe dois homens.

[11.5.1823]
«No dia 11 a segunda Companhia de Granadeiros do dito Regimento, commandada pelo Tenente Lopo José Corte Real;  parte do 1.º Batalhão dos Libertos d'El-Rei, commandado pelo Capitão Joaquim de Sousa Pinto com 1 peça d'artilharia dirigida pelo 2.º Tenente Joaquim José Ribeiro, conseguio desalojar o inimigo em numero de 140 homens da Chácara do Presumido. Esta força que o Tenente Coronel Lopo José Corte Real, acompanhado pelo Official Superior do dia o Major José de Barros e Abreu, fez marchar para naquelle ponto proteger os forregeadores, desalojou depois huma partida que occupava a Ferraria. 

[12.5.1823]
O Capitão António Silvestre de Sousa, do 2.° Regimento de Infanteria, distinguio-se no dia 12 no piquete do centro de Casavalle, onde na emboscada em que se achava ferio alguma gente ao inimigo, e lhe tomou hum prizioneiro.

[13.5.1823]
«No dia 13 de Maio, por ser o fausto anniversario de S. M. se formarão as tropas da guarnição de Montevideo na Praça do Cabildo em grande Parada, Commandadas pelo Tenente Coronel João Joaquim Pereira do Lago. As três salvas do estilo em todas as fortalezas, e embarcações da Esquadra Nacional, estando tanto as primeiras como as segunda todas embandeiradas, forão além de outros, não equívocos signaes do regozijo com que os bons Portugueses em todos os pontos do globo celebrão este fausto dia.

[18.5.1823]
«A 18 o Coronel do Corpo de Milicias de Canelones, D. Bonifácio Vidal, levando debaixo das suas ordens a 3.ª Companhia de Cavallaria de linha, do Commando do Capitão D. João Peres, 50 homens do corpo de Milicias de Canelones, commandados pelo Capitão D. Santos Casavalle, e parte do Esquadrão das Milicias de Pando debaixo do commando do Capitão D. Joaquim Figueiredo, se dirigio á Estancia denominada de Chocarro, onde se achava huma grande porção de gado protegida por 70 homens ás ordens do Major Felisberto. O inimigo foi atacado nessa occasião com tal denodo por huma diversão que se lhe fez para distrahir a sua attenção daquelle ponto, que soffrendo total destroço, desamparou o campo, e foi perseguido até a Villa das Pedras.
As nossas tropas depois de haverem feito 12 prizioneiros se apoderarão de perto de duas mil cabeças de gado vaccum: a nossa perda foi só de hum Sargento e hum Soldado ferido; e do Alferes das Milicias de Pando, D. Francisco Burgeno que recebeo algumas cutiladas por equivocação de hum Soldado do seu mesmo corpo. Nesta empreza distinguirão-se o Tenente Coronel Jeronymo Pereira de Vasconcellos, commandante do 2.° Regimento de Infanteria da Divisão de V. R. de El Rei, os Majores João Nepumeceno de Macedo, e José de Barros e Abreu, commandantes do 1.º e 2.º de Cavallaria, o 2.º Tenente Joaquim José Ribeiro, Commandante do Parque de Artilharia, o Major Pedro António Rebocho, Commandante do 2.º Batalhão de Libertos, o Major D. Manoel de Oribe, os Capitães D. Caetano Rodrigues, e D. João Peres, Commandantes das 3 Companhias de Cavallaria de Linha , o Coronel D. Bonifácio Vidal do Corpo de Milicias de Canelones, o Capitão D. Simão del Pino, e D. Santos Casavalle que commandavão dois destacamentos deste Corpo, o Capitão D. Joaquim de Figueiredo que commandava parte do Esquadrão de Milicias de Pando, e o Major José Joaquim Pacheco, que com hum Destacamento do 1.º Regimento de Infanteria marchou da Praça para reforçar as posições de Serrito e Casavalle.
O Commandante das forças agradeceo aos Ajudantes de Campo os Tenentes D. Fernando Xavier de Almeida e José de Mendonça David, e ao Capitão do 1.º Regimento de Cavallaria José Maria de Sá Camello o zelo que mostrarão nesta occasiâo.

«O Commandandante das forças faz menção honrosa das excellentes disposições que tomou o Tenente Coronel João Joaquim Pereira do Lago, Commandante do 1.º Regimento de lnfanteria e da columna em Casavalle para proteger, em 20 de Junho o corte de lenha além dos pontos avançados do inimigo; assim como do valor com que o Major do dito Regimento no dia 24 do mesmo mez surprehendeo o inimigo no Saladeiro de Duran, e lhe fez dois prisioneiros, distinguindo-se nesta occasião o Alferes Rodrigo de Sá Valente.

[15.7.1823]
«No dia 15 de Julho pela madrugada tendo o Commandante das forças ordenado hum movimento contra as avançadas do inimigo, este que marchava á descoberta foi atacado e cortado por 70 homens do 2.º Regimento de Cavallaria da Divisão de V. R. de El-Rei ás ordens do Major Commandante deste Regimento José de Barros e Abreu, em cujo seguimento marchava o Coronel D. Bonifacio Vidal com parte das Milicias de Canelones, apoiado por duas companhias de infanteria e pequenos destacamentos de Cavallaria.
A intrepidez destas tropas cujos movimentos forão dispostos pelo Tenente Coronel Jeronymo Pereira de Vasconcellos Commandante do 2.º  Regimento de Infanteria e da Columna em Casavalle, deixou por longo tempo duvidoso o resultado da empreza: o inimigo soffreo notável perda de mortos e feridos além de 16 prizioneiros. A carga e a retirada foi muito habil e corajosamente executada á vista de 200 homens do inimigo que em vão tentarão tolher a passagem.
O Major José Barros de Abreu, e o Coronel Vidal se fiarão acredores de particular elogio pelo seu brioso comportamento.

[20.8.1823]
«A 20 de Agosto o Tenente Coronel João Joaquim Pereira de Lago, Commandante do 1.º Regimento de Infanteria e da columna em Casavalle, marchou com o intento de bater as partidas inimigas que costumavão fazer a descoberta, empreza esta da qual lhe resultou grande credito pela habilidade com que a desempenhou com bastante damno para o inimigo em feridos e tres prisioneiros que se lhe fizerão.

[24.8.1823]
«Na noite de 24 do mesmo mez o Capitão do Corpo de Milicias do Pando D. Thomas Burgueño bateo denodadamente no passo do Carrasco huma partida inimiga, aprisionando-lhe o Official Commandante e 3 Soldados, e protegendo ao mesmo tempo huma porção de gado a que se oppunha o inimigo.

[6.9/17.9/27.9.1823]
«Nos 6, 17, e 27 de Setembro o Tenente Coronel Jeronymo Pereira de Vasconcellos, Commandante do 2.º Regimento de Infanteria e da columna em Casavalle, verificou differentes movimentos sobre o inimigo, fazendolhes nos mesmos dias vários prisioneiros, sem perda alguma da nossa parte.

São elogiados por estas operações o Capitão Manoel Jeronymo Pinto, do 2.º Regimento de Infanteria, o Tenente D. José Vidal, do Corpo de Milicias de Canelones, e D. Santiago Aleman (?) ào mesmo Corpo. He digno de louvor o intrépido procedimento dos Commandantes dos navios de guerra denominados a Restauradora, (Corveta) e D. Maria Thereza (Escuna), isto he, do 1.° Tenente de Marinha José Maria de Sousa Soares, e do 2.º Tenente Procopio Lourenço d'Andrade, os quaes avistando a 10 de Setembro a Corveta Liberal, com bandeira do Governo do Rio de Janeiro (superior em forças aos dois mencionados vasos), fundeada na ponta de Carretas, á vista de Montam, a acommeterão com tal valor que só lhe derão trapo para picar a amarra, e fugir vergonhosamente.
O Commandante das forças louva com muita particularidade o comportamento do 1.º Tenente José Maria Soares, que commandava em geral, e que aproveitando-se do andar da sua embarcação logo deo caça á dita Corveta inimiga até ao Pão de Assucar, onde, apezar de se achar a mui larga distancia da Escuna D. Maria Thereza, a corveta inimiga não se atreveo a offerecer-lhe acção. Os Officiaes e equipagens destas duas embarcações mostrarão nesta ocasião o maior zelo e enthusiasmo por sustentar a honra da Bandeira Portugueza , ea sua lealdade a El-Rei. Esta vantagem briosamente adquirida pelo Primeiro Tenente da Armada, José Maria de Sousa Soares, foi precursora de outra de maior importância e maior renome. Tendo-lhe ordenado o Commandante das Forças, que com os Navios de guerra debaixo do seu commando se fizésse de vela, e atacasse os Navios inimigos que fazião o bloqueio de Montevideo, verificou-se o ataque no dia 21 de Outubro á vista dos habitantes da Cidade, e de grande número de estrangeiros nella residentes. Não obstante os vasos inimigos serem 6, e os nossos só 4, tendo os primeiros a seu favor o barlavento, travou-se o combate com denodo e crédito das nossas armas: os vasos inimigos perdendo grande parte das amarras, fizerão-se de vela com a maior precipitação.

«Não deixaremos em ingrato silencio os nomes de muitos Officiaes que nesta acção se fizerão distinctos. Além do Commandante Geral assignalárão-se pelo seu valor os commandantes da Corveta Restauradora , do Brigue Fausto, e Escuna D. Maria Thereza; os segundos Tenentes João Caetano de Bulhões Leotte, Procopio Lourenço de Andrade, e Pedro António da Silva os Pilotos das differentes embarcações também se distinguirão pela sua actividade no desempenho dos seus deveres. Desempenharão perfeitamente o conceito adquirido os destacamentos que levavão o seu bordo da Divisão de V. R. El-Rei, Brigada Real da Marinha, e dos Batalhões de Libertos.
O Commandante geral das embarcações de Guerra o 1.º Tenente da Armada Real José Maria de Sousa Soares, faz particular menção do serviço que fes nesta occasião o 2.° Tenente Procopio Lourenço de Andrade, Commandante do Brigue Fausto, que por falta do Alferes António Lourenço Marques Silva, cuja morte foi muito sentida, e pelos inconvenientes que tiverão o Piloto e Escrivão, ficou só attendendo a tudo, è mostrou pela sua conducta que era mui digno do posto que occupava. Merecerão igualmente distincta menção o Major José Joaquim Pacheco , o Alferes Luiz Xavier Valente, ambos do 1.º Regimento de Infanteria, o Tenente Ajudante do 2.º José Joaquim do Amaral, Officiaes a bordo do navio Conde dos Arcos, e o Alferes Francisco António de Carvalho do 2.º Batalhão de Libertos, Commandante de Infanteria abordo da Escuna D. Maria Thereza.

[22.11.1823]
«A 22 de Novembro o Commandante das forças lhes annunciou a conclusão de huma convenção conciliatória, terminando-se deste modo as hostilidades entre as forças mencionadas, e as do Brazil.

«Em fim a excellente disciplina, a lealdade e o valor destas tropas he o thema geral dos louvores de todas as ordens do dia. Ellas mostrarão-se fieis ao seu Rei e á Pátria, e superiores á seducção e a todas as necessidades. Seus Concidadãos os esperão com os braços abertos, e durável será a lembrança da honra com que se portou a pequena mas briosa Divisão Portuguesa de Montevideo em circunstancias de particular apuro.»

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Fonte
- Gazeta de Lisboa, n.º 144, 19.6.1824 - pp. 679-681

29/07/2019

Memória sobre a dificuldade de fazer guerra em país cortado de rios e canais como no Rio da Prata (Francisco Maximiliano de Sousa, 1816)


Entre os papeis da coleção da família Araújo de Azevedo, que se encontram no Arquivo Distrital de Braga, encontra-se uma interessante memória do então capitão de mar e guerra  Francisco Maximiliano de Sousa. Enviada decerto ao secretário de Estado D. António de Araújo de Azevedo (1.º conde da Barca, 1754-1817), o oficial apresenta algumas sugestões acerca da melhor forma da Divisão de Voluntários Reais atuar no teatro do Rio da Prata, “em hum paiz cortado de rios”, sem o auxílio da marinha e um tipo específico de embarcação para o efeito.

Para lá do interesse técnico e táctico que o texto suscita sobre o momento histórico de 1816 e a iminente campanha portuguesa sobre a Banda Oriental, Maximiliano de Sousa refere também expressamente uma apresentação que o almirante Sidney Smith (1764-1840) fez no Rio de Janeiro em 1809 e num exercício que decorreu a 5 de Junho de 1809 na baía de Botafogo, com a presença do príncipe regente D. João, demonstando o uso e benefício das embarcações sugeridas.

Apesar do documento estar datado de 1810 (por causa de uma marca de água desse ano), é óbvio que o mesmo é de 1816, nomeadamente pela nomeação expressa da “Divizão de Voluntarios Reais de El Rey”, no primeiro parágrafo, nome pelo qual a grande unidade só passou a ter a 13 de Maio de 1816. Antes era “do Príncipe”, e ainda assim apenas desde Maio de 1815.

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Memória sobre a dificuldade de fazer guerra em país cortado de rios e canais sem auxílio de forças marítimas como nas margens do Rio da Prata, por Francisco Maximiliano de Sousa

A extrema dificuldade, ou para melhor dizer, a impossibilidade de fazer a guerra com vantagens em hum paiz cortado de rios, ou canais, sem hum auxilio de forças maritimas; me fiz lembrar algumas observaçoens aplicaveis á Divizão de Voluntarios Reais de El Rey no cazo de obrar activamente nas margens do Rio da Prata.

O pouco fundo do rio da Prata de Monte Vidéo para cima não premitindo ser navegavel a Navios de grande pórte; tórna se extremamente arriscado e dificil, pella sua largura, a passagem nos braços do Paraguai, sem hum poderosos auxilio maritimo: e como pellas razoens assima elle não pode sêr senão de embarcaçoens que não demandem mais de 3 athé 4 brassas, aprezenta-se logo a dificuldade de embarcaçoens miudas tanto para o embarque na margem Oriental, como para o dezembarque na Occidental, pois navios d'aquelle lote não podem conter Barcas chatas, ou grandes lanchas.

Para remediar este embaraço, e a despeza que cauzaria a construcção de embarcaçoens proprias para hum transporte, em huma estenção de nove a 10 legoas largura do paraguai entre Colonia do Sacramento e Barragan, lugar mui proprio para o desembarque na margem Occidental, me lembrei das canôas com Plataformas como aqui aprezentou o Almirante Britanico Sir Sidney Smith em 1809, e cujo serviço e rapidêz de movimentos prezenciou S. Mag. El-Rey Nosso Senhor a 5 de Junho do ditto anno na Bahia do Botafogo.

Hé esta maquina ou jangada (fig. 1.ª) composta de duas canôas de mediana grandeza, sôbre as quais se situa hum estrado ou platafórma segura as Canôas, por meio de cabos passados em arganéos dados no fundo d'estas, e olhais dados nos extremos dos barrotes, em que assentão as táboas, que formão a Plataforma (fig. 2).

Em hum e outro extremo d'esta Plataforma á hum estrado unido a ella por gonzos (fig. 3) para o embarque, e dezembarque, de Artilharia, Carros de Campanha, e cavalos. As Canôas se lhe poem hũa sobre-quilha, em que se dão os argonéos (fig. 2) e são bancadas para remadores; havendo vento poem-se mastros na Canôa de barlavento, sendo á bolina, e sendo largo ou á poupa em ambas (fig. 4) as Plataformas podem ser entrincheiradas pellos lados com os bailéos dos Navios; em ambos os extremos as canôas tem ferrage para lémes, cujas canas são unidas nas extremidades por hũa barra para o uniforme movimento d'ambos. Estas embarcaçoens compostas são de hu~a conhecida vantagem na passagem de Rios, mormente de pouco fundo, e em dezembarque de tropas, pois a si mesmas se protegem, d'ellas se fáz fôgo com muita facilidade e certeza pois tem immensa estabilidade e mesmo á vella nenhuma // inclinação por cauza do apoio da Canôa de sotavento. Sendo por qualquer cazo neseçaria a retirada, não precizão virár pois são proas ambos os lados. Eu vi, no exercicio em que assima falei, as Canôas fazerem mui rapidamente diversos attaques, e retiradas, embarcarem, e desembarcarem com muita facilidade duas pessas de ferro de calibre 6, pessas e reparos de marinha muito mais pezados que os de Campanha; a estas conhecidas vantagens junta-se a facilidade do transporte, hũa Corvêta do lóte do Voador, ou Calypso, navios muito proprios para o serviço do Rio da Prata, pode sem embaraço levar 8 ou 10 Canôas, os estrados, ou Plataformas, sendo feitos de cavilhas com pórcas, se desarmão, e armão em hũ momento, e ocupão muito pouco lugar: temos por tanto cada corveta, ou navio semilhante com 4 ou 5 embarcaçoens que cada hũa leva bem 40 homens e 2 pessas de Artilharia com hua das quais protege o seu desembarque e com a outra cobre a sua retaguarda: // Quais são as embarcaçoens miudas que apprezentão estas vantagens? A não serem barcas chatas construidas expressamente para este serviço. A grande facilidade de ter as Canôas em hum Paiz de que ellas são as embarcaçoens ordinarias, a pouca despêza, e facilidade de fazêr os estrados, a comodidade do transporte, e a defêza que aprezentão tanto em attaque como em retirada, me fáz parecêr este methodo muito digno de ser empregado no serviço do Rio da Prata.

Ainda que o serviço mais proprio destas jangadas seja para lugares de pouco fundo, pois que embarcação alguma demanda mênos agoa; não posso deichar de as julgar mui adquadas para as praias em que houvér ressáca, ellas não podem ser envolvidas, e embarcádas pellas vágas, o que muitas vezes succede as embarcaçoens de quilha.

Este methodo pode com muita facilidade ser aperfeiçoado a hum ponto extraordinario // Por exemplo pondo cobertas nas Canôas; então seria nececario que o modo de segurar os barrotes dos estrados ás canôas fosse alterado, isto hé que os olhais fossem sobre a coberta mas sempre seguros para o fundo da canôa; couza muito facil e que as tornava de huma segurança tal que már algum por mais grôço que fosse as poderia  submergir: Augmentando o numero das canôas isto hé 3 em lugar de 2.

Sou com tudo obrigado a dizêr, que nem este methodo, nem algum outro, deverá ser posto em pratica no Rio da Prata, a não ser nos mezes que decorrem do fim de Setembro ao principio de Fevereiro, sem com tudo afirmar sér impossivel fazêlo nos outros mezes bastante tempestuozos n'aquelle Paiz: mas para isso serião neseçarias medidas que o nosso estado de marinha não possue, e que tomalas levaria mais tempo que o comprehendido entre o prezente, e a epocha que aponto.

Francisco Maximiliano de Sousa

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Fonte
PT/UM-ADB/FAM/FAA-AAA/E/004445
Memória sobre a dificuldade de fazer guerra em país cortado de rios e canais sem auxílio de forças marítimas como nas margens do Rio da Prata, por Francisco Maximiano de Sousa. Possui uma prancha com a sugestão dos diferentes tipos de embarcações a utilizar. Data 1810 [datado incorretamente; parece ser de 1816]. 10 pp. não num. [7 pp. + 3 pp. em branco]; 202 x 250 mm.

A transcrição obedece à ortografia original do documento. O documento pode ser visto no sítio do ADB em http://pesquisa.adb.uminho.pt/details?id=1415768 

Imagem
- PT/UM-ADB/FAM/FAA-AAA/E/004445, Arquivo Distrital de Braga

Breves dados biográficos acerca do autor
Francisco Maximiliano de Sousa era guarda marinha em 1790, tendo sido promovido a 1.º tenente em 1795 e, presumivelmente, a capitão tenente no ano seguinte.
Em 1806 era promovido a capitão de fragata, tendo comandando, em finais de 1807, a corveta Voador na transferência da Corte para o Brasil. Não é certo quando obteve a promoção a capitão de Mar e Guerra, mas é graduado em chefe de divisão em finais de 1817.
Posteriormente, serve como secretário de estado da Marinha no governo nomeado pelas Cortes Constituintes em janeiro de 1821 e comanda uma esquadra portuguesa em 1822-23 no âmbito da guerra da independência brasileira.
O seu nome aparece por vezes, e erradamente, como Francisco Maximiano de Sousa.